Ilusões perdidas e reconquistadas

“Não existem fatos apenas interpretações”

Friederich Nietzsche (1844-1900)

               Meus primeiros estudos universitários foram feitos mais ou menos sob a inspiração da frase acima. Digo inspiração não por eu ter lido algo do filósofo alemão na Faculdade de Letras pela qual me formei em 1998, ou por eu tê-la escolhido como definidora da minha digamos “filosofia de vida”. Cito Nietzsche, que tanto criticou o Cristianismo, o nacionalismo e toda a cultura e sistema de valores então em voga, porque a principal missão a que os professores se dedicavam era fazer com que nós, alunos, fôssemos críticos.

             Eu havia tido a esperança, e este foi um dos motivos de eu ter escolhido fazer Letras, de que eu teria contato com as grandes obras-primas da literatura ocidental e com isso eu poderia aumentar minha bagagem cultural. Tendo aprendido com os mestres, eu seria capaz de criticar, de ter opiniões próprias. Já naquela época, eu acreditava, e ainda acredito que, como diz Peter Jones, um jornalista britânico autor de uma coluna semanal entitulada “Ancient and Modern”da Revista The Spectator, “a verdadeira criatividade depende da libertação da tirania de saber as coisas”.

             Sob essa perspectiva, a educação deve ser um exercício do cérebro, feito em grande parte de memorização, de modo a prover o indivíduo com “intuição rápida” e “agudeza de raciocínio”. Em suma, na faculdade as leituras exaustivas que faríamos de todos aqueles que haviam pensado sobre as coisas antes de nós nos obrigaria a um esforço de entendimento e com isso aprenderíamos a pensar, primeiramente sabendo repetir com nossas próprias palavras aquilo que os grandes e criativos haviam dito, e em seguida formulando gradualmente nossas próprias ideias. Claro que àquela época eu não formulava este projeto de maneira tão clara como estou fazendo agora, do alto da minha experiência e com a ajuda do Peter Jones, mas eu tinha uma intuição sobre o que queria para mim em termos de formação intelectual: ser um cidadão pensante como resultado de árduos esforços de mergulho nos clássicos.

              Como o uso do condicional acima pode fazer meus leitores vislumbrarem, minhas esperanças sobre o conteúdo da faculdade e sua proposta foram em larga medida destruídas. Afinal, os professores que davam aulas na USP na década de 1990 na área de Ciências Humanas são todos filhos da década de 60, e portanto beberam as águas “rejuvenescedoras” do marxismo cultural, do desconstrucionismo, da Escola de Frankfurt, em suma de todos aqueles movimentos que questionaram as fundações da civilização ocidental. É claro que tal movimento começou muito antes na filosofia de Nietzsche, de Freud e do próprio Marx, mas foi na década de 60 que tais críticas deixaram de ser marginais e tornaram-se parte da corrente bem pensante, de forma que quem não se opusesse às noções estabelecidas de raça, gênero,família, cultura era considerado como indivíduo comprometido com as estruturas dominantes de poder.

           Trocando em miúdos, a crítica ao status quo, representado pelo tal do cânone ocidental, isto é, as obras consideradas como representativas da melhor tradição da filosofia e da literatura que se produziu na Grécia, Roma, Europa e suas ramificações na América,significava que a prioridade no curso era dar-nos ferramentas para desconstruirmos tudo aquilo. Nesse sentido, não importava tanto saber o que havia sido pensado e escrito antes de nós, como saber olhar tudo o que é sagrado, belo e perfeito com desconfiança usando conceitos como ideologia, discurso hegemônico e relações sociais para fazê-lo.

             É claro que li Jane Austen, Charles Dickens, Thomas Hardy, D. H. Lawrence, James Joyce, William Faulkner, Henry James para citar alguns dos autores de literatura inglesa e americana mais famosos com os quais tive contato. No entanto, não nos detíamos muito tempo sobre o estilo de cada um, tentando entender o modo de escrever para, quem sabe, imitá-los. Pois o importante não era cultivar o que é bom, escrever bem, com apuro, seguindo as lições dos mestres. Ler as obras primas era apenas uma etapa do processo de aprendizagem da crítica, que passava pela leitura, na prática mais prioritária, dos críticos literários que haviam escrito sobre os mestres.

             Digo na prática porque tínhamos que redigir trabalhos com nossa “opinião” e se não lêssemos os desconstrutores do cânone não tínhamos conteúdo: afinal como interpretar os romances de Jane Austen sobre as dificuldades das mulheres para encontrarem parceiros na Inglaterra do início do século XIX se eu não conhecia a história do país e osistema de classes que então vigorava? Como entender James Joyce se eu não havia lido as grandes obras com as quais ele dialogava, incluindo a Bíblia, A Ilíada, A Odisséia?O atalho mais à mão para um estudante ignorante, mas com a obrigação de contestar os valores dominantes, era ler os autores marxistas que nos eram oferecidos, tipos como Terry Eagleton, Roberto Schwartz que apontavam os preconceitos de classe e descreviam a estrutura de pensamento dos machos e fêmeas brancas ocidentais.

