Viver para quê?

Que humilhação quando alguém colocou-se perto de mim e ouviu uma flauta à distância e eu não ouvi nada… Tias incidentes me levaram às portas do desespero; um pouco mais e eu teria dado cabo da minha vida – somente a arte me impediu de fazê-lo, ah, parecia impossível deixar o mundo até que eu tivesse produzido tudo a que eu me sentia chamado a produzir… foi a virtude que me sustentou na minha aflição, a ela e a minha arte devo o fato de que eu não tenha me suicidado.

Trecho retirado do livro “The Age of Napoleon”, escrito por Will Durant (1885-1981) e Ariel Durant (1898-1981), citando uma carta escrita por Ludwig von Beethoven (1770-1827) em 6 de outubro de 1802 a seus irmãos Karl e Nikolaus, que ficou conhecida pelo nome de Testamento de Heiligenstadt

um italianinho pálido, esbelto e franzino, mas com opiniões singularmente audaciosas

Descrição de Napoleão Bonaparte (1769-1821) feita por Boissy d’Anglas (1756-1826), escritor, advogado e político francês durante a Revolução em junho de 1795

    Prezados leitores, imaginem um sujeito de 1,65, bexiguento, pobre, filho e neto de alcoólatras e escuro como um mouro, como se dizia à época. Este indivíduo pouco dotado começa a aprender música impelido pelo pai, tenor no coral do Príncipe-Eleitor de Colônia e que pretendia fazer do filho um prodígio que lhe permitisse ganhar uns trocados, assim como o pai de Michael Jackson fez com ele. O menino não era muito chegado às lições, mas o pai lhe aplicava umas bordoadas que o compeliam a conformar-se em aprender e ele acabou aprendendo e adquirindo um gosto por aquilo que havia sido forçado a fazer. Esse menino é Beethoven e é impossível que alguém com idade ao redor de 50 anos não tenha assistido pela TV à Queda do Muro de Berlim, em 9 de novembro de 1989 e à unificação da Alemanha em 3 de outubro de 1990. Sendo assim, mesmo sendo roqueiro ou roqueira o cinquentão ou cinquentona terá ouvido a Ode à Alegria, a Nona Sinfonia do menino nascido em Bonn, tocada no Portão de Brandemburgo.

    Além de todos os seus problemas vindos da sua herança genética, que o fazia chegado a uma bebida, e da sua modesta condição social, Beethoven padeceu de outro mal, este muito mais trágico, porque insuperável: a surdez, provavelmente resultado dos efeitos da sífilis em seu corpo. Conforme o trecho que abre este artigo, ao descobrir que está ficando surdo, o que ocorre por volta de 1801, Beethoven, que já era um músico profissional que vivia do seu trabalho, desespera-se e escreve seu testamento espiritual e uma apologia da sua vida. Ele não sabia o que seria dele, se conseguiria ainda compor as músicas que fervilhavam na sua mente ou se a surdez seria um impeditivo definitivo. Se assim o fosse, o Testamento de Heiligenstadt revelaria, após a morte do músico, suas melhores intenções, que eram a de continuar tentando, apegando-se ao seu ofício para não cair no niilismo e na tentação do suicídio. E assim Beethoven o fez, tanto que os estudiosos de sua obra consideram que o período de 1803 a 1816 é aquele de maior criatividade, em que ele mudou o sexo das sonatas e das sinfonias, tirando-lhes o sentimento e a delicadeza femininas e dando-lhes a assertividade e a vontade masculinas. Portanto, Beethoven compôs as obras que o imortalizaram – entre as quais a Sinfonia Eroica, a Quinta Sinfonia e a Sinfonia Pastoral, além do Concerto para Piano nº 5 – quando já estava surdo e não conseguia ouvir suas melodias com seus ouvidos físicos, apenas imaginá-las na sua mente e transpor a criação para o papel, para que alguém pudesse tocá-las e apreciar sua beleza.

    Sob a ótica do que ocorreu depois com Beethoven, o Testamento de Heiligenstadt acabou servindo como um roteiro de vida, a enunciação de princípios que norteariam o modo como o músico iria encarar o grande infortúnio da surdez. Não desistir jamais da arte como antídoto contra a morte e como legado que Beethoven deixaria para a posteridade, que poderia usufruir das suas criações como ele jamais poderia fazê-lo. Certo de que tinha algo a oferecer à humanidade, ele perseverou e viveu para atingir seu objetivo de criar. Suas criações embalaram acontecimentos seminais na história do país onde nasceu mais de 150 anos depois da sua morte.

    Há um outro personagem nascido no século XVIII que adentrou o século XIX e que também pensou seriamente em suicídio, pelo menos de acordo com o que ele conta em suas memórias. Este personagem é o arrivista da Córsega, Napoleão Bonaparte. Em dezembro de 1793, Napoleão, já oficial do Exército Francês, destacou-se na captura de Toulon e foi agraciado com a a patente de brigadeiro-general por Robespierre (1758-1794), então chefe do governo revolucionário. Um grande feito para um jovem de 24 anos chegar a general, mas o fato de a promoção ter sido concedida por um homem que seria apeado do poder e guilhotinado fez Napoleão ser considerado um partidário de Robespierre e ser preso em Antibes. Solto depois de 15 dias, Napoleão é aposentado compulsoriamente com soldos reduzidos.

