A dívida contra-ataca

Seguindo o historiador Norberto Galasso, damos conta dos feitos, sucessos e processos que fizeram do endividamento público um verdadeiro compêndio do que não deve ser feito, se o que se busca é a felicidade do povo e a grandeza da Nação. Porque em torno dessa dívida configurou-se um modelo baseado na fraude, na corrupção e no delito econômico constantes, que postergaram o bem-estar da maioria e a justa aspiração a um desenvolvimento autônomo, equitativo e em paz.

Trecho escrito por Federico Saraiva da introdução à história em quadrinhos “Em Dívida Dois – Os Impérios Contra-atacam, Um Desenho Argentino” publicada pela Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade de Buenos Aires

Primeiro desarmar essa bomba fiscal, que é ótima, a gente gerou um processo inclusivo espetacular neste País (com os gastos sociais), mas está na hora de olhar os programas sob a ótica de atender a quem de fato precisa. Essa discussão está bem antes do investimento público. Não conte com ele nos próximos vinte anos.

Trecho de entrevista dada por Luiz Guilherme Schymura, diretor do Ibre FGV dada ao jornal O Estado de São Paulo em 12 de julho

As parcerias público-privadas podem ser vistas como outra forma de livrar-se de dívidas – e o preço amargo será pago pela próxima geração de cidadãos.

Peter Waldorff, secretário-geral da Federação Global de Sindicatos Public Services International

    Prezados leitores, há uma atração turística em Buenos Aires que não está nos guias, mas que abordo nesta semana porque impressionou-me muito quando lá estive em 2012. Chama-se Museo de la Deuda Externa (Museu da Dívida Externa) que não passa de uma sala no campus da Universidade de Buenos Aires com vários painéis explicativos contendo a história da dívida argentina desde as negociações com os banqueiros Baring Brothers em 1824 até a época atual. Como presente pela visita recebemos uma história em quadrinhos, cujos personagens incluem José Alfredo Martinéz de Hoz e Domingo Felipe Cavallo, para ficar somente naqueles que me eram mais ou menos conhecidos, levando em consideração que enquanto estive sentada nos bancos escolares ouvi muito pouco sobre a história dos hermanos.

    Muitos reparos podem ser feitos ao modo como esse drama é relatado, pois de um lado há os mocinhos que lutaram pelo desenvolvimento da Argentina como nação soberana, e os bandidos, que sempre estiveram dispostos a entregar o país de bandeja aos gringos contraindo empréstimos no exterior. Não há como negar, entretanto, que uma iniciativa como essa de explicar como a dívida foi criada ao longo da vida independente da Argentina toca em questões fundamentais cujos efeitos são sentidos diariamente pela população, como enfatizou Federico Saraiva em sua exposição de motivos sobre o porquê da preparação da cartilha.

    Infelizmente no Brasil não tenho conhecimento de alguma instituição acadêmica ter problematizado o assunto dívida para chamar a atenção dos cidadãos. O resultado é que mesmo nossas cabeças pensantes consideram certas coisas naturais, fatos que não podem ser mudados porque estão aí, pedindo providências. Não pude deixar de pensar nos bandidos de “Deuda 2, Los Imperios Contraatacan” ao ler a entrevista deste Doutor em Economia pela FGV e pós-doutor pela Universidade da Pensilvânia citado acima que propõe uma fórmula mágica para desatar o nó da infraestrutura “vexatória” do Brasil. A fórmula é fazer das agências reguladoras meras fiscalizadoras e deixar a elaboração das regras de investimentos a cargo dos ministérios para que não haja ingerências políticas, corrupção e assim o tal do marco regulatório possa ser claro e garantir a segurança para os investidores.

    Não vou aqui discutir se a ideia dele é boa ou ruim, pois não tenho capacidade técnica de fazê-lo. A única agência reguladora com a qual tive contato em meus 43 anos de vida foi a ANATEL, que acionei quando tive que cancelar o celular da minha finada mãe, pois a operadora fazia corpo mole. Seria temerário eu dizer que todas elas são boas com base em minha experiência bem-sucedida com a reguladora da telefonia. O ponto sobre o qual quero chamar a atenção é Luiz Guilherme Schymura pressupor que não haverá investimento público nas próximas décadas porque o único dinheiro que vai sobrar no caixa do governo, depois de pagas as despesas fixas de pessoal, aposentadoria, custeio da máquina, é o dos programas sociais, intocáveis porque atendem uma parcela extremamente vulnerável da população.

