Vai fundo no fundo

            Vai fundo, vai fundo, irmão, vai fundo no fundo monetário internacional, que já

estourou o prazo

e os corredores vão mandar pro pau

As palavras acima são parte da letra da música “Vai Fundo” do finado Grupo Joelho de Porco. Elas ficaram na minha cabeça desde a época em que a palavra FMI era parte cotidiana da vida de todos os brasileiros, da época em que víamos o Cid Moreira anunciar no Jornal Nacional que o “Ministro do Planejamento, Delfim Netto, juntamente com o Ministro da Fazenda, Ernane Galveas, embarcaram ontem para Nova Iorque – ou será que era para Washington? para negociarem um novo empréstimo-jumbo – ou será empréstimo-ponte?” E lá aparecia a imagem dos dois tecnocratas brasileiros com suas devidas pastinhas de papéis de trabalho, indo de pires na mão pedir mais dinheiro para pagar os juros que já haviam vencido.

            Não era nunca para pagar o principal, a propósito será que algum dia nós, enquanto nação, conseguimos pagar o principal de alguma dívida? Será que chegamos a pagar à Inglaterra o dinheiro que tomamos emprestado para indenizar Portugal pelos prejuízos da nossa declaração de independência (aliás, feita por um legítimo português)? Talvez seja natural mesmo não pagar.  O objetivo dos banqueiros é fazer com que nós sempre fiquemos amarrados a algum tipo de corda e a tarefa deles é ir liberando aos poucos. Quanto mais corda eles nos dão, mais fácil é o auto-enforcamento: basta pendurar, dar o nó e pronto, lá se tem uma asfixia mecânica.

            A cianose e o livor cadavérico da asfixia foram bem conhecidas do povo brasileiro que nos anos 80 e metade dos anos 90 se viu mergulhado em um período negro de estagflação, isto é, crescimento econômico pífio ou nulo e inflação estratosférica. Isso significou desemprego, arrocho salarial, explosão na criminalidade, esgarçamento do tecido social (já roto de 500 anos). Mas sob a batuta brilhante dos nossos economistas, os imensos sacrifícios impostos à população, as vidas perdidas, os futuros comprometidos, tudo isso acabou valendo a pena. Descemos ao inferno e o sistema financeiro internacional, reconhecendo nossos esforços, nos vendo exangues e apoquentados em meio aos círculos de fogo, nos ofereceu uma via de escape, um elevador que subiria rapidamente das profundas de Hades até o mundo normal: o Consenso de Washington. Sob a condição de que vendêssemos as empresas que haviam sido a muito custo construídas com os petrodólares, e assim acumulássemos reservas internacionais mediante a compra de títulos do Tesouro Americano, poderíamos conseguir o beneplácito da banca para renegociarmos nossos papagaios, pagá-los em condições melhores e assim aliviar um pouco a tensão da corda.

             E assim foi feito. E de fato ficamos bem aliviados. As reservas permitiram lançar uma moeda nova, o real, de valor mais estável. A inflação controlada deu a chance aos pobres de terem acesso a bens básicos de consumo, e ao crédito. O boom das commodities nos permitiu fazer caixa para comprar mais títulos do Tesouro Americano, acumular mais reservas, ganhar mais a confiança dos investidores internacionais, tomar mais dinheiro emprestado. E o resultado é este: nossa dívida pública é hoje de R$1,734 trilhão. A razão dívida líquida do setor público total – PIB estava em 36,5% em julho de 1998 chegou a 57% em setembro de 2002 e em setembro de 2009 estava em 43,5%. Ou seja, continuamos incapazes de controlar nosso endividamento de maneira consistente, ora melhorando, ora piorando, mas o importante é que gozamos da confiança dos banqueiros que estão sempre lá para nos dar mais corda. Eles sabem que se a coisa degringolar e tivermos um novo problema de liquidez, estaremos dispostos a seguir a receita da cartilha imposta a todas as marionetes do sistema global. Pires na mão às porta do FMI e depois venda dos ativos nacionais.

