Democracia corintiana

            Leio no UOL notícias que 60 mil pessoas se reuniram em Brasília para protestar contra a corrupção. Vira e mexe há alguma demonstração no Brasil contra a violência, contra a corrupção. Pombas da paz são soltas, as pessoas cantam e tocam bumbo, fazem uma grande fuzarca que vira manchete nos jornais do dia seguinte. Qual o efeito prático disso tudo? Por acaso nossas práticas políticas, culturais melhoram? Por acaso, as pessoas votam de maneira mais consciente, por acaso deixam de dar pequenos golpes cotidianos para burlar as leis que nos põem canga, por acaso deixam de se idiotizar vendo TV e dando importância desmesurada ao futebol? Por acaso, os mesmos indivíduos que xingam jogadores baladeiros, que pressionam pelo bom comportamento dos seus ídolos, que quebram as instalações do clube se ele vai mal no campeonato exercem o mesmo tipo de controle cotidiano sobre os donos do poder no Brasil?

            O que dizer de cada um dos três poderes da República? O vetusto Judiciário exerce sofregamente um grande lobby para ter seus proventos aumentados, e ao mesmo tempo se contenta diante da estatística de que 80% dos inquéritos sobre homicídios dolosos no Brasil não chegam a um culpado, e manda os promotores arquivarem os processos inconclusos para desafogar a justiça e satisfazer as metas de celeridade do Conselho Nacional de Justiça (está em O Globo do domingo, 4 de setembro). Ou seja, a tão propalada faxina na Justiça na verdade não passa muitas vezes de medidas perfunctórias que caem bem em um Balance Scorecard de desempenho que só enfoca números, mas que não têm nenhuma influência sobre a vida de uma família de pretos e pobres que perde seu ente querido e que não terá direito nem a saber quem é o algoz.

            O Executivo é o todo poderoso de plantão cujo poder de cobrar impostos tanto nos amedronta. Dona Dilma, na maior cara de pau, diz que é um bom momento para ressuscitar a CPMF. O único problema de sua primeira vida foi que não foi usada na saúde e desta vez claro terá o destino que merece, ser aplicada para cuidar dos doentes. Será verdade? Quando se analisa o que de fato está sendo feito nesse meio – aumento cada vez maior da presença da iniciativa privada na área da saúde, sucateamento deliberado de hospitais públicos, seu loteamento pelas seguradoras de saúde (vide o Hospital das Clínicas em São Paulo), criação de fundações de médicos e profissionais da saúde que nada mais fazem do que usufruir dos equipamentos públicos sem nada dar em troca, vemos que o objetivo da CPMF não será o de contribuir para diminuir as agruras dos diabéticos, hipertensos e outros doentes, mas apenas aumentar o caixa do governo.

            Governo este que freqüentemente bate recordes de arrecadação (R$ 90,247 bilhões em julho de acordo com a Receita Federal), aumenta o superávit primário, e nos faz presos aos ditames dos banqueiros: mais superávit, mais pagamento de juros, mais rolagem de dívida, menos investimento naquilo que interessa para tornar o país auto-sustentável e independente. Pelo contrário, o objetivo é tornar o Brasil cada vez mais refém dos financiadores dos políticos: os banqueiros, os grandes grupos econômicos, que são os principais beneficiários das tetas do governo. De um lado se beneficiam diretamente por empréstimos do BNDES ou do PROER, de outro se beneficiam indiretamente pela fraqueza dos órgãos reguladores que pouco fazem para coibir comportamentos anti-concorrenciais, desrespeitos ao Código de Defesa do Consumidor, exercício abusivo de direitos.

