Intriga Internacional II

            Falei na semana passada dos factóides que estão aparecendo no Velho Continente para criar um cenário de desastre que leve à tomada de decisões em favor dos banqueiros, isto é que leve aqueles que decidem onde gastar e o quanto gastar a se convencerem que é preciso garantir a qualquer custo que as dívidas contraídas pelos países da periferia da Europa na época do boom econômico sejam rigorosamente pagas. O objetivo último é manter a ficção do euro. Digo ficção porque a essa altura já ficou óbvio a todo mundo que longe de trazer prosperidade e desenvolvimento a toda a Europa, o euro acabou criando duas classes de países. De um lado, aqueles que se beneficiaram da moeda forte, como a Alemanha, a Holanda, que já tinham uma indústria competitiva e que com a unificação econômica puderam vender seus produtos em todo o continente a países com indústria menos competitiva. De outro lado aqueles que se viciaram na moeda forte: incapazes de competir com os “irmãos do norte” em termos de tecnologia e expertise em geral, os países da zona do mediterrâneo aproveitaram a bonança do euro para fazerem investimentos imobiliários na maior parte das vezes inúteis, vivendo um período de falsa prosperidade à custa de empréstimos dos mais ricos que assim reciclavam seus próprios ganhos obtidos com os superávits comerciais e na balança de pagamentos.

            Conjugaram-se aqui vários fatores. O interesse dos países mais ricos da Europa, que usaram o euro não para fomentar o real desenvolvimento das regiões mais atrasadas do continente, mas para se beneficiarem de um espaço econômico de livre concorrência em que eles já eram os mais fortes antes mesmo de a zona franca ter sido estabelecida. A ganância de bancos, a quem foi permitido emprestar dinheiro irresponsavelmente a governos e agentes privados perdulários que não só não tinham condições de pagar, mas que usaram mal os recursos (Na Espanha, há loteamentos imobiliários e aeroportos às moscas, na Grécia o dinheiro foi reciclado pelos donos do poder e hoje descansa tranquilamente nos Alpes Suíços, dizem as más línguas). E finalmente a estupidez de países mais fracos economicamente, que acreditaram no canto da sereia daqueles que lhes venderem o euro como passaporte da alegria de pertencer ao primeiro mundo e tomaram dinheiro a rodo na crença de que mesmo que não tivessem como pagar ficariam miraculosamente imunes às intempéries pelo simples fato de estarem blindados pela União Européia.

            O resultado da fome com a vontade de comer é uma indigestão brava: as obrigações líquidas internacionais de Espanha, Portugal, Grécia e Irlanda estão próximas de 100% do PIB dos respectivos países, ou seja são nitidamente países devedores cujas economias não apresentam suficiente pujança para que possam pagar suas dívidas, pois não produzem artigos de alto valor agregado que possam ser exportados aos países do centro da Europa. E quem vai pagar o pato? Dona Angela Merkel, a primeira-ministra da Alemanha e que é a grande nação credora e maior beneficiária da fraqueza dos PIIGS (Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha), é a favor de austeras medidas fiscais a serem impostas a esses países para que eles sejam severamente punidos e passem a trilhar o caminho da retidão e do trabalho duro ao invés de se fiarem no dinheiro alheio para viverem vidas de primeiro-mundistas sem realmente terem capacidade econômica para tanto. A defenestração sem cerimônia de Papandraeou na Grécia, de Berlusconi na Itália, a pressão exercida sobre a Irlanda para que o Estado nacionalizasse as dívidas dos bancos, o que foi devidamente feito, tudo isso mostra que os países que ditam as regras no conserto europeu não aceitarão nada menos do que a rendição total.

