Propaganda e o fim da discussão racional

            Tenho um amigo que vira e mexe manda a nós, que fazemos parte de seu grupo de contatos eletrônicos, e-mails com propagandas criativas. Realmente ele escolhe a dedo. Da última vez era um anúncio da Ferrari e da Shell, em que um carro Ferrari vai se tornando cada vez mais moderno e chega às suas feições atuais, à medida que ele percorre as ruas das grandes cidades do mundo. Nosso editor já repetiu aqui no Montblatt muitas vezes, uma imagem vale por mil palavras e as melhores propagandas são aquelas em que o meio e a mensagem se casam perfeitamente, impressionando o espectador de primeira e levando-o ao embasbacamento. Tanto é assim que nem vale a pena descrever em palavras as boas propagandas. Basta ver aquelas da organização ambientalista WWF para saber do que estou falando.

            Nesse sentido, talvez elas tenham substituído o papel antes desempenhado pela arte que, na sua vertente pós-moderna muitas vezes e até deliberadamente insiste em se desviar dos cânones tradicionais de beleza para nos fazer desconfortáveis. Basta lembrarmos do neto de Sigmund Freud, Lucian Freud, que morreu há duas semanas. Era considerado um dos maiores pintores do século XX e, no entanto, suas representações femininas estão longe de as mostrarem de maneira favorável. As mulheres de Lucien Freud são patéticas, velhas como bruxas, decrépitas até. Ele pode ter querido passar alguma mensagem com isso, cuja profundeza fez os críticos o considerarem um grande artista, mas convenhamos que para o homem comum a obra de Lucien ou qualquer outro artista de vanguarda é praticamente inacessível.

            Daí a onipresença da propaganda na vida das pessoas, que comentam, que riem, que se lembram das mais antológicas: “Denorex, parece mas não é” “Há coisas que o dinheiro não compra, para outras existe Mastercard”. Eu mesma cunhei um adjetivo “Doriana”, que uso no meu linguajar cotidiano, para me referir a famílias felizes, pois lembro sempre de um comercial da margarina em que a família estava toda reunida em volta da mesa saboreando o café da manhã, todos embevecidos uns com os outros, rindo, compartilhando comida e amor. A propaganda ainda se propõe, como a arte antes do modernismo se propunha, a encantar, a fisgar o indivíduo apelando para sentimentos profundos: amor, sexo, poder. Mas aí que mora o perigo da propaganda.

            Para além do objetivo de encantar, a propaganda se vale de todos as feitiçarias possíveis para convencer o indivíduo de maneira inapelável a realizar alguma coisa: seja comprar, seja doar dinheiro para alguma ONG ou campanha. Não há meio termo, é pegar ou largar, a eficiência de um anúncio no jornal ou revista, de um comercial na TV é medida por sua capacidade de detonar a resposta imediata, total, de fazer a coisa que os idealizadores querem que seja feita. A propaganda não admite nuances, zonas obscuras, sua mensagem é absoluta: este produto é maravilhoso, inesquecível, imperdível, não há nada a fazer senão comprá-lo e depressa! Infelizmente, tal atividade que deveria ficar restrita à finalidade de vender produtos de consumo, espalhou-se por toda a sociedade e se transformou em um método onipresente de argumentação.

            Não é preciso muito esforço para percebermos isso. Discutir idéias hoje em dia está longe de ser uma atividade intelectual, em que as partes em seus embates vão descobrindo novas perspectivas sobre a questão e aprimoram seus próprios pontos de vista. Em uma discussão digna do nome, os interlocutores, mesmo que não tenham conseguido convencer-se mutuamente, saem todos melhores da refrega, seja por terem aprendido coisas com o oponente, seja por terem conseguido defender sua posição e deixado suas ideias mais claras para si próprios. Hoje o que passa por discussão não passa de bordões, de frases bombásticas, lançados com o propósito de chocar aqueles que ainda não se renderam à idéia genial ou de reconfortar aqueles que já concordavam com o autor. Num caso e no outro o único resultado é reforçar preconceitos que nada contribuem para aprimorar os espíritos. A título de exemplo vou me deter sobre dois casos ocorridos nesta semana no Brasil.

