Jogo de Máscaras

O ministro da Fazenda, Joaquim Levy, disse nesta segunda-feira (30) que não há margem para o país errar porque, se errar, perderá o grau de investimento pelas agências de classificação de risco, que avaliam se um país é ou não um bom pagador de dívidas.

Trecho de artigo publicado no site UOL sobre fala do ministro em evento realizado em São Paulo

A pragmática é uma subárea da linguística e da semiótica que estuda as maneiras pelas quais o contexto contribui para o significado. […] Ao contrário da semântica, que examina o sentido que está convencionado ou “codificado” em uma dada língua, a pragmática estuda como a transmissão do significado depende não somente do conhecimento estrutural e linguístico (por exemplo a gramática, o léxico, etc.) do falante e do ouvinte, mas também do contexto do enunciado, qualquer conhecimento pré-existente e outros fatores. A esse respeito, a pragmática explica como os usuários da língua são capazes de superar a ambiguidade aparente, já que o significado depende da maneira, local e momento do enunciado.

Trecho do verbete sobre Pragmática na enciclopédia eletrônica Wikipedia.

    Prezados leitores, uma morte em minha família fez lembrar-me muito das minhas lições sobre linguística na faculdade. Explico-me. Depois de quase um mês hospedada na UTI, minha mãe faleceu, vítima de problemas no coração. Ao longo desse tempo comi o pão que o diabo amassou, em termos de angústia, de ansiedade, de não saber o que o futuro reservava para ela e para mim, quanto aquela estadia no hospital iria durar. Considero que minha amada progenitora foi uma criatura de sorte, porque teve quatro filhos que se revezaram bem ou mal à beira do seu leito, animando-a, consolando-a, tentando fazê-la rir. Mas à parte nós, nenhum de nossos parentes deu-se ao trabalho de aparecer por lá, nem que fosse para dar uma palavra e ir embora. Esse comportamento indiferente incluiu minha tia, a irmã dela, que tem uma saúde de ferro e que só deu o ar da graça duas vezes, quando sentiu o cheiro da “grande ceifadora” e aproveitou que a casa da nora, a quem estava fazendo visita, era perto do hospital.

     E no entanto, no dia do enterro e no da missa de sétimo dia, perdi a conta das vezes em que ouvi a frase chavão: “Se precisar de qualquer coisa, ligue.” Esse é um exemplo típico do sentido das palavras que depende do contexto do enunciado, tal como ensina a pragmática. Aparentemente, a pessoa está oferecendo ajuda a um amigo que passa por um momento difícil. Considerando o local em que ela é pronunciada, nos momentos de despedida em um cemitério e na igreja, as pessoas que o fazem e a maneira padronizada como todos usam as mesmas palavras, o sentido é exatamente o oposto e pode ser resumido brutalmente nesses termos: “Por favor não me venha com problemas porque eu já tenho os meus e não estou a fim de esquentar a cabeça com os problemas dos outros.”

     Se acham que estou exagerando e estou muito amarga por conta da perda de um ente tão querido, raciocinem comigo. Quem realmente está disposto a ajudar estabelece as condições em que pode fazê-lo e o que concretamente está a seu alcance. Mais, a pessoa não oferece a ajuda ao despedir-se ao final de um evento, mas toma a iniciativa de procurar o indivíduo necessitado para colocar-lhe seus préstimos à disposição. Enfim esse tal de “se precisar de qualquer coisa ligue”, é um tremendo de um embuste cujo objetivo é afagar o ego do falante, que se sente um bom amigo, e enganar os mais incautos, que ficarão a ver navios esperando por uma ajuda que nunca virá, pois afinal o ser que precisa de ajuda precisa vencer a barreira de pegar o telefone e lembrar da vaga promessa feita anteriormente.

     O mesmo pode ser dito de outro chavão tão ao gosto de nós brasileiros, o “passa lá em casa”. O sentido é exatamente o oposto: “ Adeus, PT saudações.” Quem diz para você passar em casa e não marca horário, dia e local do encontro, está simplesmente querendo finalizar a conversação que já se estendeu por um tempo suficiente. Tal sentença deixa os gringos particularmente atordoados pela falta de objetividade, dando a impressão de uma amizade que simplesmente não existe em termos concretos, fazendo parte do nosso arsenal tupiniquim de jovialidade superficial quefaz nossa fama pelo mundo afora. Para nós isso é motivo de orgulho, porque mostra que não somos preconceituosos, nem racistas, que nos damos bem com todo mundo e que todo mundo é bem recebido aqui, mesmo que seja só na teoria.

