Je suis…

O uso de um animal ou pássaro, sobre o qual os males da comunidade são despejados antes de ser expulso, tem uma longa história nas civilizações ao redor do mundo. O nome derivava do bode dos primeiros judeus, descrito no Levítico, apresentado vivo ao Senhor ‘para a expiação dos pecados’ e depois solto ‘como um bode expiatório no meio selvagem’. Mas havia procedimentos s similares em outras sociedades, alguns envolvendo mulheres ou crianças, ou pessoas com deficiência, quase todas elas terminando os dias em alguma morte ritual desagradável para os ‘bodes expiatórios, que eram apedrejados ou atirados de um penhasco, e como resultado disso considerava-se que a comunidade estava purgada dos pecados, ou da praga e da pestilência.

Trecho retirado do livro “The Journey” da historiadora inglesa Antonia Fraser a respeito de Maria Antonieta, a rainha francesa guilhotinada em 16 de outubro de 1793

Je suis Barueri

Je suis Osasco

Ô pessoal dos panelaços, porque a indignação seletiva?

Pichação no muro do cemitério da Consolação em São Paulo

    Prezados leitores, é com grande tristeza que cheguei ao fim da história de Maria Antonieta que morreu de uma forma humilhante, condenada à guilhotina, acusada entre outras coisas de fazer sexo com o filho de 8 anos, algo que o próprio menino acusou a mãe frente a frente com ela, instruído e manipulado pelos revolucionários franceses. Vítima de hemorragias diárias, provavelmente fruto de um câncer no útero, no seu último dia de vida a então ex-rainha teve que fazer sua toilette na frente de um guarda e depois foi transportada de carroça até a Place de la Concorde com os braços amordaçados. Digo com grande tristeza porque ao acabarmos um livro nunca mais teremos o prazer de lê-lo pela primeira vez, nunca mais experimentaremos o frescor da descoberta. Só nos resta voltarmos a consultá-lo para lembrar dos trechos que mais nos chamaram a atenção e usá-los como referência. O que seria de nós sem a memória, para nos consolar da perda?

    Parece que aqui em terra tropicais já estamos preparando o cadafalso da presidente Dilma Rousseff. Afinal, está cada vez mais plausível seu enquadramento no artigo 85 da Constituição Federal , seja por atos que atentem à probidade na administração (inciso V) ou à lei orçamentária (inciso VI). Fernando Henrique Cardoso conclamou-a renunciar, como um ato de “grandeza”, protestos em favor do impeachment ocorreram no domingo em várias cidades. Tenho idade suficiente para lembrar-me do processo de impedimento de Fernando Collor de Mello, que no final acabou renunciando em 29 de dezembro de 1992, para não ser condenado pelo Senado Federal. Em 2006 foi eleito senador por Alagoas e em 2014 foi reeleito senador derrotando Heloísa Helena, uma das grandes defensoras da moralidade na política.

    Estou aqui a relembrar a trajetória do ex-presidente porque sem memória não somos seres humanos e lembrando o que aconteceu a nós brasileiros no início de 1990 podemos nos orientar para agir no futuro. Se formos pautarmo-nos pelo sucesso posterior de Collor na política, o processo de impeachment que o 32º Presidente da República sofreu não serviu para nada. A população, pelo menos a de Alagoas, não o puniu pela má conduta enquanto chefiava o Executivo Federal e a prática do caixa dois nas doações de campanha continuaram a rédeas soltas, como estamos tendo a oportunidade de verificar por meio das investigações da operação Lava-Jato. Assim, de que valeu os protestos da juventude cara-pintada em 1992 para colocar o mais jovem presidente da nossa história para fora?

