Um novo bloco carnavalesco e a velha pomba da paz

Ocupamos durante cinco meses a frente da Assembleia Legislativa, cheios de boas intenções”, lembra um estudante de Direito de 22 anos. “Apresentamos uma pauta de reivindicações. Não deu em nada. Manifestação pacífica não dá resultado.”

 Trecho tirado do artigo “Black Blocs prometem caos com a ajuda do PCC”, publicado no jornal O Estado de São Paulo em 1 de junho

 “A partir do momento em que há vândalos no meio disso, mascarados… A segurança pública tem de conter esses vândalos. Parece que as pessoas acordaram [para os problemas do país], mas acordou todo mundo junto. Ninguém sabe como fazer ou por onde ir. A população tem de protestar sem violência. Nos vândalos, mascarados, tem de baixar o cacete mesmo”

 Trecho de entrevista dada por Ronaldo o Fenômeno, membro do Comitê Organizador da Copa, ao site de notícias UOL

            Prezados leitores, este próximo mês de junho nos promete grandes coisas. Além de cinco feriados (ao menos) por conta dos jogos do Brasil na Copa, veremos talvez surgir um novo bloco carnavalesco na Avenida, aquele formado pelos Black Blocks e pelo PCC. Uma junção entre a “bourgeoisie oisive” que bebe nas fontes do anarquismo e do marxismo para rebelar-se contra o Estado capitalista opressor, e a máfia do PCC, que procura criar o caos para chantagear as autoridades e conseguir vantagens para seus membros. Se tal bloco realmente conseguir desfilar e não se dispersar na Avenida, será uma combinação perfeita de sinergias, como diriam os administradores de recursos humanos. De um lado, a capacidade do PCC de espalhar boatos, de semear o medo, de jogar uma pedra na água e causar um maremoto, e de outro lado o idealismo dos jovens que se insurgem contra a incapacidade do Estado brasileiros de prover serviços básicos à população. Seria inútil eu tentar aqui fazer um prognóstico sobre o que realmente vai acontecer, afinal não sou agente de inteligência da polícia nem estou infiltrada nos grupos. Pode ser que essa união dos titãs revele-se um factóide do tamanho do bug do milênio que iria causar um desastre de proporções bíblicas, lembram-se?

            Para todo cidadão de bem, cumpridor das suas obrigações, nada resta a não ser fazer coro com a opinião de Ronaldo, o Fenômeno e tachar os Black Blocs de vândalos. Em primeiro lugar, o membro do Comitê Organizador da Copa é uma das únicas personalidades brasileiras alçadas ao panteão das celebridades globais, e só por isso deve ser sempre ouvido, em todas as ocasiões e a respeito de todos os assuntos. Afinal, em janeiro de 2014 Ronaldo, estando em Davos enquanto desenrolava-se o Fórum Econômico Mundial, do qual participou, foi entrevistado pela Rede Globo e teceu perorações sobre a economia brasileira. Se Ronaldo é instado a falar sobre áreas fora de sua especialidade porque é uma celebridade, como não ouvi-lo a respeito de Copa do Mundo? E como não concordar com o bom senso da sua definição? De acordo com o dicionário Houaiss, vândalo é “que ou aquele cuja ação ou omissão traz prejuízo à civilização, à arte, à cultura”. Melhor definição não haveria para um grupo de pessoas que ao quebrar vitrines de lojas, destruir caixas automáticos de bancos, atear fogo nas ruas, depredar patrimônio público nada mais faz do que manchar a reputação do nosso país. Se de fato fizerem tudo que prometem e barbarizarem durante a Copa, corremos o risco de sermos vistos com um novo Haiti, um Congo, uma Ruanda da vida, em que a tensão entre os diferentes grupos irrompe de maneira imprevisível e violenta. De membro dos BRICs passaremos a ser vistos como parte dos Estados Párias, os “failed states”, caracterizados por instituições tão fracas que são incapazes de garantir um mínimo de ordem necessário ao progresso social.