            A declaração da Sandy de que é possível ter prazer anal reverberou na internet. A “douta” Adriane Galisteu felicitou a virginal Sandy pelo grito de libertação feminina da cantora, antes tão reprimida e agora tendo coragem de entrega-se aos prazeres da carne. Ontem estava no computador e minha mãe assistindo à TV quando ela parou em um programa em que a apresentadora falava triunfante: “O sexo anal é gostoso sim!”, ao que foi fragorosamente aplaudida pela platéia embasbacada. Para que serve esse teatro? Para deixar os evangélicos mais furiosos? Para fazê-los cada vez mais convencidos de que o fim do mundo está próximo? Se é para termos uma discussão séria sobre sexo anal, que leve ao esclarecimento das pessoas, é preciso levar em conta os possíveis efeitos, bons e ruins, sobre a saúde física e psíquica. Mas não, o importante é a fanfarra que traz audiência e deixa os patrocinadores contentes.

            Fora do mundo das celebridades, essa influência da propaganda sobre a cabeça das pessoas mostra sua face mais sinistra na política, dominada por marqueteiros que transformam candidatos em sabonete Lux de luxo e pior, transformam o debate político em mera troca de ofensas pessoais. A troco de quê o venerando agora ex-ministro da Defesa chama sua colega de Ministério de fraquinha? Qual o critério que utilizou para qualificá-la, como ele pode embasar sua opinião? O que Ideli Salvatti fez ou deixou de fazer CONCRETAMENTE para receber a bola preta do Nelson Jobim? O que importa para bem do debate público, da democracia brasileira e do povo brasileiro não é a opinião pessoal de fulano sobre sicrano, mas sermos corretamente informados sobre os atos de todo os membros do governo para então podermos cobrar responsabilidade pelo que foi feito ou deixou de ser feito. “Barracos”, fofocas, feitos com objetivo de conseguir algum vantagem ilícita são pura enganação, pura propaganda no que ela tem de pior.

            Estamos mergulhados até o pescoço na propaganda. Assim como o computador está enterrando a escrita manual, o modo binário-bipolar do sim/não característicos do mundo da publicidade podem estar marcando o fim do debate racional, cujas sementes forma lançadas lá na Grécia Antiga. Azar o nosso.

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Pais e filhos

            Na semana passada li na Veja uma matéria sobre o novo pai que está emergindo das mudanças por que passa a sociedade. Um pai amigo, que se coloca ao lado do filho e não acima dele, que o acompanha em baladas e com o qual tem uma relação de cumplicidade. Segundo o artigo da revista, que mostrava fotos de pais e filhos sorridentes, esse modelo combina o melhor de dois mundos, porque ao mesmo tempo que o pai dá bronca no filho quando precisa não perde seu lado humano e não se torna uma figura autoritária. A premissa que embasa todos esses novos papeis é a velha crença rousseauniana de que os homens são naturalmente bons, e a sociedade o corrompe. Assim, se tratamos as pessoas com amor, respeito e dignidade, natural e necessariamente elas responderão sendo bons cidadãos, obedecerão às leis, não infringirão os direitos alheios. Será isso verdade?

            Essa dúvida me veio à cabeça por causa dos distúrbios que têm ocorrido na Inglaterra envolvendo jovens de subúrbios que se lançaram em um frenesi de destruição, saques, invasão de casas, queima de carros. Os ingleses estão espantados antes tal descida em comportamentos de Terceiro Mundo. Li um artigo em uma revista eletrônica que assino a respeito de habitantes de bairros próximos ao epicentro que se organizaram em milícias para protegerem suas casas e suas famílias, pois a polícia não estava respondendo prontamente. O governo do primeiro-ministro David Cameron havia cortado verbas da polícia no bojo das medidas de aperto fiscal para conter o déficit público, e planejava, ao menos antes de tais distúrbios, cortar mais dois bilhões e meio de libras do orçamento de segurança.