    Ora, por que devemos aceitar isso como incontestável? Por acaso será porque sempre estaremos fazendo esforços hercúleos para gerar superávits primários e alocá-los para a amortização da dívida, sobrando nada para investimentos produtivos? Será que é razoável que nos conformemos com essa situação e possamos esperar que estabelecendo as sacrossantas regras claras, projetos bem definidos, resolvendo os pepinos ambientais e indígenas antes, os investidores acorrerão para financiar as tão necessárias obras de infraestrutura? Tenho lá minhas dúvidas, aliás confirmadas pelo próprio economista, que reconhece o papel que o BNDES tem desempenhado nos tais dos investimentos privados, feitos na prática de empréstimos de um órgão público. Não nos esqueçamos que a Copa de 2014 não teria acontecido sem o dinheiro da Viúva, como diz o jornalista Elio Gaspari, e o mesmo está ocorrendo com as Olimpíadas do ano que vem.

    Discutir a dívida seria um bom ponto de partida para falarmos sobre as PPPs que todos prometem ser a salvação da lavoura por tornarem a opção pelo tal do investimento privado ainda mais radical do que agora no regime das concessões tradicionais de serviços públicos. As PPPs foram bastante utilizadas no Reino Unido para projetos de estradas, ferrovias, pontes e túneis. Houve muitos resultados desastrosos, a começar pela PPP para o metrô de Londres, que gerou um custo aos cofres públicos de 410 milhões de libras esterlinas. As operações não foram interrompidas graças ao forte aumento do preço das viagens (para saber mais, consulte www.epsu.org). Se em um país de primeiro mundo há problemas, por que tantas cabeças coroadas no Brasil com diplomas e títulos tecem tantas loas a elas? Será que é por que estão na moda na Europa e nós seguimos nossa vocação de macaquitos?

    Prezados leitores, neste fim de semana Alexis Tsipras, o primeiro-ministro grego, aceitou leiloar a Grécia para pagar a dívida do país que chega a 170% do PIB, de acordo com as últimas estimativas. Um fundo de 50 bilhões de euros será constituído com o fruto da privatização de portos, aeroportos e ferrovias gregos, sendo que 75% dos recursos serão destinados a reestruturar os bancos gregos e ao serviço da dívida. Provavelmente não saberemos nunca os reais motivos de um líder que se diz de esquerda ter aceitado condições mais draconianas do que aquelas que seriam negociadas por um governo de direita. Medo de ser mais um tribuno da plebe assassinado? Ter ficado sem apoio de outros países europeus endividados, como Itália e Espanha? Terá sido o referendo uma mera cortina de fumaça de Tsipras? O fato é que se os gregos não forem às ruas e protestarem a dívida monstruosa cairá inteiramente no colo deles, mais do que já tem caído. Por isso, a lição da Argentina, que já deu vários calotes e continua aí bem ou mal virando-se como pode,°merece ser lembrada: quando a divída ataca o melhor é olhá-la de frente para perder o medo e impedir que ela nos devore.

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A Centelha e a Chama

O desenvolvimento significa que a personalidade ou civilização em crescimento tende a tornar-se seu próprio meio, seu próprio desafio e seu próprio campo de ação. Em outras palavras, o critério do desenvolvimento é um progresso na direção da autodeterminação. […] Se a autodeterminação é o critério do desenvolvimento e significa auto-articulação, podemos analisar o processo pelo qual as civilizações realmente crescem se investigarmos a maneira pela qual as civilizações se articulam progressivamente.

Trecho retirado do livro “Um Estudo da História”, de Arnold Toynbee historiador inglês (1889-1975).

A deusa contra a qual temos de batalhar não é Saeva Necessitas, com sua armadilha letal, senão apenas a probabilidade […] a qual poderá ser ignominiosamente derrotada pelo valor humano, dotado de armas mortais. […] As civilizações que já morreram não foram mortas pelo destino […]. A centelha divina do poder criador é o instinto dentro de nós mesmos; e se tivermos a graça de a transformar em chama, então “as estrela em suas órbitas” não poderão derrotar nossos esforços por atingira meta dos empreendimentos humanos.