            Antes e depois das grandes privatizações dos anos 90 o Brasil continua a ser dominado por oligopólios: a Telefônica em São Paulo, um dos produtos da venda de estatais, é uma das campeãs de reclamações no PROCON e continuará sendo por muito tempo, pois o consumidor não tem alternativa de serviço. Argumenta-se que os investimentos em telefonia aumentaram depois das vendas das teles, mas isso poderia ter sido feito pelo próprio Estado se tivesse mantido capacidade de investir. Ao invés disso, vendemos o patrimônio público, e o consumidor é forçado a pagar tarifas escorchantes por luz, telefone, gás e ainda vivemos sob a constante ameaça de apagões e explosões, já que o seu Fernando Henrique Cardoso esqueceu-se de que o objetivo de uma privatização que realmente satisfizesse o interesse público seria atrair investimentos para aumentar a oferta de infraestrutura, e não simplesmente vender empresas a toque de caixa para resolver um problema pontual de combate à inflação que só fez dar aos empresários uma fonte de renda segura na forma das tarifas por serviços que já eram oferecidos antes de elas chegarem ao mercado.

            Seria lógico falar agora do Legislativo, supostamente o representante do povo, mas não perderei meu tempo com um local que abriga Tiririca, Renan Calheiros, Paulo Maluf pois nosso Congresso é mera prostituta de bataclã. Cria dificuldades, fazendo-se de virtuosa, ameaçando debandar, para vender facilidades. Seu papel é de chantagear o Executivo e depois abrir-lhe as pernas quando os nobres deputados e senadores conseguem aquilo que querem, verbas e cargos para seus apaniguados e para si próprios. Abrir as pernas e deixar que o Executivo enfie goela ou outro orifício qualquer abaixo as famigeradas Medidas Provisórias.

            Assim, nossos Três Poderes são oligárquicos e plutocráticos, servem aos poucos e ricos. Não vejo maneira de mudarmos essa situação seguindo exemplos de fora, especialmente por que tal tendência tem ocorrido nos próprios países centrais, em que a democracia sempre foi mais bem implantada, vide a derrocada dos EUA e União Européia, chafurdando em dívidas impagáveis e desemprego estrutural. Resta-nos somar esforços aqui dentro, para além de meros protestos esporádicos. Deveríamos nos espelhar no comportamento dos fanáticos do futebol que fazem marcação cerrada sobre aqueles cujo desempenham não os satisfazem. Um pouco de espírito corintiano aguerrido, pedras atiradas, carros quebrados, poderia fazer maravilhas para melhorar a qualidade dos nossos políticos, juízes, empresários. Quem sabe o futebol possa ser mais do que uma fonte de perdição e alienação e se torne a fonte de salvação da nossa combalida democracia?

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Civilismo já

            De acordo com o historiador Boris Fausto em seu livro História do Brasil, “a campanha presidencial de 1909-1910 foi a primeira efetiva disputa eleitoral da vida republicana.” De um lado estava o baiano Rui Barbosa, apoiado por São Paulo e Bahia, de outro estava o Marechal Hermes da Fonseca, apoiado por Rio Grande do Sul e Minas Gerais. “A candidatura civil de Rui, em oposição ao militar Hermes da Fonseca, deu nome à sua campanha: a campanha civilista. Pela primeira vez na história republicana, um candidato à presidência percorreu vários pontos do país em busca de votos” (Vitor Amorim de Angelo in http://educacao.uol.com.br/historia-brasil/campanha-civilista.jhtm ). “Rui procurou atrair o voto da classe média urbana defendendo os princípios democráticos e o voto secreto. Deu à campanha um tom de reação contra a intervenção do Exército na política. Atacou os chefes militares e contrapôs a Força Pública estadual ao Exército, como modelo a ser seguido. Embora a base política mais importante de Rui Barbosa fosse, naquela altura, a oligarquia de São Paulo, sua campanha se apresentou como a luta da inteligência pelas liberdades públicas, pela cultura, pelas tradições liberais, contra o Brasil inculto, oligárquico e autoritário. A vitória de Hermes produziu grandes desilusões na restrita intelectualidade da época.” (Boris Fausto em “História do Brasil”) Hermes obteve 403 mil votos e Rui Barbosa obteve 223 mil votos, tendo ganho de Hermes em São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador, sua cidade natal

            Lembrei-me deste episódio um tanto quixotesco da história do nosso Brasil quando li nesta semana a respeito do plebiscito que será realizado em 11 de dezembro no Pará para decidir pelo desmembramento do Estado em Carajás, Tapajós e Pará. É preciso que nós, aqui do Sul, nos mobilizemos contra esse absurdo. E quando digo nós, não estou incluindo os políticos, porque estes, mesmo que saibam que seus respectivos Estados ficarão ainda mais sub representados do que já são na Câmara dos Deputados e no Senado, não têm razões para se indignar porque estão todos comodamente usufruindo das benesses do poder, dos cargos públicos, dos empréstimos privilegiados do BNDES, naquele arranjo onde uns poucos ganham e a maioria perde que é tão tipicamente brasileiro. Nós, os trabalhadores do Brasil, é quem vamos pagar a conta.

