Democracia tupiniquim

            Nesta semana lia na Revista Getúlio, publicação bimestral da Fundação Getúlio Vargas, uma entrevista com uma professora de relações internacionais da casa, Maria Lúcia Pádua Lima, para quem “além das vantagens de recursos naturais abundantes, agricultura forte, indústria desenvolvida e boa gestão, o país tem a garantia de uma democracia consolidada”. É de causar espanto em como se formou, mesmo em meios acadêmicos de elite, um consenso em torno da situação do Brasil, cujo elemento mais notório é a tal estabilidade institucional. Na opinião da ilustre professora, a vantagem competitiva do Brasil em relação à China é a estabilidade da nossa democracia em comparação à estabilidade inerente de regimes autoritários como o chinês.

            Essa entrevista me levou a pensar sobre o significado que no Brasil adquiriu a palavra democracia. Parece que aqui o fato de não termos mais golpes de Estado, regimes de exceção é tudo o que se pode esperar da democracia. A eleição de um candidato ungido pelo ocupante atual do cargo é uma conquista, pois significa que as políticas bem-sucedidas de estabilidade monetária e os programas de renda mínima serão continuados e aprofundados. Nossa normalidade democrática chegou a tal nível de sofisticação que votar em Dilma, Serra ou Marina será como escolher a cor da gravata: vermelha, azul ou verde tanto faz, porque estamos no caminho inexorável de nos tornarmos um “player agressivo no mercado global”. Viva a democracia brasileira, vivam as urnas eletrônicas, viva a primeira “presidenta”!

            Mas será que democracia é só isso? Será que não estamos na verdade nos atendo aos piores aspectos da democracia e sendo incapazes de lhe aproveitar as vantagens? A democracia faz com que as decisões demorem mais a serem tomadas, porque as políticas governamentais estão mais sujeitas à influência de grupos de pressão, que podem impedir que medidas mais enfáticas sejam tomadas. A China não tem esse problema: seu governo consegue estabelecer uma estratégia definida de inserção do país na economia globalizada, mesmo que ela implique haver grandes perdedores: os indivíduos que perdem sua propriedade para os incorporadores imobiliários,  os habitantes das cidades que sofrem com a poluição causada pela industrialização a todo custo, os pescadores e agricultores que perderam seu meio de vida com a construção da faraônica usina hidrelétrica de Três Gargantas.

            O Brasil, por ser uma democracia, não consegue fazer valer medidas tão drásticas como as que a China consegue. Por outro lado, a democracia permite o debate e o debate supostamente leva ao aprimoramento das políticas públicas. Se houvesse debate na China talvez eles não tivessem tantos problemas ecológicos, tantas pessoas sentindo-se injustiçadas com desapropriações. Será que no Brasil fazermos uso dessa vantagem?

            A resposta óbvia é não, como se pode ver nessas eleições. Não houve nenhuma discussão séria a respeito da situação do Brasil, todos os candidatos só tecendo loas ao status quo e prometendo fazer ajustes finos. Críticas são inexistentes. E teríamos muitos motivos para tal. A educação no Brasil é um descalabro, descalabro porque mesmo nossas melhores instituições estão a ano-luz de padrões aceitáveis nos “grandes players globais”: as escolas mais bem colocadas no ENEM conseguem apenas um desempenho mediano (nota 6) se avaliado de acordo com o teste internacional  PISA; nossa melhor universidade, a USP, fica no pelotão das 150 melhores universidades do mundo de acordo com o ranking da Universidade de Jiao Tong da China, sendo ultrapassada de longe por universidades de países com população infinitamente menor, como Israel e Finlândia. Nossa infra-estrutura está em frangalhos e não há PAC que possa resolver isso sem uma discussão séria de como poderemos aumentar nossa capacidade de poupança para realizar os investimentos necessários. O crescimento brasileiro está baseado no endividamento, tanto das famílias quanto do governo, nos sujeitando às oscilações do mercado financeiro mundial. O Brasil está envelhecendo antes de ter enriquecido e não há ninguém na mídia, na classe política que nos lembre disso.

            Enfim, parece que a democracia em terras tupiniquins contentou-se em resumir-se a um consenso em torno de um mínimo denominador comum. Vamos indo, empurrando com a barriga nossos problemas estruturais e focando apenas no pouco que deu certo, sem nos preocuparmos com o muito que se não resolvido, pode se revelar catastrófico. Viva a estabilidade democrática!

