Todo o poder às corporações?

A sobrevivência do sistema corporativo … exige que o o controledas grandes corporações transforme-se em uma tecnocracia absolutamente neutra, que equilibre uma série de demandas de vários grupos na comunidade e atribua acada uma das partes uma porção do fluxo de receitas com base em políticas públicas ao invés da cupidez privada.

Trecho extraído do artigo “A Corporação Americana”, escrito por Ralph Gomory e Richard Sylla

Vejo que vocês estão nervosos com isso. Temos que tomar cuidado para não remeter aos sovietes.

Walter Feldman, coordenador-geral da campanha de Marina Silva, ao explicar em reunião com a Associação de Lojistas dos Jardins de São Pauloque os conselhos de participação da sociedade propostos pela candidata do PSB não tinham nada a ver com os conselhos populares de Dilma Rousseff

                Prezados leitores, a cada eleição presidencial em que aparece um candidato considerado de esquerda com chances de ganhar, surgem os temores sobre o que o governo faria no poder. Haverá garantias ao direito de propriedade? A democracia de alta densidade e os conselhos departicipação popular significam todo o poder aos sovietes, como aconteceu na Revolução Russa de 1917? Será uma tentativa de introduzir o comunismo em nossas plagas por vias tortas, travestido de participação democrática? São dúvidas que sempre assaltam a mente dos que têm muito ou pelo menos algo a perder em termos de bens no Brasil. Invariavelmente os candidatos que propõem qualquer ideia alternativa ao tradicional processo legislativo acabam tendo que dissipar o medo suscitado nos formadores de opinião e não raro acabam diluindo suas propostas.

                 A trajetória de Lula é um exemplo desse aparar de arestas radicais. Em 1990 o sapo barbudo iria provocar a fuga de 800.000 empresários se eleito, dizia Mário Amato, presidente da FIESP. Para tornar-se palatávelàs elites, Lula acabou adotando a ortodoxia econômica e seguindo a trilha traçada por Fernando Henrique Cardoso, ao mesmo tempo em que consegiu distribuir um pouco a renda por meio de programas de transferência. Uma no cravo, outra na ferradura, uma receita contemporizadora que permitiu a Lula ser o herói de dois mundos, o dos pobres e o dos ricos, os quais não tiveram nada a temer dele. Afinal o ex-metalúrgiconão fez desapropriações em massa para fins de reforma agrária e nem taxou as grandes fortunas, como seria de se esperar de um partido que se inspirou no socialismo em seus primórdios.

                Assim, no frigir dos ovos, o debate sobre o aumento da participação do povo nas decisões políticas e a forma como a renda é distribuída no Brasil acaba dando-se em termos pouco produtivos, porque sempre leva à descrição de cenários apocalípticos do tipo “o comunismo vem aí, vamos nos proteger!” Proteger-se significa no mais das vezes neutralizar a ameaça tachando-a de radical e subversiva, como se qualquer audiência pública para discutir o orçamento ou qualquer plebiscito fosse o mesmo que dar todo o poder aos trabalhadores como propuseram os bolcheviques.

                É uma pena que assim seja, porque no paraíso do capitalismo, os Estados Unidos, há uma discussão acadêmica sobre os rumos políticos e econômicos que o país está tomando e o papel das corporações americanas no aumento da concentração de renda, do desemprego, e do déficit comercial nos últimos trinta anos. No artigo citado acima, Ralph Golmory e Richard Sylla descrevem resumidadamente a história das corporações, estabelecendo uma diferença entre o impacto que elas tiveram desde o fim da Segunda Guerra Mundial até a década de 70 eo impacto que passaram a ter a partir da década de 80. Segundo os autores, na época áurea do capitalismo americano, os dirigentes das empresas conseguiam equilibrar os diferentes interesses das partes interessadas, acionistas, executivos, governo e trabalhadores, porque os sindicatos eram fortes, o papel regulatório do Estado era incentivado e os administradores não prestavam muita atenção ao que os acionistas tinham a dizer. Havia então um círculo virtuoso, em que a produção e a produtividade aumentavam, os trabalhadores tinham ganhos salariais e com isso tinham capacidade de consumir aquilo que as empresas ofereciam, garantindo a estas o lucro e portanto a capacidade de oferecer empregos.