    O que fazer se ele não podia dedicar-se àquilo para o que havia se esforçado e estudado, tendo caído em desgraça aos olhos do novo governo francês? O italianinho de 1,67 descrito por Boissy d’Anglas, conforme o trecho que abre este artigo, pensou em ir para a Turquia e ajudar o sultão a reorganizar seu exército, o que lhe permitiria talvez conquistar algum reino para si que pudesse governar. Na prática, a falta de perspectivas em seu país de adoção, a França, o fez pensar em suicidar-se ao caminhar pelas margens do rio Sena, na primavera de 1795.

    Napoleão foi salvo não por um testamento motivacional como Beethoven, mas pelos caprichos da história. Paul Barras (1755-1829), lembrando dos feitos de Napoleão em Toulon, o chamou para organizar a defesa da Convenção, a Assembleia Revolucionária que governou o país de 1792 a 1795. Cercada em 5 de outubro de 1795 por monarquistas e outros, a Convenção precisava de alguém que comandasse a artilharia e Napoleão o fez de maneira bem-sucedida. Daí ser nomeado comandante do exército francês na Itália passarem-se menos de cinco meses (2 de março de 1796). Começava então a carreira militar e política daquele que viria a ser cônsul e imperador e que em 20 anos lutou mais de 80 batalhas e perdeu 10 delas.

    Prezados leitores, se trago esses dois exemplos de grandes homens que passaram por crises existenciais não é para fazê-los crer que podemos ser gênios da música, ou da guerra ou da política, bastando termos um roteiro de passos a seguir ou sermos agraciados com um golpe de sorte. Em tempos de mídias sociais em que vemos diariamente fotos de pessoas felizes, realizadas, bonitas, ricas e inteligentes a promoverem seus maravilhosos feitos, acabamos nos comparando a todo o mundo, isto é, ao mundo todo, e isso pode ser fonte de insatisfação com nossa própria mediocridade. A pergunta que se põe no século XIX ou no século XXI é a mesma: viver para quê? Beethoven viveu para a arte, Napoleão para o poder e a glória. Nós pobres mortais precisamos descobrir um caminho que nos motive a continuar andando, ao menos para apreciar a paisagem se não for para realizar grandes coisas. Cada um no seu ritmo. Afinal, a vida o que é? É a batida de um coração, como diria Gonzaguinha, e enquanto esse coração pulsar a vida sempre poderá ser bela.

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A virtude em todas as coisas

Confúcio acreditava que o bem-estar de um país dependia do cultivo da moralidade da sua população, a começar da liderança do país. Ele acreditava que os indivíduos poderiam começar a cultivar o sentido abrangente da virtude por meio da ren (misericórdia) e que o passo mais básico para cultivar a ren era a devoção filial – principalmente a devoção aos pais e aos antepassados.

Trecho retirado do artigo “Making Sense of China’s Meteoric Rise”, publicado por Hua Bin e Mike Whitney em 3 de março

Ele considerava que os clérigos deveriam cuidar da sua própria atividade, que era a de pregar virtudes cristãs, não reformas políticas; as virtudes tocam o cerne da matéria, que são as tendências malévolas da natureza humana; as reformas mudam somente as formas superficiais do mal, porque elas não provocam nenhuma mudança na natureza do homem.

Trecho retirado do livro “The Age of Napoleon”, escrito por Will Durant (1885-1981) e Ariel Durant (1898-1981) sobre as ideias do filósofo irlandês Edmund Burke (1729-1797)

 

O homem superior preocupa-se com a virtude; o homem inferior preocupa-se com a terra

Frase de Confúcio, filósofo chinês (551 a.C.-479 a.C.)

 

    Prezados leitores, tenho um sentimento ambíguo em relação ao Carnaval. Tenho inveja daqueles que podem folgar durante cinco dias seguidos e lembro dos bons tempos em que eu também podia e aproveitava para viajar pelo Brasil. Embalada pela alegria dominante, canto músicas de carnaval que acabei aprendendo de cor ao longo da vida, como “É Hoje”, de Caetano Veloso ou algum samba-enredo que ouvi nos tempos em que meu pai assistia a todos os desfiles do Rio de Janeiro pela TV. Ao mesmo tempo, esses dias de Saturnália me mostram um retrato pouco lisonjeiro de nós brasileiros.

    As pessoas fazem xixi na rua, jogam latas vazias e bitucas de cigarro no chão, destroem lixeiras, cantam no ônibus obrigando os outros passageiros a conviver com barulho em um ambiente que não é de entretenimento. É certo que o carnaval movimenta a economia, dando trabalho temporário a camelôs a postos para vender bebidas e salgadinhos aos foliões que sob o sol escaldante destes tempos de aquecimento nos trópicos estão sempre com sede e com fome. Pergunto-me se o que é gerado em receita de vendas compensa o estrago causado na infraestrutura urbana, em termos de equipamentos públicos estragados e a quantidade de lixo que é produzida.

