Esclarecimentos

            Ainda não tenho como avaliar qual a reação dos leitores do Montblatt, se é que houve ou haverá alguma reação, ao meu artigo da semana passada, intitulado “Chupetas e chupetinhas”. Alguns terão achado tudo muito vulgar, obsceno ou outros terão considerado que eu culpo a Xuxa pela prostituição infantil no Brasil. Pretendo aqui fazer alguns esclarecimentos.

            Quanto ao uso dos termos chupeta e chupetinha, o que eu pretendi é traçar um paralelo entre uma brasileira que reclama da vida sem ter razões sérias para choramingar como faz, e cujas vontades são praticamente todas satisfeitas, porque ela tem condições para tal, e outra brasileira que tem todas as razões para se revoltar com o seu destino e se mostra resignada. De um lado temos o reino global em que a Xuxa, ao toque de sua varinha de condão, movimenta a máquina do consumo e somos nós telespectadores transportados ao mundo da satisfação ilimitada dos desejos, um mundo limpo, bonito. E  de outro o reino para lá de animal em que as pessoas lutam pela sobrevivência da maneira mais mesquinha (afinal nenhum animal deixa de proteger os filhotes como alguns pais fazem com os filhos).

            O que a Globo e todos os outros canais mostram do nosso Brasil? Sim, é verdade que há as notícias todos os dias no Jornal Nacional, é verdade que seguindo a linha do jornalismo-verdade da Record, a Vênus Platinada explora crimes que chocam a opinião pública, tragédias, catástrofes naturais. Mas tudo é feito não com o objetivo de esclarecer, mas com o objetivo de vender: quanto mais sensacional, mais chocante, mais atraente, maior a audiência.

            Se o objetivo da televisão brasileira fosse esclarecer, haveria uma seleção mais cuidadosa da pauta de maneira que o veículo pudesse retratar nosso país de maneira melhor. Por acaso há alguma reportagem na TV brasileira sobre a bandalheira que se faz com o dinheiro público por meio do BNDES? Por acaso algum repórter investigou as ligações de Abílio Diniz com os poderosos de Brasília? Por acaso há alguma discussão mais séria dos impactos do novo Código Florestal sobre a vida dos brasileiros (Pois se a Amazônia virar um deserto haverá um desequilíbrio climático no Brasil)? Por acaso os nossos comentaristas econômicos tentam vislumbrar um cenário em que o Brasil, entupido de títulos do Tesouro americano, se verá com um grande mico na mão, dada a possibilidade de os americanos derem o calote, pela manipulação do valor da moeda? Por acaso esses mesmos comentaristas que peroram como papagaios a respeito da solidez dos fundamentos da economia brasileira começam a perceber que os chineses estão sutilmente se livrando das suas reservas podres em US Treasury bonds e diversificando seus investimentos, comprando empresas ou participações acionárias na Europa, na moita, para não haver o estouro da boiada e eles perderem dinheiro? Por acaso não é tarefa da imprensa criticar para incitar o governo brasileiro a pensar em alternativas em um mundo em que o dólar deixará de ser reserva de valor? Afinal nosso plano de estabilidade econômica não tem como premissa fundamental a idéia de que nossas reservas em dólares são o lastro do nosso real?

            O esclarecimento é preocupação inexistente, o objetivo é sempre vender, e para vender é preciso enganar, mostrar um mundo cor de rosa, acessível por um punhado de reais ou parcelas de empréstimo consignado. Falemos de assuntos vendáveis, a importância da ingestão de vitaminas para combater o envelhecimento (compre na sua farmácia mais próxima), a beleza do Pantanal (agende sua viagem na agência de turismo), o novo look da Juliana Paes ou qualquer outra celebridade (vá a seu cabeleireiro ou cirurgião plástico e peça igual). Nesse sentido uma matéria sobre uma menina de sete anos que faz sexo oral todos os dias para ganhar a vida não tem cabimento, é absurda. Vai vender o que? Só nos faz nos sentirmos incomodados, querendo mudar de canal. E nem dá vazão a nossa sanha de justiça como os crimes de um Nardoni, de um Pimenta das Neves dão, porque voltar-se contra quem? A mãe da menina? Uma pobre miserável, sem eira nem beira? Nem um Datena mais ensandecido conseguiria fazer linchamento midiático dela, é mais fácil investir no populismo e praguejar contra meliantes bem nascidos.