     Enfim, o que há de se fazer?Como diz o historiador e diplomata Evaldo Cabral de Melo em uma entrevista para Ancelmo Góis no jornal O Globo de 29 de março, “o brasileiro é um povo muito emotivo”, o que é “chato e interfere na formação do país”. Falamos coisas bonitas às pessoas sem avaliarmos se poderemos corresponder às expectativas, apenas fiando no desejo de que o conteúdo das palavras concretize-se pela simples força das nossas emoções. Mesmo aqueles que podem ser considerados mais racionais, que fazem uma análise serena da realidade caem nessa digamos arapuca cultural. É assim que vejo a fala do Ministro da Fazenda, Joaquim Levy, de que se o país não fizer o ajuste fiscal correto, ele perderá o grau de investimento. Para mim, ele quer dizer exatamente o oposto e vou tentar convencer-lhes com alguns fatos.

     Em primeiro lugar, de acordo com informações do jornal o Estado de São Paulo de 29 de março, dos 66 bilhões de reais estabelecidos como meta para melhorar as contas públicas, 45 bilhões virão do bolso dos brasileiros, o equivalente a 85%, e somente 7 bilhões virão de cortes na máquina do governo. Isso significa que o ajuste fiscal virá pelo aumento de impostos, que causará aumento de preços, inflação, estagnação econômica e desemprego. Como pode o excelentíssimo ministro dizer que tal ajuste é correto se vai causar tantos estragos? Para Marcos Lisboa, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, em entrevista ao mesmo jornal, “o Brasil corre o risco de viver anos de baixo crescimento econômico”. Em suma, uma reedição da famigerada década perdida de 80. Em segundo lugar, o bjetivo desse aperto no setor privado é o de atingir o superávit primário e ter dinheiro excedente para pagar os juros da dívida. Assim o tal do grau de investimento simplesmente significa dizer que faremos sacrifícios enormes para que possamos continuar na mão de especuladores que rolarão nossa dívida. Por tudo isso, a conclamação do senhor Levy para que nós brasileiros façamos a coisa certa para nos salvarmos, quer dizer facemos a coisa errada para que enfiemos de vez o pé na jaca e passemos 10 anos em estagflação.

     Prezados leitores, nossa formação cultural nos leva a participarmos de um jogo de máscaras. Fingimos mutuamente que somos solidários, que somos generosos, e nossas autoridades apelam de maneira dramática ao nosso senso do dever de cidadãos para apertarmos os cintos de modo que a ciranda financeira possa continuar girando. Tenho escutado essas lamúrias desde quando o finado Dilson Funaro apelava ao nosso patriotismo para nos tungar com um empréstimo compulsório sobre combustíveis e nos incitava a vigiar os preços nos supermercados. Oxalá um dia cheguemos a ser um pouco mais objetivos e menos emotivos para que possamos fazer mais e deixar de sonhar com quimeras tanto individual quanto coletivamente.

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A Salvação da Lavoura

Nenhum governo permaneceria por um instante sequer se pudesse ser derrubado por algo tão solto e indefinido como um julgamento de ‘má conduta’. Aqueles que lideraram a Revolução não respaldaram a abdicação do Rei Jaime em um princípio tão leviano e incerto, eles o acusaram com nada menos do que a intenção, confirmada por uma série de atos abertamente ilícitos, de subverter a igreja protestante e o estado, e suas leis e liberdades fundamentais e inquestionáveis: eles o acusaram de ter violado o contrato original entre o rei e o povo. Isso era mais do que má conduta. Uma necessidade grave e imperiosa os obrigou a tomar a medida que tomaram, e o fizeram com extrema relutância, de acordo com a mais rigorosa de todas as leis.

Trecho retirado do livro “Reflexões sobre a Revolução na França”, de Edmund Burke (1729-1797), em que o autor compara a Revolução Gloriosa na Inglaterra com a Revolução Francesa

São crimes de responsabilidade os atos do Presidente da República que atentem contra a Constituição federal e, especialmente contra:

[…]

II – o livre exercício do Poder Legislativo, do Poder Judiciário, do Ministério Público e dos Poderes constitucionais das unidades da Federação;

[…]

V – a probidade na administração

Trecho do artigo 85 da Constituição Federal do Brasil

     Prezados leitores, retomo o tema do Fora Dilma da semana passada porque tudo indica que está se formando um consenso no Brasil, ou pelo menos em uma parte dele, de que Dona Dilma é uma bananeira que já deu cacho, ou para ser mais sofisticado, estamos no período de ocaso da presidente, como definiu a Veja, uma de suas mais ferozes inimigas. A revista apresenta os fatos que corroboram tal tese: seis em cada dez brasileiros consideram o atual governo ruim ou péssimo, mais de um milhão de pessoas foi às ruas em São Paulo protestar, nas maiores manifestações desde as Diretas Já, para não falar do bafafá com o Ministro da Educação, Cid Gomes, que acusou os congressistas de serem achacadores e teve que enfiar o rabo entre as pernas e pedir para sair. A revista louva a liderança de Eduardo Cunha, que está fazendo com que o Parlamento retome a iniciativa perdida há décadas para o Executivo. Por fim, Gustavo Ioschpe, conclama a presidente a mostrar espírito público e renunciar.

