Pequenas esperanças ou grandes frustrações?

O que está em curso é uma tropicalizaçãodas regiões consideradas subtropicais, que perdem o prefixo “sub”. Em vez de quatro, elas terão praticamente duas estações: o verão, mais quente e seco, eo inverno, chuvoso e frio.

Carlos Nobre, climatologista do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE)

Estiagem que se espalha por vários Estados já causa prejuízos bilionários

Manchete da seção de Economia e Negócios do jornal O Estado de São Paulo de 19 de outubro

O Brasil precisa de crescimento e melhor governo. Aécio Neves tem mais probabilidade de fazer isso do que Dilma Rousseff.

Trecho retirado do editorial da Revista The Economist de 18 de outubro intitulado “Why Brasil needs change”

 

                Prezados leitores, em nossa democracia tupiniquim depois das eleições há sempre o dilúvio, não no sentido literal da palavra, de quantidades excessivas de água, exatamente o oposto. Nossos governantes, passado o obstáculo da garantia do cargo cobiçado, começam a nos revelar as más notícias, que precisavam ficar encobertas por uma cortina de fumaça para que os eleitores possam se deixar iludir. É uma estratégia que infelizmente funciona. Em São Paulo, a crise abissal de água, que ameaça a economia e a vida cotidiana das pessoas no Estado mais rico do país, não impediu que o governador Geraldo Alckmin fosse reeleito.

                  O fato é que o tamanho da poça de lama em que estamos metidos foi escomoteado pelo uso do volume morto do Sistema Cantareira e pela confiança demonstrada pelo governador de que o problema será resolvido com as chuvas de verão. Nós eleitores fingimos acreditar que tudo está bem e que nossas autoridades vão dar conta do problema, porque não queremos admitir para nós mesmos que não podemos confiar nelas, pela simples e boa razão que o apertar de botões nasurnas eletrônicas a cada dois anos não é um fator suficiente de pressão para que sejam eficientes.

                Na prática, imediatamente finda a contagem dos votos, pipocaram más notícias e problemas. Coincidentemente a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo resolveu admitir que há risco de racionamento e a falta d’água em todo o Estado se espalha como fogo em capim seco. A última reserva será usada agora, a segunda cota do volume morto, mas mesmo que chova dentro do esperado, o que não é certo, dadas as mudanças climáticas estudadas pelo climatologista Carlos Nobre, é de se esperar que o Sistema Cantareira, em coma, demore anos para se recuperar, o que pode fazer com que a seca se torne crônica. Como lidaremos com o problema? Pelo modo capitalista, aumentando consideravelmente o preço da água, de modo a torná-la artigo de luxo? Se for para condenarmos a população com menor poder aquisitivo a morrer de sede, terá que haver uma transferência das populações para outras regiões do país onde haja maior abundância relativa de um bem tão essencial. Como isso será feito? Nossas autoridades pagarão o transporte para a Amazônia, onde há os maiores mananciais de água? Ou as pessoas começarão a sair do Sudeste como refugiados da estiagem, por puro desespero?

                O que dificulta a abordagem de problemas sérios como esse é que no Brasil temos uma grande dificuldade de trabalharmos com o pior cenário. Hoje quando estava pagando a conta de um café comecei a conversar com o dono do restaurante se ele estava se preparando para a escassez de água de maneira a permitir a operação do seu negócio. Percebi que ele foi pego de surpresa com minha pergunta e ele simplesmente disse que não adiantava planejar, porque de qualquer modo não haveria carro-pipa para todo mundo. O fato é que os mais paranóicos, ou precavidos, já estão estocando galões do precioso líquido em casa. É uma estratégia que faz sentido, considerando que o caos ainda não se instalou e portanto ainda é possível comprar garrafões a preços que não refletem ainda a escassez do bem. Para quem tem espaço em casa para armazená-los, então,nada melhor do que garantir pelo menos a água da comida.

                Prezados leitores,reclamei aqui do governador de São Paulo e esua estratégia de tapar o sol esturricante que evapora nossas represas com a peneira. Será que a abordagem dos fatos da vida é melhor no nível federal? Não tenho grandes esperanças a esse respeito. Lembro-me do Plano Cruzado e como os preços congelados ajudaram a eleger governadores, deputados e senadores do PMDB em 1986. Logo depois das eleições os preços foram descongelados e a mentirinha dainflação controlada caiu por terra. Talvez o otimismo natural de nós brasileiros nos leve a enfocar coisas positivas e esquecer ou minimizar as negativas, varrê-las para debaixo do tapete demodo que elas apodreçam lá dentro e sumam.

