And the winner is…

[…] uma função fundamental dos governos em todos os lugares é a resolução de conflitos. Mas as democracias oligárquicas com as quais o mundo acostumou-se, aqueles governos compostos de facções, não conseguem resolver conflitos. Quando uma eleição é uma disputa entre pessoas que representam facções contrárias, o conflito no governo é inevitável. As eleições exacerbam os conflitos. Não pode haver compromisso em relação às visões sectárias fundamentais. Mesmo quando possível, o compromisso entre aqueles que querem fazer algo e aqueles quenão querem fazer nada sempre resulta em políticas ineficazes que as facções então podem usar umas contra as outras. O “gasto inadequado” transforma-se em “gasto perdulário”, por exemplo. […] A separação das partes ou a opressão de uma pela outra torna-se a única solução para tais conflitos fundamentais.

Trecho retirado do artigo “ O fim da democracia estúpida: como a democracia falsa destrói a democracia real”escrito pelo filósofo americano John Kozy

 Já que o Brasil fez sua escolha pelo PT entendo que o Sul e Sudeste (exceto Minas Gerais e Rio de Janeiro que optaram pelo PT) iniciem o processo de independência de um país que prefere esmola do que o trabalho, preferem a desordem ao invés da ordem, preferem o voto de cabresto do que a liberdade”, afirma o texto.

Twitter de Paulo Telhada, deputado estadual eleito pelo PSDB de Sâo Paulo

      Prezados leitores, graças aos bons deuses acabou, este é meu último artigo sobre nossas eleições, eleições que parecem ter dado um desfecho de ouro ou de latão, a depender das preferências de cada um, a um ano que teve uma Copa do Mundo que nos mostoru que o Brasil como país do futebol é coisa do passado.Bendigo a chegada das oito horas do dia 26 de outubro, quando os resultados foram divulgados, não só pelo fim do programa eleitoral, que a mim atrapalhava-me sobremaneira de manhã, pois impedia-me de saber a previsão do tempo para o dia, algo extremamente útil. Como já disse n vezes neste meu pequeno espaço virtual, a eleição à Presidência da República Federativa do Brasil tornou-se uma disputa futebolística, em que há os perdedores e os vencedores, aqueles que “chupam”, ontem foi a tucanada que chupou, e aqueles que comemoram ruidosamente nas ruas, fazendo barulho e empunhando bandeiras, de alma lavada pela vitória do seu time, no caso, os petistas.

      Chamo a tal contenda de Fla x Flu, PT versus PSDB. O Flamengo venceu pela quarta vez consecutiva, pois valeu-se da massa dos seus torcedores, que formam o maior contingente do Brasil. O Fluminense perdeu pela quarta vez consecutiva, porque é visto como um time de almofadinhas, para usar uma gíria antiga (eu poderia ter falado na elite branca criticada por Lula), que são desconectados da vida real dos brasileiros. Pelo menos é essa a imagem que fica. Para falar a verdade, eu não me arrisco a dar uma explicação sobre a vitória do PT. Deixo isso para os “especialistas”: marqueteiros, sociólogos, economistas, antropólogos. Não me arrisco porque há diferentes razões pelas quais as pessoas escolhem um candidato: para defenderem interesse próprio, para serem fiéis a um ideal, para expiarem culpas passadas, presentes e futuras. Quem sabe os mineiros, que afundaram Aécio Neves, tenham preferido Dilma Rousseff não por serem particularmente fãs da presidente, massimplesmentepelo fato de que, tendo elegido Fernando Pimentel para governador, seria mais sensato ter um presidente petista para conseguir verbas, perdão de dívida e outras benesses?

      Entrar na cabeça de mais de 142 milhões de eleitores para sabera razão de terem votado no vermelho ou no azul é impossível, mas seria a maneira mais íntegra de explicarmos o resultado das eleições. Todo o palavrório que está sendo dito no dia da ressaca, segunda-feira, depende das opções ideológicas de cada um. Quem é viúvo ou viúva dos tucanos dirá que o PT ganhou porque usa o Bolsa Família para comprar lealdades, quem está do lado vencedor dirá que o povo não é mais bobo e sabe distinguir quem defende seus interesses, apesar da mídia querer fazer-lhe lavagem cerebral.Sendo infrutífera a busca das motivações íntimas dos eleitores,proponho-me uma reflexão sobre as consequências funestas dessa disputa futebolística.