            Posso ter colocado a Xuxa como bode expiatório, como epítome desta lavagem cerebral a que o povo brasileiro é submetido e se deixa submeter. Talvez porque eu a conheça desde o tempo em que eu era adolescente e passava as férias em Saquarema. A filha dos donos da casa me acordava todos os dias ao som do “Bom dia amiguinhos já estou aqui” que a Xuxa cantava ao sair da nave espacial. Peguei birra da Xuxa, quem sabe? De qualquer forma, não poderia em sã consciência achar que a prostituição infantil no Brasil é conseqüência direta do Xou da Xuxa. Seria estúpido da minha parte. Haverá crianças se prostituindo no Brasil enquanto houver famílias desestruturadas ou inexistentes, e haverá famílias desestruturadas ou inexistentes enquanto houver miséria material e moral.

            Sob certos aspectos, muito limitados é verdade, a Xuxa é um exemplo às mulheres, é uma batalhadora, uma mulher bem sucedida que se fez à custa de seu esforço, sem ter se atrelado a nenhum homem. E se há pessoas dispostas a pagar milhões para ela falar bobagens na TV, a culpa não é dela, afinal gosto não se discute apenas se lamenta, ela está vendendo seu produto no mercado e o mercado é livre. Quem não quer ouvi-la que mude de canal.

            Num mundo ideal, em que as pessoas não fossem inculcadas com a noção de que a solução está sempre fora de si e nunca dentro, não haveria a necessidade de celebridades em que depositamos todas as nossas esperanças e frustrações. Digo mundo ideal porque o culto às celebridades é praga mundial, de Norte a Sul de Leste a Oeste, afinal a sociedade de consumo é globalizada e as celebridades se encaixam perfeitamente na estratégia de vendas. Se não é possível se ver livre das celebridades, já que estamos imersos de corpo e alma no capitalismo, é perfeitamente possível em nosso Brasil nos livrarmos da praga da prostituição infantil. Se um dia conseguirmos que todas as meninas brasileiras possam assistir ao Xou da Xuxa ou seus sucessores no recanto do seu lar, tendo um pai e uma mãe que lhes proteja dos males deste mundo e lhes provenham subsistência, já teremos avançado um bocado.

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Apelidos

            Sempre fui fascinada pelo modo como os apelidos são capazes de enfeixar significados em palavras simples. No colégio eu tinha uma colega a que os meninos tinham dado a alcunha de bozolina (lembram-se do finado Bozo, no SBT?). E de fato ela tinha um cabelo encaracolado e uma franja, cortados de modo a emoldurar a cabeça dela tal qual um capacete, e um andar de pato que lembravam a personagem da TV, tanto que a primeira vez que eu ouvi o apelido eu ri desbragadamente porque era o resumo da ópera.

            Dar apelidos para mim é uma espécie de terapia, uma maneira simples, barata e inofensiva de desopilar o fígado.  O Diretor de Informática da firma em que trabalho é um sujeito asqueroso, que se derrete para aqueles que têm poder dentro da empresa e ignora solenemente os que não têm poder. Pois bem, eu o chamo, claro que para meus botões, de chupetinha, por ser puxa saco e por ser baixinho. Eu tive uma chefe japonesa que era tão psicopata que poderia ter sido gerente de campo de concentração. Eu a chamava de tição, porque ela era um curto-circuito moral, intelectual e físico.

