Anos dourados

            Teoricamente falando eu não teria idade suficiente para ser saudosista, para lamentar o fim de uma era dourada do Brasil, como foram os anos 50 e 60. Ao contrário de muitos leitores do Montblatt, não vivi a época em que tínhamos cabeças pensantes neste país que procuravam abrir um novo caminho, meio tropical e meio europeu. Quando vou ao Rio de Janeiro meu passeio preferido é passear pelo Parque do Flamengo, obra do grande Burle Marx, que soube mesclar como ninguém a bagagem da velha civilização e os elementos digamos autóctones. Gosto de olhar os jardins que ele projetou com vitórias-régia, nossas maravilhosas bromélias, os espelhos d’água. Sinceramente espero que os cariocas saibam preservar este patrimônio da sanha imobiliária dos revitalizadores da Cidade Maravilhosa. Burle Marx conseguiu se tornar conhecido no mundo todo como paisagista por ao mesmo tempo se recusar a ser um macaquito e não ser totalmente exótico, valendo-se da linguagem e da técnica aprendidas em seus estudos europeus para criar sua própria arte.

            Àquela época este era o sonho do Brasil, quer se manifestasse na bossa nova, no tropicalismo sociológico dos escritos de Darcy Ribeiro ou nas teorias desenvolvimentistas de Celso Furtado e do próprio Fernando Henrique Cardoso. Tínhamos a esperança de que poderíamos chegar à síntese perfeita entre a herança da civilização dos colonizadores e as peculiaridades do povo, do clima e da história que nos tornavam tropicais. O próprio futebol era uma síntese disso: havíamos importado o ludopédio dos ingleses e no entanto soubemos criar nossa própria maneira de jogá-lo que deu origem à escola brasileira de futebol, cuja última florada parece ter sido a seleção de 82.

            Aqui começa o meu peculiar saudosismo, não tenho saudades do que não vivi, o milagre cultural dos anos 50 e 60, o milagre econômico dos anos 70. Especialmente porque tais milagres provaram ser uma cortina de fumaça, algo superficial que não modificou nossas estruturas profundas. O samba deu lugar ao pagode, o crescimento de 10% ao ano levou à dívida que teve que ser paga às custas de 20 anos de estagflação. Mas tenho saudades de coisas que vivi quando eu era uma menina, apesar de toda a carestia e a falta de perspectivas em que o país esteve mergulhado. E essa saudade advém do fato de eu achar que em certos aspectos pioramos em relação aos anos 80, apesar de hoje gozarmos de uma relativa estabilidade econômica, de podermos comprar a crédito pagando prestações a perder de vista.

            Essas boas memórias vieram-me à cabeça no domingo quando soube da morte do Doutor Sócrates, que antes de ser irmão do guapo Raí foi um jogador melhor do que Raí apesar de não ter a metade da beleza do seu irmão mais novo e ainda por cima representou várias coisas que perdemos ao longo destes 30 anos desde a Copa de 1982.

            Eu lembro muito bem da Copa de 1982. Foi a primeira a que eu assisti, tinha 10 anos e sabia de cor a música de Moraes Moreira sobre o galinho de Quintino flamengo menino sou craque sou craque sou craque sou craque doutor Telê humilde esperança … para que de novo do mundo sejamos os campeões (obviamente agora esqueci uma parte). Naquela época a seleção brasileira era nacional e não globalizada, era formada de jogadores que todos nós conhecíamos porque atuavam aqui, nos grandes clubes brasileiros. Realmente sinto-me feliz de ter vivido a emoção de ver a seleção brasileira jogar brasileiramente, é uma coisa que as novas gerações nunca mais experimentarão, como quem se regojiza de ter assistido a um show da Elis Regina ou a uma peça de teatro com o Laurence Olivier no palco (ainda que bem que eu já vi nossa grande Fernanda Montenegro).