      Tais consequências eu já adiantei no início deste artigo, tomando emprestadas as palavras deJohn Kozy, que aponta em seu ensaio os males da democracia, tal como praticada no mundo comtemporâneo. Para ele, tais males derivam do fato de as pessoas serem muito diferentes, o que leva à formação de facções que disputam entre si. Kozy tem como objeto de estudo os Estados Unidos, mas o problema da diversidade talvez seja aindamais exacerbado no Brasil. Essa diversidade ficou patente não só no modo como as diferentes regiões votaram, mas como os brasileiros reagiram ao resultado. O Norte e Nordeste vestiu-se devermelho, o Sul, Sudeste e Centro-Oeste vestiu-se de azul. Os que perderam reclamam dos nordestinos, ao ponto do ex-coronel da Rota Paulo Telhada falar em separatismo. Uma vereadora do Rio Grande do Norte desenhou em um Twitterum mapa do Brasil em que a parte vermelha é Cuba, a parte azul é o “verdadeiro” Brasil. Os que ganharam nãodeixaram por menos. Choveram gozações nas redes sociais sobre os paulistas que votaram nos tucanos e estão morrendo de sede, enquanto os nordestinos estão por cima, porque podem gastar água à vontade.

     Em suma, faltam verdadieras discussões proveitosas que levem a um consenso, sobram desconfianças, preconceitos mútuos, xingamentos, desentendimentos. O que será da política no Brasil em tal clima? Dilma e Aécio adotaram o tom politicamente correto da união, defendendo o diálogo e todo aquele blá, blá, blá sobre oposição construtiva. Vejamos como isos se dá na prática, mas quando eu assistia à transmissão dos resultados na Rede Bandeirantes, não pude deixar de notar que o Ministro Padilha, candidato derrotado ao governo de São Paulo, mal podia conter-se de felicidade:sorria o tempo inteiro e logo deixou sua cadeira para comemorar mais à vontade, depois de ter trocado acusações no limite da civilidade adequada à televisão com Álvaro Dias, senador pelo PSDB. Tenho certeza que se o tucano tivesse vencido, o sorriso de vitória seriao mesmo no paranaense. Não há mal nenhum em ficar contente com uma notícia, o problema é que o contentamento mostrado em nossas eleições sempre parece desmesuradamente triunfante, ao estilo de “ao vencedor as batatas”.

     Prezados leitores, não vejo nada de bom nessas gozações mútuas, nesse sentimento de superioridade que um lado tem em relação ao outro, especialmente porque as diferenças entre PT e PSDB, que parecem abissais, são, em minha opinião, muito sobrestimadas. Ambos preocupam-se em acalmar os mercados, ambos estão em conluio com grandes grupos econômicos para se aproveitarem do Estado, e principalmente, parafraseando a finada candidata Marina Silva, ambos tem um bocadinho de incompetência para chamar de sua. O PSDB de São Paulo fez uma gestão no mínimo temerária da crise hídrica, o PT está tentando transpor um Rio São Francisco que é mais areia do que propriamente água.O jogo acabou, as torcidas estão deixando o estádio, os ânimos estão acirrados. Esperemos que o próximo jogo da democracia brasileira seja em clima de amistoso porque do jeito que está as coisas andarão mal parao nosso país.

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Pequenas esperanças ou grandes frustrações?

O que está em curso é uma tropicalizaçãodas regiões consideradas subtropicais, que perdem o prefixo “sub”. Em vez de quatro, elas terão praticamente duas estações: o verão, mais quente e seco, eo inverno, chuvoso e frio.

Carlos Nobre, climatologista do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE)

Estiagem que se espalha por vários Estados já causa prejuízos bilionários

Manchete da seção de Economia e Negócios do jornal O Estado de São Paulo de 19 de outubro

O Brasil precisa de crescimento e melhor governo. Aécio Neves tem mais probabilidade de fazer isso do que Dilma Rousseff.

Trecho retirado do editorial da Revista The Economist de 18 de outubro intitulado “Why Brasil needs change”

 

                Prezados leitores, em nossa democracia tupiniquim depois das eleições há sempre o dilúvio, não no sentido literal da palavra, de quantidades excessivas de água, exatamente o oposto. Nossos governantes, passado o obstáculo da garantia do cargo cobiçado, começam a nos revelar as más notícias, que precisavam ficar encobertas por uma cortina de fumaça para que os eleitores possam se deixar iludir. É uma estratégia que infelizmente funciona. Em São Paulo, a crise abissal de água, que ameaça a economia e a vida cotidiana das pessoas no Estado mais rico do país, não impediu que o governador Geraldo Alckmin fosse reeleito.