            E para entrar no terreno pessoal, já que o editor do Montblatt nos incitou a falarmos de nossas experiências, eu sempre me refiro ao meu ex-namorado como bananão. O apelido pegou de tal maneira que um dia minha melhor amiga, a quem tanto chorei minhas mágoas, um dia perguntou-me: “Elisa, como chama o bananão mesmo?” E nós caímos juntas na gargalhada. Já que expliquei os outros apelidos devo explicar este, que aliás é mais fácil de ser entendido: meu ex tinha excesso de estrogênio e falta de testosterona, um mal que acomete muitos homens (como os leitores e leitoras do Montblatt sabem, o homem perfeito é aquele que tem testosterona e estrogênio em doses equilibradas). Por ser fisiologicamente dominado por um hormônio tipicamente feminino, ele vivia chorando, tomando florais de Bach e indo à terapeuta, além de ser muito carinhoso. Mas na hora de ter atitudes, de mostrar posições claras, de resistir a pressões de ex namoradas chantagistas emocionais, suas ínfimas quantidades do hormônio masculino impediam-no de agir, e o resultado foi que me magoou profundamente com suas idas e vindas, sua insegurança, seu medo da verdade nua e crua. Por outro lado, dando-lhe o apelido de bananão, eu pude consolidar na minha cabeça que EU NÃO QUERO UM FILHO PARA NINAR EU QUERO UM HOMEM ADULTO (As letras garrafais são para os eventuais pretendentes me escutarem bem).

            Mas não são só pessoas que têm apelido. Países, regiões também têm, e suas alcunhas os definem melhor do que mil compêndios de geopolítica e diplomacia. Um nome particularmente irritante para nós latino-americanos é aquele que os americanos dão ao seu país. Eles não o chamam de Estados Unidos, mas de América. América é só eles, o povo escolhido que realizou a promessa do eldorado. Nós não somos América, a epítome do Novo Mundo, somos Latin America, aquela parte do Novo Mundo que não deu muito certo, e que está mais próxima da África do que qualquer outra coisa.

            Além de encapsular as características do caráter da pessoa ou da coisa os apelidos cumprem certas funções geopolíticas e econômicas. Vejam o caso do termo BRICS, inventado pela Goldman Sachs para vender os atrativos financeiros do Brasil, China, Índia e Rússia. Emergentes da longa noite do estatismo e da intervenção econômica, na década de 1990 eles estavam prontos para serem oferecidos como investment grade para especuladores dispostos a se arriscar nessas plagas selvagens. Tal nova roupagem permitiu que desembarcassem aqui investidores dispostos a comprar nossos ativos e fazer um bom lucro, o que não significa é claro se lançar na criação de empresas verdadeiramente novas, mas de reciclar o que já havia aqui para seu próprio interesse. Por outro lado, o sorriso Colgate dos investidores desaparece e é substituído pelo olhar apreensivo dos habitantes do hemisfério norte quando eles vêem o desenrolar dos acontecimentos na África do Norte e Oriente Médio e empalidecem ante a perspectiva de uma invasão da Europa e da “América” pelos pobres desesperados. Nesse caso, como só há caos, corrupção e miséria o que era emergente se transforma em Terceiro Mundo. Sob essa perspectiva, a Líbia, apesar de todo seu petróleo, é Terceiro Mundo e precisa ser contida, antes que sua podridão se espalhe aos brancos europeus. Um dos modos de contenção é pagar propina ao seu governo cleptocrata. O primeiro-ministro da Itália, Sílvio Berlusconi celebrou um acordo de 5 bilhões de dólares com a Líbia a título de compensação por transgressões cometidas durante o período colonial, mas cujo objetivo é conter o número de imigrantes a dar com os costados na bota.

            E por falar em Europa, se ela forma um bloco único em relação ao Terceiro-Mundo, em seu próprio seio há hierarquias. Os países do sul, banhados pelo Mar Mediterrâneo, eram chamados com bonomia pelos mais setentrionais de Clube Med, lugares bons para tomar sol, divertir-se, relaxar e obviamente não para trabalhar, já que naquelas regiões não há povos industriosos e diligentes como os alemães, holandeses, dinamarqueses, suecos. Mas agora, com a crise que se instalou na Europa, os países que estão devendo tudo e mais um pouco são pejorativamente chamados de PIGS (Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha), aqueles animais irracionais, incapazes de terem um comportamento frugal, de viverem de acordo com seus próprios recursos, bons para estarem no chiqueiro, no caso mendigando às portas do Banco Central Europeu e do FMI.

