Civilização Perdida

llCivilização é a soma total de todas aquelas atividades que permitem aos homens transcenderem a mera existência biológica e buscar uma vida mais rica do ponto de vista mental, espiritual, estético e material. […] O primeiro requisito da civilização é que os homens estejam dispostos a reprimir seus instintos e apetites mais básicos: a incapacidade de fazer isso os torna, devido a sua inteligência, bem piores que as bestas selvagens.

Trecho retirado do livro “Our Culture, What’s Left of It – The Mandarins and the Masses” do psiquiatra e escritor ingles Theodore Dalrymple

Em maio, Putin promulgou uma lei que proíbe o uso de obscenidades e grosserias em espaços públicos como meios de comunicação, teatro, filmes, peças, livros, concertos e obras de arte. Cabe a umacomissão de especialistas determinar o que é ou não um palavrão ou gesto obsceno.

Trecho retirado do artigo “Críticos calados à moda russa” publicado no jornal O Globo de 23 de novembro

           Prezados leitores, como já deixo claro em minha apresentação pessoal na página inicial do meu site, eu sou uma reacionária, e todo reacionário sente um mal estar no mundo moderno. Infelizmente este meu mal-estar renova-se cotidianamente: a cada vez que estou no metrô e ouço grupos de adolescentes que fazem uma algazarra danada, atracam-se como se estivessem brigando, gritam como macacos assustando as pessoas ao redor que acham que alguma coisa séria está acontecendo, e no geral agem como se estivessem na casa deles, como se pudessem fazer qualquer coisa em qualquer lugar porque estão exercendo o seu direito de expressão da individualidade ou coisa do gênero; a cada vez que vejo pessoas obcecadas em tirar fotos para serem publicadas no Facebook, como se a foto em si seja mais importante do que desfrutar o momento.

           Minha malaise foi levada ao paroxismo na última eleição presidencial, que não passou de uma partida de futebol com ataques mútuos das torcidas organizadas por meio de piadas, notícias falsas, montagens de fotos desabonadoras dos candidatos veiculadas na internet. No sábado à noite, ao voltar de uma peça de teatro, ouvi de um pedestre a seguinte frase: “vou dar meu pau para ele chupar com Nutrella”. O que me chocou foi que a pessoa não estava falando aquilo em um momento de raiva, o tom de sua voz mostrava que aquele tipo de observação fazia parte do seu vocabulário cotidiano.

           Não quero com isso dar-me ares de ser um ser moralmente superior. Definitivamente não sou, e muitas vezes eu deixo de pedir desculpas por um erro cometido porque fui incapaz de reconhecê-lo a tempo. O que me consola é que tenho um certo conjunto de princípios que eu tento seguir em relação aos quais comparo as atitudes que tomo em relação às pessoas, para que eu possa fazer correções de rumo.Eu também tenho outra fonte de consolo,de natureza intelectual. Leio aquilo que escrevem pessoas que compartilham comigo esse mesmo desconforto em relação à modernidade. Quero neste artigo destacar um autor em particular, citaod no início, Theodore Dalrymple, que inclusive já foi entrevistado nas páginas amarelas da Revista Veja.

          Dalrymple atuou como médico psiquiatra em prisões inglesas durante muitos anos e esse contato com os estratosmais baixos da população o leva a conclusões pessimistas. Os valores da civilização ocidental, calcados basicamente no cristianismo, têm sido solapados pelas elites culturais, pela intelligentsia que se dedica a atacar tudo aquilo que a civilização do macho branco representa em termos de exploração de minorias. O importante para os intelectualmente corretos é desconstruir tudo, denunciar as noções tradicionais do que é belo, do que é certo e errado, enfim relativizarqualquer padrão em prol do direito inalienável do indivíduo de se expressar e de se comportar de acordo com suas próprias inclinações e sua própria visão de mundo, tão válida quanto qualquer outra..

           Mas qual a relação entre presidiários e a intelligentsia que denuncia a civilização ocidental como opressora das mulheres, dos gays, dos não brancos?Para Dalrymple, esse desmantelamento dospilares da sociedade tem consequências nefastas sobre as pessoas mais vulneráveis. De fato, se para um membro da elite essa desconstrução não significa nadamuito além de louvara diversidadee ser politicamente correto, para as classes mais baixas os efeitos são be mais concretos. Neste último caso, desconstruir não é uma veleidade intelectual, mas uma prática cotidiana de descaso com valores tradicionais como a família, o respeito ao próximo, o senso do dever. Isso tudo foi jogado às favas como algo ultrapassado enovos arranjos foram colocados no lugar: casamentos (ou ajuntamentos) em série, busca incessante do prazer (leia-se drogas), violência, crimes. Os holligans do futebol, os baderneiros que saqueiam lojas e queimam carros nas cidades inglesas, os drogados são, na visão de Dalrymple,a manifestação no andar de baixo de um esforço sistemático iniciado no andar de cima de destruir pedaço por pedaço do edifício chamado civilização. Uma vez tendo sido quebrados todos os blocos de concreto ficará difícil reconstruir o patrimônio acumulado durante séculos e séculos de esforços.