                  O fato é que o tamanho da poça de lama em que estamos metidos foi escomoteado pelo uso do volume morto do Sistema Cantareira e pela confiança demonstrada pelo governador de que o problema será resolvido com as chuvas de verão. Nós eleitores fingimos acreditar que tudo está bem e que nossas autoridades vão dar conta do problema, porque não queremos admitir para nós mesmos que não podemos confiar nelas, pela simples e boa razão que o apertar de botões nasurnas eletrônicas a cada dois anos não é um fator suficiente de pressão para que sejam eficientes.

                Na prática, imediatamente finda a contagem dos votos, pipocaram más notícias e problemas. Coincidentemente a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo resolveu admitir que há risco de racionamento e a falta d’água em todo o Estado se espalha como fogo em capim seco. A última reserva será usada agora, a segunda cota do volume morto, mas mesmo que chova dentro do esperado, o que não é certo, dadas as mudanças climáticas estudadas pelo climatologista Carlos Nobre, é de se esperar que o Sistema Cantareira, em coma, demore anos para se recuperar, o que pode fazer com que a seca se torne crônica. Como lidaremos com o problema? Pelo modo capitalista, aumentando consideravelmente o preço da água, de modo a torná-la artigo de luxo? Se for para condenarmos a população com menor poder aquisitivo a morrer de sede, terá que haver uma transferência das populações para outras regiões do país onde haja maior abundância relativa de um bem tão essencial. Como isso será feito? Nossas autoridades pagarão o transporte para a Amazônia, onde há os maiores mananciais de água? Ou as pessoas começarão a sair do Sudeste como refugiados da estiagem, por puro desespero?

                O que dificulta a abordagem de problemas sérios como esse é que no Brasil temos uma grande dificuldade de trabalharmos com o pior cenário. Hoje quando estava pagando a conta de um café comecei a conversar com o dono do restaurante se ele estava se preparando para a escassez de água de maneira a permitir a operação do seu negócio. Percebi que ele foi pego de surpresa com minha pergunta e ele simplesmente disse que não adiantava planejar, porque de qualquer modo não haveria carro-pipa para todo mundo. O fato é que os mais paranóicos, ou precavidos, já estão estocando galões do precioso líquido em casa. É uma estratégia que faz sentido, considerando que o caos ainda não se instalou e portanto ainda é possível comprar garrafões a preços que não refletem ainda a escassez do bem. Para quem tem espaço em casa para armazená-los, então,nada melhor do que garantir pelo menos a água da comida.

                Prezados leitores,reclamei aqui do governador de São Paulo e esua estratégia de tapar o sol esturricante que evapora nossas represas com a peneira. Será que a abordagem dos fatos da vida é melhor no nível federal? Não tenho grandes esperanças a esse respeito. Lembro-me do Plano Cruzado e como os preços congelados ajudaram a eleger governadores, deputados e senadores do PMDB em 1986. Logo depois das eleições os preços foram descongelados e a mentirinha dainflação controlada caiu por terra. Talvez o otimismo natural de nós brasileiros nos leve a enfocar coisas positivas e esquecer ou minimizar as negativas, varrê-las para debaixo do tapete demodo que elas apodreçam lá dentro e sumam.

                O atual Fla Flu entre petistas e tucanos reflete esse otimismo que se fia em dados tênues. Os eleitores de Aécio e os editorialistas da Revista The Economist,que apostam suas fichas nele, parecem acreditar que a mudança de governo terá efeitos extraordinários no Brasil. A Petrobrás será mais bem gerida, a reforma tributária será feita, o governo interferirá menos na economia, Armínio Fraga, o coelho da cartola do PSDB,garantirá o controle da inflação, e assim haverá mais confiança dos investidores e inauguraremos um ciclo virtuoso de estabilidade, investimentos, emprego. Não digo nem que sim nem que não, mas o fato é que há várias condições que permanecem as mesmas e não permitem mágicas.

                  Nosso Congresso continua tão ruim quanto era, pela representação excessiva dos Estados mais atrasados e pelo total desinteresse dos eleitores pela escolha dos parlamentares. Portanto, uma reforma tributária esbarrará no mesmo conflito de interesses entre as regiões brasileiras e pela modorra legislativa. A economia mundial não anda bem das pernas e independentemente de quanto os investidores internacionais gostem ou não do governo de plantão, não teremos lámuitas benesses. Quanto à corrupção, é difícil não acharmos, diante de tantos escândalos de parte a parte, quetrocando o PT pelo PSDB estaremos fazendo algo muito além do que trocar a Camorra pela Cosa Nostra. O modo como as instituições públicas são organizadas no Brasil, com excesso de burocracia, ritos, carimbos, protocolos, faz com que elas sejam pouco transparentes e quase que totalmente imunes ao controle do povo, que parece ter coisas mais interessantes com o que se preocupar (incluo-me neste rol de alienados).