            De acordo com cálculos do Ipea (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas), os custos anuais de manutenção de Carajás e Tapajós seriam de R$ 2,9 bilhões e R$ 2,2 bilhões, respectivamente, o que geraria um déficit de R$ 2,16 bilhões, montante que seria pago pelo governo federal. Em média, Tapajós gastaria 51% do seu PIB (Produto Interno Bruto) com a máquina pública e Carajás 23% –a média nacional é de 12,72%. (http://noticias.uol.com.br/politica/2011/07/20/dalmo-dallari-faz-requerimento-no-tse-para-que-o-brasil-todo-vote-sobre-a-divisao-do-para.jhtm). Ou seja, à exceção de Carajás que viveria da extração mineral, os outros Estados são inviáveis economicamente. Os que defendem que a criação de mais dois Estados na Federação estimularia o desenvolvimento regional devem com certeza estar se referindo à criação de empregos públicos: dois novos Judiciários, dois novos Legislativos, dois novos Executivos. Isso não significa criação de riqueza, significa aumento de despesas, que serão pagas por aqueles que trabalham e geram empregos e cuja renda é em grande parte garfada por um Estado que impõe uma carga tributária de 33,6%, superior a de países como Suíça (29,4%) e Canadá (32,2%) (http://www1.folha.uol.com.br/mercado/792959-carga-tributaria-no-brasil-e-maior-do-que-nos-eua-dinamarca-lidera.shtml), cujo nível de serviços públicos digamos que seja infinitamente melhor do que aquele que é oferecido em nossas terras tropicais.

            Já falei anteriormente neste espaço sobre o endividamento do Brasil e muito melhor do que eu o Paulo Passarinho. Os EUA estão dando um grande calote em todo mundo pela desvalorização de sua moeda, que provoca a valorização do nosso real. Não se sabe o futuro do Euro, se os eurocratas conseguirão fazer com que os países do Sul do continente engulam a pílula amaríssima de anos de depressão econômica para pagar as dívidas contraídas com banqueiros inescrupulosos. Em suma, podemos estar adentrando mares revoltos, com uma debandada dos especuladores que sustentam nosso vício de perdulários, o que nos obrigaria a aumentar ainda mais os juros, deteriorando ainda mais nossas contas públicas. Não é hora de torrarmos dinheiro público com bobagens como essa. É claro que há interesses poderosos por trás dessa iniciativa, por exemplo, da Vale que quer se livrar do inconveniente dos sem-terra, dos políticos que querem arrumar um jeito mais fácil de se elegerem. Mas é preciso que as pessoas de bem deste país se unam contra as forças do mal, para que não haja o locupletamento da minoria à custa da maioria silenciosa e bovina.

            Eu lancei um apelo aos meus colegas de faculdade para que levantassem essa bandeira no Centro Acadêmico XI de Agosto, cujos temas de luta recentes foram a mobilização pelos direitos dos homossexuais e contra os ataques machistas da imprensa contra Dilma e suas companheiras de ministério. Só recebi alguns poucos e-mails de gozação e uma sobranceira indiferença de quase toda a juventude dourada que estuda Direito na São Francisco na mesma turma que eu, para quem palavras como pagar contas ou declarar imposto de renda são etéreas, porque os mancebos são dependentes dos pais ou então funcionários públicos, querem mais é preservar o “esprit de corps”.