           Esse é o motivo do pessimismo dos reacionários. Os progressistas assumem que a civilização é algo que está aí, consolidado, que tende sempre a melhorar, mas ela não é. As regras de convivência social, os padrões morais, culturais e estéticos, quando questionados como vêm sendo deixam um vazio que custa a ser preenchido. Nós nos espantamos com a violência na política e nos estádios, com a corrupção generalizada, fruto do culto desenfreado ao dinheiro, com a desfaçatezde líderes políticos que mentem para manter-se no poder, mas ao mesmo tempo prezamos nossa liberdade de fazer piadas com a desgraça de torcedores de times ameaçados de rebaixamento, damo-nos o direito de fazer ofensas pessoais a pessoas com cujas ideias não concordamos, assistimos à desgraça alheia de camarote e colocamos fotos e filmes na internet do que vimos, enfim, cultivamos o lixo. Tanto é assim que consideramos que ouvir palavrõesa torto e a direito em filmes americanos, em que a palavra mais ouvida é “f**k” é um direito inalienável do indivíduo e uma manifestação da liberdade de expressão, de modo que o famigerado Vladimir Putin, que quer limitaro uso de palavras de baixo calão em espaços públicos, é visto como um execrável ditador por isso.

           É óbvio que sempre houve e sempre haverá ganância, cupidez, covardia, violência no mundo enquanto o homem estiver nessas plagas, mas a nós reacionários parece que chegamos a um momento em que não há mais padrões em relação aos quais tais fraquezas são comparadas e estigmatizadas para quenosso comportamento possa ser aprimorado.Por que aprimorar, se qualquer conduta que causa malefícios à sociedade pode ser explicada e justificadacomo uma doença mental, um distúrbio ou uma síndrome? O violador da norma passa a ser vítima, e assim transformamo-nos em uma sociedade infantilizada, em que ninguém assume responsabilidade por coisanenhuma, porque a culpa sempre pode ser transferida.

           Prezados leitores, para uma pessimista como eu, nessa toada a civilização ocidental, tal como nós a conhecemos,está fadada à destruição. Meu último e terceiro consolo é saber que provavelmente estarei morta quando a pá de cal for dada.

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Geração sanduíche

Para cada R$ 10.00 arrecadados pelo governo, R$ 9.00 já estão comprometidos com gastos difíceis de serem cortados

Trecho retirado do artigo intitulado “Governo dá sinais de ajuste gradual” no jornal O Estado de São Paulo de 16 de novembro

Um Brasil mais idoso, que exigirá o triplo dos investimentos

Manchete do jornal O Globo de 16 de novembro sobre o envelhecimento acelerado da população brasileira

       Prezados leitores, conceitos são facas de dois gumes: permitem entendermos uma situação, consolidar uma definição sobre ela, mas ao mesmo tempo podem levar ao estabelecimento de estereótipos que nos impedem de enxergar as complexidades do mundo real. Deparei-me neste fim de semana com um conceito que ilumina minha existência atual, a geração sanduíche, que os demógrafos utilizam para referirem-se às mulheres que por terem adiado o momento da maternidade, se dividem entre trabalho, filhos e cuidado dos pais. É verdade que não me enquadro à perfeição nessa categoria porque não tive filhos, mas compartilho com essas mulheres a angústia, que com certeza ela sentem todos os dias, em relação à necessidade de ser uma mulher maravilha, isto é de desempenhar bem todos os papéis: ser profissional, ser filha dedicada, ser provedora e ainda achar tempo para ter uma vida social que não seja só o cumprimento de obrigações.

