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A alma do homem e da política, segundo Zaratustra

Posted by on 18/01/2022

A alma do homem, como o universo, era representada como o campo de batalha dos espíritos benéficos e maléficos; cada homem era um guerreiro, gostasse ele ou não, no exército ou do Senhor ou do Diabo; cada ato ou omissão apoiava a causa de Ahura-Mazda ou de Ahriman. Era uma ética ainda mais admirável do que a teologia – se o homem precisa ter apoios sobrenaturais para sua moralidade; ele [o zoroastrismo] dava à vida comum uma dignidade e uma significância maiores do qualquer uma que poderia advir de uma visão de mundo que via o homem (na expressão medieval) como um verme miserável ou (nos tempos modernos) como um autômato mecânico.

Trecho retirado do livro “Our Oriental Heritage”, do historiador e filósofo americano Will Durant (1885-1981) explicando a religião fundada por Zaratustra, profeta persa do século VII a.C.

Se tudo fosse tão simples! Quem dera que houvesse pessoas más em algum lugar cometendo atos malévolos insidiosamente, e fosse necessário apenas separá-las do resto de nós e destruí-las. Mas a linha que divide o bem do mal passa pelo coração de cada ser humano. E quem está disposto a destruir uma parte do seu próprio coração?

Trecho retirado do Arquipélago Gulag do escritor russo Aleksander Solzhenitsyn (1918-2008)

 

    Prezados leitores, na semana passada foi meu humilde intento mostrar como há muitos elementos religiosos no movimento ambientalista, no sentido de considerar que aquecimento climático é uma punição da Natureza pelos pecados do homem que só será resolvido quando este corrigir seu comportamento e praticar a virtude ambiental. Citando Konstantin Sakkas, filósofo e historiador, quis apontar que o tempo da Terra e o tempo do Homo Sapiens são totalmente diferentes, pois um se mede em bilhões de anos e o outro em milhares de anos. Assim, nossa capacidade de influenciar para o bem ou para o mal a vida na Terra é infinitesimal e a continuidade ou o perecimento dela acontecerão independentemente dos esforços de redenção do nosso comportamento pecador. Nesta semana, meu objetivo é enfocar um outro elemento religioso presente em nós, indivíduos do século XXI que temos como uma das principais características não mais partilharmos uma religião como outrora era praxe no mundo ocidental. Falo dessa luta entre o bem e o mal, a qual foi exemplificada na teologia do zoroastrismo, conforme explica Will Durant em seu livro ao falar sobre a Pérsia.

    Não se sabe se Zaratustra realmente existiu ou não, mas o fato é que ele cultuava o Senhor da Luz, Ahura-Mazda, que ao final dos tempos derrotaria Ahriman, o Príncipe das Trevas. Como lhe é típico Durant, analisa os pontos positivos e negativos do zoroastrismo. Comparando-o com o Cristianismo medieval e com a modernidade ocidental pós-cristã, ele vê nele, conforme o trecho que abre este artigo, uma grande qualidade: a de dar um sentido à vida do homem e não só isso, mas um sentido heroico, pois cada indivíduo é um soldado nas hostes do exército da luz ou das trevas, e cabe a cada um, dotado de livre arbítrio, escolher em qual vai se alistar.

    É preciso ter em mente que na Idade Média o homem era considerado um mísero pecador e que na época em que Will Durant escreveu seu livro, na década de 1930, a visão materialista predominava, segundo a qual o homem era uma partícula de matéria que se relacionava com outras, mas que não tinha sentido transcendente nenhum, pois tais relações eram contingentes. Assim, não admira que para o historiador e filósofo americano ver-se como participante de uma luta entre duas forças antagônicas era algo mais digno, na medida em que colocava a existência individual no epicentro de um drama e não como um fenômeno aleatório e desconectado do grande esquema das coisas. Na teologia do zoroastrismo o homem existia para desempenhar um papel definido que determinaria o sentido último do universo.

    Implicitamente, Durant aponta a grande falha da civilização ocidental tal como ela se apresentava na primeira metade do século XX, qual seja, se reduzirmos o homem à sua vida física, o que resta para ele em termos de ideias, de motivação de vida, de dignidade intrínseca, de sentido de pertencimento a algo maior do que ele? Tal ceticismo está a um passo da desintegração social, pois torna mais difícil que o homem forme laços com o passado e o futuro se ele vive eternamente na materialidade do presente.

    Segundo a descrição de Durant, o zoroastrismo chegou a ser a religião oficial do império persa sob Dario I (550 a.C. – 486 a.C.), mas sua ênfase em um deus único, Ahura-Mazda, ia contra a tradição politeísta do povo que cultuava entre outros o Deus do Sol, Mithra e a Deusa da Lua, Anaita. Depois da morte de Zaratustra, os antigos sacerdotes, chamados de Magos, reassumiram o controle de maneira sutil, incorporando o profeta da nova religião às suas práticas de cura, adivinhação, repetição de fórmulas mágicas e feitiçaria, fazendo na prática com que o combate de Zaratustra à idolatria e à superstição virasse letra morta. De qualquer forma, por mais que a influência histórica do zoroastrismo tenha sido de pouca importância e seus preceitos tenham sido logo esquecidos, ele ainda sobrevive hoje cultuado pelos parses na Índia e no Irã, principalmente em Teerã, Iázide e Carmânia.

    Diferente da visão da luta das forças do bem e do mal, Aleksander Solzhenitsyn, conforme o trecho que abre este artigo, tirado do seu relato sobre sua experiência nos campos de trabalhos forçados do stalinismo, considera que o bem e o mal se digladiam no coração de cada homem, em cada ato que o homem pratica. Não basta apenas que cada indivíduo faça uma única e definitiva escolha de que lado estará na refrega moral. Em cada passo que o homem dá, em cada decisão que toma sobre que rumo tomar, o homem confronta-se com a luta entre seus bons e maus instintos e o desenlace nunca é previsível, pois as circunstâncias mudam, os desejos e paixões são diferentes de um momento para o outro.

    Prezados leitores, quem poderá negar que a visão escatológica do zoroastrismo não influencia nossa cultura ainda que nem saibamos a origem histórica dela? A luta entre heróis e vilões em séries e filmes, as disputas entre figuras políticas polêmicas que tem seus seguidores e seus detratores, ambos ferozes na defesa e no ataque? Pois em 2022, não teremos no Brasil a luta entre o bem e o mal, representados por Lula e por Bolsonaro, a depender da opinião política de cada um?

    Por outro lado, uma pitada de Solzhenitsyn não faria mal ao nosso debate político. Nem monstros nem santos, cada homem é santo num momento e monstro no outro, de forma que os rótulos, as estigmatizações, como “hostes bolsonaristas” e “hostes lulistas”, “negacionistas”, “tiozão do pavê”, “petelhos”, “terraplanistas”, “comunistas” que se preparam para se digladiar neste ano servem mais para confundir do que para explicar. Os epítetos colados a um ou outro grupo fazem da disputa política uma luta entre o bem e o mal que não serve para solucionar problemas pois não permite consensos nem denominadores comuns, apensa visa a derrota do inimigo. Oxalá que o povo brasileiro saia desse belicismo insuflado pela mídia e as pesquisas eleitorais incessantes e saiba perceber que o buraco é mais embaixo do que o nós versus eles.

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