    Esses foliões que impõem sua presença na cidade dançando, cantando, consumindo e descartando os subprodutos da folia fazem questão de mandar seus recados. Houve muitos que se fantasiaram de Fernanda Torres para homenagear nossa candidata ao Oscar de melhor atriz pelo filme Ainda Estou Aqui, como contraponto ao ex-presidente Jair Bolsonaro, o defensor mais conspícuo da ditadura militar (1964-1985) que torturou e matou o marido da personagem vivida por Fernanda, Eunice Paiva. A mensagem dos foliões ao incorporarem a persona da atriz carioca fica ainda mais enfática considerando que de acordo com a denúncia do Procurador-Geral da República, Paulo Gonet, o fã do coronel e chefe de centros de tortura Carlos Brilhante Ustra (1932-2015) está sendo acusado de ter tentado dar um golpe de estado depois da sua derrota nas últimas eleições presidenciais.

    Temos então que esses mesmos foliões que emporcalham a cidade e dão trabalho aos garis e demais funcionários da prefeitura são os mesmos que defendem o filme que denuncia as violações de direitos humanos praticadas por agentes do Estado brasileiro. Alguns perguntarão: Qual o problema disso? Afinal não se pode entrar no transe da Saturnália anual e ao mesmo tempo defender as causas justas como a democracia, os direitos humanos e o meio ambiente? Dois expoentes do pensamento conservador, tanto no Ocidente quanto no Oriente diriam que há um grave problema nessa atitude.

    Para Edmund Burke, autor do clássico do pensamento conservador “Reflexões sobre a Revolução na França”, nenhuma revolução política, que implemente qualquer novo regime que seja – a democracia, a ditadura das massas ou a ditadura de um condottiere – ataca o problema central das sociedades, que é a má índole do ser humano. Em qualquer tipo de organização social a cobiça, a inveja, a paixão estarão sempre presentes e conforme o trecho que abre este artigo o melhor que pode ser feito é cultivar as virtudes cristãs para que as pessoas se comportem melhor, isto é, controlem melhor o lado negro da natureza humana. Para Burke esse trabalho de educação nas virtudes deveria ser feito pela Igreja, sem que seus membros se preocupassem em mudar as instituições políticas para tentar resolver as injustiças sociais.

    À mesma conclusão sobre a futilidade de transformações coletivas, sem que houvesse transformações individuais, chegou o filósofo chinês Confúcio muito antes de Burke e de uma maneira que teve um impacto profundo em seu país. O objetivo do homem deve ser praticar a virtude, começando pelo respeito aos pais, e incluindo a reciprocidade, a lealdade, a sabedoria, a coragem, a confiabilidade e a habilidade fruto da educação. A sociedade será próspera, harmônica e pacífica se cada indivíduo procurar aprimorar-se, pois se todas as pessoas tiverem um comportamento adequado certamente isso dará frutos coletivos. Para Confúcio, a principal qualidade de uma pessoa em posição de liderança deve ser a de fazer a coisa certa. Se o líder faz a coisa certa ele estabelece um exemplo que é seguido por todos.

    Para Hua Bin, o autor mencionado no trecho que abre este artigo, o segredo do sucesso da China está na filosofia confuciana. O país que em 1978 tinha um PIB per capita de US$ 225 hoje tem um PIB per capita de US$ 13.445, o que fez com que 800 milhões de chineses deixassem de ser pobres. De acordo com o autor, esse feito, inédito na história mundial, foi conseguido porque a liderança do país não é nem socialista, nem comunista, nem marxista, nem autoritária e nem democrática, ela é confuciana, isto é, cultiva as virtudes que fazem o homem aprimorar-se, num sistema meritocrático em que os melhores são escolhidos para dirigir as organizações. Sob essa ótica, falar que a China é a nação que está na vanguarda das inovações do século XXI porque ela adotou o capitalismo de mercado ou uma economia mista planejada é passar ao largo do cerne da questão, qual seja: a governança do país é boa – há trens que funcionam, há áreas verdes nas cidades, há serviços de saúde que cabem no bolso dos cidadãos, há educação que ensina a ler, a escrever e a pensar, há oportunidades de realização individual – porque os líderes do país são escolhidos entre os melhores, entre aqueles que melhor souberam cultivar a receita de Confúcio do homem virtuoso e o seu exemplo se espalha na sociedade.

    Prezados leitores, Confúcio, defensor da ordem e da harmonia frente ao caos em que se encontrava a China em sua época, é para os chineses e Burke feroz defensor da monarquia, é para os britânicos. Receitas estrangeiras nunca podem ser aplicadas integralmente em locais com cultura e tradições históricas diferentes. Apesar disso, nós brasileiros nos ajudaríamos muito se antes de criticarmos o comportamento dos nossos governantes fizéssemos um autoexame diário e nos perguntássemos o que podemos mudar em nossa vida para contribuirmos para o bom funcionamento da sociedade. Afinal, como ensinaram Burke e Confúcio, a virtude no andar de baixo acaba espalhando-se para o andar de cima e vice-versa, eis o segredo da felicidade das nações.

