Envelhecer como?

Eu uso o que eu tenho de inteligência para ver de longe e do mais alto minha vida, que se torna agora a vida de um outro. […] Minha vida tem contornos menos nítidos. Como acontece frequentemente, é aquilo que eu não fui, talvez, que a define com o maior grau de justiça: bom soldado, mas não um grande homem de guerra, amante da arte, mas não esse artista que Nero considerava ser à sua morte, capaz de cometer crimes, mas não acusado de crimes

Trecho retirado do livro “Memórias de Adriano”, escrito por Marguerite Yourcenar (1903-1987), em que o imperador Adriano (76 d.C.-138 d.C.) escreve uma carta a Marco Aurélio (121 d.C.-180 d.C.), que seria imperador

O turista que se embrenha em um roteiro prazeroso, que o descole da rotina e lhe abra a visão, é beneficiado por uma ebulição nas células que leva justamente à sua regeneração, o que acaba por contribuir para o equilíbrio tanto físico como mental. “Embora o envelhecimento seja irreversível, viajar pode retardá-lo e melhorar nossa saúde geral”, explicou a VEJA Fangli Hu, coordenadora da pesquisa.

Trecho retirado do artigo “Viajar é Viver” publicado na edição da revista VEJA de 4 de abril

    Um homem que subiu no Monte Etna, na Sicília, para apreciar o nascer do sol. Um homem de incansável curiosidade sobre tudo e todos que o impelia a viajar. Um homem que conheceu um moço na Ásia Menor, Antínoo e o fez seu amante tão querido que quando Antínoo morreu afogado no rio Nilo, o homem chorou muito e para consolá-lo seus súditos na Grécia estabeleceram o culto de Antínoo, que se espalhou pelo Oriente e pelo Ocidente. Este era Adriano, o imperador romano que ainda hoje é lembrado não só por seu homossexualismo e sua paixão pela arte e pelas coisas belas em geral, mas por seu legado material, que ainda pode ser visto hoje no Norte da Inglaterra, na fronteira com a Escócia, a Muralha de Adriano, relíquia do tempo em que as fronteiras setentrionais do Império Romano precisavam ser protegidas contra os povos bárbaros.

    Se na semana passada eu ofereci neste meu humilde espaço alguns conselhos tirados dos ensinamentos de Arthur Schopenhauer sobre como tocar a vida da maneira menos dolorosa possível, desta vez minha carteira filosófica tem como item disponível o exemplo do Adriano real e do Adriano personagem criado pela escritora Marguerite Yourcenar em seu livro de ficção, inspirado na vida do imperador romano. Aqui como lá se oferece uma maneira de envelhecer.

    O Adriano das Memórias está perto da morte, a qual veio para ele de maneira lenta e dolorosa. Ele confessa quão terrível é querer a morte e não conseguir obtê-la e ter de passar por um período de agonia. Nesse estado, ele decide escrever uma carta a Marco, a quem ele adotara como filho e que no futuro se tornará o imperador filósofo autor das “Meditações”, que até hoje são fonte de inspiração ética, depois de quase 2.000 anos. O trecho citado na abertura deste artigo dá uma ideia do estado de ânimo do imperador. Desapegando-se da vida, deixando de se sensibilizar pelo mundo que o rodeia, Adriano consegue ter uma visão objetiva da sua existência, justamente porque seu envolvimento emocional com as pessoas e os acontecimentos se torna cada vez menor. Ele percebe que a vida dele é feita de vazios, de muitas coisas que ele não conseguiu fazer, ser um grande chefe militar, ser um grande artista.

    Esse voo do ancião sobre seu percurso na Terra é um traço que caracteriza a idade provecta e faz com que consigamos atingir um nível de sabedoria que nos prepara para a morte. Fazer um balanço das nossas conquistas e fracassos, de maneira desassombrada, faz com que fiquemos em paz e não nos deixemos tomar pelo amargor da frustração. Afinal, o importante, como dizia o velho Frank Sinatra, é poder dizer “I did it my way”: talvez eu não tenha feito tudo aquilo que sonhara quando era jovem e cheio ou cheia de energia, mas isso não é uma grande tragédia, porque cheguei em um ponto em que adquiri um desprendimento das paixões, de modo que nada parece nem muito maravilhoso, nem muito péssimo e ter chegado já por si é uma conquista. Afinal, esse ponto de chegada permite partir para uma visão do alto que mostra tudo em perspectiva, em seu devido contexto, considerando o quadro geral e todos os fatores que contribuíram para aquele estado de coisas.

