Os aristogatas

            No domingo passado assisti por um acaso na TV ao filme de Sofia Copolla sobre Maria Antonieta, a rainha da França guilhotinada. Digo por um acaso porque estava comendo minha sobremesa quando peguei o filme em algum canal de cinema. Como eu gosto de filmes sobre história eu parei de zapear e nele me fixei.

          Para fazer uma história que se passou há mais de duzentos anos ter algum significado para as plateias do mundo presente, a diretora se valeu do expediente de retratar Maria Antonieta como uma adolescente incompreendida, cujas reais necessidades nunca eram satisfeitas por adultos que só cuidavam dos seus próprios interesses. Maria Antonieta chega à corte da França para casar-se com o herdeiro do trono, o futuro Luís XVI e sua tarefa primeira e única é parir filhos homens que deem continuidade à dinastia dos Bourbon. Desse seu papel de égua parideira ela é lembrada a todo tempo, pelo embaixador da Áustria, que se preocupa com a possibilidade de o casamento ser anulado se não houver nascimento de um filho; por sua mãe, a imperatriz Maria Teresa, que ralhava com a filha por não se mostrar suficientemente agradável e amorosa para suscitar a cópula real; para não falar dos cortesãos que a acusavam, veladamente é claro, de frígida, de estéril. Coitadinha, mal sabem eles que o marido dela tem fimose e por isso foge do sexo como o diabo foge da cruz, preferindo comer e fazer móveis (a verdadeira vocação de Luís XVI era ser marceneiro, não homem de Estado)!

          No meio desse fogo cruzado, a pobre adolescente se refugia na diversão, quer comprando compulsivamente, quer indo a bailes de máscara em que dançava e bebia na companhia de suas damas de honra. É em uma dessas baladas que Maria Antonieta conhece Axel Von Fersen, o homem de sua vida que nunca a abandonaria, que a visitou quando estava presa no Palais des Tuileries e tentou ajudar a família real na infrutífera fuga de Varennes. Fersen ficou tão associado à monarquia por sua ligação com a infeliz rainha, que aos 54 anos de idade acabou sendo linchado na revolução liberal que houve em seu país natal, a Suécia.

          Temos então no filme uma pobre menina rica, que apesar de todo o luxo e

toda a pompa de Versailles se aborrecia tremendamente. Sim, porque Versailles para ela é uma prisão, a prisão onde Luis XIV colocou os nobres para mais bem controlá-los, estabelecendo regras rígidas de etiqueta para que pudesse haver um convívio mais ou menos harmonioso. Um lugar onde o rei sol tornou a monarquia uma vez por todas livre da turba parisiense, que tantas vezes havia se mostrado infiel e imprevisível.

          Após sete anos de casamento e resolvido o problema da fimose, Maria Antonieta finalmente dá à luz uma filha, a que se seguem outros três. Como presente por ter cumprido sua função eqüina, recebe de presente do marido o Petit Trianon, onde ela podia estar com seus amigos, longe daquela corte maledicente. Lá ela podia se lembrar de sua Áustria natal, da sua infância querida em que os saraus familiares eram animados por apresentações ao vivo de um músico prodígio de nome Mozart, podia procurar abelhas com a filha, podia estar mais ou menos a sós para um namoro inocente com seu amado conde sueco. Enquanto vivia em sua bolha, ela nunca poderia imaginar que a Revolução Francesa estava a ponto de eclodir.

          Maria Antonieta e seu marido se tornaram bodes expiatórios e muito se falou sobre a falta de habilidade política do rei. Se Luís XVI tivesse sido mais flexível, se ele tivesse entendido ao menos parcialmente que era preciso mudar para continuar tudo como dantes, como dizia o Príncipe de Lampedusa, a história teria sido outra. Aliás, Napoleão Bonaparte era fascinado pelo episódio da fuga de Varennes que no seu entender foi um divisor de águas. O rei, que até então ainda mantinha o respeito do povo, a partir desse episódio, em que ele tentou se juntar aos descontentes na Áustria, passou a ser visto como um traidor da pátria, perdendo sua legitimidade e selando o fim da monarquia.