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A IA e os maratonistas do século XXI

O futuro da IA não será conquistado se nos preocuparmos exageradamente com a segurança, será conquistado construindo a IA.

Trecho do discurso do vice-presidente dos Estados Unidos, J. D. Vance proferido em 11 de fevereiro na cúpula sobre Inteligência Artificial realizada em Paris

Ele alertava sobre deixar que o progresso da ciência, que simplesmente aprimora nossas ferramentas, ultrapassasse o desenvolvimento da literatura e da filosofia, que considera nossos objetivos, de forma que o exercício irrestrito da faculdade do cálculo tinha enriquecido ainda mais a minoria inteligente, e havia aumentado a concentração de riqueza e de poder.

Trecho retirado do livro “The Age of Napoleon”, escrito por Will Durant (1885-1981) e Ariel Durant (1898-1981) sobre as ideias do poeta romântico inglês Percy Bysshe Shelley (1792-1822)

Muitas empresas têm reportado que enfrentam um problema que já compromete suas atividades e investimentos: está difícil contratar trabalhadores, e o motivo principal não é o número mais baixo de desempregados, como o senso comum poderia supor. A situação é fruto de uma desregulação mais grave do mercado de trabalho. “A escassez é generalizada”, diz Anaely Machado, economista do Observatório Nacional da Indústria. “A falta de pessoal vai desde as funções mias simples até as mais qualificadas.”

Trecho do artigo O apagão de mão de obra, publicado na revista VEJA de 21 de fevereiro

A vida não é uma corrida de cem metros, que termina em segundos. A vida é uma maratona cada vez mais longa. E maratona precisa de perseverança, determinação, resiliência e sobretudo de aprendizado. O País só vai dar certo com educação da infância à velhice”.

Trecho de palestra dada pelo geriatra Alexandre Kalache, presidente do Centro Internacional de Longevidade Brasil em 14 de outubro de 2024

    Prezados leitores, o mundo dos sprinters ficou para trás, chegou a era dos maratonistas. Somos todos maratonistas, isto é, pessoas que terão muito mais de meio século de vida e não tendo o medo de morrer que acometia nossos antepassados, que corriam contra o tempo e tentavam fazer tudo o que podiam antes que “A Ceifadora” os pegassem, precisam aprender o que fazer com uma vida tão longa. O desafio dos maratonistas é cadenciar o ritmo, tornar o esforço físico suportável ao longo do tempo de corrida, não acelerar demais para não cair de maduro no meio da pista e ao mesmo tempo não ser muito lentos que nos faça sermos os últimos a cruzar a linha de chegada. Qual o segredo do equilíbrio, da sintonia fina entre ritmo e regularidade?

    Para Alexandre Kalache, citado na abertura deste artigo, o segredo é cultivar bons hábitos de alimentação e exercícios e aprender continuamente, fazer da vida uma eterna sala de aula para que possamos nos adaptar às diferentes fases da vida e aproveitar o que cada uma tem de bom. E observando o que está acontecendo no Brasil neste momento sua ênfase no aprendizado parece justificar-se.

    A taxa de desocupação no país está em 6,2%, a menor desde 2012, mas ela esconde um grave problema: a grande defasagem entre a mão de obra de que as empresas precisam e aquilo que as pessoas oferecem, de forma que as vagas abertas não são preenchidas pelo fato de que os que estão à busca de um emprego não têm as qualificações necessárias. De forma que se os trabalhadores estivessem investindo no aprendizado contínuo, como preconiza Kalache, a taxa de desemprego seria muito menor, pois 60% das empresas hoje no Brasil enfrentam dificuldades para preencher vagas, de acordo com o artigo de VEJA, tanto que deixam de investir e de expandir a produção por causa desse apagão.

    Que maravilha então para os maratonistas! Com empresas ávidas por achar gente para trabalhar e assim poder fazer dinheiro, basta adquirirmos as qualificações necessárias e conseguiremos emprego em todas as etapas da vida. Poderemos assim seguir tranquilamente na corrida, mantendo o passo firme e constante, hidratados e alimentados, sob o sol tropical, cada vez mais escaldante, sem medo de entrarmos em colapso no meio do caminho. Será? Como diria o poeta, tinha uma pedra no meio do caminho.

    Essa pedra se chama inteligência artificial. Ela reconhece padrões, resume e traduz textos, escreve seguindo o estilo de determinado autor, colhe informações e apresenta conclusões. Foi-se o tempo em que os robôs eram colocados no chão de fábrica ou no fundo do mar para realizar tarefas perigosas ou cansativas, que poderiam matar ou injuriar o homem. Hoje, o Grok e o ChatGPT estão na tela do seu celular, respondendo em poucos segundos a uma pergunta sobre sintomas médicos, elaborando uma petição com base nos dados que o usuário insere e por aí vai. O que será daqueles profissionais que antes realizavam tudo isso por si mesmos? O que será dos tradutores que vertem de uma língua para a outra, dos advogados que produzem uma argumentação a ser apresentada ao juiz, do médico que faz diagnósticos com base no que o paciente lhe relata?