            Aparentemente tais episódios poderiam corroborar os rousseaunianos, para quem a razão disso tudo está no fato de tais jovens não se sentirem conectados à sociedade, pois muitos são desempregados e vivem às custas de benefícios dados pelo governo. Em Tottenham, um dos palcos da violência, a porcentagem de residentes nessa situação chega a 20%. A sociedade estaria plantando o que colheu: sem emprego, sem perspectivas, esses jovens não encontram nada mais a fazer do que aquilo que se viu nesta semana. E a que se deve tal falta de perspectivas? Em uma economia como a da Inglaterra, em que o setor de serviços responde por 77.1% da criação de riquezas, não é mais possível a um indivíduo sem educação adequada conseguir emprego. E é aí que mora o perigo: 63% dos meninos de 14 anos da classe trabalhadora e 50% dos de ascendência caribenha têm a capacidade de leitura de uma criança de 7 anos ou menos. Por outro lado, a família na Inglaterra também vai mal das pernas. 45% dos meninos de 15 anos passam quatro ou mais noites na semana com amigos e 49% dos pais ingleses quando perguntados não sabiam onde estavam os filhos. E a Inglaterra tem a mais alta taxa de gravidez na adolescência da Europa, o que leva ao fenômeno de mães solteiras sendo sustentadas pelo Estado.

            Aqui eu lanço uma pergunta que também se aplicaria perfeitamente ao Brasil. Diante da selvageria que se viu em pleno coração do Primeiro Mundo, será que esse modelo de novo pai que se está a propor é adequado? Viu-se na televisão a galhardia com que os baderneiros desafiavam a ordem vigente, não se importando com a polícia ou qualquer tipo de sanção. 24% dos condenados na Inglaterra recebem penas que não a detenção e, portanto, mais leves (Como aliás é a tendência no Brasil com o novo Código de Processo Penal, a de evitar a prisão e impor medidas alternativas). Será que não seria mais producente se nossos filhos tivessem um medo reverencial dos pais? Será que a democracia política não seria mais bem servida se nossas famílias fossem capazes de criar filhos que tivessem clara noção do que é certo e do que é errado, que tivessem medo de serem punidos pelos pais por cometerem infrações e quando chegassem à idade adulta também tivessem medo da polícia e seguissem a lei?

            Isso me vem à cabeça quando penso que tais indivíduos que roubaram, queimaram e amedrontaram não passam fome, têm lugar para morar, ainda que não lá muito bom. Fizeram isso dando vazão a seus instintos selvagens em larga medida, mesmo que usem a justificativa espúria de que estavam protestando pela morte de um jovem por policiais. Afinal se querem criticar as arbitrariedades da polícia que façam protestos em frente ao parlamento, mandem petições, pressionem os órgãos de investigação para que a verdade seja revelada. Quebrar tudo ao redor da maneira como foi feito a mim parece que o que faltou a esses indivíduos foi menos direitos, que hoje se resumem ao direito de consumir, e mais obrigações, obrigação de respeitar os pais, de respeitar os professores. E a culpa está tanto nos adultos quanto nos professores e em geral em todas as autoridades que deixam de exercer seu papel de cobrar, de exigir um certo padrão de comportamento das crianças e insistem só no lado zen da educação, que é ser legal, ser amoroso, ser compreensivo.

            O ser humano precisa ser civilizado e a civilização é uma conquista que custa sangue suor e lágrimas como diria o famoso Winston Churchill. O que não podemos continuar é nessa ilha da fantasia em que a sociedade de consumo nos coloca, só feita de gratificações e direitos. Quando se abre a caixa de Pandora o resultado é muito desagradável de se ver. Perdoem-me os leitores do Montblatt pelas minhas idéias antiquadas, mas sou a favor de umas belas chapuletadas nas crianças, que lhes inculquem não só valores como a capacidade de desafiarem os valores dos pais e construírem seus próprios. O que não pode é este niilismo que se vê, esta anomia. Isso pode acabar muito mal.