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Democracia corintiana

            Leio no UOL notícias que 60 mil pessoas se reuniram em Brasília para protestar contra a corrupção. Vira e mexe há alguma demonstração no Brasil contra a violência, contra a corrupção. Pombas da paz são soltas, as pessoas cantam e tocam bumbo, fazem uma grande fuzarca que vira manchete nos jornais do dia seguinte. Qual o efeito prático disso tudo? Por acaso nossas práticas políticas, culturais melhoram? Por acaso, as pessoas votam de maneira mais consciente, por acaso deixam de dar pequenos golpes cotidianos para burlar as leis que nos põem canga, por acaso deixam de se idiotizar vendo TV e dando importância desmesurada ao futebol? Por acaso, os mesmos indivíduos que xingam jogadores baladeiros, que pressionam pelo bom comportamento dos seus ídolos, que quebram as instalações do clube se ele vai mal no campeonato exercem o mesmo tipo de controle cotidiano sobre os donos do poder no Brasil?

            O que dizer de cada um dos três poderes da República? O vetusto Judiciário exerce sofregamente um grande lobby para ter seus proventos aumentados, e ao mesmo tempo se contenta diante da estatística de que 80% dos inquéritos sobre homicídios dolosos no Brasil não chegam a um culpado, e manda os promotores arquivarem os processos inconclusos para desafogar a justiça e satisfazer as metas de celeridade do Conselho Nacional de Justiça (está em O Globo do domingo, 4 de setembro). Ou seja, a tão propalada faxina na Justiça na verdade não passa muitas vezes de medidas perfunctórias que caem bem em um Balance Scorecard de desempenho que só enfoca números, mas que não têm nenhuma influência sobre a vida de uma família de pretos e pobres que perde seu ente querido e que não terá direito nem a saber quem é o algoz.

            O Executivo é o todo poderoso de plantão cujo poder de cobrar impostos tanto nos amedronta. Dona Dilma, na maior cara de pau, diz que é um bom momento para ressuscitar a CPMF. O único problema de sua primeira vida foi que não foi usada na saúde e desta vez claro terá o destino que merece, ser aplicada para cuidar dos doentes. Será verdade? Quando se analisa o que de fato está sendo feito nesse meio – aumento cada vez maior da presença da iniciativa privada na área da saúde, sucateamento deliberado de hospitais públicos, seu loteamento pelas seguradoras de saúde (vide o Hospital das Clínicas em São Paulo), criação de fundações de médicos e profissionais da saúde que nada mais fazem do que usufruir dos equipamentos públicos sem nada dar em troca, vemos que o objetivo da CPMF não será o de contribuir para diminuir as agruras dos diabéticos, hipertensos e outros doentes, mas apenas aumentar o caixa do governo.

            Governo este que freqüentemente bate recordes de arrecadação (R$ 90,247 bilhões em julho de acordo com a Receita Federal), aumenta o superávit primário, e nos faz presos aos ditames dos banqueiros: mais superávit, mais pagamento de juros, mais rolagem de dívida, menos investimento naquilo que interessa para tornar o país auto-sustentável e independente. Pelo contrário, o objetivo é tornar o Brasil cada vez mais refém dos financiadores dos políticos: os banqueiros, os grandes grupos econômicos, que são os principais beneficiários das tetas do governo. De um lado se beneficiam diretamente por empréstimos do BNDES ou do PROER, de outro se beneficiam indiretamente pela fraqueza dos órgãos reguladores que pouco fazem para coibir comportamentos anti-concorrenciais, desrespeitos ao Código de Defesa do Consumidor, exercício abusivo de direitos.

            Antes e depois das grandes privatizações dos anos 90 o Brasil continua a ser dominado por oligopólios: a Telefônica em São Paulo, um dos produtos da venda de estatais, é uma das campeãs de reclamações no PROCON e continuará sendo por muito tempo, pois o consumidor não tem alternativa de serviço. Argumenta-se que os investimentos em telefonia aumentaram depois das vendas das teles, mas isso poderia ter sido feito pelo próprio Estado se tivesse mantido capacidade de investir. Ao invés disso, vendemos o patrimônio público, e o consumidor é forçado a pagar tarifas escorchantes por luz, telefone, gás e ainda vivemos sob a constante ameaça de apagões e explosões, já que o seu Fernando Henrique Cardoso esqueceu-se de que o objetivo de uma privatização que realmente satisfizesse o interesse público seria atrair investimentos para aumentar a oferta de infraestrutura, e não simplesmente vender empresas a toque de caixa para resolver um problema pontual de combate à inflação que só fez dar aos empresários uma fonte de renda segura na forma das tarifas por serviços que já eram oferecidos antes de elas chegarem ao mercado.