            E no entanto, apesar de saber que a desordem vai prejudicar todos que têm algo a perder neste país, devo admitir que a fala do estudante de 22 anos deu-me o que pensar. Afinal, depois de todas essas manifestações pacíficas que tivemos nos últimos anos, ao final das quais as pessoas bem-intecionadas soltavam pombas da paz, o que tivemos de resultado concreto? Por acaso a violência diminuiu? Por acaso nossas autoridades sensibilizaram-se com as pombas voando no céu azul e tornaram-se mais competentes, menos preocupadas com seus interesses mesquinhos de perpetuarem-se no poder?

           Nossos líderes mentiram para nós quando disseram que a Copa seria financiada com dinheiro privado e quando a verdade foi revelada a respeito dos investimentos públicos massivos ninguém assumiu a responsabilidade pela mentira, e muito menos se desculpou. Quando os brasileiros foram às ruas de maneira relativamente ordeira durante a Copa das Confederações em 2013 a única coisa que conseguimos foi uma garantia de Dona Dilma de que os empréstimos dados pelo BNDES para a construção dos elefantes brancos serão devidamente cobrados, como se a concessão do crédito não fosse em si um escândalo. Como confiar nas garantias de uma senhora que quando era membro do Conselho de Administração da Petrobrás deu seu aval à compra desastrosa de uma refinaria no Texas e quando a verdade veio à tona, desculpou-se dizendo que não havia prestado atenção a uma certa cláusula do contrato? Será que Dilma daqui a alguns anos, se ainda for presidente e diante dos primeiros calotes dados nos empréstimos, dirá que não prestou atenção à capacidade de pagamento do Esporte Clube Corinthians quando nos garantiu que o povo brasileiro não seria lesado?

        A desfaçatez não é exclusividade do Executivo, pois o Legislativo também ignora solertemente qualquer preocupação com a decência. Em 29 de maio foram aprovadas duas emendas do Senado à Medida Provisória 638/2014, que amplia o parcelamento de débitos tributários (o chamado Refis da Crise). A mensagem subliminar é: “Espertos do Brasil Varonil, deem calote nos impostos e serão recompensados de tempos em tempos com um parcelamento, porque quem espera sempre alcança! Otários do Brasil, continuem cumprindo religiosamente suas obrigações e poderão apreciar muitas pombas voando no céu! Aliás, a companhia Vale, com fé, esperou pelo REFIS e deu um calote de 45 bilhões de reais na Receita Federal em tributos sobre o lucro de suas subsidiárias no exterior. Seu mau comportamento foi recompensado: pagou em novembro 5,965 bilhões ao Leão e vai parcelar 16,36 bilhões em 179 meses.

          Prezados leitores, não tenho receita para lutar contra a desfaçatez das nossas autoridades. Não concordo com os Black Blocs, mas também não sou ingênua a ponto de achar que pedidos educados de reconsideração vão fazer com que os privilegiados do Brasil larguem o osso. Que ao menos o bloco carnavalesco Black Blocks-PCC, se realmente vier a dar o ar de sua graça, cause menos estragos do que ameaça fazer e deixe as pombas brancas voarem em paz.

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Jogos mortais

Nosso primeiro objetivo é o de impedir o ressurgimento de um novo rival, seja no território da ex União Soviéticaou na China, que seja uma ameaça do quilate daquela colocada anteriormente pela União Soviética. Essa é uma preocupação constante subjacente à nova estratégia de defesa regional e exige que procuremos impedir que qualquer poder hostil domine a região cujos recursos poderiam, sob um controle consolidado, ser suficientes paragerar poder global.

Paul Wolfovitz, intelectual neoconservador responsável pela doutrina militar e de política externa dos Estados Unidos

            Prezados leitores, desde que teve início o embróglio na Ucrânia, houve uma constante na imprensa internacional: todos os veículos de comunicação no Ocidente repetiram em uníssonoa versão que os ucranianos estavam lutando pela liberdade para livrarem-se do jugo da Rússia. Nessa luta seriam com certeza ajudados pelas forças do bem, lideradas pelos Estados Unidos, que se destacam no cenário mundial na sua luta pela democracia e contra o autoritarismo e o terror.As forças do mal são sempre os países que se opõem aos desígnios americanos, países descritos como autoritários, em que a liberdade de expressão é limitada e o governo oprime minorias étnicas, de gênero e outras.

