O poder que governa interiormente, quando em harmonia com a Natureza, tem uma atitude em relação aos acontecimentos que lhe torna possível adaptar-se com facilidade a qualquer coisa – dentro dos limites da possibilidade – que lhe seja apresentada… Seja como o promontório contra o qual as ondas se batem continuamente; mas o promontório continua firme enquanto as águas atormentadas submergem para repousar à sua volta…
Este infinitesimalmente curto espaço de tempo é algo que deve ser passado em concordância com a Natureza e transposto com decoro – como uma azeitona que cai quando está madura, como benção para a Natureza que a criou e gratidão pela árvore que a produziu.
Trecho retirado das Meditações do imperador-filósofo Marco Aurélio (121-180)
Sempre devemos ter em mente que além da vontade não há nada bom ou ruim, e que não devemos tentar prever ou guiar os acontecimentos, mas simplesmente aceitá-los com inteligência.
Aforismo de Epictetus (55 a.C.-135 d.C.), filósofo associado à corrente do Estoicismo
A filosofia é a ciência da sabedoria e a sabedoria é a arte de viver. A felicidade é a meta, mas a virtude, não o prazer, é o caminho. As velhas máximas ridicularizadas estão corretas e são eternamente corroboradas pela experiência; no longo prazo a honestidade, a justiça, a paciência, a gentileza nos trazem mais felicidade do que o que vem da busca pelo prazer. O prazer é bom, mas somente quando é consistente com a virtude.
Trecho retirado do livro “Caesar and Christ” do filósofo e historiador norte-americano Will Durant (1885-1981) sobre a filosofia estoica de Sêneca (4 a.C.-65 d.C.)
Prezados leitores, quem de nós ainda não sofreu nesta vida? Quem não perdeu um ente querido ou teve que cuidar de alguma pessoa doente ou teve que visitar a pessoa no hospital? Quem não sofreu um amor rejeitado? Quem não sofreu violência física, manipulação psicológica? Quem não se sentiu culpado pelas bobagens que outro fez? Quem não foi oprimido por um chefe injusto? O sofrimento é parte da vida e no entanto, em nossa sociedade do consumo, isso fica escamoteado. Afinal, um dos princípios fundamentais dela é que podemos resolver todo e qualquer problema adquirindo um produto ou serviço: o dinheiro dá acesso ao conforto material e o conforto material nos livra do sofrimento e nos faz felizes.
Daí que em nossa sociedade lidamos com a morte, com a doença e com a velhice adquirindo algo que está fora de nós. Se estamos com angústia existencial, pessimismo desenfreado ou desmotivação total procuramos um psiquiatra que nos aloca uma hora de seu tempo, se pagarmos o suficiente. Nesse intervalo de tempo, ele irá desempenhar o papel de pessoa interessada em nossos dramas e nos escutará, oferecendo-nos sempre ao final a solução definitiva dos nossos males em termos de alguma droga psicotrópica. Se estamos com algum distúrbio no corpo ou sofrendo os efeitos do passar dos anos, vamos em busca de saúde com algum médico que nos receite remédio ou suplemento vitamínico que restaure o bem-estar e postergue o mais possível o desfecho final.
Tais soluções terceirizadas nem sempre trazem os benefícios prometidos: drogas psicotrópicas e remédios em geral têm efeitos colaterais, de forma que podemos resolver um problema e criar outro ao recorrermos às pílulas. Há muitas doenças sobre as quais os médicos não sabem a causa, mas apenas a sintomatologia. É o caso da síndrome das pernas inquietas, da qual padeço há 20 anos e para qual receita-se gabapentina, que pode causar dores de cabeça e vômitos. Para piorar o cenário, como somos cada vez mais individualistas e nossas relações com os outros são cada vez mais frágeis, tendemos a ver o mundo sob nosso ponto de vista solipsista.