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Os aristogatas

            No domingo passado assisti por um acaso na TV ao filme de Sofia Copolla sobre Maria Antonieta, a rainha da França guilhotinada. Digo por um acaso porque estava comendo minha sobremesa quando peguei o filme em algum canal de cinema. Como eu gosto de filmes sobre história eu parei de zapear e nele me fixei.

          Para fazer uma história que se passou há mais de duzentos anos ter algum significado para as plateias do mundo presente, a diretora se valeu do expediente de retratar Maria Antonieta como uma adolescente incompreendida, cujas reais necessidades nunca eram satisfeitas por adultos que só cuidavam dos seus próprios interesses. Maria Antonieta chega à corte da França para casar-se com o herdeiro do trono, o futuro Luís XVI e sua tarefa primeira e única é parir filhos homens que deem continuidade à dinastia dos Bourbon. Desse seu papel de égua parideira ela é lembrada a todo tempo, pelo embaixador da Áustria, que se preocupa com a possibilidade de o casamento ser anulado se não houver nascimento de um filho; por sua mãe, a imperatriz Maria Teresa, que ralhava com a filha por não se mostrar suficientemente agradável e amorosa para suscitar a cópula real; para não falar dos cortesãos que a acusavam, veladamente é claro, de frígida, de estéril. Coitadinha, mal sabem eles que o marido dela tem fimose e por isso foge do sexo como o diabo foge da cruz, preferindo comer e fazer móveis (a verdadeira vocação de Luís XVI era ser marceneiro, não homem de Estado)!

          No meio desse fogo cruzado, a pobre adolescente se refugia na diversão, quer comprando compulsivamente, quer indo a bailes de máscara em que dançava e bebia na companhia de suas damas de honra. É em uma dessas baladas que Maria Antonieta conhece Axel Von Fersen, o homem de sua vida que nunca a abandonaria, que a visitou quando estava presa no Palais des Tuileries e tentou ajudar a família real na infrutífera fuga de Varennes. Fersen ficou tão associado à monarquia por sua ligação com a infeliz rainha, que aos 54 anos de idade acabou sendo linchado na revolução liberal que houve em seu país natal, a Suécia.

          Temos então no filme uma pobre menina rica, que apesar de todo o luxo e

toda a pompa de Versailles se aborrecia tremendamente. Sim, porque Versailles para ela é uma prisão, a prisão onde Luis XIV colocou os nobres para mais bem controlá-los, estabelecendo regras rígidas de etiqueta para que pudesse haver um convívio mais ou menos harmonioso. Um lugar onde o rei sol tornou a monarquia uma vez por todas livre da turba parisiense, que tantas vezes havia se mostrado infiel e imprevisível.

          Após sete anos de casamento e resolvido o problema da fimose, Maria Antonieta finalmente dá à luz uma filha, a que se seguem outros três. Como presente por ter cumprido sua função eqüina, recebe de presente do marido o Petit Trianon, onde ela podia estar com seus amigos, longe daquela corte maledicente. Lá ela podia se lembrar de sua Áustria natal, da sua infância querida em que os saraus familiares eram animados por apresentações ao vivo de um músico prodígio de nome Mozart, podia procurar abelhas com a filha, podia estar mais ou menos a sós para um namoro inocente com seu amado conde sueco. Enquanto vivia em sua bolha, ela nunca poderia imaginar que a Revolução Francesa estava a ponto de eclodir.