          Está aí o aspecto fascinante da história. Nós que olhamos o passado e sabemos qual foi o resultado, sempre nos arvoramos críticos das atitudes dos que foram seus protagonistas. Dizemos que Luís XVI poderia ter se transformado em um monarca constitucional, pegando carona no nacionalismo que começava então a florescer no século XVIII. Ao invés disso, preferiu o caminho reacionário de buscar ajuda dos aristocratas descontentes com as mudanças.

          O problema é que nenhum ponto de vista sobre a história pode ser testado, no sentido científico do termo, porque não é possível repetir os

acontecimentos. E se Maria Antonieta não tivesse tido um amante corajoso que moveu céus e terras para ajudá-la e a sua família na fuga? E se Maria Antonieta tivesse sido mais inteligente ao invés de uma espécie de Lady Di do século XVIII? Talvez tivesse aconselhado melhor seu marido e nenhum deles teria sido guilhotinado.

          Nunca saberemos a causa necessária, suficiente e imediata da Revolução Francesa, como não sabemos de verdade a causa de nenhum acontecimento histórico. O que os historiadores fazem é eleger um ponto de vista, de acordo com seu sistema de valores e a partir dele escrever uma versão coerente dos acontecimentos, versão esta que nada tem a ver com o que os que viveram a história realmente experimentaram. Porque no calor dos acontecimentos, há vários caminhos possíveis, e nenhum deles é tão cristalino como o é para aquele que vê a história depois do resultado ter frutificado.

          Afinal, como desconfiar que além do Petit Trianon pudesse haver um mar

de rancores, injustiças? Como acusar os aristocratas de serem alienados se

tudo havia sido sempre assim há centenas de anos? Se os fonciers viviam do seu direito natural à propriedade da terra, que era considerada à época a única fonte de subsistência? Sob essa ótica, os atuais poderosos também podem estar na mesma situação do grupo social do qual Maria Antonieta e Luís XVI se tornaram o símbolo execrável.

          Por acaso não temos uma elite global sem nenhum compromisso com

nenhum país a não ser com seus próprios interesses? Por acaso não é o mesmo ethos dos aristocratas do século XVIII, cujo principal vínculo era com eles próprios mais do que com o povo que lhes sustentava? Uma multinacional que terceiriza suas operações procurando locais com menores custos não age da mesma forma que os fujões de Varennes, que queriam voltar a viver em paz, longe da turba?

          Por acaso não temos grupos econômicos que vivem de renda, que não produzem nada e cujo lucro advém do mero fato de possuírem o bem mais precioso, que em nossa sociedade é o dinheiro? Qual a diferença entre o senhor feudal que explorava os servos e lhes cobrava a talha e a corvéia pelo direito de usar a terra, e os banqueiros que nos cobram juros escorchantes no cheque especial, que fazem empréstimos consignados a velhinhos incautos e nunca tomam nenhum prejuízo porque são considerados intocáveis?

          Por acaso não há a mesma aura de sacralidade em torno do sistema financeiro atualmente que antes existia em relação aos proprietários de terra, a quem se perdoavam todos os excessos, todos os desmandos? Dar ajuda financeira a bancos que agem irresponsavelmente é a mesma coisa que dar uma sinecura a um nobre devasso que é mandado alhures por um rei benevolente que lhe perdoa o fato de ter deflorado e abusado da camponesa que vivia em sua terra e ter matado o marido que foi reclamar. Quantas vidas foram destruídas pela última crise financeira que transformou em pó fundos de pensão acumulados durante anos por aqueles que pretendiam ter uma aposentadoria tranquila?

          E por fim, quem disse que nosso Estado não é tão endividado como era no limiar da Revolução Francesa, tão refém de grupos de interesse que se locupletavam do déficit das contas públicas como hoje acontece? Quem pode negar que haja um Terceiro Estado, formado pelos trabalhadores, pelos aposentados, que é o primeiro a pagar e o último a receber, e um grupo de elite formado pelos primeiros a receber e os últimos a pagar?