              Tanto desconstruir era mais essencial do que aprender com os gênios e imitá-los, que a maioria dos alunos nem lia as obras dos expoentes máximos da opressão das classes trabalhadoras: assistiam a um filme para saber o enredo da história e se dedicavam à tarefa mais útil de embeber a sapiência daqueles que haviam apontado o quanto a tradição cultural é um artefato construído por uma certa estrutura econômica. Conceitos como o bem escrever, o bem pensar, o bem falar, o bem argumentar não tem uma validade intrínseca, afinal são relativos a um determinado tempo e espaço, e portanto podem ser jogados no lixo. E foi isso que a geração da década de 60 que hoje domina as universidades fez: os cursos de Humanas são, com raras exceções, uma aplicação na prática educacional do relativismo cultural que passou a dominar as mentes pensantes do Ocidente desde que os estudantes franceses decretaram que é proibido proibir.

          O resultado são “humanistas” que não sabem escrever, não sabem pensar e não sabem argumentar, porque o esforço que deveriam fazer em aprender o be a bá da estilística, da lógica, da retórica é concentrado em aprender métodos de crítica marxista, em suasmais variadas vertentes. Com tal formação falha, não admira que os formandos saiam da faculdade repetindo com toda a pompa clichês que pegaram aqui e acolá, tudo empacotado em legítima prosa acadêmica que esconde a falta de substância com palavras obscuras e esnobes, típicas de pessoas que sofrem o mal tão pós-moderno da precocidade: são doutores PhDs sem terem passado pela história, geografia, arte, ciência, astronomia, tecnologia, música, direito, filosofia e assim por diante de que falava o arquiteto romano Vitruvius como a base da educação de um indivíduo que queria se transformar em um ser humano. Por terem sido ensinados apenas a criticar carecem da humildade necessária para o verdadeiro diálogo, que consiste primeiramente em entender as premissas do outro. Não admira que os tais dos debates acadêmicos hoje ou sejam uma rasgação de seda mútua quando os participantes pertencem à mesma seita ou então uma troca de farpas inútil quando os debatedores são “inimigos declarados”, como marxistas x liberais.

            Um dos meus passatempos é ouvirentrevistas do Gore Vidal no YouTube, um homem que durante décadas denunciou as consequências terríveis do Império Americano que estamos vendo se desenrolarem em nossa época.Um homem que infelizmente já não existe mais, classicista que exatamente devido à sua formação sólida era capaz de trocar ideias com qualquer um, rebatendo prontamente argumentos sem levantar a voz, de maneira elegante.Apesar de ter passado pela educação superficial que lhes descrevi acima, sonho um dia ter uma fração da cultura e sabedoria do Gore Vidal, porque hoje acredito firmemente que é só através do verdadeiro humanismo, sem sua doença pós-moderna o criticismo, que poderemos formar cidadãos que consigam resistir aos males do mundo moderno, a saber, a concentração de renda, a falta de representatividade das instituições políticas, o controle cada vez maior que o Estado exerce sobre nossas vidas.

Categories: Educação | Tags: , , , , , | 1 Comment

Cadê a sustentabilidade?

             Vivemos no país a festa democrática, temos eleições a cada dois anos e se não bastasse essa profusão de escolhas em que parecemos decidir a respeito de cores diferentes de roupas, a mídia insiste em antecipar a discussão dos candidatáveis. Isso fica patente principalmente em relação ao cargo de Presidente da República, em que os jornais, revistas, sites na internet mais tratam do tema como meio de entretenimento do que como oportunidade de discussão dos rumos do Brasil. Afinal, tudo fica reduzido a um jogo ou corrida de cavalos: pesquisas são publicadas frequentemente para ver quem está no páreo e quem não está, quem é cavalo manco e quem é promissor. Os candidatos são identificados não por suas ideias, sobre o que fazer para resolver nossos problemas, mas por seus marcadores de performance, os índices nas pesquisas.

                  Não estou aqui a atacar a idoneidade das pesquisas e levantar o argumento comum de que eu não conheço ninguém que tenha sido entrevistado para uma enquete de intenção de votos. Eu mesma na eleição para prefeito do ano passado fui entrevistada pelo Data Folha e com base nessa minha modesta experiência pessoal creio que não há nenhum problema metodológico com o trabalho realizado por órgãos de reconhecida competência. Meu problema não são as pesquisas em si, mas o modo como elas são usadas: ao mesmo tempo que fisgam a população pelo aspecto da disputa empobrecem a pauta das eleições. Mesmo havendo a realização de debates eles são no mais das vezes um marco, um evento para dar ensejo a uma nova pesquisa que avaliará quem perdeu ou ganhou como se existisse algo desse tipo quando são discutidos temas como educação, saúde, economia, segurança, corrupção, infraestrutura, para citar os mais candentes.