            Vêem como os apelidos são importantíssimos? Quem não bota apelido em nada e ninguém não consegue entender nem a si mesmo nem o mundo a seu redor. Leitores do Montblatt, neste feriado prolongado, além de se deleitarem com o festival de popozudas, de cantores e cantoras de axé, tratem de arranjar apelidos para tudo e todos! Garanto-lhes que economizarão nas despesas com o psicólogo, o médico e o advogado e de quebra poderão se lançar como articulistas internacionais!

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Anos dourados

            Teoricamente falando eu não teria idade suficiente para ser saudosista, para lamentar o fim de uma era dourada do Brasil, como foram os anos 50 e 60. Ao contrário de muitos leitores do Montblatt, não vivi a época em que tínhamos cabeças pensantes neste país que procuravam abrir um novo caminho, meio tropical e meio europeu. Quando vou ao Rio de Janeiro meu passeio preferido é passear pelo Parque do Flamengo, obra do grande Burle Marx, que soube mesclar como ninguém a bagagem da velha civilização e os elementos digamos autóctones. Gosto de olhar os jardins que ele projetou com vitórias-régia, nossas maravilhosas bromélias, os espelhos d’água. Sinceramente espero que os cariocas saibam preservar este patrimônio da sanha imobiliária dos revitalizadores da Cidade Maravilhosa. Burle Marx conseguiu se tornar conhecido no mundo todo como paisagista por ao mesmo tempo se recusar a ser um macaquito e não ser totalmente exótico, valendo-se da linguagem e da técnica aprendidas em seus estudos europeus para criar sua própria arte.

            Àquela época este era o sonho do Brasil, quer se manifestasse na bossa nova, no tropicalismo sociológico dos escritos de Darcy Ribeiro ou nas teorias desenvolvimentistas de Celso Furtado e do próprio Fernando Henrique Cardoso. Tínhamos a esperança de que poderíamos chegar à síntese perfeita entre a herança da civilização dos colonizadores e as peculiaridades do povo, do clima e da história que nos tornavam tropicais. O próprio futebol era uma síntese disso: havíamos importado o ludopédio dos ingleses e no entanto soubemos criar nossa própria maneira de jogá-lo que deu origem à escola brasileira de futebol, cuja última florada parece ter sido a seleção de 82.

            Aqui começa o meu peculiar saudosismo, não tenho saudades do que não vivi, o milagre cultural dos anos 50 e 60, o milagre econômico dos anos 70. Especialmente porque tais milagres provaram ser uma cortina de fumaça, algo superficial que não modificou nossas estruturas profundas. O samba deu lugar ao pagode, o crescimento de 10% ao ano levou à dívida que teve que ser paga às custas de 20 anos de estagflação. Mas tenho saudades de coisas que vivi quando eu era uma menina, apesar de toda a carestia e a falta de perspectivas em que o país esteve mergulhado. E essa saudade advém do fato de eu achar que em certos aspectos pioramos em relação aos anos 80, apesar de hoje gozarmos de uma relativa estabilidade econômica, de podermos comprar a crédito pagando prestações a perder de vista.

            Essas boas memórias vieram-me à cabeça no domingo quando soube da morte do Doutor Sócrates, que antes de ser irmão do guapo Raí foi um jogador melhor do que Raí apesar de não ter a metade da beleza do seu irmão mais novo e ainda por cima representou várias coisas que perdemos ao longo destes 30 anos desde a Copa de 1982.

            Eu lembro muito bem da Copa de 1982. Foi a primeira a que eu assisti, tinha 10 anos e sabia de cor a música de Moraes Moreira sobre o galinho de Quintino flamengo menino sou craque sou craque sou craque sou craque doutor Telê humilde esperança … para que de novo do mundo sejamos os campeões (obviamente agora esqueci uma parte). Naquela época a seleção brasileira era nacional e não globalizada, era formada de jogadores que todos nós conhecíamos porque atuavam aqui, nos grandes clubes brasileiros. Realmente sinto-me feliz de ter vivido a emoção de ver a seleção brasileira jogar brasileiramente, é uma coisa que as novas gerações nunca mais experimentarão, como quem se regojiza de ter assistido a um show da Elis Regina ou a uma peça de teatro com o Laurence Olivier no palco (ainda que bem que eu já vi nossa grande Fernanda Montenegro).

