Desapega

Desde o início do ano, o rubloperdeuum quarto do seuvaloremrelaçãoao euro e umterçoemrelaçãoaodólar (…) O banco central russo estima que na segunda-feira a fuga de capitais do paísatingiu a marca de 128 bilhões de dólares no anodevidoà crisenaUcrânia e que a inflaçãoultrapassará a marca de 8 %.

Trechoretirado de umartigo no jornalfrancês Le Monde intitulado « Os capitaisfogem da Rússia, Poutinmantém a fachada de serenidade

O líderreformista da UniãoSoviéticapoderia ter dadoum basta noasinsurreições na Alemanha Oriental, Hungria, e Tchecoslováquia. O poderosogrupo de forças soviéticas na Alemanha, lotado na Alemanha Oriental, tinha 338.000 soldadosmuitobemtreinadosem 24 divisões, com 4.200 tanques, 8.000 veículosblindados, 3.800 armas e lança-mísseis e 690 aviões de combate.

Trechoretirado do artigo « Eddy Chevvy », Gorby e a queda do muro, do jornalistaindependenteEricMargolis

            Desapega, este é o mote de um site de vendas para atrair usuários. A mensagem é simples: devemos nos livrar de tudo aquilo que um dia foi útil e hoje não é mais, coisas que relutamos em passar para a frente porque convivemos longos anos com elas, ou porque temos muitas lembranças associadas àquele objeto. E o que seria o homem sem suas memórias? Ao desapegar-se o indivíduo inaugura vida nova: deixa o passado para trás, para olhar para o futuro.  Torna sua casa menos entulhada, dá espaço para comprar outras coisas que lhe serão mais vantajosas e ainda ganha um dinheiro vendendo algo já velho. Este mote fez muito sucesso e hoje foi incorporado ao vocabulário corrente, para incitar uma pessoa a deixar de pensar em um relacionamento passado ou não ficar perdendo tempo em coisas que não podem ser mudadas. Eu, se fosse amiga da ex-primeira dama Roseane Malta, ex-mulher do ex-presidente Fernando Collor de Melo, teria lhe falado: querida, desapega! Este livro de memórias que ela acaba de lançar « Tudo Que Vi e Vivi”, com acusações sobre as quais não tem provas, soa como despeito de ter sido preterida pelo hoje Senador da República pelo Estado de Alagoas. O melhor que a moça de Canapi deveria fazer é esquecer seu ex e parar de chafurdar em um passado que não volta mais. A atitude de escrever um livro com fofocas é típica de quem passou por um divórcio que lhe deixou um gosto amargo na boca e não consegue refazer a vida.

             Há um ditado que diz que « vingança é um prato que se come frio ». A vingança dá bons filmes e histórias. Quem não gosta de acompanhar as peripécias de um personagem que foi injustiçado e que depois volta para fazer seu acerto de contas? Quando o chamamento às falas dá certo e os inimigos são trucidados é uma grande catarse para o espectador leitor. Por outro lado, não é sempre que as vinganças funcionam e mesmo quando dão certo o vingador acaba sofrendo as consequências ou então mudando de atitude. Quem assistiu ao filme argentino de 2009 « O Segredo dos Teus Olhos », de Juan Jose Campanella, sabe do que estou falando. Ricardo Morales, personagem cuja esposa foi estuprada e assassinada por um psicopata, Isidoro Gómez, consegue encontrá-lo e prendê-lo em uma cela em um local distante.  Ricardo e Isidoro vivem há anos por assim dizer juntos: Ricardo dá ao criminoso o que comer e o que beber, mas não lhe dirige a palavra, levando uma vida infernal simplesmente para vingar a morte da amada. Em um exemplo mais edificante, o Conde de Monte Cristo, personagem do escritor francês Alexandre Dumas, depois de destruir a vida de todos os inimigos que haviam lhe colocado na prisão do Château D’If, acaba tendo uma lição de vida, desprendendo-se do que o ligava ao seu passado de infortúnio. Ele deixa de nutrir ressentimentos pela amada Mercedes que não o esperou e casou com outro e retoma sua vida com outra mulher, dando-se uma chance de ser feliz eabandonandoa vida focada nas injúrias que sofrera.