    Faço a mesma pergunta em relação ao já quase inevitável processo de impeachment de Dilma Rouseff, fazendo as devidas ressalvas. A primeira é que as acusações contra ela estão inseridas no contexto de um amplo esforço investigativo da Polícia Federal em frutuosa parceria com o Ministério Público que está desvendando os vários tentáculos da corrupção na principal empresa brasileira e o conluio entre emprésários, políticos e funcionários corruptos da Petrobrás. Isso mostra o fortalecimento das instituições de defesa do Estado, algo que não havia em 1992, já que naquela época a origem das acusações contra Collor foi simplesmente o despeito de um irmão que aparentemente havia sido chifrado. Além do mais, se a acusação contra Dilma por crime de responsabilidade for embasada nas pedaladas fiscais, isto é, nas manobras contábeis que encobriam os crescentes déficits do governo federal, é de se aplaudir que o Tribunal de Contas esteja cumprindo seu papel de inspeção e que a Lei de Responsabilidade Fiscal de alguma forma tenha pegado.

    De qualquer forma, mesmo admitindo a maior maturidade dos nossos mecanismos de controle do poder, coloco aos partidários dos panelaços: de que adiantará o impeachment de uma mulher eleita há menos de um ano? Será que livrando-nos de Dilma, que certamente levará o PT junto, inauguraremos uma era em que a política finalmente será feita com lisura? Será que o trauma das investigações e das prisões fará com que corruptores ativos e passivos mantenham-se na linha, com medo de punição? Será que ao final do tortuoso processo judicial que desenrolar-se-á nos próximos anos como desdobramento da Lava-Jato os cofres públicos serão de fato ressarcidos pelos prejuízos? Será que o povo que agora vai à rua e bate panela conseguirá manter-se alerta e pressionando constantemente mesmo depois que o objeto do ódio comum tiver sido defenestrado do poder? Ou será que nós nos dispersaremos e nos daremos por satisfeitos em nos livrarmos de Dona Dilma? Será que conseguiremos mobilizar-mo-nos futuramente não contra um indivíduo específico, mas contra determinados abusos como má gestão de serviços públicos, chacinas policiais e outros males que nos afligem cotidianamente, ou pelo menos afligem uma parte da população cotidianamente? Não tenho certeza de que haja uma resposta positiva a essas perguntas, e por isso que lanço dúvidas sobre nosso afã em fazer o recall do produto colocado há poucos meses no mercado.

    Prezados leitores, um bode expiatório serve como símbolo para concentrarmos nossas energias e canalizarmo-nas em prol de um objetivo. A morte de Maria Antonieta selou a aliança entre a plebe francesa e os jacobinos, que puderam com isso instalar o Regime do Terror na França, um período que durou de 1793 até 1794 em que a Revolução devorou seus próprios filhos, mas que viabilizou a ascensção de Napoleão Bonaparte ao poder. Por outro lado, o mito do ser que sozinho é culpado de todos os males, como mito que é, esconde uma parte da verdade. Espero que se o processo de impeachment de Dilma Rousseff for iniciado e chegue ao fim ele não seja apenas a imolação de um bode expiatório para nossos problemas sociais e econômicos, que estão longe de terem sido obra exclusiva da presidente ou mesmo do seu mentor, Lula. Oxalá ele inaugure uma era em que nossos dirigentes serão mais probos para não corrrerem o risco de serem flagrados com a boca na botija e custosos e longos processo judiciais não sejam tão necessários . Enquanto isso, prefiro ficar no muro e olhar para o lado porque não sou chegada a asisitir à cerimônia do halal. Afinal, je suis … defensora dos direitos dos animais indefesos.

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Basta de intermediários!

Isso viola a essência do que fez a América um grande país em termos do seu sistema político. Agora é somente uma oligarquia, e a propina política sem limites é essencial para ser candidato a presidente e ser eleito presidente. O mesmo aplica-se aos governadores e senadores e deputados do Congresso dos Estados Unidos. Então agora estamos vendo uma completa reviravolta do nosso sistema político como pagamento para grandes doadores de campanha, que querem e esperam e algumas vezes conseguem favores para si mesmos quando a eleição acaba… Os eleitos, democratas e republicanos, veem esses rios de dinheiro como um grande benefício para eles próprios. Alguém que já está no Congresso tem muito mais a vender para um doador ávido do que alguém que é simplesmente um concorrente.