    Sem dúvida, para aqueles que querem preservar as aparências, ou as instituições, como dizem, a renúncia seria o ideal. Os que querem ver Dilma pelas costas não poderiam ser acusados de golpistas e os trâmites democráticos seriam preservados, com Michel Temer, o Vice-Presidente, assumindo o cargo. Dois coelhos seriam mortos com uma cajadada só: poder-se-ia dizer que a democracia saía fortalecida, pois tudo teria sido feito de acordo com a lei, e melhor, as chances de Lula voltar ao poder seriam diminuídas porque seu partido estaria maculado pelo estigma de ser o partido da presidente que renunciou para não sofrer impeachment. Mas é difícil acreditar que a senhora Rousseff vá ser assim tão abnegada. A questão da presidente fora ou dentro é em última análise uma luta de facções rivais, em que as manifestações populares são ferramentas para enfraquecer a presidente, muito mais do que para renovar o modo de fazer política no Brasil. O toma lá dá cá continuará imperando entre os donos do poder, o que muda é o preço das transações.

     Caso os nossos congressistas decidam não mais fazer negócios com Dona Dilma, ou por acharem que ela não tem mais nada a oferecer, ou porque algum outro lhes oferecerá coisa melhor, o próximo passo será o processo de impeachment. Estaremos então no estágio em que o governo do PT terá se transformado em uma imensa canoa furada, e todos quererão saltar a tempo de não morrerem afogados no mar de lama da Operação Lava-Jato. O impeachment está previsto em nossa Constituição, como descrito na introdução deste artigo, e já fizemos uso dele em 1992 contra Fernando Collor de Mello e seu FIAT Elba, comprado com cheque frio. O artigo 85 relaciona sete hipóteses, mas não vou deter-me sobre todas elas, pois não são relevantes para o meu argumento, apenas sobre os incisos II e V.

     O inciso II parece ser o caso clássico defendido por Edmund Burke, o político e pensador irlandês para quem mudanças só eram bem-vindas quando preservassem os direitos que os cidadãos haviam conquistado. Para ele derrubar um governo deveria ser medida excepcional, a ser usada com muita cautela somente quando a confiança mútua entre governantes e governados fosse quebrada irremediavelmente, quando as cláusulas do contrato fossem violadas. Nesse sentido, atitudes do chefe do Executivo que prejudicassem o exercício dos outros Poderes feririam de morte a ideia de separação dos Poderes, que é pedra de toque do nosso regime político. Não me parece ser possível enquadrar Dilma nesse inciso, porque nada indica que ela tenha tentado atrapalhar a atuação do Ministério Público na persecução criminal dos acusados na Operação Lava Jato ou a atuação da Justiça Federal que mandou prender vários dos acusados do Petrolão. E quanto à Polícia Federal, responsável pelas investigações iniciais e subordinada ao Ministério da Justiça, ela foi até elogiada pelos manifestantes de 15 de março, que teceram loas aos delegados patriotas.

      É muito mais fácil enquadrá-la no inciso V da improbidade administrativa, em que caímos no terreno pantanoso da má conduta definida como Burke como base muito tênue para mandar um governante catar coquinhos na praia. De fato, improbidade administrativa, de acordo com a lei 8.429 de 1992, pode ser muita coisa: o artigo nove da lei relaciona doze hipóteses de atos de improbidade, o artigo dez relaciona quinze hipóteses, o artigo onze relaciona sete hipóteses. Improbidade pode significar roubar ou deixar roubar, ou mesmo não saber que estão roubando, mas ser incompetente o suficiente para não perceber que as maracutaias estão rolando soltas (o que em juridiquês significa omissão culposa). Não é difícil classificar a atuação de Dona Dilma na qualidade de membro do Conselho de Administração da Petrobrás quando da compra da refinaria de Pasadena como negligente. Alguns dirão que isso são águas passadas, já que ela ainda não era presidente. Mas se Maria das Graças Foster for implicada em algum dos esquemas de suborno na estatal, aquela que a escolheu como presidente da Petrobrás poderá ser acusada de má conduta pelo fato de que a ação de nomear a engenheira a presidente da maior empresa brasileira levou à perda patrimonial. Para não falar do dinheiro de propinas utilizado na campanha do PT para a presidência.