    O Adriano real, que foi imperador de Roma por 21 anos, passou mais tempo fora da cidade do que lá, na capital do seu vasto império, pois como escreveu o escritor cristão Tertuliano (160 d.C. – 240 d.C.), ele era um explorador de tudo o que havia de interessante, e por isso viajou por todos os cantos dos domínios de Roma, tanto na Europa Ocidental, quanto na Europa Oriental, passando pela Ásia Menor e pela África. E não é que essa curiosidade infinita por conhecer novos lugares e novas culturas é uma boa maneira de tornar o envelhecimento menos penoso?

    O trecho citado na abertura deste artigo faz menção ao efeito fisiológico de viagens, tal como constatado por um estudo realizado pela Universidade Edith Cowan, na Austrália. O contato com outras culturas e lugares desconhecidos, a quebra da rotina, estimula o cérebro a absorver o novo, favorecendo a plasticidade dos neurônios. O prazer advindo dos estímulos sensoriais e da beleza do local mitigam sintomas de depressão e de ansiedade. Portanto, o imperador que ao final da vida pediu para morrer por causa do sofrimento físico por que passava tinha histórias para contar ao seu filho adotivo Marco sobre um mundo de experiências que ele viveu ao colocar o pé na estrada. Experiências que iam além de ideias pré-concebidas e de princípios abstratos encontrados nos livros. Depois de quilômetros rodados, Adriano podia dizer que sua vida, vivida encontrando pessoas, culturas e lugares diferentes, era rica o suficiente para esclarecer o que ele lia nos livros.

    Prezados leitores, Schopenhauer propunha um desapego das paixões como forma de evitar o sofrimento e atingir a felicidade possível nesta vida. O Adriano de Marguerite Yourcenar, inspirado no Adriano que viveu no segundo século da era cristã, propôs como roteiro existencial a eterna curiosidade pelas idiossincrasias do mundo, como a maneira de chegar à velhice sendo capaz de um olhar sobranceiro sobre o percurso feito. Envelhecer como uma águia, sobrevoando com olhar certeiro lá embaixo e focando naquilo que é importante no grande esquema das coisas. Eis mais uma lição filosófica sobre a boa vida.

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Autoajuda com Schopenhauer

Enquanto os dois primeiros livros apresentam a vontade de um modo afirmativo, os últimos dois, que lidam com a estética e a ética, ultrapassa-os apontando para a negação da vontade como uma possível liberação. Evocando como suas principais figuras o gênio e o santo, que ilustram essa negação, esses livros apresentam a visão “pessimista” do mundo que valoriza o não-ser mais do que o ser. As artes convocam o homem para um modo de ver as coisas sem vontade, no qual cessa a atuação das paixões.

Trecho do verbete sobre o filósofo Arthur Schopenhauer (1788-1860), chamado de o filósofo do pessimismo, na edição de 1975 da Enciclopédia Britânica

A solução para este doloroso estado de coisas deve, de acordo com Schopenhauer, ser procurada nos mitos do budismo. O que causa nosso sofrimento é precisamente nossa vontade. Dopando a vontade, podemos no final atingir a liberação no Nirvana, ou no nada.

Trecho do livro “Wisdom of the West”, do filósofo britânico Bertrand Russell (1872-1970)

 

    Prezados leitores, imaginem um homem de meia-idade que leva uma vida ascética, dedicada à leitura de Platão, Aristóteles, Horácio, Sêneca, Shakespeare e Calderón de la Barca, além de expoentes do misticismo e do Iluminismo. Este homem não frequenta a sociedade e seu único contato social é com seus amigos de longa data que ele vê raramente. Quando não está lendo e estudando, ele passeia com seu poodle e fala consigo mesmo, gesticulando. Apesar do isolamento ou por causa dele, goza de boa saúde e acuidade mental. Pois bem, eu soube da existência deste homem recentemente e a esta altura da minha vida fiz dele meu guru. Explico-me.

    Seu nome é Arthur Schopenhauer, que nasceu em Danzig e morreu em Frankfurt. Eu já ouvira falar dele, mas não tinha a mínima ideia do teor dos seus pensamentos filosóficos. Por obra do acaso, ao procurar algo no YouTube para ouvir enquanto fazia meus exercícios matinais, deparei-me com um professor universitário de filosofia nos Estados Unidos, Christopher Anadale, que em vários vídeos faz a leitura de “Counsels and Maxims”, publicado em inglês em 1890, em que Schopenhauer apresenta uma sabedoria prática de como conduzir a vida de acordo com os princípios de sua filosofia.

    Qual não foi minha grata surpresa quando percebi que sigo muitos dos conselhos do filósofo, de maneira que escutar a formulação por um grande pensador de um modo de vida é um grande incentivo a persegui-lo sem culpas e confiante nas vantagens que ele traz. Para entender o que Schopenhauer propõe como conselhos sobre o que fazer com o vale de lágrimas que é a vida é preciso primeiro abordar os conceitos filosóficos que os embasam.