            Não me canso de utilizar este meu humilde espaço para apontar as inconsistências dessa versão “James Bond” do cenário mundial. Os Estados Unidos acusam a Rússia de invadir a Ucrânia e anexar a Crimeia, mas reserva-se o direito de invadir o Iraque, o Afeganistão, a Líbia, o Iêmen, Síria, Paquistão, para ficarmos apenas nos alvos estabelecidos pelos neoconservadores desde o governo de George Bush. Os Estados Unidos acusam a China de ser um país autoritário, mas a China com uma população quatro vezes maio do que a americana, tem menos pessoas na prisão. Os Estados Unidos vangloriam-se da sua liberdade de expressão, mas perseguem implacavelmente aqueles que ousaram revelar secredos inconfessáveis, como Julian Assange, que não pode sair da Embaixada do Equador,e Edward Snowden, que vive escondido na Rússia, deois de ter tentado obter asilo em países europeus e sul-americanos, a maioria dos quais o renegou como a um leproso, por medo de desagradarem o Tio Sam.

            Nesse desenrolar de um roteiro double-oh-seveno vilão é sempre Vladimir Putin. Semana sai semana entra e há sempre um artigo falando como a política de Putin será um tiro pela culatra devido à má situação econômica da Rússia, como a prepotência de Vlad vai levar o país ao isolacionismo e à falência, como há fuga de capitais, como as sanções do Ocidente vão colocar a Rússia de joelhos. Nasemana que passou o Príncipe Charles da Inglaterra comparou-o a Hitler, devido aos seus desejos expansionistas e talvez devido à perseguição às minorias gays. Charles às vezes é criticado quando dá seus palpites arquitetônicos sobre os horrorosos projetos residenciais do governo britânico, mas quando fala aquilo com o que os dirigentes do seu país concordam em gênero, número e grau, seu direito de emitir opiniões políticas é louvado, a despeito de o chefe de Estado na Inglaterra deverser uma figura decorativa, por ordem do Parlamento.

            Tudo isso são meias verdades. É verdade que Putin não quer normalizar o homossexualismo, torná-lo parte davida cotidiana dos russos e defende uma visão tradicional de família que está decididamente sendo descartada no Ocidente. Recentemente a Rússia assinou um tratado de adoção internacional com a Espanha pelo qual fica proibida a adoção de crianças russas por famílias monoparentais ou homossexuais. E é verdade também que os Estados Unidos tem um poder imenso de infligir danos aos seus desafetos, porque controla o sistema monetário internacional por meio do dólar, que continua a ser a principal moeda dastransações internacionais. No entanto, pouco a pouco parece estar havendo uma mudança de paradigmas e o script do filme terá que ser reescrito.

                Um fato que passou despercebidona nossa imprensa foi o acordo assinado entre China e Rússia sobreo fornecimento de 38 bilhões de metros cúbicos de gás natural à China no valor de 400 bilhões de dólares. O acordo passa a vigorar a partir de 2018 e vai incluir grandes obras de engenharia para ligação dos campos de gás russos aos gasodutos chineses. A China vai investir cerca de vinte bilhões de dólares na indústria russa e aumentar a importação de produtos russos, especialmente sistemas militares. No Brasil este acordo foi descrito como uma tentativa de Putin de tirar seu país do isolacionismo. Na verdade, pode significar uma mudança de paradigmas, o marco da mudança do eixo econômico mundial do Ocidente para o Oriente, com a união de esforços e de interesses dessas duas potências terrestres. O problema de tal aliança estratégica é que com certeza ela será mal vista pelos Estados Unidos, que tentarãosolapar qualquer desafio à sua hegemonia. Tratando-se de três países com arsenal nuclear, poderemos ter uma guerra que acabaria com a vida na Terra. Esperemos o desenrolar dos acontecimentos e que o meu pessimismo seja derrotado.

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Yes, nós temos bananas?

