O Ovo da Serpente

            A Noruega é um país que tem muito do que se orgulhar. É o segundo maior exportador de gás do mundo e o nono de petróleo. Prevendo o fim da bonança proporcionada por seus recursos naturais, criou um fundo soberano como provisão para dias de vacas magras que em 2010 já acumulava a astronômica cifra de 500 bilhões de dólares, nada mal para uma população que não chega a cinco milhões de habitantes. Tem uma taxa de desemprego baixa, de 3,6%, alta renda per capita, de 54.600 dólares (a sétima maior do mundo).

            Além de suas proezas econômicas, exerce um papel de bom mocismo no cenário internacional. É o Comitê Nobel Norueguês, nomeado pelos membros do Parlamento Norueguês, quem escolhe a cada ano o laureado com o Prêmio Nobel da Paz, entregue em sua capital, Oslo. A escolha dos premiados revela a preocupação dos noruegueses de contemplarem as diferentes culturas e sociedades.

            Se figuras do centro do capitalismo estão na lista de ganhadores, como Henry Kissinger, Barack Obama, Woodrow Wilson, Theodore Roosevelt, Lech Walesa, Mikhail Gorbachev, sempre houve espaço para pessoas fora do eixo Estados Unidos-Europa: entre outros, Desmond Tutu, sul-africano agraciado em 1984 por sua luta contra o apartheid, Rigoberta Menchú, guatemalteca reconhecida em 1992 por seus esforços em prol da justiça social e da conciliação étnico cultural com base no respeito aos direitos das populações indígenas, e Liu Xiaobo, chinês agraciado no ano passado por defender os direitos humanos de maneira não violenta. E não devemos esquecer os esforços de mediação realizados pela Noruega que resultaram na assinatura em 1993 dos Acordos de Oslo entre israelenses e palestinos que criou a Autoridade Nacional Palestina, embrião do futuro Estado Palestino, que até agora ainda não se concretizou.

            Mais correção política de um país, impossível: tolerância, paz, promoção da igualdade entre os sexos e da diversidade cultural, toda a cartilha do que é moralmente válido nestes tempos globalizados é seguida pela Noruega em sua atuação internacional. E no entanto, um país tão radioso, embora longe de ser radiante, porque mesmo no verão o sol custa a aparecer naquelas plagas, revelou ao mundo esconder à sombra de algum fjord o ovo de uma serpente. Uma serpente que quebrou seu casulo, mostrou sua presa e destilou seu veneno, matando 67 pessoas (número sujeito a correções) em Oslo no sábado dia 22 de julho.

            Essa serpente atende pelo nome de Anders Behring Breivik, 32 anos, filho de pais de classe média separados quando ele tinha um ano, amante do videogame World of Warcraft. Em um site na internet ele explica o porquê de seus dois ataques, a explosão de uma bomba no centro administrativo da capital e o fuzilamento de jovens noruegueses do Partido Trabalhista, reunidos em um acampamento de verão. Auto intitulando-se cavaleiro de uma ressuscitada Ordem dos Templários, os cavaleiros medievais que foram a ponta de lança dos cruzados no Oriente Médio para a retomada da Terra Santa, o objetivo de Anders com suas ações extraordinárias era o de despertar a consciência dos europeus brancos e cristãos sobre a necessidade de combater os muçulmanos que em 2050, diante das atuais tendências demográficas, tornar-se-ão maioria na Europa.

            Não só despertar a consciência como conclamá-los a participar da luta, mostrando-lhes o caminho. Anders descreve detalhadamente seus preparativos e vocifera contra o alvo de sua ira. De um lado, o governo da Noruega, que aceita imigrantes muçulmanos de maneira indiscriminada (nota minha: não-europeus representam atualmente 2% da população), e os membros da esquerda, que são a quinta coluna do islamismo porque rezam pela cartilha do multiculturalismo, do relativismo cultural, da igualdade entre os sexos, da emasculação dos homens, o que para Anders levará inevitavelmente ao Armageddon, isto é, à completa aniquilação da civilização europeia, fundada no cristianismo.