          Podemos estar vivendo hoje tempos interessantes, como diriam os chineses, tanto quanto aqueles de Maria Antonieta, em meio a seus sapatos, suas taças de vinho suas peças de tafetá, seu apetite sexual insatisfeito. Podemos estar olhando para nosso próprio umbigo, alheios ao turbilhão que corre lá fora e vermos de repente ele chegar e sermos levados pela correnteza. Um dia os historiadores do futuro poderão nos acusar de alienados e estúpidos, quando talvez fôssemos apenas inocentes, reclusos nos nossos pequeninos

refúgios.

Categories: O espírito da época | Tags: , , , , | Leave a comment

geração Y

            Uma das coisas que me levam a perceber que sou de outro tempo é observar as características da nova geração, a dita geração Y, nascida entre os anos 1980 e 2000. Eu consigo observá-los na faculdade, pois a esmagadora maioria dos meus colegas pertence a essa faixa etária, e no trabalho, porque tenho dois funcionários ao redor dos 23 anos de idade.

            Para não dizer que sou antiquada, devo dizer que há coisas muito boas a respeito deles. Em primeiro lugar, eles são despidos de muitos dos preconceitos que atormentam as gerações mais velhas. Quando no primeiro ano de faculdade perguntaram-me candidamente quantos anos eu tinha e fui obrigada a responder, não consegui discernir nenhuma reação negativa ao fato de uma mulher de quase 40 anos estar lá estudando direito. A outra única pessoa na minha faixa etária é também uma mulher, médica, que para meu espanto começou a namorar um colega de classe de seus 26 anos e neste ano ficou grávida dele. De novo, não houve entre os membros da classe nenhuma reação do tipo, credo, que mulher louca, namorar um homem tão mais novo! Isso é sem dúvida um alento para as balzaquianas, que ao longo da história foram descartadas à medida que chegavam a uma certa idade em que não serviam para nada: nem para procriar, nem para atrair a atenção sexual dos homens.

            Em segundo lugar, a familiaridade que a Geração Y tem com a tecnologia é uma coisa assombrosa, especialmente para mim, que não sou muito afeita a ela. É uma benção ter algum membro dela por perto quando tenho algum pepino computacional na minha frente, eles sempre conseguem resolver o problema por tentativa e erro, por terem já se defrontando com o mesmo problema. E as gambiarras que conseguem na internet? Sites para baixar músicas e vídeos de graça, sites de compras vendendo tênis de marca a preço de banana. Quanto mais a Geração Y fuça, mais ela leva as gravadoras à bancarrota, mais as grandes corporações deste mundo têm que mudar suas estratégias de negócio. Afinal como disse Thomas Friedman, o mundo se tornou plano com a globalização, as antigas hierarquias estão se afundando. A Geração Y percebeu à frente de todos que  a internet ao colocar todo mundo em contato a todo tempo com tudo permite uma mudança no poder, pois o que era inacessível e inimaginável se torna presente pelo clique no mouse.

            É aí que mora o perigo, na minha opinião, e onde começam minhas divergências com a nova geração. Essa vivência no ambiente da internet leva-os a acreditar que tudo é possível e que todos são iguais, não há para eles hierarquia, não há os que sabem mais e os que sabem menos, não há respeito pelos que sabem mais ou que têm mais experiência.  Percebi isso de modo chocante há dois dias quando tínhamos que fazer um seminário de direito civil. Cada grupo cuidou de um tema e era preciso ir à biblioteca da faculdade consultar os livros indicados pelo professor. Nada muito trabalhoso, porque era preciso ler umas 20 páginas na média para falar sobre o assunto. Pois bem, um dos grupos precisava falar sobre risco inerente, adquirido e exagerado da mercadoria ou do serviço para fins de responsabilização civil por dano. Um dos garotos (eram todos homens), começou a falar balbuciando, o outro foi tentar ajudá-lo e na maior autenticidade disse que foi “procurar no Google e para falar a verdade não tinha entendido muito bem o que era risco exagerado.” A classe inteira caiu na gargalhada, e então o terceiro membro do grupo começou a rir do outro e ria tanto que ficou vermelho. Não havendo mais condições de fazerem nada se retiraram.