            Nesse aspecto a decadência é completa e irreversível. A seleção brasileira de hoje é um amontoado de celebridades futebolísticas que não honram nossa tradição, e mesmo que a próxima Copa seja no Brasil não inspirarão em nós brasileiros nem uma ínfima parte da fidelidade que Zico, Sócrates, Falcão, Éder, Cerezo, Serginho Chulapa e por que não? até Valdir Perez nos inspiravam (eu juro a vocês que sei esses nomes de cor, não pedi a nenhum irmão meu para me informar). Afinal, sabemos que eles estão com a cabeça na Europa, nos milhões de euros que poderão ganhar e não com a estrela que poderão adicionar à camisa canarinho.Como comparar o finado Sócrates com Neymar, Ronaldo, Ronaldinho e quejandos? É verdade que Sócrates era cachaceiro e morreu pela boca, é verdade que não ganhou nenhum título mundial, não ganhou o prêmio de melhor jogador do mundo, mas ele nunca teria se aliado a Ricardo Teixeira, este grande pilantra que com seus poderes tão diabólicos quanto os do Duda Mendonça nos fará, nós contribuintes, pagarmos por todos esses estádios que se transformarão em elefantes brancos. E o Sócrates nunca precisou de assessor de imprensa para falar obviedades, clichês para passar a imagem de bom moço, ao contrário era um prazer vê-lo dar entrevistas, porque sabia do país onde estava, e não vivia no castelo de Caras dos atuais futebolistas brasileiros.

            Sim, nesses trinta anos desde 1982, o Brasil ficou mais rico, um pouco menos imprevisível, abriu-se para o mundo, mas nesse percurso perdemos um pouco da nossa dignidade tropical, nos globalizamos e nos pasteurizamos em torno do denominador comum da mercantilização desenfreada. Será que algum dia conseguiremos ser capazes enquanto nação de adotarmos as virtudes dos estrangeiros e de termos a sabedoria tropical de rechaçar seus vícios? Doutor Sócrates, onde quer que seu espírito esteja agora, você que tanto nos encheu de orgulho, zele pela alma brasileira!

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Super poderosas

            Eu sempre fico admirada com a esperteza da mídia oficial, isto é, aquela que serve para manter as coisas como estão, veiculando suas teses nas revistas e jornais do Brasil afora de maneira inocente e por isso eficiente. Sua tese principal pode ser resumida no mote do nosso sistema: consuma! E para nos fazer consumir é preciso que os ilustres jornalistas nos façam nos sentir insatisfeitos com aquilo que temos e nos prometam que se adquirirmos tudo o que é expressa ou subliminarmente oferecido, seremos aceitos pelas outras pessoas na sociedade e portanto seremos felizes.

            Para fazer essa tese vencedora o truque de inventar celebridades é sempre muito eficaz. Celebridade é aquele indivíduo que a mídia inventa e que de tanto ser martelado em nossas cabeças é considerado como alguém importante, alguém que está no supra sumo da cadeia de valores, porque ele ou ela tem tudo aquilo que nós não temos. Ele/ela está inserido/a na rede de consumo e mostra a você que para estar dentro basta adquirir tudo o que a celebridade adquiriu. Não importam os meios (acordo de separação, trabalho artístico ou qualquer outro), mas o fim de chegar ao topo.

            Dentro dessa lógica, ler a imprensa brasileira no Carnaval é uma lição sobre a função que ela tem de nos fazer nos sentir frustrados e, portanto, consumir. No domingo li a revista do Globo sobre as garotas super poderosas, as musas do carnaval. A autora da matéria se espantava com o fato de as moçoilas não terem mesmo celulite, pois apertou o bumbum de uma delas, e para atestar a sua perfeição listava as medidas exatas do quadril, cintura, coxa e busto de todas elas. Putz, tudo o que ela, Silvia Rogar, e suas leitoras não temos! Peitos enormes, bundas descomunais, coxas hercúleas (desculpem, eu sei que hercúleas não combina com coxas, mas já exauri meu estoque de adjetivos). E claro, depois de colocar as fotos das mulheres “poderosas”, “lindas”, Silvia dá o duro caminho das pedras para chegar à perfeição: cirurgia plástica, musculação diária, dieta à base de clara de ovo, injeções estéticas. O que a Sílvia se esqueceu de oferecer foram dicas sobre como conseguir o dinheiro para arcar com esses custos. Devo começar a freqüentar bailes funk, concentrações de futebol para arranjar um financiador? Não tenho tempo para isso, coitadinha de mim! Buááááááá, nunca terei poder, nunca serei bonita, nunca conseguirei um homem! Só me resta ir à farmácia comprar um remédio tarja preta!