    Eles podem se transformar em revisores do que a IA entrega, retocar o produto final, corrigir erros, melhorar o texto, checar o diagnóstico fazendo o exame físico do paciente. Mas serão necessários tantos revisores quanto o número de pessoas que eram responsáveis pela elaboração do produto ou serviço em todas as suas etapas? Atualmente nas empresas, a IA é apresentada em uma bandeja dourada com laço de fita vermelha, como uma nova ferramenta que ajudará os funcionários a serem mais produtivos, a entregarem com qualidade maior, e devemos estar todos entusiasmados com essa inovação tecnológica, pois como cantava Elis Regina, o novo sempre vem. Melhor aceitá-lo e fazer as devidas adaptações.

    É o que pensa também o vice-presidente dos Estados Unidos, J. D. Vance, conforme ele explicou em sua palestra sobre IA em 11 de fevereiro em Paris. Não vale a pena preocupar-se com a segurança da IA e muito menos tentar controlá-la, impondo normas regulatórias. Isso só inibirá a inovação e o investimento e a IA tem o potencial de causar uma disrupção na economia, uma destruição criativa de funções que pode levar à Sociedade 5.0 ou à sociedade super inteligente, em que todos os aspectos da vida serão organizados por meio de dados, em que a ação humana ficará limitada ao fornecimento de dados às máquinas, que serão capazes de coletá-los, processá-los e transformá-los em produtos e serviços. Em suma, a IA deve ser uma cria do capitalismo, o melhor sistema de produção de riquezas que o mundo já conheceu.

    Sob essa perspectiva, coibir o desenvolvimento da IA por meio de proibições e restrições é privarmo-nos da oportunidade de crescimento da economia por meio do investimento em um novo mercado que com certeza criará novas atividades e portanto, novos empregos. Mas será que se a IA tiver rédea solta ela não acabará desenvolvendo-se mais rapidamente do que a capacidade dos trabalhadores de atualizarem suas qualificações?

    No Brasil ocorre o apagão da mão de obra porque a educação no geral é ruim demais para preparar as pessoas para um mercado que mal chegou à era digital. O que ocorrerá daqui a alguns anos, quando tivermos importado ferramentas de IA dos Estados Unidos (ChatGPT) ou da China (DeepSeek), por exemplo? Nossa educação, já retardatária para a era do uso disseminado de computadores, estará a anos-luz da era da Sociedade 5.0, em que o emprego estará disponível somente para aqueles que saibam desenvolver ferramentas de IA, pois os outros terão sido substituídos pelas máquinas.

    A calamidade vislumbrada pelo poeta romântico inglês Shelley pode estar à nossa porta, conforme o trecho que abre este artigo: a ciência e a tecnologia desenvolvidas exponencialmente para o benefício de uns poucos e o desespero da maioria. Shelley, morto aos 30 anos no mar, criticava o fato de nem católicos nem protestantes buscarem exercer a compaixão pregada por Cristo nas suas relações com os mais pobres. Afinal, a Primeira Revolução Industrial foi executada às custas dos operários das fábricas, que trabalhavam muito mais de 8 horas por dia em condições insalubres, porque esse era o modo eficiente de produzir que gerava lucro e permitia reinvestir. Pode ser que a Sociedade 5.0 seja erigida sobre a pilha de trabalhadores tornados obsoletos cujo futuro na vida será o de receber uma renda mínima mensal para subsistência em um mundo sem emprego.

    Prezados leitores, nesses tempos de maratona que estamos vivendo no século XXI, a IA pode acabar exercendo o papel daquele espectador que se coloca na rua à espera do corredor e que ao tentar agarrá-lo, destrói suas chances de vencer tirando-lhe o foco e quebrando-lhe o ritmo. Só nos resta torcer para que as mentes brilhantes dos calculistas que desenvolverão a IA na sua máxima potencialidade reflitam sobre as consequências que ela terá para os maratonistas, que correm o risco de se verem condenados a viver décadas sem perspectiva nenhuma.

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A virtude do meio

Este caráter constante da boa direção moral, o fato de que colocar-se no caminho do bem implica um sem fim de atos voluntários, deliberações e opções corretos, equivale a dizer que possuímos as virtudes éticas como fruto de um exercício, de um trabalho tenaz, chamado energeia por Aristóteles

Trecho retirado do livro Aristóteles – O Nascimento da Ética, publicado pela National Geographic

Em conexão com as virtudes morais, ou virtudes de caráter, Aristóteles propõe a teoria da virtude como um meio. Em cada caso pode haver uma deficiência ou um excesso, nenhum dos quais constituindo a conduta correta. A virtude é algo entre os extremos.