                 Tudo isso começa a mudar radicalmente a partir da década de 80, com o fim da Guerra Fria e a introdução de uma ideologia liberal. O papel de fiscalizador do governo passou a ser criticado, os sindicatos perderam força, já que a ameaça do comunismo acabou, terminando com o poder de barganha deles, e um novo mantra passou a ser repetido nos meios corporativos: “shareholder value” que pode ser traduzido como a ideia de que as empresas existem exclusivamente para dar lucro a seus acionistas e esta deve ser a tarefa primordial delas. Estabelece-se uma aliança entre os executivos e os acionistas pela qual a remuneração dos primeiros é dada em parte em ações, o que os estimula a aumentar-lhes o valor, o que é conseguido com lucros polpudos. Para que os lucros sejam em níveis satisfatórios aos acionistas, qualquer expediente é válido: terceirização da produção para locais em que a mão de obra é mais barata, venda da empresa para outra para torná-la mais enxuta (leia-se, com menos funcionários) e mais lucrativa, recompra das ações da empresa.É fácil ver que tais truques podem causar graves consequências: desemprego, obtenção de receitas de manobras financeiras e não pela produção, perda de capacitação técnica pelo fechamento de instalações produtivas nos Estados Unidos.

                 Golmory e Sylla fazem um balanço negativo dessa ênfase total no aumento dos lucros por meio da globalização. O círculo virtuoso que durou de 1945 até meados da década de 70 é substituído por um círculo vicioso em que ao crescimento exponencial do retorno aos acionistas corresponde uma perda da participação do trabalho na riqueza nacional, perda do poder de consumo, diminuição do crescimento econômico, concentração do poder econômico e político nas mãos de grupos influentes. Para eles, os Estados Unidos chegaram a um ponto de sua história em que nem tudo o que é bom para a General Motors é bom para o país e vice-versa, como proclamou Charles Wilson, diretor-presidente daquela indústria automobilística nos idos de 1950, quando foi nomeado Secretário da Defesa pelo Presidente Eisenhower. A solução é uma nova mudança de paradigmas, em que o shareholder value seja substituído pelo stakeholder value, em outras palavras, que os interesses de outras partes interessadas que não sejam somente os acionistas sejam levados em conta: os interesses dos trabalhadores, do meio ambiente, dos consumidores, do governo.Essa mudança de enfoque teria que vir por políticas públicas na forma deincentivos fiscais para que as empresas fossem direcionadas a agregar valor nos Estados Unidos,e não somenteapresentar resultados positivos a qualquer custo, como têm feito desde a década de 80.

          Interessante discussão essa, relevante também no Brasil, que está igualmente se desindustrializando por conta da globalização. Caso Dona Marina Silva seja eleita, que é o que parece no momento de acordo com as pesquisas, torçamos para que ela consiga ir além da política de Lula de agradar a gregos e troianos e proponha a discussão datal da sustentabilidade em termos de um esforço para agregar valor aqui no Brasil de maneira que possamos ter crescimento econômico com distribuição de renda. Não custa sonhar!

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Vidas paralelas

Sua descrição de como ela foi bombardeada com mensagens de texto de Hollande implorando-lhe que voltasse para ele durante os seis meses seguintes à “demissão” pública de Valérie – “Ele foi pego em flagrante; Eu fui a demitida,” ela escreve – fornece uma prova a mais que o Presidente não consegue comprometer-se com nada, um relacionamento, um rompimento, de forma que como podem os eleitores acreditar que a troca de ministros na semana passada e a virada econômica à direita significam que ele finalmente decidiu seguir uma linha política clara?

Trecho tirado do artigo “Como Valérie selou o destino do Presidente”, escrito por Anne-Elisabeth Moutet e publicado no jornal britânico Daily Telegraph na edição de 5 de setembro de 2014

Os evangélicos são 22,2% da população, segundo o Censo 2010. Somam 28 milhões de eleitores. Desde o ingresso de Marina na disputa, as campanhas dos três principais candidatos iniciaram uma corrida por esse voto.

Trecho retirado do artigo “O Voto Evangélico ainda em Formação”, publicado no Estado de São Paulo em 7 de setembro de 2014

Ele tem o charme do JK e o jogo de cintura do Tancredo. Só faltam uns fios de cabelo branco e uma primeira-dama para ele assentar.