            Alguns leitores do Montblatt poderão acusar-me de ser uma grande rabujenta e preconceituosa. Afinal, essas mulheres na maioria das vezes pagam elas mesmas por toda essa parafernália estética, médica e nutricional. Não precisam de nenhum homem que as financiem, elas são independentes! De fato, chegamos aqui no Brasil a uma etapa da liberação feminina em que elas já não precisam arranjar um homem para que comecem a partir de então a agradá-lo, como ocorria antigamente: agarre seu homem e seja cordata! Não, elas já fazem o homem o centro de suas vidas desde pequenas, e se colocam como consumidoras desenfreadas para na disputa acirrada com outras mulheres conseguirem destrui-las e se tornarem super poderosas, capazes de atrair os machos. Não importa muito se todo esse investimento irá realmente frutificar e dar à mulher o prêmio almejado, o homem que a OUTRA não tem. O que é importante é se sentir superior em relação às outras, na corrida pelo status, é se sentir perfeita como as outras mulheres não são, é estar uma cabeça à frente na corrida: uma coxa mais musculosa, um peito ou bunda mais empinado.

            Apesar de se falar muito pouco ao longo do artigo sobre a carreira dessas super poderosas, pois o que importa é falar do que as faz celebridades, a jornalista não se esquece de usar outro truque para nos convencer da sensatez de dedicarmos nossas vidas a adquirirmos tudo aquilo que não temos. Ela faz uso da opinião de membros da academia, no caso o da antropóloga Mirian Goldenberg, que “vê na estética das super-heroínas uma forma de contestação: – Esse não é um corpo que simboliza o masculino, mas uma fuga do padrão delicado, frágil, submisso (…) elas estão criando um modelo alternativo de ser mulher.” Que bom, podemos relaxar e gozar: uma intelectual nos conforta sobre a possível futilidade de dedicar quatro horas por dia a se embelezar. Isso é uma mostra do novo poder das mulheres. De fato, o poder de consumir, porque o valor fundamental é este: ter poder é ter poder de consumo. A expressão cotidiana nos mostra isso: dizemos “tá podendo, hein?” quando vemos alguém de carro novo, ou que comprou qualquer coisa que dê status.

            Sob essa perspectiva, não importa que tal corrida seja inútil, pois o homem médio, dada sua natureza hormonal, irá sempre preferir sexualmente uma mulher de 20 a uma acima de 30 por mais super poderosa que seja. As revistas femininas, que atualizam as mulheres a respeito das últimas técnicas cirúrgicas e estéticas, ou que ensinam como fazer sexo oral de arrasar quarteirão, não ensinam às mulheres que por algum motivo fracassaram na corrida, seja porque casaram com o homem errado e se separaram, ou que nem sequer chegaram a casar, o que fazer da vida. Afinal se eu investi toda minha energia espiritual em me tornar super poderosa, o que colocarei na cabeça quando a realidade da vida bater à minha porta e eu perceber que adquirir coisas não vai me permitir ter relações pessoais não baseadas no consumo sexual de um pelo outro, mas no respeito, na cumplicidade, na amizade? Vê-se o resultado disso em uma celebridade passada como a Cristina Mortágua, que foi presa e bateu na policial da delegacia. Não tendo sabido passar a uma outra fase da vida, em que é mais sensato procurar não se colocar como a gostosa do pedaço, mas como uma mulher que quer ser amada e respeitada – como no fundo todas as mulheres querem – a ex amante do Edmundo, com quem teve um filho, não é nem aquilo que foi, pois “embagulhou”, e nem consegue ser mãe do seu filho, porque na sua cabeça o máximo que pode ser é amiga ou até namoradinha de dar selinho no gatinho. Ela é hoje uma celebridade sim, por mais patética que seja, e por mais que sirva de mal exemplo às mulheres, afinal estamos em uma época em que valores morais se subordinam à lógica do consumo e do dinheiro. Uma imagem a ser consumida nas revistas de fofoca, sem dúvida aumentará as vendas da ti-ti-ti ou qualquer outro lixo, mas é sozinha, carente, disfuncional e não me admira se for dependente de alguma droga.