                  Prezados leitores,perdoem meu pessimismo e paranóia. Quem sabe chova torrencialmente no Sudeste no verão e a notícia da estiagem torne-se tão estapafúrdia quanto o bug do milênio. Quem sabe mudando a Presidenta pelo Presidente mude a qualidade da administração pública no Brasil? O melhor talvez seja atingirmos um meio termo e cultivarmos pequenas esperanças para não termos grandes frustrações.

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Adolescentes de 16 anos: anjos ou demônios?

Aécio defende proposta apresentada por seu candidato a vice, Aloyisio Nunes Ferreira (PSDB-SP), que prevê a redução da maioridade penal quando menor de 16 a 18 anos cometer crimes graves ­ em vez de se aplicar o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), quelimita o tempo de internação a três anos, [sic] esse jovem a penas mais duras, conforme o Código Penal. Marina é contra a redução mesmo em casos pontuais e pediu a Aécio que reveja essa postura para declarar apoio no 2º turno.

Trecho extraído do artigo “Aécio aceita parte dos compromissos de Marina” publicado no jornal O Estado de São Paulo de 12 de outubro de 2014

A polícia faz operações sistemáticas em áreas onde há tráfico de drogas e percebemos que quadrilhas têm recrutado cada vez mais crianças e adolescentes. Eles estão sendo usados para atuar na linha de frente.

Trecho extraído do artigo “A idade da reincidência” publicado no jornal O Globo de 12 de outubro de 2014

   Prezados leitores, ao fim e ao cabo de muitas crises existenciais, reflexões e ponderações, Dona Marina Silva aceitou apoiar Aécio Neves para o segundo turno das eleições presidenciais. Um dos pomos da discórdia, o da redução da maioridade penal, parece ter sido relegado por Marina, talvez por ela achar que por enquanto não seja uma séria ameaça, já que ainda é projeto de lei, e como sabemos nosso Legislativo trabalha três diaspor semana, se tanto, quando não há feriados. Portanto a necessidade vislumbrada por Marina de tirar o PT do poder revela-se de tal monta que sua ojeriza pela transformação dos atuais inimputáveis de 16 anos em imputáveis criminalmente não pode prejudicar o bem maior.

   Esta aí uma coisa que me intriga na nossa legislação.Minha estupefação é fruto da inconsistência. O artigo 14, parágrafo um, inciso II letra c da Constituição Federal dá o direito político do voto aos maiores de dezesseis anos. O artigo quinto, parágrafo único do Código Civil concedecapacidade para os atos da vida civil a menores de dezesseis anos que são emancipados pelos pais ou que conseguem se manter por meio de atividade econômica. O artigo 1517 do mesmo diploma legal, como dizem os advogados, concede o direito ao menor com dezeseis anos de idade de casar-se mediante autorização dos progenitores.

   Enfim, nossa lei concede uma série de direitos a essa faixa etária, mas no momento de impor obrigações ela é leniente para dizer o mínimo, estabelecendo no artigo 27 do Código Penal que os menores de 18 anos são penalmente inimputáveis, sujeitos às normas do Estatuto da Criança e do Adolescente, que como sabemos estabelece as medidas socioeducativas para os infratores. Por queos dois pesos e duas medidas? Por que de um lado consideramos que um indivíduo de 16 anos tem discernimento para escolher o Presidente da República, tem capacidade para sustentar-se, sabe escolher seu cônjuge e na hora de apertar um gatilho e matar uma pessoa ou praticar um furto achamos que ele não tem discernimento para ter consciência da gravidade do ato?