                   Estamos agora com as portas abertas do Jockey Clube Brasil e as apostas estão abertas. Há o galego pernambucano de olhos azuis, Eduardo Campos, um potencial azarão (desculpem o clichê batido, mas em prol da minha argumentação devo levar minha metáfora “cabalística” como diria o saudoso Vicente Matheus até as últimas consequências), há a altaneira égua Marina Silva que foi uma surpresa na corrida passada chegando em terceiro lugar. Quem sabe se ela conseguir as tais 500.000 assinaturas para registrar sua Rede Sustentabilidade no TSE ela não consiga surpreender uma vez mais e disputar cabeça a cabeça com a égua mãe, veterana corredora, Dilma Rousseff? Não devemos esquecer do garanhão que quer tornar-se corredor, Aécio Neves, representando uma ilustre raça de cavalos que nos últimos páreos teve um desempenho frustrante.

                 Dentre esses lindos espécimes equinos, não vou deter-me sobre Eduardo Campos que não me interessa. O Congresso Nacional, como eu tentei mostrar na semana passada, é dominado por representantes do Norte e do Nordeste, o Executivo, em que a eleição de fato é proporcional à população, é normalmente terreno de alguém que fez carreira no Sul Maravilha. Há exceções como Fernando Collor de Mello, mas elas não são significativas a ponto de macular o ponto principal de que candidatos com base política no Nordeste não têm muita chance em uma eleição nacional,em que o princípio de que cada cabeça equivale a um voto é realmente para valer. Quanto ao Aécio Neves, ele é mais um dentre os tantos príncipes do partido que tenta sair ileso da fogueira das vaidades dos bem nascidos e convencidos tucanos.

               Falarei da Dona Marina, a candidata dos bem pensantes, dos globalizados, dos conectados, enfim dos que herdarão a terra. Afinal o próprio nome do seu partido, ainda em gestação, mostra como ela está em sintonia com a modernidade. Rede, ligação de pessoas fisicamente distantesmas que compartilham valores, sustentabilidade, conceito-chave que encapsula tudo o que um governo deve perseguir: crescimento econômico combinado com desenvolvimento econômico, aumento do PIB combinado com justiça social, aumento da capacidade produtiva do país preservando o ambiente como ativo estratégico, globalização combinada com respeito às culturas locais. Quem pode ser contra uma agenda dessas? Especialmente se esse alguém é educado, vive em centros urbanos e lamenta a indigência material, social e moral a que muitos brasileiros ainda estão condenados por uma visão arcaica da economia e da política?

                   O problema está aí. Será esta sustentabilidade uma verdadeira agenda, no sentido de ser um programa factível de governo? Não estou aqui a ponto de fazer a crítica estúpida de que falta detalhamento às propostas de Marina. Afinal, para que ela tem o ilustre economista e filósofo Eduardo Gianetti da Fonseca como seu guru intelectual? Minha suspeita com relação à ex-seringueira é a respeito de um posspivel modo de governar.

                      Essa pulga surgiu na minha orelha depois que li um seu artigo no domingo dia 14 de abril sobre os haitianos que chegam ao Estado natal dela, Acre, em busca de uma vida melhor aqui no Brasil. Marina, em nome dos direitos humanos dos refugiados, conclama o governo brasileiro a fazer mais por eles, a agilizar a emissão de papeis, a arregimentar uma aliança de países para ajudá-los (ela sensatamente admite que não podemso fazer isso sozinhos). Um discurso bonito, sem dúvida, e eu seria cruel em atacar propósitos tão dignos, mas permitam-me sê-lo.

                      Se começarmos a acolher haitianos aqui dando-lhes de comer e beber e carteira de trabalho, isso vai incentivar outros a virem. E que vantagem o Brasil leva em recepcionar esas pessoas? Por acaso são os engenheiros, os técnicos de que precisamos tanto no Brasil? Posso estar sendo leviana, mas quem chega aqui a nado, andando pela Floresta Amazônica, não é um imigrante qualificado, mas um desesperado que trabalhará em qualquer coisa. Não me consta que tenhamos falta de pessoas desqualificadas para começarmos a importar os descamisados de alhures. O mais sensato para mim seria mandá-los de volta ao Haiti, pagando-lhes a passagem.