Opinião proferida em 2008 pelo publicitário Nizan Guanaes sobre Aécio Neves

            Prezados leitores,para aqueles que acompanham os acontecimentos na Europa, uma das notícias mais quentes da semana foi a publicação do livro da ex-companheira do Presidente francês, Valérie Treierweiler, denominado Merci pour ce moment, sobre seu relacionamento de sete anos com François Hollande até que ele começasse a dar uns passeios clandestinos de scooter para encontar-se com Julie Gayet, passeios estes que foram flagrados por câmeras indiscretas em janeiro de 2014. Valérie, nascida Valérie Massoneau, descendo às mais baixas torpezas para vingar-se do homem que a humilhou publicamente, revela como Hollande mostrou-se profundamente aborrecido quando foi jantar na cada da família da companheira, filha de um aleijado que perdeu uma perna na Segunda Guerra Mundial e de uma recepcionista de rinque de patinação. Hollande comenta com Valérie, gozador: “estes Massoneaus não são muito bonitos, não é mesmo?” De acordo com o livro, o Presidente socialista refere-se aos pobres como desdentados, o que ensejou a criação de uma hashtag no Twitter #sansdents.

            É verdade que os franceses normalmente não condenam moralmente os políticos que dão suas escapadelas, muito pelo contrário, os puladores de cerca tradicionalmente foram resguardados pela imprensa, sob a justificativa de que a vida privada do indivíduo não tem nada a ver com sua vida de homem público. No caso de François Hollande, foi aberto um precedente, tanto que o livreo já está na primeira posição entre os mais vendidos. Suas trapalhadas são tantas e tamanhas que os franceses parecem ter se convencido de que o fato de o homem não conseguir estabelecer regras de convivência entre a mãe de seus quatro filhos, Ségolène Royal, a amante oficial, Valérie, e a mais nova conquista, Julie Gayet, longe de mostrar as proezas sexuais e capacidade de sedução de um galanteador francês, mostram um indivíduo indeciso, incapaz de organizar sua própria família estendida, que dirá um país. De fato, em 2012 François permitiu que sua então companheira Valérie apoiasse por meio do Twitter um candidato socialista dissidente, Olivier Farloni, oponente de Ségolène Royal nas eleições em La Rochelle. Olivier ganhou as eleições, o que causou um grande mal-estar no Partido Socialista, já que Hollande havia manifestando-se a favor da mãe de seus quatro filhos. Depois da separação de Valérie no início do ano, ela retirou-se para escrever seu livro-bomba, pegando-o de surpresa e obrigando-o a afirmar publicamente que dedicou sua vida a ajudar os pobres. Isso em um momento em que a França vive uma crise: o PIB cresceu míseros 0,3% e a produção industrial caiu 0,4%, o déficit público foi de 4,1% do PIB e o desemprego atingiu 10,2% em 2013.

            Prezados leitores, trago este exemplo da França, em que a vida pública de poucas realizações do chefe de Estado parece ser um reflexo da vida privada cheia de indecisões e mentiras, para uma reflexão sobre nossas eleições presidenciais. Será que deveríamos adotar o mesmo critério que os franceses, ao menos temporariamente, estão adotando em relação ao seu pífio presidente e ver a vida pública e a privada como duas esferas ligadas? Será que talvez esse seja o único critério que nos reste para decidirmos em quem votar? Afinal, os três principais candidatos parecem ter todos o mesmo programa, tanto assim que todos fazem salamalaques ao mercado, o que é um eufemismo para nos referirmos aos donos do dinheiro. Do lado de Marina Silva Walter Feldman, o coordenador de campanha, e o tesoureiro, o ex-presidente do Citibank Álvaro de Souza, já foram prestar as devidas homenagens ao Bank of America, empresas de shopping e de construção. Há reuniões marcadas com o Bradesco, o Citibank e o GP Investimentos, de propriedade de Jorge Paulo Lehman. Quanto à Dilma, avisou nesta semana que Guido Mantega, que não tem agradado aos empresários, nã continua em um segundo mandato. Aécio no primeiro debate da TV anuciou com todas as letras que o homem forte da economia será Armínio Fraga, mais ortodoxo impossível.

            Nesse sentido, só nos resta tentar vislumbrar alguma coisa do caráter do candidato para saber que tipo de líder ele será na Presidência. Em 2009 o jornalista Juca Kfouri acusou o candidato tucano de em uma festa do estilista Francisco Costa no Hotel Fasano no Rio dar um safanão em Letícia Weber, a mulher com quem casou em outubro de 2013. Será que Aécio é um baladeiro incorrigível, fútil, incapaz de ter prazer em uma pacata vida familiar? Será que seu hedonismo o levará a ser mais um político corrupto na chefia do Executivo, preocupado somente com seus interesses pessoais? Ao contrário, será que o estilo ascético de Marina, sua verve religiosa (ela chegou a morar em um convento em Rio Branco, no Acre, o das Servas de Marias Reparadoras), o fato de usar salmos da Bíblia para sua ação política, de considerar que há uma predestinação na sua candidatura devida à morte de Eduardo Campos, já anuncia que ela será a líder que acabará com a corrupção, que fará com que a moralidade reine entre nós?