       É um grande alívio para mim saber que sou parte de uma categoria de pessoas, que não estou sozinha em minhas atribulações, mas que as divido com outras milhões de mulheres brasileiras. Nada melhor neste momento em que vivo um drama com minha mãe que teve edema agudo de pulmão e infarto no dia 2 de outubro e ficou no total 28 dias internada. O drama se desenrolou a cada dia que eu a visitava na UTI, quando chegava ansiosa para saber seu estado no dia e depois de ficar lá durante duas horas me despedia dela com dor no coração de deixá-la sozinha nas mãos de auxiliares de enfermagem que em sua maior parte trata os velhinhos como se fossem crianças, insistindo no baby talk, pressupondo que toda pessoa com mais de 70 anos não sabe o que é melhor para si. Quando ela teve alta e voltou para casa no dia 18 de outubro, o drama adquiriu ares de tragédia porque a alta provou-se precipitada e passei três dias infernais, vendo a barriga da minha progenitora subir e descer como uma sanfona, ela tentando em vão respirar melhor pelo inalador. Para ser precisa devo dizer que as noites foram infernais, porque fiquei sem dormir ao lado dela, testemunhando seu sofrimento e em uma segunda-feira às 11:30 da noite, quando minha mãe começou a suar frio, os pés ficaram frios e ela começou a falar que iria morrer, tive que correr ao hospital novamente e interná-la.

       Mais 12 dias de internação e finalmente dia 31 de outubro ela saiu. Agora os desafios são outros. É preciso comprar outros remédios, diferentes dos que ela utilizava antes: uma caneta de insulina importada da Alemanha dura 15 dias e custa 110 reais. O diurético que é obrigada a tomar aumenta a quantidade de urina, o que exige calça geriátrica diariamente: 28 reais o pacote com míseras 8 unidades. Minhas noites são mal dormidas porque fico alerta para qualquer barulho estranho, preciso ajudá-la a ligar o inalador quando sente dificuldade de respirar, preciso repor o soro fisiológico no aparelho, preciso checar se ela não precisa ser trocada. Para quem trabalha no dia seguinte o dia todo o ideal seria que eu contratasse uma pessoa para dormir com ela, mas eu não tenho condições financeiras: seria preciso registrar a pessoa, pagar todos os encargos sociais, o máximo que eu conseguiria seria aliviar minha pena duas vezes por semana, ao custo de 150 reais por noite, para não caracterizar o tal do vínculo empregatício. Mas prefiro ser cautelosa e não gastar esse dinheiro, porque ela está fazendo tratamento para a arteriosclerose e a assistência médica custa-me 1714 reais por mês.

       Quanto mais reflito sobre este assunto, mas convenço-me que nós da geração sanduíche somos realmente fora de série. É um encargo tipicamente feminino, pois é raro ver filhos homens cuidando de pais doentes. Tenho três irmãos e a única coisa que fazem é ligara para nossa mãe e peguntar se elá está bem. Claro que ela diz sempre que está para não preocupá-los e no dia a dia pede ajuda à filha para as mínimas coisas. Se ao menos ajudassem-me com dinheiro seria uma compensação, mas nem isso fazem, dando desculpas ou na maior parte das vezes nem dando-se ao trabalho de dar desculpas, porque consideram que é minha obrigação, já que usufruo de moradia gratuita. Nisso não sou particularmente azarada. Tenho uma amiga cuja avó de 98 anos é sustentada financeiramente e recebe cuidados de uma única filha dos 11 rebentos que teve. Os filhos homens fingem-se de mortos, as outras três filhas mulheres rateiam as despesas extras.

       Por outro lado, devo reconhecer que há diferentes níveis de zelo entre as mulheres da geração sanduíche. Há quem afirme cuidar dos pais que nada mais fazem do que visitá-los algumas vezes por semana e ver se tudo está OK, outras fazem o monitoramento pelo telefone, considerando ser suficiente ouvir as palavras tranquilizadoras do velhinho de que tudo está caminhando, mesmo que isso seja uma ilusão. Conheço o caso de uma moça brasileira, cidadã suíça adquirida pelo casamento e habitante de Zurique, onde vivia tranquilamente há anos como professora, cuja mãe tornou-se cardiopata e não pode mais morar sozinha. A filha voltou ao Brasil, largou tudo e agora tenta dar aulas de inglês em Sâo Paulo, com todas as frustrações de uma carreira de magistério em nosso país. Para mim sem dúvida é uma grande prova de amor à mãe.

      Prezados leitores, não me entendam mal, não estou aqui a querer dar lições sobre como tratar dos parentes idosos. O fato é que cada pessoa tem uma certa consciência moral, tem uma certa relação com os pais, enfim tem um certo caráter que a predispõe a aceitar de maneira melhor ou pior o encargo. De qualquer forma, uma hora ou outra algum de nós precisará lidar com a situação de ter um pai ou mãe de mais de 80 anos, fragilizado, que não poderá mais morar sozinho. Especialmente se considerarmos que apesar de as projeções indicarem que o número de pessoas com mais de 80 anos atingirá 8 milhões em 2050, não poderemos esperar que o Estado facilite a vida da geração sanduíche, oferecendo serviços sociais aos idosos. Atualmente do orçamento total do Estado brasileiro de R$ 2,86 trilhões de reais, 39,5% vai para o pagamento da dívida e as despesas discricionárias, que incluem os investimentos sociais e em infraestrutura, compõem 10.3%, dos quais muitos têm destinação constitucional obrigatória, como educação e saúde. O que fazer? Emendar a Constituição para tornar a destinação orçamentária para o cuidado dos idosos obrigatória? De onde sairia esse dinheiro? Diminuiríamos os pagamentos da dívida? Diminuiríamos investimentos em outras áreas sociais?