            Vejo no entanto, uma luz no fim do túnel. Dalmo de Abreu Dallari, professor da minha faculdade, apresentou requerimento administrativo ao TSE para que TODA a população brasileira seja consultada sobre a criação dessas novas unidades políticas, com base no artigo 18 da Constituição Federal. O requerimento será votado em agosto. É preciso que coloquemos pressão nesses juízes, porque se formos depender do bom senso deles tudo estará perdido. E se a divisão for decidida em referendo pelo povo paraense com certeza a divisão será aprovada no Congresso Nacional, dominado pela bancada do Norte e Nordeste, e sancionada por Dona Dilma para agradar a base aliada, já que entre suas convicções (se é que ela tem alguma) e a necessidade de ceder às chantagens, temos visto recentemente que seu caráter é fraco demais para resistir à tentação.

            O gênio da propaganda maligna Duda “Goebbels” Mendonça comandará a campanha pela criação de Carajás. O circo está sendo armado para os palhaços se apresentarem. É preciso que nós, as pessoas que pagam as contas deste Brasil, finquem o pé e não entremos no picadeiro.

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Agradáveis salamaleques

            O Brasil surgiu para agradar aos outros, no caso os capitalistas que queriam ganhar dinheiro vendendo o pau-brasil, ouro e demais produtos exóticos para os europeus. Essa sina de agradar, por vir de berço, nos acompanha por toda a história. A escravidão foi organizada para agradar aos homens de negócio, e foi desfeita para agradar aos mesmos homens de negócio; nossa independência foi feita para agradar à Casa de Bragança que via a coroa fugir-lhe da cabeça em Portugal, com as revoluções liberais; o golpe de 64 foi feito para agradar aos americanos e nos colocar como bons meninos coadjuvantes na luta contra o comunismo.         Outros países como os Estados Unidos, que se fundaram para lutar contra a opressão de um governo que não representava seus interesses, nasceram para desagradar. Eles são sempre do contra: não seguem o sistema métrico, têm suas próprias normas contábeis, raramente ratificam algum tratado internacional, para não falar do total menosprezo pela ONU, tão bem mostrado na Guerra contra o Iraque. O desagradar para eles é motivo de orgulho, símbolo de sua independência, de sua soberania.

            O mesmo ocorre com a China, por razões diversas. O Império do Meio, por se considerar o centro do mundo, nunca deu muita importância ao que ocorria ao redor e por isso se isolou durante muito tempo, contribuindo para seu descompasso econômico e tecnológico com relação ao Ocidente, onde as novidades pululavam. O dragão só despertou mesmo no final do século XX, mas ainda que copie (ou pirateie) tudo o que os países desenvolvidos têm de bom, insiste em se considerar culturalmente superior e não quer nem saber de lições sobre democracia, direitos humanos, desvalorização do ri min bi, etc.

            Bem, voltando ao nosso país lindo e trigueiro o fato é que nós brasileiros temos essa constante preocupação com o que os outros, os estrangeiros, vão falar sobre nós. Quando eles nos elogiam isso merece menção na imprensa, comemorações, é motivo suficiente para nos orgulharmos. Quando nos criticam, lamentamos, nos envergonhando pelo papel feio desempenhado lá fora, ou nos enchemos de raiva pela injustiça da crítica. De qualquer maneira nunca ficamos imunes a esse olhar de fora, porque nascemos para satisfazer as necessidades de todos, menos as nossas.

            Esses pensamentos me vieram à cabeça nesta semana, quando ouvi um comentário a respeito da conveniência de elegermos a Marina porque ela é respeitada lá fora, da mesma maneira que Fernando Henrique Cardoso o era. De fato, a Marina ganhou prêmios internacionais por sua luta pelo meio ambiente e a cobertura que o jornal francês deu de nossa eleição focou no desempenho extraordinário da “ambientalista”. Mas talvez devêssemos analisar o porquê do entusiasmo dos “outros” por candidatos comprometidos com a causa ambiental, antes de elegermos tal boa imagem internacional como critério de escolha de candidato.