            Isso tudo me vem à cabeça vendo o desenrolar do que ocorre na Europa. A Grécia está sacudida por protestos freqüentes na Praça Sintagma, os membros do governo não se entendem. Uns achando que a rendição ao FMI é necessária, outros que o melhor é sair do Euro e declarar o calote. A Grécia deve 22,7 bilhões aos banqueiros alemães, 15 bilhões aos banqueiros franceses e 190 bilhões ao Banco Central Europeu. O plano é o mesmo que nos foi sugerido na década de 90: venda dos ativos do país, no caso terras e portos públicos, empresas de saneamento e tratamento de água, empresa de telefonia e locais turísticos no valor total de 50 bilhões. O objetivo claro não é o de investir em infraestrutura nova, é apenas o de se apropriar do que já está instalado e auferir lucros.

            Diga-se de passagem, o que o FMI quer impor à Grécia ocorreu aqui no Brasil. Em São Paulo privatizações foram feitas da distribuidora de energia, a Eletropaulo, da distribuidora de gás, Comgás, das rodovias estaduais, tudo já construído. Nada foi feito de novo, nenhuma usina hidrelétrica, usina termoelétrica, nenhuma rodovia nova. Apenas concedeu-se aos compradores o direito de explorar algo que já estava lá, construído com dinheiro público. As privatizações serviram para fazer caixa momentaneamente, mas não tinham nenhum objetivo de longo prazo de permitir investimentos produtivos tão necessários em infra-estrutura. E o que está sendo feito de novo em termos de metrô e rodovias é com empréstimo do BNDES às empresas privadas que pagarão juros camaradas e cobrarão tarifas escorchantes.

            Talvez não haja motivos para acreditarmos que dessa vez haverá uma mudança no script. Portugal acaba de eleger um primeiro-ministro de direita que promete privatizar serviços públicos e fazer o milagre de pagar os banqueiros e ao mesmo tempo fazer o país crescer. A Irlanda se comprometeu a pagar tudo direitinho. A pequena Islândia em referendo realizado em janeiro deste ano disse não ao acordo realizado com banqueiros ingleses e holandeses e estes se verão obrigados a reconhecer perdas, mas a batalha não está ganha, porque há o recurso aos tribunais, as ameaças de não aceitar a Islândia na União Européia. É de esperar que os europeus tenham mais capacidade de resistência do que nós brasileiros,que cumprimos nosso papel na tragicomédia “Vai Fundo no Fundo” e continuamos aqui patinando em crescimento mediano, com a corda no pescoço em dívidas, risco de desastre ao menor desassossego no cenário internacional. Porquinhos europeus, não se envergonhem de sua condição de suínos e grunham bastante! Talvez isso assuste as hienas da globalização e elas vão cheirar outra carniça.

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Vincere

            Em cartaz está um filme de um cineasta italiano, Marco Bellochio, chamado Vincere, que retrata um episódio pouco conhecido da vida de Benito Mussollini, seu caso amoroso com Ida Dasler com quem teve um filho. Ao começar sua ascensão ao poder ele se livra dos dois colocando Ida num manicômio e o filho num internato sob vigilância para não prejudicar sua carreira.

            Não vou me deter aqui sobre aspectos cinematográficos, porque não tenho conhecimento suficiente para tal. Ressaltarei apenas a intenção do diretor de traçar paralelos com a Itália atual: Mussollini cuidava de sua persona como Berlusconi faz atualmente, cuidava tão bem que permaneceu por mais de 20 anos no poder de 1922-1943. Ambos passavam a imagem de homens resolutos, bem-sucedidos, eficientes e fazem extenso uso dos recursos midiáticos para tal: Mussolini mandava registrar em filme tudo o que acontecia de importante no regime: manifestações em massa de apoio, discursos do Duce, etc. Berlusconi controla os principais canais de TV da Itália.

            Por outro lado, há um aspecto que é diametralmente oposto em relação aos dois, relacionado ao tema que o filme aborda, a vida privada do líder. Reconhecer seu filho com Ida Dasler seria manchar sua reputação de exemplar pater famílias, de homem casado com filhos, o que seria impensável em uma época em que o fascismo pregava o papel da dona de casa no lar como cuidadora dos filhos e do homem como provedor. Ora, vê-se que Berlusconi tem a intenção diametralmente oposta, que é a de escancarar seu papel de homem “pegador”, “courreur de jupes”.