      Enquanto a solução fiscal não vem, a geração sanduíche terá que se virar. Pois como diz a pesquisadora do IPEA, Ana Amélia Camarano: “Nasce cada vez menos e morre cada vez menos”. Por isso a única coisa que digo às minha colegas de labuta é: Pau na máquina!

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Desapega

Desde o início do ano, o rubloperdeuum quarto do seuvaloremrelaçãoao euro e umterçoemrelaçãoaodólar (…) O banco central russo estima que na segunda-feira a fuga de capitais do paísatingiu a marca de 128 bilhões de dólares no anodevidoà crisenaUcrânia e que a inflaçãoultrapassará a marca de 8 %.

Trechoretirado de umartigo no jornalfrancês Le Monde intitulado « Os capitaisfogem da Rússia, Poutinmantém a fachada de serenidade

O líderreformista da UniãoSoviéticapoderia ter dadoum basta noasinsurreições na Alemanha Oriental, Hungria, e Tchecoslováquia. O poderosogrupo de forças soviéticas na Alemanha, lotado na Alemanha Oriental, tinha 338.000 soldadosmuitobemtreinadosem 24 divisões, com 4.200 tanques, 8.000 veículosblindados, 3.800 armas e lança-mísseis e 690 aviões de combate.

Trechoretirado do artigo « Eddy Chevvy », Gorby e a queda do muro, do jornalistaindependenteEricMargolis

            Desapega, este é o mote de um site de vendas para atrair usuários. A mensagem é simples: devemos nos livrar de tudo aquilo que um dia foi útil e hoje não é mais, coisas que relutamos em passar para a frente porque convivemos longos anos com elas, ou porque temos muitas lembranças associadas àquele objeto. E o que seria o homem sem suas memórias? Ao desapegar-se o indivíduo inaugura vida nova: deixa o passado para trás, para olhar para o futuro.  Torna sua casa menos entulhada, dá espaço para comprar outras coisas que lhe serão mais vantajosas e ainda ganha um dinheiro vendendo algo já velho. Este mote fez muito sucesso e hoje foi incorporado ao vocabulário corrente, para incitar uma pessoa a deixar de pensar em um relacionamento passado ou não ficar perdendo tempo em coisas que não podem ser mudadas. Eu, se fosse amiga da ex-primeira dama Roseane Malta, ex-mulher do ex-presidente Fernando Collor de Melo, teria lhe falado: querida, desapega! Este livro de memórias que ela acaba de lançar « Tudo Que Vi e Vivi”, com acusações sobre as quais não tem provas, soa como despeito de ter sido preterida pelo hoje Senador da República pelo Estado de Alagoas. O melhor que a moça de Canapi deveria fazer é esquecer seu ex e parar de chafurdar em um passado que não volta mais. A atitude de escrever um livro com fofocas é típica de quem passou por um divórcio que lhe deixou um gosto amargo na boca e não consegue refazer a vida.

             Há um ditado que diz que « vingança é um prato que se come frio ». A vingança dá bons filmes e histórias. Quem não gosta de acompanhar as peripécias de um personagem que foi injustiçado e que depois volta para fazer seu acerto de contas? Quando o chamamento às falas dá certo e os inimigos são trucidados é uma grande catarse para o espectador leitor. Por outro lado, não é sempre que as vinganças funcionam e mesmo quando dão certo o vingador acaba sofrendo as consequências ou então mudando de atitude. Quem assistiu ao filme argentino de 2009 « O Segredo dos Teus Olhos », de Juan Jose Campanella, sabe do que estou falando. Ricardo Morales, personagem cuja esposa foi estuprada e assassinada por um psicopata, Isidoro Gómez, consegue encontrá-lo e prendê-lo em uma cela em um local distante.  Ricardo e Isidoro vivem há anos por assim dizer juntos: Ricardo dá ao criminoso o que comer e o que beber, mas não lhe dirige a palavra, levando uma vida infernal simplesmente para vingar a morte da amada. Em um exemplo mais edificante, o Conde de Monte Cristo, personagem do escritor francês Alexandre Dumas, depois de destruir a vida de todos os inimigos que haviam lhe colocado na prisão do Château D’If, acaba tendo uma lição de vida, desprendendo-se do que o ligava ao seu passado de infortúnio. Ele deixa de nutrir ressentimentos pela amada Mercedes que não o esperou e casou com outro e retoma sua vida com outra mulher, dando-se uma chance de ser feliz eabandonandoa vida focada nas injúrias que sofrera.