    O conceito primordial da filosofia de Schopenhauer é o de vontade. A vontade não é simplesmente um fenômeno que existe no tempo e no espaço e que pode ser percebido pelos nossos sentidos e apreendido por nosso intelecto por meio das categorias mentais, tais como causa, efeito, necessidade, contingência, etc. que Kant havia relacionado como as ferramentas à disposição do homem para a cognição. A vontade é mais que isso, é uma categoria ontológica, uma essência, é uma coisa em si mesma, unitária, imutável, insondável, além do tempo e do espaço, sem causa nem finalidade. No mundo dos fenômenos, ela se manifesta sempre, desde os impulsos cegos nas forças da natureza orgânica, passando pela natureza orgânica, como as plantas e animais, para chegar no homem que atua guiado pela razão. A vontade constitui-se assim concretamente em uma cadeia de desejos, agitações e impulsos que nunca param, um esforço inesgotável que ao final termina na morte, a grande censora de toda essa agitação, perguntando a cada pessoa: “Já basta?”

    Daí o pessimismo do filósofo: se todas essas manifestações da vontade não levam a nada além da morte e no meio tempo causam sofrimento no ser que realiza essa vontade no tempo e no espaço, dando vazão a suas paixões e desejos, para que permitir que elas ocorram? O melhor a fazer é neutralizar essa vontade como um meio de liberação do sofrimento. Conforme o trecho que abre este artigo, um dos instrumentos que Schopenhauer propõe para superar as paixões é a arte. O outro é o estudo. Há também a via acessível aos santos que é o desprendimento do ego e a dedicação aos outros, a compaixão pelo sofrimento alheio. Qualquer um desses três caminhos será um meio de negar o ser, o indivíduo que se manifesta a cada dia querendo algo, sentindo, frustrando-se quando seus desejos não são alcançados e sempre indo atrás de um horizonte de felicidade que foge sempre.

    Nesse sentido, a receita para uma vida que valha a pena ser vivida não é procurar atingir a felicidade. Ter esse objetivo é ter uma visão positiva da vontade e de sua realização no mundo dos fenômenos. Dar vazão às paixões só nos traz sofrimento, então a melhor aposta existencial é a de evitar o sofrimento neutralizando-as por meio de um estilo de vida exemplificado na rotina seguida pelo próprio filósofo, feita de poucos contatos sociais e muita reflexão e estudo para quem tem a capacidade de dedicar-se a essas atividades, claro.

    É nesse ponto que os hábitos de Schopenhauer coincidem com os meus, que a mim me parecem os melhores neste momento da minha vida. Pode ser que para um jovem cheio de energia, força, vitalidade, saúde e beleza essa negação do ser rumo ao Nirvana budista, conforme explicado por Bertrand Russell ao abordar as ideias do filósofo pessimista por excelência, seja absurda. Afinal, aos 20 anos nossos sofrimentos são poucos: não temos que frequentar médicos frequentemente; nosso otimismo com o futuro e nossa beleza advinda da idade nos tornam agradáveis e atraentes, permitindo que amemos e sejamos amados.

    No entanto, à medida que os anos passam o corpo começa a claudicar e deixamos de ser saudáveis, belos e radiantes como éramos em nossa tenra idade. Muitas pessoas se afastam de você e vice-versa e não é mais tão fácil estabelecer novas relações de amizade ou amor. Por acaso os conselhos de Schopenhauer não fazem bastante sentido então? O estudo, a arte, a caridade com o próximo não podem servir de consolo para pessoas mais velhas, que passam mais tempo sozinhas porque o círculo de relações diminuiu? Em tais circunstâncias o desprendimento do ser proposto pelo filósofo rumo ao nada pode ser um meio de evitar sofrimentos em um momento da vida em que o sofrimento fica cada vez mais comum.

    Prezados leitores, a autoajuda de Schopenhauer não está acessível a todos, porque nem todas as pessoas têm vocação para atividades intelectuais ou estéticas, mas de qualquer forma a lição dele serve para qualquer um neste nosso mundo encantado da sociedade de consumo feito de grandes expectativas de autorrealização, de conquistas e de vitórias. Baixemos a bola sobre o que podemos esperar do mundo e das pessoas que o habitam e teremos uma vida mais tranquila, sem grandes emoções, mas sem grandes decepções.