Idem

Deixe a Grécia ir embora

Manchete do editorial de 20 de junho de 2015 da revista britânica Spectator defendendo a saída da Grécia da zona do euro

    Prezados leitores, é tentador, como eu mesma fiz neste espaço, comparar a trajetória do partido de esquerda do primeiro-ministro grego Alexis Tsipras e a trajetória do Partido dos Trabalhadores no Brasil que está no comando do país com Dilma Rousseff. Não vou aborrecer-lhes repetindo essas comparações, mesmo porque se é certo que a vitória do não no referendo de domingo, dia 5 de julho fortalece a posição do Syriza nas negociações com os credores europeus, nenhum dos membros do governo grego nega que tudo está para ser feito. Uma proposta de reescalonamento da dívida do país será colocada à mesa e deverá haver compromissos de parte a parte, em uma queda de braço que poderá durar dias ou semanas. Tanto Alexis Tsipras está consciente de que o mais difícil está por vir que aceitou desfazer-se do Ministro das Finanças, Yanis Varoufakis, que renunciou na segunda-feira de manhã, num gesto de boa vontade para com os dirigentes da União Europeia que não suportavam o professor de economia de 54 anos.

    Portanto, fazer julgamentos de valor sobre uma esquerda autêntica e outra traidora das utopias é temerário e eu mesma faço um mea culpa. O fato é que tudo depende dos resultados concretos que serão obtidos, estabelecer uma direção prévia dos rumos positivos ou negativos é simplesmente imposssível. Como disse Júlio César ao cruzar o Rio Rubicão rumo à conquista da Gália, Alia jacta est. Mas tenho certeza que ao pronunciar essa frase, Júlio César, apesar de estar tão perplexo ante o futuro como qualquer ser humano normal estaria, sabia que desejava deixar sua marca no mundo e que faria tudo para conseguir, imbuído da centelha criadora de que fala Arnold Toynbee em sua tentativa de entender os caminhos da história.

    No final das contas, trata-se de abrir um caminho e fazer sua própria trilha. Os gregos precisam perguntar-se a si mesmos: vale a pena continuar fazendo parte do euro? Para que um país como a Grécia tenha a mesma moeda que um país como a Alemanha seria preciso que os meridionais tivessem mais ou menos a mesma capacidade de recolher impostos dos alemães, a mesma maneira de lidar com a corrupção, a mesma aplicação rigorosa do orçamento dos setentrionais. Será que os gregos algum dia vão confiar mais em si mesmos e no governo para não quererem sonegar impostos, para não desconfiarem uns dos outros e quererem levar vantagem nas suas relações? Vou dar-lhes um exemplo de como os gregos podem ser: tenho um amigo que contratou um engenheiro grego, que havia estudado na Inglaterra, para desenvolver uma ideia pagando-lhe salário, e o tal do George foi capaz de enrolá-lo durante meses fingindo que trabalhava enquanto curtia os euros enviados religiosamente pelo meu amigo setentrional que confiava que o seu contratado estava quebrando a cabeça para colocar sua ideia em prática.

    Arnold Toynbee depois de ter estudado o nascimento, desenvolvimento e morte das civilizações de 1934 a 1961 concluiu que desenvolvimento é a capacidade de auto-determinar-se, isto é de criar soluções próprias para desafios particulares. Uma vez que os gregos coletivamente respondam à pergunta sobre se um dia conseguirão ser tão eficientes, corretos e sérios como os alemães poderão responder sim ou não à pergunta se vale a pena continuar no euro. Se os sacrifícios forem maiores do que aquilo que são capazes de suportar, ou que acham justo suportar, talvez seja o caso tentar uma rota alternativa de inserção no cenário internacional. Quem sabe possam fazer como o Reino Unido e fazer parte da União Europeia, mas mantendo sua própria moeda? Ou então adotar o caminho suíço e manter apenas tratados de livre comércio com a Europa?

    Apesar das incertezas atuais, uma coisa pode ser dita, cabe aos gregos decidirem o que querem da vida. Muitos acusaram Alexis Tsipras de populismo por ter proposto um referendo em um prazo tão curto, sem ter havido tempo hábil para esclarecer a população, por ter insuflado os ânimos acusando os credores de serem chantagistas e quererem pilhar o berço da democracia. Ora, se quem vai pagar a conta dos empréstimos irresponsáveis à Grécia é o povo, na forma de estagflação, de desemprego, de piora da qualidade de vida, nada mais justo do que ser chamado a opinar sobre o que deve ser feito. Talvez o ponto positivo desse referendo tenha sido não tanto uma decisão sobre os rumos do país, afinal os detalhes sobre as condições de uma nova ajuda econômica serão decididos em Bruxelas, não em Atenas. O importante foi ter chamado a atenção para o fato de que como está não dá mais: há cinco anos os credores dão dinheiro à Grécia para que ela consiga rolar a dívida por mais tempo, não para que ela invista produtivamente. O resultado de 240 bilhões de dólares de socorro financeiro foi enfiar o país ainda mais no desemprego, que está em 27%, e na recessão econômica, com a economia tendo encolhido 25% desde 2010.