     Enfim, há argumentos de sobra para cassar o mandato de Dilma por improbidade administrativa. Mas, valendo-me das lições dos que buscavam conservar as instituições, como Burke, acho que isso seria um erro. Se queremos nos livrar de governos incompetentes e corruptos de maneira rápida, então o melhor a fazer é convocarmos um referendo e estabelecermos o parlamentarismo e o instituto do voto de confiança. No nosso atual regime presidencialista, aplicar o instituto do impeachment ao presidente por improbidade administrativa é simplesmente corroborar o papel menor do Parlamento brasileiro como grande chantagista que tem enormes poderes de destruição e sabe usá-los quando convém aos interesses de seus membros, mas que se abstém de usar seus poderes de construção, na forma de elaboração de leis, porque se omite e não quer assumir responsabilidades.

    Prezados leitores, Veja em sua carta ao leitor de 25 de março diz “Fora das Instituições não há salvação”. Pois eu humildemente digo: se queremos preservar nossas frágeis instituições, a única salvação é institucionalizar o toma lá dá cá, torná-lo parte da formação do governo e não fingir que ele não existe como certos congressistas têm feito e depois indignarem-se quando alguém fala a verdade. Para mim a salvação da lavoura brasileira passa pelo parlamentarismo já.

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Cachorros Magros

Quando o escritor do século II Pausânias visitou o grande santuário de Olímpia ele observou 69 antigas estátuas de bronze dos vitoriosos nos Jogos Olímpicos do século V a.C. Eles teriam sido monumentos de grande qualidade de autoria de grandes escultores. Em que pese 13 das suas bases terem sido encontradas, nenhum outro traço das esculturas existe. O enciclopedista romano Plínio, o Velho, que dedicou o Livro 34 da sua História Natural ao bronze, relata que havia 3.000 bronzes gregos em Rhodes, e um número semelhante em Atenas, Olímpia e Delfos. […]No total, menos de 30 estátuas em bronze em larga escala e substancialmente intactas sobreviveram da Grécia clássica e helenística.
Retirado do artigo “Legados de Perdas” de Peter Stewart, diretor do Centro de Pesquisas em Arte Clássica da Universidade de Oxford.

Em 3 de julho de 1979, a Casa Branca autorizou secretamente que fosse fornecido apoio a grupos tribais “fundamentalistas” conhecidos como mujaheddin, um programa cuja verba aumentou para mais de $ 500 milhões por ano na forma de armas americanas e outros tipos de assistência. O objetivo era a derrubada do primeiro governo reformista e secular do Afeganistão. Em agosto de 1979, a embaixada dos Estados Unidos em Cabul relatou que os interesses maiores dos Estados Unidos … seriam servidos pela queda do governo do Partido Democrático Popular do Afeganistão, a despeito de quaisquer dificuldades que isso pudesse significar para as futuras reformas econômicas e sociais no Afeganistão. […] Os mujaheddin deram origem à al-Qaeda e ao Estado Islâmico.


Retirado do artigo “Por que a ascensão do fascismo é de novo uma questão premente”, publicado pelo jornalista australiano John Richard Pilger

       Prezados leitores, nesta segunda-feira os apreciadores de arte puderam respirar aliviados depois da fala do diretor de um museu de Bagdá, que garantiu que as estátuas destruídas em um museu em Mosul, no norte do Iraque, eram cópias de gesso dos originais. Mais uma peça pregada pelos extremistas do Estado Islâmico, que pretendem redesenhar o mapa do Oriente Médio. Ainda que essa notícia seja verdade, e não temos no momento como saber, o fato é que todos os distúrbios que vêm ocorrendo na região desde a invasão do Iraque pelos americanos no início do século XXI têm causado imensas perdas ao rico patrimônio cultural da região.

       O Museu Nacional do Iraque foi saqueado em 2003, e foi só depois do ocorrido que os americanos decidiram colocar um tanque para protegê-lo. Os sítios arqueológicos de Ur e da Babilônia foram usados como base militar pelas tropas da coalisão de países ocidentais que invadiram o país naquele ano. Em 2001 os Budas de Bamiyan, esculpidos entre 507 e 554 d.C. no centro do Afeganistão, foram dinamitados a mando do Talibã. Alguns acusar-me-ão de ser injusta com os americanos, pois isso ocorreu antes de sua presença massiva na região. Não podemos esquecer no entanto, que pelas razões retiradas do artigo de John Pilger, o Talibã conquistou o poder no Afeganistão com a ajuda do governo dos Estados Unidos, como uma maneira de solapar a influência soviética no país. A guerra civil na Síria causa estragos consideráveis em Aleppo, cidade ocupada desde o sexto milênio a.C. e cujo centro histórico é patrimônio cultural da humanidade. Os Estados Unidos estão envolvidos nessa guerra por apoiar os rebeldes que querem derrubar o governo de Bashar al-Assad. Na Líbia a deposição realizada com apoio material de europeus e americanos de Muammar Gaddafi, que antes de morrer foi sodomizado publicamente, também causou estragos no patrimônio histórico do país e por sorte o forte romano de Ras Almargeb não foi atingido por ataques da OTAN.