                Temo que Marina Silva Presidente seria uma people pleaser(para quem quiser saber mais sobre o que é isso http://psychcentral.com/lib/2011/21-tips-to-stop-being-a-people-pleaser/all/1/). Ela tentaria fazer o bem a muitas pessoas de maneira séria e determinada como é de seu feitio, mas sem foco, sem prioridades. Porque priorizar é dizer não, é fazer inimigos, como Margaret Thatcher fez, tanto que sua morte foi comemorada por todos aqueles que foram deixados para trás por suas reformas econômicas: mineiros, funcionários públicos, operários de empresas deficitárias. Por outro lado, a Dama de Ferro sabia exatamente o que ela queria fazer, e dedicou todas as suas energias ao que escolheu, obtendo resultados: Londres não seria o grande centro financeiro globalizado que é se não fosse por causa da milk snatcher.

                     Governar bem é dizer não o tempo todo, tendo em vista o objetivo que se deseja alcançar. Dizer sim sempre e querer agradar todo mundo em nome de ideais grandiloquentes não é sustentável. Eu votaria na Marina para um cargo no Legislativo em que seu bom mocismo servisse de contraponto a excessos de crueldade, mas considerá-la seriamente para presidente é uma loucura.

Categories: Politica | Tags: , , , , | Leave a comment

Mania de Perseguição

             A soberania popular será exercida pelo sufrágio universal e pelo voto direto e secreto, com valor igual para todos (…)

Artigo 14 da Constituição Federal do Brasil

           A Câmara dos Deputados compõe-se de representantes do povo, eleitos, pelo sistema proporcional, em cada Estado, em cada Território e no Distrito Federal.

          O número total de Deputados, bem como a representação por Estado e pelo Distrito Federal, será estabelecido por lei complementar, proporcionalmente à população, procedendo-se aos ajustes necessários, no ano anterior às eleições, para que nenhuma daquelas unidades da Federação tenha menos de oito oumais de setenta Deputados.

             Artigo 45 da Constituição Federal do Brasil, parágrafo primeiro

          Prezados leitores, quero confessar a vocês que tenho mania de perseguição. Acho que há forças, ocultas ou não, que têm por objetivo massacrar os Estados do Sul e Sudeste. Quando digo massacrar quero dizer espremê-los até que saia a última gota de seiva vital, para que ao final não sobre nada de nós e nos rendamos. Só que no momento em que acabarem conosco, também o país terá acabado, tenho certeza. Para os que acreditam na ideia do Brasil harmonicamente unido em torno de ideais democráticos comuns, este meu artigo é um despautério, mas permitam-me expor certos fatos.

          Para começar, há a inconsistência da nossa Constituição Cidadã. Estabeleceu que o voto de todos os brasileiros têm o mesmo valor, mas na prática, ao limitar o número máximo de deputados a 70 e colocar um mínimo de 8, a cidadania dos cidadãos do Sul e do Sudeste vale “vinte, trinta, quarenta vezes” menos do que o voto e a cidadania dos nossos “irmãos” do Norte e Nordeste. O trecho entre aspas eu retirei da ação direta de inconstitucionalidade de número 815-3 que foi julgada em 28 de março de 1996 pelo Supremo Tribunal Federal. Ela teve como requerente o governador do Estado do Rio Grande do Sul, que humildemente solicitava que o artigo 45 acima transcrito fosse declarado inconstitucional de acordo com os princípios da igualdade e da representação proporcional, próprios de uma democracia.

            Obviamente o STF não acatou os argumentos colocados pelo excelentíssimo Alceu Collares. Uso a palavra obviamente para ser consistente com minha teoria da conspiração. Os egrégios ministros alegaram que a colocação de um teto mínimo e de um teto máximo de deputados havia sido escolha do “Poder Constituinte Original”, em português comum, os deputados que em 1988redigiram a Carta Magna, e não caberia ao Judiciário inteferir nas prerrogativas do Legislativo. Até entendo a cautela dos ministros, para não dizer o medo, de mexer neste grande vespeiro que é a representação desproporcional enfiada goela abaixo pela ditadura para que nós do Sul e Sudeste, que éramos mais críticos do tal do regime de exceção que vigorou no Brasil de 1964 a 1985, tivéssemos menos influência nos assuntos nacionais. O triste é que a medida infame dos nobres generais para nos calar foi aceita pelos constituintes, talvez pelo não menos infame propósito de legislarem em causa própria, afinal os congressistas do Norte e Nordeste poderiam se perpetuar no pudêêrrr.