            Seria lógico falar agora do Legislativo, supostamente o representante do povo, mas não perderei meu tempo com um local que abriga Tiririca, Renan Calheiros, Paulo Maluf pois nosso Congresso é mera prostituta de bataclã. Cria dificuldades, fazendo-se de virtuosa, ameaçando debandar, para vender facilidades. Seu papel é de chantagear o Executivo e depois abrir-lhe as pernas quando os nobres deputados e senadores conseguem aquilo que querem, verbas e cargos para seus apaniguados e para si próprios. Abrir as pernas e deixar que o Executivo enfie goela ou outro orifício qualquer abaixo as famigeradas Medidas Provisórias.

            Assim, nossos Três Poderes são oligárquicos e plutocráticos, servem aos poucos e ricos. Não vejo maneira de mudarmos essa situação seguindo exemplos de fora, especialmente por que tal tendência tem ocorrido nos próprios países centrais, em que a democracia sempre foi mais bem implantada, vide a derrocada dos EUA e União Européia, chafurdando em dívidas impagáveis e desemprego estrutural. Resta-nos somar esforços aqui dentro, para além de meros protestos esporádicos. Deveríamos nos espelhar no comportamento dos fanáticos do futebol que fazem marcação cerrada sobre aqueles cujo desempenham não os satisfazem. Um pouco de espírito corintiano aguerrido, pedras atiradas, carros quebrados, poderia fazer maravilhas para melhorar a qualidade dos nossos políticos, juízes, empresários. Quem sabe o futebol possa ser mais do que uma fonte de perdição e alienação e se torne a fonte de salvação da nossa combalida democracia?

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Civilismo já

            De acordo com o historiador Boris Fausto em seu livro História do Brasil, “a campanha presidencial de 1909-1910 foi a primeira efetiva disputa eleitoral da vida republicana.” De um lado estava o baiano Rui Barbosa, apoiado por São Paulo e Bahia, de outro estava o Marechal Hermes da Fonseca, apoiado por Rio Grande do Sul e Minas Gerais. “A candidatura civil de Rui, em oposição ao militar Hermes da Fonseca, deu nome à sua campanha: a campanha civilista. Pela primeira vez na história republicana, um candidato à presidência percorreu vários pontos do país em busca de votos” (Vitor Amorim de Angelo in http://educacao.uol.com.br/historia-brasil/campanha-civilista.jhtm ). “Rui procurou atrair o voto da classe média urbana defendendo os princípios democráticos e o voto secreto. Deu à campanha um tom de reação contra a intervenção do Exército na política. Atacou os chefes militares e contrapôs a Força Pública estadual ao Exército, como modelo a ser seguido. Embora a base política mais importante de Rui Barbosa fosse, naquela altura, a oligarquia de São Paulo, sua campanha se apresentou como a luta da inteligência pelas liberdades públicas, pela cultura, pelas tradições liberais, contra o Brasil inculto, oligárquico e autoritário. A vitória de Hermes produziu grandes desilusões na restrita intelectualidade da época.” (Boris Fausto em “História do Brasil”) Hermes obteve 403 mil votos e Rui Barbosa obteve 223 mil votos, tendo ganho de Hermes em São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador, sua cidade natal

            Lembrei-me deste episódio um tanto quixotesco da história do nosso Brasil quando li nesta semana a respeito do plebiscito que será realizado em 11 de dezembro no Pará para decidir pelo desmembramento do Estado em Carajás, Tapajós e Pará. É preciso que nós, aqui do Sul, nos mobilizemos contra esse absurdo. E quando digo nós, não estou incluindo os políticos, porque estes, mesmo que saibam que seus respectivos Estados ficarão ainda mais sub representados do que já são na Câmara dos Deputados e no Senado, não têm razões para se indignar porque estão todos comodamente usufruindo das benesses do poder, dos cargos públicos, dos empréstimos privilegiados do BNDES, naquele arranjo onde uns poucos ganham e a maioria perde que é tão tipicamente brasileiro. Nós, os trabalhadores do Brasil, é quem vamos pagar a conta.

