Basta de intermediários!

Isso viola a essência do que fez a América um grande país em termos do seu sistema político. Agora é somente uma oligarquia, e a propina política sem limites é essencial para ser candidato a presidente e ser eleito presidente. O mesmo aplica-se aos governadores e senadores e deputados do Congresso dos Estados Unidos. Então agora estamos vendo uma completa reviravolta do nosso sistema político como pagamento para grandes doadores de campanha, que querem e esperam e algumas vezes conseguem favores para si mesmos quando a eleição acaba… Os eleitos, democratas e republicanos, veem esses rios de dinheiro como um grande benefício para eles próprios. Alguém que já está no Congresso tem muito mais a vender para um doador ávido do que alguém que é simplesmente um concorrente.

Jimmy Carter, ex-presidente dos Estados Unidos, sobre a decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos de permitir doações ilimitadas de pessoas jurídicas a partidos

“Hillary Clinton, eu disse, esteja no meu casamento, e ela foi ao meu casamento,” disse Trump. “Ela não tinha escolha porque eu dava dinheiro à fundação.” […] “Eu dei a muitas pessoas antes disso. Quando eles ligam para mim eu dou. E vocês sabem de uma coisa? Quando eu preciso de alguma coisa deles dois, três anos depois, eu ligo para eles. Eles estão lá para me ajudar,” Trump acrescentou.

Trecho do debate realizado no dia 6 de agosto entre os candidatos do Partido Republicano a presidente dos Estados Unidos, em que Donald Trump responde ao questionamento sobre seu relacionamento com Hillary Clinton, a provável candidata democrata

    Prezados leitores, há mais ou menos três meses eu lancei a modesta proposta de facilitar o recall de líderes do Executivo federal no Brasil pela instituição do sistema parlamentarista inglês do tipo “the winner takes it all” para evitar essas lambanças a que estamos acostumados a assistir entre o Presidente e o Legislativo. Tenho agora uma segunda proposta a fazer em termos do tipo de pessoa a eleger para cargos majoritários, inspirada no modelo americano, de quem copiamos o famigerado presidencialismo. Pode parecer um contrasenso da minha parte, mas como não tenho a mínima esperança de que os brasileiros aceitem o governo dos deputados e senadores, ao menos posso sonhar que algum dia comecemos a eleger as pessoas certas, evitando os intermediários e atravessadores, que só encarecem o preço das transações políticas. Explico-me.

    Como todos sabem, o maior fenômeno político do momento na terra do Tio Sam é Donald John Trump, apresentador da versão original do Aprendiz, dono de uma fortuna de quatro bilhões de dólares obtida no ramo imobiliário, homem que já faliu quatro vezes, como foi revelado no debate de 6 de agosto, mas que definitivamente teve sucesso na vida. Trump é um fenômeno porque quanto mais declarações politicamente incorretas ele faz mais ele torna-se popular. E talvez essa popularidade diga respeito ao fato de que ele diga muitas verdades.

    Para não ferir as susceptibilidades de ninguém, não me deterei sobre a opinião que ele tem sobre os mexicanos que emigram para os Estados Unidos, ou sobre certas mulheres que o tiraram do sério. Se Trump pode ser acusado de racista e sexista, ao mesmo tempo ele colocou na agenda política o tema delicado do desemprego estrutural nos Estados Unidos causado pela desindustrialização do país que está perdendo a competição com a China, de acordo com o magnata. De fato, a taxa de desemprego lá, em julho de 2015, considerando aqueles que já desistiram de procurar por trabalho porque não tem esperança de encontrá-lo, é de 23%, de acordo com John Williams, que publica seus números em shadowstats.com.