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Plantations de dados

Dono de 1,5% do mercado global de data centers, com 181 unidades, o Brasil tem se mostrado um país atrativo para o setor. Esse mercado cresceu 628% entre 2013 e 2023 no país, segundo o estudo “Brazil data center report”, da consultoria imobiliária JLL.

Trecho retirado do artigo “Centros de dados sustentáveis”, publicado na edição de março da revista Pesquisa FAPESP

Mantemos a péssima posição internacional na qualidade da educação e na desigualdade com que ela é oferecida. O número de adultos analfabetos continua praticamente o mesmo. Não temos uma estratégia para abolir a pobreza e dar à população instrumentos para sobreviver sem necessidade de políticas de compensação. Continuamos, enfim, sendo um país distante da inovação tecnológica, agora especialmente, com os avanços extraordinários da inteligência artificial. Seguimos sem estratégia de desenvolvimento para a economia do futuro, baseada no conhecimento e na diversidade ecológica.

Trecho retirado do artigo “Democracia Viva” escrito pelo ex-reitor da Universidade de Brasília, ex-Ministro da Educação e ex-senador Cristovam Buarque (1944-

    Prezados leitores, já repararam que atualmente para a pessoa mostrar suas credenciais intelectuais ela precisa pincelar seu discurso com palavras em inglês? Isso mostra que ela teve acesso às fontes originais do saber, que está antenada com o que há de mais moderno em termos de conceitos e teorias. Deparei-me com isso ao assistir a uma palestra sobre inteligência artificial. Ao longo de uma hora e meia, ouvi várias vezes “Better together” que é um lema usado no mundo de IA para enfatizar a necessidade do ser humano trabalhar em conjunto com as máquinas para resultados melhores. Ouvi também a palestrante usar “hype” para designar o fenômeno de todo mundo dizer que usa IA, mesmo sem fazê-lo. Ela poderia ter falado simplesmente exagero, mas preferiu a palavra em inglês, talvez porque ache que haja uma nuance de sentido não captada por nosso humilde idioma, que nunca foi usado para criar nada em termos de ciência da computação.

    Em suma, tanto na forma quanto no conteúdo do seu discurso, a palestrante mostrou ser moldada por seu contato com os Estados Unidos, cuja cultura ela absorve e transmite aos seus ouvintes. “The US innovates, the EU regulates and China replicates” foi uma de suas tiradas que resumem sua visão de mundo. Visão esta que está sendo tornada obsoleta pelos fatos. De acordo com o Australia Strategic Policy Institute, um centro de estudos patrocinado pelo governo australiano, no ano 2000 os Estados Unidos eram os líderes em 60 das 64 tecnologías críticas que moldarão a economia do futuro, como a inteligência artificial, a robótica, a tecnologia quântica, a cibernética, a biotecnologia, materiais avançados, dentre outras. Já no último levantamento do instituto, a China lidera em 57 dessas 64 tecnologias. Portanto, apesar de a frase ser engraçada e mostrar o conhecimento pela palestrante do que falam nos Estados Unidos, ela está sendo desmentida pelos avanços gigantescos que os chineses têm feito para evitar a armadilha dos países de renda média, isto é, de países que eram subdesenvolvidos até a década de 70 e, absorvendo a tecnologia do Ocidente, conseguiram industrializar-se produzindo produtos de baixo valor agregado. A China quer galgar um patamar mais alto, ela quer entrar no seleto clube dos países que não copiam, mas criam e estabelecem o padrão para o mundo. Nós no Brasil ainda achamos que são principalmente os Estados Unidos que fazem isso e certamente a palestrante, a cuja fala bilíngue assisti, certamente compartilha dessa opinião.

    Não me admira que seja assim. Ela é advogada em uma grande firma que faz negócios com gringos que querem investir no Brasil, portanto não pode ser uma grande defensora de soberania econômica em relação a países de estrangeiros. O momento mais interessante da palestra foi aquele em que ela abordou a criação de data centers no Brasil, que está se transformando num grande filão de negócios imobiliários, afinal é preciso comprar terrenos para instalar os equipamentos que processarão os dados que servirão de base para o desenvolvimento dos modelos de IA generativa. Segundo ela, o problema aqui é a falta de segurança jurídica, a carga tributária e a falta de infraestrutura de cabeamento para a transmissão dos dados.

    A questão de criação de centros de dados no Brasil é tão importante que há um grupo de trabalho envolvendo vários ministérios para elaborarem um plano para facilitar a instalação deles no Brasil, para que possamos competir com países como Colômbia, Chile e México. Conforme o trecho que abre este artigo, houve um boom de instalação de centros de dados no Brasil nos últimos 10 anos, mas de acordo com a palestrante, poderíamos atrair mais empresas se estabelecermos o marco regulatório correto que garanta o lucro dos investidores.