            Sem dúvida estamos diante de um psicopata, um narcisista extremo que agiu sozinho e que pagará barato por suas monstruosidades, pois depois de 21 anos de prisão terá direito a novo julgamento. Mas será que ele não reflete um mal-estar existencial compartilhado por tantas pessoas neste século XXI? Um mal-estar diante da transformação do dinheiro no denominador comum que apaga diferenças culturais e morais, em prol de um padrão global de comportamento girando em torno do consumo? Um mal-estar diante do avanço inexorável do capitalismo financeiro mundial que se antes fazia suas vítimas só na periferia do sistema (África, América Latina e Ásia) agora provoca estragos nos outrora centros de riqueza (Europa e América do Norte)? Um mal-estar diante de um sistema econômico que provoca uma corrida suicida cujo objetivo é tornar a vida dos trabalhadores cada vez mais regrada e árdua para que os financistas e as empresas multinacionais possam viver à tripa forra? Afinal, se os muçulmanos hoje são os bodes expiatórios da vez, é porque os europeus se vêem ameaçados em seu modo de vida confortável, em seus empregos por uma competição que se tornou global e que os coloca frente a frente com chineses, indianos, vietnamitas que são capazes de trabalhar de maneira razoável para receber uma ninharia. E se eles se voltam contra os muçulmanos e não contra os asiáticos que são quem realmente devem temer, é porque os muçulmanos estão lá no coração da Europa com suas burkas, com suas rezas, com suas peles escuras, suas barbas, lado a lado com os cristãos brancos.

            Por outro lado, qualquer explicação econômica, cultural ou política é inútil em um caso tão absurdo como este. Talvez a simples razão que tenha levado Anders Behring Breivik à fúria assassina seja simplesmente que ele estava entediado com sua vida confortável, que o video game já não era suficiente para satisfazer as demandas de sua testosterona e resolveu dar vazão a Tânatos, a pulsão de morte que cada um tem dentro de si, de acordo com o velho Freud. Simples assim. Nesse caso ignorem o que eu disse e se satisfaçam com o simples bordão: “De perto ninguém é normal.”

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O Macunaíma que deu certo

            Com a idade é normal que nós nos tornemos mais seletivos, que nós estabeleçamos nossas prioridades de maneira muito clara. Lembro até hoje de uma cena do filme “Guerra ao Terror”, ganhador do Oscar no ano passado, creio eu, em que o personagem vivido por Jeremy Renner fala mais ou menos o seguinte para seu filho: “Sabe carinha, há um momento na vida em que sabemos o que é importante para nós e o que não importa.” E depois disso ele volta para o inferno do Iraque, abandonando a mulher e o filho, porque se sentia mais feliz lá desmontando bombas, tomando decisões dificílimas sobre a vida e a morte dele e de outras pessoas. Na guerra ele se realizava, em casa na vida familiar ele se angustiava por não conseguir escolher a marca correta de cornflakes. E assim o personagem escolhe o que era importante para ele e descarta o que era desimportante. Isso implica perdas e sofrimento para si e para outros, mas c’est la vie.

            Fazer escolhas requer maturidade e responsabilidade para arcar com as conseqüências. Essa qualidade parece estar se tornando cada vez mais rara no nosso mundo de consumo, em que tudo é permitido e permissível e portanto, basta irmos à gôndola do supermercado e se não gostarmos da embalagem do produto é simples: deixamos no carrinho ou no caixa do supermercado e pegamos outros sem maiores problemas. A questão é que há problemas neste pegar e descartar sem cerimônia. Basta olharmos para como os líderes do mundo globalizado agem para vermos como esse comportamento inconseqüente tem produzido péssimos resultados.

            Vejamos o caso do Prêmio Nobel da Paz, Barack Obama, tão admirado aqui no Brasil por ser um negro que chegou lá, ao contrário dos nossos negros que em sua maioria só chegam lá no rastro de uma bola de futebol ou na rabeira de uma bunda bem arrebitada. Pois bem,  o homem de fala moderada e mansa fez um discurso em 19 de maio no Departamento de Estado sobre a necessidade de estabelecer um Estado Palestino e um Estado Judeu respeitando as fronteiras demarcadas em 1967. Imediatamente foi ovacionado por sua coragem em confrontar Israel, em responder aos anseios do povo árabe, manifestado nas rebeliões populares deste ano no Oriente Médio e Magreb, de que os muçulmanos sejam tratados com mais justiça.