    De qualquer forma, o que enfatizarei aqui, por causa das semelhanças com o Brasil, são suas declarações sobre as contribuições que ele faz para políticos e o que ele espera que esses recipientes de sua generosidade façam em retribuição. Trump colocou de maneira crua e sem rodeios que lá, como aqui, funciona o toma lá dá cá, o é dando que se recebe (lembram-se da mensagem franciscana do finado deputado Roberto Cardoso Alves?). Os que têm muita balha na agulha, como diz minha professora de ginástica, financiam a campanha de políticos que ao se elegerem defendem os interesses daqueles que lhes deram dinheiro para fazer a campanha, não daqueles que neles votaram. Isso cria um conluio de interesses altamente prejudicial à democracia, conforme apontado por Jimmy Carter, porque impede que a voz do povo seja ouvida, já que seus representantes fazem do eleitor um mero objeto de manipulação, de falsas promessas que tão logo cumpre seu dever cívico de votar, é descartado e esquecido.

    Nesse momento coloco muitas perguntas, que passo a relacionar. Se os deputados, senadores, governadores e presidentes servem a elite e a elite somente, para que termos intermediários? Não seria mais econômico elegermos diretamente os donos do dinheiro e do poder? Por que cumprir essa etapa de molhar a mão dos lacaios do poder, seres normalmente de classe média, como Hillary e Bill Clinton ou José Dirceu, além de ex-presidentes brasileiros, que por serem novos-ricos vão com grande sofreguidão ao pote? Seres que criam fundações para dar um verniz de respeitabilidade ao esforço arrecadatório, mas que querem mesmo é dinheiro para continuar elegendo-se ad infinitum? O ex-governador de Arkansas e sua esposa advogada começaram a amealhar fortuna durante o escândalo de Whitewater, umas trambicagens imobiliárias que conseguiram varrer para debaixo do tapete. Será que um biliardário como Donald Trump, que não precisa de dinheiro nenhum, que não precisa provar nada a ninguém porque é um sucesso retumbante, não faria um serviço melhor? Será que não teria o rabo bem menos preso? Ou mesmo que ele só defendesse os interesses do grupo do 1% ao qual pertence, será que tal transparência não faria bem ao resto da população que pertence aos 99%? Será que se finalmente as mácaras caíssem e os tais dos eleitores soubessem que eleger representantes não serve para nada não permitiria que fizéssemos uma “terapia em grupo” e rediscutíssemos a nossa relação democrática?

    Em suma, basta de intermediários, que vendem ilusões sobre democracia, participação, inclusão e nos impedem de enxergar a natureza crua do poder, como ensinou Maquiavel há mais de 500 anos. Torço para que Donald Trump consiga ser nomeado candidato dos Republicanos, embora ache isso bastante improvável, mas de qualquer forma ele prometeu no debate da quinta-feira passada que se não for o escolhido sai como independente. Apesar de ter sido o alvo preferencial da noite, ou talvez por causa disso, Trump continua firme na frente das preferências dos republicanos, com 24%, de acordo com o jornal O Globo. Aliás a força do seu carisma do grande ator que é o apresentador do Aprendiz é demonstrada pelo fato de a audiência do debate ter sido recorde, com 24 milhões de americanos assistindo ao show de Donald Trump.

    Plutocratas brasileiros, sigam o exemplo de Donald Trump e dispensem seus lacaios. Entrem para a política!

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Quem se importa?

Para fazer com que os camarões fiquem maiores e mais pesados, fornecedores inescrupulosos aparentemente estão injetando gelatina industrial para vendê-los em muitas partes da China. Recentemente os camarões com gelatina apareceram novamente em duas cidades, Kun Ming, no noroeste da província chinesa de Yunnan e Wenzhou no leste da China.