            De acordo com cálculos do Ipea (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas), os custos anuais de manutenção de Carajás e Tapajós seriam de R$ 2,9 bilhões e R$ 2,2 bilhões, respectivamente, o que geraria um déficit de R$ 2,16 bilhões, montante que seria pago pelo governo federal. Em média, Tapajós gastaria 51% do seu PIB (Produto Interno Bruto) com a máquina pública e Carajás 23% –a média nacional é de 12,72%. (http://noticias.uol.com.br/politica/2011/07/20/dalmo-dallari-faz-requerimento-no-tse-para-que-o-brasil-todo-vote-sobre-a-divisao-do-para.jhtm). Ou seja, à exceção de Carajás que viveria da extração mineral, os outros Estados são inviáveis economicamente. Os que defendem que a criação de mais dois Estados na Federação estimularia o desenvolvimento regional devem com certeza estar se referindo à criação de empregos públicos: dois novos Judiciários, dois novos Legislativos, dois novos Executivos. Isso não significa criação de riqueza, significa aumento de despesas, que serão pagas por aqueles que trabalham e geram empregos e cuja renda é em grande parte garfada por um Estado que impõe uma carga tributária de 33,6%, superior a de países como Suíça (29,4%) e Canadá (32,2%) (http://www1.folha.uol.com.br/mercado/792959-carga-tributaria-no-brasil-e-maior-do-que-nos-eua-dinamarca-lidera.shtml), cujo nível de serviços públicos digamos que seja infinitamente melhor do que aquele que é oferecido em nossas terras tropicais.

            Já falei anteriormente neste espaço sobre o endividamento do Brasil e muito melhor do que eu o Paulo Passarinho. Os EUA estão dando um grande calote em todo mundo pela desvalorização de sua moeda, que provoca a valorização do nosso real. Não se sabe o futuro do Euro, se os eurocratas conseguirão fazer com que os países do Sul do continente engulam a pílula amaríssima de anos de depressão econômica para pagar as dívidas contraídas com banqueiros inescrupulosos. Em suma, podemos estar adentrando mares revoltos, com uma debandada dos especuladores que sustentam nosso vício de perdulários, o que nos obrigaria a aumentar ainda mais os juros, deteriorando ainda mais nossas contas públicas. Não é hora de torrarmos dinheiro público com bobagens como essa. É claro que há interesses poderosos por trás dessa iniciativa, por exemplo, da Vale que quer se livrar do inconveniente dos sem-terra, dos políticos que querem arrumar um jeito mais fácil de se elegerem. Mas é preciso que as pessoas de bem deste país se unam contra as forças do mal, para que não haja o locupletamento da minoria à custa da maioria silenciosa e bovina.

            Eu lancei um apelo aos meus colegas de faculdade para que levantassem essa bandeira no Centro Acadêmico XI de Agosto, cujos temas de luta recentes foram a mobilização pelos direitos dos homossexuais e contra os ataques machistas da imprensa contra Dilma e suas companheiras de ministério. Só recebi alguns poucos e-mails de gozação e uma sobranceira indiferença de quase toda a juventude dourada que estuda Direito na São Francisco na mesma turma que eu, para quem palavras como pagar contas ou declarar imposto de renda são etéreas, porque os mancebos são dependentes dos pais ou então funcionários públicos, querem mais é preservar o “esprit de corps”.

            Vejo no entanto, uma luz no fim do túnel. Dalmo de Abreu Dallari, professor da minha faculdade, apresentou requerimento administrativo ao TSE para que TODA a população brasileira seja consultada sobre a criação dessas novas unidades políticas, com base no artigo 18 da Constituição Federal. O requerimento será votado em agosto. É preciso que coloquemos pressão nesses juízes, porque se formos depender do bom senso deles tudo estará perdido. E se a divisão for decidida em referendo pelo povo paraense com certeza a divisão será aprovada no Congresso Nacional, dominado pela bancada do Norte e Nordeste, e sancionada por Dona Dilma para agradar a base aliada, já que entre suas convicções (se é que ela tem alguma) e a necessidade de ceder às chantagens, temos visto recentemente que seu caráter é fraco demais para resistir à tentação.