            Por outro lado, é preciso dar a César o que é de César, os alemães sempre se mostraram a favor de fazerem com que os bancos que emprestaram aos governos dos PIIGS arcassem com parte dos prejuízos e baixassem parte da dívida dos seus balanços. Não seria justo apenas o Banco Central Europeu, que usa dinheiro público, arcar com o ônus de emitir moeda e comprar títulos de governos incapazes de se financiar no mercado privado. Seria razoável exigir que os bancos pagassem por sua maliciosa temeridade de emprestar a quem não tinha meios de fazer bom uso do dinheiro.

            Pois bem, com seu incrível poder de pressão, as elites financeiras têm conseguido sorrateiramente fazer valer seu ponto de vista radical de que qualquer tentativa de calote soberano vai levar à derrocada do euro e causar o desastre para todos. O último coelho da cartola dos mágicos da banca foi o factóide de 23 de novembro, quando um leilão de títulos de 10 anos do governo alemão, cujo valor era de 6 bilhões de euros, conseguiu arrecadar somente 3,6 bilhões. Um espanto, considerando que a Alemanha é o maior país credor, tem uma economia com fundamentos sólidos, com crescimento de 3,5% em 2010 e uma dívida pública de apenas 83% do PIB. Como podem duvidar da capacidade de pagamento da Alemanha? Será que os investidores estão loucos ou estão se fazendo de loucos para pressionarem o país a aceitar seus termos, isto é pagamento total ou nada feito?

            Coincidência ou não depois desse leilão em que 35% dos títulos não tiveram compradores, o Ministro das Finanças teutônico, Wolfgang Schaeuble, disse que a Alemanha pode desistir da sua exigência de que os bancos privados que emprestaram aos governos da Grécia, Itália e Espanha devem aceitar parte do custo da ajuda financeira, baixando uma parte da dívida dos seus balanços. Aparentemente a blitzkrieg dos banqueiros está rendendo outros frutos: nesta semana foi realizado acordo entre os principais bancos centrais do mundo (EUA, Japão, Canadá, Suíça e Banco Central Europeu) que se comprometeram a garantir a liquidez do mercado financeiro até 2013 por meio do quantitative easing já feito nos EUA, que se resume a imprimir moeda.        O medo dos alemães do fantasma da inflação que viveram na República de Weimar está se tornando uma preocupação menor relativamente à necessidade imperiosa de garantir a boa saúde dos bancos. Tempos interessantes e dramáticos esses em que vivemos. O povo europeu vai pagar o preço em termos de preços mais altos, desemprego, piora de serviços sociais, mas a ficção do euro estará preservada para que alguns poucos se locupletem.

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Historias para boi dormir

            “Os japoneses irão atacar, não prepare defesas, precisamos do apoio total da nação no esforço de Guerra por um ataque não provocado ao país.” De acordo com Hartford Van Dyke, autor do livro publicado em 1975 “O Esqueleto no Armário do Tio Sam” essas foram as palavras de Franklin Delano Roosevelt quando foi informado pelo Secretário da Guerra, Henry Stimson, de que os japoneses estavam prestes a realizar um ataque contra Pearl Harbor. Van Dyke ouviu essa revelação de seu pai, Lyle Hartford Van Dyke, que por sua vez a ouvira de seu tio Gerald Mason Van Dyke, um oficial da inteligência do Exército Americano no Havaí que mandou uma mensagem às duas horas da tarde do dia 4 de dezembro de 1941 a Washington informando as autoridades da iminência de um ataque. Hartford decidiu publicar seu livro indignado com o massacre de Mi Lai no Vietnã sem quebrar a promessa feita pelo seu pai de que só falaria sobre o episódio depois da morte do tio.

            Como todos sabemos, Pearl Harbor passou à história como um ataque surpresa em que 2403 militares americanos e 40 civis foram mortos no dia 7 de dezembro de 1941. A indignação causada entre os americanos permitiu a Roosevelt lançar os EUA na guerra pois mudou o ânimo de seus compatriotas, que de receosos de um envolvimento no conflito europeu passaram a clamar por vingança contra os famigerados japonenses. E assim foi feito, Roosevelt conseguiu o que queria e a vitória na Segunda Guerra Mundial consolidou o domínio americano não só no campo econômico quanto militar.