          Maria Antonieta e seu marido se tornaram bodes expiatórios e muito se falou sobre a falta de habilidade política do rei. Se Luís XVI tivesse sido mais flexível, se ele tivesse entendido ao menos parcialmente que era preciso mudar para continuar tudo como dantes, como dizia o Príncipe de Lampedusa, a história teria sido outra. Aliás, Napoleão Bonaparte era fascinado pelo episódio da fuga de Varennes que no seu entender foi um divisor de águas. O rei, que até então ainda mantinha o respeito do povo, a partir desse episódio, em que ele tentou se juntar aos descontentes na Áustria, passou a ser visto como um traidor da pátria, perdendo sua legitimidade e selando o fim da monarquia.

          Está aí o aspecto fascinante da história. Nós que olhamos o passado e sabemos qual foi o resultado, sempre nos arvoramos críticos das atitudes dos que foram seus protagonistas. Dizemos que Luís XVI poderia ter se transformado em um monarca constitucional, pegando carona no nacionalismo que começava então a florescer no século XVIII. Ao invés disso, preferiu o caminho reacionário de buscar ajuda dos aristocratas descontentes com as mudanças.

          O problema é que nenhum ponto de vista sobre a história pode ser testado, no sentido científico do termo, porque não é possível repetir os

acontecimentos. E se Maria Antonieta não tivesse tido um amante corajoso que moveu céus e terras para ajudá-la e a sua família na fuga? E se Maria Antonieta tivesse sido mais inteligente ao invés de uma espécie de Lady Di do século XVIII? Talvez tivesse aconselhado melhor seu marido e nenhum deles teria sido guilhotinado.

          Nunca saberemos a causa necessária, suficiente e imediata da Revolução Francesa, como não sabemos de verdade a causa de nenhum acontecimento histórico. O que os historiadores fazem é eleger um ponto de vista, de acordo com seu sistema de valores e a partir dele escrever uma versão coerente dos acontecimentos, versão esta que nada tem a ver com o que os que viveram a história realmente experimentaram. Porque no calor dos acontecimentos, há vários caminhos possíveis, e nenhum deles é tão cristalino como o é para aquele que vê a história depois do resultado ter frutificado.

          Afinal, como desconfiar que além do Petit Trianon pudesse haver um mar

de rancores, injustiças? Como acusar os aristocratas de serem alienados se

tudo havia sido sempre assim há centenas de anos? Se os fonciers viviam do seu direito natural à propriedade da terra, que era considerada à época a única fonte de subsistência? Sob essa ótica, os atuais poderosos também podem estar na mesma situação do grupo social do qual Maria Antonieta e Luís XVI se tornaram o símbolo execrável.

          Por acaso não temos uma elite global sem nenhum compromisso com

nenhum país a não ser com seus próprios interesses? Por acaso não é o mesmo ethos dos aristocratas do século XVIII, cujo principal vínculo era com eles próprios mais do que com o povo que lhes sustentava? Uma multinacional que terceiriza suas operações procurando locais com menores custos não age da mesma forma que os fujões de Varennes, que queriam voltar a viver em paz, longe da turba?

          Por acaso não temos grupos econômicos que vivem de renda, que não produzem nada e cujo lucro advém do mero fato de possuírem o bem mais precioso, que em nossa sociedade é o dinheiro? Qual a diferença entre o senhor feudal que explorava os servos e lhes cobrava a talha e a corvéia pelo direito de usar a terra, e os banqueiros que nos cobram juros escorchantes no cheque especial, que fazem empréstimos consignados a velhinhos incautos e nunca tomam nenhum prejuízo porque são considerados intocáveis?

          Por acaso não há a mesma aura de sacralidade em torno do sistema financeiro atualmente que antes existia em relação aos proprietários de terra, a quem se perdoavam todos os excessos, todos os desmandos? Dar ajuda financeira a bancos que agem irresponsavelmente é a mesma coisa que dar uma sinecura a um nobre devasso que é mandado alhures por um rei benevolente que lhe perdoa o fato de ter deflorado e abusado da camponesa que vivia em sua terra e ter matado o marido que foi reclamar. Quantas vidas foram destruídas pela última crise financeira que transformou em pó fundos de pensão acumulados durante anos por aqueles que pretendiam ter uma aposentadoria tranquila?