            O gênio da propaganda maligna Duda “Goebbels” Mendonça comandará a campanha pela criação de Carajás. O circo está sendo armado para os palhaços se apresentarem. É preciso que nós, as pessoas que pagam as contas deste Brasil, finquem o pé e não entremos no picadeiro.

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Agradáveis salamaleques

            O Brasil surgiu para agradar aos outros, no caso os capitalistas que queriam ganhar dinheiro vendendo o pau-brasil, ouro e demais produtos exóticos para os europeus. Essa sina de agradar, por vir de berço, nos acompanha por toda a história. A escravidão foi organizada para agradar aos homens de negócio, e foi desfeita para agradar aos mesmos homens de negócio; nossa independência foi feita para agradar à Casa de Bragança que via a coroa fugir-lhe da cabeça em Portugal, com as revoluções liberais; o golpe de 64 foi feito para agradar aos americanos e nos colocar como bons meninos coadjuvantes na luta contra o comunismo.         Outros países como os Estados Unidos, que se fundaram para lutar contra a opressão de um governo que não representava seus interesses, nasceram para desagradar. Eles são sempre do contra: não seguem o sistema métrico, têm suas próprias normas contábeis, raramente ratificam algum tratado internacional, para não falar do total menosprezo pela ONU, tão bem mostrado na Guerra contra o Iraque. O desagradar para eles é motivo de orgulho, símbolo de sua independência, de sua soberania.

            O mesmo ocorre com a China, por razões diversas. O Império do Meio, por se considerar o centro do mundo, nunca deu muita importância ao que ocorria ao redor e por isso se isolou durante muito tempo, contribuindo para seu descompasso econômico e tecnológico com relação ao Ocidente, onde as novidades pululavam. O dragão só despertou mesmo no final do século XX, mas ainda que copie (ou pirateie) tudo o que os países desenvolvidos têm de bom, insiste em se considerar culturalmente superior e não quer nem saber de lições sobre democracia, direitos humanos, desvalorização do ri min bi, etc.

            Bem, voltando ao nosso país lindo e trigueiro o fato é que nós brasileiros temos essa constante preocupação com o que os outros, os estrangeiros, vão falar sobre nós. Quando eles nos elogiam isso merece menção na imprensa, comemorações, é motivo suficiente para nos orgulharmos. Quando nos criticam, lamentamos, nos envergonhando pelo papel feio desempenhado lá fora, ou nos enchemos de raiva pela injustiça da crítica. De qualquer maneira nunca ficamos imunes a esse olhar de fora, porque nascemos para satisfazer as necessidades de todos, menos as nossas.

            Esses pensamentos me vieram à cabeça nesta semana, quando ouvi um comentário a respeito da conveniência de elegermos a Marina porque ela é respeitada lá fora, da mesma maneira que Fernando Henrique Cardoso o era. De fato, a Marina ganhou prêmios internacionais por sua luta pelo meio ambiente e a cobertura que o jornal francês deu de nossa eleição focou no desempenho extraordinário da “ambientalista”. Mas talvez devêssemos analisar o porquê do entusiasmo dos “outros” por candidatos comprometidos com a causa ambiental, antes de elegermos tal boa imagem internacional como critério de escolha de candidato.

            Ora, os países desenvolvidos se industrializaram e enriqueceram às custas de suas florestas. Mas agora o barco está adernando, isto é, a Terra mostra sinais de exaustão do modelo capitalista de exploração econômica, que parte do pressuposto de que os nossos recursos são inesgotáveis, e que poderão sempre alimentar a fornalha do crescimento econômico. Isso faz com que se torne premente a preservação do que resta, mas aqui cabe a pergunta: Quem pagará o preço? Os países desenvolvidos nos ressarcirão com o que deixaremos de ganhar em termos de exploração agrícola das terras antes cobertas por vegetação original? Afinal, a epopéia do cerrado no Brasil mostrou que nossa agricultura pode ser extremamente forte e produzir produtos exportáveis que desafiam a primazia das potências como EUA e União Européia. O setor agrícola brasileiro, embora seja concentrador de renda, é inegavelmente eficiente. Seria absurdo pensar que os europeus estão preocupados tanto com a Mãe Terra porque também querem preservar seu sistema agrícola caro, subsidiado que só beneficia seus próprios cidadãos?