              E assim foi feito, ante a inação do Sul e Sudeste que nunca tentou se insurgir contra este estado de coisas. Como resultado disso temos um Congresso em que se destacam os Renan Calheiros, os José Ribamar Sir Ney, os Antônio Carlos Magalhães, os Jáder Barbalho e toda esta trupe que nos dá tantas alegrias. Talvez seja ingênuo da minha parte acreditar que se tivéssemos mais deputadosdo Paraná, de Santa Catarina, do Rio Grande do Sul, de São Paulo, do Rio de Janeiro, do Espírito Santo e de Minas Gerais tivéssemos uma república mais proba, menos afeita a escândalos. Com certeza, há roubalheiras em todos os cantos do Brasil, mas quero crer que para cada Paulo Maluf que elegemos sistematicamente aqui em baixo há pelo menos dois ou três deputados de razoável qualidade que não estão a prometer carros-pipa em época de seca no Nordeste ou inscrição no Bolsa Família em troca de voto. Meu ponto é que como a pobreza e a miséria aqui no Sul e Sudeste são menores, a compra de votos tende a não ser tão difundida, o que leva a uma melhor qualidade dos nossos representantes políticos.

             Paralisia de uns, ação de outros: a natureza odeia o vácuo, e ante nossa resignação em termos muito menos deputados do que nossa população justificaria, os conspiradores lá de cima se mobilizam e aprovam matérias do seu interesse, em detrimento dos que estão aqui embaixo: em 6 de março de 2013 nosso Congresso Nacional derrubou o veto da Presidente Dilma Rousseff à lei que redistribui os royalties do petróleo, beneficiando os Estados não produtores, que obviamente compreendem Estados do Norte e Nordeste, que não têm que arcar com os custos sociais, ambientais e de infraestrutura da exploração do óleo negro. É verdade que o governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral entrou com ação no STF, mas o resultado é incerto, e o vespeiro é tão grande quanto o da representação desproporcional. Afinal, declarar que a nova lei de royalties é inconstitucional pode ser considerada como uma flagrante interferência do Judiciário nas atribuições do Legislativo.

              E não é que tivemos outra grata surpresa da turma dos que querem massacrar o Sul e Sudeste? A Assembleia Legislativa do Amazonas pediu ao Tribunal Superior Eleitoral e lhe foi concedido em 9 de abril um aumento no númerode deputados do Estado para refletir os números do Censo do IBGE de 2010. Como resultado dessa dança das cadeiras em nome da proporcionalidade da representação, Amazonas ganhará um deputado, Pará ganhará quatro deputados, Ceará 2 deputados, Minas Gerais 2 deputados, Santa Catarina um deputado. Paraná, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e Espírito Santo perdem um deputado cada. No cômputo geral, nós do Sul e Sudeste ficamos na mesma, pois perdemos três e ganhamos três, os Estados do Norte de Nordeste perderam seis e ganharam sete deputados, ou seja, saíram no lucro, como sempre. Justiça foi feita para que o Congresso reflita o contingente populacional dos Estados, mas o fato é que a injustiça maior, petrificada na Constituição, permanece intacta.

             Não tenho esperança nenhuma de que este desequilíbrio na Federação, que tantas mazelas causam ao país, seja resolvido. Em nome da busca da igualdade entre os Estados, dinheiro continuará sendo mandado à Sudene para não resolver o problema da seca, os Estados do Norte que exploram minérios terão direito aos seus royalties e não terão que compartilhá-los com nenhum outro Estado em nome da solidariedade. Quando será o próximo plebiscito para criar algum Estado na região amazônica? Livramo-nos de Carajás por pouco, temo pela próxima invenção.

             E temo mais ainda pelo pobre Brasil: em nome da sempre vã luta contra as desigualdades regionais os habitantes do Sul e Sudeste, responsáveis por aproximadamente 72% da riqueza nacional, são tratados como cidadãos de segunda classe, pois devem pagar as contas, dividir irmanamente aquilo que acumulam com a parte mais pobre e ainda se sentirem culpados por serem mais produtivos. Os Estados do Norte e Nordeste, por seu turno,. são as eternas vítimas, vítimas da exploração centenária, das estruturas arcaicas de poder. Ora, o voto de cabresto, o coronel, a indústria da seca, a queimada, são criações autóctones, não foram impostos por ninguém de fora. As vítimas se colocam no papel vulnerável, cabe a elas em primeiro lugar livrarem-se dos grilhões e se libertarem.

             Para finalizar, parafraseio a recém falecida Margaret Thatcher, acusada por um parlamentar do Partido Trabalhista da Inglaterra de ter aumentado as desigualdades com suas políticas liberais: fazer todos mais pobres em nome da justiça social é estúpido. Talvez fosse o caso de admitirmos que o Norte e Nordeste do Brasil nunca serão lá grande coisa e darmos mais condições ao Sul e Sudeste de prosperar pela diminuição da espoliação imposta aos Estados mais prósperos do país. Chega de perseguição!.