                O atual Fla Flu entre petistas e tucanos reflete esse otimismo que se fia em dados tênues. Os eleitores de Aécio e os editorialistas da Revista The Economist,que apostam suas fichas nele, parecem acreditar que a mudança de governo terá efeitos extraordinários no Brasil. A Petrobrás será mais bem gerida, a reforma tributária será feita, o governo interferirá menos na economia, Armínio Fraga, o coelho da cartola do PSDB,garantirá o controle da inflação, e assim haverá mais confiança dos investidores e inauguraremos um ciclo virtuoso de estabilidade, investimentos, emprego. Não digo nem que sim nem que não, mas o fato é que há várias condições que permanecem as mesmas e não permitem mágicas.

                  Nosso Congresso continua tão ruim quanto era, pela representação excessiva dos Estados mais atrasados e pelo total desinteresse dos eleitores pela escolha dos parlamentares. Portanto, uma reforma tributária esbarrará no mesmo conflito de interesses entre as regiões brasileiras e pela modorra legislativa. A economia mundial não anda bem das pernas e independentemente de quanto os investidores internacionais gostem ou não do governo de plantão, não teremos lámuitas benesses. Quanto à corrupção, é difícil não acharmos, diante de tantos escândalos de parte a parte, quetrocando o PT pelo PSDB estaremos fazendo algo muito além do que trocar a Camorra pela Cosa Nostra. O modo como as instituições públicas são organizadas no Brasil, com excesso de burocracia, ritos, carimbos, protocolos, faz com que elas sejam pouco transparentes e quase que totalmente imunes ao controle do povo, que parece ter coisas mais interessantes com o que se preocupar (incluo-me neste rol de alienados).

                  Prezados leitores,perdoem meu pessimismo e paranóia. Quem sabe chova torrencialmente no Sudeste no verão e a notícia da estiagem torne-se tão estapafúrdia quanto o bug do milênio. Quem sabe mudando a Presidenta pelo Presidente mude a qualidade da administração pública no Brasil? O melhor talvez seja atingirmos um meio termo e cultivarmos pequenas esperanças para não termos grandes frustrações.

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Adolescentes de 16 anos: anjos ou demônios?

Aécio defende proposta apresentada por seu candidato a vice, Aloyisio Nunes Ferreira (PSDB-SP), que prevê a redução da maioridade penal quando menor de 16 a 18 anos cometer crimes graves ­ em vez de se aplicar o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), quelimita o tempo de internação a três anos, [sic] esse jovem a penas mais duras, conforme o Código Penal. Marina é contra a redução mesmo em casos pontuais e pediu a Aécio que reveja essa postura para declarar apoio no 2º turno.

Trecho extraído do artigo “Aécio aceita parte dos compromissos de Marina” publicado no jornal O Estado de São Paulo de 12 de outubro de 2014

A polícia faz operações sistemáticas em áreas onde há tráfico de drogas e percebemos que quadrilhas têm recrutado cada vez mais crianças e adolescentes. Eles estão sendo usados para atuar na linha de frente.

Trecho extraído do artigo “A idade da reincidência” publicado no jornal O Globo de 12 de outubro de 2014

   Prezados leitores, ao fim e ao cabo de muitas crises existenciais, reflexões e ponderações, Dona Marina Silva aceitou apoiar Aécio Neves para o segundo turno das eleições presidenciais. Um dos pomos da discórdia, o da redução da maioridade penal, parece ter sido relegado por Marina, talvez por ela achar que por enquanto não seja uma séria ameaça, já que ainda é projeto de lei, e como sabemos nosso Legislativo trabalha três diaspor semana, se tanto, quando não há feriados. Portanto a necessidade vislumbrada por Marina de tirar o PT do poder revela-se de tal monta que sua ojeriza pela transformação dos atuais inimputáveis de 16 anos em imputáveis criminalmente não pode prejudicar o bem maior.

   Esta aí uma coisa que me intriga na nossa legislação.Minha estupefação é fruto da inconsistência. O artigo 14, parágrafo um, inciso II letra c da Constituição Federal dá o direito político do voto aos maiores de dezesseis anos. O artigo quinto, parágrafo único do Código Civil concedecapacidade para os atos da vida civil a menores de dezesseis anos que são emancipados pelos pais ou que conseguem se manter por meio de atividade econômica. O artigo 1517 do mesmo diploma legal, como dizem os advogados, concede o direito ao menor com dezeseis anos de idade de casar-se mediante autorização dos progenitores.