            Seus bacanais em sua “villa” são amplamente noticiados, as jovens mulheres com quem ele sai vira e mexe dão entrevistas explosivas revelando detalhes das habilidades sexuais do “Cavaglieri”. Berlusconi, além disso, mostra um total desprezo pelo casamento, ao contrário de Mussolini, que insistia em preservar a fachada hipócrita de marido fiel.Em sua rumorosa separação de Verônica Lario, a ex-modelo escreveu uma carta aberta dizendo que não podia continuar casada com um homem que se deitava com menores porque isso diminui a dignidade das mulheres e ela tinha que dar o exemplo às filhas. Berlusconi, longe de aparecer contrito, mostrou durante todo o episódio o sorriso matreiro de vendedor de aspirador de pó que ele era no começo de sua carreira.

            Fica claro que quando um político não se preocupa em preservar uma certa imagem de pai, marido, é porque não há mais necessidade disso para conquistar eleitores. Pelo contrário, a fama de garanhão conquistada por esse escancaramento de sua vida privada reflete seu sucesso como empresário, o que só aumenta sua popularidade aos olhos de eleitores cujo horizonte moral é se dar bem, conquistar dinheiro, porque com dinheiro vêm o poder e as mulheres. Chegamos a um estágio de nossa civilização em que a hipocrisia não é mais cultivada como tributo à civilização e esta se vê reduzida aos elementos objetivamente verificáveis, como quantidade de dinheiro em conta corrente, de carros, de mulheres ou homens “pegados”. Esperamos dos nossos “líderes” não serem nossos orientadores morais, mas simplesmente exemplos de sucesso para imitarmos, tirados de lições baratas de auto-ajuda sobre como se dar bem.

            O tempore, o mores!

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O Jardim do Éden

            A Ana Maria Ribeiro em sua coluna na semana passada comentava a respeito de certas pessoas que estragam o prazer de outras, que não conseguem achar beleza em nada. Pois eu acho que deveria ser tarefa cotidiana nossa achar beleza em tudo, procurar se rodear de coisas belas. Isso ajudaria mais as pessoas do que os remédios de tarja preta que os médicos nos receitam para tratarem nossas depressões, neuroses, hiperatividades, síndromes do pânico e coisas e tais.

            Fui atrás deste Santo Graal no fim de semana passado na companhia de uma amiga. O destino foi o Rio de Janeiro. Talvez neste momento seja um local pouco propício ao deleite espiritual, em vista da tragédia que se abateu sobre a região serrana, o que às pessoas de bem só pode encher de angústia ante a incompetência e desfaçatez daqueles que elegemos para nos governar. De qualquer forma dirigimo-nos à capital, mais especificamente à Estrada da Barra de Guaratiba, onde está localizado o sítio do nosso grande paisagista Roberto Burle Marx, que ele legou ao governo para que o transformasse em local de visitação pública. E assim foi feito, basta ligar e agendar seu lugar em um dos grupos que são guiados por uma bióloga em um passeio que dura em torno de uma hora e meia.

            Fomos ao Rio de ônibus, e no aeroporto Santos Dumont alugamos um carro. Apesar de termos conseguido o percurso exato no Google não foi lá muito fácil chegarmos ao nosso destino. Na Rua Humaitá tínhamos que pegar uma saída para o Jardim Botânico e erramos quatro vezes até conseguirmos virar na esquerda correta. Nos entrementes uma mulher entrou na nossa frente e minha amiga bateu em seu carro, que estranhamente seguiu em frente e nem sequer parou. Talvez a motorista estivesse com a carteira vencida, talvez tenha achado que seu carro não havia sido muito avariado. Um pouco assustadas seguimos em frente até chegar à Barra da Tijuca, onde nos confundimos sobre se de fato estávamos ou não na Avenida das Américas. Os leitores do Montblatt, a maioria cariocas, estarão com certeza rindo das nossas agruras, ora que obviedade encontrar a Avenida das Américas, mas há muitas pistas e achamos a sinalização deficiente. Bem, depois de 2 horas chegamos ao número 2019 da estrada, felizes por termos encontrado o local a tempo e principalmente porque o sol abriu justamente quando começamos nossa visita guiada.