Jimmy Carter, ex-presidente dos Estados Unidos, sobre a decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos de permitir doações ilimitadas de pessoas jurídicas a partidos

“Hillary Clinton, eu disse, esteja no meu casamento, e ela foi ao meu casamento,” disse Trump. “Ela não tinha escolha porque eu dava dinheiro à fundação.” […] “Eu dei a muitas pessoas antes disso. Quando eles ligam para mim eu dou. E vocês sabem de uma coisa? Quando eu preciso de alguma coisa deles dois, três anos depois, eu ligo para eles. Eles estão lá para me ajudar,” Trump acrescentou.

Trecho do debate realizado no dia 6 de agosto entre os candidatos do Partido Republicano a presidente dos Estados Unidos, em que Donald Trump responde ao questionamento sobre seu relacionamento com Hillary Clinton, a provável candidata democrata

    Prezados leitores, há mais ou menos três meses eu lancei a modesta proposta de facilitar o recall de líderes do Executivo federal no Brasil pela instituição do sistema parlamentarista inglês do tipo “the winner takes it all” para evitar essas lambanças a que estamos acostumados a assistir entre o Presidente e o Legislativo. Tenho agora uma segunda proposta a fazer em termos do tipo de pessoa a eleger para cargos majoritários, inspirada no modelo americano, de quem copiamos o famigerado presidencialismo. Pode parecer um contrasenso da minha parte, mas como não tenho a mínima esperança de que os brasileiros aceitem o governo dos deputados e senadores, ao menos posso sonhar que algum dia comecemos a eleger as pessoas certas, evitando os intermediários e atravessadores, que só encarecem o preço das transações políticas. Explico-me.

    Como todos sabem, o maior fenômeno político do momento na terra do Tio Sam é Donald John Trump, apresentador da versão original do Aprendiz, dono de uma fortuna de quatro bilhões de dólares obtida no ramo imobiliário, homem que já faliu quatro vezes, como foi revelado no debate de 6 de agosto, mas que definitivamente teve sucesso na vida. Trump é um fenômeno porque quanto mais declarações politicamente incorretas ele faz mais ele torna-se popular. E talvez essa popularidade diga respeito ao fato de que ele diga muitas verdades.

    Para não ferir as susceptibilidades de ninguém, não me deterei sobre a opinião que ele tem sobre os mexicanos que emigram para os Estados Unidos, ou sobre certas mulheres que o tiraram do sério. Se Trump pode ser acusado de racista e sexista, ao mesmo tempo ele colocou na agenda política o tema delicado do desemprego estrutural nos Estados Unidos causado pela desindustrialização do país que está perdendo a competição com a China, de acordo com o magnata. De fato, a taxa de desemprego lá, em julho de 2015, considerando aqueles que já desistiram de procurar por trabalho porque não tem esperança de encontrá-lo, é de 23%, de acordo com John Williams, que publica seus números em shadowstats.com.

    De qualquer forma, o que enfatizarei aqui, por causa das semelhanças com o Brasil, são suas declarações sobre as contribuições que ele faz para políticos e o que ele espera que esses recipientes de sua generosidade façam em retribuição. Trump colocou de maneira crua e sem rodeios que lá, como aqui, funciona o toma lá dá cá, o é dando que se recebe (lembram-se da mensagem franciscana do finado deputado Roberto Cardoso Alves?). Os que têm muita balha na agulha, como diz minha professora de ginástica, financiam a campanha de políticos que ao se elegerem defendem os interesses daqueles que lhes deram dinheiro para fazer a campanha, não daqueles que neles votaram. Isso cria um conluio de interesses altamente prejudicial à democracia, conforme apontado por Jimmy Carter, porque impede que a voz do povo seja ouvida, já que seus representantes fazem do eleitor um mero objeto de manipulação, de falsas promessas que tão logo cumpre seu dever cívico de votar, é descartado e esquecido.