   Enfim, nossa lei concede uma série de direitos a essa faixa etária, mas no momento de impor obrigações ela é leniente para dizer o mínimo, estabelecendo no artigo 27 do Código Penal que os menores de 18 anos são penalmente inimputáveis, sujeitos às normas do Estatuto da Criança e do Adolescente, que como sabemos estabelece as medidas socioeducativas para os infratores. Por queos dois pesos e duas medidas? Por que de um lado consideramos que um indivíduo de 16 anos tem discernimento para escolher o Presidente da República, tem capacidade para sustentar-se, sabe escolher seu cônjuge e na hora de apertar um gatilho e matar uma pessoa ou praticar um furto achamos que ele não tem discernimento para ter consciência da gravidade do ato?

  Os bem pensantes consideram a redução da maioridade penal uma falsa solução, uma manobra demagógica, porque colocar mais pessoas nas cadeias brasileiras superlotadas não vai resolver o problema, só vai piorá-lo, porque vai permitir a menores que aprendam com os mais velhos e tornem-se PhDs na bandidagem.Não pretendo aqui defender as virtudes ressocializantes da cadeia. É claro que para indivíduos excepcionais como Aleksandr Solzhenitsyn, que ficou preso durante 11 anos em campos de trabalho forçados na União Soviética, o encarceramento pode ser um bálsamo. Ele confessa que ascendeu espiritualmente, pois os anos de sofrimento permitiram-lhe focar o pensamento naquilo que interessava e criaram nele a resolução de tornar-se escritor, carreira esta que foi coroada em 1970 com o Prêmio Nobel de Literatura. Possotambém citar o exemplo de um brasileiro, para quem a prisão também rendeu bons frutos: Graciliano Ramos, que foi acusado de ser comunista um pouco antes do golpe de Estado de Getúlio Vargas, foi enviado em 1936 para o Presídio da Ilha Grande, no Rio de Janeiro. Sua estadia lá inspirou-lhe o livro Memórias do Cárcere, que infelizmente foi publicado com várias alterações e cortes, de vido à censura imposta pelo Partido Comunista Brasileiro, ao qual o autor se filiou em 1945.

   Mesmo levando em conta esses casos, não tenho ilusões sobre a média dos presos, para quem a vida confinado só traz miséria material e moral, pois aumenta a corrupção do indivíduo, ainda mais nos estabelecimentos prisionais brasileiros em que as condições são precárias, para dizer o mínimo. Definitivamente não é a cadeia que vai dar aulas de cidadania aos brasileirosrecalcitrantes e é ingênuo pensar que tal situação vá melhorar no médio prazo, pois se não cuidamos nem da saúde e educação dos brasileiros em dia com a lei, não priorizaremos tal atividade em relação aos fora da lei.

   Nesse sentido, haveria duas razõespara aceitarmos colocar mais um grupo de pessoas nas nossas prisões infernais. Em primeiro lugar é sensato que coloquemos indivíduos perigosos fora do convívio social para que eles não causem mais mal. Pelo artigo 121, parágrafo terceiro do Estatuto da Criança e do Adolescente, o menor infrator não pode ficar mais de três anos internado. Ora, alguém em sã consciência acredita que três anos de privação de liberdade é suficiente para mudar o comportamento de um adolescente que praticou um crime hediondo por meio de medidas socioeducativas ou para proteger a sociedade de um indivíduo que pode voltar a matar? Em segundo lugar, é preciso que nossas autoridades respondam à estratégia utilizada pelas quadrilhas apontada acima, qual seja, a de utilizar menores inimputáveis nas atividade criminosas, como forma de minimização dos danos para os membros. O fato é que nossa lei, com o nobre objetivo de proteger os vulneráveis, estimula que os menores sejam iniciados em crimes graves como homicídio bem cedo, pois a certeza da impunidade (o menor que cumpre a medida socioeducativa sai com a ficha criminal limpa) funciona como um grande estímulo.

   Prezados leiotres, peço-lhes perdão pela possível decepção que causei ao revelar meu lado Jair Bolsonnaro, o deputado federal durão mais votado no Rio de Janeiro, mas a mim me parece que o tratamento dado aos brasileiros de 16 anos de idade falha por ser inconsistente, causando um desequilíbrio entre os direitos de que eles gozam e os deveres que lhe são impostos. Se optarmos por considerá-los seres vulneráveis, cuja personalidade ainda está em formação, então não podemos considerá-los maduros o suficiente para votar, para casar, para constituir família e sustentá-la. Mas se queremos seguir a lógica dessa emancipação devemos aceitar que eles estejam prontos a assumir plena responsabilidade por seus atos ilegais.Deixemos o sentimentalismo de lado e encaremos os fatos da vida: ou o adolescente é vítima e incapaz ou então ele é considerado capaz tanto do bem quanto do mal.O que não podemos é continuar com essa ambiguidade em nossa lei.