    Prezados leitores, finalizo dizendo que Tsipras terá cumprido seu papel se conseguir levar os gregos a uma reflexão sobre o que querem ser quando crescerem e o que estão dispostos a fazer para tanto. Querem ser bons meninos e obedecerem à rigorosa Madre Superiora Fraulein Angela Merkel que está cobrando os 400 milhões de euros devidos ao Commerzbank e os 298 milhões devidos ao Deutsche Bank? Querem jogar tudo para o alto e cair nos braços da Rússia, que pode desejar mostrar-se grata àqueles que lhe deram a Igreja Ortodoxa e o alfabeto cirílico? Só torço para que os gregos consigam transformar a centelha em chama.

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Me engana que eu gosto

[…] os designers de moda Dolce e Gabbana, agora vítimas de um boicote organizado depois de uma entrevista dada a um programa italiano em que Domenico Dolce disse que a procriação “deveria ser um ato de amor”. O siciliano de 56 anos pronunciou-se contra a inseminação artificial, afirmando: “Você nasce e tem um pai e uma mãe. Pelo menos deveria ser assim. É por isso que não estou convencido pelo que eu chamo de bebês químicos, sintéticos. São barrigas de aluguel, sêmen escolhido por catálogo. E depois você tem que explicar à criança quem é a mãe dela.” Quando perguntado se gostaria de ser pai, Dolce respondeu: “Eu sou gay. Eu não posso ter filhos. Não acredito que possamos ter tudo na vida.”

Trecho retirado do artigo “Católicos: cuidado com os boicotes” publicado na revista Catholic Herald de 20 de março de 2015

“Se puder salvar a União sem libertar nenhum escravo, farei isso. Se puder salvar a União libertando alguns e não tocando em outros, farei isso.” O que aconteceu é que no terceiro ano de sua administração, ele libertou todos os escravos nos estados que se haviam rebelado, mas manteve a escravatura nos estados fronteiriços que haviam permanecido leais à União.

Trecho do ensaio “Uma nota sobre Abraham Lincoln” de Gore Vidal (1925-2012), publicado em 8 de fevereiro de 1981

    Prezados leitores, nesta semana vou entrar em um campo minado, abordando dois assuntos já surrados de tanto serem explorados, mas que me causam muita indignação. Falo da acusação tão frequentemente lançada por muitos de homofobia e de racismo. Isso começou ao norte do Equador, mas por aqui chegou e veio para ficar. Não pretendo aqui mudar as convicções morais de ninguém, apenas realçar as premissas dos argumentos dos que lutam contra esses dois males para mostrar que não são tão neutros e objetivos como querem fazer crer.

    Nestas duas últimas semanas, quando desço a escada rolante do metrô tenho deparado-me com cartazes com declarações de celebridades, que atualmente ocupam o pael de formadores d eopinião que ocupavam os intelectuais franceses na década de 60. Todas elas denunciavam a homofobia como algo “demodê” e de acordo com Adriane Galisteu, a única personagem que eu conhecia, era “uma ignorância na acepção plena da palavra”. De fato, o discurso politicamente correto pelos direitos dos homossexuais sempre bate na mesma tecla, a de que tal postura é atual, reflete a modernidade. Tanto é assim que Elton John, cantor britânico que têm dois filhos fruto de inseminação artificial, liderou a ação de boicote dos dois sicilianos gays por meio da hashtag #BoycottDolceGabban declarando no Instagram que “O seu pensamento arcaico está fora de sintonia com os tempos, assim como a sua moda. Nunca mais vou usar roupas do Dolce e Gabanna.”

    Assim, veem-se dois gays que se atrevem a ter uma concepção religiosa da família e da concepção, serem tachados de antiquados. Agora pergunto: por que ater-se a determinados val,ores tradicionais é necessariamente ruim? por que devemos pressupor que tudo que é moderno é bom, que o mundo está sempre progredindo? Será que é um anátema pensar que há coisas louváveis na modernidade mas também coisas criticáveis? Por que os defensores dos direitos das minorias fazem questão de colocar no mesmo saco, como homofóbicos execráveis, aqueles que por problemas psicológicos sérios fazem dos gays bodes expiatórios e os atacam e matam, e aqueles que simplesmente são contra inseminação artificial, contra o casamento gay por cultivarem certos valores? O resultado é que pessoas decentes como Dolce e Gabanna que por sua carreira bem-sucedida até promovem a causa gay por mostrarem o talento dos homossexuais em determinadas áreas são ostracizados da mesma maneira que os que na Turquia jogam gás lacrimogêneo em participantes de uma parada gay, como ocorreu nesta segunda-feira.

