Lula e a dança das caixinhas

Para que Lula pudesse inaugurar um navio no meio da campanha presidencial de 2010, a SBM antecipou a entrega e recebeu por isso mias de US$ 25 milhões da estatal brasileira

Trecho retirado do artigo entitulado “Escândalos na Petrobrás”, publicado no jornal O Globo de 14 de dezembro de 2014

“Não havia com sair dessa. E não havia como dizer sim nem não”, resumiu o ex-presidente durante conversa com deputados e senadores na quarta-feira, em Brasília.

Trecho retirado do artigo “Candidato Lula volta à Zona de Conforto – Ex-presidente começa trabalho para disputar o Palácio do Planalto pela sexta vez em 2018”, publicado no jornalO Estado de São Paulo de 14 de dezembro de 2014

Na vida de todo indivíduo há um acontecimento determinado que é decisivo para a pessoa como um todo – para seu destino, suas convicções, suas paixões.

Trecho retirado do livro “O Arquipélago Gulag” de Alexander Solzhenitsyn

   “Ele ou ela tem defeitos e qualidades, como todo mundo. Ninguém é perfeito.” Prezados leitores, quem de vocês nunca ouviu ou repetiu isso? Como se diz em francês, ça va sans dire, é algo tão óbvio a todos, tão evidente por si que nem nos damos ao trabalho de discutir a veracidade do conteúdo. E no entanto, por mais que racionalmente saibamos que as pessoas são uma mistura de coisas boas e ruins, é sempre difícil lidar com isso na prática, principalmente quando somos vítimas da parte “podre”.

    O fato é que nossa mente tende a classificar tudo e acabamos colocando os indivíduos na caixa dos bons e dos ruins. Quando uma pessoa da caixa dos bons realiza algo típico das pessoas da caixa dos ruins espantamo-nos, decepcionamo-nos, e a depender da intensidade da reversão de expectativas, consideramo-nos ludibriados e passamos a classificar a pessoa na outra caixa, a despeito do seu histórico de bom comportamento: nosso cérebro, reconfigurado para outro modo, passa a ver com outros olhos as atitudes e comportamentos de outrora.Algo ruim realizado por alguém ruim só reforça nossas ideias e torna-nos orgulhosos do nosso tirocínio. Talvez a hipótese mais desafiadora seja aquela em que um ser classificado como mau surpreende positivamente. Não é possível refugiarmo-nos no papel de vítima como no primeiro caso, nem satisfazermos nossa vaidade como no segundo: é preciso ter coragem de rever seus pré-conceitos, suas premissas, o que pode ser doloroso para quem se acostumou a uma rotina mental reconfortante.

    Tudo isso para dizer que nossa reação às escolhas morais das pessoas está longe de ser equilibrada, e a classificação nas caixinhas fica difícil. Sem mais delongas, coloco a pergunta: Luiz Inácio Lula da Silva é mocinho ou bandido? O óbvio ululante (sem trocadilhos) é que ele é nem um nem outro, ou melhor é uma mistura dos dois, mas a caixinha é necessária em primeiro lugar porque cada um de nós brasileiros tem uma reação instintiva ao ex-presidente, figura onipresente em nossas vidas desde a primeira eleição presidencial de 1989, ditada pela vivência pessoal de cada um que leva a uma certa conformação intelectual e moral. Em segundo lugar, há uma razão prática: pelo andar da carruagem ele será novamente candidatoem 2016 e teremos que classificá-lo de qualquer forma na turma dos vencedores ou dos perdedores.

    A pergunta parece-me pertinente no momento em que estamos em meio às investigações do maior escândalo de corrupção da história do Brasil, coisa de mais de um 1 bilhão de reais, de acordo com o Ministério Público. Os desdobramentos do caso podem ter um efeito funesto sobre o segundo mandato da dona Dilma, tornar a oposição no Congresso mais renhida, feroz, louca para obstruir toda e qualquer iniciativa de um governo que já começa manchado pela lama das propinas que serviram para financiar campanhas políticas. Em suma, a Operação Lava-Jato da Polícia Federal tem tudo para instigar o Fla Flu que foi a tônica daeleição presidencial de outubro. E não há como negar que Lula é o chefe de uma das torcidas organizadas que estão lutando no ringue que é nossa democracia, no caso o líder máximo do Partido dos Trabalhadores.