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O Cometa Halley

Pessoa, animal ou coisa muito rápida, que surge e some de repente

Definição de cometa tirada do Dicionário Houaiss

Horas depois, no meio da tarde da última terça-feira, a candidata do PSB mostoru que absorveu cada um dos conselhos e abandonou um dos pilares da sua nova política, o de fazer o debate, não o embate. […] No mais agressivo discurso nesta campanha presidencial, chamou o grupo da adversária de “essa gente”, desqualificou a trajetória política de Dilma e a acusou de mentir.

Trecho retirado do artigo “Em busca dos votos perdidos”, publicado no jornal O Globo de 5 de outubro

Poeira Poeira Poeira Levantou Poeira

Refrão da música “Sorte Grande” de Ivete Sangalo

    Prezados leitores, permitam-me fazer um mea culpa, até eu, que tanto critico nossa fissura por pesquisas,deixei-me fascinar pelosíndices de aprovação. Em uma campanha eleitoral em que todas as ações foram pautadas pelos númerosdo Datafolha e do Ibope, para falar dos institutos mais importantes, o sobe e desce nas pesquisas acabou sendo o único assunto comentado pelas pessoas, mais do que o outro assunto que foi as declarações do candidato Levy Fidelix sobre os homossexuais. Digo que deixei-me fascinar porque cheguei a acreditar que Marina Silva teria fôlego para chegar ao segundo turno ao colocar-se como a terceira via, além das picuinhas entre PT e PSDB.

    Devo explicar o porquê de eu ter acreditado. Em primeiro lugar, Marina pareceu encarnar aquele mítico novo que os brasileiros sempre procuram em uma eleição para cargos majoritários. Sejamos honestos: apesar de sempre louvarmos a democracia, o fato é que na prática não lhe damos a devida atenção e cuidado: na hora de escolhermos deputados estaduais ou federais, muitos votam nulo, ou no máximo dão-se ao trabalho de votar na legenda. Isso reflete a profunda desconfiança que os brasileiros têm dos membros do parlamento. De acordo com uma pesquisa do Data Popular feita com 15.652 pessoas em 159 cidades, 82% dos brasileiros desconfiam de deputados estaduais, 75% desconfiam de deputados federais e 65% desconfiam dos senadores.

    Ou seja, escolhemos mal os membros do Poder Legislativo, poder este que representa a população brasileira de maneira totalmente distorcida, privilegiando os Estados do Norte e Nordeste em detrimento do Sul e Sudeste. A única escolha que para os brasileiros realmente importa é aquela para governadores e presidente, é nela que depositamos nossas esperanças. Pela sua origem humilde de self-made woman, pelo fato de não ter ocupado cargo eletivo no Executivo, achei que Marina seriao foco dessas esperanças em 2014,.

      Em segundo lugar, achei que Marina iria emplacar porque seu discurso new age de sustentabilidade soaria bem aos ouvidos dos moradores das grandes cidades que querem usufruir dos benefícios da preservação do meio ambiente sem ter que arcar com os ônus de tal preservação, e jovens em geralsempre antenados com o novo. Enganei-me redondamente, pois Marina terminou mais ou menos no mesmo patamar onde estava em 2010. Cabe no momento a pergunta: o que ela fez de errado para subir vertiginosamente e de repente começar a cair pelas tabelas, deixando atrás de si somente a poeira do cometa?

    Acredito que os erros de Marina na verdade revelam muito sobre as caracteristicas do nosso processo democrático. O ideal em uma democracia seria que cada candidato tivesse seu programa pronto desde o início para que os competidores se posicionassem claramente e houvesse discussões em tornos dos pontos específicos de saúde, educação, economia etc. Como bem sabemos, não foi nada disso que aconteceu. Afinal, que importância havia em programas de governo se a própria presidente até o final do primeiro turno não lançou o seue Aécio lançou seu programa em capítulos na última semana de campanha? Num contexto desses, Marina, que queria debate, e não embate, e foi a primeir a lançar suas propostas, não levou muita vantagem. Mesmo nos debates televisivos foi rara a manifestação de alguma ideia crível, e sua intenção acabou tornando-se letra morta.