            Alguns poderão argumentar que as mentiras do governo americano começaram aí, quando os EUA se afirmaram como potência mundial. Mas se dermos uma olhada na história podemos ver que talvez o início da desfaçatez tenha se iniciado com a Guerra Civil de 1861, que em 12 de abril completou 150 anos. Depois de mais de 600.000 mortes, a  Constituição originária elaborada pelos fundadores da pátria foi na prática jogada no lixo. De um país formado pela união da vontade dos Estados passou-se a um outro em que o governo federal impôs sua vontade a ferro e fogo aos Estados do Sul que queriam  separar-se da União para manter seu estilo de vida agrícola e escravocrata. Mas os ianques do norte queriam fazer negócios e então contaram a história para boi dormir de que estavam lutando para libertar os escravos. Abraham Lincoln passou à história como herói. De fato, os escravos foram libertados, mas por outro lado a autonomia das unidades federadas sofreu um duro golpe e preparou o terreno para um poder central forte que pôde então se lançar a criar o Império Americano.

            E cá estamos nós em 2011 às voltas com as façanhas do Tio Sam, ganhadores da Guerra Fria, que apoiaram ditaduras sanguinárias e corruptas em todos os cantos do mundo na luta contra o comunismo. O comunismo foi derrotado e ao invés de os ianques colocarem as barbas de molho e desfrutarem os frutos da paz, não, havia outros inimigos. Os terroristas muçulmanos. Um dia haverá um outro Hartford Van Dyke que com peso na consciência nos contará a verdadeira história do 11 de setembro. Será que as autoridades americanas também já não sabiam das manobras dos terroristas e deixaram os acontecimentos se desenrolarem para que pudessem dele tirar proveito?

            Afinal, depois do 11 de setembro os Estados Unidos se arvoraram o direito de invadir o Iraque, o Afeganistão, o Paquistão atrás dos fanáticos muçulmanos. O Patriot Act, promulgado somente seis semanas depois dos ataques (como se já estivesse pronto e só esperasse a desculpa da destruição do World Trade Center para ser liberado), aumentou tremendamente o poder do Executivo, permitindo violações flagrantes ao Estado de Direito, ao devido processo legal, ao direito de defesa, à presunção de inocência. Qualquer cidadão, mesmo natural dos Estados Unidos, se suspeito de atividades “terroristas” pode ser preso em nome da segurança nacional. Bradley Manning, o soldado de 23 anos que é acusado de ter enviado ao Wikileaks documento sobre a podridão da Guerra no Iraque, está incomunicável, sem previsão de julgamento, e é obrigado a sair de sua cela todos os dias pelado para ser “revistado”. Os indivíduos que viajam de avião devem se submeter a um constrangedor escaneamento do corpo, com máquina fornecida por empresas israelenses, experts no assunto. Coincidência ou não, Israel é o principal beneficiário da atuação americana no Oriente Médio depois do 11 de setembro.

            E assim as mentiras do Grande “Beacon of Liberty”, como Arnold Schwarznegger um dia definiu os EUA, foram se avolumando, tudo em nome da luta contra o terror, armas de destruição em massa no Iraque, que só existiam na mente alucinada de Bush e de seu poodle, o picareta do Tony Blair, um dos maiores embusteiros atualmente em ação, aliás recentemente esteve no Rio para dar conselhos a otários que pagam para ouvir lorotas de um advogado bom de lábia. Mas devo confessar que essa morte do Osama Bin Laden de 1 de maio realmente me deixou estupefata pela sem cerimônia como a conversa para boi dormir foi contada.