            Ora, os países desenvolvidos se industrializaram e enriqueceram às custas de suas florestas. Mas agora o barco está adernando, isto é, a Terra mostra sinais de exaustão do modelo capitalista de exploração econômica, que parte do pressuposto de que os nossos recursos são inesgotáveis, e que poderão sempre alimentar a fornalha do crescimento econômico. Isso faz com que se torne premente a preservação do que resta, mas aqui cabe a pergunta: Quem pagará o preço? Os países desenvolvidos nos ressarcirão com o que deixaremos de ganhar em termos de exploração agrícola das terras antes cobertas por vegetação original? Afinal, a epopéia do cerrado no Brasil mostrou que nossa agricultura pode ser extremamente forte e produzir produtos exportáveis que desafiam a primazia das potências como EUA e União Européia. O setor agrícola brasileiro, embora seja concentrador de renda, é inegavelmente eficiente. Seria absurdo pensar que os europeus estão preocupados tanto com a Mãe Terra porque também querem preservar seu sistema agrícola caro, subsidiado que só beneficia seus próprios cidadãos?

            Ao mesmo tempo que o Le Monde fazia salamaleques à Marina, a revista The Economist da semana passada enchia a bola do Lula. Apesar de o artigo apontar que ele deixou de fazer reformas estruturais, no geral o balanço era favorável ao nosso presidente, porque não enveredou pelo populismo econômico que tem sido a praga da América Latina e nos impede de nos desenvolvermos. Enfim o Lula é um contraponto aos rompantes bolivaristas do Hugo Chaves, às diatribes do Evo Morales e à quedinha dos Kischner por um bom calote. Ufa que ilha de racionalidade!

            Novamente, aqui é preciso perscrutar as razões profundas: o Fernando Henrique abriu a picada e o Lula seguiu-lhe os passos ao nos colocar na ciranda financeira mundial, deixando o câmbio flutuar ao sabor das idas e vindas dos capitais. Se de um lado isso nos tornou mais confiáveis à banca e possibilitou o controle da inflação, por outro lado esse dinheiro fácil é uma morfina que nos anuvia a visão do descalabro das contas públicas, cujo rombo é financiado com esse dinheiro. O resultado é a falta de investimento em infra-estrutura, desindustrialização e nossa transformação em bons meninos da globalização que têm o papel de se agarrarem à ponta da cauda do cometa China. O único passo em falso do Lula aos olhos dos nossos julgadores internacionais foi com relação ao presidente do Irã, mas talvez ele tenha feito isso só para mostrar aos seus colegas esquerdistas que é de alguma forma independente.

            Creio que essa nossa mania de agradar, por fazer parte do nosso DNA, nunca seja de fato extirpada da nossa psiquê, a não ser que nós brasileiros fôssemos bombardeados com uma intensa carga de radiação que modificasse esses genes malditos. Mas não custa sonhar com um dia em que o Brasil faria cortesia aos “outros” ou faria desfeita só quando lhe fosse do seu real interesse, isto é quando fosse para melhorar a vida do povo e não para receber aplausos ou para esconder de si mesmo suas próprias inseguranças.

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Zelites

            Na semana passada no nosso Montblatt Cristovam Buarque falava de como o Brasil fez ao longo de sua história poucas escolhas certas e muitas escolhas erradas. Não há como não concordar com ele, especialmente se consideramos que nossas escolhas erradas foram sempre fruto da nossa passividade, da nossa importação de idéias elaboradas alhures e transportadas para as terras tropicais com quase nenhuma “customização” para usar uma palavra da moda no mundo corporativo. Mercantilismo, liberalismo, industrialismo, socialismo, neoliberalismo, todos os ismos que fizeram maravilhas nos países do norte quando aportaram ao sul do Equador só serviram para satisfazer os interesses dos responsáveis pela importação sem que houvesse benefícios gerais.

            De fato, os resultados desastrosos que obtivemos – péssimos indicadores sociais, desenvolvimento insustentável, a depender dos altos e baixos das potências dominantes – tiveram culpados ao longo da nossa história, direta e imediatamente aqueles que executaram o programa estrangeiro, e indireta e mais remotamente aqueles que se deixaram engambelar pelas palavras doces ou pela embalagem agradável aos olhos. Os bestializados, como bem definiu José Murilo de Carvalho quando falou sobre o povo que assistiu à proclamação da república sem ter nenhuma participação, nunca perceberam que nossas elites estiveram sempre a instalar vírus cavalo de Tróia na máquina brasil. Se tivessem percebido talvez tivessem reagido de alguma forma consistente e forçado certas concessões reais.