           Muitas perguntas e nenhuma resposta, mas é óbvio que muitos brasileiros caminham por essa direção de traçar um paralelo entre a vida privada e a vida pública para decidir sobre seu candidato, mais com base nos valores morais, religiosos do indivíduo do que no programa de governo. Se isso provar-se-á mais uma maça envenenada árvore do nosso personalismo político ou se mostrará uma maturidade do nosso sistema político, em que os partidos parecem ter chegado a um consenso sobre o que deve ser feito, e as diferenças são pontuais, só o tempo dirá depois que verificarmos na prática o desempenho do candidato escolhido.

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Marina, aproxima

Ela diz que no seu governo não vai ter lugar para a fisiologia do PMDB. Você acha que Sarney e Renan vão sentar na beira da calçada e chorar: “A Marina não quer a gente no governo?”. Os fisiológicos têm voto. Não estão lá por acaso. Se só estivessem no Congresso os melhores, a política seria outra.

Trecho de entrevista concedida por Cesar Romero Jacob, cientista político da PUC-Rio, para o jornal O Estado de São Paulo em 31 de agosto

Nos governos do PT e do PSDB, cada um tem um apagão para chamar de seu.

Marina Silva, no debate dos presidenciáveis em 26 de agosto

                Prezados leitores, continuando meu esforço deinformar-me sobre os candidatos à Presidência da República assisti ao debate na Band mediado por Ricardo Boechat. É óbvio que o desempenho dos contendores não influenciará muito o resultado, já que a audiência foi baixíssima (1,7 na Grande São Paulo, uma piora em relação a 2010, quando chegou a 2,4 pontos), talvez em virtude do horário ingrato, talvez em virtude de os eleitores fazerem sua opção com base em outros critérios que não o conteúdo das propostas ou a habilidade de argumentação. De qualquer forma, foi possível constatar o porquê de Marina Silva ter disparado nas pesquisas e ser a catalisadora do voto útil.

                O grande truque dela é colocar-se acima das refregas tão ínúteis e repetidas entre o PSDB e o PT. Enquanto Dilma acusava Aécio de leviano em suas acusações a respeito da má gestão da Petrobrás, sem respondê-las especificamente e sem dizer porque eram levianas, e Aécio acusava Dilma de vender ao eleitorado um país de mentira que não corresponde à realidade da dona de casa que vai à feirae vê so preços aumentarem, Marina habilmente paira sobranceira sobre eles, com sua mensagem da nova política. A mensagem torna-se crível pelo fato de Marina ainda não ter tido a oportunidade de ser vidraça, de não ter tido experiência no Executivo que pudesse ter sido criticada, como Aécio, duasvezes governador de Minas e Dilma, uma vez presidente. Mais crível ainda porque a ex-seringueira calmamente fala coisas sensatas, por exemplo a necessidade de reconhecer os erros e tentar corrigi-los, e anecessidade de reconhecer que o governo de Fernando Henrique e de Lula tiveram pontos positivos e negativos, FHC conseguiu a estabilização da moeda, cuja preservação é interesse de todos, Lula teve a visão estratégica de trilhar o rumo da realização da justiça social.

               Como não concordar com avaliações assim tão equilibradas da Dona Marina? Como não ter a sensação de que Aécio, enaltecendo o governo de Fernando Henrique em detrimento do de Lula, e Dilma, enaltecendo o governo de Lula em detrimento do de Fernando Henrique, são infantis? Como não vislumbrar Marina como a verdadeira terceira via que vai permitir ao Brasilsuperar a dialética PT x PSDB e chegar a uma sínteseque nos leve a novos caminhos?Afinal, não estamos precisando de novas abordagens em um cenárioem que a participação da indústria no PIB diminuiu drasticamente de 27% na década de 80 para 14% em 2010, em que estamos correndo o risco de entrarmos em mais um período de estagflação como aquele que minou nossas energias vitais antes da entrada em vigor do Plano Real? A economia sustentável de Marina, fazer mais com menos, não é uma receita adequada para que possamos voltar a crescer sem inflação e com aumento de renda? Produtividade não é a palavra-chave para saírmos do lamaçal do PÌBinho que tanto nos assusta? Não é isso que dizem todos os economistas e não é isso que a economia de recursos preconizada pelos ambientalistas prega?