            O pior estava por vir, para minha indignação. Pois para se justificarem da palhaçada disseram que não encontraram os livros na biblioteca, que o tempo era curto, etc. Coitadinhos! Ué, eu pensei, como os outros conseguiram? O professor, um juiz de direito, cuja tarefa é a da juris dictio, isto é dizer o direito, deveria dizer-lhes que deveriam ter se esforçado até por respeito aos outros colegas, que aquela era uma desculpa muito esfarrapada. Mas não, fiel à ideologia onipresente nas universidades desde os anos 60 de que é proibido proibir, ele simplesmente observou que o Google não é a melhor fonte de pesquisa e explicou ele mesmo os três tipos de risco.

            E é isso que temos nas universidades atualmente. A Geração Y é considerada como de indivíduos adultos, que têm direito a ser tratados como adultos e a não ser admoestados por professores que pretendem substituir os pais. E assim eles são tratados, mas na verdade o que isso significa na prática é que eles acabam tendo direitos infinitos e podem em todas as instâncias da vida encurtar distâncias como fazem na internet. Por que ter deferência e respeito pelo professor se ele tem os mesmos direitos que eu? Por que ouvir críticas humildemente e tratar de se emendar se todos somos iguais e cada um tem seu lugar no Facebook ou no Twitter? Não, o melhor é levarmos a vida num Suzuki, ao doce vento da brisa que beija e balança, ao sabor das minhas idiossincrasias, das minhas paixões momentâneas. Oras bolas (essa gíria é minha, não sei como os mais novos falarima isso), não estou a fim de estudar. Dou uma enrolada para o professor, invento uma desculpa e me safo. Tão simples quanto enganar a Sony e a EMI Records.

             Daí o epíteto que se dá a essa geração, a Geração de Peter Pan, que não quer crescer, não quer se tornar adulta, quer continuar no seu cafofo digital, brincando com seus perfis nas redes sociais,   e deixemos para lá responsabilidades, obrigações, que isso é opressor e preconceituoso. Não sei que mundo sairá das mãos da Geração Y, talvez um mundo melhor do que este nosso, quem sabe menos tenso e neurótico? Ou então um mundo mais violento em que as pessoas, por nada lhes ser negado, não saberão lidar de maneira equilibrada com as inevitáveis perdas da vida. De qualquer forma, é um mundo que me espanta muito e me amedronta, eu que fui criada sob outros valores. Bem, o único jeito é esperar os próximos cliques dos Peter Pans.

Categories: O espírito da época | Tags: , , , , | Leave a comment

Família

            No último Montblatt nosso editor Fritz Utzieri comentava a respeito do adolescente que supostamente teria agredido fisicamente a infeliz Eliza Samudio durante vários dias até matá-la, e defendendo penas mais rigorosas com adolescentes infratores que de ingênuos não têm nada.

            É verdade que o Estatuto da Criança e do Adolescente cheio de boas intenções, acabou na prática sendo um instrumento de impunidade. Longe de cumprir seus objetivos de ressocialização e educação, vê-se claramente que o ECA é incapaz de lidar com uma realidade em que os inimputáveis cometem crimes cada vez mais violentos.

            O que fazer em uma situação dessas? Leis mais rigorosas podem resolver o problema? Não será enxugar gelo investir em uma linha dura quando na verdade a questão de fundo continua não resolvida?

            Eu posso soar conservadora, alguns leitores poderão acusar-me de defender os valores da TFP, mas considero que essa delinqüência que se alastra na sociedade em todos os níveis tem a ver com a deterioração da família. Quem não teve medo de pai e mãe na infância, quem não foi educado a respeitar os mais velhos, não vai se importar com ECA ou com leis penais draconianas, porque para esse tipo de pessoa não há tabu nenhum intransponível, tudo é permitido. Se este adolescente de 17 anos foi capaz de fazer tudo o que ele fez com a Eliza Samudio é porque ele sofre de um profundo vácuo moral em que não houve figura feminina ou masculina que lhe servissem de modelo de conduta.