            Talvez eu esteja sendo muito moralista, mas sinto falta na nossa imprensa, dominada pela necessidade que tem de nos fazer consumir qualquer coisa, de jornalistas que tenham parâmetros e saibam distinguir o que é bom do que é ruim. Apresentar as super poderosas como modelos de conduta é um retrocesso e uma inconsistência, pois a mesma jornalista provavelmente escreverá uma reportagem sobre as pobres mulheres muçulmanas que usam véus, não podem se maquiar e nem ser livres. Eu pergunto, quem é mais escrava? A mulher que faz qualquer sacrifício para se manter em seu padrão narcísico de beleza, que se sente culpada comendo uma torta de banana no domingo, ou a portadora da burka, cuja única preocupação é cuidar da família?

            Por isso, o sonho da minha vida é envelhecer como a Brigite Bardot. Namorou todos os homens que quis e os que não quis nos tempos em que fazia beicinho para delírio dos homens e hoje se assume como uma velhinha cheia de rugas que não está nem aí se a acham feia e luta pelo bem estar dos animais. Esta é na minha opinião uma grande mulher, soube fazer a transição de sex symbol para mulher verdadeiramente independente, que não odeia os homens, pelo contrário os adora, mas não os torna o centro de suas vidas.

            Nesse sentido, faço questão de me posicionar, em um mundo em que tudo é relativo, e dizer em alto e bom som: SUPER PODEROSA É A MULHER QUE É, E NÃO SE PREOCUPA EM QUERER SER.  Espero um dia chegar a esta ontologia parmenediana (de Parmênides filósofo grego para o qual a realidade é simplesmente o que é, uniforme, necessária, imutável), como poderia dizer alguma intelectual pseudo feminista, para me livrar de todas as angústias, ansiedades e desilusões com que a nossa sociedade de consumo, a sociedade do eterno vir a ser, nos enche, nós mulheres “liberadas” do Ocidente.

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Mulheres no poder

            Muito se discutiu aqui no Montblatt a respeito das mulheres no poder, se seriam intrinsecamente melhores do que os homens, ou se deveriam ser julgadas objetivamente por sua conduta no poder, sem pré-julgamentos. O fato é que termos mulheres em postos de comando ainda é uma raridade em todo o mundo, daí ser muito difícil conseguirmos fazer um julgamento sobre a atuação feminina sem antes haver uma reação de surpresa das pessoas, quer positiva ou negativa.

            A reação positiva vem daqueles que consideram que é sempre bom haver mais mulheres participando da vida política para refletir sua crescente importância na vida econômica. Para esse grupo de pessoas, não importa qual a origem do poder conquistado: se foi por meio de um marido político, como a Hillary Clinton, nos Estados Unidos, como a Corazón Aquino, nas Filipinas, se foi por meio do apoio de um político homem, como nossa Dilma Rouseff, se foi por meio de ligações familiares, como Benazir Bhutto no Paquistão, ou se foi por meio das próprias pernas, como Michelle Bachelet no Chile, Angela Merkel na Alemanha, ou Margaret Thatcher, no Reino Unido.

            A reação negativa é daqueles que fazem ressalvas ao tipo de mulher que é alçada ao poder. As que se valeram da fama dos maridos, dos pais ou de seus mentores políticos nada mais fazem do que reforçar o paternalismo masculino. As que trilharam caminho sozinhas não valem, não são “mulheres”: ou já estão na menopausa e portanto não são mais “fisiologicamente” ou “biologicamente” mulheres, ou então se comportam como homens, abdicaram de uma vida familiar normal, ou pior, foram incapazes de qualquer relacionamento emocional, são ou desquitadas, ou solteiras ou sem filhos. Essa visão de que mulheres no poder na verdade não são mulheres na pura acepção da palavra é aparentemente corroborada pelos fatos. a premiê da Alemanha é casada, mas não tem filhos, veste sempre o mesmo uniforme de calça e casaco para esconder suas imperfeições físicas, é totalmente desprovida de charme. Michelle Bachelet é desquitada, apesar de simpática. Margaret Thatcher na época em que esteve no poder era casada e tinha filhos, mas já estava na fase das ondas de calor, ou muito além dela, e talvez por isso pôde governar a Inglaterra com mão de ferro…

            O que deve acontecer em termos de mulheres no poder para que superemos essa dicotomia? Qual a solução para que uma mulher no poder seja vista como um ser do sexo feminino, com filhos para criar, com marido em casa, em pleno gozo de suas capacidades reprodutivas, mas também das intelectuais? Será impossível às mulheres terem uma carreira política, conquistarem altos cargos antes dos 50 anos? Será que sempre haverá oportunidade de um homem falar de uma presidente, ou de uma primeira ministra (como ouvi falar da Dilma recentemente): ah, fulana tem um p. no meio das pernas?