               Tudo isso é verdade, mas devo confessar-lhes que concordo com o candidato Aécio quando diz, para atacar Marina, que o Brasil não é para amadores.Os brasileiros adoram apostar em caras novas para os cargos executivos, mas nas eleições para os parlamentos, às quais normalmente não damos a mínima importância, acabamos mantendo o baixo nível de sempre. O sistema de representação não ajuda, porque os Estados mais desenvolvidos, que têm mais condições de oferecer candidatos ao legislativo de melhor qualidade,são vergonhosamente subrepresentados no Congresso Nacional, de forma que os Sarney e os Renan Calheiros é que dão o tom. Marina martela, como um dos pontosfortes do seu arsenal de marketing , na tecla de que é preciso governar com os melhores, seja de quepartido forem. Belas palavras, mas é pouco provável que ela encontre o crème de la crème na Câmara dos Deputados ou no Senado. Pode até ser que ela forme um ministério de notáveis com as melhores cabeças pensantes da sociedade brasileira. Mas e o apoio político para que as ideias maravilhosas produzidas por essas mentes brilhantes sejam concretizadas? É crível pensar que o PSB, o partido ao qual Marina está afiliada, vá conquistar uma maioria no Congresso Nacional?

               Há mais uma preocupação que desejo externar neste meu humilde espaço. Marina, apesar de todo seu apelo do século XXI, está mostrando ter sido picada pela mosca azul do poder. Em entrevista ao Roda Viva em 2013 ela dizia não ter interesse em se candidatar e que sua preocupação era formar seu partido para concretizar sua ideias sobre a nova política. Pois bem, apesar do seu choque com a morte de Eduardo Campos, ela imediatamente lançou-se candidatae tem feito concessões típicas de quem quer conquistar o poder, mesmo que isso signifique quebrar alguns ovos. Cedeu aos evangélicos a respeito do casamento gay, retirando apoio a essa medida do seu programa, e já havia cedido a respeito dos transgênicos e da transposição do Rio São Francisco que passou a apoiar quando foi Ministra do Meio Ambiente. Nessa toada, não seria surpresa se tivesse proximamente uma reunião com o Ronaldo Caiado, um dos líderes da bancada ruralista no Congresso.

               Não há nada de mal em que ela apare seus radicalismos para tornar-se mais palatável, isso é esperável, o perigo a meu ver é que Marina não admita isso e se torne tão messiânicae auto-centrada como Lula, para quem os erros estão sempre nos outros. Prezados leitores, a despeito de todo o apelo marinístico, não posso deixar de ver um fundo de verdade nas palavras de Luciana Genro, a candidata “marginal” do PSOL, que no debate acusou Dilma, Aécio e Marina de serem todos variações do mesmo tema, no caso os fiéis baluartes do tal do tripé macroeconômico (metas de inflação, câmbio flutuante e independência do Banco Central)que faz com que o Estado brasileiro invista mais no pagamento de juros da sua dívida do que naquilo que o país realmente precisa para dar um salto de qualidade no crescimento e no desenvolvimento social.

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Marina Silva, a divergente positiva

Assim, na medida em quepude me conter, evitei dar recomendações políticas ou avaliar diferentes ações. (…) Acontece que já estamos fartos de políticas, tratados e financiamentos para o desenvolvimento sustentável. Eles não estão em falta. Então para que mais? A crise, como Kofi Annan advertiu durante anos está a caminho; sabemos o que fazer … mas não fazemos. Por quê? Esse é o território de origem do divergente positivo. Cabe a você determinar a coisa certa a fazer, onde quer que esteja, removendo ou desviando das políticas, orçamentose outros obstáculos que o impeçam de fazer acontecer.

Trecho do livro “O Divergente Positivo – Liderança em Sustentabilidade em um Mundo Perverso”, de Sarah Parkin.