    Nesse momento coloco muitas perguntas, que passo a relacionar. Se os deputados, senadores, governadores e presidentes servem a elite e a elite somente, para que termos intermediários? Não seria mais econômico elegermos diretamente os donos do dinheiro e do poder? Por que cumprir essa etapa de molhar a mão dos lacaios do poder, seres normalmente de classe média, como Hillary e Bill Clinton ou José Dirceu, além de ex-presidentes brasileiros, que por serem novos-ricos vão com grande sofreguidão ao pote? Seres que criam fundações para dar um verniz de respeitabilidade ao esforço arrecadatório, mas que querem mesmo é dinheiro para continuar elegendo-se ad infinitum? O ex-governador de Arkansas e sua esposa advogada começaram a amealhar fortuna durante o escândalo de Whitewater, umas trambicagens imobiliárias que conseguiram varrer para debaixo do tapete. Será que um biliardário como Donald Trump, que não precisa de dinheiro nenhum, que não precisa provar nada a ninguém porque é um sucesso retumbante, não faria um serviço melhor? Será que não teria o rabo bem menos preso? Ou mesmo que ele só defendesse os interesses do grupo do 1% ao qual pertence, será que tal transparência não faria bem ao resto da população que pertence aos 99%? Será que se finalmente as mácaras caíssem e os tais dos eleitores soubessem que eleger representantes não serve para nada não permitiria que fizéssemos uma “terapia em grupo” e rediscutíssemos a nossa relação democrática?

    Em suma, basta de intermediários, que vendem ilusões sobre democracia, participação, inclusão e nos impedem de enxergar a natureza crua do poder, como ensinou Maquiavel há mais de 500 anos. Torço para que Donald Trump consiga ser nomeado candidato dos Republicanos, embora ache isso bastante improvável, mas de qualquer forma ele prometeu no debate da quinta-feira passada que se não for o escolhido sai como independente. Apesar de ter sido o alvo preferencial da noite, ou talvez por causa disso, Trump continua firme na frente das preferências dos republicanos, com 24%, de acordo com o jornal O Globo. Aliás a força do seu carisma do grande ator que é o apresentador do Aprendiz é demonstrada pelo fato de a audiência do debate ter sido recorde, com 24 milhões de americanos assistindo ao show de Donald Trump.

    Plutocratas brasileiros, sigam o exemplo de Donald Trump e dispensem seus lacaios. Entrem para a política!

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Quem se importa?

Para fazer com que os camarões fiquem maiores e mais pesados, fornecedores inescrupulosos aparentemente estão injetando gelatina industrial para vendê-los em muitas partes da China. Recentemente os camarões com gelatina apareceram novamente em duas cidades, Kun Ming, no noroeste da província chinesa de Yunnan e Wenzhou no leste da China.

Trecho retirado de um artigo publicado em 30 de julho no jornal chinês online People’s Daily intitulado “Camarões com gelatina aparecem nos mercados de peixe da China novamente”

Os atletas nas Olimpíadas de Verão do próximo ano nadarão e remarão em águas tão contaminadas ocm fezes humanas que eles correm o risco de ficarem muito doentes e incapazes de competir no jogos, revela uma investigação da Associated Press. Uma análise feita pela AP da qualidade da água mostrou níveis perigosamente altos de vírus e bactérias derivados do esgoto humano nso locais de realização dos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos – resultados que alarmaram os especialistas internacionais e desapontou os competidores que estão treinando no Rio, alguns dos quais já ficaram doentes com febre, vômito e diarreia

Trecho de um artigo escrito por Brad Brooks e publicaod no site da Associated Press em 30 de julho

A um ano dos Jogos, o Rio de Janeiro está no padrão Londres

Manchete da revista Veja de 5 de agosto sobre o fato de o Rio de Janeiro estar em dia com as obras das Olimpíadas