    A esta altura da nossa vida republicana é hora de fazermos uma constatação, independentemente do que Lula fez de bom ou de ruim enquanto esteve na Presidência, e do que fará se voltar. O homem claramente tem um projeto de poder, isto é, de manter-se no Executivo com seu partido por décadas a fio. E para concretizar esse projeto vale tudo, inclusive usar a Petrobrás, a maior empresa do país, como cabo eleitoral, conforme asinvestigações mostraram a respeito do contrato com a empresa holandesa SBM.Quando digo vale tudo, quero dizer que Lula e sua turma utilizarão todos os recursos de que dispõem para conseguir seu intento. Alguns dirão que isso mostra que já o classifiquei na caixinha dos maus. Neste sentido sim, com certeza, assim como classifico Fernando Henrique Cardoso que moveu céus e terra para aprovar a emenda da reeleição que o beneficiava, e como classifico Rafael Correa, presidente do Equador, que já vi ao vivo, tem um raciocínio muito claro e sabe como funciona o mundo, ao contrário de uma ingênua candidata a presidente que ficava melhor no papel de palestrante motivacional. Para quem não sabe, Rafael Correa quer mudar a Constituição do Equador para poder se eleger indefinidamente.Não digo que me decepcionei com ele, pois a mosca azul do poder quando pica deixa uma impressão indelével.

    Neste ponto devo fazer uma ressalva: em minha opinião Lula é mais deletério do que Fernando Henrique porque este já pendurou as chuteiras e sua vaidade agora restringe-se a pontificar sobre os assuntos do momento quando é chamado a fazê-lo. O ex-metalúrgicoestá longe de se aposentar e as paixões que sua figura provoca ainda influenciam os rumos da nossa política, tornando o diálogo entre governo e oposição difícil, especialmente se considerarmos que nossa oposição em matéria de decoro e improbidade administrativa deixa tão a desejar quanto a situação, o que dá munição a esta para colocar-se de vítima daconspiração de perdedores.

    Qual terá sido o ponto de inflexão de Lula, isto é, o momento em que ele se cansou do papel de candidato de esquerda marginal emandou seus escrúpulos morais para as cucuias (aliás como FHC, que disse que deveriam esquecer o que havia escrito)? O mais provável é que o gosto amargo da derrota para Fernando Collor de Mello, um arrivista de Alagoas, tenha sido sentido por Lula como uma tremenda injustiça para alguém que como ele estava na luta política há décadas. Daquela eleição o líder do Partido dos Trabalhadores deve ter tirado a lição de que para fazer o bem aos brasileiros era preciso sujar as mãos e assim ele o fez,rendendo-se às exigências do capital financeiro, rendendo-se à necessidade de acordos com aqueles mesmos políticos que outrora ele havia denominado de picaretas. Os defensores de Lula dirão que é um sinal de maturidade, saber negociar para garantir certas conquistas. De fato, mas me parece quehá um momento em que a negociação e a tergiversação devem parar em nome de um projeto de país.

     O que Lula quererá em 2016? Expandir o Bolsa Família? Preservá-lo? Isso pode ser feito por candidatos da oposição que já se comprometeram com o programa. Ou simplesmente permanecer no poder pelo prazer de fazê-lo, utilizando a máquina pública como seu instrumento principal? Em última análise, colocar alguém na caixa dos bons ou dos maus depende de certos detalhes que mudam totalmente a perspectiva. Eu definitivamente coloco Lula na caixa dos maus porque acho que ele já exagerou na dose de apego ao poder e não tem nada mais a oferecer ao Brasil, além do seu próprio carisma e do seu passado de realizações.

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Querelas do Brasil

O inegável sucesso do Ocidente no plano econômico não é forçosamente exportável tal qual: não é sua realidade que se deve contestar, mas sua pretensão ao universalismo

Trecho retirado do livro “Nos Confins do Direito” do professor de antropologia jurídica e história do direito Norbert Rouland

O Brasil, não conhece o Brasil

O Brasil, nunca foi ao Brasil

Trecho da música Querelas do Brasil, de Aldir Blanc

América Latina precisa de novo caminho para crescer

Título de um artigo publicado no jornal O Globo de 7 de dezembro sobre o esgotamento do modelo de desenvolvimento adotado na região no início dos anos 2000

     Prezados leitores, nesta última sexta-feira vivenciei uma experiência antropológica, isto é de observação de uma determinada comunidade. Não foi nenhum trabalho de campo para pesquisa acadêmica, foi simplesmente uma ida ao interior de São Paulo para participar de uma ação de cidadania corporativa da empresa em que trabalho. Eu me voluntariei para nela estar e lá fui eu, em uma van, com três outras colegas de firma, para participarmos da formatura de adolescentes carentes que concluíram um curso patrocinado em conjunto com uma universidade pública. Não darei nomes aqui porque evito falar da minha persona corporativa para ficar livre de constrangimentos.