    Foi então que um dos ouvintes levantou a mão e perguntou: “E qual será a vantagem para o Brasil?” Haverá geração de empregos? Ou será uma mera questão de instalar um monte de plantations de dados pelo país afora, assim como temos um monte de plantations de soja e de outras commodities?”  Colocação interessante, que talvez a palestrante não esperava ouvir, mas que a obrigou a abordar o lado negro dos centros de dados.

    Afinal, esses locais cheios de servidores, que precisam ser constantemente resfriados para poderem funcionar 24 horas por dia, não precisam de ninguém que os liguem e desliguem, pois rodam automaticamente. Portanto, não há necessidade de contratação de grandes contingentes de trabalhadores. Além disso, os equipamentos são todos importados, nada é produzido no Brasil e seu funcionamento exige grande quantidade de energia e de água. Estima-se que 1% da demanda global por energia seja proveniente de centros de dados de computação em nuvem. Considerando isso, será que o valor agregado produzido no Brasil é suficientemente grande para justificar o uso dos nossos recursos naturais? Apesar de considerados verdes, pois renováveis, como a energia elétrica e a água, sua exploração não deixa de ter impactos ambientais e de ser algo que não ficará disponível para a população. Finalmente, será que algum conhecimento será produzido no Brasil com a instalação de centros de dados? Ou só haverá o processamento mecânico aqui e os resultados serão compilados, analisados e transformados em aplicações tecnológicas na sede das empresas que instalam os centros de dados aqui?

    Em suma, a definição dada pelo ouvinte de “plantation de dados” pode ter colocado o dedo na ferida do Brasil, apontada por Cristovam Buarque em sua coluna na revista VEJA e mencionada na abertura deste artigo. Se multinacionais como Microsoft e Amazon estão instalando centros de dados no Brasil simplesmente por causa das nossas fontes de recursos naturais renováveis, isso é sintoma da nossa falta de cérebros que pudessem se debruçar sobre esses dados processados e criar soluções de AI para problemas reais a partir disso. E se não temos cérebros suficientes que atraiam empresas é porque não temos educação de qualidade que prepare os alunos para refletir e gerar produtos e serviços inovadores.

    Prezados leitores, enquanto a tarefa do momento é ter uma opinião sobre se Bolsonaro ou não tentou um golpe de estado em 8 de janeiro de 2023, mesmo que nenhum de nós tenha lido a denúncia da Procuradoria-Geral da República, nos gabinetes de Brasília preparam-se medidas para atrair empresas para espalharem plantations pelo Brasil, como se já não tivéssemos um número suficiente delas. De soja ou de dados, elas revelam o ponto fraco do Brasil em termos de formação de capital humano. Talvez quando o ciclo de julgamentos de celebridades políticas termine, possamos nos dedicar a resolver assuntos mais estratégicos para o nosso futuro.

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Rawls e a gatonet

[…] considerando a natureza social dos homens, o fato de que nossas potencialidades e inclinações ultrapassam em muito o que pode ser expresso em uma única vida, dependemos dos esforços conjuntos de outros não somente para obter os meios de atingir o bem-estar, mas para que nossos poderes latentes alcancem a fruição. […] O que une os esforços da sociedade em prol de uma união social é o reconhecimento mútuo e a aceitação dos princípios da justiça

Trecho retirado do livro “A Theory of Justice” do filósofo americano John Rawls (1921-2002)

 

Cálculos do prejuízo feitos por uma das maiores operadoras do país, que falou a VEJA sob a condição do anonimato, revelam que 270.000 domicílios em 68 bairros da região metropolitana são dados como “perdidos”, já que não se pode fornecer o serviço por lá – um quinto da atual base de clientes. “Fizemos investimentos, pagamos impostos para importar equipamentos, construímos a rede e ela foi tomada por bandidos”, indigna-se um alto executivo da empresa.

Trecho retirado do artigo “Concorrência desleal” publicado na edição de VEJA de 14 de março sobre a exploração ilegal da internet por quadrilhas do Rio de Janeiro

 

    Prezados leitores, depois de mais de sete anos, voltei a colocar os pés na Cidade Maravilhosa. Visitei o Museu Chácara do Céu, que abriga a coleção de arte de Raymundo Ottoni de Castro Maya (1894-1968). Ela inclui um quadro de Di Cavalcanti (1897-1976) e uma escultura de Bruno Giorgi (1905-1993), o que por si só já compensaram a visita à antiga residência de Castro Maya. É mesmo uma dádiva que algumas pessoas muito ricas, conscientes dos seus privilégios, tenham deixado um legado para as gerações futuras na forma de museus. Eu não nasci rica e nunca morarei em uma casa tão espetacular como a Chácara do Céu, rodeada de vegetação e com vista para a Baía de Guanabara. Mas pela benemerência de milionários ilustrados como Castro Maya posso desfrutar por algumas horas da beleza do lugar. Pretendo em próxima ida ao Rio de Janeiro visitar a casa onde morou Roberto Marinho (1904-2003), que também foi transformada em museu. Quem me deu essa dica cultural foi um taxista informado, cuja gentileza me tocou profundamente, pois depois de algumas palavras trocadas ele soube perceber minhas preferências em matéria de entretenimento.

