Aparências nada mais

Tony Blair – o enviado de paz para o Oriente Médio –  organizou uma festa de arromba para sua esposa sexta-feira à noite no seu refúgio rural em Buckinghamshire, ao mesmo tempo em que o tenebroso número de mortos no conflito em Gaza já passou de 1.050.

Ele deu a festa surpresa de 60 anos para Cherie na mansão rural South Pavilions que custou seis milhões de libras esterlinas e pertencia a John Gielgud, convidando 150 dos seus amigos mais íntimos, que incluíram ex-ministros trabalhistas, assim como ricos homens de negócio e celebridades da TV.

Trecho de notícia extraída da edição eletrônica do jornal Daily Mail de 26 de julho de 2014

(…)a mim parece altamente provável que em 2033 será revelado repentinamente que Tony Blair enganou a Câmara dos Comuns e o público a respeito da invasão do Iraque e a polícia será vista carregando plásticos pretos de fora das casas de repouso e asilos habitados por antigos membros do seu gabinete (…)

Retirado do artigo “Uma caça às bruxas tipicamente britânica” do jornalista inglês Rod Little, publicado na revista britânica The Spectator de 12 de julho de 2014

            Prezados leitores, um dia desses estive assistindo no Youtube à entrevista dada ao programa Roda Viva em 24 de março de 2014 pela escritora Adélia Prado em que ela citava o sociólogo francês Jean Baudrillard (1929-2007), autor do livro de ensaios “A Transparência do Mal”, com reflexões sobre a tal da pós-modernidade, isto é a era pós 1960, feita de simulações, reproduções e ecletismo.Adélia aplicava a teoria de Baudrillard à cena política brasileira em que o desencanto é tão grande, o mal é tão transparente, que a melhor opção seria nas próximas eleições não votarmos em ninguém, porque nenhum dos candidatos inspira nossa confiança, nenhum encarna um ideal.

            Não consigo deixar de pensar que a epítome deste estado espiritual da nossa era é o ex primeiro-ministro britânico Tony Blair, hoje com 61 anos. Ninguém na cena internacional encarna melhor este vácuo moral do que um homem que depois que deixou o mais alto cargo do governo do seu país amealhou uma fortuna estimada em cerca de 50 milhões de dólares dedicando-se a atividades das mais variadas, incluindo a consultoria a países subdesenvolvidos e emergentes e debates públicos em defesa da fé recentemente descoberta no Catolicismo. Sua mais nova máscara é a de enviado de paz ao Oriente Médio, com a missão de facilitar um acordo de paz entre israelenses e palestinos.

            Digo máscara porque todos sabemos que nunca haverá paz naquela região e o próprio Tony Blair sabe disso. Em vez de perder seu tempo em Israel onde o pau come solto ele dedicou-se a organizar o rega-bofe para sua amada esposa, em que os convidados eram revistados por policiais antes de terem acesso ao local. Provavelmente o senhor Blair deve ter medo de terroristas, os terroristas da Al-Qaeda no Iraque ou os terroristas do Hamas na Palestina, quem sabe? Afinal, o que não faltam no mundo são terroristas, e precisamos de homens como Blair, que não descuida da guerra ao terror até em seu próprio refúgio idílico na zona rural da Inglaterra.

            Mas o importante é que, para uma celebridade como o ex primeiro-ministro britânico os fatos são irrelevantes. Em 19 dias de combate, 1.033 palestinos morreram, seis mil ficaram feridos e mais de 160.000 são considerados agora refugiados. Do lado israelense, 42 militares e três civis perderam a vida, e 138 soldados ficaram feridos. Esta é apenas mais uma escaramuça: em 2006 Israel lutou contra o Hezbollah, em 2009 Israel lançou a operação Chumbo Fundido, em 2012, houve a operação Pilar de Defesa. Ou seja, tais embates são cíclicos obedecem a um script, e as partes desempenham seu papel: os atores principais são atualmente o governo do primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, eo Hamas que controla a Faixa de Gaza. Um não pode viver sem o outro.

           De fato, Bibi precisa de um inimigo como o Hamas, cujos membros se escondem entre civis, usam áreas civis para lançar mísseis e escavam túneis para realizar atentados e sequestrar militares israelenses. Sem que houvesse esse comportamento de guerrilha combatente disposta a colocar em risco a vida de inocentes em nome da causa, o governo de Israel não poderia tachá-los de terroristas e não poderia justificar a morte de crianças, mulheres e velhos, o que viola as Convenções de Genebra. Por outro lado, o Hamas não pode existir sem um inimigo como o governo de direita atualmente em Israel, porque a desproporção das mortes mostra quão diabólicos são os “judeus” e reforça a imagem de mártires da causa islâmica do Hamas. Em suma, este radicalismo das partes é bom para ambos os lados, permite ao Hamas posar como defensor legítimo dos muçulmanos e permite a Israel ir fazendo aos poucos alimpeza do terreno e ir confinando os palestinos a certas áreas, tais como os bantustões que existiam na África do Sul.