            Pois bem, não demorou muito e diante do desgosto demonstrado pelo lobby de Israel nos EUA em 23 de junho ele compareceu à Conferência Anual da AIPAC (Comitê dos Assuntos Públicos de Israel e Estados Unidos), para acalmar os ânimos e dizer que o que tinha dito não era aquilo que falaram que ele tinha dito. Para coroar este volte-face do Estado Americano, em 24 de junho o Primeiro Ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, foi aplaudido de pé no Congresso em Washington, e colocou os pingos nos is: a prioridade da política externa dos EUA no Oriente Médio deve ser a segurança de Israel, o que quer que isso signifique: bombardear o Irã, fazer limpeza étnica na Faixa de Gaza, condenar os palestinos a apelar à arma desesperada do terrorismo (É claro que Bibi não disse isso claramente, mas sabemos o que o bem-estar de Israel significa.

            Assim, tudo continua como antes no quartel de Abrantes. Os EUA continuam na prática dando seu apoio incondicional aos israelenses, independentemente das barbaridades cometidas em termos de violações de direitos humanos, o que insufla o ódio dos muçulmanos contra o império ianque. Mas o que importa isso? O importante é que Obama é um cara “cool”: Yes, we can dar uma no cravo, fazendo discurso em prol do tão quimérico Estado Palestino e dar outra na ferradura, apaziguando os zionistas sobre a possibilidade de Israel ter que devolver os territórios ocupados desde 1967. Belas palavras a platéias diferentes. Que mal há nisso? Que mal há em não tomar um curso firme e manter-se nele a despeito de tudo? Pode-se ao mesmo tempo dar uma ajuda humanitária aos famélicos palestinos, lhes acenar com suas terras, pedir a Israel que não construa mais assentamentos e ao mesmo não fazer nada para que Israel interrompa sua política de colonização.

            Não há mal nenhum justamente porque as pessoas parecem cada vez mais facilmente impressionáveis por belas palavras, submetidas que são ao ataque incessante da propaganda pela terra, pelo ar e pelo mar. Num mundo de factóides, de imagens fugidias, de cliques no i-pad, um comportamento coerente ao longo do tempo que mostre um princípio e aponte um fim, não faz muito sentido. Aliás, é entediante e não prende a atenção. Melhor são os lances de impacto: “discursos históricos”, “visitas inéditas”, apertos de mão simbólicos”.

            Obama, por ser o mais visível dos nossos líderes globais, me parece ser o grande mestre do faz de conta, a epítome do herói sem caráter, que longe de ser um pobre Macunaíma latino-americano é um grande vencedor. A economia americana está indo pelo ralo, o dólar cada vez mais enfraquecido, as guerras do Império cada vez mais intermináveis, os desafios à paz cada vez mais entrincheirados e ele sempre com o mesmo sorriso, a pose segura de grande animador de auditório, daquele que fala sempre coisas agradáveis, para quem noções como o certo e o errado, o moral e o imoral, não passam de conceitos retrógrados  de quem não vê que a polarização é obtusa. O legal é estar no meio, surfando na onda da popularidade, mantendo-se sempre na crista sem pender para nenhum lado. Uau! Deve ser uma sensação maravilhosa para o surfista, mas para quem está de fora e vê a próxima onda gigante se avolumando pode ser muito angustiante. O ideal talvez seria adquirirmos todos um pouco mais de responsabilidade e exigirmos dos nossos surfistas menos auto-complacência e mais remadas.

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Navegando a bordo da nau européia

            É engraçado e interessante ver o desenrolar da crise na União Europeia, causada pela inadimplência dos países do Clube Med, Espanha, Irlanda, Portugal e Grécia.

            Engraçado porque um deles é nossa alma mater, aquela que nos pariu, que nos explorou até ser substituída por um país mais esperto, a Inglaterra. Portugal está nu com a mão no bolso, mendigando pelos corredores da eurocracia: devido ao tamanho de sua dívida em relação ao PIB está à beira de decretar falência, caso os investidores internacionais desconfiem que o país não honrará seus compromissos e peçam um spread mais alto em relação aos títulos do governo alemão, considerados como referência.  Poderá surgir então a pergunta do que foi feito de todo o dinheiro que Portugal tomou emprestado e a pergunta deve ser formulada de maneira precisa para que cheguemos ao ponto que interessa: a entrada na União Europeia serviu para que o país mais ocidental da Europa criasse as bases de um desenvolvimento sustentável?