Chiquita Bacana lá da Martinica
Se veste com uma
Casca de banana nanica

Chiquita bacana, marchinha de carnaval

 

            Prezados leitores, a banana esteve em evidência recentemente no Brasil por causa do gesto de Daniel Alves, jogador brasileiro do Barcelona, que resolveu comer a banana atirada por um torcedor espanhol. Independentemente da intenção de Daniel de responder ao desaforo, sua atitude é louvável do ponto de vista nutricional. A banana é fonte de potássio, magnésio, cálcio, sódio, ferro, selênio, manganês, cobre, zinco, vitamina A, vitamina B1, vitamina B2, niacina, ácido pantotênico, vitamina B6, vitamina C, vitamina K, vitamina E, ácido fólico e niacina. Isso significa que um atleta como Daniel deve comer quantas bananas quanto for possível para evitar cãimbras musculares e para ter energia nos jogos,já que uma banana tem em média 105 calorias, além de 1,29 gramas de proteína.

          É um alimento tão completo que uma pessoa pode viver dias à base de banana e água Posso corroborar essa afirmação pela minha experiência pessoal. Há muito anos passei um fim de semana inteiro no Rio de Janeiro fiando-me na dúzia de bananas que comprei em uma feira em Copacabana. Andei de bicicleta, passeiei movida pela fruta e não desmaiei e nem me senti fraca em momento nenhum.Não admira que ela seja uma parte crucial da dieta de 410 milhões de pessoas em todo o mundo, respondendo por um terço das calorias que consomem diariamente, de acordo com o jornal Independent, de Londres.

            Por outro lado, a despeito de todos os benefícios materiais que a banana traz ao ser humano, principalmente aqueles do Terceiro Mundo que se valem dela para não passar fome, do ponto de vista espiritual a banana é uma lástima, pois há toda uma gama de conotações, uma das quais veio à tona no episódio envolvendo Daniel Alves, que a tornam algo humilhante, indigno. Banana é comida para macacos, e para os racistas as pessoas negras são simiescas, por isso eles jogam bananas nos estádios de futebol para os “negros-macacos” comerem. Banana é também símbolo de republiquetas latino-americanas que nada mais são do que grandes bananais onde empresas multinacionais mandam e desmandam.

              Não é mera coincidência que um filme antigo de Woody Allen, de 1971, seja intitulado Bananas: ele conta a história de um nova-iorquino que levaum fora da namorada e vai para um pequeno país da América Central e lá participa de rebeliões, presencia golpes de Estado, tudo como manda o figurino em uma república das bananas onde a tirania e a instabilidade são moeda corrente. Parafraseando o senador americano John McCain, que recentemente disse que a Rússia de Tolstoy, Tchekhov e Dostoievsky era um posto de gasolina que passava por país,pode-se dizer que Woody Allen quis satirizar as grandes plantações de bananas, mantidas pela Chiquita, Dole e Fyffes, que passavam por países latino-americanos, mas que na verdade eram arremedos de nações.

              Mas não é só na América Central que a banana causa um mal-estar pelo seu significado negativo. O Brasil, apesar de não ser considerado como um exemplo perfeito de república das bananas,tem um problema com a fruta, desde os tempos em que a portuguesa Carmen Miranda requebrou-se com uma penca de bananas na cabeça em Hollywoodcantando The Lady in the Tutti Frutti Hat. Para alguns Carmen Miranda fez muito pelo Brasil, ao tornar-se estrela de cinema nos Estados Unidos. Para seus detratores, ela simplesmente reforçou estereótipos sobre a tropicalidade brasileira que mistificam a realidade. De qualquer forma, as bananas ficaram indiscutivelmente associadas à imagem de paraíso ao sul do Equador onde todo mundo é alegre, dança, samba e se diverte, quem sabe movidos pela incrível energia contida em uma modesta fruta da casca amarela. Aliás, à época do filme da pequena notávelThe Gang’s All Here, de 1943,em que ela cantaThe Lady in the Tutti Frutti Hat, a sequência de abertura com as bananas eréteis foi censurada por ser considerada por demais sugestiva.