       Mesmo que muitas das imagens que vemos de estátuas sendo quebradas sejam factóides do Estado islâmico para chocar os ocidentais, não há dúvida que os membros passarão nos cobres como dizemos aqui muito do que encontrarem em museus para arrecadarem dinheiro para suas conquistas militares. Aquilo que era público e acessível à população do local ficará nas mãos de colecionadores ao redor do mundo. E o pior é que, mesmo desconsiderando o dedo dos ocidentais na barafunda que o Oriente Médio transformou-se neste século, não podemos considerarmo-nos guardiões fiéis do patrimônio cultural da humanidade. As obras primas de Fídias, Míron, Policleitos, Lisipo e Praxíteles para citar os principais escultores gregos, perdeu-se irremediavelmente nas guerras e na destruição das estátuas para aproveitamento do material. Espanhóis quando subjugaram as populações indígenas do que seria a América Latina destruíram templos e usaram as pedras para erigir igrejas. Um mínimo de perspectiva histórica mostrará a nós, que nos horrorizamos com quebradores de estátuas barbudos, que os ocidentais já fizeram isso antes e atualmente contribuem indiretamente para que outros o façam.

      Prezados leitores, esse meu introito sobre a destruição do patrimônio artístico mundial serve para que eu aborde o assunto do momento no Brasil, as manifestações que reuniram milhares de pessoas em várias cidades brasileiras no dia 15 de março. Assim como recuso-me a atirar pedras nos fanáticos do Estado Islâmico, recuso-me a juntar-me ao coro do fora Dilma. Não estou aqui a dizer que uns e outros sejam íntegros e retos e sejam simples vítimas do imperialismo americano ou do golpismo de reacionários. Só acho que como dizemos coloquialmente, o buraco é mais embaixo.

     Não votei em Dilma porque não sou beneficiada por nenhuma das políticas do PT, Minha Casa Minha Vida, FIES, Bolsa Família, e sou prejudicada pela incompetência do governo na gestão da Petrobrás, da oferta de energia elétrica e das contas públicas. Mas daí a dizer que tirando-a do poder estaremos melhor é altamente duvidoso. Dilma fora não irá mudar em nada nosso presidencialismo de coalizão em que o Presidente fica com todas as responsabilidades e o Congresso fica com todas as armas para fazer chantagens. Não irá mudar a composição do Parlamento, distorcida pela sub-representação dos Estados mais populosos. E principalmente não mudará as opções erradas que fizemos em termos de subordinação dos interesses do capital produtivo aos interesses do capital financeiro. E quanto à diminuição da corrupção, isso só será conseguido se o Judiciário trabalhar sério, sem estrelismos, como temos visto ultimamente, e se cada brasileiro negar-se a corromper e deixar-se corromper.

     Querem transformar a presidente da República em cachorro magro, em que damos uns pontapés, quebramos ao meio ou implodimos como estátuas. Para alguns esses feitos bombásticos têm o condão de fundar uma nova era de paz e prosperidade, livre dos vícios do passado. Cristãos e islâmicos prometerem isso ao longo da história e o resultado foi a perda de riquezas culturais incalculáveis, tanto na Europa quanto nas Américas. Espero que nós brasileiros não estejamos adentrando essa seara tão inútil e tão covarde de perseguir cachorros magros.

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Mitos

     Ninguém explica a grandeza, o que se faz é tentar chegar a um acordo com ela.

     Robert Bresson, cineasta francês (1901-1999), diretor do filme Procès de Jeanne D’Arc de 1962

     Prezados leitores, na semana passada eu reclamei dos tempos modernos, do tudo por dinheiro, e confessei que me refugio em outras eras em que o espírito era a medida de todas as coisas. Utilizei o adjetivo mítico, porque na verdade seria muita ingenuidade acreditar que haja tempos históricos em que o poder não tenha sido a medida das coisas. A diferença é que o poder hoje é medido exclusivamente pelo dinheiro e antes que o capitalismo fosse alçado à condição de sistema econômico dominante, no Ocidente havia outras instâncias de poder, como a Igreja Católica.