            Nesse aspecto a decadência é completa e irreversível. A seleção brasileira de hoje é um amontoado de celebridades futebolísticas que não honram nossa tradição, e mesmo que a próxima Copa seja no Brasil não inspirarão em nós brasileiros nem uma ínfima parte da fidelidade que Zico, Sócrates, Falcão, Éder, Cerezo, Serginho Chulapa e por que não? até Valdir Perez nos inspiravam (eu juro a vocês que sei esses nomes de cor, não pedi a nenhum irmão meu para me informar). Afinal, sabemos que eles estão com a cabeça na Europa, nos milhões de euros que poderão ganhar e não com a estrela que poderão adicionar à camisa canarinho.Como comparar o finado Sócrates com Neymar, Ronaldo, Ronaldinho e quejandos? É verdade que Sócrates era cachaceiro e morreu pela boca, é verdade que não ganhou nenhum título mundial, não ganhou o prêmio de melhor jogador do mundo, mas ele nunca teria se aliado a Ricardo Teixeira, este grande pilantra que com seus poderes tão diabólicos quanto os do Duda Mendonça nos fará, nós contribuintes, pagarmos por todos esses estádios que se transformarão em elefantes brancos. E o Sócrates nunca precisou de assessor de imprensa para falar obviedades, clichês para passar a imagem de bom moço, ao contrário era um prazer vê-lo dar entrevistas, porque sabia do país onde estava, e não vivia no castelo de Caras dos atuais futebolistas brasileiros.

            Sim, nesses trinta anos desde 1982, o Brasil ficou mais rico, um pouco menos imprevisível, abriu-se para o mundo, mas nesse percurso perdemos um pouco da nossa dignidade tropical, nos globalizamos e nos pasteurizamos em torno do denominador comum da mercantilização desenfreada. Será que algum dia conseguiremos ser capazes enquanto nação de adotarmos as virtudes dos estrangeiros e de termos a sabedoria tropical de rechaçar seus vícios? Doutor Sócrates, onde quer que seu espírito esteja agora, você que tanto nos encheu de orgulho, zele pela alma brasileira!

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Super poderosas

            Eu sempre fico admirada com a esperteza da mídia oficial, isto é, aquela que serve para manter as coisas como estão, veiculando suas teses nas revistas e jornais do Brasil afora de maneira inocente e por isso eficiente. Sua tese principal pode ser resumida no mote do nosso sistema: consuma! E para nos fazer consumir é preciso que os ilustres jornalistas nos façam nos sentir insatisfeitos com aquilo que temos e nos prometam que se adquirirmos tudo o que é expressa ou subliminarmente oferecido, seremos aceitos pelas outras pessoas na sociedade e portanto seremos felizes.

            Para fazer essa tese vencedora o truque de inventar celebridades é sempre muito eficaz. Celebridade é aquele indivíduo que a mídia inventa e que de tanto ser martelado em nossas cabeças é considerado como alguém importante, alguém que está no supra sumo da cadeia de valores, porque ele ou ela tem tudo aquilo que nós não temos. Ele/ela está inserido/a na rede de consumo e mostra a você que para estar dentro basta adquirir tudo o que a celebridade adquiriu. Não importam os meios (acordo de separação, trabalho artístico ou qualquer outro), mas o fim de chegar ao topo.

            Dentro dessa lógica, ler a imprensa brasileira no Carnaval é uma lição sobre a função que ela tem de nos fazer nos sentir frustrados e, portanto, consumir. No domingo li a revista do Globo sobre as garotas super poderosas, as musas do carnaval. A autora da matéria se espantava com o fato de as moçoilas não terem mesmo celulite, pois apertou o bumbum de uma delas, e para atestar a sua perfeição listava as medidas exatas do quadril, cintura, coxa e busto de todas elas. Putz, tudo o que ela, Silvia Rogar, e suas leitoras não temos! Peitos enormes, bundas descomunais, coxas hercúleas (desculpem, eu sei que hercúleas não combina com coxas, mas já exauri meu estoque de adjetivos). E claro, depois de colocar as fotos das mulheres “poderosas”, “lindas”, Silvia dá o duro caminho das pedras para chegar à perfeição: cirurgia plástica, musculação diária, dieta à base de clara de ovo, injeções estéticas. O que a Sílvia se esqueceu de oferecer foram dicas sobre como conseguir o dinheiro para arcar com esses custos. Devo começar a freqüentar bailes funk, concentrações de futebol para arranjar um financiador? Não tenho tempo para isso, coitadinha de mim! Buááááááá, nunca terei poder, nunca serei bonita, nunca conseguirei um homem! Só me resta ir à farmácia comprar um remédio tarja preta!