         Símbolo animalesco, fálico ou tirânico, a banana pode estar com seus dias contados na face da Terra, devido ao fenômeno que está sendo apelidado na imprensa internacional de Bananageddon.Um fungo que surgiu na Indonésia, espalhou-se pelo Sudeste da Ásia e ameaça chegar à América do Sul está matando de inanição milhares de bananeiras pelo mundo afora, privando a planta de nutrientes. Há dois problemas que tornam a situação particularmente grave: ele é resistente a todos os pesticidas disponíveis, e pior, pode permanecer incólume no solo durante 30 anos e ser facilmente transportado nos sapatos sujos de terra dos trabalhadores ou em gotas d’água.

              Essa não é a primeira vez que o cultivo da banana é seriamente ameaçado. Na década de 1950 a doença do Panamá dizimou as bananeiras e a salvação da lavoura, literalmente falando, foi a variedade Cavendish, que havia sido desenvolvida por JosephPaxton, jardineiro do 6°Duque de Devonshire, William Cavendish,na estufa da propriedade familiar, Chatsworth House. Para quem não sabe, esse duque é filho de Lady Georgiana, cuja vida foi retratada no filme The Duchess de 2008, estrelado por Keira Knightley.Atualmente a variedade batizada em homenagem ao duque responde por 47% das bananas cultivadas no mundo e corre o risco de ser exterminada como as variedades anteriores o foram.

         Prezados leitores, se os cientistas não encontrarem uma cura para a doença ou uma nova variedade que substitua a banana Cavendish, todos os esportistas, habitantes do Terceiro Mundo e amantes da alimentação saudável em geral ver-se-ão privados de sua companheira do café da manhã, do almoço e do lanche. Torçamos para que o maior símboloda tropicalidade sobreviva e possa continuar representando nosso defeitos e qualidades no século XXI.

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Para não dizer que não falei de flores

                       Bote fé no velhinho, que o velhinho é demais, bote fé no velhinho que ele sabe o que faz

                      Jingle do deputado Ulysses Guimarães para a campanha presidencial de 1989

                   Prezados leitores, nesta semana vou deixar meu azedume de lado. Sei que a maioria dosmeus artigos fala mal de alguma coisa, da Copa dos elefantes brancos, das eleições pautadas pela gangorra das pesquisas, das inconsistências da política externa americana e por aí vai. Hoje vou falar de uma iniciativa de uma escola de inglês de São Paulo, cujo nome não vou dar porque não estou sendo paga para fazer propaganda. Tal iniciativa é proporcionada pela tecnologia no seu lado luminoso, o de proporcionar a pessoas que jamais teriam se conhecidoque entrem em contato e realizem uma verdadeira comunicação, baseada na troca de experiências, de impressões mutuamente enriquecedoras. Isso era o que sempre se esperou da internet, mas a ideia sempre fica muito além da realidade, como pudemos ver no linchamentode Fabiane Maria de Jesus, tornado uma realidade por causa de uma página no facebook.

                 O lado luminoso de que vou falar aqui é o das conversas online. A escola colocou recentemente em prática em caráter experimental o projeto deconectar seus estudantes de inglês em Sâo Paulo com velhinhos americanos que moram em um asilo em Chicago. O objetivo é que os alunos ouçam falantes nativos e possam conversar com eles de acordo com uma pauta previamente elaborada. Uma vez a pauta sendo concluída o jovem brasileiro e o senhor ou senhora nos Estados Unidos podem falar de maneira mais livre. O chat é então gravadoe carregado no youtube, acessível pelos professores da escola para fins de avaliação do desempenho do aluno em conversação.

                   Assisti a alguns trechos de conversas. Uma adolescente brasileira comete o erro comum de dizer “I have thirteen years old” em vez do correto “I am thirteen years old” e sua interlocutora americana a corrige gentilmente. Em um outrochat um adolescente reclama deos seus pais não lhe terem permitido ir ao Lollapalooza ao que o velhinho retruca: “Que bom, isso significa que são bons pais.” Um menino de ascendência japonesa até convida seu amigo de 88 anos a hospedar-se em sua casa quando vier ao Brasil. Pode até ser que seja uma balela, afinal sabemos como nós brasileiros falamos muita coisa da boca para fora simplesmente para terminarmos uma conversa com um “passa lá em casa”, sabendo que isso nunca ocorrerá. De qualquer forma é um indício de que houve uma interação.