            No domingo foi-nos relatado que o líder da Al-Qaeda, o “cérebro dos ataques de 11 de setembro”, havia utilizado uma mulher como escudo e resistido até o fim. Dali dois dias a história já tinha mudado e o famigerado Bin Laden não tinha resistido e levou um tiro na cabeça. Bem, como diriam nossos ascendentes portugueses Inês é morta porque acharam por bem jogá-lo no mar. Teremos que acreditar na história contada por Obama e sua Secretária de Estado, Hillary Clinton. De qualquer forma, efeitos bons já apareceram para o Prêmio Nobel da Paz. Provou ser um cabra macho mandando matar a maior fonte de informações sobre o terrorismo e agora pode justificar sua saída de fininho do Afeganistão, onde o fracasso foi total, e a busca de um novo alvo, o Paquistão, que deve ser punido por ter escondido Bin Laden. E claro, sua popularidade aumentou a despeito da situação calamitosa de desemprego, especialmente entre a população negra masculina, que votou em massa no primeiro presidente afro descendente

            O show de Obama, como o Apprentice de Donald Trump, seu arquiinimigo atual, possível candidato a presidente no ano que vem, não pode parar. E Obama, de símbolo da mudança, passou rápido de aprendiz de feiticeiro a verdadeiro mago na arte de manipular. As histórias são tão prodigiosas que eu me esqueço delas. Por que mesmo houve a intervenção na Líbia, sem aprovação do Congresso Americano? É para proteger os civis ou para solapar a posição da China que tem investimentos vultosos na área controlada pelos rebeldes? Há quem ache Obama mais fino e inteligente que o Donald Trump, que separa o cabelo atrás da orelha. Mas a conversa fiada de Obama é muito mais deletéria ao país e ao mundo do que as cafonices do rei da jogatina. A absurda morte de Osama Bin Laden, se não for o fundo do poço em matéria de escárnio e de falta de respeito com o povo, mostra que as estripulias do Império Americano ainda vão nos levar por caminhos cada vez mais funestos.

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Bota ou não fé no velhinho

            Nesta semana conversando com uma colega de classe ela me disse: ah, as pessoas têm que perceber que esse negócio de esquerda e direita não existe mais.”  Ela se referia aos esquerdistas da faculdade que agora dirigem o Centro Acadêmico e que se preocupam em construir o clube da faculdade, em um terreno doado por Jânio Quadros, um ex-aluno, e não se preocupam com o Departamento Jurídico, que apesar de prestar um serviço social da maior importância, está à míngua.

            E de fato não há como negar que os termos da oposição histórica, cujas origens remontam à Revolução Francesa, mudaram desde o fim da Guerra Fria. Não há como algum partido de esquerda hoje defender a revolução do proletariado tendo como modelo a União Soviética. É preciso fazer as pazes com o capitalismo, agir dentro do sistema para humanizá-lo, isto é, distribuir a renda, tirar dos ricos para dar aos pobres e assim atingir a paz social. Apesar desse critério redistributivista ser o mais seguro, confesso que tenho lá minhas dúvidas sobre se realmente funciona para distinguir quem aceita o sistema como ele é e quem o critica.

            Essas categorizações me vieram à cabeça nesta semana para tentar entender o caso Dominique Strauss-Kahn, o infeliz presidente do FMI acusado por uma camareira do Hotel Sofitel de tê-la estuprado. Alguns se perguntarão o que direita e esquerda tem a ver com o sexo oral que supostamente o velhinho safado obrigou a camareira a fazer. Aparentemente nada, mas ao mesmo tempo tudo. Tudo porque nunca saberemos o que de fato ocorreu no sábado dia 14 de maio na suíte de DSK, como ele é conhecido na França. Nos EUA o processo penal admite transação de maneira muito mais intensa do que aqui, o que faz com  que a verdade real não seja o objetivo a ser alcançado, mas a solução do litígio. Portanto, para que cada um possa criar sua versão dos fatos, é preciso que desde já decida o que acha do personagem.