      De fato, as perguntas programáticas que foram feitas nos debates acabavam sendo logo esquecidas porque na maior parte das vezes elas eram uma simples oportunidade para o respindente criticar o candidato que fizera a pergunta, seu oponente nas pesquisas.  Só havia respostas mais detalhadas sobre programas de governo quando dois candidatos faziam conluio para atacar um terceiro indiretamente. Foi o caso, por exemplo de Aécio Neves e o Pastor Everaldo, que trocavam gentilezas mútuas sobre políticas públicas aproveitando para alfinetar Dona Dilma. No final das contas depois de debates na Record, Band, Globo e SBT eu pergunto a vocês: sabem o que cada um dos candidatos faria se eleito? De Aécio a única coisa que me ficou foi que ele vai nomear Armínio Fraga, o mago das finanças, como Ministro da Fazenda. Luciana Genro com certeza teria como primeiro ato de governo mandar prender Levy Fidelix pela sua “homofobia” e talvez mandasse prender também todos os banqueiros. Marina prometeu que iria pagar um décimo terceiro salário aos beneficiários do Bolsa Família, mas não explicou de onde viria o dinheiro. Eduardo Jorge com certeza liberaria a maconha e Levy Fidelix proporia ao Congresso uma lei contra a propaganda do homossexualismo às crianças, como fez Vladimir Putin, na Rússia.

    Em suma, em uma campanha política em que explicações sobre o que será feito, com que dinheiro e para quem será feito são raras, a boa intenção de Marina de propor caiu por terra ante a necessidade premente de responder aos ataques de Dilma e de Aécio. E convenhamos, Dona Marina pecou muito na organização, o que minou ainda mais sua tentativa depolítica do século XXI em um país que ainda não tem cultura nem para fazer a velha política parlamentar do século XX: seu programa teve erros e precisou ser corrigido depois de lançado, suia convivência com os caciques do PSB, o partido hospedeiro, foi para lá de complicada, pois ela recusou-se a subir em muitos palanques regionais onde o PSB havia feito alianças com pessoas que ela não considerava boas, para não falar do seu fracasso em montar seu próprio partido a tempo para a eleição. Talvez fosse o caso de Marina candidatar-se a governadora do Acre nas próximas eleições e adquirir maior tarimba para lidar com o mundo cão da democracia brasileira para que sua experiência lhe sirva para aprimorar sua prática da política baseada nas alianças de pessoas que têm ideias comuns.

      No frigir dos ovos, depois da passagem do Cometa Halley perto do Cruzeiro do Sul, teremos como sempre o velho FLA FLU, tão nosso conhecido. Preparemo-nos para vermos no programa eleitoral manchetes de jornal sobre escândalos de corrupção, Alstom, Petrobrás, notícias de contas na Suíça e por aí vai. Viva nosso ringue tupiniquim!

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Preto no branco

As elites empresariais ou intelectuais do país tendem a ser brancas (há ainda exceções, mas elas estão se tornando mais raras ao longo dos anos). Nos anos 80, o México era de novo o país das três nações: a minoria crioula das elites e da classe média alta, que vivem com estilo e riqueza; a grande e pobre maioria mestiça; e a minoria totalmente despossuída do que nos tempos coloniais era chamada de República dos Índios.

 

Jorge G. Castañeda, intelectual e político mexicano, em 1995, ao apontar o substrato étnico das disparidades verificadas no México

Escravidão era prática usual na África antes de os europeus chegarem e, quando virou negócio global, continuou enriquecendo africanos.

Trecho retirado do artigo “Escravo é aquele que não sou eu”, escrito por Alexandre Vieira Ribeiro para a edição de setembro de 2014 da Revista de História da Biblioteca Nacional

Escravidão ajudou a enriquecer a Suíça – Bancos do país financiaram, segundo pesquisas, o tráfico de pelo menos 175 mil escravos africanos

Artigo escrito por Jamil Chade para o jornal o Estado de São Paulo a respeito da atuação de banqueiros suíços de Neuchâtel no comércio de escravos para a América

            Prezados leitores, tem se tornado comum este cavoucar do passado, este reabrir de velhas feridas para entender certos fenômenos que ainda estão presentes em nossa sociedade. No Brasil temos a Comissão da Verdade, que investiga os crimes cometidos durante a ditadura militar. Na Suíça há uma organização não governamental, Cooperaxion, com sede em Berna, capital do país, que pesquisa o envolvimento de suíços e de instituições suíças no comércio de escravos. O objetivo é o de conscientizar os helvéticos a respeito desse assunto e quem sabe, conseguir uma reparação em dinheiro do governo suíço para os descendentes dos escravos.

