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Racionalidades

Posted by on 01/10/2025

Ele era simplesmente um homem cujos desejos tinham sido mais fortes que as suas crenças teóricas e que gradualmente havia explicado a gratificação dos seus desejos de maneira a acordá-la satisfatoriamente com aquelas crenças. […] Mas um homem que acredita em algo além da sua própria cobiça necessariamente tem uma consciência ou padrão ao qual ele mais ou menos se adapta. O padrão de Bulstrode tinha sido sua utilidade para a causa de Deus.

Trecho retirado do livro Middlemarch, escrito por George Eliot, pseudônimo da escritora inglesa Mary Ann Evans (1819-1874)

 

Há algo no nosso cérebro que é determinado pela embriologia, que por sua vez é determinada pelos genes que nos tornam suscetíveis não só à religião, mas a todas as coisas em que acreditamos e nas quais somos suscetíveis a acreditar. […] Provavelmente há um componente genético na religião. Onde você pode estar errado é em pensar que pelo fato de haver uma tendência genética de tornar-se religioso você não pode se livrar disso. […] Você pode ter uma tendência genética a ser religioso, mas você pode superar isso pela educação e pela racionalidade.

Resposta do biólogo britânico Richard Dawkins (1941-) à pergunta de uma pessoa da plateia sobre a origem genética das crenças religiosas durante uma palestra em 9 de novembro de 2024 em Antuérpia, na Bélgica

    Prezados leitores, nesta semana eu volto ao livro Middlemarch, de George Eliot, para focalizar mais um dos seus personagens, Nicholas Bulstrode um banqueiro residente na fictícia cidade e que pertence à Igreja Metodista. Ler Middlemarch é receber um soco no estômago devido às duras verdades que ele contém. Tanto é assim que nunca tive interesse em assistir à série produzida pela BBC em 1994. Já assistir à adaptação de Pride and Prejudice, de Jane Austen (1775-1817), é sempre um prazer, porque o livro é leve, cheio de diálogos facilmente transponíveis para a tela, e o final é feliz. Em Middlemarch a autora mergulha na consciência dos seus personagens, descrevendo o que lá vê e fazendo uso esporádico das trocas de palavras entre as pessoas. E o que George Eliot vê é assombroso no caso de Nicholas Bulstrode.

    Quando jovem, Bulstrode foi adotado pela família Dunkirk, que fez fortuna penhorando bens roubados. Ele casa com a viúva, mais velha que ele, e deliberadamente esconde dela a localização da filha Sara de maneira que ele herda sua fortuna depois que a esposa morre desgostosa de a filha ter desaparecido e nunca ter retornado ou dado notícias. Bulstrode casa de novo e vive em Middlemarch, onde goza de posição social respeitável, incluindo a de filantropo. Ocorre que um dia seu mundo cai quando um certo John Raffles, que havia ajudado Bulstrode a achar Sara e é pago por ele para ficar calado, aparece ameaçando contar tudo. Raffles acaba morrendo na casa de Bulstrode por uma overdose de ópio ministrada erroneamente para tratamento de uma crise alcoólica.

    Os trechos que abrem este artigo flagram o momento da história em que Bulstrode está com Raffles em sua casa, doente, e conjectura o que fazer para resolver o problema colocado pela presença dele em Middlemarch. George Eliot, descrevendo o fluxo de consciência de um homem que se considera ético e seguidor dos preceitos cristãos como Bulstrode, nos mostra as complexidades da crença religiosa.  Bulstrode nunca foi um homem humilde, magnânimo, amoroso. Ao contrário, seu objetivo era subir na vida, enriquecer e conquistar poder e influência. E para conciliar essa indiferença que ele nutre em relação a outras pessoas que não sejam ele com a ideia que tem de si mesmo de que é um homem piedoso, ele faz uso de malabarismos intelectuais.

    Se Bulstrode privou a esposa da felicidade de reencontrar a filha e o neto para ficar com o dinheiro para si, ele o fez para realizar a obra de Deus: o dinheiro estava em melhores mãos se ficasse com ele, um homem com tino para os negócios e que acabara de fundar e financiar um novo hospital em Middlemarch, do que se tivesse ficado com uma mulher que dilapidaria a fortuna na satisfação dos seus prazeres carnais e materiais. Sob essa ótica se Bulstrode pecou ele o fez para servir a Deus por meio do bom emprego do dinheiro. Realizando os desígnios de Deus na Terra, o banqueiro ambicioso e cheio de cobiça continua a ter uma avaliação positiva do seu próprio comportamento, pois ele estabelece como padrão de julgamento aquilo que ele considera como os objetivos divinos, jamais questionando se tais objetivos são realmente oriundos do Todo-Poderoso ou se são simplesmente uma desculpa que sua mente brilhante arranja para justificar seu comportamento perante si mesmo e continuar crendo-se o mais religioso dos homens, apesar do mal que ele causa a várias pessoas ao redor de si.