Vivemos um momento de agregação dispersiva, pessoas que vão se agregando em cima de ideais maiores e mais difusos. As pessoas querem ética na política, querem um mundo melhor. Isso possibilita uma agregação, mas que é dispersiva (…) Porque ao estar integradas a estes grandes ideais, as pessoas se dispersam para as suas causas. Isso faz uma dispersão agregadora.Imantadas por este grande ideal as pessoas vão se agregando, uma em torno das outras (…)

Trecho da entrevista de Marina Silva ao jornal Valor em 21 de junho de 2013

          Prezados leitores, está chegando a hora de escolhermos nosso candidato a Presidente da República. Para alguns brasileiros será relativamente fácildecidir sobre que número apertar ou não apertar na urna eletrônica, pois o critério será a defesa de seus interesses materiais. Um beneficiário de algum programa de transferência de renda do governo federal votará em Dilma, para não correr o mínimo risco de ter o dinheiro retirado, um fazendeiro de soja no Centro-Oeste com certeza não votará em Marina Silva porque ela não facilitará a vida deles com suas exigências ambientais .Quem como eu não tem uma escolha óbvia, por lhe faltar um candidato que prometa fazer ou continuar a fazer algo que o beneficia diretamente, precisa pautar-se por outros critérios.

                 Em uma eleição presidencial tendemos a escolher o candidato por seu carisma pessoal, por sua trajetória de vida que de algum modo nos encanta. Nesse sentido, a candidata do PSB é a mais espetacular dentre os candidatos. Venceu a malária, a leishmaniose, a intoxicação por mercúrio, alfabetizou-se aos 16 anos, formou-se historiadora e hoje é uma líder de causas ambientais mundialmente reconhecida. Já em 1996 ela recebeu o Prêmio Ambiental Goldman. Em 2010 a revista Foreign Policy, editada por David Rothkopf, ex diretor presidente da Kissinger Associates, a colocou na lista dos principais pensadores globais.

                 Como negar que nossa mais famosa ambientalista esteja em sintonia comas novas tendências de pensamento do século XXI? Sarah Parkin, diretora-fundadora do Forum for the Future, a principal entidade beneficentena área do desenvolvimento sustentável do Reino Unido, define o divergente positivo como aquele que não espera nada dos governose resolve agir por si mesmo em prol da sustentabilidade do planeta, assumindo um papel de liderança contra a corrente do conformismo. Repetidas vezes em suas entrevistas Marina fala dos novos atores políticos, que não se identificam com nenhuma organização tradicional,como partido ou sindicato, e querem ser eles mesmos protagonistas, em vez de receberem ordens dos chefes ou seguirem orientações ideológicas predeterminadas.

                A tal da agregação dispersiva de que Marina fala parece justamente apontar para uma superação da política feita por meio das instituições consagradas. Em uma entrevista ao Programa Roda Viva em outubro de 2013, a ex-seringueira aventou a possibilidade de as pessoas exercerem fiscalização do que os políticos fazem por meio das mídias sociais. Não é de surpreender que fica difícil categorizá-la ideologicamente. Esquerda ou direita? Seria natural que optássemos pela primeira hipótese, afinal ela entrou na política pelas mãos de Chico Mendes, um líder de seringueiros,filiou-se ao PT em 1985, foi ministra no governo Lula. Por outro lado, considerando que a coordenadora do programa do PSB é Maria Alice Setúbal, pertencente à família dona do Itaú, e que Marina é a favor da independência do Banco Central na condução da política monetária, fica difícil considerá-la como alguém cujasmedidas econômicas desagradariam nossa elite financeira.

                Nem esquerda, nem direita, talvez a tal da terceira via, o Santo Graal procurado por todo o político que quer cair nas graças da nova geração, aquela que nasceu depois da Queda do Muro de Berlim e para quem capitalismo, socialismo, comunismo são conceitos que não fazem muito sentido. De fato, Marina é a candidata que mais votos tem entre os eleitores na faixa entre 16 e 24 anos de idade (22%, ante os 14% de Aécio Nevese de Dilma Rousseff). Os conceitos com os quais a candidata trabalha, ética ambiental, sustentabilidade, economia verde são muito mais palatáveis a uma geração que já está acostumada a ouvir falar das mudanças climáticas, do aquecimento global, da necessidade de preservação do meio ambiente para as gerações futuras.

                 A questão que se coloca é como essas palavras mágicas traduziriam-se na prática no caso de um governo de Marina Silva.Pois se de um lado temos um eleitorado jovem que não quer mais saber dos políticos tradicionais que dão para receber, por outro há eleitores para quem belas palavras não são muito relevantes e precisam de algo tangível. O candidato ao governo do Rio, Anthony Garotinho, distribui enxoval a mulheres grávidas por meio da sua empresa Palavra da Paz. Uma eleitora entrevistada pelo jornal O Globo, Jaqueline Santos, de 29 anos, afirmou que “meu voto será e sempre foi dele, porque ele ajuda as pessoas.” Quem há dejogar a primeira pedra nesta mulher? Afinal, não foi Marx quem disse que a moral é apenas uma racionalização de interesses de classe?A mulher que vota em um político em troca de enxoval é tão interesseira quanto o fazendeiro de soja que vota em um candidato que promete defender o agronegócio ou no lavrador que recebe o Bolsa Família.