             Como esses exemplosmostram, a virtude de desapegar é difícil de ser cultivada. Daí que quem a mostra em suas atitudes merece nosso louvor. Prezados leitores, esse introito sobre pessoas vingativas, rancorosas e infelizes serve para eu lhes introduzir um personagem que em minha opinião soube exercer o desapego para o bem de milhões de pessoas em todo o mundo. Falo do ex-líder da União Soviética, Mikhail Gorbachev, que quando o muro de Berlim caiu há exatos 25 anos, não caiu na tentação de salvar a honra da URSS e do comunismo e deixou de usar os recursos de que dispunha, conforme colocado na introdução deste artigo. Simplesmente deixou que o castelo de cartas ruísse para que não houvesse derramamento de sangue, para que não houvesse uma lenta e dolorosa agonia do regime soviético, que já dava sinais de iminente colapso desde a década de 70.

              Por que Gorbatchev fez isso? Talvez porque via como inevitável a marcha da história,ou porque considerava que os milhões de vítimas de Stalin já eram suficientes no passivo do comunismo, ou porque diferentemente da grande maioria dos líderes políticos que passaram pela face da Terra, seja uma pessoa moralmente decente. Quem conhece história sabe que muitos dos chamados grandes homens e mulheres dedicaram-se na verdade a construir seu próprio sonho de poder e a mobilizar recursos humanos e materiais para isso, não se importando muito com o custo em vidas e destruição. Para ficar em um único exemplo, Napoleão criou um império, estabeleceu as bases jurídicas da sociedade burguesa na França, mas também foi o general que insistiu em uma campanha militar na Rússia e quando tudo deu errado covardemente deixou seus soldados morrerem de frio, de fome e de doenças para voltar mais rápido à França e lutar para se manter no poder.

          O irônico é que as pessoas que agem sem ficarem obcecadas pelo podermuitas vezes são consideradas fracas. Gorbatchev é um herói no Ocidente, mas na Rússia ele é visto como tendo sido responsável pela humilhação do país, ao contrário de Stalin, que comandou a vitória contra os nazistas. E quem há de negar isso? Gorbatchev e seu fiel escudeiro, o então Ministro das Relações Exteriores, Eduard Shevardnadze fizeram muitas concessõesmesmo enfrentando a resistência interna dos comunistas linha-dura: permitiram a reunificação da Alemanha, mandaram de volta para casa as tropas soviéticas que ocupavam a Europa Oriental e a região do Báltico, a União Soviética foi desmantelada sem que houvesse nenhuma tentativa de resistência pela força das armas. A promessa que foi feita por Ronald Reagan era de que a OTAN não se expandiria na Europa Oriental e nas fronteiras da Rússia.

               Como sabemos hoje, essas promessas foram sistematicamente quebradas por George Bush I e II, por Bill Clinton e por Barack Obama. Os Estados Unidos incentivaram e apoiarama Revolução Laranja na Ucrânia, a Revolução Rosa na Geórgia e hoje querem de qualquer forma que a Ucrânia caia nos braços da União Europeia. A Rússia é vista como pária da tal da “comunidade internacional”como o Irã, e alvo de sanções econômicas. O próprio Gorbatchev, do alto dos seus 83 anos, reclamou recentemente que uma nova Guerra Fria está começando.

                Prezados leitores, para aqueles como eu que admiram os raros líderes com algum senso moral a única esperança é que Gorby seja um dia julgado final e favoravelmente pela História, tanto dentro quanto fora de seu país.

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A fumaça está no ar

O terceiro turno já começou.

Historiador Carlos Guilherme Mota, em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo de 2 de novembro, sobre o pedido de auditoria da eleição feito pelo PSDB

A segurança e corretude dos programas usados na urna baseia-se em confiar na boa fé dos técnicos do TSE. Repetimos: não há nenhuma razão para duvidar da boa fé destas pessoas. Mas isto fere as boas práticas de segurança.