    O Rio de Janeiro continua lindo, um poema a céu aberto, consubstanciado na conjunção do mar e da montanha que nos faz ascender a um mundo ideal de contemplação da beleza. Mas é um certo Rio de Janeiro, confinado às zonas turísticas, mais ou menos policiadas, para mim particularmente a Zona Sul do Leme ao Leblon, onde tudo pode ser acessado a pé: praia, restaurantes, cafés, livrarias e bares. Fui à Barra da Tijuca uma vez e não gostei do ambiente americanizado que reina por lá, onde o carro é necessário para cobrir as grandes distâncias entre os locais de interesse.  Há um outro Rio de Janeiro, fora do perímetro turístico, que reúne em si as mazelas que afligem o Brasil. Tomemos Brás de Pina, na Zona Norte da cidade.

    À parte a violência, o tráfico de drogas, a falta de bons empregos, boas escolas e bons postos médicos, Brás de Pina enfrenta um outro problema: a exploração ilegal dos serviços de internet por criminosos. Conforme a reportagem citada na abertura deste artigo, as operadoras de internet, como Claro e Oi, instalam a infraestrutura de cabos e os bandidos cortam os cabos. Quando os técnicos chegam para consertarem o cabeamento eles são expulsos e a operadora acaba perdendo os clientes, pois não consegue mais prestar o serviço. Quem no final substitui as grandes empresas são pequenas operadoras que na verdade trabalham para o Comando Vermelho ou a milícia local, mediante a contratação de técnicos das operadoras oficiais e utilizando a infraestrutura construída pelas empresas que atuam dentro da lei. O resultado são serviços mais caros e ruins, a que os moradores são obrigados a submeter-se pois quem os provê são dotados de fuzis para convencer os clientes recalcitrantes. As investigações da Polícia Civil do Rio de Janeiro apontam que o lucro da exploração da internet é tão grande quanto o obtido com o tráfico de drogas.

    Quem cobrirá os prejuízos das operadoras? Provavelmente seus clientes da Zona Sul ou da Barra da Tijuca, mas até que ponto será possível repassar a conta para o consumidor mais abastado? No longo prazo, se a cooptação de usuários pelos criminosos se espalhar por outros bairros do Rio de Janeiro e da Região Metropolitana, a única maneira de estancar as perdas será a de diminuir investimentos e ao final liquidar as operações e pronto, um bem público que permite, a ricos e pobres, trabalharem, fazerem negócios, estudarem, será extinto pela ação de parasitas, que se aproveitam do esforço alheio e da inação das autoridades para atuarem com total liberdade e desrespeito às leis.

    Nada mais distante do círculo virtuoso concebido por John Rawls para o funcionamento de uma sociedade bem organizada com base na noção de justiça como equidade. Para o filósofo político americano e professor da Universidade Harvard, cada indivíduo, como ato inaugural de sua participação na sociedade, escolhe aderir aos princípios de justiça pelos quais ele não fará aos outros aquilo que não gostaria que os outros fizessem para ele. O indivíduo faz essa escolha não só porque no frigir dos ovos os seus interesses pessoais serão mais bem satisfeitos se ele aderir às regras.

    Conforme o trecho que abre este artigo, sendo um homem um ser social, ele só realiza suas plenas potencialidades no seio da sociedade, usufruindo daquilo que foi construído pelas gerações passadas e pelas gerações atuais. Dessa forma, aderir aos princípios da justiça como opção de vida não só viabiliza a concretização dos projetos individuais, mas permite que o indivíduo participe do esforço coletivo a que se dá o nome de sociedade, não só dando sua contribuição como aproveitando o que a união comum tem a oferecer a cada um dos seus participantes, o que leva todos a terem um núcleo básico de propósitos conjuntos.

    Em suma, uma andorinha não faz o verão, mas todas voando em sincronia, chegam juntas ao destino pretendido. É algo que uma pessoa com bom senso sabe desde sempre, mas se é preciso que um filósofo escreva um livro de mais de 500 páginas para delinear os contornos de uma sociedade bem organizada, é porque é difícil na prática colocar para funcionar esses princípios liberais em que todos se beneficiam de alguma maneira de sua participação no empreendimento coletivo, independentemente de sua classe social, gênero, nível de conhecimento ou de inteligência.