        A festa teve duração de três horas, e incluía a concessão do cobiçado prêmio aos dois melhores alunos: uma bolsa de estudos para cursar o ensino médio em um colégio particular da cidade. Esse é o ponto culminante porque há grande expectativa para saber quem vai ganhar. Neste ano foram duas meninas, e as respectivas famílias foram chamadas à frente. São pessoas muito pobres, o que se nota pelas roupas e pela incapacidade de falar de maneira articulada para fazer um agradecimento. Há também um outro detalhe: é um universo predominantemente feminino: veem-se irmãs, mães, avós, mas raramente veem-se pais, maridos. Reparei em muitas mães novas, com 20 anos no máximo, com seus filhos no colo, mas quase todas acompanhadas de outras mulheres. Pode ser que os homens estivessem trabalhando, e não puderam faltar ao trabalho, afinal o evento foi à tarde, mas suspeito que em muitos casos a ausência de figura masculina reflete o fato de as famíliasterem como chefe a mulher.

         Para falar a verdade, há outros momentos importantes, talvez até mais cruciais do que a netrega das duas bolsas de estudo. Há o sorteio dos presentes de Natal: fogão, tanquinho, equipamento para fazer chapinha, secador elétrico, liquidificador, batedeira, jogo de toalhas, celular. Ainda tenho na minha mente a cara de felicidade da mãe de um dos alunos do programa que ganhou um tanquinho: ela mexia-se toda, requebrava-se, excitada.No último ato da festa há um grande alvoroço também: a distribuição de lembranças de Natal a todas as crianças: um panetone e uma mochila, comprados pela minha empresa, embalados em pacotes de presente com a etiqueta corporativa. Fomos nós os funcionários quem distribuímos, sempre fotografados pelo profissional especialmente contratado pela firma para registrar uma demonstração tão cabal de responsabilidade social. A distribuição é sempre confusa, porque as crianças ficam ansiosas para pegar o seu panetone e mochila. Digo sempre porque eu participei da festa no ano passado e certas coisas se repetem.

     Todos esses detalhes que dei até agora servem para que eu chegue ao momento das minhasobservações antropológicas, de alguém que tenta ver tudo aquilo com um olhar objetivo. Certas coisas chamaram minha atenção. Em primeiro lugar, as escolhas musicais foram em sua maioria retiradas do cancioneiro americano: músicas dos dos anos 60, 70, funk, hip hop. É claro que houve canções brasileiras, mas eu esperava que em um programa patrocinado por uma universidade pública com finalidade educativa houvesse uma tentativa de fugir da mesmice e cultivar gostos alternativos nas crianças. Doce ilusão: quando da entrega da bolsa de estudos, tocaram “We are the Champions” do grupo britânico Queens e em um vídeo especialmente preparado pelas crianças para louvarem sua participação no curso elas cantaram um funk.

         Algusn acusar-me-ão de ser partidária da teoria de Aldo Rebelo, que um dia quis proibir o uso de expressões em inglês em nossa língua. Pode ser que insistir em Tom Jobim, Villa Lobos, Pixinguinha, Noel Rosa para crianças que ouvem ritmos importados o tempo todo seja fictício, dar murro em ponta de faca. Mas minha segunda observação antropológicaexplica minha tristeza em relação às escolhas musicais dos professores e a ideia que quero defender neste artigo. Impressionei-me com a quantidade de pessoas com smartphones naquele recinto, pessoas realmente pobres e que no entanto dão-se ao luxo de adquirir, provavelmente em 20 suaves prestaçõesmensais na Magazine Luiza ou nas Casas Bahia, um dos símbolos mais vistosos da modernidade.Jovens mães solteiras, empregadas domésticas, todas com celulares que tiram fotos e que puderam registrar toda a festa.

          Neste momento faço a pergunta: será caso de regozijarmo-nos ou entristecermo-nos com o fato de que pessoas com tantas outras carências não resolvidas, em termos de educação, bons empregos, estrutura familiar, poderem ter acesso a aparelhos eletrônicos fabricados por empresas multinacionais?A minha resposta, e ela está sujeita a críticas, é que fica evidente por esse detalhe que nossa modernização é parcial, sempre realizada na superfície,mas que raramente chega ao fundo. Nós no Brasil conseguimos nos últimos anos aumentar exponencialmente o acesso ao crédito, o que impulsionou o consumo e o crescimento econômico, a ascensão da nova classe média, a diminuição da pobreza, mas o mais difícil, que é melhorar a qualidade de vida como um todo,além do consumo, ainda precisa ser feito.