Trecho retirado de um artigo publicado em 30 de julho no jornal chinês online People’s Daily intitulado “Camarões com gelatina aparecem nos mercados de peixe da China novamente”

Os atletas nas Olimpíadas de Verão do próximo ano nadarão e remarão em águas tão contaminadas ocm fezes humanas que eles correm o risco de ficarem muito doentes e incapazes de competir no jogos, revela uma investigação da Associated Press. Uma análise feita pela AP da qualidade da água mostrou níveis perigosamente altos de vírus e bactérias derivados do esgoto humano nso locais de realização dos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos – resultados que alarmaram os especialistas internacionais e desapontou os competidores que estão treinando no Rio, alguns dos quais já ficaram doentes com febre, vômito e diarreia

Trecho de um artigo escrito por Brad Brooks e publicaod no site da Associated Press em 30 de julho

A um ano dos Jogos, o Rio de Janeiro está no padrão Londres

Manchete da revista Veja de 5 de agosto sobre o fato de o Rio de Janeiro estar em dia com as obras das Olimpíadas

    Prezados leitores, nesta segunda-feira, o governador do Rio de Janeiro resolveu fazer um mea culpa a respeito da meta irrealista prometida em 2009 de que ao menos 80% do esgoto lançado in natura na Baía de Guanabara seria tratado. Na verdade atualmente em 2015, a exatos 365 dias do início dos Jogos Olímpicos de 2016, somente 50% do esgoto é tratado e continuará assim por algum tempo até que o dinheiro (12 bilhões de reais são necessários), a boa vontade política e o monitoramento das universidades e centros de pesquisa da qualidade da água concretizem-se. Coisa para 2035, se tudo correr conforme agora as autoridades prometem, autoridades essas que na época da candidatura da cidade foram no mínimo levianas ao prometerem algo que sabiam ser difícil cumprir, dadas nossas carências de dinheiro e de capacidade de planejamento e organização.

    Mas quem se importa com isso? A revista Veja desta semana dá a boa notícia de que as obras estão sendo realizadas no ritmo com que foram realizadas para os Jogos Olímpicos de Londres e, 2012. Embarcaremos na onda de otimismo e boa vontade na qual embarcamos em relação à Copa do Mundo, a despeito das evidências de que os estádios depois seriam inúteis, que houve superfaturamento na sobras e que a infraestrutura de transportes não foi entregue como prometido. Quanto à poluição da Baía de Guanabara, da praia de Copacabana e da Lagoa Rodrigo de Freitas, em que as competições aquáticas serão realizadas, talvez tenhamos a sorte de as bactérias e vírus proliferarem-se menos no inverno do que no auge do verão e os gringos conseguirão singrar as águas sujas tomando cuidado para não entrar em contato muito com a água. Tenho certeza que nossas autoridades darão um jeito para dar uma disfarçada, a capacidade de enganar dos poderosos brasileiros é ilimitada.

    Talvez seja ilimitada porque o povo quer ser enganado. De acordo com uma reportagem do jornal O Globo de 2 de agosto, o Rio de Janeiro já importou mais de 10.000 toneladas de peixe da China, principalmente o panga, que “ganhou as alcunhas de peixe-gato e peixe-lixo por ter sido, historicamente, cultivado no delta do rio Mekong, um dois mais poluídos do mundo.” As nossas competentíssimas autoridades, desta vez do Ministério da Pesca e Aquicultura realizaram duas missões para verificar as condições sanitárias dos criadores em 2009 e 2014 e acabaram conseguindo uma adequação das práticas chinesas às exigências para a exportação para o Brasil. Considerando os seguidos escândalos que irrompem na China a respeito de alimentos adulterados, incluindo o leite dado às pobres crianças, desconfio muito da possibilidade de certificação séria da qualidade desses produtos com base em duas meras visitas. O mais recente caso de trambicagem alimentar é o do camarão conforme descrito no início deste artigo.

    Minha falta de fé na fiscalização do Ministério da Pesca e Aquicultura tem fundamento em uma pequena história. Uma amiga minha, que até junho era professora de uma grande universidade privada em São Paulo, conta como as exigências do MEC a respeito da necessidade de biblioteca eram cumpridas por meio do aluguel do espaço de outras instituições e fingindo que era espaço próprio até que as autoridades educacionais vistoriassem a universidade. Se servidores públicos são facilmente enganáveis estando em seu próprio ambiente e questionando os fiscalizados em bom e inteligível português, que dirá quando estão em um país como a China de cultura totalmente diversa da nossa, em que a população fala uma língua absolutamente incompreensível? Mas talvez eu seja uma tremenda rabugenta e o Ministério da Pesca e Aquicultura, criado em 2009, esteja muito mais bem estruturado do que o Ministério da Educação e Cultura, criado em 1930.