            E o que nós enquanto sociedade temos feito para salvaguardar a família brasileira? Alguns exemplos mostram que nada.

            Para começar, o governo não tem política de geração de empregos, o que é fundamental para que os pais tenham função, auto-estima e possam assim ter capacidade de educar filhos. O BNDES, que é nossa principal agência de fomento econômico, prioriza o financiamento de grandes grupos para criar campeões nacionais que possam competir em pé de igualdade com outras indústrias internacionais. O efeito disso é simplesmente aumentar lucro de uns poucos no setor da agroindústria, mineração etc. que, longe de aumentar postos de trabalho, enxugam sua estrutura para tornarem-se mais lucrativos e terem os pés firmes no mercado global.  Para termos famílias saudáveis seria preciso que as vítimas da desindustrialização e da globalização por que a economia brasileira vem passando pudessem ter a alternativa de abrirem seu próprio negócio, de poderem ser empregadas em pequenas e médias empresas, que mesmo sem sofisticação tecnológica servem o bem comum atendendo o mercado local e gerando empregos.

            Na semana passada, foi aprovado pelo Congresso Nacional o divórcio expresso, não sendo mais preciso esperar um ano de separação total. Ora, isso pode ser uma dádiva para mulheres que estão presas a casamentos infelizes e a homens adeptos da filosofia das monogamias sucessivas. E os filhos onde ficam? Não será mais sensato dar um tempo para que seja possível ao casal tentar uma conciliação, especialmente quando há crianças em jogo? Ou basta o pai pagar pensão que está tudo resolvido? É este o papel do pai, pagador de pensão?

            Finalmente, o famigerado ECA terá seu artigo 18 modificado para proibir castigos corporais. Ora realmente há pais que maltratam os filhos que descarregam neles suas frustrações, mas o ponto principal é o seguinte: será que a educação é como querem fazer acreditar muitos psicólogos, uma simples questão de conversa e convencimento? Não será necessária uma dose de repressão e de medo para que nossa agressividade latente seja controlada? Será que temos uma vocação genuína a sermos 100% criaturas racionais? Parece-me que estigmatizar as palmas é mais uma pá de cal na já combalida autoridade dos pais de classe média que se transformam cada vez mais em meros agentes financiadores do consumo dos filhos.

            Pincelei esses exemplos para tentar mostrar que do ponto de vista econômico, cultural e social a família é uma instituição que vem sendo sistematicamente solapada no Brasil. Alguns dirão que o Estado pode substituí-la para melhor, por uma presença maciça em termos de educação integral, saúde integral. Mas será isso possível? O Estado será mais eficiente se a família brasileira continuar a degringolar? Será que nossa educação algum dia melhorará se não tivermos pais que exijam melhor qualidade? E mesmo que o Estado substitua o papel da família na formação dos cidadãos, isso não levará a um maior autoritarismo, não nos transformará em cumpridores dos desígnios das organizações políticas e econômicas? Em minha opinião só poderemos apresentar alternativas ao esquema da globalização, que marginaliza a maioria e escraviza aqueles que a fazem girar, se pudermos contar com a rebeldia de indivíduos em seus núcleos familiares que consigam agir de maneira autônoma e conseqüente e deixem se ser meros consumidores-espectadores do desenrolar deste nosso capitalismo do século XXI que está nos levando à hecatombe.

Categories: O espírito da época | Tags: , , , , | Leave a comment

Esclarecimentos

            Ainda não tenho como avaliar qual a reação dos leitores do Montblatt, se é que houve ou haverá alguma reação, ao meu artigo da semana passada, intitulado “Chupetas e chupetinhas”. Alguns terão achado tudo muito vulgar, obsceno ou outros terão considerado que eu culpo a Xuxa pela prostituição infantil no Brasil. Pretendo aqui fazer alguns esclarecimentos.