  Os bem pensantes consideram a redução da maioridade penal uma falsa solução, uma manobra demagógica, porque colocar mais pessoas nas cadeias brasileiras superlotadas não vai resolver o problema, só vai piorá-lo, porque vai permitir a menores que aprendam com os mais velhos e tornem-se PhDs na bandidagem.Não pretendo aqui defender as virtudes ressocializantes da cadeia. É claro que para indivíduos excepcionais como Aleksandr Solzhenitsyn, que ficou preso durante 11 anos em campos de trabalho forçados na União Soviética, o encarceramento pode ser um bálsamo. Ele confessa que ascendeu espiritualmente, pois os anos de sofrimento permitiram-lhe focar o pensamento naquilo que interessava e criaram nele a resolução de tornar-se escritor, carreira esta que foi coroada em 1970 com o Prêmio Nobel de Literatura. Possotambém citar o exemplo de um brasileiro, para quem a prisão também rendeu bons frutos: Graciliano Ramos, que foi acusado de ser comunista um pouco antes do golpe de Estado de Getúlio Vargas, foi enviado em 1936 para o Presídio da Ilha Grande, no Rio de Janeiro. Sua estadia lá inspirou-lhe o livro Memórias do Cárcere, que infelizmente foi publicado com várias alterações e cortes, de vido à censura imposta pelo Partido Comunista Brasileiro, ao qual o autor se filiou em 1945.

   Mesmo levando em conta esses casos, não tenho ilusões sobre a média dos presos, para quem a vida confinado só traz miséria material e moral, pois aumenta a corrupção do indivíduo, ainda mais nos estabelecimentos prisionais brasileiros em que as condições são precárias, para dizer o mínimo. Definitivamente não é a cadeia que vai dar aulas de cidadania aos brasileirosrecalcitrantes e é ingênuo pensar que tal situação vá melhorar no médio prazo, pois se não cuidamos nem da saúde e educação dos brasileiros em dia com a lei, não priorizaremos tal atividade em relação aos fora da lei.

   Nesse sentido, haveria duas razõespara aceitarmos colocar mais um grupo de pessoas nas nossas prisões infernais. Em primeiro lugar é sensato que coloquemos indivíduos perigosos fora do convívio social para que eles não causem mais mal. Pelo artigo 121, parágrafo terceiro do Estatuto da Criança e do Adolescente, o menor infrator não pode ficar mais de três anos internado. Ora, alguém em sã consciência acredita que três anos de privação de liberdade é suficiente para mudar o comportamento de um adolescente que praticou um crime hediondo por meio de medidas socioeducativas ou para proteger a sociedade de um indivíduo que pode voltar a matar? Em segundo lugar, é preciso que nossas autoridades respondam à estratégia utilizada pelas quadrilhas apontada acima, qual seja, a de utilizar menores inimputáveis nas atividade criminosas, como forma de minimização dos danos para os membros. O fato é que nossa lei, com o nobre objetivo de proteger os vulneráveis, estimula que os menores sejam iniciados em crimes graves como homicídio bem cedo, pois a certeza da impunidade (o menor que cumpre a medida socioeducativa sai com a ficha criminal limpa) funciona como um grande estímulo.

   Prezados leiotres, peço-lhes perdão pela possível decepção que causei ao revelar meu lado Jair Bolsonnaro, o deputado federal durão mais votado no Rio de Janeiro, mas a mim me parece que o tratamento dado aos brasileiros de 16 anos de idade falha por ser inconsistente, causando um desequilíbrio entre os direitos de que eles gozam e os deveres que lhe são impostos. Se optarmos por considerá-los seres vulneráveis, cuja personalidade ainda está em formação, então não podemos considerá-los maduros o suficiente para votar, para casar, para constituir família e sustentá-la. Mas se queremos seguir a lógica dessa emancipação devemos aceitar que eles estejam prontos a assumir plena responsabilidade por seus atos ilegais.Deixemos o sentimentalismo de lado e encaremos os fatos da vida: ou o adolescente é vítima e incapaz ou então ele é considerado capaz tanto do bem quanto do mal.O que não podemos é continuar com essa ambiguidade em nossa lei.

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O Cometa Halley

Pessoa, animal ou coisa muito rápida, que surge e some de repente

Definição de cometa tirada do Dicionário Houaiss

Horas depois, no meio da tarde da última terça-feira, a candidata do PSB mostoru que absorveu cada um dos conselhos e abandonou um dos pilares da sua nova política, o de fazer o debate, não o embate. […] No mais agressivo discurso nesta campanha presidencial, chamou o grupo da adversária de “essa gente”, desqualificou a trajetória política de Dilma e a acusou de mentir.