             Como esses exemplosmostram, a virtude de desapegar é difícil de ser cultivada. Daí que quem a mostra em suas atitudes merece nosso louvor. Prezados leitores, esse introito sobre pessoas vingativas, rancorosas e infelizes serve para eu lhes introduzir um personagem que em minha opinião soube exercer o desapego para o bem de milhões de pessoas em todo o mundo. Falo do ex-líder da União Soviética, Mikhail Gorbachev, que quando o muro de Berlim caiu há exatos 25 anos, não caiu na tentação de salvar a honra da URSS e do comunismo e deixou de usar os recursos de que dispunha, conforme colocado na introdução deste artigo. Simplesmente deixou que o castelo de cartas ruísse para que não houvesse derramamento de sangue, para que não houvesse uma lenta e dolorosa agonia do regime soviético, que já dava sinais de iminente colapso desde a década de 70.

              Por que Gorbatchev fez isso? Talvez porque via como inevitável a marcha da história,ou porque considerava que os milhões de vítimas de Stalin já eram suficientes no passivo do comunismo, ou porque diferentemente da grande maioria dos líderes políticos que passaram pela face da Terra, seja uma pessoa moralmente decente. Quem conhece história sabe que muitos dos chamados grandes homens e mulheres dedicaram-se na verdade a construir seu próprio sonho de poder e a mobilizar recursos humanos e materiais para isso, não se importando muito com o custo em vidas e destruição. Para ficar em um único exemplo, Napoleão criou um império, estabeleceu as bases jurídicas da sociedade burguesa na França, mas também foi o general que insistiu em uma campanha militar na Rússia e quando tudo deu errado covardemente deixou seus soldados morrerem de frio, de fome e de doenças para voltar mais rápido à França e lutar para se manter no poder.

          O irônico é que as pessoas que agem sem ficarem obcecadas pelo podermuitas vezes são consideradas fracas. Gorbatchev é um herói no Ocidente, mas na Rússia ele é visto como tendo sido responsável pela humilhação do país, ao contrário de Stalin, que comandou a vitória contra os nazistas. E quem há de negar isso? Gorbatchev e seu fiel escudeiro, o então Ministro das Relações Exteriores, Eduard Shevardnadze fizeram muitas concessõesmesmo enfrentando a resistência interna dos comunistas linha-dura: permitiram a reunificação da Alemanha, mandaram de volta para casa as tropas soviéticas que ocupavam a Europa Oriental e a região do Báltico, a União Soviética foi desmantelada sem que houvesse nenhuma tentativa de resistência pela força das armas. A promessa que foi feita por Ronald Reagan era de que a OTAN não se expandiria na Europa Oriental e nas fronteiras da Rússia.

               Como sabemos hoje, essas promessas foram sistematicamente quebradas por George Bush I e II, por Bill Clinton e por Barack Obama. Os Estados Unidos incentivaram e apoiarama Revolução Laranja na Ucrânia, a Revolução Rosa na Geórgia e hoje querem de qualquer forma que a Ucrânia caia nos braços da União Europeia. A Rússia é vista como pária da tal da “comunidade internacional”como o Irã, e alvo de sanções econômicas. O próprio Gorbatchev, do alto dos seus 83 anos, reclamou recentemente que uma nova Guerra Fria está começando.

                Prezados leitores, para aqueles como eu que admiram os raros líderes com algum senso moral a única esperança é que Gorby seja um dia julgado final e favoravelmente pela História, tanto dentro quanto fora de seu país.

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A fumaça está no ar

O terceiro turno já começou.

Historiador Carlos Guilherme Mota, em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo de 2 de novembro, sobre o pedido de auditoria da eleição feito pelo PSDB

A segurança e corretude dos programas usados na urna baseia-se em confiar na boa fé dos técnicos do TSE. Repetimos: não há nenhuma razão para duvidar da boa fé destas pessoas. Mas isto fere as boas práticas de segurança.

 

Trecho do relatório da Sociedade Brasileira de Computaçãopublicado em 2002 sobre a Tecnologia Eleitoral e a Urna Eletrônica

        Prezados leitores, sinto um cheiro de fumaça no ar. A padaria que fica a um quarteirão da minha casa pegou fogo e os ventos trouxeram a névoa até o meu prédio. A princípio, quando senti o cheiro nauseabundo, eu pensei que as labaredas estivessem perto de mim e corri a tocar a campainha do meu vizinho siciliano, Máximo, que acalmou-me dando as informações verdadeiras. Daqui a pouco os bombeiros irão embora depois da operação de rescaldoe os donos da padaria contabilizarão os prejuízos em termos de perda de faturamento, estoque perdido.