Trecho retirado de “Wisdom of the West”, do filósofo e matemático inglês Bertrand Russell (1872-1970) sobre o filósofo Aristóteles (384 a.C-322 a.C.)

A orfandade da educação está também na submissão da lógica assistencial, ao transformar o Bolsa-Escola em Bolsa Família, a Poupança Escola em Pé-de-Meia, o programa de Certificação Federal dos Professores Municipais no programa Pé-de-Meia do Professor. O apoio à promoção automática mesmo sem aprendizado em escolas que atendem alunos de famílias pobres também é prova da orfandade da educação em nome do assistencialismo social, aceitando que a educação de base deve ser desigual conforme a renda da criança.

Trecho retirado do artigo País Órfão, do ex-reitor da OAB, ex-senador, ex-Ministro da Educação Cristovam Buarque (1944-, publicado na revista VEJA de 7 de fevereiro

Não queremos penalizar os estudantes. O Pé-de-Meia é um programa interessante para fortalecer o ensino médio. O Japão, por exemplo, é um país que investe muito nessa etapa do ensino. A Brasil deve trilhar caminho assemelhado, mas há questões financeiras e orçamentárias a serem resolvidas pelo governo federal.

Fala do Ministro Augusto Nardes do Tribunal Contas da União, justificando a aprovação do programa Pé-de-Meia do governo federal no âmbito do Processo: TC 024.312/2024-0

    Prezados leitores, o jeitinho brasileiro sempre dá um jeito! No dia 12 de fevereiro, os doutos Ministros do Tribunal de Contas da União deram um jeito de encaixar o programa de concessão de bolsas para alunos de escolas públicas no ensino médio no orçamento federal, cujo custo anual será de R$ 12,5 bilhões. Em caráter temporário, o programa será custeado com recursos do Fundo de Incentivo à Permanência no Ensino Médio (Fipem), mas o TCU deu 120 dias ao governo para este achar um lugar no orçamento da União em que o Pé-de-Meia caiba definitivamente. O risco de o programa não ser executado por descumprimento da lei de responsabilidade fiscal está descartado. Teremos Pé-de-Meia! Afinal países de Primeiro Mundo como o Japão, conforme o trecho que abre este artigo, investem muito no ensino médio. Para termos o nível de educação dos japoneses, que ocupam o terceiro lugar no ranking do PISA, devemos fazer o mesmo, nós que ocupamos a sexagésima posição, entre 80 países onde foi aplicado o teste da OCDE que mede o desempenho de estudantes em línguas, matemática e ciências. Em suma, mais dinheiro na educação, mais qualidade certo?

    O engraçado é ver países como Mongólia, cujo PIB per capita era de 5.764 dólares em 2023 e o Vietnã (PIB per capital de 4.346 dólares em 2023) ocuparem melhores posições no ranking do PISA do que nós (53ª e 34ª, respectivamente), que tínhamos um PIB per capita de 10.043 dólares em 2023.  Para quem não se lembra, Vietnã é aquele país no Sudeste Asiático, em que os Estados Unidos jogaram napalm e agente desfoliante como armas químicas de guerra. Aparentemente, essas substâncias tóxicas não afetaram sobremaneira o organismo dos vietnamitas e eles têm uma capacidade de aprendizagem melhor que a nossa. O fato é que países muito mais pobres do que o Brasil conseguem resultados educacionais melhores, então nosso déficit de pessoal qualificado não parecer ser fruto de falta de dinheiro, ao contrário do que leva a crer a fala do Ministro Nardes, usada como justificativa para aprovar um programa que não tinha fonte de financiamento definida e portanto violava a Lei de Responsabilidade Fiscal, particularmente seus artigos 16 e 17. Qual será o problema?

    Cristovam Buarque, em seus artigos na revista VEJA, sempre coloca o dedo na ferida da má qualidade da educação brasileira. Dar um salto de qualidade nessa área nunca foi uma prioridade de nenhum governo no país, seja de direita, de esquerda ou de centro. Os governantes batem no peito sobre a educação como artifício retórico, mas na prática fazem pouco por ela, o que é evidenciado pelo fato de que nossa posição nos rankings mundiais de avaliação de alunos fica sempre na zona da turma do fundão, como chamávamos – pelo menos à época em que passei pelos bancos escolares –aqueles que pouco aprendem porque estão distantes do professor na sala de aula e, portanto, mal conseguem ouvi-lo. Conforme o trecho que abre este artigo, as iniciativas governamentais na área vira e mexe descambam para o assistencialismo, isto é, a concessão de dinheiro a pessoas vulneráveis para ajudá-las financeiramente a sobreviver, sem que sua vida seja mudada de forma fundamental pelo estipêndio.

    Ora, perguntarão alguns: O que há de mal no assistencialismo? Por acaso milhões de brasileiros não precisam de ajuda para que não passem necessidades? Por caso não é imprescindível dar uma bolsa aos alunos pobres para que não precisem trabalhar e continuem a estudar? Não é elitismo e preconceito chamar programas sociais de assistencialismo? O que diferencia uma política social boa de uma política social ruim? Aristóteles responderia a esta pergunta dizendo que a virtude está no meio. Explico-me.