 

Trecho do relatório da Sociedade Brasileira de Computaçãopublicado em 2002 sobre a Tecnologia Eleitoral e a Urna Eletrônica

        Prezados leitores, sinto um cheiro de fumaça no ar. A padaria que fica a um quarteirão da minha casa pegou fogo e os ventos trouxeram a névoa até o meu prédio. A princípio, quando senti o cheiro nauseabundo, eu pensei que as labaredas estivessem perto de mim e corri a tocar a campainha do meu vizinho siciliano, Máximo, que acalmou-me dando as informações verdadeiras. Daqui a pouco os bombeiros irão embora depois da operação de rescaldoe os donos da padaria contabilizarão os prejuízos em termos de perda de faturamento, estoque perdido.

        O mesmo parece estar ocorrendo em nosso país, onde os ânimos continuam exaltados, as paixões consumindoa alma dos vencedores e derrotados nas últimas eleições, sendo necessário um pouco de água fria para acalmar todos. Os descontentes absurdamente foram às ruas em Sâo Paulo no sábado dia primeiro pedindo o impeachmente de Dilma. Uso o termo absurdamente porque o fato de Dilma ter sido eleita por margem apertada não é motivopara questionar a legitimidade do resultado. Mas eis que o partido derrotado entra com pedido de auditoria das eleições ao TSE…

        É uma pena que o momento de tal solicitação seja inoportuno. Inoportuno porque fica parecendo revanchismo do PSDB querer “melar” o pleito de de 26 de outubro. O fato é que pessoas respeitáveis, versadas em segurança das informações, já levantaram dúvidas sobre o sistema eletrônico de votação brasileiro no início dos anos 2000, precisamente a Sociedade Brasileira de Computação no relatório mencionado acima. Não entrarei em detalhes a respeito do conteúdo, mesmo porque meus conhecimentos de informática são quase nulos. De qualquer forma, eu li um artigo disponível na internet, no site da Fundação Konrad Adenauer, preparado por três especialistas em ciência da computação, Diego F. Aranha, Marcelo M. Karam, André de Miranda e Felipe B. Scarel que participaram da segunda edição dos Testes Públicos de Segurança organizados pelo Tribunal Superior Eleitoral e fazem referência ao relatório de 2002.

        Basta dizer que o sistema brasileiro é classificado como de armazenamento eletrônico direto, pois os votos são “armazenados e contabilizados de maneira puramenteeletrônica, impedindo assim qualquer possibilidade de recontagem ou de verificação independente dos resultados, pois a adulteração não detectada do softwarecausa distorções indetectáveis nos resultados”.O DRE é considerado o modelo de equipamento de votação, dentre os três atualmente disponíveis no mundo, com menor nível de transparência e de maior dependência do software. Os outros dois são: Voto Impresso Conferível pelo Eleitor e Verificabilidade Fim-a-Fim.

        À época da divulgação dos resultados da análise da SBC nenhum partido comprou essa briga, talvez porque nenhum se sentisse particularmente prejudicado. Devido à falta de pressão externa, a lei 10.408 de 2002, que estabelecia o voto impresso verificável pelo eleitor foi revogada pela lei 10.740 de 2003, diante das alegações do TSE de dificuldades operacionais e alto custo. Como contemporização, foi instituído o Registro Digital do Voto, colocado à disposição dos partidos após as eleições, que não permite a verificação independente dos votos porque é gerado pelo próprio software: se o programa foi elaborado de maneira defeituosa, com premissas insuficientes, o RDV também será defeituoso. O ideal seria que o eleitor tivesse o comprovante do seu voto em papel e que pudesse haver uma contagem desses votos impressospor amostragem paralela às totalização eletrônica parcial.

        Infelizmente isso está longe de acontecer. O Corregedor-Geral daJustiça Eleitoral, ministro João Otávio de Noronha comentando o pedido do PSDB de auditoria, disse que “não é sério” comparando-o a uma tentativa de ganhar a eleição no tapetão. Em suma, uma reação irritada, típica de um país ainda em rescaldo após o fogo das eleições, como se pensar que o sistema eletrônico de votação possa ter defeitos de segurança, já apontados por vários especialistas, como demonstrado neste humilde artigo, seja estúpido, seja simplesmente despeito de perdedores.