    De qualquer forma quem se importa? Comer peixe intoxicado com metais pesados se não matar vai engordar,o importante é que é barato e os médicos nos dizem que carne de peixe é saudabilíssima, estão aí os longevos japoneses comedores de sushi que não nos deixam mentir (detalhe: os japoneses comem só atum pescado na Espanha em alto-mar)? Passar um pouco de vergonha nos Jogos Olímpicos quando os velejadores, canoístas e outros reclamarem das garrafas pet será um nada em comparação com a festa e a alegria dos brasileiros, para quem a esperança parece sempre triunfar sobre a realidade.

    Nossos políticos mentem para nós descaradamente, descrevendo um país dos sonhos do marqueteiro, prometendo coisas que sabem que não vão cumprir, e mais importante, que sabem que vamos esquecer. Democracia, para ser eficaz, exige vigilância constante e nós brasileiros somos muito fracos nesse quesito, não por falha genética, mas porque não temos tradição cultural de formação de associações para tratar de algum assunto de interesse de todos. Preferimos passar a bola (ou a batata quente) para um representante, uma autoridade em quem escolhemos confiar às vezes cegamente. Quando este ser, uma vez no poder, passa a tratar dos seus próprios interesses mesquinhos, ficamos bravos e partimos para o extremo oposto de considerá-lo o mais execrável dos seres. É o que estamos fazendo com Lula e Dilma agora, batendo nessas criaturas impiedosamente. Mas quem se importa? Daqui a algum tempo a dupla petista será carta fora do baralho e confiaremos em outro ou outra e novamente daremos com os burros n’água. De desimportância em desimportância vamos construindo nossa rica experiência democrática.

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Quem se responsabiliza?

A inteligência artificial chegou a um ponto em que o emprego de tais sistemas será, materialmente se não legalmente, factível daqui a alguns anos, e não décadas, e o que está em jogo é importante: as armas autônomas foram descritas como a terceira revolução das técnicas bélicas, depois da pólvora e das armas nucleares

Carta aberta publicada em 27 de julho na Conferência Internacional sobre Inteligência Artificial que está sendo realizada em Buenos Aires de 25 a 31 de julho

    Prezados leitores, o ponto de inflexão parece ter chegado: os robôs tornaram-se capazes de pensar por si próprios! Não descerei a detalhes maçantes, mesmo porque tecnologia não é o meu forte, mas o fato é que inventaram um tal de deep learning baseado em conexões neurais, quepermitem aos robôs serem muito mais do que aquilo que os engenheiros programam, permitem que eles aprendam sozinhos, sem a ajuda de ninguém, só com a aajuda dos cálculos em que são muito mais rápidos e eficientes do que qualquer ser humano.

    A preocupação externada pelos signatários da carta, entre os quais o co-fundador da Apple, Steve Wozniak, o linguista americano Noam Chomsky e o astrofísico britânico Stephen Hawking, é que um robô que consiga reconhecer imagens e vozes possa transformar-se em arma de guerra capaz de selecionar e combater os alvos militares sem a intervenção humana, evitando a morte de soldados que teriam que ser mandados a campo. Tal capacidade letal cxoloca um dilema moral inédito para nós os inventores dessas máquinas: quem assumirá a responsabilidade pelas decisões tomadas pelas armas autônomas? De fato, usar esse termo não é exagero considerando que os robôs optarão por um modo de ação com base naquilo que conseguiram aprender pela análise dos dados proporcionada pelas tais das conexões neurais. Assim, nada mais natural do que perguntar: quando os robôs matarem a quem será imputada a culpa? Aos seus fabricantes? Aos seus utilizadores? Ou a ninguém, já que o agente é inimputável, porque não pode ser classificado como ser humano?