                 O que a mim parece fantástico é que seja feita essa ponte entre o passado e o presente. Vivemos em uma sociedade pautada pela mentalidade da versão mais atualizada do WINDOWS, em que sob um certo aspecto os pais têm necessariamente uma posição inferior aos filhos porque são mais antigos e entendem menos da parafernália tecnológica. O resultado muitas vezes é que veem-se os pais correndo atrás dos filhos, tentando manter-semodernos e nessa corrida maluca muitas vezes acabam não desempenhando o papel que lhes cabe de orientar e dar segurança aos pequenos. Pois bem, esses meninos e meninas brasileiros terão a experiência única de conversar com pessoas que, independentemente deseu nível cultural ou econômico, têm um mundo de coisas a lhes oferecer por conta simplesmente do número de quilômetros rodados.

                   Está aí uma coisa que se perdeu em nossa sociedade tecnológica, essa passagem do bastão de uma geração à outra pela transmissão de conhecimentos e valores. Pessoas como veículo disso tornaram-se totalmente redundantes: a internet é fonte inesgotável de conhecimentos acessíveis instantaneamente, os valores morais, se é que alguma importância é dada a esse tipo de bagagem, são obtidos pelos relacionamentos virtuais.A posição do indivíduo na sociedade, seu status, está cada vez mais ligado àquilo que ele faz no mundo virtual, às fotos postadas, aos comentários feitos, enfim à imagem projetada nas redes sociais.Nesse sentido, não espanta que Júlia Rebeca, de 17 anos, moradora de Parnaíba no Piauí, tenha se matado depois que um vídeo íntimo seu, mostrando cenas de sexo dela com uma garota e um rapaz, foi divulgado na internet. Afinal a identidade dela tinha sido chamuscada, porque ela pareceu ser uma vadia devido aos seu papel no vídeo. Na sua despedida da mãe, também feita por meio virtual sua vergonha fica óbvia: “Eu te amo, desculpa eu não ser a filha perfeita, mas eu tentei… Desculpa, desculpa, eu te amo muito.”

                Se o julgamento da sociedade sobre nossa bondade ou maldade fica cada vez mais dependente do que somos no espaço virtual, a possibilidade que o contato com os moradores do asilo americano dá de os jovenssaberem que houve um dia um mundo em que não havia internet é fantástica, pois mata dois coelhos com uma cajadada só. Não tira o adolescente do século XXI do seu ambiente natural, do local onde ele nasceu, vai crescer e morrer, mas ao mesmo tempo lhe oferece outras perspectivas, especialmente a de conversar com pessoas que acham natural dar conselhos, que acham natural que haja uma hierarquia no mundo em que os mais velhosensinam aos mais novos. Humildade para quem está se iniciando nesse nosso vale de lágrimas é sempre uma grande qualidade e esses adolescentes poderão experimentar esse sentimento ao falarem com vetustos senhores esenhoras que para começar falam um inglês bem melhor que o deles e do que o de seus professores brasileiros.

                       Eu particularmente não consigo imaginar o que teria sido de mim sem o contato com os mais velhos. Lembro-me de quanto eu conversava com a mãe da minha mãe, de quantas histórias ela me contava da sua infância, do seu típico pai pater familias, que sempre tinha a última palavra a respeito do que os filhos deveriam ou não fazer. Meu outro contato seminal com uma velhinha deu-se quando uma ex colega de trabalho da minha mãe, uma viúva austríaca que havia se casado com um brasileiro, quebrou o fêmur e pediu ajuda a nós. Eu me prontifiquei a fazer coisas para ela durante seu período de convalescência por puro interesse: eu podia falar inglês com ela e ela cozinhava divinamente. O resultado foi uma troca mutuamente proveitosa: anos e anos eu lhe fiz companhia nas noites de sábado e anos e anos eu me embeveci com suas peripécias durante a Segunda Guerra Mundial, sua fuga dos russos que estupravam sistematicamente as mulheres, o bombardeio incessante, seu trabalho de intérprete para a CIA no interrogatório de uma irmã do famigerado Adolf Hitler.