            Quanto ao uso dos termos chupeta e chupetinha, o que eu pretendi é traçar um paralelo entre uma brasileira que reclama da vida sem ter razões sérias para choramingar como faz, e cujas vontades são praticamente todas satisfeitas, porque ela tem condições para tal, e outra brasileira que tem todas as razões para se revoltar com o seu destino e se mostra resignada. De um lado temos o reino global em que a Xuxa, ao toque de sua varinha de condão, movimenta a máquina do consumo e somos nós telespectadores transportados ao mundo da satisfação ilimitada dos desejos, um mundo limpo, bonito. E  de outro o reino para lá de animal em que as pessoas lutam pela sobrevivência da maneira mais mesquinha (afinal nenhum animal deixa de proteger os filhotes como alguns pais fazem com os filhos).

            O que a Globo e todos os outros canais mostram do nosso Brasil? Sim, é verdade que há as notícias todos os dias no Jornal Nacional, é verdade que seguindo a linha do jornalismo-verdade da Record, a Vênus Platinada explora crimes que chocam a opinião pública, tragédias, catástrofes naturais. Mas tudo é feito não com o objetivo de esclarecer, mas com o objetivo de vender: quanto mais sensacional, mais chocante, mais atraente, maior a audiência.

            Se o objetivo da televisão brasileira fosse esclarecer, haveria uma seleção mais cuidadosa da pauta de maneira que o veículo pudesse retratar nosso país de maneira melhor. Por acaso há alguma reportagem na TV brasileira sobre a bandalheira que se faz com o dinheiro público por meio do BNDES? Por acaso algum repórter investigou as ligações de Abílio Diniz com os poderosos de Brasília? Por acaso há alguma discussão mais séria dos impactos do novo Código Florestal sobre a vida dos brasileiros (Pois se a Amazônia virar um deserto haverá um desequilíbrio climático no Brasil)? Por acaso os nossos comentaristas econômicos tentam vislumbrar um cenário em que o Brasil, entupido de títulos do Tesouro americano, se verá com um grande mico na mão, dada a possibilidade de os americanos derem o calote, pela manipulação do valor da moeda? Por acaso esses mesmos comentaristas que peroram como papagaios a respeito da solidez dos fundamentos da economia brasileira começam a perceber que os chineses estão sutilmente se livrando das suas reservas podres em US Treasury bonds e diversificando seus investimentos, comprando empresas ou participações acionárias na Europa, na moita, para não haver o estouro da boiada e eles perderem dinheiro? Por acaso não é tarefa da imprensa criticar para incitar o governo brasileiro a pensar em alternativas em um mundo em que o dólar deixará de ser reserva de valor? Afinal nosso plano de estabilidade econômica não tem como premissa fundamental a idéia de que nossas reservas em dólares são o lastro do nosso real?

            O esclarecimento é preocupação inexistente, o objetivo é sempre vender, e para vender é preciso enganar, mostrar um mundo cor de rosa, acessível por um punhado de reais ou parcelas de empréstimo consignado. Falemos de assuntos vendáveis, a importância da ingestão de vitaminas para combater o envelhecimento (compre na sua farmácia mais próxima), a beleza do Pantanal (agende sua viagem na agência de turismo), o novo look da Juliana Paes ou qualquer outra celebridade (vá a seu cabeleireiro ou cirurgião plástico e peça igual). Nesse sentido uma matéria sobre uma menina de sete anos que faz sexo oral todos os dias para ganhar a vida não tem cabimento, é absurda. Vai vender o que? Só nos faz nos sentirmos incomodados, querendo mudar de canal. E nem dá vazão a nossa sanha de justiça como os crimes de um Nardoni, de um Pimenta das Neves dão, porque voltar-se contra quem? A mãe da menina? Uma pobre miserável, sem eira nem beira? Nem um Datena mais ensandecido conseguiria fazer linchamento midiático dela, é mais fácil investir no populismo e praguejar contra meliantes bem nascidos.