    Infelizmente, o problema do “quem se responsabiliza”não é algo novo, trazido pelos avanços da inteligência artificial, ele está cada vez mais posto na nossa sociedade sem que haja uma resposta clara, para infelicidade de todos. Vou dar-lhes alguns exemplos. Outro dia, conversando com uma amiga que é professora em uma escola de elite de São Paulo, contava-me spbre a celeuma causada por uma atividade desenvolvida pelos professores, que consistiu em organziar uma exposição com fotos dos alunos, que tinham a liberdade de esclher o tema e assim dar vazão a sua criatividade. Pois bem, muitos dos adolescentes tiraram fotos digamos despudoradas, em que as meninas mostravam seu sutiã, e claro as obras de arte foram publicadas na internet, o que causou um escândalo. A escola achou por bem convocar uma reunião para prestar esclarecimentos aos pais que caíram matando, como se a culpa toda fosse do colégio que incentivou prtáticas libertinas. Ora, de quem é a responsabilidade de ensinar boas maneiras aos adolescentes? Ao que consta, a tarefa de ensinar o que é certo e o que é errado, o que decoroso e o que é indecoroso é tarefa dos pais, que num mundo ideal, onde as famílias exercessem um papel importante,

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Apocalipse quando?

A revolução do fraqueamento não somente ajudou a estimular uma queda impressionante nos preços globais da gasolina, mas está diminuindo a influência da OPEP sobre os Estados Unidos e e o déficit comercial do país. Em novembro, os Estados Unidos importaram o menor número de barris de petróleo desde fevereiro de 2004, declarou o Gabinete de Análises Econômicas de Washington na quarta-feira. E as importações de países membros da OPEP caíram ao nível mais baixo desde 2009.

Notícia publicada no site de notícias Market Watch em 7 de janeiro de 2015

“Caso a Bolívia explore seus 1,5 trilhões de metros cúbicos de gás de xisto, 242 bilhões de litros de água serão contaminados para sempre e 2,6 bilhões de toneladas de gás carbônico serão emitidas, contribuindo para as mudanças climáticas”, afirma a Declaração contra o Fraqueamento na Bolívia.

Trecho do artigo “A Bolívia vai fraquear a Mãe Terra” publicado no jornal britânico The Guardian em 24 de fevereiro de 2015 sobre os planos do governo de Evo Morales de exploração do gás de xisto para incentivar a industrialização do país

    Prezados leitores, nunca fui uma ambientalista de primeira viagem e sempre achei que comportar-se de maneira ecologicamente correta é apenas uma maneira de a pessoa dar-se ares de superioridade moral. Porque no final das contas, comprar vegetais orgânicos, artigos feitos com material reciclável e não comer carne não vão diminuir o nível de consumo de recursos naturais, apenas criam um nicho específico de mercado que satisfaz as necessidades de um grupo de pessoas que querem usufruir dos mesmos confortos dos não ecológicos, mas de uma maneira que lhes apazigue a consciência. Neste quesito de meio ambiente, sigo o preceito católico de considerar todos pecadores, inclusive eu, que acho um horror ver pessoas viajando para os Estados Unidos com o único objetivo de comprar coisas baratas.

    Por outro lado, não há como negar que por mais que os ambientalistas sejam muitas vezes uns eco-chatos, seria estúpido negar que nossa interferência na Pachamama está ficando cada vez mais visível, levando-nos a nos perguntar se já não passamos dos limites do tolerável por nossa mamãe terra. O caso do fraqueamento hidráulico é emblemático nesse sentido, porque está ocorrendo em um país de Primeiro Mundo, os Estados Unidos, em que teoricamente todas as partes envolvidas têm voz nas discussões sobre o que fazer.