          Minha segunda pergunta é: teremos fôlego? De acordo com o FMI, a América Latina precisa achar outra receita para fazer o bolo crescer: a alta prolongada do preço das commodities e o financiamento abundante a custo baixo são coisas do passado e não voltam mais. É preciso investir em inovação, produtividade, competitividade, enfim o velho desafio desempre, que nunca conseguimos enfrentar realmente para valer: darmos um salto de qualidade e deixarmos de desempenhar o papel tradicional de fornecedores de produtos de pouco valor agregado. Do contrário, a previsão é que chafurdaremos em crescimentos pífios do PIB. Para este ano prevê-se para a América Latinacrescimento de 1,3% e para 2015 2,2%.

          Enfim,prezados leitores, querelas da América Latina e do Brasil.

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Leis, para que as queremos?

O deputado acredita que a sanção da nova lei vai permitir um avanço nas relações familiares. “Vai avançar porque, hoje em dia, os filhos são usados como massa de manobra. Além disso, o pai vai ter suas responsabilidades com o filho.”

Deputado Arnaldo Faria de Sá, autor do projeto de lei 117 de 2013, que estabelece a guarda compartilhada como regra em casos de divórcio de casais com filhos menores

Lei Fiscal não vai ser cumprida por 17 estados

Manchete do jornal O Globo de 30 de novembro de artigo sobre os Estados brasileiros em que os gastos com pessoal estão acima do limite da Lei de Responsabilidade Fiscal

Ante a avalanche de demandas que trava o Judiciário – cerca de 100 milhões de processos em curso no País – , o ministro Ricardo Lewandowski, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), defendeu o uso maciço do recurso da conciliação. Invocando tese de doutorado ele pregou mobilização geral, até “pastores, padres, sacerdotes”.

Trecho retirado do artigo “A Grande Mensagem de Lewandowski” do jornalista Fausto macedo, sobre palestra dada pelo ministro sobre os Desafios e Perspectivas do Judiciário

        Prezados leitores, tenho uma boa notícia para contar-lhes, ou melhor para comentar, porque com certeza vocês já sabem dela. Falo do projeto de lei que logo logo será sancionado pela Presidente Dilma a respeito da guarda compartilhada, que tornar-se-á obrigatória para casais divorciados. Finalmente nosso legislador encontrou uma solução para o problema da separação dos pais que muitas vezes tantos transtornos causa aos filhos. Basta publicar uma lei e usar um conceito mágico, a guarda compartilhada, em substituição à velha guarda unilateral, pela qual tanto o pai quanto a mãe tomarão em conjunto decisões sobre a educação do rebento e dividirão as despesas do sustento.

         Nada melhor para refletir os novos tempos do que introduzir um conceito brilhante que cristaliza a ascensão da mulher no mercado de trabalho, as novas relações de igualdade entre homem e mulher e bingo, tudo em prol do melhor interesse do filho, como preconiza o Estatuto da Criança e do Adolescente. A lei terá o efeito espetacular de introduzir nas relações entre homem e mulher que se separam respeito e amizade, de forma que possam chegar sempre a um acordo sobre os destinos da criança após discussões razoáveis. Tudo funcionará harmoniosamente: o pimpolho fica às terças e quintas na casa do pai, que terá um quarto pronto para o filho, e às segundas e quartas na casa da mãe, sendo que nos finais de semana a custódia será alternada entre o genitor e a genitora.  Uma pena que tal guarda compartilhada não tenha sido obrigatória desde a entrada em vigor do novo Código Civil brasileiro em 2002. Teria evitado muitos dissabores advindos da ruptura do casamento.

        Desculpem, mas acho que as palavras do deputado Arnaldo Faria de Sá são por demais otimistas em relação à eficácia dessa nova lei. Para funcionar ela depende de uma série de circunstâncias que nem sempre estão presentes na realidade das famílias no Brasil. Depende que haja uma certa igualdade econômica entre homem e mulher de forma que possam de fato dividir meio a meio as responsabilidades; depende que não haja rancores mútuos de seres humanos que muitas vezes foram traídos, que traíram, que mentiram para o companheiro ou companheira, de forma que as relações não tenham se envenenado a ponto de os filhos serem utilizados como “massa de manobra” – para tomar emprestada a expressão usada pelo deputado autor do projeto de lei – para vinganças pessoais; depende que haja condições econômicas e logísticas de deslocar o menor constantemente entre a casa do pai e da mãe, o que em grandes cidades com engarrafamentos constantes como Rio de Janeiro e São Paulo é no mínimo trabalhoso. Em suma, essa nova lei só vai funcionar nos casos em que os divorciantes sejam pessoas bem resolvidas emocionalmente e economicamente, do contrário ela será mais uma fonte de disputas, por impor uma obrigação com a qual na prática será difícil arcar.