            Quem acha que DSK é um membro do establishment, vai considerar que este episódio nada mais é do que o coroamento de uma carreira pontuada de rumores de assédio sexual de um homem de 62 anos que está em seu terceiro casamento, com Ana Sinclair, uma rica judia da mesma idade que vem lhe apoiando financeiramente em sua corrida rumo ao topo. Para esse grupo, DSK é o mais fino exemplo do socialismo aguado que hoje predomina na Europa, pois preside uma instituição financeira, o FMI, que foi responsável pela operação de socorro financeiro aos países da União Européia atualmente endividados. Socorro financeiro este, como nós latino-americanos, bem sabemos, que não será dado por mera liberalidade, mas à custa de arrocho fiscal e salarial, desemprego, efeitos colaterais estes que já se fazem sentir nos PIGS europeus e têm desencadeado várias ondas de protesto. Em suma, DSK é um machista chauvinista, banqueiro judeu da esquerda rendida que está tendo aquilo que merece.

            O segundo grupo é formado por aqueles que vêem DSK como um crítico do establishment e que por isso foi pego em uma armadilha preparada por seus inimigos. Afinal, que diabo de camareira é essa que não dá as caras, que fala pelos promotores? E onde fica a presunção de inocência, considerando que o caso gira em torno apenas do testemunho da mulher de  32 anos que já ensejou a imediata prisão do acusado? Os chacais na França são dois. De um lado, Sarkozy, seu rival nas eleições presidenciais de 2012, a quem DSK acusou de não ir fundo nas coisas. Antes de a polícia de Nova York anunciar o episódio, um ativista político partidário do presidente francês, Jonathan Pinet, já havia tuitado a prisão do velhinho lúbrico a Arnaud Dassier, um assessor de Sarkô. E momento esplêndido para contrapor Sarkozy, casado com a linda e grávida Carla Bruni, ao patético safado que fica se imiscuindo com camareiras africanas. Para não falar de Marine Le Pen, a candidata da extrema direita, cujo pai é notório anti-semita e que prega o fim da União Européia, cujo salvamento DSK tenta por via da ajuda financeira aos endividados.

            De outro lado, há os Estados Unidos e a banca internacional. Os Estados Unidos, pelo fato de o FMI ter publicado um relatório apontando que em cinco anos a China se tornará a primeira economia mundial, sinalizando o início do ocaso dos EUA como potência econômica. A banca internacional, por DSK ter proposto uma regulação dos bancos e a idéia de que devem arcar também com os prejuízos da crise financeira pelos riscos que eles assumiram e não só o governo (leia-se o povo) dos países mais endividados.

            Culpado ou inocente? De direita ou de esquerda? O mais provável é que Strauss Kahn seja uma mistura dos dois: um membro da elite mundial que banca a globalização oferecendo crédito aos países que concordam com o pacote do FMI, enfiado goela abaixo dos países carentes de capital de maneira que eles possam continuar a ser bons pagadores do carnê do baú; mas um membro que, não esquecendo de todo o conceito de socialista, quer que o fardo não fique tão pesado para os mais fracos e que os riscos carreguem ao menos uma parte dele. De qualquer forma, a carreira política do velhinho não sobreviverá às algemas e ao fellatio. E assim, em 2012 os franceses terão que decidir quem é mais ou menos de direita, ou seja, quem está mais ou menos disposto a tirar dos pobres para dar aos ricos: o errático e bombástico Nicolas Sarkozy, o homem dos factóides ou a combativa Marine Le Pen, a campeã da “França para os galeses”.

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Bodas reais

            Confesso que fiquei curiosa em assistir ao casamento real da plebéia Kate Middleton e do Príncipe William. Até que ela não é assim tão plebéia, porque descobriu-se remexendo sua árvore genealógica que é descendente de uma irmã da famosa Ana Bolena, decapitada por seu marido Henrique VIII. A ascendente de Kate chamava-se Maria e foi amante do rei, com quem teve um filho. Ainda lembro quando aos oito anos eu assisti ao casamento da finada Diana, a mãe de William, e fiquei maravilhada com o vestido suntuoso, bufante, cheio de frufus, laços, o ar virginal da noiva. Qual mulher não sonha em casar, achar seu príncipe encantado?