            Era realmente o Jardim do Éden. Aquele sítio havia sido uma plantação de bananeiras e Burle Marx ao comprá-lo substituiu as árvores frutíferas por plantas ornamentais vindas de todos os lugares do mundo, 3.500 espécies foram plantadas ali: eucalipto da Nova Guiné cujo caule tem as cores do arco íris, palmeiras das Filipinas com enormes folhas que mais pareciam leques, samambaias gigantes da Austrália que se arrastavam pelo chão. Burle Marx foi compondo aqui e ali jardins que mais parecem pinturas, misturando diferentes cores e texturas, olhar tudo aquilo dá uma infinita paz de espírito, dá vontade de nos jogarmos nos braços daquela infinidade de plantas e sentir seus cheiros, seu toque macio, aveludado ou arrepiante, a depender dos formatos. Há vários lagos, com diferentes vitórias régias, e vistos de cima quando percorremos o caminho de pedras preciosamente colocadas nos convidam a um mergulho em meio ao silêncio do sol brilhando. É uma pena que os visitantes não possam permanecer nos lugares a seu bel-prazer, é preciso seguir o guia sempre. É sempre assim, os justos pagam pelos pecadores, é preciso ter regras estritas para evitar a ação dos vândalos.

            Mas não foi só a natureza pintada por Burle Marx que encontramos lá, também pudemos visitar sua casa, a capela adjacente e passar em frente ao prédio que ele estava construindo para servir de local de cursos. Burle Marx tinha interesses de homem da Renascença,  colecionava arte popular, arte religiosa, objetos em cristal, carrancas do São Francisco. Usava materiais de demolição para construir fontes, arcos, falava sete línguas, reunia os amigos para comer e beber, ele que era excelente cozinheiro. Não admira que tenha durado tanto tempo, 85 anos, afinal estava sempre com a mente ocupada, unindo corpo e espírito.

            Burle Marx criou uma escola tropical de paisagismo, utilizando plantas nativas que permanecem verdes o ano todo, abandonando a idéia de jardins moldados nas plantas de países temperados que só ficam belas em certa época do ano. E pasmem, ele só foi descobrir a flora tropical quando estava em Berlim, abrindo a partir de então uma trilha que colocou sua arte no mapa internacional. Na ida ao seu sítio, passando em frente àquela famigerada Estátua da Liberdade em frente a um shopping center na Barra da Tijuca, não pude deixar de lamentar como nós brasileiros insistimos em sermos copiadores ao invés de inventores. Que as visitas ao sítio do Burle Marx nos inspirem a prestarmos mais atenção às nossas especificidades e cultivá-las sem cairmos no triunfalismo ingênuo de um Policarpo Quaresma. Neste vale de lágrimas em que estamos em termos de indigência moral, intelectual e espiritual, é reconfortante vermos que houve na história brasileiros que pensaram o Brasil, propuseram uma visão do nosso país. Viva a Pecadópolis de Burle Marx – assim ele chamava seu sítio – que longe de ser lugar de perdição e miséria na verdade nos introduz a uma beleza que nos anima a seguir adiante.

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Maledicencias

            Nestas minhas férias escolares aproveitei para fazer leituras prazerosas, que me permitissem desanuviar o espírito. Um dos livros que li foi uma história detetivesca chamada “The Daughter of Time” de uma escritora inglesa chamada Josephine Tey. The Daughter of Time no caso é a verdade, a verdade que invariavelmente só vem à tona depois de muitos anos de calúnias e difamações. Um policial da Scotland Yard quebra a perna e é obrigado a ficar semanas enfurnado em um hospital contando carneirinhos. Uma amiga tenta distraí-lo trazendo figuras de personagens históricos sobre os quase há algum mistério. Lucrécia Bórgia foi vítima ou cúmplice do seu irmão, César Bórgia? O que de fato aconteceu com Luís XVII, filho de Luís XVI? De repente Grant, o detetive, se depara com a figura intrigante de Ricardo III rei da Inglaterra por um curto período de tempo (1483-1485). Ricardo III ficou eternizado nas peças de Shakespeare como o corcunda que usurpou o trono dos dois sobrinhos a quem encarcerou e mandou matar na Torre de Londres. Suas famosas palavras na peça – “Meu reino por um cavalo” – foram pronunciadas em meio à Batalha de Bosworth em que foi vencido e morto.