            Ao mesmo tempo que o Le Monde fazia salamaleques à Marina, a revista The Economist da semana passada enchia a bola do Lula. Apesar de o artigo apontar que ele deixou de fazer reformas estruturais, no geral o balanço era favorável ao nosso presidente, porque não enveredou pelo populismo econômico que tem sido a praga da América Latina e nos impede de nos desenvolvermos. Enfim o Lula é um contraponto aos rompantes bolivaristas do Hugo Chaves, às diatribes do Evo Morales e à quedinha dos Kischner por um bom calote. Ufa que ilha de racionalidade!

            Novamente, aqui é preciso perscrutar as razões profundas: o Fernando Henrique abriu a picada e o Lula seguiu-lhe os passos ao nos colocar na ciranda financeira mundial, deixando o câmbio flutuar ao sabor das idas e vindas dos capitais. Se de um lado isso nos tornou mais confiáveis à banca e possibilitou o controle da inflação, por outro lado esse dinheiro fácil é uma morfina que nos anuvia a visão do descalabro das contas públicas, cujo rombo é financiado com esse dinheiro. O resultado é a falta de investimento em infra-estrutura, desindustrialização e nossa transformação em bons meninos da globalização que têm o papel de se agarrarem à ponta da cauda do cometa China. O único passo em falso do Lula aos olhos dos nossos julgadores internacionais foi com relação ao presidente do Irã, mas talvez ele tenha feito isso só para mostrar aos seus colegas esquerdistas que é de alguma forma independente.

            Creio que essa nossa mania de agradar, por fazer parte do nosso DNA, nunca seja de fato extirpada da nossa psiquê, a não ser que nós brasileiros fôssemos bombardeados com uma intensa carga de radiação que modificasse esses genes malditos. Mas não custa sonhar com um dia em que o Brasil faria cortesia aos “outros” ou faria desfeita só quando lhe fosse do seu real interesse, isto é quando fosse para melhorar a vida do povo e não para receber aplausos ou para esconder de si mesmo suas próprias inseguranças.

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Zelites

            Na semana passada no nosso Montblatt Cristovam Buarque falava de como o Brasil fez ao longo de sua história poucas escolhas certas e muitas escolhas erradas. Não há como não concordar com ele, especialmente se consideramos que nossas escolhas erradas foram sempre fruto da nossa passividade, da nossa importação de idéias elaboradas alhures e transportadas para as terras tropicais com quase nenhuma “customização” para usar uma palavra da moda no mundo corporativo. Mercantilismo, liberalismo, industrialismo, socialismo, neoliberalismo, todos os ismos que fizeram maravilhas nos países do norte quando aportaram ao sul do Equador só serviram para satisfazer os interesses dos responsáveis pela importação sem que houvesse benefícios gerais.

            De fato, os resultados desastrosos que obtivemos – péssimos indicadores sociais, desenvolvimento insustentável, a depender dos altos e baixos das potências dominantes – tiveram culpados ao longo da nossa história, direta e imediatamente aqueles que executaram o programa estrangeiro, e indireta e mais remotamente aqueles que se deixaram engambelar pelas palavras doces ou pela embalagem agradável aos olhos. Os bestializados, como bem definiu José Murilo de Carvalho quando falou sobre o povo que assistiu à proclamação da república sem ter nenhuma participação, nunca perceberam que nossas elites estiveram sempre a instalar vírus cavalo de Tróia na máquina brasil. Se tivessem percebido talvez tivessem reagido de alguma forma consistente e forçado certas concessões reais.

            Infelizmente isso nunca aconteceu em nossa história. As mudanças que ocorreram no Brasil, a independência, a abolição da escravidão, a república, a nova república, o controle da inflação, o bolsa-família, não podem ser atribuídas a uma pressão constante das classes populares que levasse os donos do poder a ter medo de perder os anéis e a fazer mudanças substanciais para ficarem com os dedos. Afinal, não é assim que as revoluções funcionam? O projeto radical nunca vence é claro, porque os magnatas sempre conseguem arrumar um jeito de sobreviver mesmo que isso signifique às vezes cortar a própria carne. Os jacobinos da Revolução Francesa, aquela que serve de paradigma a todos nós, foram derrotados, Robespierre, o incorruptível de classe média, foi guilhotinado, os sans-cullotes ficaram em larga medida a ver navios, mas é inegável que houve um arejamento no andar de cima. De aristocráticas, vivendo da renda da terra herdada, as elites passaram a ser burguesas, vivendo da renda de seus empreendimentos financeiros e industriais. Pode ter sido uma mudança de forma, mas ao longo do tempo fez uma enorme diferença: permitiu que surgisse uma classe média que trabalhava nesses empreendimentos vendendo sua capacidade intelectual e não sua capacidade braçal. Napoleão pode ter sido um ditador que sufocou qualquer laivo de verdadeira democracia, mas ele chegou lá por seus próprios méritos e não por ter nascido em alguma família real.