            No meu modesto caso, como sou uma garota de classe média que precisa ganhar a vida e sobreviver, o meu príncipe teria que ter qualidades darwinianas para ter sucesso no mundo cada vez mais competitivo, com recursos cada vez mais escassos do século XXI. O que obviamente não é o caso do garboso William, que se formou sem mérito em Geografia e provavelmente se não tivesse nascido com “uma colher de prata em sua boca” como eles lá dizem, não teria lá muita “empregabilidade”, apesar de ser um expert em protocolo e etiqueta. De fato, o moço só fala o inglês, não tem interesse em aprender outra língua e parece pouco sintonizado com o mundo multicultural de fora do seu casulo real formado de caçadas, temporadas na Escócia, baladas em lugares exclusivos. Até a decisão dele de não usar aliança depois de casado, por considerar isso cafona, mostra que William é muito mais apegado aos seus sinais distintivos de classe social do que sua mãe foi. O filme “A Rainha” estrelando Helen Mirren no papel de Rainha Elizabeth, revela a falta de sintonia da família real com a modernidade representada por Diana, que muito mais do que Princesa de Gales era extremamente carismática e por isso adorada como celebridade, já que se colocava naturalmente de igual para igual com qualquer pessoa. Vê-se neste casamento que a revolução democrática da finada princesa foi definitivamente colocada por terra: seu filho é todo sorrisos, mas ele nunca seria capaz de cair nos braços do povo como ela fez na África, visitando crianças aidéticas ou vitimadas por minas terrestres.

             Mesmo com essa ressalva a respeito de considerar William apenas um jovem privilegiado e convencional, eu acompanhei até o momento de zarpar para o trabalho a cerimônia pela BBC. Uma coisa que me espantou foi a frugalidade do vestido de Catherine, que acentuava ainda mais a magreza da moçoila. Qual o porquê de tamanha simplicidade? A explicação mais provável é a de que a família real britânica não quer melindrar seus súditos em um período de vacas magras, como o maior corte de gastos públicos na Grã-Bretanha desde a segunda guerra mundial. De fato, os britânicos, que na época de Tony Blair e Gordon Brown (não convidados para o casamento) embarcaram na onda da globalização a bordo de seu setor financeiro, se vêem agora em plena ressaca, não tendo ainda conseguido deixar para trás o desemprego e a estagnação econômica. O Primeiro Ministro David Cameron, ávido por fazer com que o Estado possa se livrar de certas incumbências, propôs um projeto chamado “A Grande Sociedade” pelo qual quer encorajar os cidadãos a assumir maiores responsabilidades públicas, a terem uma participação maior na vida da “pólis”. Resta saber se terão tempo de fazer isso, afinal os gregos que o faziam na ágora ateniense faziam parte da elite da cidade e podiam se dar ao luxo de discutir, argumentar porque não precisavam labutar como pobres mortais.

            A despeito de todos esses problemas pairando no horizonte, lá estavam os súditos de bandeirinha na mão, um milhão de fãs esperando o casal sair à sacada, dar o primeiro beijo. Por mais que os bem pensantes deplorem essa idolatria, que achem tudo isso uma futilidade, o fato é que os ritos da monarquia – coroações, casamentos, funerais – parecem calar fundo no inconsciente coletivo das pessoas que precisam que certas verdades imemoriais sejam sempre repetidas, que um homem e uma mulher se casam para entre outras coisas terem filhos, que a autoridade deve ser respeitada por si mesma, pelo que ela representa e não pelo que ela de fato é. Em um mundo em que os relacionamentos pessoais estão cada vez mais difíceis pelo egoísmo e narcisismo predominantes, em que a internet impossibilita a imposição de qualquer tipo de relação hierárquica, esses rituais lembram às pessoas as relíquias de um mundo que está se desintegrando. William e Kate podem ser em si mesmos medíocres e não ter mérito próprio além da beleza, mas o papel que desempenham de fazer o show continuar, de dar certezas, de reencenar clichês, talvez seja um alívio existencial para os britânicos e para todos os que em nossa aldeia global do século XXI sofrem a angústia de ter que viver em uma Terra que talvez não sobreviva ao holocausto ambiental..