                     Eu posso estar sendo levianamente otimista, mas acho que esse projeto for adiante, a vida desses adolescentes nunca mais será a mesma, e eles se entenderão muito melhor. Meninos e meninas do Brasil, botem fé nos velhinhos!

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Os ricos são mais ricos

Nós não pagamos impostos, só a gentinha paga impostos.

Leona Helmsley (1920-2007), nova iorquina, empresária do ramo hoteleiro e imobiliário que em 1989 foi condenada por evasão fiscal por lançar suas despesas pessoais como se fossem despesas dos seus hotéis e ficou 19 meses na prisão.

Eles estavam andando na rua quando passaram por um mendigo que pedia uma moeda. Donald disse: “Sabe, aquele homem é tão rico quanto eu” e a mulher dele disse “Você quer dizer que ele é bilionário?” e Donald disse “Não,ele tem pelo menos zero de patrimônio líquido. Eu tenho um patrimônio liquido negativo, tenho muitas dívidas com os bancos”.

Conversa entre Donald Trump (1946-) investidor americano do ramo imobiliário, e sua ex-mulher.

            Prezados leitores, sem eu querer acabei idealizando um projeto, modesto claro, mas não desprovido de um objetivo. Devido às contingências do momento iniciei uma trilogia sobre a globalização, que pretendo fechar hoje. O primeiro “volume” da saga foi a respeito das leis globais, o segundo volume da saga sobre as pessoas globais, o terceiro volume pretende ser sobre o dinheiro global. O mote para este assunto é a discussão que está sendo realizada em torno do livro de Thomas Piketty, economista francês especializado em renda e desigualdade que lançou em 2013 o livro Capitalismo do Século 21, alçado agora à posição de mais vendido no site da Amazon, após a publicação em 24 de abril deste ano de sua versão em inglês. No livro Piketty argumenta que entre 1930 e 1975 a desigualdade foi revertida por meio da distribuição de renda promovida pelo Estado e pelo grande crescimento econômico verificado no período. Essa tendência para ele ficou defnitivamente para trás no século 21, no qual o mundo corre o risco de reverter para um capitalismo patrimonial, em que a maior parte da economia é dominada por uma riqueza herdada criadorade uma oligarquia. Piketty ao final de sua obra propõe um imposto global sobre fortunas de até 2% e um imposto de renda progressivo que atinja a alíquota máxima de 80%.

                 Meu objetivo aqui não é o de criticar ou defender o jovem economista nascido em 1971, quem sou eu para fazê-lo? Como disse acima, as reações que o livro despertou fizeram-me refletir sobre este dinheiro que atravessa fronteiras e multiplica-se pela própria inércia. Como não me canso de repetir aqui neste espaço, concordar ou não com um imposto sobre grandes fortunas gira em torno dos valores de cada um, nesse caso específico das inclinações capitalistas ou anti-capitalistas do indivíduo. Quem concorda com o escritor francês Balzac, para quem atrás de toda grande fortuna existe um crime, será um entusiasta da punição dos ricos po rmeio da tributação confiscatória. Para aqueles que acham que o capitalismo tem suas virtudes, taxar os ricos dessa maneira escorchante será um tiro pela culatra porque vai diminuir a produção de riqueza no mundo. Lembram-se que o ator francês Gérard Depardieu recentemente fugiu da França e dos seus altíssimos impostos?

                A essa altura é forçoso que eu me posicione nessa refrega, porque afinal este meu humilde blog serve para eu expor minhas opiniões. Direi a vocês que sou a favor do capitalismo pela possibilidade que ele dá de fazer as pessoas competirem e assim fazer justiça às óbvias qualidades de certos indivíduos. Quem há de negar que o americano Warren Buffett conseguiu seu patrimônio, que atualmente gira em torno de 58 bilhões de dólares, graças aos seus infinitos talentos? Em 1944, aos 14 anos, ele fez sua primeira declaração de renda, pois àquela época já havia vendido chiclete de porta em porta e bolas de golfe recauchutadas e já havia investido em ações. Dizer que um homem desses conseguiu sua fortuna explorando os outros é uma bobagem. A única coisa que ele fez na vida foi usar sua inteligência, seu conhecimento e seu tino comercial parabrilhar e ele não pode ser culpado se nasceu com certas características que o destacam dos demais. A única culpada nesse caso é a Mãe Natureza, que distribuiu qualidades e defeitos de maneira bastante aleatória.