        Esse exemplo da nova lei sobre Direito de Família serve para ilustar um ponto que já abordei neste meu humilde espaço. Somos fascinados por leis no Brasil, achamos que as palavras de um texto legal tem um efeito mágico de induzir comportamentos corretos nas pessoas. Quem não se lembra da louvação à Lei Complementar 101 de 2000, conhecida como a Lei de Responsabilidade Fiscal, que “estabelece normas de finanças públicas voltadas para a responsabilidade na gestão fiscal”? Diziam-nos que a tal disciplina imposta pela lei, incluindo sanções como a proibição de repasses da União e a intervenção nos Estados que não a cumprissem, seria a salvação da lavoura do Orçamento Nacional. De fato, a LRF parece ter induzido um melhor comportamento dos membros do Executivo em termos de controle de gastos, o que permitiu o sucesso da estabilização monetária. O sonho da austeridade fiscal durou por algum tempo. Hoje parece que as exortações da lei não mais surtem efeito e na maioria dos Estados as despesas entraram na chamada zona de risco, em que a folha de pagamento já ultrapassou 49% da receita líquida do Estado. Para não falar do mau exemplo dado pelo governo federal que propôs projeto de lei que amplia os descontos na meta do superávit primário de 2014, o que na prática significa uma manobra contábil para esconder o descontrole dos gastos.

         Nesse sentido, ao mesmo tempo que somos fascinados pela lei, somos também mestres em fazer pouco caso dela, especialmente quando não nos beneficia. O presidente do STF, Ministro Ricardo Lewandowski diz que a única maneira de resolver a enxurrada de processos na Justiça brasileira é recorrer a outras instâncias de resolução de conflitos. E por que há tantos conflitos, de maneira que temos hoje praticamente um processo para cada dois brasileiros? Será que é porque temos mais consciência dos nossos direitos? Ou simplesmente porque não nos conformamos em ter que cumprir a lei quando ela nos desfavorece e quando perdemos sempre recorremos ou entramos com processo como uma maneira de defender-nos de meu oponente antes que ele próprio ataque-me iniciando uma ação? Parece haver no Brasil uma mistura de tudo isso. A democracia, consolidada ao menos formalmente pela Constituição de 1988, fez com que ficássemos atentos ao nossos direitos, entronizados na Carta, mas de uma maneira unilateral, como se a justiça no mundo se resumisse à satisfação das minhas prerrogativas individuais à custa de todo o resto. Se está na lei e eu tenho direito nada mais natural do que eu defendê-lo com unhas e dentes. E se alguém tem um direito contra mim, nada mais natural do que compensar invocando minhas próprias demandas em relação a esse indivíduo, recorrendo sempre por agravos, apelações, embargos, recursos inominados e por aí vai. E assim caminhamos, sendo que no ano passado os processos aumentaram 1,8%.

          Prezados leitores, oxalá um dia o Brasil chegue a uma visão mais serena das leis, que deixe de considerá-la capaz de produzir revoluções comportamentais, sociais e econômicas e ao mesmo tempo deixe de considerá-la um empecilho a ser flexibilizado por meio de disputas infindas no judiciário quando ela não nos é favorável.

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Civilização Perdida

llCivilização é a soma total de todas aquelas atividades que permitem aos homens transcenderem a mera existência biológica e buscar uma vida mais rica do ponto de vista mental, espiritual, estético e material. […] O primeiro requisito da civilização é que os homens estejam dispostos a reprimir seus instintos e apetites mais básicos: a incapacidade de fazer isso os torna, devido a sua inteligência, bem piores que as bestas selvagens.

Trecho retirado do livro “Our Culture, What’s Left of It – The Mandarins and the Masses” do psiquiatra e escritor ingles Theodore Dalrymple

Em maio, Putin promulgou uma lei que proíbe o uso de obscenidades e grosserias em espaços públicos como meios de comunicação, teatro, filmes, peças, livros, concertos e obras de arte. Cabe a umacomissão de especialistas determinar o que é ou não um palavrão ou gesto obsceno.