    O meio aristotélico é aquele ato voluntário do ser humano que não é nem excessivo nem deficiente, como explica Bertrand Russell no trecho que abre este artigo. Nas situações concretas da vida, decidir corretamente é fazer um esforço constante de achar o meio termo em cada momento em que é necessário tomar uma decisão sobre o fazer. Haverá circunstâncias em que lutar será uma temeridade por levar à morte da pessoa ou a algum dano físico e não lutar será uma covardia porque leva igualmente a pessoa a ser aniquilada pela falta de reação ao seu algoz. Nesse sentido, a coragem enquanto virtude é fruto da ação de um homem virtuoso, isto é, de um homem que tem a capacidade de ponderar os fatos e tomar a boa decisão com base na realidade tal ela se encontra para ele.

    Se aplicarmos essa ética do caminho do meio, a diferença entre política social transformadora e assistencialismo é uma questão de medida. Quanto devemos exigir dos beneficiários de ajuda governamental para que eles deem o devido valor ao que lhes é fornecido? Cumprir alguns poucos requisitos, tal como os coloca o Programa Pé-de-Meia, a saber, ter frequência de pelo menos 80% às aulas e participar do Exame Nacional do Ensino Médio? Será que isso é suficiente para garantir que o aluno não só terá juntado uma poupança ao final do Ensino Médio como terá de fato aprendido os conteúdos necessários? Ou será que é preciso exigir dos beneficiários ter uma certa nota no ENEM para ele ter direito ao valor cheio da bolsa, a saber R$ 9.200,00? Será que a falta de grandes exigências por parte do governo é um conformismo inaceitável com a mediocridade, uma resignação com a impossibilidade de alunos da escola pública realmente aprenderem alguma coisa?

    Prezados leitores, a diferença entre a virtude e o vício é uma questão de sintonia fina, de calibração para evitar os extremos, como ensinou o filósofo de Estagira. Oxalá no Brasil os programas sociais superem esse nível raso de distribuição assistencialista de benefícios e se transformem em instrumentos para um salto na qualidade do nosso capital humano. É só mudarmos alguns detalhes e teremos algo infinitamente melhor. Enquanto isso não acontece, nossos políticos usarão os programas sociais como meios de cooptar eleitores, nada mais e nada menos.

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Liberdade de pensamento para quê?

É de todo repugnante para a liberdade geral … quando a lei invade o domínio do pensamento especulativo e as opiniões são julgadas e condenadas da mesma maneira que os crimes, ao mesmo tempo que aqueles que as defendem e seguem são sacrificados não em prol da segurança pública, mas do ódio e da crueldade de seus oponentes. Se somente atos fossem motivo de persecução criminal e fosse permitido às palavras correrem soltas…. as sublevações ficariam privadas de qualquer simulacro de justificativa, ficando separadas da mera controvérsia por uma linha clara e definida.

Trecho retirado do livro “The Age of Louis XIV”, escrito por Will Durant (1885-1981) e Ariel Durant (1898-1981) sobre o pensamento do filósofo holandês de origem judaica Baruch Spinoza (1632-1677)

E ao mesmo tempo devo confessar que certos inconvenientes podem surgir às vezes de tais liberdades. Mas quem já criou alguma coisa de maneira tão sábia que nenhum mal poderia surgir de sua criação? Aquele que deseja estabelecer leis para tudo irá estimular as imperfeições ao invés de diminuí-las. O que não pode ser proibido precisa ser permitido, mesmo que às vezes isso cause malefícios.

Retirado do Tractatus Theologico-Politicus de Baruch Spinoza

Assim, com a sofisticação e popularização de algoritmos, cresceu também o desafio de compreender o que é verdade. Os deepfakes – vídeos, imagens e áudios manipulados por meio da IA – se consolidaram como ferramentas centrais de fraudes digitais de todos os tipos. Eles variam de golpes financeiros, que exploram a imagem de celebridades, a manipulações políticas cada vez mais verossímeis.

Trecho retirado do artigo “Evolução da inteligência artificial desafia compreensão da verdade”, publicado na edição do jornal O Estado de São Paulo de 2 de fevereiro

    Prezados leitores, vocês já assistiram a Vladimir Putin tocando bateria e Donald Trump tocando guitarra em uma mesma festa onde se reúnem vários líderes mundiais? Ou um avatar de Vladimir Putin fazendo perguntas ao Vladimir Putin real? Eu já assisti e achei engraçado, sabendo perfeitamente que os vídeos eram uma fantasia e não atribuindo nenhum significado àquilo a não ser o de entretenimento. Por outro lado, vários candidatos às eleições municipais de 2024 em todo o Brasil usaram um vídeo do William Bonner promovendo sua candidatura, de acordo com informações de Beatriz Farrugia, pesquisadora do laboratório DFRLab. Nesse caso, o objetivo não é simplesmente fazer o espectador dar umas boas risadas e esquecer a peça. O objetivo é influenciar o voto da pessoa, valendo-se da credibilidade do apresentador do Jornal Nacional da Rede Globo para chancelar um candidato.