        O mesmo parece estar ocorrendo em nosso país, onde os ânimos continuam exaltados, as paixões consumindoa alma dos vencedores e derrotados nas últimas eleições, sendo necessário um pouco de água fria para acalmar todos. Os descontentes absurdamente foram às ruas em Sâo Paulo no sábado dia primeiro pedindo o impeachmente de Dilma. Uso o termo absurdamente porque o fato de Dilma ter sido eleita por margem apertada não é motivopara questionar a legitimidade do resultado. Mas eis que o partido derrotado entra com pedido de auditoria das eleições ao TSE…

        É uma pena que o momento de tal solicitação seja inoportuno. Inoportuno porque fica parecendo revanchismo do PSDB querer “melar” o pleito de de 26 de outubro. O fato é que pessoas respeitáveis, versadas em segurança das informações, já levantaram dúvidas sobre o sistema eletrônico de votação brasileiro no início dos anos 2000, precisamente a Sociedade Brasileira de Computação no relatório mencionado acima. Não entrarei em detalhes a respeito do conteúdo, mesmo porque meus conhecimentos de informática são quase nulos. De qualquer forma, eu li um artigo disponível na internet, no site da Fundação Konrad Adenauer, preparado por três especialistas em ciência da computação, Diego F. Aranha, Marcelo M. Karam, André de Miranda e Felipe B. Scarel que participaram da segunda edição dos Testes Públicos de Segurança organizados pelo Tribunal Superior Eleitoral e fazem referência ao relatório de 2002.

        Basta dizer que o sistema brasileiro é classificado como de armazenamento eletrônico direto, pois os votos são “armazenados e contabilizados de maneira puramenteeletrônica, impedindo assim qualquer possibilidade de recontagem ou de verificação independente dos resultados, pois a adulteração não detectada do software”causa distorções indetectáveis nos resultados”.O DRE é considerado o modelo de equipamento de votação, dentre os três atualmente disponíveis no mundo, com menor nível de transparência e de maior dependência do software. Os outros dois são: Voto Impresso Conferível pelo Eleitor e Verificabilidade Fim-a-Fim.

        À época da divulgação dos resultados da análise da SBC nenhum partido comprou essa briga, talvez porque nenhum se sentisse particularmente prejudicado. Devido à falta de pressão externa, a lei 10.408 de 2002, que estabelecia o voto impresso verificável pelo eleitor foi revogada pela lei 10.740 de 2003, diante das alegações do TSE de dificuldades operacionais e alto custo. Como contemporização, foi instituído o Registro Digital do Voto, colocado à disposição dos partidos após as eleições, que não permite a verificação independente dos votos porque é gerado pelo próprio software: se o programa foi elaborado de maneira defeituosa, com premissas insuficientes, o RDV também será defeituoso. O ideal seria que o eleitor tivesse o comprovante do seu voto em papel e que pudesse haver uma contagem desses votos impressospor amostragem paralela às totalização eletrônica parcial.

        Infelizmente isso está longe de acontecer. O Corregedor-Geral daJustiça Eleitoral, ministro João Otávio de Noronha comentando o pedido do PSDB de auditoria, disse que “não é sério” comparando-o a uma tentativa de ganhar a eleição no tapetão. Em suma, uma reação irritada, típica de um país ainda em rescaldo após o fogo das eleições, como se pensar que o sistema eletrônico de votação possa ter defeitos de segurança, já apontados por vários especialistas, como demonstrado neste humilde artigo, seja estúpido, seja simplesmente despeito de perdedores.

        Pode até ser que Carlos Sampaio, coordenador jurídico da campanha de Aécio Neves e autor do pedido de auditoria, tenha simplesmente querido criar um factóide na mídia e para não dar argumentos aos que não querem saber de ouvir críticas às nossas celebradas urnas, seria bom se todos os partidos se unissem em prol de uma auditoria do DRE de maneira a aprimorá-lo. Mas o clima político no Brasil está tão violento que um tal esforço suprapartidário é impensável: o PT, vitorioso nas urnas, consideraria-se ameaçado na sua posição de poder se falhas de segurança ficassem comprovadasem tal auditoria, e classificaria qualquer conclusão desfavorável sobre o sistema como tentativa de golpe. Dilma já fez uso dessa cartada durante a eleição, quando classificou a divulgação das informações dadas pelo ex-diretor da Petrobrás Paulo Costa como golpistas. Essa mania de perseguição não é apanágio dos vermelhos,c laro. Os tucanos, na pessoa do reeleito governador de Sâo Paulo, Geraldo Alckmin, viram nas notícias catastróficas sobre a crise do abastecimento de água durante a campanha eleitoral como tentativa de uso político do problema. Em suma, nossos estadistas tupiniquins consideram que falar abertamente sobre os males que afligem a população dá munição aos adversários e só devem ser abordados se for possível livrar-se da responsabilidade e atribui-la à oposição.