            É verdade que a partir de 1986, quando se oficializou a entrada dos países ibéricos no clube europeu, houve muita euforia, então justificada: muito dinheiro foi transferido a Portugal e Espanha a título de fundos comunitários para que pudessem fazer investimentos tais em infra-estrutura de transportes, telecomunicações, etc. que os tornassem dignos a figurar como europeus. Portugal entrou na rota do turismo de velhinhos alemães aposentados em busca do sol do mediterrâneo. Restaurantes, casas de veraneio foram construídos com dinheiro emprestado em euros. Além da indústria do turismo, investimentos mais substanciosos forma feitos na indústria automobilística. A Volkswagen abriu lá uma fábrica, atrás, como toda empresa global, de mão de obra mais barata e dócil, e com razoável nível de qualificação. Diante de tais ventos em popa, a nau portuguesa, cuja última grande façanha havia sido a descoberta da terra do pau brasil, finalmente desatracaria de seu marasmo secular! A nova face de Portugal pôde ser comprovada por nós ex-colonos, pelos investimentos que fizeram aqui em telecomunicações, e pelo desprezo que começaram a ter por nós como imigrantes na terrinha: aceitar gentalha do terceiro mundo, ainda que de um terceiro mundo emergente, não condizia com o novo status de verdadeiro europeu. A ascensão de José Manoel Barroso nos quadros da tecnocracia europeia sinalizava que Portugal finalmente deixara a rabeira e passara ao centro.

                    O caldo começou a entornar com a entrada na década de 90 e início do século XXI de outros pobrecitos na União Europeia vindos do Leste Europeu (Polônia, República Tcheca, Eslováquia, Eslovênia, repúblicas bálticas) e que não só sorveram os fundos comunitários antes destinados aos velhos pobrecitos, mas acabaram sendo mais atrativos às indústrias montadoras. Portugal, ainda inebriado com a condição de europeu, continuou a tomar emprestado para construir mais casas para os nobres hóspedes europeus do norte e o resultado foi que com a crise financeira de 2008 o peso da dívida tornou-se insustentável e a verdadeira situação do país se revelou.

            E que situação é essa? O fato é que a capacidade de desenvolvimento sustentável de Portugal no seio da União Europeia é muito escassa, tendo como colega de clube um gigante como a Alemanha cuja economia é muito mais produtiva e robusta e por isso o euro como moeda revela-se uma droga maldita, que fez com que o país pudesse tomar dinheiro a rodo para investir de uma maneira que ao final não se revelou capaz de gerar os empregos, a riqueza que todos esperavam. O resultado são maravilhosas estradas vazias que almejavam proporcionar a logística necessária às indústrias, mas que não fazem nada mais do que levar os brancaranos, como diria o Gilberto Freyre, às praias do Alentejo e do Algarve.

            A única saída, não só para Portugal, como para os outros países com a corda no pescoço dentro da União Europeia, é dar o calote e sair do euro para que possam desvalorizar suas moedas e tentarem se tornar mais competitivos à custa de inflação. O regime do euro só é bom para as economias centrais da Europa, que conseguem ter pauta de produtos exportáveis mesmo com o câmbio forte. A permanência dos países periféricos será à custa dos trabalhadores, que terão que aceitar medidas draconianas em termos de arrocho salarial, elevação da idade de aposentadoria, flexibilização dos contratos de trabalho – leia-se mais facilidades para demitir – para que as dívidas sejam pagas à banca internacional, o euro seja mantido como moeda única da Europa e no futuro seja possível organizar mais farras financeiras.

            Daí ser interessante para nós brasileiros ver o desenrolar da crise em Portugal, que inclui pedidos encarecidos ao FMI, medidas de austeridade, um filme que já vimos passar por essas plagas por tantas décadas, porque seu destino diz muito sobre o nosso também, já que lhe herdamos muitas das características. Nós portugueses e brasileiros sempre tendemos a nos colocar na mão dos outros, Portugal apostou todas as suas fichas na União Europeia, orgulhoso de ter sido aceito, mas na verdade foi aceito como estafeta no máximo, bom para trabalhos braçais, mas não admitido na cabine do capitão. Seu papel foi o de servir de porto seguro aos aposentados ricos europeus e aos agiotas. Sobre o Brasil, nem precisamos nos estender, colocamo-nos nas mãos dos portugas quando eles ainda tinham alguma pretensão a desempenhar papel de relevo, depois nos jogamos no colo dos ingleses no século XIX, deixamo-nos abraçar pelo Tio Sam no século XX e atualmente temos nos encantado com as sirenes chinesas. E os estragos de uma moeda forte em um país sem capacidade produtiva estão começando a ser vistos aqui no Brasil, em termos de desindustrialização e inflação.

