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A História das verdades e das mentiras

Posted by on 30/04/2026

“Baudolino”, dizia-lhe, “és um mentiroso nato.”

“Mestre, por que dizes isso?”

“Porque é verdade. Mas não penses que te censuro. Se queres transformar-te num homem de letras, e, quem sabe um dia, escrever Histórias, deves também mentir, e inventar histórias, pois senão a tua História ficaria monótona. Mas terás de fazê-lo com moderação. O mundo condena os mentirosos que só sabem mentir, até mesmo sobre coisas mínimas, e premia os poetas que mentem apenas sobre coisas grandiosas.” 

Trecho retirado do romance histórico Baudolino, do escritor e filósofo italiano Umberto Eco (1932-2016)

“…numa grande história podem-se alterar pequenas verdades, para ressaltar a verdade maior”

Trecho retirado do romance histórico Baudolino, do escritor e filósofo italiano Umberto Eco (1932-2016)

[…] das peças de Sófocles e Eurípides, até então completamente preservadas, só uma minoria sobreviveu. Milhares de obras-primas artísticas foram roubadas, mutiladas ou destruídas.

Trecho retirado do livro “A Idade da Fé”, do historiador e filósofo americano Will Durant (1885-1981)

Prezados leitores, imaginem a cena: um camponês adolescente está num pântano em meio a um bosque no noroeste do que hoje é a Itália e vê um homem ruivo passar com seu cavalo. A névoa cobre tudo e o cavaleiro está obviamente perdido. Avistando o adolescente, o grande homem que fala uma língua estranha pede-lhe ajuda para sair dali. O camponês, que conhece o lugar como a palma de sua mão, guia o cavaleiro para fora do pântano e quando chegam em local seguro é testemunha de algo impressionante: ao avistarem o cavaleiro várias pessoas se ajoelham prestando-lhe homenagem. Ele é nada mais nada menos do que Frederico Barba Ruiva (1123-1190), o Imperador do Sacro Império Romano Germânico, que estava então em sua primeira campanha militar transalpina, fazendo o cerco de Tortona, em 1155, uma das cidades-estado da península que resistiam à autoridade do Imperador e não lhe prestavam a devida vassalagem em termos de tributos e contribuições de homens para campanhas militares.

Para recompensar o camponês que o salvou, chamado Baudolino, Frederico lhe dá uma moeda de ouro. O adolescente, para impressioná-lo, diz-lhe que Santo Baudolino aparecera para ele e lhe dissera que o imperador teria uma grande vitória em Tortona, porque Frederico era o senhor único e verdadeiro de toda a Lombardia. O imperador repete essa história da aparição para um grupo de cavaleiros que a espalham pelo acampamento do cerco. Por coincidência – ou não – lá estavam também os mensageiros de Tortona, que negociavam um fim ao cerco e ainda não se haviam decidido render-se ou não. Ao ouvirem sobre Santo Baudolino os tortonianos optam pela capitulação, porque se até os santos estavam contra eles, eles não iriam aguentar muito. Imediatamente ao saírem da cidade os alemães entram na cidade e a destroem, não deixando pedra sobre pedra.

Frederico, grato ao camponês pela história da aparição do santo que lhe permitira conquistar a cidade de Tortona, chama Baudolino para ir com ele para a Alemanha, onde o contador de histórias providenciais iria aprender a escrever. E é assim que o escritor Umberto Eco nos introduz ao personagem principal de seu romance Baudolino, em que se discute a natureza do contar histórias. A discussão é propiciada pelo encontro de Baudolino com dois personagens que existiram no mundo real: o bispo Otto von Cappenberg (1100-1171), padrinho e tio de Frederico, sob cujos cuidados o Imperador coloca Baudolino; e o historiador bizantino Nicetas Coniate (1155-1217), a quem Baudolino salva durante a pilhagem e incêndio de Constantinopla empreendidos pelos cruzados em 1204.  