            Infelizmente isso nunca aconteceu em nossa história. As mudanças que ocorreram no Brasil, a independência, a abolição da escravidão, a república, a nova república, o controle da inflação, o bolsa-família, não podem ser atribuídas a uma pressão constante das classes populares que levasse os donos do poder a ter medo de perder os anéis e a fazer mudanças substanciais para ficarem com os dedos. Afinal, não é assim que as revoluções funcionam? O projeto radical nunca vence é claro, porque os magnatas sempre conseguem arrumar um jeito de sobreviver mesmo que isso signifique às vezes cortar a própria carne. Os jacobinos da Revolução Francesa, aquela que serve de paradigma a todos nós, foram derrotados, Robespierre, o incorruptível de classe média, foi guilhotinado, os sans-cullotes ficaram em larga medida a ver navios, mas é inegável que houve um arejamento no andar de cima. De aristocráticas, vivendo da renda da terra herdada, as elites passaram a ser burguesas, vivendo da renda de seus empreendimentos financeiros e industriais. Pode ter sido uma mudança de forma, mas ao longo do tempo fez uma enorme diferença: permitiu que surgisse uma classe média que trabalhava nesses empreendimentos vendendo sua capacidade intelectual e não sua capacidade braçal. Napoleão pode ter sido um ditador que sufocou qualquer laivo de verdadeira democracia, mas ele chegou lá por seus próprios méritos e não por ter nascido em alguma família real.

            Como nunca tivemos no Brasil classes populares que demonstrassem seu descontentamento e nem setores médios que pensassem por si próprios sem se agregarem às elites, nossas mudanças sempre foram superficiais, ditadas pelas contingências do momento, geralmente externas a nós. Querem ver? A independência foi uma cartada dos Bragança para garantirem a coroa do imenso Brasil quando estavam a ponto de perder a do pequenino Portugal. A escravidão foi abolida no Brasil, entre outros motivos, para satisfazer os pruridos morais da opinião internacional. Quanto aos maiores interessados, os escravos, nunca exerceram qualquer influência sobre o processo, tanto é verdade que a execução da libertação na prática, da maior importância para eles, foi deixada a cargo de ninguém e o resultado foi o apartheid velado que vivemos até hoje no país. Nem vou falar da república, golpe de uma parte da elite que importou o tal do positivismo de Augusto Comte, aplicando idéias epistemológicas destinadas a dar uma qualidade científica às ciências sociais e as desvirtuaram transformando-as em veículo de ordem autoritária e progresso para poucos. Pulando no tempo temos a nova república, pequena satisfação dada aos otários que lutaram pelas diretas já e ao final foram presenteados com José Sarney, lídimo amigo da ditadura que virou a casaca no momento oportuno. Será que teríamos conseguido fazer essa pequena mudança se os Estados Unidos não considerassem a região livre dos seus maiores inimigos, os soviéticos? Afinal, eles ajudaram a derrubar Jango para evitar o mal maior do comunismo.

            Até aqui falei das mudanças políticas feitas por nossas elites, loucas por um produto importado. No terreno econômico elas não ficam atrás na insistência em dançar conforme a música da economia internacional. Fomos colônias agrícolas nos séculos 16-19 para contribuir com a industrialização da Europa, industrializamo-nos no século XX a reboque da necessidade de o sistema financeiro internacional, comandado pelos Estados Unidos, darem vazão à liquidez abundante, que culminou com a farra dos petrodólares. Controlamos a inflação na década de 90 e estipulamos renda mínima para os pobres no âmbito do Consenso de Washington, pavimentando nossa entrada no sistema global de livre comércio capitaneado pela OMC. Isso abriu nossas portas para o mundo dos produtos industriais importados que se mantiveram preços baixos aqui, acabaram contribuindo para consolidar nosso papel global de potência agrícola.