    Para quem não sabe, o fraqueamento hidráulico é uma técnica que consiste na extração de gás de rochas porosas por meio da injeção de água misturada a produtos químicos. A indústria do fraqueamento permitiu ao Estado de Dakota do Norte registrar a menor taxa de desemprego dos Estados Unidos, um supéravit orçamentário de um bilhão de dólares e um PIB per capita 29% maior do que a média nacional, desde 2006. Mas há um lado negro neste quadro de pleno emprego e crescimento econômico, representado pelos efeitos ambientais da extração de gás por meio do fraqueamento. Esses efeitos estão sendo sentidos pelos pobres moradores da zona rural dos Estados americanos como Utah, Colorado, Wyoming e Pensilvânia, além claro de Dakota do Norte, que convivem com um barulho ensurdecedor e ininterrupto dos equipamentos utilizados pelas empresas de energia, com a liberação de gás metano que escapa pela torneira da cozinha, e principalmente pela contaminação dos lençóis freáticos tornando a água retirada de poços não potável. A luta desse moradores que viviam idilicamente no campo até terem sua paz perturbada pelos “fraqueiros” é particularmente difícil e até mesmo inglória, considerando que nos Estados Unidos o subsolo é propriedade privada, do dono do terreno e não propriedade pública, como ocorre no Brasil, por exemplo. Assim, a exploração torna-se mais ou menos uma corrida do ouro que não precisa ser alvo de concessão, autorização ou qualquer restrição por parte do poder público.

    Os dilemas ambientais colocam-se de maneira clara nessa luta. Afinal, o que é mais importante para os Estados Unidos, garantir sua independência energética no futuro próximo ou garantir suas reservas de água? Até que ponto o fraqueamento significa o desperdício de um recurso precioso em um país que já sofre de estresse hídrico em Estados como a Califórnia? Até que ponto a riqueza criada pelo boom da exploração desse gás aprisionado nas rochas compensa a perda de recursos naturais? Por enquanto, os ganhadores têm mais influência que os perdedores, e as questões ambientais estão sendo minimizadas por aqueles que defendem que o processo é totalmente seguro.

    Dos Estados Unidos passo para a Bolívia, nosso vizinho pobre, sem acesso ao mar, cuja renda per capita em 2014 era de 6.200 dólares, ante os 54.800 dólares dos Estados Unidos. Se o dinheiro fala mais alto em um país rico como os Estados Unidos, o que dirá nos Andes, em que na semana passada houve protestos dos trabalhadores da região de Potosí que exigem investimentos na região para a criação de empregos. Como Evo Morales pode deixar de ver como tentadora a possibilidade de explorar o gás de xisto no país? O aumento do PIB e dos empregos aumentaria as receitas públicas e lhe permitiria proporcionar mais saúde e educação à população, garantindo-lhe popularidade para reeleger-se indefinidamente. Como exigir que líderes, mais ou menos democráticos, preocupem-se com os efeitos ambientais de longo prazo de atividades econômicas quando sua preocupação cotidiana é a de mostrar resultados para tornarem-se elegíveis ou ao menos tolerados?

    O mesmo raciocínio pode ser aplicado ao Brasil e aos projetos de hidrelétricas na região amazônica. Belo Monte está 75% pronta e seus efeitos ambientais já se fazem sentir nas populações ribeirinhas do rio Xingu, por conta do assoreamento do rio, da diminuição da produção pesqueira, da remoção de milhares de pessoas de suas casas para dar lugar à barragem. Por outro lado, temos uma situação no Brasil de falta de oferta de energia que fez com que a conta subisse 75% desde dezembro do ano passado no Sul Maravilha. Há maneiras de conciliar os interesses das partes, como querem fazer-nos crer os ambientalistas, pelo investimento em fontes alternativas de energia como o bagaço da cana, o sol e os ventos? Será que considerando nossa capacidade atual de gerenciamento, planejamento, honestidade e conhecimento técnico não é uma quimera acharmos que poderemos fazer algo melhor do que hidrelétricas faraônicas para minimizarmos os males infligidos a brasileiros que tradicionalmente nunca tiveram uma voz muito ativa nos destinos nacionais?