          O enviado de paz Tony Blair surge aí como ator coadjuvante: seu papel é de manter as aparências de que alguém está seriamente preocupado em fazer com que as partes cheguem a um meio termo. Claro que ninguém está. Quem se importa com os palestinos que vivem no gueto de Gaza? Tanto o Hamas como o governos israelense os utilizam como instrumento de sua política, num caso como escudo no outro como alvo preferido de ataques. É verdade que tem havido protestos em todo o mundo contra os excessos da guerra,mas tudo parece ser fogo fátuo. Acredito que só haveria a possibilidade de mudar o comportamento do governo israelense se pudesse ser organizado um boicote por parte de consumidores de todo o mundo de produtos israelenses e que só haveria a possibilidade de mudar o comportamento estúpido do Hamas de lançar foguetes que não cumprem nenhum objetivo militar além de dar uma desculpa para os ataques israelenses se os palestinos começassem a perceber que o martírio e o sofrimento eternos não os levarão a lugar nenhum.

              Tenho certeza que Tony Blair, depois do descanso merecido, voltará a dar as caras no Hotel King David em Jerusalém e dar uma olhadinha em como as coisas estão. E tenho certeza que infelizmente a verdade sobre o grande personagem será revelada tarde demais, quando ela não for maisofensiva a ninguém e em 2033 o mundo descobrirá que Tony Blair era um grande factóide pós-moderno.

Categories: Internacional | Tags: , , , , , | Leave a comment

Sobre outras guerras

Quando nacionalistas cubanos levantaram-se contra a Espanha em 1895, a simpatia dos Estados Unidos pelos rebeldes foi estimulada pelos relatos da “imprensa amarela” sobre supostas atrocidades cometidas pelos espanhóis. Em que pese ter sido de causa indeterminada, o afundamento no porto de Havana do navio americano Maine (15 de fevereiro de 1898) causou reação na imprensa e o furor do público. A Espanha anunciou um armistício (9 de abril), mas os Estados Unidos emitiram resoluções que declararam o direito de Cuba à independência, exigiram a retirada da Espanha, autorizaram o uso da força pelo Presidente e renunciaram a qualquer intenção dos Estados Unidos de anexar Cuba.

Trecho retirado do verbete da Enciclopédia Britânica sobre a guerra entre Espanha e Estados Unidos travada em 1898

Às três da tarde (horário de Greenwich) o Capitão Herrick ordeneu à tripulação do Ogier que abrisse fogo se os torpedeiros se aproximassem e ficassem a uma distânciade nove quilômetros. Por volta das três e cinco, o Maddoxfez três disparos para rechaçar os torpedeiros comunistas. Essa ação inicial nunca foi relatada pelo governo de Johnson, que insistiu que foram os torpedeiros vietnamitas que atiraram primeiro.

Trecho de um relatório elaborado em2005 pela Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidossobre o episódio ocorrido no Golfo de Tonkin no Vietnã, em 1964. O relatório concluiu que no dia 4 de agosto daquele ano não havia nenhuma embarcação norte-vietnamita, ao contrário do que alegara o governo americano.

        Prezados leitores, antes de mais nada, é preciso dizer que a culpa pela morte dos 298 passageiros a bordo do Boeing 777 da Malaysia Airlines, abatido por um míssil na Ucrânia,é do Putin. Quem mais teria a capacidade e a vontade de fornecer um míssel a esses famigerados rebeldes separatistas da Ucrânia? Quem mais tem a crueldade e o cinismo do neoimperialista, nazista, chauvinista presidente da Rússia? Quem mais manipula seu povo abestalhado que acredita nas quimeras nacionalistas que ele lhes oferece e lhe dá 83% de aprovação? A autoria deste atentado atroz que ceifou a vida de civis inocentes é tão óbvia que os Estados Unidos em pouco mais de 24 horas depois do acidente, deposse de evidências incontestáveis, já tinha a resposta na ponta da língua do Prêmio Nobel da Paz, Barack Obama: Vlad, o terrível, a maior ameaça à paz mundial neste século, com o intuito de colocar mais lenha na fogueira da separação da Ucrânia, forneceu os equipamentos e a expertise para que os terroristas disparassem o Buk.

         Nesta história de horrores, é um alívio saber que temos os Estados Unidos, o farol da liberdade e da democracia no mundo, o benfeitor do Iraque, do Afeganistão, do Iêmen, da Síria, da Líbia, do Sudão, e de todos os países, onde os americanos ensinam os nativos a votar e a sematarem entre si. É um alívio porque só o governo americano poderános contar a verdade de maneira imediata, sem intermediários, sem tergiversações, só ele conseguirá desmascarar ditadores sanguinários e insandecidos como o perseguidor das minorias sexuais Putin que não vai descansar enquanto não refizer as fronteiras da antiga União Soviética. Os Estados Unidos como sempre já cumpriram sua obrigação, já nos encheram de indignação diante da morte estúpida dos passageiros do vôo MH17. Agora a comunidade internacional deve agir contra a Rússia, aplicando-lhe sanções econômicas e retaliações à altura da barbárie cometida. Certo?