    Prezados leitores, nesta segunda-feira, o governador do Rio de Janeiro resolveu fazer um mea culpa a respeito da meta irrealista prometida em 2009 de que ao menos 80% do esgoto lançado in natura na Baía de Guanabara seria tratado. Na verdade atualmente em 2015, a exatos 365 dias do início dos Jogos Olímpicos de 2016, somente 50% do esgoto é tratado e continuará assim por algum tempo até que o dinheiro (12 bilhões de reais são necessários), a boa vontade política e o monitoramento das universidades e centros de pesquisa da qualidade da água concretizem-se. Coisa para 2035, se tudo correr conforme agora as autoridades prometem, autoridades essas que na época da candidatura da cidade foram no mínimo levianas ao prometerem algo que sabiam ser difícil cumprir, dadas nossas carências de dinheiro e de capacidade de planejamento e organização.

    Mas quem se importa com isso? A revista Veja desta semana dá a boa notícia de que as obras estão sendo realizadas no ritmo com que foram realizadas para os Jogos Olímpicos de Londres e, 2012. Embarcaremos na onda de otimismo e boa vontade na qual embarcamos em relação à Copa do Mundo, a despeito das evidências de que os estádios depois seriam inúteis, que houve superfaturamento na sobras e que a infraestrutura de transportes não foi entregue como prometido. Quanto à poluição da Baía de Guanabara, da praia de Copacabana e da Lagoa Rodrigo de Freitas, em que as competições aquáticas serão realizadas, talvez tenhamos a sorte de as bactérias e vírus proliferarem-se menos no inverno do que no auge do verão e os gringos conseguirão singrar as águas sujas tomando cuidado para não entrar em contato muito com a água. Tenho certeza que nossas autoridades darão um jeito para dar uma disfarçada, a capacidade de enganar dos poderosos brasileiros é ilimitada.

    Talvez seja ilimitada porque o povo quer ser enganado. De acordo com uma reportagem do jornal O Globo de 2 de agosto, o Rio de Janeiro já importou mais de 10.000 toneladas de peixe da China, principalmente o panga, que “ganhou as alcunhas de peixe-gato e peixe-lixo por ter sido, historicamente, cultivado no delta do rio Mekong, um dois mais poluídos do mundo.” As nossas competentíssimas autoridades, desta vez do Ministério da Pesca e Aquicultura realizaram duas missões para verificar as condições sanitárias dos criadores em 2009 e 2014 e acabaram conseguindo uma adequação das práticas chinesas às exigências para a exportação para o Brasil. Considerando os seguidos escândalos que irrompem na China a respeito de alimentos adulterados, incluindo o leite dado às pobres crianças, desconfio muito da possibilidade de certificação séria da qualidade desses produtos com base em duas meras visitas. O mais recente caso de trambicagem alimentar é o do camarão conforme descrito no início deste artigo.

    Minha falta de fé na fiscalização do Ministério da Pesca e Aquicultura tem fundamento em uma pequena história. Uma amiga minha, que até junho era professora de uma grande universidade privada em São Paulo, conta como as exigências do MEC a respeito da necessidade de biblioteca eram cumpridas por meio do aluguel do espaço de outras instituições e fingindo que era espaço próprio até que as autoridades educacionais vistoriassem a universidade. Se servidores públicos são facilmente enganáveis estando em seu próprio ambiente e questionando os fiscalizados em bom e inteligível português, que dirá quando estão em um país como a China de cultura totalmente diversa da nossa, em que a população fala uma língua absolutamente incompreensível? Mas talvez eu seja uma tremenda rabugenta e o Ministério da Pesca e Aquicultura, criado em 2009, esteja muito mais bem estruturado do que o Ministério da Educação e Cultura, criado em 1930.

    De qualquer forma quem se importa? Comer peixe intoxicado com metais pesados se não matar vai engordar,o importante é que é barato e os médicos nos dizem que carne de peixe é saudabilíssima, estão aí os longevos japoneses comedores de sushi que não nos deixam mentir (detalhe: os japoneses comem só atum pescado na Espanha em alto-mar)? Passar um pouco de vergonha nos Jogos Olímpicos quando os velejadores, canoístas e outros reclamarem das garrafas pet será um nada em comparação com a festa e a alegria dos brasileiros, para quem a esperança parece sempre triunfar sobre a realidade.