            Por outro lado pode ser um consolo vermos a tragédia portuguesa. Afinal, se temos como progenitora uma nação que sempre mete os pés pelas mãos, o que podemos esperar de nós mesmos? Se nem entrando na União Europeia, um dos clubes mais seletos do mundo, Portugal endireitou, como esperarmos fazer melhor figura? Ora pois!

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Japão

            Estamos assistindo pela TV aos desdobramentos do terremoto que atingiu o Japão no dia 10 de março, o perigo de radiação nuclear vazar da usina de Fukushima. A princípio foi mais um desastre natural com o qual os japoneses estão acostumados e para o qual estão preparados. Afinal, eles sempre se valeram da tecnologia para resolver seus problemas.

          Suas construções balançam, mas não caem, seus trens-bala são pontualíssimos e permitem que milhares de pessoas cheguem ao trabalho no horário. Seus sistemas de gestão, just-in-time e lean production para citar os dois que são marca registrada da Toyota, inicialmente elaborados para limitar o uso de insumos ao mínimo necessário, num país carente de matérias primas, acabaram sendo exportados para o mundo inteiro, tornando-se referência básica em matéria de eficiência e produtividade. Foram também pioneiros no uso da robótica na indústria e até mesmo no ambiente doméstico, para ajudar as pessoas nas tarefas domésticas.

          E para coroar essa perfeição, os japoneses são de uma cordialidade e

educação que deixam todos embasbacados. Com terremoto e tsunami, não houve nenhum episódio de saque, nenhum distúrbio, nada do salve-se quem puder que ocorreu em Nova Orleans quando do furacão Katrina: os habitantes da terra do sol nascente têm suportado todas as recentes adversidades estoicamente. Enfim, aliam modernidade e tradição na medida certa! Ah, se todos os países tivessem o refinamento e a capacidade de absorver novidades que o Japão tem!

          Consumo desenfreado e apego à hierarquia, à disciplina. Esta talvez tenha

sido a receita do capitalismo nipônico que em certos aspectos não deve ter passado despercebida aos olhos dos chineses, que nos últimos 30 anos vêm se dedicando a observar tudo, tomar emprestado algumas coisas e assim conseguir tornar seus habitantes membros plenos do mundo do consumo, mas ao mesmo tempo permanecer com a mesma hierarquia, com o mesmo respeito à autoridade. Sob essa ótica, o Japão mostrou o caminho das pedras aos chineses: crescimento baseado em exportações, papel ativo do Estado no desenvolvimento econômico. Mas por outro lado, o Japão, por ter adquirido o status de primeiro país não ocidental a entrar no clube do mundo desenvolvido, também pode estar pagando o preço do vanguardismo.

          O fato é que a partir dos anos 90 o Japão perdeu o gás. Se em 1988 tinha

oito empresas entre as dez maiores do mundo, hoje não tem mais nenhuma e só tem seis empresas entre as 100 maiores. Foi recentemente ultrapassado pela China como segunda economia mundial e atualmente é apenas o

quinto exportador mundial, atrás da China, da União Europeia, da Alemanha e dos Estados Unidos. Sua dívida interna é de 200% do PIB. Enfim, são números que não mais impressionam, como outrora impressionavam aqueles que viam no Japão o futuro do capitalismo: um misto de dirigismo estatal e livre iniciativa. O que terá ocorrido com a sintonia fina antes tão bem orquestrada?

Muitas explicações têm sido dadas. A burocracia estatal, longe de ser um

estímulo ao crescimento, acabou sendo uma pedra no sapato da economia,

pois levou à realização de investimentos ineficientes, e as relações incestuosas do governo com certos setores da economia, especialmente o bancário, levou a uma inflação nos preços dos ativos no final da década de 80. Outros dizem que o problema é que a China copiou tão bem o modelo japonês que acabou por suplantar seu vizinho e rival no setor de eletroeletrônicos, roubando-lhe a galinha dos ovos de ouro e deixando-os sem nada para colocar no lugar.