Trecho retirado do artigo “Em busca dos votos perdidos”, publicado no jornal O Globo de 5 de outubro

Poeira Poeira Poeira Levantou Poeira

Refrão da música “Sorte Grande” de Ivete Sangalo

    Prezados leitores, permitam-me fazer um mea culpa, até eu, que tanto critico nossa fissura por pesquisas,deixei-me fascinar pelosíndices de aprovação. Em uma campanha eleitoral em que todas as ações foram pautadas pelos númerosdo Datafolha e do Ibope, para falar dos institutos mais importantes, o sobe e desce nas pesquisas acabou sendo o único assunto comentado pelas pessoas, mais do que o outro assunto que foi as declarações do candidato Levy Fidelix sobre os homossexuais. Digo que deixei-me fascinar porque cheguei a acreditar que Marina Silva teria fôlego para chegar ao segundo turno ao colocar-se como a terceira via, além das picuinhas entre PT e PSDB.

    Devo explicar o porquê de eu ter acreditado. Em primeiro lugar, Marina pareceu encarnar aquele mítico novo que os brasileiros sempre procuram em uma eleição para cargos majoritários. Sejamos honestos: apesar de sempre louvarmos a democracia, o fato é que na prática não lhe damos a devida atenção e cuidado: na hora de escolhermos deputados estaduais ou federais, muitos votam nulo, ou no máximo dão-se ao trabalho de votar na legenda. Isso reflete a profunda desconfiança que os brasileiros têm dos membros do parlamento. De acordo com uma pesquisa do Data Popular feita com 15.652 pessoas em 159 cidades, 82% dos brasileiros desconfiam de deputados estaduais, 75% desconfiam de deputados federais e 65% desconfiam dos senadores.

    Ou seja, escolhemos mal os membros do Poder Legislativo, poder este que representa a população brasileira de maneira totalmente distorcida, privilegiando os Estados do Norte e Nordeste em detrimento do Sul e Sudeste. A única escolha que para os brasileiros realmente importa é aquela para governadores e presidente, é nela que depositamos nossas esperanças. Pela sua origem humilde de self-made woman, pelo fato de não ter ocupado cargo eletivo no Executivo, achei que Marina seriao foco dessas esperanças em 2014,.

      Em segundo lugar, achei que Marina iria emplacar porque seu discurso new age de sustentabilidade soaria bem aos ouvidos dos moradores das grandes cidades que querem usufruir dos benefícios da preservação do meio ambiente sem ter que arcar com os ônus de tal preservação, e jovens em geralsempre antenados com o novo. Enganei-me redondamente, pois Marina terminou mais ou menos no mesmo patamar onde estava em 2010. Cabe no momento a pergunta: o que ela fez de errado para subir vertiginosamente e de repente começar a cair pelas tabelas, deixando atrás de si somente a poeira do cometa?

    Acredito que os erros de Marina na verdade revelam muito sobre as caracteristicas do nosso processo democrático. O ideal em uma democracia seria que cada candidato tivesse seu programa pronto desde o início para que os competidores se posicionassem claramente e houvesse discussões em tornos dos pontos específicos de saúde, educação, economia etc. Como bem sabemos, não foi nada disso que aconteceu. Afinal, que importância havia em programas de governo se a própria presidente até o final do primeiro turno não lançou o seue Aécio lançou seu programa em capítulos na última semana de campanha? Num contexto desses, Marina, que queria debate, e não embate, e foi a primeir a lançar suas propostas, não levou muita vantagem. Mesmo nos debates televisivos foi rara a manifestação de alguma ideia crível, e sua intenção acabou tornando-se letra morta.

      De fato, as perguntas programáticas que foram feitas nos debates acabavam sendo logo esquecidas porque na maior parte das vezes elas eram uma simples oportunidade para o respindente criticar o candidato que fizera a pergunta, seu oponente nas pesquisas.  Só havia respostas mais detalhadas sobre programas de governo quando dois candidatos faziam conluio para atacar um terceiro indiretamente. Foi o caso, por exemplo de Aécio Neves e o Pastor Everaldo, que trocavam gentilezas mútuas sobre políticas públicas aproveitando para alfinetar Dona Dilma. No final das contas depois de debates na Record, Band, Globo e SBT eu pergunto a vocês: sabem o que cada um dos candidatos faria se eleito? De Aécio a única coisa que me ficou foi que ele vai nomear Armínio Fraga, o mago das finanças, como Ministro da Fazenda. Luciana Genro com certeza teria como primeiro ato de governo mandar prender Levy Fidelix pela sua “homofobia” e talvez mandasse prender também todos os banqueiros. Marina prometeu que iria pagar um décimo terceiro salário aos beneficiários do Bolsa Família, mas não explicou de onde viria o dinheiro. Eduardo Jorge com certeza liberaria a maconha e Levy Fidelix proporia ao Congresso uma lei contra a propaganda do homossexualismo às crianças, como fez Vladimir Putin, na Rússia.