    Nossos políticos mentem para nós descaradamente, descrevendo um país dos sonhos do marqueteiro, prometendo coisas que sabem que não vão cumprir, e mais importante, que sabem que vamos esquecer. Democracia, para ser eficaz, exige vigilância constante e nós brasileiros somos muito fracos nesse quesito, não por falha genética, mas porque não temos tradição cultural de formação de associações para tratar de algum assunto de interesse de todos. Preferimos passar a bola (ou a batata quente) para um representante, uma autoridade em quem escolhemos confiar às vezes cegamente. Quando este ser, uma vez no poder, passa a tratar dos seus próprios interesses mesquinhos, ficamos bravos e partimos para o extremo oposto de considerá-lo o mais execrável dos seres. É o que estamos fazendo com Lula e Dilma agora, batendo nessas criaturas impiedosamente. Mas quem se importa? Daqui a algum tempo a dupla petista será carta fora do baralho e confiaremos em outro ou outra e novamente daremos com os burros n’água. De desimportância em desimportância vamos construindo nossa rica experiência democrática.

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Quem se responsabiliza?

A inteligência artificial chegou a um ponto em que o emprego de tais sistemas será, materialmente se não legalmente, factível daqui a alguns anos, e não décadas, e o que está em jogo é importante: as armas autônomas foram descritas como a terceira revolução das técnicas bélicas, depois da pólvora e das armas nucleares

Carta aberta publicada em 27 de julho na Conferência Internacional sobre Inteligência Artificial que está sendo realizada em Buenos Aires de 25 a 31 de julho

    Prezados leitores, o ponto de inflexão parece ter chegado: os robôs tornaram-se capazes de pensar por si próprios! Não descerei a detalhes maçantes, mesmo porque tecnologia não é o meu forte, mas o fato é que inventaram um tal de deep learning baseado em conexões neurais, quepermitem aos robôs serem muito mais do que aquilo que os engenheiros programam, permitem que eles aprendam sozinhos, sem a ajuda de ninguém, só com a aajuda dos cálculos em que são muito mais rápidos e eficientes do que qualquer ser humano.

    A preocupação externada pelos signatários da carta, entre os quais o co-fundador da Apple, Steve Wozniak, o linguista americano Noam Chomsky e o astrofísico britânico Stephen Hawking, é que um robô que consiga reconhecer imagens e vozes possa transformar-se em arma de guerra capaz de selecionar e combater os alvos militares sem a intervenção humana, evitando a morte de soldados que teriam que ser mandados a campo. Tal capacidade letal cxoloca um dilema moral inédito para nós os inventores dessas máquinas: quem assumirá a responsabilidade pelas decisões tomadas pelas armas autônomas? De fato, usar esse termo não é exagero considerando que os robôs optarão por um modo de ação com base naquilo que conseguiram aprender pela análise dos dados proporcionada pelas tais das conexões neurais. Assim, nada mais natural do que perguntar: quando os robôs matarem a quem será imputada a culpa? Aos seus fabricantes? Aos seus utilizadores? Ou a ninguém, já que o agente é inimputável, porque não pode ser classificado como ser humano?

    Infelizmente, o problema do “quem se responsabiliza”não é algo novo, trazido pelos avanços da inteligência artificial, ele está cada vez mais posto na nossa sociedade sem que haja uma resposta clara, para infelicidade de todos. Vou dar-lhes alguns exemplos. Outro dia, conversando com uma amiga que é professora em uma escola de elite de São Paulo, contava-me spbre a celeuma causada por uma atividade desenvolvida pelos professores, que consistiu em organziar uma exposição com fotos dos alunos, que tinham a liberdade de esclher o tema e assim dar vazão a sua criatividade. Pois bem, muitos dos adolescentes tiraram fotos digamos despudoradas, em que as meninas mostravam seu sutiã, e claro as obras de arte foram publicadas na internet, o que causou um escândalo. A escola achou por bem convocar uma reunião para prestar esclarecimentos aos pais que caíram matando, como se a culpa toda fosse do colégio que incentivou prtáticas libertinas. Ora, de quem é a responsabilidade de ensinar boas maneiras aos adolescentes? Ao que consta, a tarefa de ensinar o que é certo e o que é errado, o que decoroso e o que é indecoroso é tarefa dos pais, que num mundo ideal, onde as famílias exercessem um papel importante,