    É o que hoje chamam de deepfakes, conforme a definição apresentada no texto que abre este artigo. As possibilidades infinitas de criação de conteúdo digital com base em pessoas de carne e osso são notícia nos órgãos da mídia tradicional, que naturalmente tem muito a perder com a proliferação de fontes de informação que não passam pelo crivo da verificação à qual são submetidos os jornais e revistas da era analógica. Mas será que essas criações são uma novidade do século XXI? É forçoso reconhecer que não. Os meios utilizados podem ter mudado, mas histórias sobre pessoas reais sempre foram contadas para influenciar a opinião de terceiros sobre elas. Vou dar-lhes um exemplo.

    Durante a Revolução Francesa, a rainha Marie Antoinette (1755-1793) foi alvo implacável dos autores de panfletos que a mostravam como uma devassa, louca por sexo. Em uma dessas figuras, Marie Antoinette toca o pênis gigante e ereto do embaixador da Suécia na França, Axel von Fersen (1755-1810) e olha embevecida para o homem e seu membro. Para quem não sabe, Fersen passou para a história como amante de Marie Antoinette, mas não restou nenhuma prova cabal de que eles tenham consumado sexualmente sua paixão mútua. E no entanto, os panfletistas da segunda metade do século XVIII, querendo desmoralizar a monarquia, retratavam a rainha da França em situações indecorosas e libidinosas.

    A propaganda negativa a respeito das taras sexuais de Marie Antoinette foi tão eficaz que, uma das acusações que foram feitas a ela em seu julgamento, o qual durou de 12 a 15 de outubro de 1793, foi a de ter tido relações sexuais com seu filho Louis-Charles (1785-1795), então com oito anos de idade. E por essa suposta perversão sexual e por traição ao país ela foi condenada à morte na guilhotina, em 16 de outubro. De forma que se pode dizer com certeza que os panfletos lançados regularmente sobre Marie Antoinette prepararam o espírito da opinião pública para não considerar a acusação de incesto como absurda, pelo contrário, passível de inclusão em um processo criminal.

    Se as deepfakes têm uma longa história no Ocidente que remonta ao século XVIII, o que fazer em pleno século XXI? Criminalizar a produção de conteúdos mentirosos sobre personagens reais? Punir quem utiliza a voz de pessoas conhecidas para veicular as mensagens desejadas pelo produtor do conteúdo? Baruch Spinoza nos dá uma orientação a esse respeito. Para o filósofo oriundo de uma família de judeus que havia emigrado de Portugal para a Holanda para escapar da intolerância religiosa instituída pela Inquisição da Igreja Católica, a liberdade de pensamento era um elemento essencial da vida em sociedade.

    Conforme o trecho que abre este artigo, para Spinoza criminalizar aquilo que as pessoas diziam ou escreviam da mesma forma que certos atos das pessoas eram criminalizados – como matar e roubar –, era um grande erro, pois criava uma categoria ampla demais, a do rebelde, que tanto poderia ser aquele que vociferava contra o governo do conforto do seu lar ou do seu esconderijo, como aquele que passava à prática e atuava para derrubar o regimre matando civis e militares, atacando e destruindo prédios públicos e por aí vai. O melhor seria estabelecer uma distinção clara entre o crime, que requeria uma ação, e a opinião dissidente, que era apenas crítica desprovida de atuação no mundo concreto. Para Spinoza, sem essa distinção os atos contra a ordem pública poderiam ter uma aura de crítica intelectual, que daria credibilidade à rebeldia, minando a estabilidade social. O filósofo nascido em Amsterdã reconhecia os inconvenientes da liberdade de pensamento, mas conforme o trecho que abre este artigo, criminalizá-la traria mais desvantagens do que vantagens, pois submeteria aqueles acusados de delito de opinião à perseguição e à crueldade de seus inimigos, que usariam a lei em prol de seus interesses individuais para calar críticas à sua atuação e ao seu comportamento em sociedade e não em prol da coletividade.

    Prezados leitores, assunto espinhoso este, quando consideramos o impacto que as deepfakes podem ter em época de eleição, em um momento na história em que a mídia tradicional perde cada vez mais clientes e portanto, perde o poder de influência de que gozou no Ocidente desde o século XVIII até o século XX. O que fazer? Deixar o conteúdo produzido por IA correr solto em nome da liberdade de pensamento e do sopesamento dos prós e contras? Ou tentar fechar a caixa de Pandora cheia de surpresas proporcionada pelo avanço tecnológico? A resposta não é óbvia, mas fica a lição de Baruch Spinoza, ainda válida depois de 500 anos: em uma sociedade livre e próspera o governo não deve se intrometer nas opiniões dos cidadãos. No longo prazo esta é a melhor receita para que cada indivíduo tenha a melhor chance de concretizar suas potencialidades intelectuais. E não é este o objetivo do ser humano?

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