    Prezados leitores, para tentarmos resolver a questão do meio ambiente ou pelo menos fazer dele uma preocupação social onipresente, seria preciso que tivéssemos um tal nível de coesão social que conseguiríamos acomodar os diferentes interesses pelas concessões recíprocas. Em um mundo cada vez mais tecnológico e cada vez mais individualista, essa visão do todo está cada vez mais difícil, mesmo nos países desenvolvidos. No final das contas, Pachamama vai resolver ela própria o problema, seja causando uma diminuição considerável da presença humana na Terra por alguma catástrofe natural, seja de forma radical, causando a extinção do homo sapiens. O apocalipse está aí, ao menos para as populações mais vulneráveis, só não sabemos quando.

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A dívida contra-ataca

Seguindo o historiador Norberto Galasso, damos conta dos feitos, sucessos e processos que fizeram do endividamento público um verdadeiro compêndio do que não deve ser feito, se o que se busca é a felicidade do povo e a grandeza da Nação. Porque em torno dessa dívida configurou-se um modelo baseado na fraude, na corrupção e no delito econômico constantes, que postergaram o bem-estar da maioria e a justa aspiração a um desenvolvimento autônomo, equitativo e em paz.

Trecho escrito por Federico Saraiva da introdução à história em quadrinhos “Em Dívida Dois – Os Impérios Contra-atacam, Um Desenho Argentino” publicada pela Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade de Buenos Aires

Primeiro desarmar essa bomba fiscal, que é ótima, a gente gerou um processo inclusivo espetacular neste País (com os gastos sociais), mas está na hora de olhar os programas sob a ótica de atender a quem de fato precisa. Essa discussão está bem antes do investimento público. Não conte com ele nos próximos vinte anos.

Trecho de entrevista dada por Luiz Guilherme Schymura, diretor do Ibre FGV dada ao jornal O Estado de São Paulo em 12 de julho

As parcerias público-privadas podem ser vistas como outra forma de livrar-se de dívidas – e o preço amargo será pago pela próxima geração de cidadãos.

Peter Waldorff, secretário-geral da Federação Global de Sindicatos Public Services International

    Prezados leitores, há uma atração turística em Buenos Aires que não está nos guias, mas que abordo nesta semana porque impressionou-me muito quando lá estive em 2012. Chama-se Museo de la Deuda Externa (Museu da Dívida Externa) que não passa de uma sala no campus da Universidade de Buenos Aires com vários painéis explicativos contendo a história da dívida argentina desde as negociações com os banqueiros Baring Brothers em 1824 até a época atual. Como presente pela visita recebemos uma história em quadrinhos, cujos personagens incluem José Alfredo Martinéz de Hoz e Domingo Felipe Cavallo, para ficar somente naqueles que me eram mais ou menos conhecidos, levando em consideração que enquanto estive sentada nos bancos escolares ouvi muito pouco sobre a história dos hermanos.

    Muitos reparos podem ser feitos ao modo como esse drama é relatado, pois de um lado há os mocinhos que lutaram pelo desenvolvimento da Argentina como nação soberana, e os bandidos, que sempre estiveram dispostos a entregar o país de bandeja aos gringos contraindo empréstimos no exterior. Não há como negar, entretanto, que uma iniciativa como essa de explicar como a dívida foi criada ao longo da vida independente da Argentina toca em questões fundamentais cujos efeitos são sentidos diariamente pela população, como enfatizou Federico Saraiva em sua exposição de motivos sobre o porquê da preparação da cartilha.

    Infelizmente no Brasil não tenho conhecimento de alguma instituição acadêmica ter problematizado o assunto dívida para chamar a atenção dos cidadãos. O resultado é que mesmo nossas cabeças pensantes consideram certas coisas naturais, fatos que não podem ser mudados porque estão aí, pedindo providências. Não pude deixar de pensar nos bandidos de “Deuda 2, Los Imperios Contraatacan” ao ler a entrevista deste Doutor em Economia pela FGV e pós-doutor pela Universidade da Pensilvânia citado acima que propõe uma fórmula mágica para desatar o nó da infraestrutura “vexatória” do Brasil. A fórmula é fazer das agências reguladoras meras fiscalizadoras e deixar a elaboração das regras de investimentos a cargo dos ministérios para que não haja ingerências políticas, corrupção e assim o tal do marco regulatório possa ser claro e garantir a segurança para os investidores.