            Pois bem, Grant ao ver o retrato de Ricardo, não consegue imaginá-lo como o crápula sanguinário pintado nos livros de história e começa uma investigação da sua cama, pedindo a amigos que tragam livros que contém a história do período. Com a ajuda de um jovem pesquisador que vasculha as informações no British Museum, Grant vai descobrindo furos na história contada ao longo dos séculos e chega à conclusão de que quando Ricardo foi morto e Henrique Tudor subiu ao trono com o nome de Henrique VII, os príncipes da Torre, como eram chamados os filhos de Eduardo IV, irmão de Ricardo, estavam vivos e quem provavelmente mandou matar as crianças foi Henrique, a quem não interessava ter por perto pretendentes mais legítimos à coroa. Henrique VII eliminou não só os irmãos de sua esposa, Elizabeth, como todos os outros pretendentes da dinastia anterior, dos Plantageneta, mas o fez de maneira sutil, sorrateira, sem que ninguém percebesse, seja fazendo seus inimigos desaparecer, como os meninos, seja mandando as pessoas inconvenientes para longe: a mãe dos meninos foi encerrada em um convento, Tyrrel, o homem  que de fato matou os meninos, recebeu uma sinecura na França para nunca mais voltar.  Ricardo, rei morto, rei posto, levou a má fama na história contada pelos Tudors e seus asseclas. Hoje em dia há até uma sociedade na Inglaterra cuja missão é a de restaurar a reputação do rei vilipendiado que na verdade foi um bom administrador, um excelente soldado e cuja fraqueza foi não ter se preparado suficientemente para lidar com as víboras traiçoeiras que lhe rodeavam.

            Independentemente da verdade ou não dessa versão dos acontecimentos dada pela autora do livro (cuja visão mais benigna de Ricardo tem sido corroborada por historiadores modernos), ela aborda um ponto interessante. Quantas vezes tomamos certos fatos como verdadeiros e a partir deles tiramos conclusões que só se sustentam porque partimos do pressuposto de que tais fatos realmente existem? Ou pior, quantas vezes nega-se a nós pobres mortais acesso a certos fatos cruciais que, se conhecidos, nos levariam por caminhos surpreendentes e até perigosos para aqueles que têm interesse que tudo permaneça na escuridão?Uma pequena informação como a de que os meninos estavam vivos à época da morte de Ricardo nos leva a ter uma outra opinião sobre o caráter do rei e do seu sucessor, fazendo com que a lógica da narrativa vire de cabeça para baixo.

            Toda essa minha história pode parecer abstrata, mas em nosso mundo global em que teoricamente temos acesso a todo tipo de informação, muitas vezes pequenos fatos nos escapam, não são suficientemente realçados ou são simplesmente varridos para debaixo do tapete. Se à época dos ataques do Japão a Pearl Harbor os americanos tivessem sido informados de que a Marinha americana não foi pega de surpresa e que na verdade sabia da iminente ação militar japonesa será que a entrada dos Estados Unidos na guerra teria sido possível? Será que a atitude do governo americano de alegar que o país fora traiçoeiramente atacado não era mais um elemento deliberadamente adicionado para transmitir a idéia de que o Japão era o agressor, o imperialista, enquanto que os Estados Unidos estavam simplesmente se defendendo? E quanto à Guerra no Iraque em 2003? Qual foi seu fundamento se não um pequeno fato amplamente divulgado por Bush, Blair e seus “amigos” de que Saddam Hussein escondia armas de destruição em massa? Sem tal indicação da índole belicosa do ditador iraquiano os Estados Unidos nunca poderiam ter apresentado ao mundo o conceito de guerra preventiva, da guerra para evitar futura agressão. Agora está em plena gestação uma outra guerra, que talvez nos traga o juízo final dadas as implicações que poderá ter. O Irã é a bola da vez, porque ousa ter um programa de produção de energia atômica, contrariando os desejos de Israel e Estados Unidos, os únicos países que têm direito de invadir, destruir e barbarizar em nome da luta contra o terrorismo. Pois bem, na semana passada um pequeno grande acontecimento se passou sem que tenha havido muita cobertura da imprensa. Em 11 de janeiro, Mostafa Ahmadi Roshan, diretor da usina de enriquecimento de urânio de Natanz, foi assassinado. Terá sido um ato para provocar uma reação do governo de Mahmoud Ahmadinejad e assim justificar a agressão ao país que faz parte do eixo do mal?