            Como nunca tivemos no Brasil classes populares que demonstrassem seu descontentamento e nem setores médios que pensassem por si próprios sem se agregarem às elites, nossas mudanças sempre foram superficiais, ditadas pelas contingências do momento, geralmente externas a nós. Querem ver? A independência foi uma cartada dos Bragança para garantirem a coroa do imenso Brasil quando estavam a ponto de perder a do pequenino Portugal. A escravidão foi abolida no Brasil, entre outros motivos, para satisfazer os pruridos morais da opinião internacional. Quanto aos maiores interessados, os escravos, nunca exerceram qualquer influência sobre o processo, tanto é verdade que a execução da libertação na prática, da maior importância para eles, foi deixada a cargo de ninguém e o resultado foi o apartheid velado que vivemos até hoje no país. Nem vou falar da república, golpe de uma parte da elite que importou o tal do positivismo de Augusto Comte, aplicando idéias epistemológicas destinadas a dar uma qualidade científica às ciências sociais e as desvirtuaram transformando-as em veículo de ordem autoritária e progresso para poucos. Pulando no tempo temos a nova república, pequena satisfação dada aos otários que lutaram pelas diretas já e ao final foram presenteados com José Sarney, lídimo amigo da ditadura que virou a casaca no momento oportuno. Será que teríamos conseguido fazer essa pequena mudança se os Estados Unidos não considerassem a região livre dos seus maiores inimigos, os soviéticos? Afinal, eles ajudaram a derrubar Jango para evitar o mal maior do comunismo.

            Até aqui falei das mudanças políticas feitas por nossas elites, loucas por um produto importado. No terreno econômico elas não ficam atrás na insistência em dançar conforme a música da economia internacional. Fomos colônias agrícolas nos séculos 16-19 para contribuir com a industrialização da Europa, industrializamo-nos no século XX a reboque da necessidade de o sistema financeiro internacional, comandado pelos Estados Unidos, darem vazão à liquidez abundante, que culminou com a farra dos petrodólares. Controlamos a inflação na década de 90 e estipulamos renda mínima para os pobres no âmbito do Consenso de Washington, pavimentando nossa entrada no sistema global de livre comércio capitaneado pela OMC. Isso abriu nossas portas para o mundo dos produtos industriais importados que se mantiveram preços baixos aqui, acabaram contribuindo para consolidar nosso papel global de potência agrícola.

            Enfim, nunca tivemos elites que fossem obrigadas pelo povo a serem criativas e a inventarem modos alternativos de organização. Há três semanas vi o filme sobre Margaret Thatcher e admirei o nacionalismo dela, a clara visão que aquela mulher tinha de aonde queria levar a Inglaterra. Independentemente de concordar ou não com as idéias, não há como não se deixar fascinar pelo caráter firme da “afanadora de leite” (seus detratores a chamavam de Margaret Thatcher, milk snatcher). E a filha de quitandeiro teve que ter nervos de aço para penetrar no ambiente exclusivo da elite britânica, elite esta que nos áureos tempos mandava seus filhos a Eton para literalmente comerem o pão que o diabo amassou e passarem frio no inverno. Só assim os meninos adquiriam o caráter necessário para assumir responsabilidades, cuidar dos outros e comandar o império. A nata brasileira, ao contrário, vive refastelada em seu conforto tropical e o melhor rito de iniciação que temos à vida adulta no Brasil são as universidades públicas, que em muitos casos, como no local em que a que vos fala estuda, são antros de privilégios, cinismo, preguiça acadêmica, picaretagens e da filosofia um tanto quanto depassée do “É proibido proibir”. Nós, membros da elite no Brasil, longe de almejarmos altos padrões de realização, nos damos por satisfeitos em estarmos acima dos pretos e pobres. Enquanto essa mentalidade não mudar nunca daremos o salto de qualidade que permita que nossos lampejos de crescimento econômico levem ao desenvolvimento.

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