            Alguns leitores do Montblatt poderão acusar-me de ser uma grande rabujenta e preconceituosa. Afinal, essas mulheres na maioria das vezes pagam elas mesmas por toda essa parafernália estética, médica e nutricional. Não precisam de nenhum homem que as financiem, elas são independentes! De fato, chegamos aqui no Brasil a uma etapa da liberação feminina em que elas já não precisam arranjar um homem para que comecem a partir de então a agradá-lo, como ocorria antigamente: agarre seu homem e seja cordata! Não, elas já fazem o homem o centro de suas vidas desde pequenas, e se colocam como consumidoras desenfreadas para na disputa acirrada com outras mulheres conseguirem destrui-las e se tornarem super poderosas, capazes de atrair os machos. Não importa muito se todo esse investimento irá realmente frutificar e dar à mulher o prêmio almejado, o homem que a OUTRA não tem. O que é importante é se sentir superior em relação às outras, na corrida pelo status, é se sentir perfeita como as outras mulheres não são, é estar uma cabeça à frente na corrida: uma coxa mais musculosa, um peito ou bunda mais empinado.

            Apesar de se falar muito pouco ao longo do artigo sobre a carreira dessas super poderosas, pois o que importa é falar do que as faz celebridades, a jornalista não se esquece de usar outro truque para nos convencer da sensatez de dedicarmos nossas vidas a adquirirmos tudo aquilo que não temos. Ela faz uso da opinião de membros da academia, no caso o da antropóloga Mirian Goldenberg, que “vê na estética das super-heroínas uma forma de contestação: – Esse não é um corpo que simboliza o masculino, mas uma fuga do padrão delicado, frágil, submisso (…) elas estão criando um modelo alternativo de ser mulher.” Que bom, podemos relaxar e gozar: uma intelectual nos conforta sobre a possível futilidade de dedicar quatro horas por dia a se embelezar. Isso é uma mostra do novo poder das mulheres. De fato, o poder de consumir, porque o valor fundamental é este: ter poder é ter poder de consumo. A expressão cotidiana nos mostra isso: dizemos “tá podendo, hein?” quando vemos alguém de carro novo, ou que comprou qualquer coisa que dê status.

            Sob essa perspectiva, não importa que tal corrida seja inútil, pois o homem médio, dada sua natureza hormonal, irá sempre preferir sexualmente uma mulher de 20 a uma acima de 30 por mais super poderosa que seja. As revistas femininas, que atualizam as mulheres a respeito das últimas técnicas cirúrgicas e estéticas, ou que ensinam como fazer sexo oral de arrasar quarteirão, não ensinam às mulheres que por algum motivo fracassaram na corrida, seja porque casaram com o homem errado e se separaram, ou que nem sequer chegaram a casar, o que fazer da vida. Afinal se eu investi toda minha energia espiritual em me tornar super poderosa, o que colocarei na cabeça quando a realidade da vida bater à minha porta e eu perceber que adquirir coisas não vai me permitir ter relações pessoais não baseadas no consumo sexual de um pelo outro, mas no respeito, na cumplicidade, na amizade? Vê-se o resultado disso em uma celebridade passada como a Cristina Mortágua, que foi presa e bateu na policial da delegacia. Não tendo sabido passar a uma outra fase da vida, em que é mais sensato procurar não se colocar como a gostosa do pedaço, mas como uma mulher que quer ser amada e respeitada – como no fundo todas as mulheres querem – a ex amante do Edmundo, com quem teve um filho, não é nem aquilo que foi, pois “embagulhou”, e nem consegue ser mãe do seu filho, porque na sua cabeça o máximo que pode ser é amiga ou até namoradinha de dar selinho no gatinho. Ela é hoje uma celebridade sim, por mais patética que seja, e por mais que sirva de mal exemplo às mulheres, afinal estamos em uma época em que valores morais se subordinam à lógica do consumo e do dinheiro. Uma imagem a ser consumida nas revistas de fofoca, sem dúvida aumentará as vendas da ti-ti-ti ou qualquer outro lixo, mas é sozinha, carente, disfuncional e não me admira se for dependente de alguma droga.