            A Rússia, por intermédio do seu Vice-Primeiro Ministro para Assuntos Militares, Demitry Rogozin, declarou que um ataque ao Irã é uma “ameaça direta à nossa segurança”. Mas o que importa a opinião da Rússia não é mesmo? Afinal, ela pertence ao mesmo eixo de países não democráticos, ovelhas negras. Os “fatos” mostram isso: nas últimas eleições legislativas houve fraude e Putin se mantém no poder despoticamente ignorando os protestos de “milhares de pessoas”. Mas e se pequenos detalhes dessa narrativa fossem mudados de modo a tirar-lhe a coerência? Será que as eleições na Rússia são mais fraudadas do que nos Estados Unidos? Por acaso os ianques são exemplo de lisura na contagem de votos? Nas primárias republicanas de Iowa, Ron Paul um dos candidatos, considerado esquisito porque prega o fim da política imperialista americana e do apoio incondicional a Israel, denunciou que o procedimento de contagem não foi bem feito para que ele não ganhasse (http://www.infowars.com/ron-pauls-iowa-finish-biggest-fraud-since-kennedy-stole-the-west-virginia-primary/). E se fossem verdadeiras as alegações de que Alexei Navalny e Sergei Uldatsov, dois dos mais proeminentes organizadores dos protestos, têm ligações com a CIA, como pessoas de respeito têm alegado (www.paulcraigroberts.org)? Será que não veríamos as acusações contra Putin como uma tentativa de desacreditar aqueles que mais criticam a política externa americana, que tanto desequilíbrio traz à cena mundial?

            No frigir dos ovos sempre contamos uma história com um propósito e este propósito é mais bem servido se os fatos se encaixam de forma  a levarem logicamente à conclusão a que queremos que nosso interlocutor chegue. Ricardo III foi o vilão no século XV, Saddam Hussein, Mahmoud Ahmadinejad, Vladimir Putin o são no século XXI. Será que por trás de todas as maledicências e fofocas contadas a respeito dos ditadores atuais não existe um Henry Tudor traiçoeiro, ardiloso que sutilmente manipula todo mundo para ficar com a coroa?

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Bons votos

            Nas próximas duas semanas estarei fora do Brasil, viajando na Europa, afinal nossa fulgurante ascensão ao primeiro mundo, pelo menos em matéria de preços, faz com que viagens internas fiquem proibitivas em termos de custo-benefício, considerando a espera infinda nos aeroportos, o medo de viajar pelas estradas assassinas pelo Brasil afora, cheias de buracos, remendos e deslizamentos, entre outros inconvenientes. Aluguei um apartamento em Atenas com conexão Wi-fi à internet por 33 dólares por noite, incluindo faxineira, elegantemente chamada de concierge. Espero embeber-me da civilização grega a preços de banana, e claro, sem ter que enfrentar protestos na rua contra o arrocho imposto pela UE nem panelaços ou coisas do tipo. Na volta falarei das minhas impressões, se o país estará com os ânimos exaltados da Alemanha dos anos 20, obrigada a pagar as reparações de guerra a qualquer custo, ou se estará no torpor desanimador em que nós latino americanos ficamos ao longo dos anos 80 em que estivemos lancetados pelo garrote do FMI. Não sei o que é pior, um deu no fascismo, o outro deu em 20 anos de estagflação.

            Seja lá como for, estarei bastante animada e vendo o lado bom de tudo, afinal turismo é uma das válvulas de escape que a nossa sociedade encontrou para a sensaboria e regramento das nossas vidas. O turista gasta o que tem e o que não tem, compra o que precisa e o que não precisa, vê muita coisa ao mesmo tempo que o deixa tonto, para no fim ficar com a sensação de ter realizado algo, de ter cumprido milhas, visitando tantos lugares, tirando tantas fotos, comendo e bebendo tantas coisas exóticas. Se algo vai ficar de tudo isso, além de dívidas, tralhas inúteis socadas em algum canto do armário, é uma incógnita, mas ao menos há motivo de atualização da sua página no facebook, o que é lá uma grande coisa, um acontecimento. Portanto, como já estou desde hoje vestindo a carapuça de turista, quero ver tudo de maneira otimista e risonha, e por isso farei votos para que quando eu voltar ao Brasil algumas coisas tenham tido bom andamento.

