Uma pesquisa recente mostrou que a média das pessoas com idade entre 18 e 35 anos tem 237 amigos no Facebook. Quando indagadas sobre em quantas elas podem confiar em uma crise, a resposta média foi dois. Um quarto dos entrevistados disse poder confiar em uma pessoa. Um oitavo disse não poder confiar em ninguém.
Jonathan Sacks, rabino principal das Congregações Hebraicas Unidas da Commonwealth nascido em Londres
Nestaúltima semana recebi um e-mail convocando as pessoas para uma greve geral na segunda-feira, dia 1 de julho. Na verdade a convocação não era por e-mail, mas pelo Facebook, e o e-mail mencionava o número de pessoas que haviam aderido ao chamado. Pois é, os protestos que se iniciaram há duas semanas em São Paulo espalharam-se por todo o Brasil, insuflados em grande parte pela comunicação instantânea possibilitada pelas mídias sociais.
Nossos políticos, que estavam em princípio atônitos, começaram a reagir aos protestos da geração Facebook, comparacendo às sessões do Congresso com mais assiduidade, fazendo discursos. Mas que reação é essa? Será algo positivo? E por trás dessa pergunta, há outra, mais importante: para onde a geração Facebook quer levar o país? Uma resposta a essa pergunta é fundamental para que em um momento de crise econômica e social possamos estabelecer as prioridades corretas e tomar as decisões que nos levem a sacrificar certos bens em prol de outros, que devem ser preservados a todo custo.
A mensagem das ruas parece ser a de menos corrupção, mais saúde e educação, mais transporte, mais segurança, enfim mais serviços públicos. É um anseio típico de classe média, que paga impostos de todas as formas possíveis, na fonte, embutidos no preço, por carnê,e é a que usufrui menos benefícios. Fazendo essa leitura, nossos congressistas se entregaram a uma fúria de aprovação de leis e de discussões de propostas legislativas: tipificação da corrupção como crime hediondo foi a mais sensacional da semana, e há também a velha solução mágica de destinar obrigatoriamente recursos para a educação, no caso as receitas dos royalties do pré-sal.Para não falar da prisão de um deputado por corrupção pela primeira vez desde 1988. Vejam que milagres fazem as pessoas nas ruas: sentir o bafo do povo no cangote faz os poderes constituídos terem um sentido de urgência que lhes falta normalmente, afinal eles estão com a vida ganha, ao contrário da maioria dos brasileiros que não tem emprego vitalício bem remunerado.
Vamos por partes. Ontem eu assistia ao jornal de notícias e o membro de uma ONG falava da crise de representatividade, do fato de que os políticos brasileiros constituem uma classe que tem seus próprios interesses, os quais eles defendem com unhas e dentes, e tais interesses não são os mesmosdo povo brasileiro. Tipificar a corrupção como crime hediondo combina com esta ideia de que há certos grupos ou certos tipos de pessoas corruptos que devem ser estigmatizados como criminosos e colocados à parte. Quem não há de concordar que a prisão do Natan Donadon na Papuda não manda uma mensagem aos pilantras para ao menos irem mais devagar?
Por outro lado, não há como negar que a probidade não é um valor que nós brasileiros tenhamos como muito próximos do coração. Estou no quinto ano de Direito da maior e mais importante universidade do país e não me canso de ver alunos falsificando assinaturas, exercendo influência indevida sobre funcionários da faculdade ou para sermos mais coloquiais, “chavecando” os funcionários para conseguirem “abono” de faltas.A cola é amplamente difundida, e hoje é realizada por meio dos I-phones e smart phones, que permitem a fácil digitalização de imagens. Pior, elaé até encorajada por certos professores que se referem a ela ironicamente como “método de aprendizagem”.
Em suma, nossos valores morais não são suíços, alemães ou nem mesmo asiáticos. Para que a corrupção seja efetivamente combatida no Brasil é preciso que haja um controle prévio ao do Estado, que criminaliza, condena e pune. É preciso que os membros da sociedade estigmatizem tal prática, considerem-na desonrosa e ostracizem o corrupto. Isso está longe de acontecer no Brasil, onde a esperteza e a malandragem acabam sempre tendo um pezinho na desonestidade.
Quanto à educação, e o raciocínio pode ser aplicado aos serviços públicos em geral, antes de fazermos dotações orçamentárias obrigatórias sob a premissa de que mais dinheiro resultará em mais qualidade, cabe uma pergunta prévia. Que tipo de educação quer a geração Facebook?O ensino no Brasil continua sendo em larga medida baseado na decoreba: eu posso contar nos dedos das mãos as questões em que eu tive que resolver algum problema jurídico prático, apesar de estar teoricamente me preparando para exercer uma profissão. Tal método facilita a vida do professor, que não precisa ficar quebrando a cabeça na correção de provas e nem na orientação real do aluno, e a vida do aluno que pode recorrer à cola. No final, chegamos ao denominador comum da mediocridade. As pessoas que clamam na rua por mais educação querem o que? Querem ter diploma de ensino superior de graça conseguidos com o mínimo esforço possível? Ou querem ser estimuladas a um esforço intelectual maior para conseguirem saltos de qualidade?
O ponto a que quero chegar é o seguinte. Esta geração que descobriu as redes sociais como instrumento político precisa também perceber que só conseguiremos de fato mudar este Brasil quando adquirirmos um sentido de sociedade, em que todos tenham obrigações e deveres. Poderemos protestar e as classes dirigentes responderem com plebiscitos, reformas políticas, orgias de leis. Mas enquantonão tivermos a percepção de que uma sociedade deve ser mais do que uma comunidade de pessoas que curtem alguma coisa, acaberemos em uma cacofonia de reivindicações de direitos que jamais poderão ser satisfeitos simultaneamente. E no final poderemos chegar à triste constatação de que nossos amigos do Facebook na verdade são inimigos porque querem as mesmas coisas que nós e não estão dispostos a cedê-las. Oxalá que nós brasileiros consigamos fazer a transição da comunidade Facebook para a sociedade Brasil.