    Condena-se assim pelas palavras pronunciadas por quem tem coragem de expor suas opiniões tão inapelávelmente quanto pelos atos de violência perpetrados covardemente contra homossexuais. Uma lástima que nossa sociedade não queira diferenciar entre uns e outros, mas algo que não surpreende,a final o objetivo aqui é simplesmente impor uma determinada visão de mundo mais moderna e portanto, melhor, o que não necessariamente contribuirá para uma mlehor convivência entre os diferentes na sociedade.

    Quanto ao racismo, ele esteve em voga recentemente nos Estados Unidos por um prisma trágico: o assassinato em 17 de junho de 2015 de nove negros na cidade de Charleston por Dylan Roof de 21 anos. Seria mais um caso de um louco que precisa de bodes expiatórios se não tivesse trazido consequências para pessoas que jamais pensariam em matar alguém. Por ter sido flagrado brandindo a bandeira dos Estados Confederados que em 1861 quiseram separar-se dos Estados Unidos da América isso levou a uma condenação da própria exibição da bandeira vermelha e preta como um símbolo de racismo. Os Estados de Virgínia e Maryland decidiram retirar o símbolo da bandeira das placas de carros e o Estado de Alabama retirou-a do capitólio. A Apple anunciou que tirará de linha jogos da Appstore que tenham a bandeira confederada, e Walmart, eBay, Seras, Target, Etsy e Amazon também a baniram.

    Na mesma linha do que aventei a respeito da homofobia, lanço as seguintes perguntas: por que considerar que toda pessoa que use a bandeira dos Estados americanos secessionistas porter orgulho de suas raízes seja tão digna de opróbio quanto um assassino? Será que ao colocar psicopatas e tradicionlaistas no mesmo saco dos racistas não há uma intenção subrrepitícia, qual seja a de impor a versão dos vencedores da Guerra Civil? O presidente americano Abraham Lincoln (1809-1865) ficou na história como o herói libertador dos escravos quando na verdade ele só o fez para enfraquecer os Estados do Sul e ganhar a guerra preservando assim a União. Lincoln era um homem do seu tempo e acalentou o projeto de mandar os escravos libertos de volta à África, porque considerava que a convivência entre pretos e brancos seria impossível.

    Nesse sentido, achar de racistas retrógrados todos os descendentes dos sulistas que morreram na guerra e que usam a bandeira confederada para honrar seus antepassados, sua cultura e seus valores próprios é uma maneira esperta de impor a versão edulcorada da história pela qual a vitória do Norte sobre o Sul preservou a União e deu direitos aos escravos, quando uma versão apócrifa coincidentemente partilhada por muitos sulistas, diz que desde o fim da Guerra Civil o poder federal só fez aumentar às custas da autonomia dos Estados o que viola a ideia original da Constituição dos Estados Unidos da América.

    Prezados leitores, num mundo pós-religioso o politicamente correto é a nova religião, com seus rituais de execração, suas proibições, seus papas e suas bruxas. Ela está sendo imposta goela abaixo a todos os recalcitrantes como algo progressivo e portanto necessariamente bom. Me engana que eu gosto.

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Utopias perdidas

O homem será libertado e não mais será o joguete de forças além de seu controle – a natureza implacável ou as consequências de sua própria ignorância, loucura ou vício; […] essa primavera do homem virá depois que os obstáculos, naturais e humanos, forem superados. Então, por fim os homens deixarão de lutar entre si, unirão suas forças e cooperarão para adaptar a natureza às suas necessidades (como advogaram os pensadores materialistas, de Epicuro a Marx), ou para adaptar suas necessidades à natureza (como os estóicos e os modernos ambientalistas prescreveram)

Trecho retirado do livro de Isaiah Berlin (1909-1997) Limites da Utopia

Atenas cruza as linhas vermelhas

Manchete do site de notícia Courrier International sobre o acordo proposto pelo governo grego aos seus credores em 22 de junho