          E por fim, quem disse que nosso Estado não é tão endividado como era no limiar da Revolução Francesa, tão refém de grupos de interesse que se locupletavam do déficit das contas públicas como hoje acontece? Quem pode negar que haja um Terceiro Estado, formado pelos trabalhadores, pelos aposentados, que é o primeiro a pagar e o último a receber, e um grupo de elite formado pelos primeiros a receber e os últimos a pagar?

          Podemos estar vivendo hoje tempos interessantes, como diriam os chineses, tanto quanto aqueles de Maria Antonieta, em meio a seus sapatos, suas taças de vinho suas peças de tafetá, seu apetite sexual insatisfeito. Podemos estar olhando para nosso próprio umbigo, alheios ao turbilhão que corre lá fora e vermos de repente ele chegar e sermos levados pela correnteza. Um dia os historiadores do futuro poderão nos acusar de alienados e estúpidos, quando talvez fôssemos apenas inocentes, reclusos nos nossos pequeninos

refúgios.

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geração Y

            Uma das coisas que me levam a perceber que sou de outro tempo é observar as características da nova geração, a dita geração Y, nascida entre os anos 1980 e 2000. Eu consigo observá-los na faculdade, pois a esmagadora maioria dos meus colegas pertence a essa faixa etária, e no trabalho, porque tenho dois funcionários ao redor dos 23 anos de idade.

            Para não dizer que sou antiquada, devo dizer que há coisas muito boas a respeito deles. Em primeiro lugar, eles são despidos de muitos dos preconceitos que atormentam as gerações mais velhas. Quando no primeiro ano de faculdade perguntaram-me candidamente quantos anos eu tinha e fui obrigada a responder, não consegui discernir nenhuma reação negativa ao fato de uma mulher de quase 40 anos estar lá estudando direito. A outra única pessoa na minha faixa etária é também uma mulher, médica, que para meu espanto começou a namorar um colega de classe de seus 26 anos e neste ano ficou grávida dele. De novo, não houve entre os membros da classe nenhuma reação do tipo, credo, que mulher louca, namorar um homem tão mais novo! Isso é sem dúvida um alento para as balzaquianas, que ao longo da história foram descartadas à medida que chegavam a uma certa idade em que não serviam para nada: nem para procriar, nem para atrair a atenção sexual dos homens.

            Em segundo lugar, a familiaridade que a Geração Y tem com a tecnologia é uma coisa assombrosa, especialmente para mim, que não sou muito afeita a ela. É uma benção ter algum membro dela por perto quando tenho algum pepino computacional na minha frente, eles sempre conseguem resolver o problema por tentativa e erro, por terem já se defrontando com o mesmo problema. E as gambiarras que conseguem na internet? Sites para baixar músicas e vídeos de graça, sites de compras vendendo tênis de marca a preço de banana. Quanto mais a Geração Y fuça, mais ela leva as gravadoras à bancarrota, mais as grandes corporações deste mundo têm que mudar suas estratégias de negócio. Afinal como disse Thomas Friedman, o mundo se tornou plano com a globalização, as antigas hierarquias estão se afundando. A Geração Y percebeu à frente de todos que  a internet ao colocar todo mundo em contato a todo tempo com tudo permite uma mudança no poder, pois o que era inacessível e inimaginável se torna presente pelo clique no mouse.