            Em primeiro lugar, desejo de todo coração que as autoridades do Rio façam um bom trabalho de rescaldo depois da queda do Edifício Liberdade o que significa viabilizar a real apuração de responsabilidades. Espero que sigam o conselho de Moacyr Duarte, pesquisador da Coppe-UFRJ e especialista em situações de risco, que recomendou que haja uma sincronia entre o trabalho dos bombeiros e dos peritos na remoção do entulho do desabamento para que se saiba com razoável certeza o que causou a fatalidade: “É importante colher elementos da pilha, ter amostras do concreto dos pilares de base para fazer uma análise, ver o que é ferragem de coluna, de laje, para entender as deformações que sofreram. Há todo um registro de dados que não está sendo feito”. Sempre jogamos pedras na justiça, mas esquecemos que um processo judicial necessita der instrução, isto é, o juiz precisa ficar ciente do que de fato ocorreu, como e porquê. Se o trabalho dos peritos e da polícia não apresenta evidências suficientes, como querer que o juiz chegue a uma conclusão sobre quem agiu com imperícia, negligência, imprudência ou dolo? Como atribuir responsabilidades, condenar a indenizações no escuro? O que começa mal, acaba mal, os resultados pífios da justiça brasileira têm início lá atrás, sob certos aspectos a injustiça é apenas a ponta mais visível do iceberg da incompetência ou do Febeapá, como diria o saudoso Stanislaw Ponte Preta.

            Por falar em gerenciamento de riscos e planos de contingências, espero também que havendo a sintonia fina entre todas as autoridades responsáveis pelo post-mortem da tragédia possam tirar lições que sejam absorvidas bem perto do epicentro dos desabamentos, na Avenida República do Chile, 65, sede da Petrobrás. Tivemos notícias alvissareiras na semana passada a respeito da mudança no comando da menina dos olhos dos brasileiros. Em 13 de fevereiro sai José Sérgio Gabrielli Azevedo e entra Maria das Graças Foster, que segundo a mídia tem “perfil mais técnico”. Não entendi muito bem o que isso quer dizer, afinal o Sr. Sérgio tem PhD em Economia pela Universidade de Boston e foi pró-reitor de pesquisa e graduação na Universidade Federal da Bahia. Maria das Graças, atual diretora da Área de Negócios de Gás e Energia, tem mestrado em engenharia de fluidos e pós-graduação em engenharia nuclear na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Um bom currículo, com certeza, mas na hierarquia acadêmica inferior ao do baiano. Talvez a mídia queira dizer que a nova presidente, escolhida a dedo por Dilma, será mais objetiva em suas escolhas e ficará infensa a pressões políticas, como Gabrielli estava, à mercê das traquinagens sinistras do mago das sombras José Dirceu. Será? Seu marido, Colin Foster, tem uma empresa que presta serviços de tecnologia à Petrobrás e coincidentemente a nova toda poderosa tem tatuadas no antebraço esquerdo  três estrelas, já doou R$34,5 mil ao Partido dos Trabalhadores e engajou-se ativamente na campanha de Dilma à presidência, chegando a fazer boca de urna na Zona Sul do Rio.

            Independentemente de quanto a escolha de Dona Dilma foi técnica ou simplesmente uma tentativa de tirar poder do grupo de Dirceu colocando na chefia da nossa mais importante estatal uma pessoa de confiança da presidente, faço votos à esta grande mulher que tenha sucesso na sua empreitada. Sucesso a meu ver significa que diante do desafio do pré-sal dona Maria das Graças faça a ponderação dos riscos e benefícios de explorar petróleo a profundezas tão grandes e saiba responder com serenidade à pergunta: os acidentes que poderão ocorrer, um possível comprometimento da nossa biodiversidade e riqueza marinha, serão compensados pelos lucros que o petróleo nos dará? Estaremos investindo no lucro a curto e médio prazo às expensas do nosso patrimônio de longo prazo ou realmente arrebentaremos a boca do balão como quer fazer crer a propaganda ufanista? Estaremos contribuindo para o desenvolvimento sustentável do Brasil ou simplesmente resolvendo o problema de suprimento de matérias-primas da China, até agora o principal investidor do pré-sal? De repente responder a essa pergunta não caberia a Dona Maria das Graças, mas ao povo brasileiro como um todo, que apesar de não ver a cor do dinheiro da Petrobrás em termos de dividendos, é teoricamente o seu proprietário.

            Bem, depois desses meus votos aos bombeiros e peritos cariocas e à botafoguense alçada a um dos cargos máximos da nação, despeço-me dos meus leitores do Montblatt cheia de alegria no coração e ávida por tornar-me uma turista deslumbrada nas “Oropas”.

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