            O mesmo se pode dizer de indivíduos como Donald Trump, neto de imigrantes alemães, e Leona Helmsley, filha de imigrantes judeus poloneses. Sâo pessoas que independentemente de sua ganância ou de sua relutância em dividir seu dinheiro com o Estado, são obstinados, eternos otimistas, visionários que enxergaram uma oportunidade no mercado que poucosviram no momento, ou que souberam relacionar-se com as pessoas certas. Não importa, o ponto aqui é que mostraram qualidades raras de serem encontradas e que um sistema de competição feroz como é o capitalismo acaba ressaltando de maneira gritante. O problema começa quando essas pessoas atingem o topo, isto é, tornam-se milionárias ou biliardárias. O dinheiro delas começa a se multiplicar de maneira mágica, em um círculo virtuoso. É o famoso dinheiro criando dinheiro que Marx denunciou. Parece que hoje esse milagre da multiplicação está se tornando cada vez mais fácil, o que faz com que a desigualdade aumente não só porque os ricos ganham mais, mas principalmente porque o tipo de riqueza que criam atualmente baseada na valorização de ativos, como imóveis, ações, fruto de especulação, não gera empregos, não provoca um efeito cascata que beneficie os peixes pequenos.

            O episódio que descrevi acima com Donald Trump ilustra essaideia.Contabilmente falando, o magnata americano apresentador do Aprendiz não estava mentindo. Seu patrimônio líquido era negativo porque ele goza de inúmeros privilégios tributários negados aos comuns mortais, à gentinha a que se referia com desprezo a finada Leona Helmsley. Nós da classe média, assalariados que somos, temos nossa renda tributada na fonte. Um indivíduo alçado à condição de capitalista é sócio de empresas, das quais recebe dividendos e lucros, rendimentos da pessoa física isentos de tributação. Os ativos das empresas de Donald Trump, imóveis, são depreciáveis ao longo dos anos, o que gera despesas e diminui o lucro tributável da pessoa jurídica. Tem-se ao final uma situação irreal, mas legal e contabilmente perfeitamente cabível, em que prédios que estão lá há anos e continuarão incólumes por muito tenpo ainda, são considerados como tendo valor zero quando então são vendidos, iniciando-se um novo ciclo de depreciação e geração de lucro.

            Isso tudo para dizer que Loena Helmsley tinha toda razão quando dizia que os ricos não pagam impostos, pela simpes razão de que eles estão em um patamar em que não tem renda, mas capital, e capital é investimento. Nesse nível é possível entrar em um acordo tácito com qualquer governo no mundo, que está doido para atrair investimentos e por isso tende a diminuir sobremaneira os impostos sobre ganhos de capital. Não faz muita diferença se o capital é aplicado para abrir uma fábrica e dar empregos a centenas de pessoas ou se ele é utilizado para comprar outra empresa e realizar um corte profundo na folha de pagamentos. Uma vez que o dinheiro receba o rótulo de capital, gerador de lucros e dividendos, ele entra em uma zona em que tudo é permitido. A Apple desenha seus produtos nos Estados Unidos, terceiriza a produção para a China e tem domicílio fiscal na Irlanda. O mundo global, em que a disputa por investimentos é feroz, permite que ela faça isso, e assim compartilhe o menos possível com o governo e os trabalhadores.  Não é de se admirar que a renda fique concentrada nas mãos daqueles que têm o produto mágico.

            Para nós, meros ganhadores de renda,sobram o sangue, o suor e as lágrimas. Afinal, de acordo com uma versão apócrifa do diálogo entre o escritor americano Francis Scott Fitzgerald e Ernest Hemingway, o pai de Gatsby disse ao autor de Por quem os Sinos Dobram:“os ricos são diferente de mim e de você”, ao queeste respondeu: “Sim, eles têm mais dinheiro”.

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