            É aí que mora o perigo, na minha opinião, e onde começam minhas divergências com a nova geração. Essa vivência no ambiente da internet leva-os a acreditar que tudo é possível e que todos são iguais, não há para eles hierarquia, não há os que sabem mais e os que sabem menos, não há respeito pelos que sabem mais ou que têm mais experiência.  Percebi isso de modo chocante há dois dias quando tínhamos que fazer um seminário de direito civil. Cada grupo cuidou de um tema e era preciso ir à biblioteca da faculdade consultar os livros indicados pelo professor. Nada muito trabalhoso, porque era preciso ler umas 20 páginas na média para falar sobre o assunto. Pois bem, um dos grupos precisava falar sobre risco inerente, adquirido e exagerado da mercadoria ou do serviço para fins de responsabilização civil por dano. Um dos garotos (eram todos homens), começou a falar balbuciando, o outro foi tentar ajudá-lo e na maior autenticidade disse que foi “procurar no Google e para falar a verdade não tinha entendido muito bem o que era risco exagerado.” A classe inteira caiu na gargalhada, e então o terceiro membro do grupo começou a rir do outro e ria tanto que ficou vermelho. Não havendo mais condições de fazerem nada se retiraram.

            O pior estava por vir, para minha indignação. Pois para se justificarem da palhaçada disseram que não encontraram os livros na biblioteca, que o tempo era curto, etc. Coitadinhos! Ué, eu pensei, como os outros conseguiram? O professor, um juiz de direito, cuja tarefa é a da juris dictio, isto é dizer o direito, deveria dizer-lhes que deveriam ter se esforçado até por respeito aos outros colegas, que aquela era uma desculpa muito esfarrapada. Mas não, fiel à ideologia onipresente nas universidades desde os anos 60 de que é proibido proibir, ele simplesmente observou que o Google não é a melhor fonte de pesquisa e explicou ele mesmo os três tipos de risco.

            E é isso que temos nas universidades atualmente. A Geração Y é considerada como de indivíduos adultos, que têm direito a ser tratados como adultos e a não ser admoestados por professores que pretendem substituir os pais. E assim eles são tratados, mas na verdade o que isso significa na prática é que eles acabam tendo direitos infinitos e podem em todas as instâncias da vida encurtar distâncias como fazem na internet. Por que ter deferência e respeito pelo professor se ele tem os mesmos direitos que eu? Por que ouvir críticas humildemente e tratar de se emendar se todos somos iguais e cada um tem seu lugar no Facebook ou no Twitter? Não, o melhor é levarmos a vida num Suzuki, ao doce vento da brisa que beija e balança, ao sabor das minhas idiossincrasias, das minhas paixões momentâneas. Oras bolas (essa gíria é minha, não sei como os mais novos falarima isso), não estou a fim de estudar. Dou uma enrolada para o professor, invento uma desculpa e me safo. Tão simples quanto enganar a Sony e a EMI Records.

             Daí o epíteto que se dá a essa geração, a Geração de Peter Pan, que não quer crescer, não quer se tornar adulta, quer continuar no seu cafofo digital, brincando com seus perfis nas redes sociais,   e deixemos para lá responsabilidades, obrigações, que isso é opressor e preconceituoso. Não sei que mundo sairá das mãos da Geração Y, talvez um mundo melhor do que este nosso, quem sabe menos tenso e neurótico? Ou então um mundo mais violento em que as pessoas, por nada lhes ser negado, não saberão lidar de maneira equilibrada com as inevitáveis perdas da vida. De qualquer forma, é um mundo que me espanta muito e me amedronta, eu que fui criada sob outros valores. Bem, o único jeito é esperar os próximos cliques dos Peter Pans.

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Família

            No último Montblatt nosso editor Fritz Utzieri comentava a respeito do adolescente que supostamente teria agredido fisicamente a infeliz Eliza Samudio durante vários dias até matá-la, e defendendo penas mais rigorosas com adolescentes infratores que de ingênuos não têm nada.

            É verdade que o Estatuto da Criança e do Adolescente cheio de boas intenções, acabou na prática sendo um instrumento de impunidade. Longe de cumprir seus objetivos de ressocialização e educação, vê-se claramente que o ECA é incapaz de lidar com uma realidade em que os inimputáveis cometem crimes cada vez mais violentos.

            O que fazer em uma situação dessas? Leis mais rigorosas podem resolver o problema? Não será enxugar gelo investir em uma linha dura quando na verdade a questão de fundo continua não resolvida?