            Posso ter colocado a Xuxa como bode expiatório, como epítome desta lavagem cerebral a que o povo brasileiro é submetido e se deixa submeter. Talvez porque eu a conheça desde o tempo em que eu era adolescente e passava as férias em Saquarema. A filha dos donos da casa me acordava todos os dias ao som do “Bom dia amiguinhos já estou aqui” que a Xuxa cantava ao sair da nave espacial. Peguei birra da Xuxa, quem sabe? De qualquer forma, não poderia em sã consciência achar que a prostituição infantil no Brasil é conseqüência direta do Xou da Xuxa. Seria estúpido da minha parte. Haverá crianças se prostituindo no Brasil enquanto houver famílias desestruturadas ou inexistentes, e haverá famílias desestruturadas ou inexistentes enquanto houver miséria material e moral.

            Sob certos aspectos, muito limitados é verdade, a Xuxa é um exemplo às mulheres, é uma batalhadora, uma mulher bem sucedida que se fez à custa de seu esforço, sem ter se atrelado a nenhum homem. E se há pessoas dispostas a pagar milhões para ela falar bobagens na TV, a culpa não é dela, afinal gosto não se discute apenas se lamenta, ela está vendendo seu produto no mercado e o mercado é livre. Quem não quer ouvi-la que mude de canal.

            Num mundo ideal, em que as pessoas não fossem inculcadas com a noção de que a solução está sempre fora de si e nunca dentro, não haveria a necessidade de celebridades em que depositamos todas as nossas esperanças e frustrações. Digo mundo ideal porque o culto às celebridades é praga mundial, de Norte a Sul de Leste a Oeste, afinal a sociedade de consumo é globalizada e as celebridades se encaixam perfeitamente na estratégia de vendas. Se não é possível se ver livre das celebridades, já que estamos imersos de corpo e alma no capitalismo, é perfeitamente possível em nosso Brasil nos livrarmos da praga da prostituição infantil. Se um dia conseguirmos que todas as meninas brasileiras possam assistir ao Xou da Xuxa ou seus sucessores no recanto do seu lar, tendo um pai e uma mãe que lhes proteja dos males deste mundo e lhes provenham subsistência, já teremos avançado um bocado.

Categories: O espírito da época | Tags: , , , , | Leave a comment

Apelidos

            Sempre fui fascinada pelo modo como os apelidos são capazes de enfeixar significados em palavras simples. No colégio eu tinha uma colega a que os meninos tinham dado a alcunha de bozolina (lembram-se do finado Bozo, no SBT?). E de fato ela tinha um cabelo encaracolado e uma franja, cortados de modo a emoldurar a cabeça dela tal qual um capacete, e um andar de pato que lembravam a personagem da TV, tanto que a primeira vez que eu ouvi o apelido eu ri desbragadamente porque era o resumo da ópera.

            Dar apelidos para mim é uma espécie de terapia, uma maneira simples, barata e inofensiva de desopilar o fígado.  O Diretor de Informática da firma em que trabalho é um sujeito asqueroso, que se derrete para aqueles que têm poder dentro da empresa e ignora solenemente os que não têm poder. Pois bem, eu o chamo, claro que para meus botões, de chupetinha, por ser puxa saco e por ser baixinho. Eu tive uma chefe japonesa que era tão psicopata que poderia ter sido gerente de campo de concentração. Eu a chamava de tição, porque ela era um curto-circuito moral, intelectual e físico.

            E para entrar no terreno pessoal, já que o editor do Montblatt nos incitou a falarmos de nossas experiências, eu sempre me refiro ao meu ex-namorado como bananão. O apelido pegou de tal maneira que um dia minha melhor amiga, a quem tanto chorei minhas mágoas, um dia perguntou-me: “Elisa, como chama o bananão mesmo?” E nós caímos juntas na gargalhada. Já que expliquei os outros apelidos devo explicar este, que aliás é mais fácil de ser entendido: meu ex tinha excesso de estrogênio e falta de testosterona, um mal que acomete muitos homens (como os leitores e leitoras do Montblatt sabem, o homem perfeito é aquele que tem testosterona e estrogênio em doses equilibradas). Por ser fisiologicamente dominado por um hormônio tipicamente feminino, ele vivia chorando, tomando florais de Bach e indo à terapeuta, além de ser muito carinhoso. Mas na hora de ter atitudes, de mostrar posições claras, de resistir a pressões de ex namoradas chantagistas emocionais, suas ínfimas quantidades do hormônio masculino impediam-no de agir, e o resultado foi que me magoou profundamente com suas idas e vindas, sua insegurança, seu medo da verdade nua e crua. Por outro lado, dando-lhe o apelido de bananão, eu pude consolidar na minha cabeça que EU NÃO QUERO UM FILHO PARA NINAR EU QUERO UM HOMEM ADULTO (As letras garrafais são para os eventuais pretendentes me escutarem bem).