    Não vou aqui discutir se a ideia dele é boa ou ruim, pois não tenho capacidade técnica de fazê-lo. A única agência reguladora com a qual tive contato em meus 43 anos de vida foi a ANATEL, que acionei quando tive que cancelar o celular da minha finada mãe, pois a operadora fazia corpo mole. Seria temerário eu dizer que todas elas são boas com base em minha experiência bem-sucedida com a reguladora da telefonia. O ponto sobre o qual quero chamar a atenção é Luiz Guilherme Schymura pressupor que não haverá investimento público nas próximas décadas porque o único dinheiro que vai sobrar no caixa do governo, depois de pagas as despesas fixas de pessoal, aposentadoria, custeio da máquina, é o dos programas sociais, intocáveis porque atendem uma parcela extremamente vulnerável da população.

    Ora, por que devemos aceitar isso como incontestável? Por acaso será porque sempre estaremos fazendo esforços hercúleos para gerar superávits primários e alocá-los para a amortização da dívida, sobrando nada para investimentos produtivos? Será que é razoável que nos conformemos com essa situação e possamos esperar que estabelecendo as sacrossantas regras claras, projetos bem definidos, resolvendo os pepinos ambientais e indígenas antes, os investidores acorrerão para financiar as tão necessárias obras de infraestrutura? Tenho lá minhas dúvidas, aliás confirmadas pelo próprio economista, que reconhece o papel que o BNDES tem desempenhado nos tais dos investimentos privados, feitos na prática de empréstimos de um órgão público. Não nos esqueçamos que a Copa de 2014 não teria acontecido sem o dinheiro da Viúva, como diz o jornalista Elio Gaspari, e o mesmo está ocorrendo com as Olimpíadas do ano que vem.

    Discutir a dívida seria um bom ponto de partida para falarmos sobre as PPPs que todos prometem ser a salvação da lavoura por tornarem a opção pelo tal do investimento privado ainda mais radical do que agora no regime das concessões tradicionais de serviços públicos. As PPPs foram bastante utilizadas no Reino Unido para projetos de estradas, ferrovias, pontes e túneis. Houve muitos resultados desastrosos, a começar pela PPP para o metrô de Londres, que gerou um custo aos cofres públicos de 410 milhões de libras esterlinas. As operações não foram interrompidas graças ao forte aumento do preço das viagens (para saber mais, consulte www.epsu.org). Se em um país de primeiro mundo há problemas, por que tantas cabeças coroadas no Brasil com diplomas e títulos tecem tantas loas a elas? Será que é por que estão na moda na Europa e nós seguimos nossa vocação de macaquitos?

    Prezados leitores, neste fim de semana Alexis Tsipras, o primeiro-ministro grego, aceitou leiloar a Grécia para pagar a dívida do país que chega a 170% do PIB, de acordo com as últimas estimativas. Um fundo de 50 bilhões de euros será constituído com o fruto da privatização de portos, aeroportos e ferrovias gregos, sendo que 75% dos recursos serão destinados a reestruturar os bancos gregos e ao serviço da dívida. Provavelmente não saberemos nunca os reais motivos de um líder que se diz de esquerda ter aceitado condições mais draconianas do que aquelas que seriam negociadas por um governo de direita. Medo de ser mais um tribuno da plebe assassinado? Ter ficado sem apoio de outros países europeus endividados, como Itália e Espanha? Terá sido o referendo uma mera cortina de fumaça de Tsipras? O fato é que se os gregos não forem às ruas e protestarem a dívida monstruosa cairá inteiramente no colo deles, mais do que já tem caído. Por isso, a lição da Argentina, que já deu vários calotes e continua aí bem ou mal virando-se como pode,°merece ser lembrada: quando a divída ataca o melhor é olhá-la de frente para perder o medo e impedir que ela nos devore.

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