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As mentiras que os poderosos contam

            Vivemos em uma sociedade dita global em que a mentira deslavada é cada vez mais parte de nosso cotidiano. Temos a influência da propaganda, que precisa sempre enfatizar as qualidades do produto e varrer para debaixo do tapete o que não se encaixa na imagem perfeita. Há que se levar em conta também a grande vontade das pessoas de serem enganadas: por mais que nunca tenha havido como agora tantos diplomados, graduados, “emebeados”, pós graduados etc., a capacidade de crítica das pessoas é cada vez mais anestesiada, entretidas que são pelas fofocas sobre celebridades, por programas como Big Brother, ou fantasias cinematográficas como Avatar, pelos videogames que transportam o indivíduo a uma realidade paralela de poder, de força, de felicidade que não tem nada a ver com o cotidiano daquele que está sendo entretido, feito de longas jornadas de trabalho, busca incessante por se manter “empregável”, “casável”, “namorável”, enfim “escolhível” de alguma forma. Por que refletir sobre a realidade se ela é cansativa e me enche de ansiedade e angústia? Vamos escapar par ao Castelo de Caras ou para o paredão do Big Brother!

            Daí ser tão difícil detectar mentiras, por estarmos demasiadamente envolvidos pelo discurso mavioso daqueles que lucram em nos fazer acreditar que vivemos em um mundo em que a tecnologia nos levará ao nirvana, em que tudo caminha necessariamente para melhor. E quanto mais nos fica difícil detectar mentiras mais somos escravizados pelos poderosos de plantão, que têm todo o interesse do mundo em que nós acreditemos que nada podemos fazer para mudar o mundo tal como ele está. Afinal, a política é podre, feita por políticos corruptos, eu não sou político, porque sou honesto, logo não posso fazer nada. Ou então, a economia é um assunto técnico, deve ser deixada para os especialistas resolverem, assim como a ciência e por aí afora. Mas como nos ensinaram os gregos, o homem é por definição um zoo politikos”  e se ele nega sua natureza deixa de ser homem. Bingo! Para estimular um pouco a indignação moral dos leitores do Montblatt e assim levá-los à ação, citarei aqui alguns exemplos de mentiras deslavadas recentes.

            No dia 15 de fevereiro Dona Hillary Clinton, Secretária de Estado dos EUA fez um discurso na Universidade George Washington declarando que os EUA apoiará financeiramente grupos que lutam pela liberdade na internet. Mentira deslavada! Na mesma oportunidade ela acusou o Wikileaks de roubo e o Departamento de Justiça entrou com processo contra o Twitter para revelar as ligações entre Julian Assange e Bradley Manning, o homem que passou documentos sobre as Guerras no Iraque e Afeganistão de maneira a tentar enquadrar o australiano como conspirador. A verdade escondida pelo palavrório sobre liberdade é a seguinte: os EUA apóiam a divulgação de informações, desde que seja usada para desestabilizar regimes que não rezam pela cartilha ditada pelo Tio Sam, como o Irã. Quanto ao resto, processo e mordaça neles!