Categories: Politica | Tags: , , , , | Leave a comment

O estouro da boiada

       Prezados leitores, hoje meu assunto é algo um tanto quanto distante de nós brasileiros mas que, a depender do desenrolar da situação, com certeza nos afetará. Falarei aqui de uma pequena ilha de 9251 quilômetros quadrados situada no Mediterrâneo Oriental, ex colônia britânica, disputada pela Turquia e pela Grécia, um milhão de habitantes, aproximadamente, PIB de 23 bilhões de dólares em 2012, 80% do qual é composto por serviços (diga-se turismo, finanças e imóveis), centro de lavagem de dinheiro russo, dizem as más línguas (de acordo com a agência de classificação de risco Moody’s há 31 bilhões de euros de ativos russos no país), dois de seus maiores bancos entre os maiores detentores de títulos gregos.

        Bem, depois de tantas informações, vocês já devem ter advinhado que estou a falar de Chipre, que tem vivido fortes emoções ultimamente. Resumirei aqui os principais fatos. Em face de um déficit público de 7,4% em 2011 e de uma recessão econômica que em 2012 fez o PIB recuar 2,3%, o governo cipriota em julho de 2012 foi de pires na mão à tríade, ou melhor, a ‘troika’, que é como é conhecido o grupo que manda na Europa, colocando todos os governos nacionais em seu bolso: a Comissão Europeia, o Fundo Monetário Internacional e o Banco Central Europeu. Depois de meses de negociações, no dia 16 de março de 2013 a zona do euro e o FMI chegam a um acordo sobre o plano de ‘ajuda’ aChipre: 10 bilhões de euros seriam concedidos em troca de o governo impor uma taxa, eufemismo para confisco, de 6,75% sobre os depósitos bancários abaixo de 100.000 euros, e de9,9% sobre os depósitos bancários acima de 100.000 euros. Uma tunga, como diria o Elio Gaspari, que renderia 5,8 bilhões de euros, de acordo com a ideia defendida pela Alemanha de que os cipriotas deveriam compartilhar a dor, pois afinal não seria justo que o suado dinheiro dos diligentes países do norte da Europa fosse usado para resgatar oligarcas russos, para não falar máfias russas que usavam os bancos cipriotas para “alvejar” seus ganhos.

         Aparentemente tudo muito justo, sacríficios compartilhados, o pacote usual quenós latino-americanos conhecemos muito bem de impor austeridade à população.No caso de Chipreas medidas incluiriam privatização de serviços públicos, empenho de futuras reserva da exploração de gás natural, corte nos salários dos funcionários públicos e nos benefícios sociais. Digo incluiria porque o roteiro preparado pela troika teve que sofrer modificações em vista dos protestos dos cipriotas que foram à rua contra o confisco dos depósitos e pior, tentaram em massa retirar seu dinheiro nos caixa automáticos.

         Nada como o povo instilar um pouquinho de medo nos poderosos para que estes repensem suas prioridades. Depois de idas e vindas no parlamento cipriota, finalmente Chipre entra em acordo com seus ‘salvadores’: o confisco, de até 30%, incidirá sobre os depósitos acima de 100.000 euros. O maior banco do país, o Banco de Chipre permanecerá aberto, mas o Banco Popular, o segundo maior, tem sua falência decretada. Em 28 de março, depois de 12 dias de feriado bancário no país, os bancos abrem, mas atualmente vigoram estritos controles de capital: o limite de saque diário é de 300 euros por dia para cada banco em que o indivíduo tem conta, as despesas de cartão de crédito não poderão ultrapassar 5000 euros mensais e as transações comerciais também devem respeitar o limite de 5000 reais. Na primeira semana de abril o Banco Central Europeu indicou que os detentores de depósitos no Banco de Chipre de mais de 100.000 euros verão até 37,5% do valor transformado em ações e 22,5% dos depósitos imobilizados por aguns anos.

            Alguns dirão que o arranjo finalmente obtido é justo porque só vai punir os ricos. Bem, isso é uma meia verdade. As restrições de capital vão afetar a economia como um todo, pequenos, médios e grandes negócios, e nem todos os que possuem 100.000 euros no banco são mafiosos russos lavadores de dinheiro. Haverá poupadores de uma vida inteira, que esperavam usufruir deste dinheiro na velhice que serão prejudicados, haverá pessoas que investiriam em algum negócio, haverá quem tinha acabado de vender um imóvel, talvez o único imóvel que possuía. Como sempre ocorre, os justos pagarão pelos pecadores.

              Mas o pior dos recentes acontecimento em Chipre, e aqui tentarei explicar porque é algo com o qual todos nós habitantes deste mundo globalizado devemos nos preocupar, é que estabelece um precedente e avança ainda maisno caminho da blindagem cada vez maior que tem se dado aos bancos. A crise das hipotecas imobiliárias que estourou nos Estados Unidos em 2008 mostrou abertamente como os bancos nos países desenvolvidos tinham se transformado em verdadeiros cassinos, antros de apostas arriscadas: no caso americano aposta na higidez de hipotecas concedidas a pessoas que não tinham a mínima condição de pagamento, masque a engenharia financeira dos hedges e dos swaps tornava palatáveis e pior, atrativas a investidores; no caso europeu, apostas em títulos de governos perdulários de países que queriam usufruir dos altos padrões de vida dos alemães, holandeses e demais nórdicos sem trabalharem como eles.