Para Lula PT perdeu a utopia e petistas só pensam em cargos

Manchete do site de notícias UOL em artigo sobre o seminários “Novos desafios da democracia” realizado no Instituto Lula com a presença do ex-primeiro-ministro espanhol Felipe González

    Prezados leitores, há algum tempo, à época da eleição do partido Syriza para o governo da Grécia, mostrei meu entusiasmo em ver um grupo político tentando propor novas ideias para tirar o país do atoleiro em que se encontrava, formado por dívidas impagáveis, desemprego e recessão. Pois bem, parece que como invarialvemente ocorre com partidos de esquerda que chegam ao poder, o sonho virou pó. É verdade que o apoio popular ao Syriza nunca foi muito grande, eleito com apenas 36% dos votos, o que diminui bastante sua capacidade de impor uma determinada agenda. Para piorar, o lado de lá é extremamente forte porque unido: FMI, Banco Central Europeu, União Europeia, Comissão Europeia, Alemanha, França individualmente como os países mais fortes e até os pobrecitos do Club Med europeu como Portugal e Espanha, que querem que a Grécia não seja poupada de nenhum dos sofrimentos pelos quais portugueses e espanhóis têm passado para honrar suas dívidas. De qualquer forma é decepcionante ver que mais uma vez os sonhos se espatifaram.

    Digo isso em vista das notícias de que Alex Tsipras a fim de chegar a um acordo para a rolagem da dívida grega resolveu ceder em relação a pontos que eram considerados inegociáveis: concordou em aumentar o imposto sobre o valor agregado em 23% e o imposto sobre rendimentos de mais de 30.000 euros por ano. Não consegui obter mais detalhes se tal proposta, que aparentemente agradou os credores, inclui as privatizações tão recomendadas pelo FMI. De qualquer forma, o fato de Tsipras nem falar em saída da Grécia do euro, o que reflete o desejo dos gregos de permanecerem na UE, enfraquece sua posição, porque não permite que ele acene com o espectro do calote e do retorno à dracma para arrancar concessões dos defensores dos interesses dos bancos alemães e holandeses que não querem levar uma banana dos gregos.

    Numa situação como essa, a única saída para q ue a esquerda grega pudesse fazer jus a suas promessas seria que o povo mudasse de ideia e passasse a considerar seriamente a possibilidade de sair do clube Europa cujas mensalidades estão ficando caras demais. Afinal uma andorinha sozinha não faz verão: para enfrentar Christine Lagarde, Angela Merkel, Jean-Claude Juncker só mesmo Tsipras tendo atrás de si o povo grego ameaçando quebrar tudo se novas medidas de austeridade forem impostas. Afinal força se enfrenta com força, não esperanças de que a outra parte será condescendente com o infortúnio alheio. Até o momento isso está longe de acontecer.

    No domingo dia 21 houve protestos em frente ao parlamento grego, mas reuniram somente sete mil pessoas. A resignação e o fatalismo parecem ter tomado conta de tudo e os gregos estão prontos a serem imolados novamente para que o país fique em dia com os pagamentos do baú da felicidade. Mas claro, se o acordo que Tsipras está prestes a firmar trouxer algum benefício para a população em termos de melhora da qualidade de vida vou calar minha boca e dizer que em vez de ser um iludido ou ilusionista que se rendeu às duras realidades da vida, direi que se trata de um político sensato e pragmático que conquistou o que antes considerava-se impossível: a volta do crescimento econômico e do emprego na Grécia.

    Ou talvez eu nunca tenha condições de chegar a um julgamento definitivo sobre a experiência de Alex Tsipras no governo grego, mesmo porque não consigo chegar a uma conclusão nem sobre o nosso próprio líder de esquerda, Lula, que hoje fez um mea culpa meia-boca acusando os membros do partido de terem sido picados pela mosca azul do poder. Será que ele está passando por uma crise existencial e dando-se conta de que as utopias sobre justiça social, distribuição de renda, prosperidade para todos não resistiram à dura realidade do exercício do poder em um país cujo regime político fica a meio caminho entre parlamentarismo e presidencialismo? Ou será que é tudo um jogo de cena para transferir as culpas pelos vícios aos outros, e assim blindar-se para as próximas eleições presidenciais? Em suma, será Lula um iludido que pensou que com seu carisma poderia mudar o Brasil ou um ilusionista que manipula as carências de determinadas partes da população para conquistar o poder? Será que Lula deixará um legado de longo prazo à sociedade brasileira em termos de uma melhora sustentável para a parcela da população brasileira beneficiada por seus programas sociais?