     Hoje a pobre Igreja Católica é atacada de todos os lados, pelos evangélicos, pelos ateus, pelos agnósticos, pelos zens, pelos neobudistas e tantos outros que não mais querem pautar-se pela moral cristã. É senso comum que a Igreja Católica encontra-se desatualizada em relação aos direitos dos gays, à emancipação feminina, aos novos arranjos familiares. Mas não podemos nos esquecer do tempo em que a Igreja ungia reis e imperadores e excomungava aqueles que literalmente não rezavam pela sua cartilha. É desse tempo que que quero falar, em que a religião era onipresente na vida dos ocidentais. Eu chamo esse tempo de mítico não tanto pelo fato de ser perfeito, mas pelo fato de ser tão distante do nosso em termos de valores que ele parece irreal.

     Vou falar desse tempo não com a pretensão de ser uma historiadora, mas como uma pessoa que admira um personagem que personifica esta ideia de que o espírito é a medida de todas as coisas. Falo de Joana D’Arc (1412?-1431), camponesa nascida na região da Lorena na atual França, país então envolvido na Guerra dos Cem Anos com a Inglaterra. Aos 13 anos, ela já mostrava sinais de uma intensa devoção religiosa e começa a ouvir vozes que diziam a ela ir à França e libertar a cidade de Orleans, então cercada pelos ingleses. Ao redor dos 19 ou 20 anos ela foi atrás do rei Carlos VII em Chinon em março de 1429 e lá disse certas coisas ao soberano ainda não coroado, que tinha a fama ingrata de ser bastardo, que o convenceram de que ela tinha uma missão especial. Nunca saberemos o que ela disse a ele, pois jamais conseguiram retirar dela este segredo. A filha de Jacques D’Arc e Isabelle Romée ainda passou por verificação de virgindade e foi questionada por prelados da Igreja a respeito de sua fé católica.

     Tendo sido aprovada, o rei providenciou-lhe armadura, cavalo e um pequeno exército e lá foi a Virgem juramentada levantar o cerco à cidade de Orleans como ela havia prometido, e posteriormente levar Charfles para ser coroado em Reims em 17 de julho de 1429, após várias vitórias militares ao longo do caminho. Mas a partir deste episódio, que marca o ápice da carreira de Joana, começam as vicissitudes. A Virgem de Orleans queria continuar os esforços bélicos para expulsar os ingleses de vez, mas Charles VII era um grande poltrão e em vez de aproveitar o momento e continuar o ataque, quis descansar e negociar uma trégua com os ingleses, que aproveitaram a deixa para reorganizarem-se e partirem para a ofensiva. A grande vítima dessa virada foi Joana, capturada em maio de 1430 em Compiègne e vendida por 10.000 francos aos ingleses que a acusavam de ser uma “putain” e uma bruxa.

      Perdoem-me tantos detalhes leitores, mas são necessários para contextualizar o julgamento por um tribunal da Inquisição da camponesa analfabeta de Domremy, que havia aprendido a escrever seu nome durante sua fulgurante carreira militar. O inquisidor-chefe era Pierre Couchon, bispo de Beauvais, jurista, doutor em direito civil e direito canônico, assistido pelos mestres vindos da Universidade de Paris, que apoiava a causa inglesa. Pois bem, apesar desta discrepância de saberes, o fascinante deste processo, devidamente documentado por notários que tomaram os depoimentos das testemunhas e da própria acusada, é que Joana mostrou um maravilhoso bom senso, evitando todas as armadilhas filósoficas em que o ladino Couchon e seus asseclas quiseram pegá-la para poder acusá-la de herética. Vou dar-lhes dois exemplos, retirados do livro escrito pela historiadora francesa Régine Pernoud entitulado “ Jeanne D’Arc, par elle-même et par ses témoins” e traduzidos livremente por mim:

     Jean Beupère: Você sabe se está ungida da graça divina ?

     Joana D’ Arc: Se não estou, que Deus abençoe-me com sua graça, e se eu estou, que Deus me preserve assim. Eu seria a pessoa mais sofredora do mundo se eu soubesse não estar abençoada com a graça divina.

     Jean de La Fontaine: Deus odeia os ingleses?

     Joana D’ Arc: Sobre o amor ou o ódio que Deus tem pelos ingleses e sobre aquilo que ele faz à alma deles eu não sei nada; mas sei bem que eles serão expulsos da França, exceto aqueles que aqui morrerão, e que Deus dará a vitória aos franceses contra os ingleses (nota minha: ela disse que essa vitória ocorreria em menos de 7 anos e ela estava corretíssima)

      Pierre Couchon: Você jurará dizer a verdade sobre aquilo que lhe será perguntado a respeito de questões de fé das quais você saiba?