            Para nós brasileiros, a escravidão é crucial. Crucial porque o Brasil foi o país que mais recebeu africanos (cerca de 45% de todos os escravos trazidos para a América, estimados em 12,5 milhões ao longo de três séculos e meio de tráfico) e talvez o que mais tenha sido influenciado não só pelos povos que foram trazidos à força, mas pelo próprio escravismo que se implantou aqui. Lembro-me das minhas aulas de história em que o professor falava do tal comércio triangular: os europeus trocavam tecidos por escravos na África, levavam os africanos para a América e lá os trocavam por açúcar, rum ou outra commodity que era levada à Europa. O comentário de Jorge Castañeda que citei acima, que aponta as disparidades econômicas do México como diretamente relacionadas às divisões étnicas, bem poderia ser aplicado ao Brasil, o caldeirão de miscigenação da América Latina.

         O que mostra que tal miscigenação não foi completa, no sentido de harmonizar valores, perspectivas e oportunidades econômicas e sociais. Aliás, encontrei essas palavras de Jorge Castañeda em um artigo em que o autor, Steve Sailer, comenta sobre os resultados do trabalho do professor de Harvard Robert D. Putnam sobre os efeitos sociais da diversidade étnica. Putnam interessou-se pelo assunto em virtude do grande afluxo de imigrantes mexicanos aos Estados Unidos e das repercussões de tal imigração na sociedade americana. Para o cientista político americano, elas não são boas, porque essas pessoas trazem consigo sua cultura, seus modo de vida, e a característica principal que ele vê nos mexicanos é que são incapazes de confiar em ninguém que não pertença ao seu ciclo mais próximo de familiares ou agregados. Ao contrário, os Estados Unidos, como já observara Alexis de Tocqueville no século XIX em seu Democracia na América, sempre se caracterizaram por serem um país em que havia altos graus de confiança social. Isso se traduzia em associações cívicas, na participação dos cidadãos em empreendimentos conjuntos para o bem comum, como a construção de escolas, hospitais, bibliotecas e outras instituições públicas. A pujança da democracia americana era o resultado direto desse ativismo social, dessa disposição dos americanos de dedicarem parte do seu tempo para refletirem sobre a res publica e trabalharem para conservá-la. De acordo com Putnam, o aumento da diversidade étnica dos Estados Unidos, ao aumentar a desconfiança mútua dos indivíduos de diferentes origens que não se misturam, mina a sociedade porque torna muito mais difícil haver cooperação mútua para o cultivo da coisa pública. Não é de se estranhar que a democracia americana, que tanto causara a admiração de um francês no século XIX, hoje se assemelhe muito mais a uma oligarquia.

            Prezados leitores, independentemente da origem dessa falta de confiança social que tantos males causa, não podemos deixar de notar isso no Brasil. Poderia falar aqui da nossa democracia de mentirinha, em que elegemos a cada quatro anos representantes no Legislativo e administradores no Executivo que se parecem muito uns com os outros, e que usam e abusam da promessa de renovação sem de fato fugirem do script de corrupção + incompetência a que estamos acostumados.   Mas escolho dar-lhes um exemplo mais prosaico, o modo como as praças públicas no Brasil são normalmente terra de ninguém. Todos os dias rumo ao restaurante passo em frente a um local com quadra de futebol reformado pela Prefeitura de São Paulo, que instalou aparelhos de ginástica e explicações sobre alongamento. Depois de uma semana que a praça novinha em folha tinha sido entregue, vândalos já tinham arrancado os cestos de lixo e já havia sujeira por tudo quanto é lado.

            Em suma, em nosso país, muito provavelmente diria eu por causa da chaga da escravidão, temos uma grande dificuldade de sentirmo-nos individualmente como partes de um todo e de nos responsabilizarmos por nossa participação nesse todo. Preferimos transferir a responsabilidade para outros, para líderes carismáticos, para salvadores da pátria a quem podemos idolatrar num momento e apedrejar no outro. Daí porque acho muito bem-vinda qualquer investigação que lance luz sobre a escravidão, que foi o grande negócio capitalista durante vários séculos. Por outro lado, saber mais sobre a instituição que moldou o Brasil não deveria nos levar a ter ganas de vingança e querer reparações dos países que lucraram com o comércio de gente. Afinal, os europeus organizaram e globalizaram uma atividade econômica que já existia na África, praticada pelos próprios africanos. Portanto, achar culpados do sofrimento de milhões de pessoas não é tão simples assim. Além do mais, devemos ser sensatos o suficiente para não sermos anacrônicos e julgarmos o passado com os olhos do presente. Assim como hoje achamos imoral o tráfico de escravos conforme foi praticado para a colonização da América, daqui a algumas décadas talvez poder-se-á dizer que comprar I-phones da Apple produzidos por chineses que trabalham por salários aviltantes ou fazer pedidos on-line no site da empresa Alibaba Express é algo ignominioso, porque acaba contribuindo para o fechamento das indústrias locais. E no entanto, quantos de nós estamos prontos a condenar os europeus traficantes de escravos e achamos normal participarmos da economia globalizada do século XXI?