        Prezados leitores, este episódio da auditoria do sistema eleitoral, que as pessoas mais bem informadas sabem ter falhas graves, mostra o triste estado da nossa democracia. As pseudo discussões nas redes sociais não ajudam em nada na conquista da serenidade. É um tal de uns xingarem os outros, uma torrente de ataques pessoais e a existência de raras instâncias que funcionem como mediadores entre os campos inimigos, pois a mídia, que deveria cumprir esse papel, muitas vezes é tão sectária quanto os internautas e eleitores. Felizmente no meu mundo particular não sinto mais o cheiro de fumaça, o fogo da padaria foi debelado, só restam as fotos. O mesmo não posso dizer do Brasil.

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And the winner is…

[…] uma função fundamental dos governos em todos os lugares é a resolução de conflitos. Mas as democracias oligárquicas com as quais o mundo acostumou-se, aqueles governos compostos de facções, não conseguem resolver conflitos. Quando uma eleição é uma disputa entre pessoas que representam facções contrárias, o conflito no governo é inevitável. As eleições exacerbam os conflitos. Não pode haver compromisso em relação às visões sectárias fundamentais. Mesmo quando possível, o compromisso entre aqueles que querem fazer algo e aqueles quenão querem fazer nada sempre resulta em políticas ineficazes que as facções então podem usar umas contra as outras. O “gasto inadequado” transforma-se em “gasto perdulário”, por exemplo. […] A separação das partes ou a opressão de uma pela outra torna-se a única solução para tais conflitos fundamentais.

Trecho retirado do artigo “ O fim da democracia estúpida: como a democracia falsa destrói a democracia real”escrito pelo filósofo americano John Kozy

 Já que o Brasil fez sua escolha pelo PT entendo que o Sul e Sudeste (exceto Minas Gerais e Rio de Janeiro que optaram pelo PT) iniciem o processo de independência de um país que prefere esmola do que o trabalho, preferem a desordem ao invés da ordem, preferem o voto de cabresto do que a liberdade”, afirma o texto.

Twitter de Paulo Telhada, deputado estadual eleito pelo PSDB de Sâo Paulo

      Prezados leitores, graças aos bons deuses acabou, este é meu último artigo sobre nossas eleições, eleições que parecem ter dado um desfecho de ouro ou de latão, a depender das preferências de cada um, a um ano que teve uma Copa do Mundo que nos mostoru que o Brasil como país do futebol é coisa do passado.Bendigo a chegada das oito horas do dia 26 de outubro, quando os resultados foram divulgados, não só pelo fim do programa eleitoral, que a mim atrapalhava-me sobremaneira de manhã, pois impedia-me de saber a previsão do tempo para o dia, algo extremamente útil. Como já disse n vezes neste meu pequeno espaço virtual, a eleição à Presidência da República Federativa do Brasil tornou-se uma disputa futebolística, em que há os perdedores e os vencedores, aqueles que “chupam”, ontem foi a tucanada que chupou, e aqueles que comemoram ruidosamente nas ruas, fazendo barulho e empunhando bandeiras, de alma lavada pela vitória do seu time, no caso, os petistas.

      Chamo a tal contenda de Fla x Flu, PT versus PSDB. O Flamengo venceu pela quarta vez consecutiva, pois valeu-se da massa dos seus torcedores, que formam o maior contingente do Brasil. O Fluminense perdeu pela quarta vez consecutiva, porque é visto como um time de almofadinhas, para usar uma gíria antiga (eu poderia ter falado na elite branca criticada por Lula), que são desconectados da vida real dos brasileiros. Pelo menos é essa a imagem que fica. Para falar a verdade, eu não me arrisco a dar uma explicação sobre a vitória do PT. Deixo isso para os “especialistas”: marqueteiros, sociólogos, economistas, antropólogos. Não me arrisco porque há diferentes razões pelas quais as pessoas escolhem um candidato: para defenderem interesse próprio, para serem fiéis a um ideal, para expiarem culpas passadas, presentes e futuras. Quem sabe os mineiros, que afundaram Aécio Neves, tenham preferido Dilma Rousseff não por serem particularmente fãs da presidente, massimplesmentepelo fato de que, tendo elegido Fernando Pimentel para governador, seria mais sensato ter um presidente petista para conseguir verbas, perdão de dívida e outras benesses?