Trecho retirado do artigo “Críticos calados à moda russa” publicado no jornal O Globo de 23 de novembro

           Prezados leitores, como já deixo claro em minha apresentação pessoal na página inicial do meu site, eu sou uma reacionária, e todo reacionário sente um mal estar no mundo moderno. Infelizmente este meu mal-estar renova-se cotidianamente: a cada vez que estou no metrô e ouço grupos de adolescentes que fazem uma algazarra danada, atracam-se como se estivessem brigando, gritam como macacos assustando as pessoas ao redor que acham que alguma coisa séria está acontecendo, e no geral agem como se estivessem na casa deles, como se pudessem fazer qualquer coisa em qualquer lugar porque estão exercendo o seu direito de expressão da individualidade ou coisa do gênero; a cada vez que vejo pessoas obcecadas em tirar fotos para serem publicadas no Facebook, como se a foto em si seja mais importante do que desfrutar o momento.

           Minha malaise foi levada ao paroxismo na última eleição presidencial, que não passou de uma partida de futebol com ataques mútuos das torcidas organizadas por meio de piadas, notícias falsas, montagens de fotos desabonadoras dos candidatos veiculadas na internet. No sábado à noite, ao voltar de uma peça de teatro, ouvi de um pedestre a seguinte frase: “vou dar meu pau para ele chupar com Nutrella”. O que me chocou foi que a pessoa não estava falando aquilo em um momento de raiva, o tom de sua voz mostrava que aquele tipo de observação fazia parte do seu vocabulário cotidiano.

           Não quero com isso dar-me ares de ser um ser moralmente superior. Definitivamente não sou, e muitas vezes eu deixo de pedir desculpas por um erro cometido porque fui incapaz de reconhecê-lo a tempo. O que me consola é que tenho um certo conjunto de princípios que eu tento seguir em relação aos quais comparo as atitudes que tomo em relação às pessoas, para que eu possa fazer correções de rumo.Eu também tenho outra fonte de consolo,de natureza intelectual. Leio aquilo que escrevem pessoas que compartilham comigo esse mesmo desconforto em relação à modernidade. Quero neste artigo destacar um autor em particular, citaod no início, Theodore Dalrymple, que inclusive já foi entrevistado nas páginas amarelas da Revista Veja.

          Dalrymple atuou como médico psiquiatra em prisões inglesas durante muitos anos e esse contato com os estratosmais baixos da população o leva a conclusões pessimistas. Os valores da civilização ocidental, calcados basicamente no cristianismo, têm sido solapados pelas elites culturais, pela intelligentsia que se dedica a atacar tudo aquilo que a civilização do macho branco representa em termos de exploração de minorias. O importante para os intelectualmente corretos é desconstruir tudo, denunciar as noções tradicionais do que é belo, do que é certo e errado, enfim relativizarqualquer padrão em prol do direito inalienável do indivíduo de se expressar e de se comportar de acordo com suas próprias inclinações e sua própria visão de mundo, tão válida quanto qualquer outra..

           Mas qual a relação entre presidiários e a intelligentsia que denuncia a civilização ocidental como opressora das mulheres, dos gays, dos não brancos?Para Dalrymple, esse desmantelamento dospilares da sociedade tem consequências nefastas sobre as pessoas mais vulneráveis. De fato, se para um membro da elite essa desconstrução não significa nadamuito além de louvara diversidadee ser politicamente correto, para as classes mais baixas os efeitos são be mais concretos. Neste último caso, desconstruir não é uma veleidade intelectual, mas uma prática cotidiana de descaso com valores tradicionais como a família, o respeito ao próximo, o senso do dever. Isso tudo foi jogado às favas como algo ultrapassado enovos arranjos foram colocados no lugar: casamentos (ou ajuntamentos) em série, busca incessante do prazer (leia-se drogas), violência, crimes. Os holligans do futebol, os baderneiros que saqueiam lojas e queimam carros nas cidades inglesas, os drogados são, na visão de Dalrymple,a manifestação no andar de baixo de um esforço sistemático iniciado no andar de cima de destruir pedaço por pedaço do edifício chamado civilização. Uma vez tendo sido quebrados todos os blocos de concreto ficará difícil reconstruir o patrimônio acumulado durante séculos e séculos de esforços.