        Pode até ser que Carlos Sampaio, coordenador jurídico da campanha de Aécio Neves e autor do pedido de auditoria, tenha simplesmente querido criar um factóide na mídia e para não dar argumentos aos que não querem saber de ouvir críticas às nossas celebradas urnas, seria bom se todos os partidos se unissem em prol de uma auditoria do DRE de maneira a aprimorá-lo. Mas o clima político no Brasil está tão violento que um tal esforço suprapartidário é impensável: o PT, vitorioso nas urnas, consideraria-se ameaçado na sua posição de poder se falhas de segurança ficassem comprovadasem tal auditoria, e classificaria qualquer conclusão desfavorável sobre o sistema como tentativa de golpe. Dilma já fez uso dessa cartada durante a eleição, quando classificou a divulgação das informações dadas pelo ex-diretor da Petrobrás Paulo Costa como golpistas. Essa mania de perseguição não é apanágio dos vermelhos,c laro. Os tucanos, na pessoa do reeleito governador de Sâo Paulo, Geraldo Alckmin, viram nas notícias catastróficas sobre a crise do abastecimento de água durante a campanha eleitoral como tentativa de uso político do problema. Em suma, nossos estadistas tupiniquins consideram que falar abertamente sobre os males que afligem a população dá munição aos adversários e só devem ser abordados se for possível livrar-se da responsabilidade e atribui-la à oposição.

        Prezados leitores, este episódio da auditoria do sistema eleitoral, que as pessoas mais bem informadas sabem ter falhas graves, mostra o triste estado da nossa democracia. As pseudo discussões nas redes sociais não ajudam em nada na conquista da serenidade. É um tal de uns xingarem os outros, uma torrente de ataques pessoais e a existência de raras instâncias que funcionem como mediadores entre os campos inimigos, pois a mídia, que deveria cumprir esse papel, muitas vezes é tão sectária quanto os internautas e eleitores. Felizmente no meu mundo particular não sinto mais o cheiro de fumaça, o fogo da padaria foi debelado, só restam as fotos. O mesmo não posso dizer do Brasil.

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And the winner is…

[…] uma função fundamental dos governos em todos os lugares é a resolução de conflitos. Mas as democracias oligárquicas com as quais o mundo acostumou-se, aqueles governos compostos de facções, não conseguem resolver conflitos. Quando uma eleição é uma disputa entre pessoas que representam facções contrárias, o conflito no governo é inevitável. As eleições exacerbam os conflitos. Não pode haver compromisso em relação às visões sectárias fundamentais. Mesmo quando possível, o compromisso entre aqueles que querem fazer algo e aqueles quenão querem fazer nada sempre resulta em políticas ineficazes que as facções então podem usar umas contra as outras. O “gasto inadequado” transforma-se em “gasto perdulário”, por exemplo. […] A separação das partes ou a opressão de uma pela outra torna-se a única solução para tais conflitos fundamentais.

Trecho retirado do artigo “ O fim da democracia estúpida: como a democracia falsa destrói a democracia real”escrito pelo filósofo americano John Kozy

 Já que o Brasil fez sua escolha pelo PT entendo que o Sul e Sudeste (exceto Minas Gerais e Rio de Janeiro que optaram pelo PT) iniciem o processo de independência de um país que prefere esmola do que o trabalho, preferem a desordem ao invés da ordem, preferem o voto de cabresto do que a liberdade”, afirma o texto.

Twitter de Paulo Telhada, deputado estadual eleito pelo PSDB de Sâo Paulo

      Prezados leitores, graças aos bons deuses acabou, este é meu último artigo sobre nossas eleições, eleições que parecem ter dado um desfecho de ouro ou de latão, a depender das preferências de cada um, a um ano que teve uma Copa do Mundo que nos mostoru que o Brasil como país do futebol é coisa do passado.Bendigo a chegada das oito horas do dia 26 de outubro, quando os resultados foram divulgados, não só pelo fim do programa eleitoral, que a mim atrapalhava-me sobremaneira de manhã, pois impedia-me de saber a previsão do tempo para o dia, algo extremamente útil. Como já disse n vezes neste meu pequeno espaço virtual, a eleição à Presidência da República Federativa do Brasil tornou-se uma disputa futebolística, em que há os perdedores e os vencedores, aqueles que “chupam”, ontem foi a tucanada que chupou, e aqueles que comemoram ruidosamente nas ruas, fazendo barulho e empunhando bandeiras, de alma lavada pela vitória do seu time, no caso, os petistas.

      Chamo a tal contenda de Fla x Flu, PT versus PSDB. O Flamengo venceu pela quarta vez consecutiva, pois valeu-se da massa dos seus torcedores, que formam o maior contingente do Brasil. O Fluminense perdeu pela quarta vez consecutiva, porque é visto como um time de almofadinhas, para usar uma gíria antiga (eu poderia ter falado na elite branca criticada por Lula), que são desconectados da vida real dos brasileiros. Pelo menos é essa a imagem que fica. Para falar a verdade, eu não me arrisco a dar uma explicação sobre a vitória do PT. Deixo isso para os “especialistas”: marqueteiros, sociólogos, economistas, antropólogos. Não me arrisco porque há diferentes razões pelas quais as pessoas escolhem um candidato: para defenderem interesse próprio, para serem fiéis a um ideal, para expiarem culpas passadas, presentes e futuras. Quem sabe os mineiros, que afundaram Aécio Neves, tenham preferido Dilma Rousseff não por serem particularmente fãs da presidente, massimplesmentepelo fato de que, tendo elegido Fernando Pimentel para governador, seria mais sensato ter um presidente petista para conseguir verbas, perdão de dívida e outras benesses?