    Prezados leitores, como já deixei claro anteriormente neste meu humilde espaço, eu me identifico com pensadores como Hobbes, Burke, De Maistre que enfatizavam a emoção, o instinto, as tradições e os valores profundos de um povo para explicar os acontecimentos históricos, e nutro uma antipatia natural por otimistas como Rousseau, Robespierre, Marx, Trotsky que achavam que a natureza humana pode ser moldada e aprimorada à luz da razão para felicidade de todos no longo prazo. Isso não significa dizer que proponho que devamos ficar inertes em face dos desmandos, da prepotência, da desfaçatez, mas simplesmente que tenhamos consciência de que todos nós, sem exceção, por melhores que sejam nossas intenções, cometeremos erros e não conseguiremos realizar grande parte daquilo que havíamos nos proposto. Talvez a reflexão de Lula, se for verdadeira e não for simplesmente oportunista, e o cruzamento da linha vermelha por parte de Alex Tsipras sejam fruto dessa constatação.

    A esquerda, que ao longo da história, tem tido o monopólio das utopias, tem por isso mesmo a maior propensão a decepcionar e a causar um movimento contrário dos realistas de direita. Napoleão e suas guerras sem fim foram uma reação aos desvarios da Revolução Francesa na época do Terror, a ditadura de 1964 no Brasil foi uma reação às boas e ineficazes intenções de Jango Goulart. Será que estamos entrando em uma época pós-Lula de reação às utopias perdidas? Será que gregos e brasileiros pagarão o preço dos sonhos desfeitos ou das pedaladas fiscais num e noutro país (não sei o nome que na Grécia dá-se ao excesso de gastos do governo)? Aguardemos o desenrolar dos acontecimentos.

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Ladeira da Preguiça

Quando a determinação ao invés da habilidade torna-se o fator decisivo para o sucesso, você pode acabar favorcendo o burro e ativo — que pode ser considerado o pior tipo.

Trecho retirado do artigo “Vamos repensar a semana de trabalho” de Rory Sutherland publicado em 25 de abril

A Câmara está funcionando, o que é bom, mas o ronco do motor está desafinado. As votações aqui não estão refletindo em benefício do povo. Cunha está potencializando o panis et circenses. Distrai a população com temas ocmo a maioridade penal , que não resolvem.

Deputado federal pelo Rio de Janeiro Miro Teixeira, comentando o ritmo frenético de votações no Congresso imposto por Eduardo Cunha, o presidente da Câmara dos Deputados

Essa ladeira, que ladeira é essa?

Essa é a ladeira da preguiça

Ela é de hoje

Ela é desde quando

Se amarrava cachorro com linguiça

Trecho da música “Ladeira da Preguiça” cantada por Elis Regina

    Prezados leitores, para quem pensa que a gestão de pessoas só teve início no século XX com a criação dos Departamentos de Recursos Humanos, saibam que lpideres de antanho já tinham essa preocupação em mente. No século XIX, de acordo com o artigo cujo trecho foi transcrito acima, o marechal-de-campo prussiano Helmuth Karl Bernhard Graf von Moltke (1800-1891) classificou os oficiais do Exército da Prússia utilizando uma matriz, em ordem decrescente: inteligentes e preguiçosos – eram escolhidos para serem os comandantes porque de acordo com von Moltke faziam a coisa certa acontecer, encontrando a maneira mais fácil de realizar a missão; inteligentes e ativos – eram escolhidos para serem oficiais do Estado Maior porque elaboravam planos inteligentes que faziam com que ocorresse a coisa certa; estúpidos e preguiçosos: eram escolhidos para tarefas braçais que precisam ser realizadas por um oficial, pois eles seguem ordens sem causar muitos problemas; estúpidos e ativos – são perigosos e precisam ser eliminados, pois eles fazem as coisas acontecerem, mas as coisas erradas, e assim causam problemas.

    Essa perpicaz observação dos tipos humanos vem à minha mente no momento em que assistimos ao ativismo dfo Legislativo federal sob a batuta de Eduardo Cunha. Não estou aqui a dizer que o excelentíssimo deputado carioca deveria ser enquadrado na quarta categoria, porque afinal ele é um político e todo político tem por objetivo manter-se no poder. A pauta escolhida por Cunha, maioridade penal, demarcação das terras indígenas, escolha dos ministros do STF, pacto federativo e estatuto da família, atende a certos anseios dos evangélicos e de outros grupos de interesse como prefeitos que querem ter mais verbas às custas da União.