             Talvez, mais fácil do que tentar mudar a mentalidade das pessoas seja mudar a própria realidade. E isso pode acontecer se a ex candidata a vice-presidente e ex-governadora do Alaska, Sarah Palin, sair candidata nas eleições de 2012 contra Barack Obama.

            Muitos que estejam lendo este artigo darão um risinho de desdém. De fato, Sarah Palin foi trucidada pelos humoristas americanos, por seu flagrante descaso pelo aquecimento global, pela defesa da prospecção de petróleo no Alaska, por seu apego às armas, por sua ignorância, por sua falta de credenciais acadêmicas (ela é formada em jornalismo num college qualquer). Para muitos ela será apenas a gostosa burra que não conseguirá mudar em nenhum milímetro os estereótipos sobre mulheres no poder.

            Tenho minhas dúvidas a respeito disso. Sarah Palin é casada, tem cinco filhos, sendo um deles bem pequeno ainda, tem charme, pernas bonitas, usas roupa femininas que a tornam sexy. Mais importante, tem percorrido o país desde que perdeu as eleições na chapa de John McCain, é uma das líderes do movimento Tea Party já explicado aqui na semana passada pelo editor do Montblatt. Lançou uma autobiografia e nesta semana estreou na televisão um reality show em que aparece com sua família pescando salmões nas águas geladas do Alaska, caminhando pela neve, enfrentando a natureza. Em suma, tudo para mostrar que ela corporifica os valores americanos tradicionais: a defesa da família, do individualismo, do self-reliance. Ela pode ainda não entender a diferença entre sunitas e shiitas ou não saber exatamente onde fica o Paquistão. Mas repete um mantra que tem agradado à parcela de brancos americanos assustados com o tamanho do desemprego e do déficit: o Banco Central está destruindo o valor do dólar com a política monetária expansionista, nossa dívida está saindo do controle, o Obama está aumentando demasiadamente o tamanho do Estado. Para aqueles que consideram o presidente como um socialista muçulmano, as palavras de Sarah Palin são mel.

            Pode ser que esta mulher tão carismática, que tem a capacidade de falar ao coração das pessoas (a primeira vez que a vi falar foi na Convenção Republicana e fiquei espantada como é fácil acreditar nela) não consiga ir além de um eleitorado cativo radical formado dos contra o aborto e a favor das armas. E se assim for ela não conseguirá sequer a indicação republicana à presidência, que dirá bater Barack Obama. Mas se a situação nos Estados Unidos, país que se descobriu desindustrializado pelos asiáticos de uma hora para outra, deteriorar, o discurso inflamado de Sarah Palin poderá ter eco. Seria interessante ver a jornalista gostosa, a “hockey mom” como ela mesma se definiu na campanha de 2008, se digladiar com o professoral, frio e condescendente advogado Barack Obama. Se ela fosse eleita veríamos se desenrolar pela primeira vez uma mulher que se fez sozinha na política, mas que os homens não poderão acusar de ser um ser híbrido metade macho metade fêmea. Quem viver verá.

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Lei e as mulheres

            Um dos efeitos do movimento feminista foi ter transformado a lei em instrumento de proteção das mulheres. Pude comprovar isso neste fim de semana que passei no Rio de Janeiro para o almoço de fim de ano do Montblatt. Qual foi minha surpresa quando esperando o metrô para ir à Quinta da Boa Vista vi pintada no chão uma faixa rosa dizendo que naquele ponto parava um carro só para mulheres, de acordo com uma lei estadual cujo número obviamente esqueci. É claro que ninguém se importou com a tal da lei e o que era para ser um carro gineceu continuou sendo um vagão normal povoado de homens e mulheres.

            O objetivo dessa lei, creio eu, deve ser o de evitar que as mulheres sejam assediadas pelos homens em trens cheios. Indefesas mulheres, o legislador imaginou que vocês não são capazes de dar uma cotovelada em um indivíduo que queira dar uma esfregada em seu corpo ou encará-lo olhos nos olhos e mostrarem-lhe seu desgosto ou simplesmente de tentarem sair do lugar. É preciso uma lei para garantir uma viagem tranqüila às mulheres.