            Talvez eu esteja sendo muito moralista, mas sinto falta na nossa imprensa, dominada pela necessidade que tem de nos fazer consumir qualquer coisa, de jornalistas que tenham parâmetros e saibam distinguir o que é bom do que é ruim. Apresentar as super poderosas como modelos de conduta é um retrocesso e uma inconsistência, pois a mesma jornalista provavelmente escreverá uma reportagem sobre as pobres mulheres muçulmanas que usam véus, não podem se maquiar e nem ser livres. Eu pergunto, quem é mais escrava? A mulher que faz qualquer sacrifício para se manter em seu padrão narcísico de beleza, que se sente culpada comendo uma torta de banana no domingo, ou a portadora da burka, cuja única preocupação é cuidar da família?

            Por isso, o sonho da minha vida é envelhecer como a Brigite Bardot. Namorou todos os homens que quis e os que não quis nos tempos em que fazia beicinho para delírio dos homens e hoje se assume como uma velhinha cheia de rugas que não está nem aí se a acham feia e luta pelo bem estar dos animais. Esta é na minha opinião uma grande mulher, soube fazer a transição de sex symbol para mulher verdadeiramente independente, que não odeia os homens, pelo contrário os adora, mas não os torna o centro de suas vidas.

            Nesse sentido, faço questão de me posicionar, em um mundo em que tudo é relativo, e dizer em alto e bom som: SUPER PODEROSA É A MULHER QUE É, E NÃO SE PREOCUPA EM QUERER SER.  Espero um dia chegar a esta ontologia parmenediana (de Parmênides filósofo grego para o qual a realidade é simplesmente o que é, uniforme, necessária, imutável), como poderia dizer alguma intelectual pseudo feminista, para me livrar de todas as angústias, ansiedades e desilusões com que a nossa sociedade de consumo, a sociedade do eterno vir a ser, nos enche, nós mulheres “liberadas” do Ocidente.

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Mulheres no poder

            Muito se discutiu aqui no Montblatt a respeito das mulheres no poder, se seriam intrinsecamente melhores do que os homens, ou se deveriam ser julgadas objetivamente por sua conduta no poder, sem pré-julgamentos. O fato é que termos mulheres em postos de comando ainda é uma raridade em todo o mundo, daí ser muito difícil conseguirmos fazer um julgamento sobre a atuação feminina sem antes haver uma reação de surpresa das pessoas, quer positiva ou negativa.

            A reação positiva vem daqueles que consideram que é sempre bom haver mais mulheres participando da vida política para refletir sua crescente importância na vida econômica. Para esse grupo de pessoas, não importa qual a origem do poder conquistado: se foi por meio de um marido político, como a Hillary Clinton, nos Estados Unidos, como a Corazón Aquino, nas Filipinas, se foi por meio do apoio de um político homem, como nossa Dilma Rouseff, se foi por meio de ligações familiares, como Benazir Bhutto no Paquistão, ou se foi por meio das próprias pernas, como Michelle Bachelet no Chile, Angela Merkel na Alemanha, ou Margaret Thatcher, no Reino Unido.