    Em suma, em uma campanha política em que explicações sobre o que será feito, com que dinheiro e para quem será feito são raras, a boa intenção de Marina de propor caiu por terra ante a necessidade premente de responder aos ataques de Dilma e de Aécio. E convenhamos, Dona Marina pecou muito na organização, o que minou ainda mais sua tentativa depolítica do século XXI em um país que ainda não tem cultura nem para fazer a velha política parlamentar do século XX: seu programa teve erros e precisou ser corrigido depois de lançado, suia convivência com os caciques do PSB, o partido hospedeiro, foi para lá de complicada, pois ela recusou-se a subir em muitos palanques regionais onde o PSB havia feito alianças com pessoas que ela não considerava boas, para não falar do seu fracasso em montar seu próprio partido a tempo para a eleição. Talvez fosse o caso de Marina candidatar-se a governadora do Acre nas próximas eleições e adquirir maior tarimba para lidar com o mundo cão da democracia brasileira para que sua experiência lhe sirva para aprimorar sua prática da política baseada nas alianças de pessoas que têm ideias comuns.

      No frigir dos ovos, depois da passagem do Cometa Halley perto do Cruzeiro do Sul, teremos como sempre o velho FLA FLU, tão nosso conhecido. Preparemo-nos para vermos no programa eleitoral manchetes de jornal sobre escândalos de corrupção, Alstom, Petrobrás, notícias de contas na Suíça e por aí vai. Viva nosso ringue tupiniquim!

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Preto no branco

As elites empresariais ou intelectuais do país tendem a ser brancas (há ainda exceções, mas elas estão se tornando mais raras ao longo dos anos). Nos anos 80, o México era de novo o país das três nações: a minoria crioula das elites e da classe média alta, que vivem com estilo e riqueza; a grande e pobre maioria mestiça; e a minoria totalmente despossuída do que nos tempos coloniais era chamada de República dos Índios.

 

Jorge G. Castañeda, intelectual e político mexicano, em 1995, ao apontar o substrato étnico das disparidades verificadas no México

Escravidão era prática usual na África antes de os europeus chegarem e, quando virou negócio global, continuou enriquecendo africanos.

Trecho retirado do artigo “Escravo é aquele que não sou eu”, escrito por Alexandre Vieira Ribeiro para a edição de setembro de 2014 da Revista de História da Biblioteca Nacional

Escravidão ajudou a enriquecer a Suíça – Bancos do país financiaram, segundo pesquisas, o tráfico de pelo menos 175 mil escravos africanos

Artigo escrito por Jamil Chade para o jornal o Estado de São Paulo a respeito da atuação de banqueiros suíços de Neuchâtel no comércio de escravos para a América

            Prezados leitores, tem se tornado comum este cavoucar do passado, este reabrir de velhas feridas para entender certos fenômenos que ainda estão presentes em nossa sociedade. No Brasil temos a Comissão da Verdade, que investiga os crimes cometidos durante a ditadura militar. Na Suíça há uma organização não governamental, Cooperaxion, com sede em Berna, capital do país, que pesquisa o envolvimento de suíços e de instituições suíças no comércio de escravos. O objetivo é o de conscientizar os helvéticos a respeito desse assunto e quem sabe, conseguir uma reparação em dinheiro do governo suíço para os descendentes dos escravos.

            Para nós brasileiros, a escravidão é crucial. Crucial porque o Brasil foi o país que mais recebeu africanos (cerca de 45% de todos os escravos trazidos para a América, estimados em 12,5 milhões ao longo de três séculos e meio de tráfico) e talvez o que mais tenha sido influenciado não só pelos povos que foram trazidos à força, mas pelo próprio escravismo que se implantou aqui. Lembro-me das minhas aulas de história em que o professor falava do tal comércio triangular: os europeus trocavam tecidos por escravos na África, levavam os africanos para a América e lá os trocavam por açúcar, rum ou outra commodity que era levada à Europa. O comentário de Jorge Castañeda que citei acima, que aponta as disparidades econômicas do México como diretamente relacionadas às divisões étnicas, bem poderia ser aplicado ao Brasil, o caldeirão de miscigenação da América Latina.