            Enfim, nunca tivemos elites que fossem obrigadas pelo povo a serem criativas e a inventarem modos alternativos de organização. Há três semanas vi o filme sobre Margaret Thatcher e admirei o nacionalismo dela, a clara visão que aquela mulher tinha de aonde queria levar a Inglaterra. Independentemente de concordar ou não com as idéias, não há como não se deixar fascinar pelo caráter firme da “afanadora de leite” (seus detratores a chamavam de Margaret Thatcher, milk snatcher). E a filha de quitandeiro teve que ter nervos de aço para penetrar no ambiente exclusivo da elite britânica, elite esta que nos áureos tempos mandava seus filhos a Eton para literalmente comerem o pão que o diabo amassou e passarem frio no inverno. Só assim os meninos adquiriam o caráter necessário para assumir responsabilidades, cuidar dos outros e comandar o império. A nata brasileira, ao contrário, vive refastelada em seu conforto tropical e o melhor rito de iniciação que temos à vida adulta no Brasil são as universidades públicas, que em muitos casos, como no local em que a que vos fala estuda, são antros de privilégios, cinismo, preguiça acadêmica, picaretagens e da filosofia um tanto quanto depassée do “É proibido proibir”. Nós, membros da elite no Brasil, longe de almejarmos altos padrões de realização, nos damos por satisfeitos em estarmos acima dos pretos e pobres. Enquanto essa mentalidade não mudar nunca daremos o salto de qualidade que permita que nossos lampejos de crescimento econômico levem ao desenvolvimento.

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Vida corporativa

            Neste mês de abril a empresa em que trabalho, que era brasileira, fundada por um brasileiro, foi vendida a uma multinacional. É difícil resistir nessa área de serviços, as margens de lucro são pequenas devido à competição e o que é o ponto mais fraco, como há falta de mão de obra qualificada, as multinacionais oferecem mais benefícios e portanto conseguem fisgar os profissionais disponíveis. Essa falta crônica de condições para fazer negócios inclui a infraestrutura urbana: o metrô em São Paulo está cada vez mais saturado e inoperante, os funcionários, a maioria moradores da Zona Leste, sempre se atrasam por conta das panes, e chegam irritados ao trabalho. Num cenário como esse, será cada vez mais difícil surgir empreendedores no Brasil que abram empresas e possam expandi-las. Não havendo fartura de recursos para que todos possam tentar sua chance, as multinacionais sempre terão uma vantagem comparativa insuperável.

            Então é preciso nos rendermos aos gringos. Desde que houve a integração, eu já tive que fazer vários cursos na internet, com prazos sempre exíguos que não levam em conta o fato que eu tenho meu trabalho normal a realizar. Gerenciamento de riscos, segurança da informação, normas de ética e conduta, cada um leva oficialmente três horas que parecem dez levando em conta que são traduzidos. A tradução é uma grande porcaria e a leitura se arrasta, porque não fazem o que se chama de localização, isto é a adaptação ao contexto local: os slides se sucedem falando de coisas totalmente irrelevantes no contexto brasileiro: fideicomisso, fundos mútuos, órgãos reguladores dos EUA. No final há sempre um prova, e é preciso ter uma pontuação mínima, do contrário não obtemos o certificado de conclusão. E a empresa não poderá cumprir os requisitos regulatórios se não tiver funcionários acreditados nos processos e regras da profissão.

            O objetivo das empresas ao nos obrigar a realizar essas atividades é o de introjetar os tais valores que normalmente giram em torno de trabalho em equipe, liderança e ética, tudo claro para “agregar valor aos clientes” e assim retê-los, criar uma boa imagem da marca e  “conquistar novas fatias de mercado”. Belas palavras, mas como diria o saudoso Vicente Matheus, presidente do “Curintia” na prática a teoria é outra.