    O personagem do metodista hipócrita permite a George Eliot demonstrar uma verdade incômoda. Não é a religião que torna as pessoas mais ou menos morais. Um psicopata rematado como Bulstrode, que usa as pessoas como instrumentos para satisfazer sua ambição – inclusive as pessoas de sua família que o amam verdadeiramente – não será jamais disciplinado pelos mandamentos éticos do cristianismo que ele prega. As faculdades mentais do banqueiro, inesgotáveis na astúcia, são sempre usadas para descartar qualquer imperativo categórico de comportamento e reforçar suas tendências egoístas, dando-lhes um verniz de respeitabilidade e motivando-o a seguir em frente, crente que está realizando a obra de Deus. Temos então um homem que engana os outros e que engana a si mesmo pretendendo ser algo que não é, isto é, um homem que se solidariza com o resto da humanidade.

    Nesse sentido, o único padrão de referência para Bulstrode é ele mesmo e sua versão peculiar do que é a religião, moldada para satisfazer suas paixões. Ao ser descoberto, ele não mostra arrependimento nem mesmo à segunda mulher que não o abandona e segue com ele para outra cidade, fiel na tristeza e na ignomínia. Incapaz de amar e de reconhecer o amor nos que o rodeiam, Bulstrode continua a crer que é um homem de Deus, apesar de assassinar Raffles. Portanto, o discurso religioso, por mais perfeitamente que possa ser proferido por um indivíduo não garante que a pessoa agirá de maneira ética, porque a vontade de ser ético está no coração do indivíduo e o coração de Bulstrode era uma pedra de gelo.

    George Eliot talvez fosse partidária do ateísmo, talvez apenas desconfiasse das pessoas que fazem questão de alardear sua virtude aos quatro ventos por vaidade ou talvez achasse que o ensinamento básico de Cristo, o amor, tivesse se perdido na doutrina das igrejas institucionalizadas. Não é possível sabermos o que ela pensava exatamente da religião porque àquela época falar abertamente desse assunto era perigoso e o melhor era fazê-lo por meio de personagens fictícios. Este não é o caso de Richard Dawkins, o biólogo nascido em Nairóbi que critica abertamente a religião. Conforme o trecho que abre este artigo, para Dawkins, a predisposição a crer é um componente genético do homem, como a cor dos cabelos ou a propensão ao câncer. Esse gene teve um papel na sobrevivência do homem na Terra na medida em que crer em determinadas coisas era útil para criar uma unidade do grupo e forjar laços entre seus membros que lhes permitissem enfrentar melhor os inimigos da outra tribo. Mas para o autor de “The Blind Watchmaker” e “The God Delusion”, em pleno século XXI a crença no transcendente a despeito dos fatos e do conhecimento sobre o mundo natural já acumulado pela civilização não faz mais sentido. É melhor que esse gene seja desativado pela educação e pelo exercício da razão, que abre a mente humana para enfocar o que pode ser constatado materialmente.

    Prezados leitores, entre a racionalidade maquiavélica de Bulstrode e a racionalidade científica de Dawkins, não é difícil escolher qual a melhor do ponto de vista ético. Uma serve para o engrandecimento de um indivíduo em detrimento de todos os que o cercam, a outra serve para descobrir os mecanismos do mundo de forma que possamos viver melhor nele. Por outro lado, não é tão fácil determinar que papel a religião pode ter se ela não é necessariamente o fundamento da moral e ao mesmo tempo não é fácil justificar moralmente a ciência que leva à produção de armas nucleares. Será que no frigir dos ovos o fundamento da racionalidade e da moralidade não deve ser o amor ao próximo ou o esforço de amar o próximo? Para evitarmos tanto a hipocrisia religiosa quanto o desenvolvimento tecnológico desumanizador a receita é aquela que Cristo pregou na Palestina e que sobrevive a despeito de todas as traduções, traições e deturpações da mensagem ao longo de 2.000 anos.

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