      Entrar na cabeça de mais de 142 milhões de eleitores para sabera razão de terem votado no vermelho ou no azul é impossível, mas seria a maneira mais íntegra de explicarmos o resultado das eleições. Todo o palavrório que está sendo dito no dia da ressaca, segunda-feira, depende das opções ideológicas de cada um. Quem é viúvo ou viúva dos tucanos dirá que o PT ganhou porque usa o Bolsa Família para comprar lealdades, quem está do lado vencedor dirá que o povo não é mais bobo e sabe distinguir quem defende seus interesses, apesar da mídia querer fazer-lhe lavagem cerebral.Sendo infrutífera a busca das motivações íntimas dos eleitores,proponho-me uma reflexão sobre as consequências funestas dessa disputa futebolística.

      Tais consequências eu já adiantei no início deste artigo, tomando emprestadas as palavras deJohn Kozy, que aponta em seu ensaio os males da democracia, tal como praticada no mundo comtemporâneo. Para ele, tais males derivam do fato de as pessoas serem muito diferentes, o que leva à formação de facções que disputam entre si. Kozy tem como objeto de estudo os Estados Unidos, mas o problema da diversidade talvez seja aindamais exacerbado no Brasil. Essa diversidade ficou patente não só no modo como as diferentes regiões votaram, mas como os brasileiros reagiram ao resultado. O Norte e Nordeste vestiu-se devermelho, o Sul, Sudeste e Centro-Oeste vestiu-se de azul. Os que perderam reclamam dos nordestinos, ao ponto do ex-coronel da Rota Paulo Telhada falar em separatismo. Uma vereadora do Rio Grande do Norte desenhou em um Twitterum mapa do Brasil em que a parte vermelha é Cuba, a parte azul é o “verdadeiro” Brasil. Os que ganharam nãodeixaram por menos. Choveram gozações nas redes sociais sobre os paulistas que votaram nos tucanos e estão morrendo de sede, enquanto os nordestinos estão por cima, porque podem gastar água à vontade.

     Em suma, faltam verdadieras discussões proveitosas que levem a um consenso, sobram desconfianças, preconceitos mútuos, xingamentos, desentendimentos. O que será da política no Brasil em tal clima? Dilma e Aécio adotaram o tom politicamente correto da união, defendendo o diálogo e todo aquele blá, blá, blá sobre oposição construtiva. Vejamos como isos se dá na prática, mas quando eu assistia à transmissão dos resultados na Rede Bandeirantes, não pude deixar de notar que o Ministro Padilha, candidato derrotado ao governo de São Paulo, mal podia conter-se de felicidade:sorria o tempo inteiro e logo deixou sua cadeira para comemorar mais à vontade, depois de ter trocado acusações no limite da civilidade adequada à televisão com Álvaro Dias, senador pelo PSDB. Tenho certeza que se o tucano tivesse vencido, o sorriso de vitória seriao mesmo no paranaense. Não há mal nenhum em ficar contente com uma notícia, o problema é que o contentamento mostrado em nossas eleições sempre parece desmesuradamente triunfante, ao estilo de “ao vencedor as batatas”.

     Prezados leitores, não vejo nada de bom nessas gozações mútuas, nesse sentimento de superioridade que um lado tem em relação ao outro, especialmente porque as diferenças entre PT e PSDB, que parecem abissais, são, em minha opinião, muito sobrestimadas. Ambos preocupam-se em acalmar os mercados, ambos estão em conluio com grandes grupos econômicos para se aproveitarem do Estado, e principalmente, parafraseando a finada candidata Marina Silva, ambos tem um bocadinho de incompetência para chamar de sua. O PSDB de São Paulo fez uma gestão no mínimo temerária da crise hídrica, o PT está tentando transpor um Rio São Francisco que é mais areia do que propriamente água.O jogo acabou, as torcidas estão deixando o estádio, os ânimos estão acirrados. Esperemos que o próximo jogo da democracia brasileira seja em clima de amistoso porque do jeito que está as coisas andarão mal parao nosso país.

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Pequenas esperanças ou grandes frustrações?

O que está em curso é uma tropicalizaçãodas regiões consideradas subtropicais, que perdem o prefixo “sub”. Em vez de quatro, elas terão praticamente duas estações: o verão, mais quente e seco, eo inverno, chuvoso e frio.