           Esse é o motivo do pessimismo dos reacionários. Os progressistas assumem que a civilização é algo que está aí, consolidado, que tende sempre a melhorar, mas ela não é. As regras de convivência social, os padrões morais, culturais e estéticos, quando questionados como vêm sendo deixam um vazio que custa a ser preenchido. Nós nos espantamos com a violência na política e nos estádios, com a corrupção generalizada, fruto do culto desenfreado ao dinheiro, com a desfaçatezde líderes políticos que mentem para manter-se no poder, mas ao mesmo tempo prezamos nossa liberdade de fazer piadas com a desgraça de torcedores de times ameaçados de rebaixamento, damo-nos o direito de fazer ofensas pessoais a pessoas com cujas ideias não concordamos, assistimos à desgraça alheia de camarote e colocamos fotos e filmes na internet do que vimos, enfim, cultivamos o lixo. Tanto é assim que consideramos que ouvir palavrõesa torto e a direito em filmes americanos, em que a palavra mais ouvida é “f**k” é um direito inalienável do indivíduo e uma manifestação da liberdade de expressão, de modo que o famigerado Vladimir Putin, que quer limitaro uso de palavras de baixo calão em espaços públicos, é visto como um execrável ditador por isso.

           É óbvio que sempre houve e sempre haverá ganância, cupidez, covardia, violência no mundo enquanto o homem estiver nessas plagas, mas a nós reacionários parece que chegamos a um momento em que não há mais padrões em relação aos quais tais fraquezas são comparadas e estigmatizadas para quenosso comportamento possa ser aprimorado.Por que aprimorar, se qualquer conduta que causa malefícios à sociedade pode ser explicada e justificadacomo uma doença mental, um distúrbio ou uma síndrome? O violador da norma passa a ser vítima, e assim transformamo-nos em uma sociedade infantilizada, em que ninguém assume responsabilidade por coisanenhuma, porque a culpa sempre pode ser transferida.

           Prezados leitores, para uma pessimista como eu, nessa toada a civilização ocidental, tal como nós a conhecemos,está fadada à destruição. Meu último e terceiro consolo é saber que provavelmente estarei morta quando a pá de cal for dada.

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Geração sanduíche

Para cada R$ 10.00 arrecadados pelo governo, R$ 9.00 já estão comprometidos com gastos difíceis de serem cortados

Trecho retirado do artigo intitulado “Governo dá sinais de ajuste gradual” no jornal O Estado de São Paulo de 16 de novembro

Um Brasil mais idoso, que exigirá o triplo dos investimentos

Manchete do jornal O Globo de 16 de novembro sobre o envelhecimento acelerado da população brasileira

       Prezados leitores, conceitos são facas de dois gumes: permitem entendermos uma situação, consolidar uma definição sobre ela, mas ao mesmo tempo podem levar ao estabelecimento de estereótipos que nos impedem de enxergar as complexidades do mundo real. Deparei-me neste fim de semana com um conceito que ilumina minha existência atual, a geração sanduíche, que os demógrafos utilizam para referirem-se às mulheres que por terem adiado o momento da maternidade, se dividem entre trabalho, filhos e cuidado dos pais. É verdade que não me enquadro à perfeição nessa categoria porque não tive filhos, mas compartilho com essas mulheres a angústia, que com certeza ela sentem todos os dias, em relação à necessidade de ser uma mulher maravilha, isto é de desempenhar bem todos os papéis: ser profissional, ser filha dedicada, ser provedora e ainda achar tempo para ter uma vida social que não seja só o cumprimento de obrigações.

       É um grande alívio para mim saber que sou parte de uma categoria de pessoas, que não estou sozinha em minhas atribulações, mas que as divido com outras milhões de mulheres brasileiras. Nada melhor neste momento em que vivo um drama com minha mãe que teve edema agudo de pulmão e infarto no dia 2 de outubro e ficou no total 28 dias internada. O drama se desenrolou a cada dia que eu a visitava na UTI, quando chegava ansiosa para saber seu estado no dia e depois de ficar lá durante duas horas me despedia dela com dor no coração de deixá-la sozinha nas mãos de auxiliares de enfermagem que em sua maior parte trata os velhinhos como se fossem crianças, insistindo no baby talk, pressupondo que toda pessoa com mais de 70 anos não sabe o que é melhor para si. Quando ela teve alta e voltou para casa no dia 18 de outubro, o drama adquiriu ares de tragédia porque a alta provou-se precipitada e passei três dias infernais, vendo a barriga da minha progenitora subir e descer como uma sanfona, ela tentando em vão respirar melhor pelo inalador. Para ser precisa devo dizer que as noites foram infernais, porque fiquei sem dormir ao lado dela, testemunhando seu sofrimento e em uma segunda-feira às 11:30 da noite, quando minha mãe começou a suar frio, os pés ficaram frios e ela começou a falar que iria morrer, tive que correr ao hospital novamente e interná-la.