         O que mostra que tal miscigenação não foi completa, no sentido de harmonizar valores, perspectivas e oportunidades econômicas e sociais. Aliás, encontrei essas palavras de Jorge Castañeda em um artigo em que o autor, Steve Sailer, comenta sobre os resultados do trabalho do professor de Harvard Robert D. Putnam sobre os efeitos sociais da diversidade étnica. Putnam interessou-se pelo assunto em virtude do grande afluxo de imigrantes mexicanos aos Estados Unidos e das repercussões de tal imigração na sociedade americana. Para o cientista político americano, elas não são boas, porque essas pessoas trazem consigo sua cultura, seus modo de vida, e a característica principal que ele vê nos mexicanos é que são incapazes de confiar em ninguém que não pertença ao seu ciclo mais próximo de familiares ou agregados. Ao contrário, os Estados Unidos, como já observara Alexis de Tocqueville no século XIX em seu Democracia na América, sempre se caracterizaram por serem um país em que havia altos graus de confiança social. Isso se traduzia em associações cívicas, na participação dos cidadãos em empreendimentos conjuntos para o bem comum, como a construção de escolas, hospitais, bibliotecas e outras instituições públicas. A pujança da democracia americana era o resultado direto desse ativismo social, dessa disposição dos americanos de dedicarem parte do seu tempo para refletirem sobre a res publica e trabalharem para conservá-la. De acordo com Putnam, o aumento da diversidade étnica dos Estados Unidos, ao aumentar a desconfiança mútua dos indivíduos de diferentes origens que não se misturam, mina a sociedade porque torna muito mais difícil haver cooperação mútua para o cultivo da coisa pública. Não é de se estranhar que a democracia americana, que tanto causara a admiração de um francês no século XIX, hoje se assemelhe muito mais a uma oligarquia.

            Prezados leitores, independentemente da origem dessa falta de confiança social que tantos males causa, não podemos deixar de notar isso no Brasil. Poderia falar aqui da nossa democracia de mentirinha, em que elegemos a cada quatro anos representantes no Legislativo e administradores no Executivo que se parecem muito uns com os outros, e que usam e abusam da promessa de renovação sem de fato fugirem do script de corrupção + incompetência a que estamos acostumados.   Mas escolho dar-lhes um exemplo mais prosaico, o modo como as praças públicas no Brasil são normalmente terra de ninguém. Todos os dias rumo ao restaurante passo em frente a um local com quadra de futebol reformado pela Prefeitura de São Paulo, que instalou aparelhos de ginástica e explicações sobre alongamento. Depois de uma semana que a praça novinha em folha tinha sido entregue, vândalos já tinham arrancado os cestos de lixo e já havia sujeira por tudo quanto é lado.

            Em suma, em nosso país, muito provavelmente diria eu por causa da chaga da escravidão, temos uma grande dificuldade de sentirmo-nos individualmente como partes de um todo e de nos responsabilizarmos por nossa participação nesse todo. Preferimos transferir a responsabilidade para outros, para líderes carismáticos, para salvadores da pátria a quem podemos idolatrar num momento e apedrejar no outro. Daí porque acho muito bem-vinda qualquer investigação que lance luz sobre a escravidão, que foi o grande negócio capitalista durante vários séculos. Por outro lado, saber mais sobre a instituição que moldou o Brasil não deveria nos levar a ter ganas de vingança e querer reparações dos países que lucraram com o comércio de gente. Afinal, os europeus organizaram e globalizaram uma atividade econômica que já existia na África, praticada pelos próprios africanos. Portanto, achar culpados do sofrimento de milhões de pessoas não é tão simples assim. Além do mais, devemos ser sensatos o suficiente para não sermos anacrônicos e julgarmos o passado com os olhos do presente. Assim como hoje achamos imoral o tráfico de escravos conforme foi praticado para a colonização da América, daqui a algumas décadas talvez poder-se-á dizer que comprar I-phones da Apple produzidos por chineses que trabalham por salários aviltantes ou fazer pedidos on-line no site da empresa Alibaba Express é algo ignominioso, porque acaba contribuindo para o fechamento das indústrias locais. E no entanto, quantos de nós estamos prontos a condenar os europeus traficantes de escravos e achamos normal participarmos da economia globalizada do século XXI?

            A saída para esses dilemas é sempre o esclarecimento. Sabermos o que de fato foi a escravidão, como de fato funciona a rede global de suprimentos no mundo atual é crucial para fazermos nossas opções morais. O que não podemos é por meio de investigações como as empreendidas pela Cooperaxion eleger os bons e os maus, os bodes expiatórios para serem imolados no altar da indignação seletiva e da hipocrisia. Preto no branco, explicações já, mas que nos levem a um conhecimento nos moldes socráticos, de maneira a renunciarmos ao egocentrismo e sabermos nosso lugar no todo.

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