A própria narrativa do episódio do cerco de Tortona é uma exemplificação dessa concepção de História explicada no trecho que abre este artigo, um diálogo entre Baudolino e seu preceptor Otto. A História é uma mentira no sentido de ser uma criação, mas não se pode mentir sobre tudo, porque se perde a credibilidade, deve-se mentir apenas sobre as coisas importantes, que fornecem a chave do sentido da História. O cerco à cidade rebelde de Tortona pelas tropas imperiais de fato ocorreu, assim como a destruição da cidade. O detalhe modificado na narrativa apresentada pelo escritor italiano faz toda a diferença para concatenar os fatos e dar-lhes uma moldura. Os habitantes da cidade não se renderam depois de ouvirem a história da aparição de Santo Baudolino, mas depois que Frederico contaminou o abastecimento de água da guarnição que defendia Tortona com cadáveres e enxofre e breche em chamas. 

Contar que a cidade capitulou porque reconheceu que os santos estavam ao lado de Frederico dava respaldo à imagem do Imperador como a autoridade a ser respeitada, porque seu poder vinha de Deus. Sob essa perspectiva, a História de Frederico Barba Ruiva é a História do Imperador do Sacro Império Romano Germânico que lutou pela afirmação da sua autoridade em contraposição àquela dos papas, que se diziam os únicos autênticos representantes de Deus na Terra. Quem tinha mais conexão com Deus, de onde emanava o poder e a legitimidade para governar as pessoas? Os imperadores e reis, detentores dos poderes temporais, ou o papa, detentor do poder espiritual da Igreja? 

No contexto de tal disputa, mostrar um santo dar ganho de causa ao Imperador ao aparecer a um camponês de alma simples e boa fazia toda a diferença: era contar uma pequena mentira para ressaltar a verdade maior, conforme Nicetas Coniate explica ao sábio Pafnúcio ao dar-lhe uma lição no final do livro sobre como escrever uma grande História. A verdade maior era que em uma História da vida de Frederico Barba Ruiva, Deus estava ao lado do Imperador, que era a autoridade verdadeira e legítima, porque seu poder tinha-lhe sido concedido pelas potestades celestes lá no alto.

Nesse sentido, a História tem uma dupla natureza: ela é verdadeira e falsa ao mesmo tempo. Ela contém elementos factuais, corroborados por testemunhas oculares, mas também tem elementos não factuais, mitos inseridos na narrativa dos acontecimentos para dar à História uma chave de interpretação, sem a qual os fatos enumerados seriam apenas uma coleção de itens disformes, que passariam desapercebidos. Como escrever a História sem saber o fim a que ela se destina? É este desafio que é enfrentado por Otto e por Nicetas em sua filosofia da História: a combinação correta de pequenas mentiras com grandes verdades estabelece o roteiro para o historiador exercer seu ofício sem ser acusado de ser mentiroso contumaz e nem de escritor irrelevante. O historiador é um grande poeta que cria uma narrativa que faz sentido e é plausível, embora não totalmente atrelada à gama de acontecimentos que se desenrolaram.

Prezados leitores, quando forem a Veneza e virem os quatro cavalos sobre a Catedral de São Marco, saibam que eles foram retirados de Constantinopla na Quarta Cruzada, durante a qual o personagem de Umberto Eco conversa com Nicetas Coniate. Eles são fruto de um episódio histórico lamentável em que livrarias, museus, igrejas e casas foram saqueados e destruídos, conforme descreve Durant na “Idade da Fé”. A depender do sentido que se queira dar à História, podemos ver os cavalos de Veneza como símbolos das trocas entre o Ocidente e o Oriente que permitiram à Europa sair do estupor medieval e caminhar a passos largos rumo ao Renascimento. OU então como mais uma evidência das violências perpetradas pelos ocidentais contra os povos do Oriente Médio, a que estamos assistindo em pleno século XXI. Uma coisa é certa: conforme ensina Baudolino de Umberto Eco, a História a ser contada será sempre uma mentira verdadeira e uma verdade mentirosa.

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