    Em um país como o Brasil, em que sempre houve grandes disparidades de renda, a confiança mútua é baixa, pois os que têm algo têm medo da inveja e do rancor dos que não têm nada, e os que não têm nada têm medo do que os poderosos podem fazer contra ele. Em tal ambiente, fica difícil o indivíduo aceitar o convite, proposto no esquema de John Rawls, de aderir de maneira radical aos princípios de justiça, pois ele sempre desconfiará que o outro não o fará e se ele o fizer será um otário, de cuja boa fé o outro se aproveitará.

    Prezados leitores, a exploração ilegal da internet por criminosos no Rio de Janeiro é uma manifestação da doença que acomete o Brasil, isto é, nossa incapacidade histórica de aderirmos a um projeto comum pelo qual o compartilhamento de bens públicos beneficie todos ao mesmo tempo. Pode ser serviços de conexão e utilidades públicas em geral ou pode ser segurança física, segurança jurídica, preferimos enquanto conjunto de pessoas vivendo no mesmo território cuidarmos do nosso pedaço para que ninguém o tome de nós. E em assim fazendo tornamos esse pedacinho individual cada vez mais ameaçado pela violência, pela corrupção e pela incompetência. Talvez um dia façamos uma outra opção, quem sabe? Enquanto isso, cada um no seu quadrado, e alguns com sua gatonet.

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Viver para quê?

Que humilhação quando alguém colocou-se perto de mim e ouviu uma flauta à distância e eu não ouvi nada… Tias incidentes me levaram às portas do desespero; um pouco mais e eu teria dado cabo da minha vida – somente a arte me impediu de fazê-lo, ah, parecia impossível deixar o mundo até que eu tivesse produzido tudo a que eu me sentia chamado a produzir… foi a virtude que me sustentou na minha aflição, a ela e a minha arte devo o fato de que eu não tenha me suicidado.

Trecho retirado do livro “The Age of Napoleon”, escrito por Will Durant (1885-1981) e Ariel Durant (1898-1981), citando uma carta escrita por Ludwig von Beethoven (1770-1827) em 6 de outubro de 1802 a seus irmãos Karl e Nikolaus, que ficou conhecida pelo nome de Testamento de Heiligenstadt

um italianinho pálido, esbelto e franzino, mas com opiniões singularmente audaciosas

Descrição de Napoleão Bonaparte (1769-1821) feita por Boissy d’Anglas (1756-1826), escritor, advogado e político francês durante a Revolução em junho de 1795

    Prezados leitores, imaginem um sujeito de 1,65, bexiguento, pobre, filho e neto de alcoólatras e escuro como um mouro, como se dizia à época. Este indivíduo pouco dotado começa a aprender música impelido pelo pai, tenor no coral do Príncipe-Eleitor de Colônia e que pretendia fazer do filho um prodígio que lhe permitisse ganhar uns trocados, assim como o pai de Michael Jackson fez com ele. O menino não era muito chegado às lições, mas o pai lhe aplicava umas bordoadas que o compeliam a conformar-se em aprender e ele acabou aprendendo e adquirindo um gosto por aquilo que havia sido forçado a fazer. Esse menino é Beethoven e é impossível que alguém com idade ao redor de 50 anos não tenha assistido pela TV à Queda do Muro de Berlim, em 9 de novembro de 1989 e à unificação da Alemanha em 3 de outubro de 1990. Sendo assim, mesmo sendo roqueiro ou roqueira o cinquentão ou cinquentona terá ouvido a Ode à Alegria, a Nona Sinfonia do menino nascido em Bonn, tocada no Portão de Brandemburgo.

    Além de todos os seus problemas vindos da sua herança genética, que o fazia chegado a uma bebida, e da sua modesta condição social, Beethoven padeceu de outro mal, este muito mais trágico, porque insuperável: a surdez, provavelmente resultado dos efeitos da sífilis em seu corpo. Conforme o trecho que abre este artigo, ao descobrir que está ficando surdo, o que ocorre por volta de 1801, Beethoven, que já era um músico profissional que vivia do seu trabalho, desespera-se e escreve seu testamento espiritual e uma apologia da sua vida. Ele não sabia o que seria dele, se conseguiria ainda compor as músicas que fervilhavam na sua mente ou se a surdez seria um impeditivo definitivo. Se assim o fosse, o Testamento de Heiligenstadt revelaria, após a morte do músico, suas melhores intenções, que eram a de continuar tentando, apegando-se ao seu ofício para não cair no niilismo e na tentação do suicídio. E assim Beethoven o fez, tanto que os estudiosos de sua obra consideram que o período de 1803 a 1816 é aquele de maior criatividade, em que ele mudou o sexo das sonatas e das sinfonias, tirando-lhes o sentimento e a delicadeza femininas e dando-lhes a assertividade e a vontade masculinas. Portanto, Beethoven compôs as obras que o imortalizaram – entre as quais a Sinfonia Eroica, a Quinta Sinfonia e a Sinfonia Pastoral, além do Concerto para Piano nº 5 – quando já estava surdo e não conseguia ouvir suas melodias com seus ouvidos físicos, apenas imaginá-las na sua mente e transpor a criação para o papel, para que alguém pudesse tocá-las e apreciar sua beleza.