      Joana D’ Arc: Sobre o meu pai, minha mãe e tudo aquilo que eu fiz depois que cheguei à França, eu jurarei de bom grado, mas as revelações feitas a mim por Deus, não as falei sobre elas a ninguém e não as relatei a ninguém, a não ser a Charles, meu rei, e não as divulgarei mesmo que cortem minha cabeça. Isso vem das minhas visões e do meu conselheiro secreto, de não as revelar a ninguém. Nos próximos oito dias eu sabereu se devo divulgá-las.

      Além de não falar nada de absurdo, como pode-se observar nos exemplos acima, Joana ainda mostrava uma insolência que desconcertava os inquisidores:

      Pierre Couchon: Como estava São Miguel quando ele apareceu para você?

      Joana: Não o vi de coroa; e não sei nada das vestimentas dele.

      Pierre Couchon: Ele estava nu?

      Joana D’ Arc: Você acha que Deus não teria com que vesti-lo?

      Pierre Couchon: Ele tinha cabelos?

      Joana D’ Arc: Por que o cabelo haveria de ter sido cortado?

      Prezados leitores, tais respostas, cheias de prudência e sabedoria, mostram como é difícil explicar a trajetória de Joana simplesmente dizendo que ela era esquizofrênica porque tinha alucinações. Uma esquizofrência não teria discutido de igual para igual conceitos difíceis sobre o que é a verdade e sobre os desígnios de Deus como ela fez. Achar uma chave de explicação para um personagem tão complexo é algo inútil, mas de qualquer forma o mito é sempre apropriado em nome de algum interesse. Joana D’Arc, queimada viva em Rouen em 30 de maio de 1431 depois de ter sido condenada por Couchon simplesmente por vestir roupas masculinas, foi canonizada pela Igreja Católica em 1920. O partido de Marine Le Pen, Front National, comemora todos os anos a santa guerreira como símbolo da França profunda, da França que eles consideram autêntica, livre dos muçulmanos. A minha Joana é simplesmente uma mulher inteligente, obstinada e embuída de uma fé inabalável em sua missão, tão inabalável que morreu ardendo em chamas gritando o nome de Jesus. Em última análise cada indivíduo escolhe o quer de um mito. Façam vocês suas próprias escolhas se o personagem lhes interessar.

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Tudo por Dinheiro

O capitalismo transforma tudo em commodities que podem ser vendidas e compradas

Karl Marx, filósofo e economista alemão (1818-1883)

         Prezados leitores, desculpem-me se repito uma citação do velho barbudo, mas não consigo deixar de pensar nesta frase que já se transformou em clichê, mas que a mim parece não perder a validade. Quando olho ao meu redor e contemplo o espetáculo da nossa política, das nossas relações pessoais e profissionais não posso deixar de chegar à conclusão de que a medida de todas as coisas é o dinheiro. Não quero com isso dar-me ares de superioridade moral, afinal eu vivo na sociedade capitalista e conscientemente ou inconscientemente compartilho os mesmos valores, em maior ou menor grau. Vou dar-lhes um exemplo comezinho: minha professora de ginástica julga os homens com os quais suas amigas casaram ou com os quais têm relacionamento do ponto de vista de “ter ou não bala na agulha”, ou seja terem ou não dinheiro. Quem tem “bala na agulha” é mais confiável, não vai decepcionar, quem não tem provavelmente vai cometer um erro ao longo do caminho, ou vai abandonar a mulher grávida, ou não vai pagar pensão ao filho ou vai ser um pai pouco presente. O pressuposto aqui é que a posse de dinheiro dá à pessoa automaticamente um arsenal de virtudes intrínsecas a este estado de bem-aventurança financeira.

         A política é o ambiente por excelência em que é óbvio a todos os eleitores, independentemente de suas escolhas políticas, que a métrica é exclusivamente pecuniária. Não teríamos este nível de corrupção agora escancarado pela Operação Lava Jato se os nossos políticos não tivessem a convicção de que quem tem mais tem mais valor. Quem tem mais dinheiro organiza campanhas mais poderosas, consegue eleger-se na base dos jingles feitos por publicitários regiamente pagos para oferecerem aos seus contratantes toda a gama de técnicas mercadológicas necessárias para vender o produto em questão. E como negar a verdade factual dessa premissa? Por acaso algum político desconhecido que dispusesse de parcos segundos no horário eleitoral gratuito ou que não fosse uma celebridade na televisãoteria sido eleito? Há alguma chance de uma pessoa expor suas ideias em um blog como eu faço e tentar angariar simpatizantes para sua causa, com base exclusivamente na lucidez das suas propostas? Lembremos que criaturas esdrúxulas como Enéas e Tiririca foram escolhidaspor pessoas que estavam a fim de avacalhar e simpatizaram com o bordão “Meu nome é Enéas”e “Vote em Tiririca, pior que tá não fica!”.