      Entrar na cabeça de mais de 142 milhões de eleitores para sabera razão de terem votado no vermelho ou no azul é impossível, mas seria a maneira mais íntegra de explicarmos o resultado das eleições. Todo o palavrório que está sendo dito no dia da ressaca, segunda-feira, depende das opções ideológicas de cada um. Quem é viúvo ou viúva dos tucanos dirá que o PT ganhou porque usa o Bolsa Família para comprar lealdades, quem está do lado vencedor dirá que o povo não é mais bobo e sabe distinguir quem defende seus interesses, apesar da mídia querer fazer-lhe lavagem cerebral.Sendo infrutífera a busca das motivações íntimas dos eleitores,proponho-me uma reflexão sobre as consequências funestas dessa disputa futebolística.

      Tais consequências eu já adiantei no início deste artigo, tomando emprestadas as palavras deJohn Kozy, que aponta em seu ensaio os males da democracia, tal como praticada no mundo comtemporâneo. Para ele, tais males derivam do fato de as pessoas serem muito diferentes, o que leva à formação de facções que disputam entre si. Kozy tem como objeto de estudo os Estados Unidos, mas o problema da diversidade talvez seja aindamais exacerbado no Brasil. Essa diversidade ficou patente não só no modo como as diferentes regiões votaram, mas como os brasileiros reagiram ao resultado. O Norte e Nordeste vestiu-se devermelho, o Sul, Sudeste e Centro-Oeste vestiu-se de azul. Os que perderam reclamam dos nordestinos, ao ponto do ex-coronel da Rota Paulo Telhada falar em separatismo. Uma vereadora do Rio Grande do Norte desenhou em um Twitterum mapa do Brasil em que a parte vermelha é Cuba, a parte azul é o “verdadeiro” Brasil. Os que ganharam nãodeixaram por menos. Choveram gozações nas redes sociais sobre os paulistas que votaram nos tucanos e estão morrendo de sede, enquanto os nordestinos estão por cima, porque podem gastar água à vontade.

     Em suma, faltam verdadieras discussões proveitosas que levem a um consenso, sobram desconfianças, preconceitos mútuos, xingamentos, desentendimentos. O que será da política no Brasil em tal clima? Dilma e Aécio adotaram o tom politicamente correto da união, defendendo o diálogo e todo aquele blá, blá, blá sobre oposição construtiva. Vejamos como isos se dá na prática, mas quando eu assistia à transmissão dos resultados na Rede Bandeirantes, não pude deixar de notar que o Ministro Padilha, candidato derrotado ao governo de São Paulo, mal podia conter-se de felicidade:sorria o tempo inteiro e logo deixou sua cadeira para comemorar mais à vontade, depois de ter trocado acusações no limite da civilidade adequada à televisão com Álvaro Dias, senador pelo PSDB. Tenho certeza que se o tucano tivesse vencido, o sorriso de vitória seriao mesmo no paranaense. Não há mal nenhum em ficar contente com uma notícia, o problema é que o contentamento mostrado em nossas eleições sempre parece desmesuradamente triunfante, ao estilo de “ao vencedor as batatas”.

     Prezados leitores, não vejo nada de bom nessas gozações mútuas, nesse sentimento de superioridade que um lado tem em relação ao outro, especialmente porque as diferenças entre PT e PSDB, que parecem abissais, são, em minha opinião, muito sobrestimadas. Ambos preocupam-se em acalmar os mercados, ambos estão em conluio com grandes grupos econômicos para se aproveitarem do Estado, e principalmente, parafraseando a finada candidata Marina Silva, ambos tem um bocadinho de incompetência para chamar de sua. O PSDB de São Paulo fez uma gestão no mínimo temerária da crise hídrica, o PT está tentando transpor um Rio São Francisco que é mais areia do que propriamente água.O jogo acabou, as torcidas estão deixando o estádio, os ânimos estão acirrados. Esperemos que o próximo jogo da democracia brasileira seja em clima de amistoso porque do jeito que está as coisas andarão mal parao nosso país.

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