            Em 2008 o presidente da França, Nikolas Sarkozy lançou a União Mediterrânea, com o objetivo de estreitar os laços dos países europeus com o Oriente Médio e o Norte da África de maneira a contribuir para a paz, a civilização, a democracia e a prosperidade para todos. Mentira deslavada! No dia 9 de fevereiro o Le Canard Enchainé deu um furo de reportagem, revelando que o primeiro-ministro François Fillon havia passado o fim de ano com a família no Egito, com tudo pago pelo governo egípcio (leia-se o finado Mubarak), incluindo hotel, passeio de barco pelo Nilo e vôo para conhecer o país. Tal notícia veio à tona logo depois que os franceses ficaram sabendo que a Ministra das Relações Exteriores, Michèle Alliot-Marie, que passava férias na Tunísia quando a Revolução de Jasmim eclodiu, teve direito em lá estando a um jato particular pago por um “homme d’affaires” bem relacionado. Talvez tenha sido em troca do jatinho que Dona Michèle tenha oferecido as forças de segurança francesas para dar uma ajudinha ao regime tunisiano que estava balança mas não cai. O fato é que até o papa da esquerda francesa, François Miterrrand, costumava ser hóspede do Hosni Mubarak. Moral da história: a França não quer que o Oriente Médio e a África se desenvolvam de verdade, levando o povo a usufruir de um novo padrão de vida. Ela simplesmente quer nutrir governantes venais com os quais seus políticos, também igualmente venais, possam fazer bons negócios com armas, petróleo, e aviões Rafalle, bien sur. A União Mediterrânea na prática não passa da Máfia Mediterrânea, mafiosos ajudando mafiosos para todos lucrarem às custas do povo.

            O primeiro ministro da Itália, Sílvio Berlusconi, é um ferrenho crítico da imigração à Europa e um dos partidos que o apóiam no parlamento é a Liga do Norte, liderada por Umberto Bossi que quer a separação do Norte da Itália por considerar que o Sul da Itália, pobre e corrupto, é um parasita da parte rica e desenvolvida. Mas a postura firme de Berlusconi contra a imigração é pura fachada, pois ele adora a companhia de moçoilas terceiro-mundistas que estejam dispostas a fazer o bunga-bunga (versão italiana do trenzinho do funk carioca) em sua casa perto de Milão. Sua última conquista de que se tem notícia foi Karima el-Mahroug, uma marroquina  de 18 anos a quem o ex-vendedor de aspirador de pó livrou da prisão a que a pobrezinha tinha sido relegada acusada de roubo. Ou seja: os imigrantes são sujos, safados e ignorantes, mas se souberem rebolar e prestarem favores sexuais, serão bem vindos pelos europeus carentes.

            Por fim, um exemplo local. O ministro Guido Mantega disse que um salário mínimo maior do que aquele desejado pelo governo causará inflação. Mentira deslavada! A inflação está aí, a olhos vistos, fruto em primeiro lugar da alta internacional no preço dos alimentos que vem se desenrolando desde 2007. E o que o governo tem feito para garantir nossa segurança alimentar? A China vem comprando terras no Brasil para garantir seus suprimentos de comida e nós estamos cada vez mais ansiosos em plantar soja para exportação. Será que o bolsa-família por si só resolverá o problema da fome no Brasil se não houver o que comprar? Outro fator causador da inflação que volta a ameaçar é o descalabro das contas públicas, que faz do governo um sorvedouro dos poucos recursos disponíveis, inibe investimentos na indústria e nos faz incapazes de produzir o suficiente para atender a demanda aquecida. Pare de tentar encontrar bodes expiatórios Seu Ministro! O senhor não quer aumentar o salário mínimo porque seus patrões os banqueiros e especuladores não podem deixar de receber os sacrossantos pagamentos do baú da felicidade que é o Erário brasileiro, é uma questão de prioridades que nada tem a ver com ser estadista e não populista como querem nos fazer crer.

            Expus aqui algumas historinhas que nos contam por aí para nos amolecer e amordaçar. É preciso estarmos atentos e fortes. Como disse Thomas Jefferson, o terceiro presidente americano: If once [the people] become inattentive to the public affairs, you and I, and Congress and Assemblies, Judges and Governors, shall all become wolves. It seems to be the law of our general nature, in spite of individual exceptions. Não nos deixemos transformar em cordeirinhos!

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