       Mais 12 dias de internação e finalmente dia 31 de outubro ela saiu. Agora os desafios são outros. É preciso comprar outros remédios, diferentes dos que ela utilizava antes: uma caneta de insulina importada da Alemanha dura 15 dias e custa 110 reais. O diurético que é obrigada a tomar aumenta a quantidade de urina, o que exige calça geriátrica diariamente: 28 reais o pacote com míseras 8 unidades. Minhas noites são mal dormidas porque fico alerta para qualquer barulho estranho, preciso ajudá-la a ligar o inalador quando sente dificuldade de respirar, preciso repor o soro fisiológico no aparelho, preciso checar se ela não precisa ser trocada. Para quem trabalha no dia seguinte o dia todo o ideal seria que eu contratasse uma pessoa para dormir com ela, mas eu não tenho condições financeiras: seria preciso registrar a pessoa, pagar todos os encargos sociais, o máximo que eu conseguiria seria aliviar minha pena duas vezes por semana, ao custo de 150 reais por noite, para não caracterizar o tal do vínculo empregatício. Mas prefiro ser cautelosa e não gastar esse dinheiro, porque ela está fazendo tratamento para a arteriosclerose e a assistência médica custa-me 1714 reais por mês.

       Quanto mais reflito sobre este assunto, mas convenço-me que nós da geração sanduíche somos realmente fora de série. É um encargo tipicamente feminino, pois é raro ver filhos homens cuidando de pais doentes. Tenho três irmãos e a única coisa que fazem é ligara para nossa mãe e peguntar se elá está bem. Claro que ela diz sempre que está para não preocupá-los e no dia a dia pede ajuda à filha para as mínimas coisas. Se ao menos ajudassem-me com dinheiro seria uma compensação, mas nem isso fazem, dando desculpas ou na maior parte das vezes nem dando-se ao trabalho de dar desculpas, porque consideram que é minha obrigação, já que usufruo de moradia gratuita. Nisso não sou particularmente azarada. Tenho uma amiga cuja avó de 98 anos é sustentada financeiramente e recebe cuidados de uma única filha dos 11 rebentos que teve. Os filhos homens fingem-se de mortos, as outras três filhas mulheres rateiam as despesas extras.

       Por outro lado, devo reconhecer que há diferentes níveis de zelo entre as mulheres da geração sanduíche. Há quem afirme cuidar dos pais que nada mais fazem do que visitá-los algumas vezes por semana e ver se tudo está OK, outras fazem o monitoramento pelo telefone, considerando ser suficiente ouvir as palavras tranquilizadoras do velhinho de que tudo está caminhando, mesmo que isso seja uma ilusão. Conheço o caso de uma moça brasileira, cidadã suíça adquirida pelo casamento e habitante de Zurique, onde vivia tranquilamente há anos como professora, cuja mãe tornou-se cardiopata e não pode mais morar sozinha. A filha voltou ao Brasil, largou tudo e agora tenta dar aulas de inglês em Sâo Paulo, com todas as frustrações de uma carreira de magistério em nosso país. Para mim sem dúvida é uma grande prova de amor à mãe.

      Prezados leitores, não me entendam mal, não estou aqui a querer dar lições sobre como tratar dos parentes idosos. O fato é que cada pessoa tem uma certa consciência moral, tem uma certa relação com os pais, enfim tem um certo caráter que a predispõe a aceitar de maneira melhor ou pior o encargo. De qualquer forma, uma hora ou outra algum de nós precisará lidar com a situação de ter um pai ou mãe de mais de 80 anos, fragilizado, que não poderá mais morar sozinho. Especialmente se considerarmos que apesar de as projeções indicarem que o número de pessoas com mais de 80 anos atingirá 8 milhões em 2050, não poderemos esperar que o Estado facilite a vida da geração sanduíche, oferecendo serviços sociais aos idosos. Atualmente do orçamento total do Estado brasileiro de R$ 2,86 trilhões de reais, 39,5% vai para o pagamento da dívida e as despesas discricionárias, que incluem os investimentos sociais e em infraestrutura, compõem 10.3%, dos quais muitos têm destinação constitucional obrigatória, como educação e saúde. O que fazer? Emendar a Constituição para tornar a destinação orçamentária para o cuidado dos idosos obrigatória? De onde sairia esse dinheiro? Diminuiríamos os pagamentos da dívida? Diminuiríamos investimentos em outras áreas sociais?

      Enquanto a solução fiscal não vem, a geração sanduíche terá que se virar. Pois como diz a pesquisadora do IPEA, Ana Amélia Camarano: “Nasce cada vez menos e morre cada vez menos”. Por isso a única coisa que digo às minha colegas de labuta é: Pau na máquina!

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