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Apocalipse quando?

A revolução do fraqueamento não somente ajudou a estimular uma queda impressionante nos preços globais da gasolina, mas está diminuindo a influência da OPEP sobre os Estados Unidos e e o déficit comercial do país. Em novembro, os Estados Unidos importaram o menor número de barris de petróleo desde fevereiro de 2004, declarou o Gabinete de Análises Econômicas de Washington na quarta-feira. E as importações de países membros da OPEP caíram ao nível mais baixo desde 2009.

Notícia publicada no site de notícias Market Watch em 7 de janeiro de 2015

“Caso a Bolívia explore seus 1,5 trilhões de metros cúbicos de gás de xisto, 242 bilhões de litros de água serão contaminados para sempre e 2,6 bilhões de toneladas de gás carbônico serão emitidas, contribuindo para as mudanças climáticas”, afirma a Declaração contra o Fraqueamento na Bolívia.

Trecho do artigo “A Bolívia vai fraquear a Mãe Terra” publicado no jornal britânico The Guardian em 24 de fevereiro de 2015 sobre os planos do governo de Evo Morales de exploração do gás de xisto para incentivar a industrialização do país

    Prezados leitores, nunca fui uma ambientalista de primeira viagem e sempre achei que comportar-se de maneira ecologicamente correta é apenas uma maneira de a pessoa dar-se ares de superioridade moral. Porque no final das contas, comprar vegetais orgânicos, artigos feitos com material reciclável e não comer carne não vão diminuir o nível de consumo de recursos naturais, apenas criam um nicho específico de mercado que satisfaz as necessidades de um grupo de pessoas que querem usufruir dos mesmos confortos dos não ecológicos, mas de uma maneira que lhes apazigue a consciência. Neste quesito de meio ambiente, sigo o preceito católico de considerar todos pecadores, inclusive eu, que acho um horror ver pessoas viajando para os Estados Unidos com o único objetivo de comprar coisas baratas.

    Por outro lado, não há como negar que por mais que os ambientalistas sejam muitas vezes uns eco-chatos, seria estúpido negar que nossa interferência na Pachamama está ficando cada vez mais visível, levando-nos a nos perguntar se já não passamos dos limites do tolerável por nossa mamãe terra. O caso do fraqueamento hidráulico é emblemático nesse sentido, porque está ocorrendo em um país de Primeiro Mundo, os Estados Unidos, em que teoricamente todas as partes envolvidas têm voz nas discussões sobre o que fazer.

    Para quem não sabe, o fraqueamento hidráulico é uma técnica que consiste na extração de gás de rochas porosas por meio da injeção de água misturada a produtos químicos. A indústria do fraqueamento permitiu ao Estado de Dakota do Norte registrar a menor taxa de desemprego dos Estados Unidos, um supéravit orçamentário de um bilhão de dólares e um PIB per capita 29% maior do que a média nacional, desde 2006. Mas há um lado negro neste quadro de pleno emprego e crescimento econômico, representado pelos efeitos ambientais da extração de gás por meio do fraqueamento. Esses efeitos estão sendo sentidos pelos pobres moradores da zona rural dos Estados americanos como Utah, Colorado, Wyoming e Pensilvânia, além claro de Dakota do Norte, que convivem com um barulho ensurdecedor e ininterrupto dos equipamentos utilizados pelas empresas de energia, com a liberação de gás metano que escapa pela torneira da cozinha, e principalmente pela contaminação dos lençóis freáticos tornando a água retirada de poços não potável. A luta desse moradores que viviam idilicamente no campo até terem sua paz perturbada pelos “fraqueiros” é particularmente difícil e até mesmo inglória, considerando que nos Estados Unidos o subsolo é propriedade privada, do dono do terreno e não propriedade pública, como ocorre no Brasil, por exemplo. Assim, a exploração torna-se mais ou menos uma corrida do ouro que não precisa ser alvo de concessão, autorização ou qualquer restrição por parte do poder público.