Carlos Nobre, climatologista do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE)

Estiagem que se espalha por vários Estados já causa prejuízos bilionários

Manchete da seção de Economia e Negócios do jornal O Estado de São Paulo de 19 de outubro

O Brasil precisa de crescimento e melhor governo. Aécio Neves tem mais probabilidade de fazer isso do que Dilma Rousseff.

Trecho retirado do editorial da Revista The Economist de 18 de outubro intitulado “Why Brasil needs change”

 

                Prezados leitores, em nossa democracia tupiniquim depois das eleições há sempre o dilúvio, não no sentido literal da palavra, de quantidades excessivas de água, exatamente o oposto. Nossos governantes, passado o obstáculo da garantia do cargo cobiçado, começam a nos revelar as más notícias, que precisavam ficar encobertas por uma cortina de fumaça para que os eleitores possam se deixar iludir. É uma estratégia que infelizmente funciona. Em São Paulo, a crise abissal de água, que ameaça a economia e a vida cotidiana das pessoas no Estado mais rico do país, não impediu que o governador Geraldo Alckmin fosse reeleito.

                  O fato é que o tamanho da poça de lama em que estamos metidos foi escomoteado pelo uso do volume morto do Sistema Cantareira e pela confiança demonstrada pelo governador de que o problema será resolvido com as chuvas de verão. Nós eleitores fingimos acreditar que tudo está bem e que nossas autoridades vão dar conta do problema, porque não queremos admitir para nós mesmos que não podemos confiar nelas, pela simples e boa razão que o apertar de botões nasurnas eletrônicas a cada dois anos não é um fator suficiente de pressão para que sejam eficientes.

                Na prática, imediatamente finda a contagem dos votos, pipocaram más notícias e problemas. Coincidentemente a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo resolveu admitir que há risco de racionamento e a falta d’água em todo o Estado se espalha como fogo em capim seco. A última reserva será usada agora, a segunda cota do volume morto, mas mesmo que chova dentro do esperado, o que não é certo, dadas as mudanças climáticas estudadas pelo climatologista Carlos Nobre, é de se esperar que o Sistema Cantareira, em coma, demore anos para se recuperar, o que pode fazer com que a seca se torne crônica. Como lidaremos com o problema? Pelo modo capitalista, aumentando consideravelmente o preço da água, de modo a torná-la artigo de luxo? Se for para condenarmos a população com menor poder aquisitivo a morrer de sede, terá que haver uma transferência das populações para outras regiões do país onde haja maior abundância relativa de um bem tão essencial. Como isso será feito? Nossas autoridades pagarão o transporte para a Amazônia, onde há os maiores mananciais de água? Ou as pessoas começarão a sair do Sudeste como refugiados da estiagem, por puro desespero?

                O que dificulta a abordagem de problemas sérios como esse é que no Brasil temos uma grande dificuldade de trabalharmos com o pior cenário. Hoje quando estava pagando a conta de um café comecei a conversar com o dono do restaurante se ele estava se preparando para a escassez de água de maneira a permitir a operação do seu negócio. Percebi que ele foi pego de surpresa com minha pergunta e ele simplesmente disse que não adiantava planejar, porque de qualquer modo não haveria carro-pipa para todo mundo. O fato é que os mais paranóicos, ou precavidos, já estão estocando galões do precioso líquido em casa. É uma estratégia que faz sentido, considerando que o caos ainda não se instalou e portanto ainda é possível comprar garrafões a preços que não refletem ainda a escassez do bem. Para quem tem espaço em casa para armazená-los, então,nada melhor do que garantir pelo menos a água da comida.

                Prezados leitores,reclamei aqui do governador de São Paulo e esua estratégia de tapar o sol esturricante que evapora nossas represas com a peneira. Será que a abordagem dos fatos da vida é melhor no nível federal? Não tenho grandes esperanças a esse respeito. Lembro-me do Plano Cruzado e como os preços congelados ajudaram a eleger governadores, deputados e senadores do PMDB em 1986. Logo depois das eleições os preços foram descongelados e a mentirinha dainflação controlada caiu por terra. Talvez o otimismo natural de nós brasileiros nos leve a enfocar coisas positivas e esquecer ou minimizar as negativas, varrê-las para debaixo do tapete demodo que elas apodreçam lá dentro e sumam.

                O atual Fla Flu entre petistas e tucanos reflete esse otimismo que se fia em dados tênues. Os eleitores de Aécio e os editorialistas da Revista The Economist,que apostam suas fichas nele, parecem acreditar que a mudança de governo terá efeitos extraordinários no Brasil. A Petrobrás será mais bem gerida, a reforma tributária será feita, o governo interferirá menos na economia, Armínio Fraga, o coelho da cartola do PSDB,garantirá o controle da inflação, e assim haverá mais confiança dos investidores e inauguraremos um ciclo virtuoso de estabilidade, investimentos, emprego. Não digo nem que sim nem que não, mas o fato é que há várias condições que permanecem as mesmas e não permitem mágicas.