            A saída para esses dilemas é sempre o esclarecimento. Sabermos o que de fato foi a escravidão, como de fato funciona a rede global de suprimentos no mundo atual é crucial para fazermos nossas opções morais. O que não podemos é por meio de investigações como as empreendidas pela Cooperaxion eleger os bons e os maus, os bodes expiatórios para serem imolados no altar da indignação seletiva e da hipocrisia. Preto no branco, explicações já, mas que nos levem a um conhecimento nos moldes socráticos, de maneira a renunciarmos ao egocentrismo e sabermos nosso lugar no todo.

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Estamos fritos!

Uma maior inteligência é um erro evolutivo, incapaz de sobrevivência por mais do que um momento fugidio do tempo evolutivo.

Ernst Mayr, biólogo alemão (1904-2005)

A narcoviolência ignora limites, como mostra o caso de um padre colombiano: deceparam seus dedos e o obrigaram a comê-los; depois, fizeram o mesmo com os dedos dos pés; por fim, com os órgãos genitais.

Trecho retirado do artigo “O escritor que desafia as máfias” publicadonaedição da Veja de 24 de setembro sobre o livro de Roberto Saviano sobre o narcocapitalismo

                Prezados leitores, para quem não conhece, Ernst Mayr foi um professor de Harvard estudiosoda teoria da evolução, tal como exposta por Charles Darwin. Envolveu-se em uma polêmica com outro darwinista, o biólogo inglês Richard Dawkins, para quem a adaptação evolutiva ocorria graças ao aparecimento por mutação de um único gene mágico que dava uma vantagem enorme de um espécimen em relação aos seus concorrentes. Para Mayr tal visão era simplista, pois para ele o indivíduo tornava-se mais adaptado ao ambiente e aumentava suas chances de sobrevivência devido ao conjuntodo seu genótipo.

                Mas o motivo pelo qual cito ErnstMayr é por causa de suas ideias sobre as chances de ser encontrada vida inteligente fora da Terra. Em sua opinião a probabilidade era praticamente zero, considerando sua avaliação sobre o valor adaptativo do que chamamos de inteligência superior, significando a forma humana particular de organização intelectual. O biólogo alemão estimava que o número de espécies desde a origem da vida totalizou ao redor de 50 bilhões, somente uma das quais atingiu o nível de inteligência necessário ao estabelecimento da civilização. Isso ocorreu muito recentemente, talvez há 100.000 anos, em um pequeno grupo dos quais somos todos sobreviventes. Utilizando como critério o sucesso biológico, que é maior para besouros e bactérias, mas não tão bomà medida que aumenta o nível de organização cognitiva, Mayr considerava que a expectativa de vida média de uma espécie é ao redor de 100.000 anos. Portanto, o homo sapiens está fadado à extinção, como outras espécies.

                 É difícil não concordar com essas previsões sombrias do famoso biólogo. Afinal, o ataque que temos perpetrado ao meio ambiente que sustenta a vida, nosso ataque aos outros organismos vivos fazem com que o esgotamento dos recursos sejam favas contadas. Se não houver um total colapso das reservas de água doce, de ar respirável e de terras aráveis, pelo menos haverá uma perda tal que uma grande parte da população não vai ter como sobreviver. Por outro lado, é possível termos fé no poder da tecnologia de permitir que reciclemos os recursos naturais e possamos adiar o colapso ambiental ou mesmo revertê-lo usando nossa capacidade mental.Assim, é razoável supor que se o homem teve a capacidade de criar o problema terá também a capacidade de resolvê-lo.