    Sob a ótica do que ocorreu depois com Beethoven, o Testamento de Heiligenstadt acabou servindo como um roteiro de vida, a enunciação de princípios que norteariam o modo como o músico iria encarar o grande infortúnio da surdez. Não desistir jamais da arte como antídoto contra a morte e como legado que Beethoven deixaria para a posteridade, que poderia usufruir das suas criações como ele jamais poderia fazê-lo. Certo de que tinha algo a oferecer à humanidade, ele perseverou e viveu para atingir seu objetivo de criar. Suas criações embalaram acontecimentos seminais na história do país onde nasceu mais de 150 anos depois da sua morte.

    Há um outro personagem nascido no século XVIII que adentrou o século XIX e que também pensou seriamente em suicídio, pelo menos de acordo com o que ele conta em suas memórias. Este personagem é o arrivista da Córsega, Napoleão Bonaparte. Em dezembro de 1793, Napoleão, já oficial do Exército Francês, destacou-se na captura de Toulon e foi agraciado com a a patente de brigadeiro-general por Robespierre (1758-1794), então chefe do governo revolucionário. Um grande feito para um jovem de 24 anos chegar a general, mas o fato de a promoção ter sido concedida por um homem que seria apeado do poder e guilhotinado fez Napoleão ser considerado um partidário de Robespierre e ser preso em Antibes. Solto depois de 15 dias, Napoleão é aposentado compulsoriamente com soldos reduzidos.

    O que fazer se ele não podia dedicar-se àquilo para o que havia se esforçado e estudado, tendo caído em desgraça aos olhos do novo governo francês? O italianinho de 1,67 descrito por Boissy d’Anglas, conforme o trecho que abre este artigo, pensou em ir para a Turquia e ajudar o sultão a reorganizar seu exército, o que lhe permitiria talvez conquistar algum reino para si que pudesse governar. Na prática, a falta de perspectivas em seu país de adoção, a França, o fez pensar em suicidar-se ao caminhar pelas margens do rio Sena, na primavera de 1795.

    Napoleão foi salvo não por um testamento motivacional como Beethoven, mas pelos caprichos da história. Paul Barras (1755-1829), lembrando dos feitos de Napoleão em Toulon, o chamou para organizar a defesa da Convenção, a Assembleia Revolucionária que governou o país de 1792 a 1795. Cercada em 5 de outubro de 1795 por monarquistas e outros, a Convenção precisava de alguém que comandasse a artilharia e Napoleão o fez de maneira bem-sucedida. Daí ser nomeado comandante do exército francês na Itália passarem-se menos de cinco meses (2 de março de 1796). Começava então a carreira militar e política daquele que viria a ser cônsul e imperador e que em 20 anos lutou mais de 80 batalhas e perdeu 10 delas.

    Prezados leitores, se trago esses dois exemplos de grandes homens que passaram por crises existenciais não é para fazê-los crer que podemos ser gênios da música, ou da guerra ou da política, bastando termos um roteiro de passos a seguir ou sermos agraciados com um golpe de sorte. Em tempos de mídias sociais em que vemos diariamente fotos de pessoas felizes, realizadas, bonitas, ricas e inteligentes a promoverem seus maravilhosos feitos, acabamos nos comparando a todo o mundo, isto é, ao mundo todo, e isso pode ser fonte de insatisfação com nossa própria mediocridade. A pergunta que se põe no século XIX ou no século XXI é a mesma: viver para quê? Beethoven viveu para a arte, Napoleão para o poder e a glória. Nós pobres mortais precisamos descobrir um caminho que nos motive a continuar andando, ao menos para apreciar a paisagem se não for para realizar grandes coisas. Cada um no seu ritmo. Afinal, a vida o que é? É a batida de um coração, como diria Gonzaguinha, e enquanto esse coração pulsar a vida sempre poderá ser bela.

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