            Mas não são só pessoas que têm apelido. Países, regiões também têm, e suas alcunhas os definem melhor do que mil compêndios de geopolítica e diplomacia. Um nome particularmente irritante para nós latino-americanos é aquele que os americanos dão ao seu país. Eles não o chamam de Estados Unidos, mas de América. América é só eles, o povo escolhido que realizou a promessa do eldorado. Nós não somos América, a epítome do Novo Mundo, somos Latin America, aquela parte do Novo Mundo que não deu muito certo, e que está mais próxima da África do que qualquer outra coisa.

            Além de encapsular as características do caráter da pessoa ou da coisa os apelidos cumprem certas funções geopolíticas e econômicas. Vejam o caso do termo BRICS, inventado pela Goldman Sachs para vender os atrativos financeiros do Brasil, China, Índia e Rússia. Emergentes da longa noite do estatismo e da intervenção econômica, na década de 1990 eles estavam prontos para serem oferecidos como investment grade para especuladores dispostos a se arriscar nessas plagas selvagens. Tal nova roupagem permitiu que desembarcassem aqui investidores dispostos a comprar nossos ativos e fazer um bom lucro, o que não significa é claro se lançar na criação de empresas verdadeiramente novas, mas de reciclar o que já havia aqui para seu próprio interesse. Por outro lado, o sorriso Colgate dos investidores desaparece e é substituído pelo olhar apreensivo dos habitantes do hemisfério norte quando eles vêem o desenrolar dos acontecimentos na África do Norte e Oriente Médio e empalidecem ante a perspectiva de uma invasão da Europa e da “América” pelos pobres desesperados. Nesse caso, como só há caos, corrupção e miséria o que era emergente se transforma em Terceiro Mundo. Sob essa perspectiva, a Líbia, apesar de todo seu petróleo, é Terceiro Mundo e precisa ser contida, antes que sua podridão se espalhe aos brancos europeus. Um dos modos de contenção é pagar propina ao seu governo cleptocrata. O primeiro-ministro da Itália, Sílvio Berlusconi celebrou um acordo de 5 bilhões de dólares com a Líbia a título de compensação por transgressões cometidas durante o período colonial, mas cujo objetivo é conter o número de imigrantes a dar com os costados na bota.

            E por falar em Europa, se ela forma um bloco único em relação ao Terceiro-Mundo, em seu próprio seio há hierarquias. Os países do sul, banhados pelo Mar Mediterrâneo, eram chamados com bonomia pelos mais setentrionais de Clube Med, lugares bons para tomar sol, divertir-se, relaxar e obviamente não para trabalhar, já que naquelas regiões não há povos industriosos e diligentes como os alemães, holandeses, dinamarqueses, suecos. Mas agora, com a crise que se instalou na Europa, os países que estão devendo tudo e mais um pouco são pejorativamente chamados de PIGS (Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha), aqueles animais irracionais, incapazes de terem um comportamento frugal, de viverem de acordo com seus próprios recursos, bons para estarem no chiqueiro, no caso mendigando às portas do Banco Central Europeu e do FMI.

            Vêem como os apelidos são importantíssimos? Quem não bota apelido em nada e ninguém não consegue entender nem a si mesmo nem o mundo a seu redor. Leitores do Montblatt, neste feriado prolongado, além de se deleitarem com o festival de popozudas, de cantores e cantoras de axé, tratem de arranjar apelidos para tudo e todos! Garanto-lhes que economizarão nas despesas com o psicólogo, o médico e o advogado e de quebra poderão se lançar como articulistas internacionais!

Categories: O espírito da época | Tags: , , , | Leave a comment