            A lei também tem sido usada em benefício das mulheres para ajudá-las em suas relações amorosas. No Código Penal de 1940 tipificava-se em seu artigo 213 o crime de estupro, que consistia em “constranger a mulher à conjunção carnal mediante violência ou grave ameaça”. A conjunção carnal era algo concreto, um ato sexual de penetração do pênis na vagina. Com a reforma de 2009 do capítulo sobre a liberdade sexual o artigo 213 tem nova redação, muito mais plástica e sujeita a interpretações ao sabor do freguês e do juiz. Estupro é atualmente “constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou a permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso.” Ora, o problema está na expressão ato libidinoso, pois pode ser qualquer coisa: um beijo, uma passada lasciva de mão, qualquer coisa com intenção de obter satisfação sexual. Portanto, teoricamente um indivíduo pode ser condenado por crime hediondo – pena mínima de 6 anos, regime inicial fechado – se der um beijo e a vítima considerar aquilo um atentado à sua dignidade sexual.

            Argumentarão os leitores do Montblatt que no Brasil isso não ocorrerá, pois somos um país machista, que ainda nem consegue enquadrar todos aqueles que realmente praticam violência física contra a mulher, está aí a pobre Maria da Penha que só foi conseguir justiça quando apelou à Corte Interamericana de Justiça contra a impunidade de seu marido, que não nos deixa mentir. Por outro lado, não podemos nos achar muito longe disso se considerarmos que temos uma secretaria de direitos humanos, outra que promove a igualdade racial, tudo com vistas a impor um padrão politicamente correto de comportamento, fundado na aceitação e compreensão mútuas, na recepção da diversidade, no aplainar de diferenças de valores, crenças em prol de uma fé vaga na diversidade como um valor em si. O passo seguinte na ideologização das relações humanas, utilizando a lei como instrumento de coerção, é os juízes atenderem pedidos de indivíduos que se sentiram de alguma maneira ofendidos pelo comportamento de um namorado ou namorada, independentemente de ter havido violência física de fato.

            Está aí o caso do agora mundialmente famoso Julian Assange para provar as conseqüências de transformar ato libidinoso em sinônimo de estupro. Julian, 39 anos, foi preso na Inglaterra por ser alvo de acusação de estupro por duas mulheres suecas, Anna Ardin, 31 anos, organizadora de um evento do partido Social Democrata da Suécia, e Sofia Willen, 26 anos fotógrafa. Julian foi palestrante no evento e as duas mulheres obviamente se encantaram com o novo herói global, potencial alpha male, e carentes de um tipo tão em falta no mercado, deram em cima do dito cujo, que vendo dois peixes graúdos caírem-lhe na rede não perdeu tempo e transou com elas em dias alternados. A história contei aqui no Montblatt na semana passada. Ardin o acusou de estupro. Mas que estupro? Deixemo-la explicar-se (minha tradução):

            “Não está certo que ficamos com medo dele. Ele não é violento e eu não me sinto ameaçada por ele…. Em ambos os casos, o que começou como sexo voluntário depois se transformou em um assalto. A outra mulher também queria prestar queixa de estupro. [A] responsabilidade pelo que aconteceu comigo e a outra moça é de um homem que tem uma atitude deturpada com relação às mulheres e tem um problema em ouvir um não como resposta.”

            Um discurso de uma feminista típica. Estupro não é só violência física, a violência psicológica deve também ser tutelada pela lei, Julian Assange recusou-se a parar quando a moça pediu, por isso deve ser punido. Há várias coisas engraçadas nas palavras de Anna Ardin. O que me intriga em primeiro lugar é ela colocar a responsabilidade toda nos ombros do homem-bomba do Wikileaks. Oras bolas, uma mulher de 31 anos é uma adulta que deve assumir responsabilidades por suas escolhas. Se ela aceitou continuar transando com ele, mesmo sem camisinha, ela é tão responsável quanto ele, mesmo porque ela mesma admite que não houve violência física. O que foi apurado do caso é que tanto ela quanto Sofia, depois da transa, ficaram ligando no celular do príncipe encantado, que não respondeu e por isso virou um sapo barbudo aos olhos das duas.Ao se descobrirem vítimas do mesmo tratante, as duas suecas juntaram suas forças para acusarem-no. O poeta já dizia: “Heaven has no rage like love to hatred turned / Nor hell a fury like a woman scorned.”