           A solução dada quando estes bancos, “too big too fail” tiveram problemas, foi ajuda governamental: nos Estados Unidos, Bush e Obama concederam1 trilhão e 450 bilhões de dólares de ajuda às instituições financeiras;na Europa a Espanha obteve 130 bilhões de dólares dos recursos comunitários para recapitalização dos seus bancos, o mesmo ocorrendo em menor escala com outros países. O resultado é que o princípio básico do capitalismo, de que quem não tem competência não se estabelece, foi totalmente subvertido. O comportamento irresponsável é premiado com polpudas ajudas estatais, sob a justificativa de que deixar os bancos quebrarem é levar toda a economia à bancarrota.

              O que acaba de ocorrer em Chipre é um passo além, na medida em que confiscar dinheiro dos depositantes e fazê-los sócios na marra de instituições que na melhor das hipóteses levarão anos para se recuperar,é torná-las ainda mais irresponsáveis: não só elas podem ser geridas como cassinos que só beneficiam os crupiers, no caso, os executivos que se premiam com grandes bônus, mas agora nem mais precisam se preocuparem cumprir a obrigação básica de zelar pela integridade dos depósitos, porquepoderão meter a mão neles quando quer que tenham dificuldades.

           Diante de um tal cenário sombrio qual é a melhor coisa a fazer para se proteger da delinquência financeira tutelada pelo Estado? Tirar o dinheiro do banco e comprar ouro? E se todos os correntistas dosgrandes bancos dos países desenvolvidos perceberem que seus direitos de propriedade foram jogados aos leões e resolverem resgatar seu dinheiro, o que será da economia mundial? Haverá um colapso total dos meios de pagamento? Em suma, devemos nos preparar para o estouro da boiada e tentar pular a cerca? Oxalá que os desdobramento da crise em Chipre não se revelem tão catastróficos. É esperar e torcer, de preferência do outro lado da cerca, vendo de longe os bois em desabalada correria.

Categories: Internacional | Tags: , , , , | Leave a comment

Amor bandido

“OBrasil não sabe quantos de seus ex-presidiários voltam ao crime, ou seja, é um país que ignora a taxa de reincidência. Alguns estudos informam que o índice chega a pelo menos 70%, mas, segundo especialistas, não se trata de um dado empírico e oficial. (…)O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) já deu início a um projeto para chegar, por meio de amostragem, à taxa de reincidência, e pretende divulgá-la ainda no primeiro semestre deste ano. De acordo com a diretora-executiva do Departamento de Pesquisas Judiciárias (DPJ) do conselho, Janaína Penalva, a amostra vai abranger sete estados: Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Paraná, Espírito Santo, Alagoas e Pernambuco.”

Publicado no jornal O Globo de 17 de março de 2013

O último episódio da série conta a história de Vivi, presa por tráfico de drogas e armas, hoje em regime semiaberto. Elafoi casada e teve um filho com Bruno Rogério, também traficante, que acabou morto em confronto com a polícia. Vivinunca pode se despedir do marido no velório. Ela usa a aliança até hoje.

Documentário Paixão Bandida que conta a história de mulheres envolvidas com traficantes.

            Prezados leitores, por um acaso ontem, zapeando pelo controle remoto enquanto eu comia minha sobremesa, eu meu deparei com a Vivi e sua história. Aliás, já se tornou um tema recorrente em jornais, revistas e televisão as paixões bandidas, amores bandidos e todos os títulos, que invariavelmente não escapam aos clichêssobre as relações amorosas entre mulheres e foras da lei. O roteiro é sempre o mesmo: a mulher começa a namorar um homem que já está na vida do crime ou entra depois, ele é preso, ela fielmente o visita na prisão, disputa o “privilégio” com outras mulheres,às vezes acaba assumindo os negócios do companheiro ou marido enquanto ele está encarcerado, o indivíduo morre e a deixa viúva, geralmente com um ou mais filhos.

             Há mulheres que até se mudam para a cidade em que o seu homem está preso, para poder ficar perto dele, e claro, para afastar outras concorrentes. Presidente Bernardes em São Paulo, por exemplo está cheia delas.Isso não é sensacionalismo da imprensa, não. A faxineira que vem ao meu apartamento uma vez por semana tem um filho preso que já engravidou duas mulheres diferentes na prisão, durante a visita íntima, direito dosd encarcerados. Esse tipo de homem parece ter uma aura especial porque infringindo a lei, ele parece mostrar a coragem, o arrojo, enfim, a “macheza”, que é tão essencial para garantir a atração das mulheres pelo sexo oposto. Não é de se espantar por isso, que o goleiro Bruno, recentemente condenado pelo assassinato da namorada, Eliza Samudio e por jogá-la aos cachorros, esteja atualmente noivo de uma moçoila bem bonita, por sinal.