                  Nosso Congresso continua tão ruim quanto era, pela representação excessiva dos Estados mais atrasados e pelo total desinteresse dos eleitores pela escolha dos parlamentares. Portanto, uma reforma tributária esbarrará no mesmo conflito de interesses entre as regiões brasileiras e pela modorra legislativa. A economia mundial não anda bem das pernas e independentemente de quanto os investidores internacionais gostem ou não do governo de plantão, não teremos lámuitas benesses. Quanto à corrupção, é difícil não acharmos, diante de tantos escândalos de parte a parte, quetrocando o PT pelo PSDB estaremos fazendo algo muito além do que trocar a Camorra pela Cosa Nostra. O modo como as instituições públicas são organizadas no Brasil, com excesso de burocracia, ritos, carimbos, protocolos, faz com que elas sejam pouco transparentes e quase que totalmente imunes ao controle do povo, que parece ter coisas mais interessantes com o que se preocupar (incluo-me neste rol de alienados).

                  Prezados leitores,perdoem meu pessimismo e paranóia. Quem sabe chova torrencialmente no Sudeste no verão e a notícia da estiagem torne-se tão estapafúrdia quanto o bug do milênio. Quem sabe mudando a Presidenta pelo Presidente mude a qualidade da administração pública no Brasil? O melhor talvez seja atingirmos um meio termo e cultivarmos pequenas esperanças para não termos grandes frustrações.

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Adolescentes de 16 anos: anjos ou demônios?

Aécio defende proposta apresentada por seu candidato a vice, Aloyisio Nunes Ferreira (PSDB-SP), que prevê a redução da maioridade penal quando menor de 16 a 18 anos cometer crimes graves ­ em vez de se aplicar o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), quelimita o tempo de internação a três anos, [sic] esse jovem a penas mais duras, conforme o Código Penal. Marina é contra a redução mesmo em casos pontuais e pediu a Aécio que reveja essa postura para declarar apoio no 2º turno.

Trecho extraído do artigo “Aécio aceita parte dos compromissos de Marina” publicado no jornal O Estado de São Paulo de 12 de outubro de 2014

A polícia faz operações sistemáticas em áreas onde há tráfico de drogas e percebemos que quadrilhas têm recrutado cada vez mais crianças e adolescentes. Eles estão sendo usados para atuar na linha de frente.

Trecho extraído do artigo “A idade da reincidência” publicado no jornal O Globo de 12 de outubro de 2014

   Prezados leitores, ao fim e ao cabo de muitas crises existenciais, reflexões e ponderações, Dona Marina Silva aceitou apoiar Aécio Neves para o segundo turno das eleições presidenciais. Um dos pomos da discórdia, o da redução da maioridade penal, parece ter sido relegado por Marina, talvez por ela achar que por enquanto não seja uma séria ameaça, já que ainda é projeto de lei, e como sabemos nosso Legislativo trabalha três diaspor semana, se tanto, quando não há feriados. Portanto a necessidade vislumbrada por Marina de tirar o PT do poder revela-se de tal monta que sua ojeriza pela transformação dos atuais inimputáveis de 16 anos em imputáveis criminalmente não pode prejudicar o bem maior.

   Esta aí uma coisa que me intriga na nossa legislação.Minha estupefação é fruto da inconsistência. O artigo 14, parágrafo um, inciso II letra c da Constituição Federal dá o direito político do voto aos maiores de dezesseis anos. O artigo quinto, parágrafo único do Código Civil concedecapacidade para os atos da vida civil a menores de dezesseis anos que são emancipados pelos pais ou que conseguem se manter por meio de atividade econômica. O artigo 1517 do mesmo diploma legal, como dizem os advogados, concede o direito ao menor com dezeseis anos de idade de casar-se mediante autorização dos progenitores.

   Enfim, nossa lei concede uma série de direitos a essa faixa etária, mas no momento de impor obrigações ela é leniente para dizer o mínimo, estabelecendo no artigo 27 do Código Penal que os menores de 18 anos são penalmente inimputáveis, sujeitos às normas do Estatuto da Criança e do Adolescente, que como sabemos estabelece as medidas socioeducativas para os infratores. Por queos dois pesos e duas medidas? Por que de um lado consideramos que um indivíduo de 16 anos tem discernimento para escolher o Presidente da República, tem capacidade para sustentar-se, sabe escolher seu cônjuge e na hora de apertar um gatilho e matar uma pessoa ou praticar um furto achamos que ele não tem discernimento para ter consciência da gravidade do ato?