    Portanto, nada mais lógico para Cunha do que satisfazê-los para garantir apoio nas próximas eleições. Em uma democracia assegurar votos é a principal preocupação e tudo se subordina a tal meta, por mais que os prefeitos, senadores, deputados, vereadores, governadores e presidentes repitam ad infinitum o blá blá blá sobre os interesses do país. Ao contrário de Von Moltke, que estava sob a pressão de encontrar maneiras de vencer militarmente os inimigos da unificação da Alemanha, entre eles a Áustria e a França, nossa classe política não tem nenhuma meta pública específica, concreta, apesar de terem a meta particular de manterem-se em seus postos ou conseguirem postos mais importantes. Assim, temos um tipo como Eduardo Cunha que estabelece uma extensa pauta em sua maior parte inútil não porque seja estúpido e ativo, mas porque é inteligente e preguiçoso os suficiente para atingir sua meta de manter-se no poder pelo caminho fácil do foco em temas apaixonantes, que dizem respeito aos valores morais de cada um, como a família, a religião para não decidir sobre os assuntos realmente importantes, mas cuja solução requer coragem e criatividade por parte de verdadeiros líderes públicos.

    Um assunto realmente importante que exige uma atuação rápida e eficiente é o nó da infraestrutura, já tantas vezes abordado aqui. De acordo com o jornal O Estado de São Paulo de 14 de junho, em 15 anos o Brasil caiu doze posições no ranking global de competitividade em termos de infraestrutura básica: em 2001 estávamos na 41ª posição e hoje estamos na 53ª posição. Novamente aqui a atuação pública das nossas autoridades corresponde ao tipo do estúpido e ativo da matriz prussiana. O Programa de Aceleração do Crescimento foi lançado em 2007 e em 2011 foi lançado o PAC2 mesmo não tendo o PAC1 terminado e mesmo depois de o Tribunal de Contas apontar irregularidades no programa, como falta de projeto executivo ou inconsistência do projeto para certas obras, falta de licenciamento ambiental, preços orçados acima dos preços de mercado. Pois bem, depois de dois programas incompletos e falhos, no dia 9 de junho de 2015 houve o lançamento do PIL, Programa de Investimentos em Logística, que prevê investimentos de 198 bilhões de reais de 2015 a 2019.

    PAC, PIL, siglas bombásticas, alardeadas aos quatro ventos como prova de que o Executivo está trabalhando em prol do crescimento econômico e da geração de emprego. Mas o atraso do Brasil em relação aos nossos principais concorrentes, como Estados Unidos, Canadá, Índia, Argentina, China e México mostra que os resultados são pífios relativamente ao que é necessário simplesmente para mantermo-nos no mesmo nível de antes de 2001. Será em vez de todo esse ativismo marqueteiro não seria mais recomendável o governo federal despender tempo fazendo uma avaliação detalhada sobre o que deu errado? Será que não seria melhor um trabalho de formiguinha que investisse na capacitação de funcionários públicos para que os projetos sejam elaborados de maneira correta, para que as licitações sigam o protocolo legal, para que as estimativas de custos sejam realistas? Será que tal trabalho pouco visível não traria mais resultados em termos de diminuição de atrasos, erros e paralisações que acabam custando fortunas? Será que não valeria a pena nossas autoridades gastarem alguns anos nisso, preparando o terreno para que houvesse mais certeza sobre o que e como deve ser feito e a qual preço? Ó não, isso é pedir demais. Gastar tempo em atividades que não produzirão factóides como inaugurações, colocação da pedra fundamental e fotos de autoridades sorrindo de capacete e macacão não é a maneira mais eficaz de atuar por parte de políticos que precisam mostrar ao público as mágicas de que são capazes para se elegerem.

    Prezados leitores, enquanto vivermos em um sistema político que premia a atuação estúpida e ativa no domínio público e inteligente e preguiçosa na defesa dos interesses mesquinhos dos nossos legítimos representantes temo que não avançaremos no ritmo de que precisamos para recuperarmos tudo o que perdemos na década de 80 e que corremos o risco de perder nesta segunda década do século XXI. A mudança de duração do mandato de cargos eletivos, a mudança nas regras de imputabilidade penal, o lançamento de programas de governo em série em ritmo de pastelaria, tudo isso será uma corrida frenética e insensata que nos fará espatifarmo-no muro de proteção. Talvez seja o caso de irmos descendo a ladeira devagarinho, medindo os passos para que consigamos chegar ao nosso destino com o balde d’água intacto na cabeça.

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