             A disputa é tanta, que Vivi, a protagonista do documentário, jura que vai ainda bater em todas as mulheres com quem o falecido transou, porque afinal, ela sempre foi fiel a ele, as outras não. Ela foi guerreira, tendo ficado ao lado dele, em todos os momentos, mesmo quando ele já não tinha mais dinheiro. Isso é motivo de orgulho para ela, e até de elogio da sogra, que reconhece a constância da nora nas dificuldades. Enfim, uma mulher raçuda, cujo amor não esmoreceu nunca. Atualmente Vivi trabalha como costureira e considera o filho a coisa mais importante da vida dela, já que seu grande amor se foi. Grande mulher! Será? Eu tenho minhas dúvidas, e vou expô-las aos leitores.

              Amor é uma palavra usada, abusada, vilipendiada a torto e a direito, de modo que não pretendo aqui socraticamente iniciar um diálogo sobre o verdadeiro sentido do conceito.Mas vou seguir em parte a maiêutica e estabelecer aquilo que acho que o amor não é. Em primeiro lugar, o amor não pode ser cultivar aquilo que gostaríamos que a pessoa fosse, esquecendo aquilo que ela de fato é. Vivi teimou anos em ficar com um homem envolvido com tráfico de drogas, um homem cujo único gesto de comprometimento que teve com ela, nas próprias palavras da mulher, foi o de levar-lhe flores na maternidade. Aquela migalha a encheu de alegria, porque afinal a mulher média (estatisticamente falando, sem nenhum julgamento de valor) quer um sinal de que seu escolhido tem intenções sérias em relação a ela, seja a apresentando à família, seja dando-lhe uma aliança, seja casando. Reconhecer que Vivi havia dado à luz a seu filho aos olhos dela mostrava que Bruninho (como era conhecido Bruno Rogério no mundo do tráfico) reconhecia que ali estava a família dele.

              Alguns poderão argumentar que sou uma menina mimada, que não posso julgar pessoas que têm condições infinitamente piores que as minhas. De fato, se você nasce em uma favela é muito mais provável que vá conhecer homens envolvidos com algum tipo de atividade criminosa, do que homens de bem, e dizer que Vivi errou porque insistiu com o Bruninho é muita crueldade em vista das condições de uma mulher quenão teve oportunidade de conhecer moços com um futuro mais promissor. Considerando tal ressalva, enuncio minha segunda definição negativa de amor: uma vez tendo construído castelos no ar, o amor não podeser a teimosia de cultivar fantasias que a realidade nos mostrou serem mentiras. Vivi sempre nutriu a esperança de que ele fosse sair da vida do crime, mesmo depois de ele ter passado pela prisão. Infelizmente sabemos que no Brasilo cárcere é apenas um local em que o indivíduo faz mestrado, doutorado e livre docência em criminalidade, pois a maioria dos presos não trabalha e pode se dedicar a aprimorar seus conhecimentos, sua rede de contatos, seus negócios no mundo do crime.A trajetória de Bruno Rogério reflete a taxa altíssima de reincidência a que se refere o jornal O Globo: depois de sair da prisão ele logo voltou ao tráfico e acabou morrendo.

           Não é de se espantar que esse amor deturpado de Vivi, fruto de ignorância e carência, e principalmente de limitações econômicas e sociais, tenha deixado um gosto amargo para ela. Ao se lembrar do seu marido ela sente saudades, vê as fotos dele, mas também sente mágoa e raiva pelo tempo de vida dela perdido na prisão, pelas traições dele, em suma pelo fato de que Bruninho nunca foi e esteve sempre muito longe de ser o pai de família e marido que cuidaria dela e dos filhos. Ela parece viver de um passado, um passado que nunca foi, mas poderia ter sido se o seu amado não tivessese transformado traficante de drogas.

               Vivi, sei que provavelmente nunca lerá este meu artigo, mas faço votos para que se não você, mas suas netas, sejam mulheres educadas, que tenham sua própria profissão, e que quando encontrarem com um homem que não é o príncipe encantado, saibam reconhecer o sapo e deixá-lo para trás, caminhando altivamente em direção ao futuro, que é sempre mais sorridente para aqueles que olham para a frente e não para trás, e não menos importante, para aqueles que têm condições de se recompor depois de um golpe. Oxalá o Brasil um dia deixe de ter mulheres guerreiras e loucamente apaixonadas e tenha cada vez mais mulheres sensatas, racionais.

Categories: O espírito da época | Tags: , , , , | Leave a comment