    Os dilemas ambientais colocam-se de maneira clara nessa luta. Afinal, o que é mais importante para os Estados Unidos, garantir sua independência energética no futuro próximo ou garantir suas reservas de água? Até que ponto o fraqueamento significa o desperdício de um recurso precioso em um país que já sofre de estresse hídrico em Estados como a Califórnia? Até que ponto a riqueza criada pelo boom da exploração desse gás aprisionado nas rochas compensa a perda de recursos naturais? Por enquanto, os ganhadores têm mais influência que os perdedores, e as questões ambientais estão sendo minimizadas por aqueles que defendem que o processo é totalmente seguro.

    Dos Estados Unidos passo para a Bolívia, nosso vizinho pobre, sem acesso ao mar, cuja renda per capita em 2014 era de 6.200 dólares, ante os 54.800 dólares dos Estados Unidos. Se o dinheiro fala mais alto em um país rico como os Estados Unidos, o que dirá nos Andes, em que na semana passada houve protestos dos trabalhadores da região de Potosí que exigem investimentos na região para a criação de empregos. Como Evo Morales pode deixar de ver como tentadora a possibilidade de explorar o gás de xisto no país? O aumento do PIB e dos empregos aumentaria as receitas públicas e lhe permitiria proporcionar mais saúde e educação à população, garantindo-lhe popularidade para reeleger-se indefinidamente. Como exigir que líderes, mais ou menos democráticos, preocupem-se com os efeitos ambientais de longo prazo de atividades econômicas quando sua preocupação cotidiana é a de mostrar resultados para tornarem-se elegíveis ou ao menos tolerados?

    O mesmo raciocínio pode ser aplicado ao Brasil e aos projetos de hidrelétricas na região amazônica. Belo Monte está 75% pronta e seus efeitos ambientais já se fazem sentir nas populações ribeirinhas do rio Xingu, por conta do assoreamento do rio, da diminuição da produção pesqueira, da remoção de milhares de pessoas de suas casas para dar lugar à barragem. Por outro lado, temos uma situação no Brasil de falta de oferta de energia que fez com que a conta subisse 75% desde dezembro do ano passado no Sul Maravilha. Há maneiras de conciliar os interesses das partes, como querem fazer-nos crer os ambientalistas, pelo investimento em fontes alternativas de energia como o bagaço da cana, o sol e os ventos? Será que considerando nossa capacidade atual de gerenciamento, planejamento, honestidade e conhecimento técnico não é uma quimera acharmos que poderemos fazer algo melhor do que hidrelétricas faraônicas para minimizarmos os males infligidos a brasileiros que tradicionalmente nunca tiveram uma voz muito ativa nos destinos nacionais?

    Prezados leitores, para tentarmos resolver a questão do meio ambiente ou pelo menos fazer dele uma preocupação social onipresente, seria preciso que tivéssemos um tal nível de coesão social que conseguiríamos acomodar os diferentes interesses pelas concessões recíprocas. Em um mundo cada vez mais tecnológico e cada vez mais individualista, essa visão do todo está cada vez mais difícil, mesmo nos países desenvolvidos. No final das contas, Pachamama vai resolver ela própria o problema, seja causando uma diminuição considerável da presença humana na Terra por alguma catástrofe natural, seja de forma radical, causando a extinção do homo sapiens. O apocalipse está aí, ao menos para as populações mais vulneráveis, só não sabemos quando.

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