            Será que foi para isso que serviu o feminismo? Para degringolar nisso? Nessa profusão de leis que sob a justificativa de garantir os direitos das mulheres acaba servindo para tornar as mulheres cada vez mais dependentes dos homens e obcecadas por eles? Sim, para mim uma mulher que assedia um homem, que transa com ele sem camisinha e só lembra de reclamar disso uma semana depois, não diretamente ao indivíduo que deveria ter se protegido, mas às autoridades policiais, que depois fica deixando mensagens no celular insistentemente e por ele não ter retornado fica com despeito e o acusa de estupro é o contrário de tudo o que as feministas pregam. Mulheres como Sofia e Anna prestam um desserviço a nós mulheres. São mulheres carentes, com baixa auto-estima, apesar de todo o discurso liberalizado, mulheres que só conseguem construir sua identidade a partir de uma relação com um homem, por mais casual, superficial que possa ser na prática. Transar com o Julian Assange era um troféu para elas, mesmo que fosse óbvio que para ele era simplesmente um meio de aliviar as tensões pelas quais ele tem passado. Se uma mulher aceita transar com um homem nessas condições, assuma as responsabilidades por seus atos, considere como uma boa transa e nada mais, mas depois não fique chorando como uma frustrada por ele não estar disposto a ser o homem da sua vida.

            Como disse Balanchine: “Os homens tomam conta das coisas materiais, as mulheres tomam conta da alma.” Mulheres bem resolvidas, independentes, que se amam, são muito mais capazes de fazer nascer o que há de melhor num homem; fazer com que sua masculinidade sirva a bons propósitos e não seja simplesmente sinônimo de agressão e destruição inúteis. Deixemos de nos refugiar em leis absurdas e contra produtivas para construirmos nós mesmas nossas relações, com base no respeito mútuo, no sentimento de nossa própria dignidade. Este, na minha opinião, deve ser o verdadeiro sentido do feminismo. Um feminismo que não sirva só às mulheres, mas aos homens também, feito de escolhas responsáveis, e não de vendettas e rancores.

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Chupetas e chupetinhas

            Leitores do Montblatt, desde já peço perdão pelo conteúdo do meu pequeno artigo, ele será muito azedo. Mas hoje estou azeda, tive que trabalhar até tarde no escritório, ao menos não trabalhei além das duas horas regulamentares que a CLT estabelece por dia para hora extra. E trabalhei doente, com gripe, o nariz escorrendo, a garganta doendo, sentindo-me como quem tivesse levado 100 chibatadas no Pelô e metaforicamente levei, porque fui obrigada a labutar além do expediente sem a mínima possibilidade de escolha.

             Estou a ponto de derramar uma lágrima… Como a Xuxa, vocês viram a loira mais famosa do Brasil na Contigo, dizendo que não é feliz? E não é para menos, com vários familiares doentes e sua mamãe querida com Mal de Parkinson. Alguns espíritos de porco, entre os quais eu, irão objetar que na verdade ela deveria estar é rindo. Rindo do seu inenarrável privilégio de poder oferecer à mãe TUDO o que a medicina geriátrica tem de melhor: fisioterapia, equinoterapia, hidroterapia, radioterapia, cuidadores, enfermeiros.

            De fato, pagar 40 mil reais por mês em um asilo de luxo para sua mamãe é uma gota no oceano para a animadora da rede Globo, ao contrário dos pobres mortais como eu, que se enche cada vez mais de angústia ante a total e inexorável volta da minha progenitora à condição de criança. A mãe da Xuxa pode até se dar ao luxo de combinar Alzheimer com Parkinson e não será nenhum problema para sua filhinha. Ela visitará a mãe todos os dias e ficará feliz em ver a velhinha cheirosinha, de fraldinha big fral Kimberley Clark que nem se percebe de fora, devidamente medicada para não dar vexame para os convidados, e mesmo que não a reconheça não é de cortar o coração, porque a demente estará numa boa passeando pelo jardim do asilo com sua cuidadora, toda paciente e terna. E quando a paciência de um se esgotar ante as rabugices e teimosias da velha, haverá um substituto, afinal não se está a pagar 40 mil reais à toa.