            Percebi isso na quarta-feira, quando no elevador indo embora para casa, comentei que eu tinha finalmente acabado um dos treinamentos depois de uma tarde toda de luta e tinha passado na prova! Ao que um moço da informática retrucou, lampeiro: “Pois eu fiz em meia hora!”. Eu espantada perguntei: “Ué, mas como você consegui passar rapidamente pelos slides, não demora para carregar?” E ele disse: “Ah tem uma tecla que passa rapidinho e no final eu perguntei para um outro que tinha feito e ele me deu a resposta.” Eu otária, tinha lido tudo minuciosamente, respondido às perguntas sozinha e os espertos conseguiram achar uma gambiarra tecnológica e se livraram da incumbência de maneira indolor. E o mais engraçado de tudo é que eu, apesar de todo meu bom comportamento, posso ser mandada embora e ele ficar, porque aos olhos da corporação, nosso certificado de conclusão vale a mesma coisa, não importando os meios espúrios com que foi obtido. De quem é a culpa? Dos gringos que fingem não ver a cultura brasileira em ação e fingem não perceber a inutilidade dessa educação à distância? Dos funcionários, que não agem com ética e preferem ser malandros?

            Acredito que é uma mescla disso tudo. Os gregos já sabiam que a melhor lei é aquela não verbalizada, mas que está introjetada na alma do indivíduo por meio da educação. Não haveria necessidade de códigos de conduta se cada indivíduo aprendessse desde cedo como se comportar imitando o exemplo dos pais, dos professores.  Eu acho o treinamento tão insuportável quanto os que o fizeram em meia hora, mas minha formação me impede de driblar as regras: se a empresa está pagando meu salário, se tenho um vínculo empregatício, devo obedecer às ordens, e se não estiver contente com elas devo manifestar minha oposição ou então sair da empresa. Mas o comportamento das pessoas é normalmente o pior possível, porque mescla falta de responsabilidade e covardia: elas não têm coragem de enfrentar a instituição e ao mesmo tempo não querem perder o emprego, por isso fingem que são bons funcionários.

            Nesse sentido, todos os valores que eles querem que nós passemos a executar na prática se transformam em grande parte em letra morta. Alguns poucos indivíduos irão corresponder às expectativas corporativas, não porque aprenderam nos web learning, mas porque já tinham isso dentro de si. Fazer um curso de liderança não vai fazer de ninguém um líder, pois ser um líder verdadeiro é assumir responsabilidades, e ter um comportamento leal que inspire confiança em seus funcionários. Isso faz parte do caráter da pessoa, que se reflete na prática cotidiana, no modo de tratar as pessoas com respeito e com coerência. E caráter se forma não nos corredores corporativos, mas pela experiência de vida.

            Aí que está o problema. Em nossa sociedade de consumo tudo o que queremos está fora de nós, temos que adquirir pela compra. Temos cada vez menos tempo de ter contato com as pessoas, incluindo nossos próprios familiares, de observá-las, emulando-lhes as qualidades e reparando nos defeitos para evitá-los. Não sabemos lidar com perdas, porque na sociedade de consumo ilimitado, perdas não existem, quando muito coisas como morte, doença são apenas derrogações do prazer. Quantas capas da Caras, a expressão máxima de nossa psiquê, nos falam de celebridades que tiveram câncer, perderam algum familiar, levaram um pé na bunda e estão lá lépidas e faceiras, posando para o fotógrafo como se aquilo fosse apenas um pequeno incidente na marcha inexorável da felicidade a ser obtida?

            A caravana anda e não há tempo para se voltar a si mesmos e refletir sobre nossas angústias, incertezas, medos. O melhor a fazer é estampar o sorriso Colgate no rosto, mesmo que isso nos transforme em autômatos, que fazem apenas repetir o que lhe mandam sem atentar para os desdobramentos. Complete a prova! Sim, eu completo, mesmo que não saiba quais as conseqüências de eu estar dando meu acordo a tudo aquilo que está sendo imposto a mim, incluindo penalidades se eu não fizer o que eu prometi. Sorria sempre! Sim, eu sorrio, e ao fazê-lo estou escondendo de mim mesmo meus fracassos, minhas frustrações, meus vazios. E la nave va, sem rumo, ao sabor dos ventos, ou melhor das regras que nos são impingidas sem que tenhamos o caráter suficiente para ter consciência do que de fato significam. Nesse entrementes não adquirimos a experiência de vida que nos torna sábios, mas apenas acumulamos pontos no programa de milhagem: milhagens corporativas, amorosas, sexuais, etc.

            Uma feliz Páscoa a todos os leitores do Montblatt e espero que acumulem muito ovos de chocolate!

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