            A reação negativa é daqueles que fazem ressalvas ao tipo de mulher que é alçada ao poder. As que se valeram da fama dos maridos, dos pais ou de seus mentores políticos nada mais fazem do que reforçar o paternalismo masculino. As que trilharam caminho sozinhas não valem, não são “mulheres”: ou já estão na menopausa e portanto não são mais “fisiologicamente” ou “biologicamente” mulheres, ou então se comportam como homens, abdicaram de uma vida familiar normal, ou pior, foram incapazes de qualquer relacionamento emocional, são ou desquitadas, ou solteiras ou sem filhos. Essa visão de que mulheres no poder na verdade não são mulheres na pura acepção da palavra é aparentemente corroborada pelos fatos. a premiê da Alemanha é casada, mas não tem filhos, veste sempre o mesmo uniforme de calça e casaco para esconder suas imperfeições físicas, é totalmente desprovida de charme. Michelle Bachelet é desquitada, apesar de simpática. Margaret Thatcher na época em que esteve no poder era casada e tinha filhos, mas já estava na fase das ondas de calor, ou muito além dela, e talvez por isso pôde governar a Inglaterra com mão de ferro…

            O que deve acontecer em termos de mulheres no poder para que superemos essa dicotomia? Qual a solução para que uma mulher no poder seja vista como um ser do sexo feminino, com filhos para criar, com marido em casa, em pleno gozo de suas capacidades reprodutivas, mas também das intelectuais? Será impossível às mulheres terem uma carreira política, conquistarem altos cargos antes dos 50 anos? Será que sempre haverá oportunidade de um homem falar de uma presidente, ou de uma primeira ministra (como ouvi falar da Dilma recentemente): ah, fulana tem um p. no meio das pernas?

             Talvez, mais fácil do que tentar mudar a mentalidade das pessoas seja mudar a própria realidade. E isso pode acontecer se a ex candidata a vice-presidente e ex-governadora do Alaska, Sarah Palin, sair candidata nas eleições de 2012 contra Barack Obama.

            Muitos que estejam lendo este artigo darão um risinho de desdém. De fato, Sarah Palin foi trucidada pelos humoristas americanos, por seu flagrante descaso pelo aquecimento global, pela defesa da prospecção de petróleo no Alaska, por seu apego às armas, por sua ignorância, por sua falta de credenciais acadêmicas (ela é formada em jornalismo num college qualquer). Para muitos ela será apenas a gostosa burra que não conseguirá mudar em nenhum milímetro os estereótipos sobre mulheres no poder.

            Tenho minhas dúvidas a respeito disso. Sarah Palin é casada, tem cinco filhos, sendo um deles bem pequeno ainda, tem charme, pernas bonitas, usas roupa femininas que a tornam sexy. Mais importante, tem percorrido o país desde que perdeu as eleições na chapa de John McCain, é uma das líderes do movimento Tea Party já explicado aqui na semana passada pelo editor do Montblatt. Lançou uma autobiografia e nesta semana estreou na televisão um reality show em que aparece com sua família pescando salmões nas águas geladas do Alaska, caminhando pela neve, enfrentando a natureza. Em suma, tudo para mostrar que ela corporifica os valores americanos tradicionais: a defesa da família, do individualismo, do self-reliance. Ela pode ainda não entender a diferença entre sunitas e shiitas ou não saber exatamente onde fica o Paquistão. Mas repete um mantra que tem agradado à parcela de brancos americanos assustados com o tamanho do desemprego e do déficit: o Banco Central está destruindo o valor do dólar com a política monetária expansionista, nossa dívida está saindo do controle, o Obama está aumentando demasiadamente o tamanho do Estado. Para aqueles que consideram o presidente como um socialista muçulmano, as palavras de Sarah Palin são mel.

            Pode ser que esta mulher tão carismática, que tem a capacidade de falar ao coração das pessoas (a primeira vez que a vi falar foi na Convenção Republicana e fiquei espantada como é fácil acreditar nela) não consiga ir além de um eleitorado cativo radical formado dos contra o aborto e a favor das armas. E se assim for ela não conseguirá sequer a indicação republicana à presidência, que dirá bater Barack Obama. Mas se a situação nos Estados Unidos, país que se descobriu desindustrializado pelos asiáticos de uma hora para outra, deteriorar, o discurso inflamado de Sarah Palin poderá ter eco. Seria interessante ver a jornalista gostosa, a “hockey mom” como ela mesma se definiu na campanha de 2008, se digladiar com o professoral, frio e condescendente advogado Barack Obama. Se ela fosse eleita veríamos se desenrolar pela primeira vez uma mulher que se fez sozinha na política, mas que os homens não poderão acusar de ser um ser híbrido metade macho metade fêmea. Quem viver verá.

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