            Eu posso soar conservadora, alguns leitores poderão acusar-me de defender os valores da TFP, mas considero que essa delinqüência que se alastra na sociedade em todos os níveis tem a ver com a deterioração da família. Quem não teve medo de pai e mãe na infância, quem não foi educado a respeitar os mais velhos, não vai se importar com ECA ou com leis penais draconianas, porque para esse tipo de pessoa não há tabu nenhum intransponível, tudo é permitido. Se este adolescente de 17 anos foi capaz de fazer tudo o que ele fez com a Eliza Samudio é porque ele sofre de um profundo vácuo moral em que não houve figura feminina ou masculina que lhe servissem de modelo de conduta.

            E o que nós enquanto sociedade temos feito para salvaguardar a família brasileira? Alguns exemplos mostram que nada.

            Para começar, o governo não tem política de geração de empregos, o que é fundamental para que os pais tenham função, auto-estima e possam assim ter capacidade de educar filhos. O BNDES, que é nossa principal agência de fomento econômico, prioriza o financiamento de grandes grupos para criar campeões nacionais que possam competir em pé de igualdade com outras indústrias internacionais. O efeito disso é simplesmente aumentar lucro de uns poucos no setor da agroindústria, mineração etc. que, longe de aumentar postos de trabalho, enxugam sua estrutura para tornarem-se mais lucrativos e terem os pés firmes no mercado global.  Para termos famílias saudáveis seria preciso que as vítimas da desindustrialização e da globalização por que a economia brasileira vem passando pudessem ter a alternativa de abrirem seu próprio negócio, de poderem ser empregadas em pequenas e médias empresas, que mesmo sem sofisticação tecnológica servem o bem comum atendendo o mercado local e gerando empregos.

            Na semana passada, foi aprovado pelo Congresso Nacional o divórcio expresso, não sendo mais preciso esperar um ano de separação total. Ora, isso pode ser uma dádiva para mulheres que estão presas a casamentos infelizes e a homens adeptos da filosofia das monogamias sucessivas. E os filhos onde ficam? Não será mais sensato dar um tempo para que seja possível ao casal tentar uma conciliação, especialmente quando há crianças em jogo? Ou basta o pai pagar pensão que está tudo resolvido? É este o papel do pai, pagador de pensão?

            Finalmente, o famigerado ECA terá seu artigo 18 modificado para proibir castigos corporais. Ora realmente há pais que maltratam os filhos que descarregam neles suas frustrações, mas o ponto principal é o seguinte: será que a educação é como querem fazer acreditar muitos psicólogos, uma simples questão de conversa e convencimento? Não será necessária uma dose de repressão e de medo para que nossa agressividade latente seja controlada? Será que temos uma vocação genuína a sermos 100% criaturas racionais? Parece-me que estigmatizar as palmas é mais uma pá de cal na já combalida autoridade dos pais de classe média que se transformam cada vez mais em meros agentes financiadores do consumo dos filhos.

            Pincelei esses exemplos para tentar mostrar que do ponto de vista econômico, cultural e social a família é uma instituição que vem sendo sistematicamente solapada no Brasil. Alguns dirão que o Estado pode substituí-la para melhor, por uma presença maciça em termos de educação integral, saúde integral. Mas será isso possível? O Estado será mais eficiente se a família brasileira continuar a degringolar? Será que nossa educação algum dia melhorará se não tivermos pais que exijam melhor qualidade? E mesmo que o Estado substitua o papel da família na formação dos cidadãos, isso não levará a um maior autoritarismo, não nos transformará em cumpridores dos desígnios das organizações políticas e econômicas? Em minha opinião só poderemos apresentar alternativas ao esquema da globalização, que marginaliza a maioria e escraviza aqueles que a fazem girar, se pudermos contar com a rebeldia de indivíduos em seus núcleos familiares que consigam agir de maneira autônoma e conseqüente e deixem se ser meros consumidores-espectadores do desenrolar deste nosso capitalismo do século XXI que está nos levando à hecatombe.

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