  Os bem pensantes consideram a redução da maioridade penal uma falsa solução, uma manobra demagógica, porque colocar mais pessoas nas cadeias brasileiras superlotadas não vai resolver o problema, só vai piorá-lo, porque vai permitir a menores que aprendam com os mais velhos e tornem-se PhDs na bandidagem.Não pretendo aqui defender as virtudes ressocializantes da cadeia. É claro que para indivíduos excepcionais como Aleksandr Solzhenitsyn, que ficou preso durante 11 anos em campos de trabalho forçados na União Soviética, o encarceramento pode ser um bálsamo. Ele confessa que ascendeu espiritualmente, pois os anos de sofrimento permitiram-lhe focar o pensamento naquilo que interessava e criaram nele a resolução de tornar-se escritor, carreira esta que foi coroada em 1970 com o Prêmio Nobel de Literatura. Possotambém citar o exemplo de um brasileiro, para quem a prisão também rendeu bons frutos: Graciliano Ramos, que foi acusado de ser comunista um pouco antes do golpe de Estado de Getúlio Vargas, foi enviado em 1936 para o Presídio da Ilha Grande, no Rio de Janeiro. Sua estadia lá inspirou-lhe o livro Memórias do Cárcere, que infelizmente foi publicado com várias alterações e cortes, de vido à censura imposta pelo Partido Comunista Brasileiro, ao qual o autor se filiou em 1945.

   Mesmo levando em conta esses casos, não tenho ilusões sobre a média dos presos, para quem a vida confinado só traz miséria material e moral, pois aumenta a corrupção do indivíduo, ainda mais nos estabelecimentos prisionais brasileiros em que as condições são precárias, para dizer o mínimo. Definitivamente não é a cadeia que vai dar aulas de cidadania aos brasileirosrecalcitrantes e é ingênuo pensar que tal situação vá melhorar no médio prazo, pois se não cuidamos nem da saúde e educação dos brasileiros em dia com a lei, não priorizaremos tal atividade em relação aos fora da lei.

   Nesse sentido, haveria duas razõespara aceitarmos colocar mais um grupo de pessoas nas nossas prisões infernais. Em primeiro lugar é sensato que coloquemos indivíduos perigosos fora do convívio social para que eles não causem mais mal. Pelo artigo 121, parágrafo terceiro do Estatuto da Criança e do Adolescente, o menor infrator não pode ficar mais de três anos internado. Ora, alguém em sã consciência acredita que três anos de privação de liberdade é suficiente para mudar o comportamento de um adolescente que praticou um crime hediondo por meio de medidas socioeducativas ou para proteger a sociedade de um indivíduo que pode voltar a matar? Em segundo lugar, é preciso que nossas autoridades respondam à estratégia utilizada pelas quadrilhas apontada acima, qual seja, a de utilizar menores inimputáveis nas atividade criminosas, como forma de minimização dos danos para os membros. O fato é que nossa lei, com o nobre objetivo de proteger os vulneráveis, estimula que os menores sejam iniciados em crimes graves como homicídio bem cedo, pois a certeza da impunidade (o menor que cumpre a medida socioeducativa sai com a ficha criminal limpa) funciona como um grande estímulo.

   Prezados leiotres, peço-lhes perdão pela possível decepção que causei ao revelar meu lado Jair Bolsonnaro, o deputado federal durão mais votado no Rio de Janeiro, mas a mim me parece que o tratamento dado aos brasileiros de 16 anos de idade falha por ser inconsistente, causando um desequilíbrio entre os direitos de que eles gozam e os deveres que lhe são impostos. Se optarmos por considerá-los seres vulneráveis, cuja personalidade ainda está em formação, então não podemos considerá-los maduros o suficiente para votar, para casar, para constituir família e sustentá-la. Mas se queremos seguir a lógica dessa emancipação devemos aceitar que eles estejam prontos a assumir plena responsabilidade por seus atos ilegais.Deixemos o sentimentalismo de lado e encaremos os fatos da vida: ou o adolescente é vítima e incapaz ou então ele é considerado capaz tanto do bem quanto do mal.O que não podemos é continuar com essa ambiguidade em nossa lei.

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