                Eu diria até que mesmo aqueles eleitores que prezam a sustentabilidade e todas essas coisas bonitas também têm seus próprios interesses mesquinhos. Sâo pessoas urbanas que querem que a Floresta Amazônica seja preservada para que eles possam viver tranquilamente nas cidades, abastecidos pela água das chuvas cujo regime depende tanto do que occore no Norte do Brasil. E é aí que está o perigo de Marina. Camuflar ou negligenciar divisões sociais é com certeza uma boa estratégia para arregimentar votos e ganhar a eleição, mas uma vez no poder, a líder em sustentabilidade, a divergente positiva terá que formular políticas públicas, eleger prioridades, desagradar alguns, negociar com as raposas que com certeza estarão no Congresso Nacional e que preferirão ir direto ao ponto, i.e. o que você tem para me dar e o que eu posso lhe oferecer em vez de perder tempo commasturbações intelectuais, como diria o finado Ministro das Comunicações de Fernando Henrique Cardoso, Sérgio Motta.

                 Prezados leitores,o melhor a fazer no momento é esperarmos que o programa de governo de Dona Marina Silva seja elaborado e explicitado para que possamos ter uma ideia mais clara do que será o poder exercido de maneira sustentável. Caso continuemos no escuro até as eleições e a divergente positiva seja eleita torçamos para que ela aprenda rápido a transformar belas e vagas ideias em resultados concretos para os brasileiros.

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Por quê?

O insucesso da experiência holandesa no Brasil é, em verdade, mais uma justificativa para a opinião, hoje corrente entre alguns antropologistas, de que os europeus do Norte são incompatíveis com as regiões tropicais.

Trecho de Raízes do Brasil de Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982)

Lembrem-se que o Brasil é um país sofisticado que vem exportando produtos como aeronaves para os Estados Unidos há muitos anos.  Eles têm um grande mercado interno e um setor agrícola fabuloso. Energia hídrica e muitos recursos. Grandes e modernas cidades. Não estamos falando de Lesoto ou Laos.

Trecho de um artigo sobre o Brasil intitulado “O Brasil no lado mais fraco de um placar de 7 a 1”de Scott Sumner, um economista americano com doutorado pela Universidade de Chicago

                   Prezados leitores, vendo hoje à tarde pela televisão o enterro de Eduardo Campos pude conhecer um pouco deste Recife histórico que foi a sede da Nova Holanda, a colônia no Brasil da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais de 1630 a 1654. Em seu livro Raízes do Brasil, Sérgio Buarque de Holanda dá alguns motivos para o fato de os holandeses terem fracassado no Brasil. O tipo de colono que veio aos trópicos não era lá da melhor qualidade, eram aventureiros que queriam fazer fortuna rápido, e não pessoas que queriam criar vínculos, pois havia poucos incentivos para abandonar a República Holandesa no século XVII, que ia muito bem após sua independência da Espanha. Outro motivo dado pelo ilustre historiador paulista era que o holandês teve uma dificuldade muito grande em adaptar-se ao clima tropical, às gentes que se encontravam aqui, ao passo que os portugueses sempre foram muito mais flexíveis. O “espírito de empreendimento metódico e coordenado” não rendeu frutos em um ambiente em que predominava a “moral das senzalas”, “contemporizadora e narcotizante”.

                   É sempre difícil refutar ou aceitar explicações totalizantes como as que Sérgio Buarque de Holanda tenta dar em seu livro para o porquê de o Brasil não ter dado certo como os Estados Unidos deu, em termos de produção de riqueza e qualidade de vida da população. Nosso termo de comparação é sempre os Estados Unidos, devido às semelhanças de tamanho de território, de localização geográfica e de origem histórica. Digo totalizante porque Sérgio Buarque não trabalha com estatísticas, números, mas antes de tudo com uma narrativa em termos gerais, isto é, sem entrar em muitos detalhes históricos específicos, a respeito do tipo de colonização feita no Brasil, predatória, imediatista, que teria dado origem a uma determinada conformação espiritual e cultural presente até hoje por estas plagas. Essa é a explicação a que normalmente temos acesso na escola quando estudamos nossa história, que pode ser resumida na dicotomia colônia de exploração versus colônia de povoamento.