         Poder-se-ia objetar que nesses dois casos o dinheiro não foi determinante para a eleição, o que é verdade,mas o ponto central permanece o mesmo: há uma tal ausência de valores que quando o dinheiro não está diretamente presente, surge um vácuo, preenchido por candidatos que não têm nada a oferecer, além da negação niilista do “tudo por dinheiro” sem que nada seja colocado em seu lugar. Afinal, o que Enéas Ferreira Carneiro, morto em 2007 propôs de novo em termos de fazer política, em termos de projetos, ele que era médico cardiologista e que portanto tinha plenas condições de fazer propostas na área da saúde? Ele esbravejava contra a corrupção de maneira indiscriminada e portanto inútil. Nem falemos de Tiririca, que nem a cruzada da vassourinha que vai varrer a bandalheira tentou, pois seu objetivo é realmente divertir-se e divertir.

        Não podemos esqueceras outras partes interessadas no balcão de negócios, as empresas que compram favores de políticos, na forma de contratos, concessões e outras benesses e os funcionários de estatais que os vendem a preço de ouro. A referência é sempre o dinheiro. Os políticos precisam de dinheiro para reeleger-se, as empresas precisam encontrar fontes contínuas de receita que garantam a continuidade operacional por longos anos, os funcionários da Petrobrás (para ficar no foco da Lava Jato) precisam do vil metal para acumularem mais vil metal. Em um mundo democrático em que os sinais de status não mais são dados pela família ou o local em que o sujeito nasceu ou pela faculdade que frequentou, a diferenciação entre os melhores e os piores só pode dar-se pela ganância: quanto mais o indivíduo faz qualquer coisa por dinheiro, mesmo que ele tenha possibilidade de viver honesta e confortavelmente com seus ganhos salariais, mais ele acumulará e mais status terá em uma sociedade cuja única baliza moral realmente sólida é a lógica da acumulação.

          Tanto isso é verdade que as pessoas que seguem essa lógica do dinheiro como medida de todas as coisas agem com muita desfaçatez. No sábado passado estava assistindo a um documentário de Nelson Honieff sobre Paulo Francis em que abordaram-se as circunstâncias de sua morte. Para quem não se lembra, ele estava sendo processado nos Estados Unidos por ter feito acusações sem provas contra diretores da Petrobrás que teriam dinheiro na Suíça. Quase vinte anos depois as investigações da Polícia Federal estão revelando exatamente aquilo que ele ouvira de um advogado com quem compartilhara uma refeição. E no entanto à época, Joel Rennó, o então presidente da Petrobrás, entrou com uma ação pedindo indenização por danos morais no valor de 100 milhões de dólares. Claro que todos aqueles que apoiaram Joel em sua empreitada e que trabalhavam na Petrobrás sabiam que as acusações do jornalista tinham um fundo de verdade, mas também sabiam que ele jamais poderia prová-las, daí a ação na Justiça. Não há dúvida de que o espectro de ficar devedor de uma bolada que ele não tinha condições de pagar por calúnia contribuiu para que Paulo Francis sofresse o ataque cardíaco que o matou em 4 de fevereiro de 1997, em pleno Carnaval. Mas o importante é que as negociações escusas puderam continuar incólumes e o dinheiro a fluir e a gerar mais dinheiro. A morte de um indivíduo cuja única culpa foi ter falado demais e publicamente não é importante.

           Assim, o crucial é que a roda da fortuna continue a girar. Como comentei neste espaço na semana passada o Programa FIES de subsídios às universidades particulares é uma bomba de efeito retardado que um dia vai estourar na mão dos contribuintes, sem que tenha de fato contribuído com a melhora das qualificações do nosso povo. Mas o que importam valores educacionais? O que importa é que muitos lucram: os políticos que ganham votos dos eleitores agraciados com o status de universitários, os donos de universidades e os próprios funcionários das universidades que garantem seu emprego alimentando a fantasia do diploma de nível superior sem esforço. Pude constatar a inutilidade de tudo isso ao conversar com o motorista da ambulância que carregava minha mãe para o hospital no domingo dia 22. Ele formou-se em Gestão de Logística e confessou-me que não se lembra de nada que viu na faculdade, que não aprendeu nada e que ao comprar o diploma com empréstimo do governo tinha certeza de que nunca trabalharia com Logística.

           Prezados leitores, tudo é tão lógico e no entanto tudo é tão deprimente A mim é deprimente porque como sou amante de História sei que em outras eras o dinheiro não era a medida de todas as coisas, por isso sempre que posso refugio-me nesse tempo perdido e mítico, em que o espírito era a medida das coisas. Mais sobre esse assunto, para quem tiver curiosidade, acompanhem-me semana que vem.

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