          Tudo isso pode ser verdade, e seria inútil aqui argumentar a favor de uma

ou outra vertente, afinal não sou especialista em macroeconomia internacional. Sob qualquer prisma que se olhe, o fato é que encontrar soluções para a perda de dinamismo da economia japonesa é um exercício inútil se levarmos em conta um outro dado, o mais importante de todos, que obscurece todos os outros. O Japão está morrendo.

          Não há exagero nenhum nesta afirmação. Estima-se que o Japão, hoje com 127 milhões de habitantes, vá ter 25 milhões de cabeças a menos em 2050.

Isso devido ao fato de a taxa de natalidade ser de 1,2, o que não é suficiente para repor os indivíduos que morrem. A idade média de um japonês é de 45

anos e 23% da população tem mais de 65 anos. Em suma, um país que está envelhecendo rapidamente. Por mais que possa haver ideias brilhantes para permitir a retomada do crescimento econômico, por mais que os japoneses sejam experts em lidar com catástrofes, a dura realidade é que nada de muito relevante poderá ser feito sem haver pessoas para trabalhar.

          Dirão alguns que é um problema fácil de resolver importando dekasseguis para compensar o déficit populacional, mas os japoneses são em primeiro lugar muito avessos a estrangeiros e estes dekasseguis não têm as competências necessárias para dar o impulso necessário à retomada do topo. Então talvez a solução seja estimular as japonesas e japoneses a procriar e dar à luz lindos japonesinhos, os futuros engenheiros especialistas em robótica e etc. Afinal cuidar de sua própria gente eles sabem, ao contrário de um país que eu conheço.

          There lies the rub como diria Shakespeare, esta é a tarefa impossível, o preço do sucesso do Japão como sociedade de consumo. Ninguém está muito disposto a procriar. Para que investir em relacionamentos, casamento e filhos se eu tenho minha parafernália eletrônica à minha volta que me dá conforto e segurança? Há uma proliferação de homens na faixa de 23 a 42 anos a que se deu o epíteto de soushoku danshi, os homens herbívoros, que não se interessam muito por sexo e cujos hobbies incluem tirar fotos de templos budistas, passear e ficar na companhia dos seus amigos homens. 42% dos homens nessa faixa etária se consideram um soushoku danshi sem nenhuma vergonha de sê-lo.

          Quanto às mulheres, elas se mostram insatisfeitas com esse novo tipo

masculino, que prefere rachar a conta e não é muito ativo na conquista amorosa. Filhos únicos de pais que trabalhavam fora, os herbívoros cresceram sozinhos, em meio a seus videogames, e têm pouca capacidade de comunicação. Assim, fica difícil haver acasalamento entre pessoas autocentradas, individualistas, para quem ser amigo de alguém é estar na sua lista de e-mails ou como link no Facebook ou outra rede social, sem necessariamente haver nenhum contato físico.

          Fica claro que esses novos tipos humanos inventados no Japão, a tal ponto satisfeitos com o que têm que não precisam se relacionar, representam a vanguarda do fantasma que assola o Ocidente, ou seja, o colapso demográfico. Neste capitalismo do século 21, girando em torno do consumo, a família não tem mais nenhum sentido. Se antes ela era o centro da atividade econômica, o que levava os filhos a serem ativos, i.e. mão de obra para dar continuidade ao empreendimento familiar, seja uma lavoura ou uma oficina, hoje ela não é mais nada do que um sorvedouro de recursos a fundo perdido.

          Criar filhos é muito caro: é preciso estimulá-los desde a infância com música, leitura, brincadeiras educativas, é preciso mandar-lhes à pré-escola,

escola e faculdade e torcer para que ele tenha alguma inteligência para poder ter empregabilidade em um mundo em que os trabalhos que demandam força física estão cada vez mais raros. E qual a recompensa de todo esse investimento? Concretamente nenhuma, pois ninguém espera que o filho irá cuidar dos pais idosos, afinal é cada um na sua. O lema é: não tenham filhos cuidadosos, a opção com melhor custo/benefício é guardar o dinheiro para investir em si mesmo e quando ficar velhinho poder comprar um robô para se dar banho, ajudá-lo a se movimentar e poder continuar operante em um mundo em que os liames pessoais são moeda rara.

          O Japão, com toda sua modernidade trágica, é uma lição ao Ocidente sobre a dupla face da sociedade de consumo. Se ela foi o meio mais eficiente que o capitalismo encontrou para derrotar o comunismo e se perpetuar como o

único sistema disponível, ela também pode significar o seu fim.

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