                    Tal tipo de porquê tem suas limitações, porque dificulta a descoberta de novos caminhos. Afinal, se tudo é uma questão de mentalidade que se formou então caímos no fatalismo de achar que só mudando a cabeça das pessoas, é que conseguiremso fazer com que as coisas avancem. E como mudar a cabeça dos brasileiros? Fazer uma reprogramação neurolinguística, algo que estava na moda há alguns anos? Sob esse ponto de vista, atermo-nos aos números do Brasil talvez seja mais profícuo porque pode nos mostrar caminhos concretos para a solução dos problemas. É o que faz o economista americanoScott Sumner que compara o Brasil não só aos Estados Unidos mas à China, e mostra como perdemos de goleada, afamigerada goleada do Mineirão, em vários quesitos.

                    Em termos de PIB, o Brasil cresceu em média 1,5% ao ano nos últimos três anos, ao passo que a China cresceu 7,5%.O PIB per capita do Brasil é de 12.200 dólares em termos de paridade de poder de compra, ao passo que nos Estados Unidos, este número fica em 53.100 dólares. Os gastos governamentais no Brasil respondem por 39% do PIB, o que é muito mais do que ocorre nos outros países latino-americanos, mas Scott Sumner aponta que gastamos mal, preferindo investir em aposentadorias do que na infraestrutura, ao passo que a China, nosso concorrente entre os emergentes, constrói estradas, portos, ferrovias e usinas hidrelétricasde maneira rápida e a um baixo custo.O autor também aponta que nos últimos anos o Brasil apostou na diminuição da desigualdade como único motor do crescimento econômico, mas chega à conclusão de que diante dos nosso números pífios de crescimento essa nova receita, proposta principalmente por economistas de esquerda, não rendeu lá muitos dividendos.

                          Diante desses números, Scott Sumner afirma categoricamente que o Brasil é e será eternamente o país do futuro, e que sua celebração como parte dos emergentes não tem sustentação na realidade. Por outro lado, ao contrário do nosso Sérgio Buarque de Holanda, o economista americano confessa não saber o porquê de sermos um fracasso relativamente a países de igual potencial em termos de recursos e geografia, apesar dos pontos positivos citados no início deste artigo.De qualquer forma, esses dados mostrados por ele apontam mais ou menos algumas das coisas nas quais devemos focar: fazer com queo Estado invista mais e melhor em bens públicos, isto é naquilo que vai beneficiar todos os brasileiros e não apenas certos grupos de interesse, tornar o gasto público mais eficiente, isto é, gerador de riqueza e não criador de dificuldades para os agentes econômicos.

                     Como fazer isso na prática? Por onde começar? Educar as pessoas para mudar a maneira de pensar, de votar, de agir? E como escolher as pessoas certas para começar o trabalho certode mudança das mentalidades por meio da educação se os eleitores continuam “mal educados”?Se ao menos pudéssemos encontrar a causa primeira dos nossos problemas e pudéssemos eliminá-la! A angústia é a mesma que nós brasileiros experimentamos diante do acidente que matou o candidato a presidente nascido na ex Nova Holanda. Terá sido falha mecânica? Falha do piloto? Pressão de Eduardo Campos sobre o comandante da aeronavepara voar de qualquer jeito? Mais uma peça pregada pelas brumas do litoral de São Paulo e do Rio de Janeiro, que já mataram outros políticos como Ulisses Guimarães, Severo Gomes e celebridades fugazes, como a namorada do herdeiro João Paulo Diniz (lembram-se deste caso?)?

                      Prezados leitores, como o brasileiro Artur Avila, um dos quatro ganhadores do Prêmio Fields de matemáticabem sabe, o buraco émais embaixo. Artur consagrou-se mundialmente tentando enquadrar em fórmulas numéricas os sistemas dinâmicos, que se caracterizam por sua imprevisibilidade. Talvez a melhor solução seja nos conformarmos que há uma série de variáveis que devem ser levadas em conta e que para conseguirmos montar uma equação que gere um resultado devemos pensar os desafios do Brasil como um combate em várias frentes. Adaptação ao clima tropical, mudança da mentalidade, ajustes na política econômica e por aí vai…Easier said than donecomo se diz em inglês. Minha perplexidade de brasileira frente aos nossos problemas é a mesma do economista americano. O consolo é que começar a fazer perguntas já éum início de solução. Ou não?

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