            Será que meu azedume já ultrapassou as raias da decência? Será que realmente a Xuxa não tem o direito de chorar em público reclamando para os 200 milhões de brasileiros de sua sina? Bem, nesse caso então vou dar uma chupeta para a Xuxa, acho que ela precisa é de colo, por favor vocês aí no Riiiiiiio, se a Xuxa chorar de novo ninem a pequena grande notável e dêem uma chupeta americana comprada em Miami e provavelmente feita na China, acho que ela vai se sentir querida. Esse é o problema, ela precisa ser o centro das atenções e quando fica muito tempo sem que lhe falem como ela é importante para todo mundo, como ela é o ó do borogodó se ressente e surta. Chupeta na rainha dos baixinhos, leitores do Montblatt!

            Por falar em baixinhos, lembrei-me de algo que vai entornar ainda mais o caldo deste meu artículo. Há alguns meses assisti a um programa na BBC sobre prostituição infantil em nossas plagas. Credo, que assunto chato, já estamos carecas de saber que há, o Brasil é uma das mecas do turismo sexual, ao lado de Tailândia e outros países do Sudeste Asiático. Afinal, o que vêm fazer aqui os turistas europeus que lotam vôos charter? Não é isso que vendemos a eles? Sexo, bundas, mulheres e homens bonitos, sensualidade, homossexualidade sem preconceitos. alegria? Para que os leitores do nosso já saudoso hebdomadário, como diria o Sérgio Augusto, não me acusem de bairrista, não falarei que o Rio é a Sodoma brasileira. O programa mostrou o ponto de prostituição no estádio de futebol de Fortaleza, onde haverá jogos da Copa do Mundo. Meninas de SETE anos conseguem seus clientes ali.

            Há todo um esquema: o motel que aceita menores, a conivência das “ôtoridades” que fazem batidas nas espeluncas de vez em quando, mas que se cansam e depois largam mão, deixando tudo voltar ao que era antes. E houve o momento mais importante na minha opinião, o momento em que eu senti ganas de obedecer ao verso da “Marseillaise” (aux armes citoyens): o repórter conversa com uma baixinha, no intervalo de um dos seus programas (não, não é o Xou da Xuxa, é o encontro no motel, onde a menina ajoelha todas as noites. Ela atende pedófilos europeus, coisa fina, faz pelo menos dez chupetinhas por noite, sem parar, chupetinhas para todos os gostos, brancaranas, morenas, chocolate, chupetinhas mais peludas e menos peludas. Putz, que fôlego tem essa menina, será que ela não se afoga não? Acho que a menina tira de letra, porque ao falar sobre seu emprego ela nem se abalou, descreveu de maneira prosaica, sem derramar uma única lágrima, sem auto-piedade, sem dar muito importância a algo que é uma tragédia..

            Pois é, foi isso que me deixou indignada, e me deixa mais indignada ainda quando vejo pessoas como a rainha dos baixinhos se lamuriando. A menina falava muito pouco, e tinha um olhar de resignação completa, aos 7 anos já tinha a experiência de vida de uma mulher de 50. Aquilo é um trabalho, necessário porque sua própria mãe a manda fazer aquilo e exige o cumprimento das metas, isto é, trazer certa quantia para casa. O que há de mal em um trabalho, afinal é melhor ela fazer chupetinha do que roubar, não é mesmo? Sim, pode ser, e de mais a mais, mesmo que o Conselho da Infância e da Juventude, o Ministério Público de fato tirassem essa menina da rua e a colocassem com pais adotivos, ela provavelmente continuaria a chupetear pelo resto da vida. Se ela chegar à vida adulta nunca terá uma relação saudável com homem nenhum, de quem só conheceu o lado porco, nunca conseguirá amar porque não aprendeu em casa o que é isso.

            Saí da mais absoluta crueldade à mais desabusada sentimentalidade. Peço humildemente o perdão de todos ao tratar de um assunto marginal. Estou sendo moralista, afinal a Xuxa não é culpada pelo fato de uma menina de 7 anos ter que fazer sexo oral para sobreviver em Fortaleza. OK, o país está bombando, Brasil, o rei das commodities, vamos arrebentar a boca do balão na Copa e a menina arrebentará a dela de tanto fazer chupetinhas… É melhor eu parar, não consigo me controlar, essa gripe está me deixando descompensada, acho que preciso de colo também… Buáááááááááá!!!!!!!!!

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