                  Mesmo crendo no poder regenerador da tecnologia, o pessimismo ainda se justifica pelo que o pensador americano Noam Chomsky chamade selvageria fria e calculada dos seres humanos, quando fala da corrida nuclear que começou na Segunda Guerra Mundial e entre ida e vindas continua firme eforte, ameaçando aniquilar a vida na Terra.Eu pessoalmente enfatizo outros exemplos desse comportamento do homo sapiens que consegue fazer uma síntese perturbadora, porque extremamente eficaz, do nosso lado animalesco e do nosso lado racional.

                Penso em primeiro lugar no tráfico de drogas como atividade econômica organizada e em tudoque ele causa no Brasil, na violência, nas vidas destroçadas, na emergência de formas paralelas de poder que desafiam o Estado porque estabelecem formas de justiça sumária. Muitas cabeças pensantes, entre elas a do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e a do próprio autor do livro sobre onarcotráfico, o escritor italiano Roberto Saviano, consideram que a saída para este mal é a legalização das drogas. Essa é uma típica solução dos herdeiros do Iluminismo, para quem a maneira de lidar com o lado negro do homem a que se refere Chomsky é jogar-lhe as luzes da razão, do conhecimento. De acordo com esse tipo de pensamento, o problema das drogas é que elas são proibidas. Basta que elas deixem de ser proibidas e que as pessoas sejam devidamente informadas dos seus benefícios e malefícios para que tomem uma atitude racional e tudo se resolverá. Aqueles que optarem por usar drogas pagarão impostos sobre o consumo e assim financiarão seu próprio tratamento.

                  Tudo muito claro, límpido como a luz do sol sobre as trevas da superstição e do medo! Esses argumentos fazem-me lembrar de um filme a que assisti em que o personagem principal era obrigado a fazer uma consulta ao psiquiatra para tentar corrigir seu comportamento anti-social e ele desafiava o médico com a seguinte contastação: “Doutor, o senho sabe o porquê de os seus pacientes não seremsalvos? É simplesmente porque eles não querem ser salvos!” O fato éque há muitas pessoas compulsivas que não tem vocação para agir com base em análises criteriosas de risco-benefício. Uma liberação das drogas significaria atirar lenha na fogueira, pois facilitaria que o viciado perseguisse a sua paixão, para não falar de jovens que hoje já consomem álcool em quantidades inebriantes devido à inação das famílias, e que teriam mais uma opção facilmente disponível de substância prazeirosa que poderia levá-los ao vício.Além disso, no frigir dos ovos pessoas que decepam dedos e fazem suas vítimas comê-los ou pessoas que atiram no joelho das outras e depois ateiam fogo no corpo da vítima como fizeram os algozes de Tim Lopes, são psicopatas.

                  Infelizmente, psicopatas há aos montes neste nosso velho mundo. É verdade que muitos deles dedicam-se a atividades ilegais, cujas sombras lhes permitem dar asas a sua imaginação, mas há seres desprovidos de consciência moral nas empresas, onde eles se dão muito bem em posições de poder. Tive uma chefe maluca que quando errava colocava a culpa em nós funcionários, fazia-nos brigar uns com os outros, fazia-nos trabalhar à noite e nos finais de semana por pura maldade e permaneceu anos como gerente porqueestalava bem o chicote e faziaseus comandados produzirem, apesar de tornar a vida deles uma miséria. Ela só foi mandada embora quando seus superiores descobriram que ela roubava dinheiro da empresa, não porque tratava mal os recursos humanos. Para falarmos de personagens mais importantes do que uma mera chefe de departamento, Stalin, que consolidou o regime comunista na Rússia, foi um grande psicopata,estabelecendo campos de trabalho forçado por todo o território, em que os prisioneiros eram obrigados a trabalhar sob temperaturas de -40 graus centígrados de cuecas. O livro de Aleksandr Solzhenitsyn já citado neste espaço inclui a estimativa de um professor de estatística, Kurganov, para quem desde a Revolução de Outubro de 1917 até 1959 66 milhões de pessoas foram vítimas da repressão política interna na Rússia.

                   Prezados leitores, a moral daminha história é que por mais que queiramos iluminar todas as pessoas e todos os aspectos da vida, haverá sempre aqueles que fogem da luz como o diabo foge da cruz e quem sempre sentir-se-ão mais confortáveis em um local úmido e escuro, não importa que seja uma boca de fumo, o departamento de uma empresa ou o Soviet Supremo. Pode ser que no final das contas a luz vença, mas tendo a crer que o homo sapiens é um chimpanzé metido a besta que vai pagarpor sua arrogância e cupidez, e que como previu Ernst Mayr, sejamos maisuma espécie que desaparecerá da face da terra como bilhões de outras.

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