Isso faz com que quando enfrentamos dificuldades na vida achamos que o mundo é injusto conosco, porque não fomos maus o suficiente para merecermos tal castigo e que tais dificuldades são únicas e especialmente intensas. De forma que em nossa sociedade de consumo, o sofrimento adquire uma amplidão toda especial, seja porque não sabemos relativizá-lo comparando-o a outras pessoas e a outras épocas, seja porque as soluções além de nós não estão ao nosso alcance por serem temporárias ou por serem caras.
Como contraponto a esta busca exterior de mitigação das tribulações cotidianas, apresento-lhes uma alternativa que foi proposta na Grécia e Roma antigas e que atende pelo nome de estoicismo. Não cabe aqui neste humilde espaço traçar um histórico detalhado dessa escola filosófica, mas apenas explicar alguns de seus princípios citando três de seus expoentes em ordem cronológica do mais antigo para o mais novo: Epictetus, Sêneca e Marco Aurélio. A proposta básica do estoicismo é que o homem viva de acordo com as leis da Natureza. Isso pode soar sem sentido, porque ao mesmo tempo é muito amplo e muito vago. Quais leis da Natureza? A lei da gravidade? Os princípios da termodinâmica?
Na prática estoica, viver de acordo com a Natureza é aceitá-la como ela é, nem boa nem má: ela não está contra nós nem a favor de nós, muito pelo contrário, somos parte dela e lutar contra isso é uma perda de tempo. Não temos controle sobre os acontecimentos externos, como afirmou Epictetus no aforismo citado acima, só temos possibilidade de controle da nossa vontade de adaptar-se àquilo que não podemos mudar, de maneira inteligente, de modo a minorar as tribulações pelo exercício de nossas faculdades mentais.
Daí que o imperador romano Marco Aurélio, que estudou os Discursos compilados pelo discípulo de Epictetus, Arrian, compara o home estoico a um promontório, conforme o trecho que abre este artigo. Se a vida consiste em ondas que nos atingem continuamente, o tal do sofrimento inerente à condição humana, o melhor a fazer é nos transformarmos em um promontório que não procura acabar com as ondas, já que isso é impossível, mas apenas absorver o choque e continuar incólume, ereto, apesar das chicotadas constantes. E quando a morte vier não devemos ver a coisa de forma muito dramática: a azeitona que cai na terra depois de frutificar a fertiliza de novo, perpetuando o ciclo.
Se fazer certo é evitar o pior cenário da inundação, mitigando as perdas, a contrapartida de tal comportamento é evitar os prazeres exagerados, para estar em harmonia com a Natureza, não extraindo mais dela do que nossa parte justa. Nesse sentido, a lição de Sêneca, que foi tutor do imperador Nero (37-68) e foi por este coagido a se matar, acusado de tramar a deposição do imperador, é a de que os prazeres só podem ser usufruídos por meio do exercício da virtude. Conforme o trecho que abre este artigo, dedicar-se a uma vida de prazeres não compensa, porque no longo prazo o que traz a felicidade é controlar os instintos e paixões de modo que não causemos nosso próprio sofrimento e o sofrimento daqueles com os quais temos relações. Quem só se concentra em deleitar-se está sempre na penúria, querendo uma dose mais alta do prazer para satisfazer-se.
Prezados leitores, talvez o estoicismo erre ao menosprezar o papel motivador das paixões na vida dos homens e ao sobrestimar o valor e a confiabilidade da razão para guiar nosso comportamento. Por outro lado, em nossa sociedade das mídias sociais, em que somos cada vez mais encorajados a chamarmos a atenção para nós mesmos para conquistarmos aplausos e a glória fugaz dos likes, não custa lembrarmo-nos de que somos fragmentos na infinitude e momentos na eternidade. Se não conseguirmos ter um milhão de amigos no Facebook ou de seguidores no Instagram podemos continuar tocando a vida, apreciando as águas revoltas, mas não nos deixando submergir. Coloquemos uma pitada de estoicismo em nossas vidas e a ansiedade e a frustração tão característicos do nosso mundo digital diminuirão, com certeza!