            Errado, na minha modestíssima opinião. Meu intento não é convencer ninguém que Vladimir Putin é coroinha de missa ou que os rebeldes pró-Rússia que querem se separar da Ucrânia não são capazes de nenhuma violência. Meu propósito é simplesmente chamar-lhes a atenção para episódios históricos em que os Estados Unidos se envolveram e que serviram de justificativa para sua intervenção militar, normalmente como reação de legítima defesa contra um ataque injusto do inimigo. O script é sempre o mesmo: cria-se o demônio para depois abatê-lo sem dó nem piedade, a bem da justiça. Vejamos.

       No primeiro caso, no final do século XIX, a imprensa sensacionalista americana, capitaneada por William Randolph Hearst, pintou a Espanha como a colonizadora decadente opressora dos países do continente americano. O afundamento do Maine foi a gota d´água e como resultado da guerra que se seguiu os Estados Unidos obtiveram Guam, Porto Rico e as Filipinas.No segundo caso, a história contada pelo governo de Lyndon Johnson ao seu povo, de que torpedeiros vietnamitas haviam disparado contra os americanos em 4 de agosto de 1964 teve como efeito imediato a aprovação pelo Congresso americano da resolução do Golfo de Tonkin, que concedia ao Presidente a permissão de ajudar qualquer país do Sudeste Asiático cujo governo fosse considerado como prejudicado pela agressão comunista.Em suma,a resolução serviu de justificativa legal para que Johnson enviasse tropas ao Vietnã para combater os vietcongs, aumentando a intensidade do conflito que já se desenrolava na Indochina desde 1955. A guerra do Vietnã, que duraria até 1975, com a tomada de Saigon pelo norte-vietnamitas, ceifaria a vida de mais deum milhão de pessoas.

        Mais recentemente, para justificar a invasão do Iraque em março de 2003, George Bush e Tony Blair alegaram que Saddam Hussein acumulara uma vasta quantidade de armas de destruição em massa, o que configurava uma ameaça à paz mundial. Em 2008 uma Comissão do Senado dos Estados Unidos chegou à conclusão de que o governo de George Bush sobrestimou a ameaça colocada pelo Iraque, apresentando de maneira distorcida as informações obtidas pelos órgãos de inteligência americanos sobre o programa nuclear do Iraque. O próprio George Bush, que pintara Saddam Hussein como encarnação do demônio, admitiu em dezembro de 2008 que seu maior arrependimento havia sido a falha na obtenção de informações fidedignas a respeito da letalidade do Iraque.As estimativas variam em relação ao número de mortos no Iraque, que pode ter ultrapassado 500.000 desde 2003.

         Prezados leitores, eu poderia também falar de Pearl Harbor e a pretensa surpresa do ataque japonês aos americanos, mas deste já falei há algum tempo e não quero repetir-me.Esses três episódiossão suficientes para mostrar que é no mínimo temerário, ante os antecedentes históricos, confiarmos nas evidências que os Estados Unidos mostram ao mundo para comprovar a justeza da sua causa. O ideal seria que pudesse haver uma investigação séria do episódio, sem conclusões precipitadas, sem achismos baseados em declaraçõescolocadas na internet. Infelizmente é pouco provável que a isenção prevaleça, porque os ânimos estão acirrados, há interesses de todos os lados de continuar alimentando o fogo das hostilidades. Ainda é cedo para dizer qual serão os resultados deste incidente, mas em vista do que a história nos ensina ele promete prenunciar destruição e morte em nome de nobres ideais.

Categories: Internacional | Tags: , , , , , , , | Leave a comment

Tristes reflexões

O aumento no comércio entre a China e a Alemanha na última década – e particularmente o aumento das exportações da Alemanha à China – superaram todas as expectativas. A Alemanha é o maior parceiro comercial da China na União Europeia, e a China é o principal destino dos investimentos estrangeiros das empresas alemãs

Artigo do Conselho Europeu de Relações Internacionais

Déficit de exportação da indústria avança para ser o pior da história

Manchete do jornal O Estado de São Paulo do dia 13 de julho

                         Prezados leitores, escrevo este artigo depois de encerrada a Copa do Mundo com a vitória da Alemanha sobre a Argentina. Pertenço àquele grupo de brasileiros que torceu por uma vitória europeia para que pelo menos nossa humilhação histórica no malfadado jogo de 8 de julho tenha como consolo o fato de termos perdido para os campeões do mundo. Também há um outro motivo pelo qual eu torci contra os hermanos. Não gosto da maneira pela qual os argentinos gostam de mostrar-se superiores a nós porque são 100% brancos de ascendência europeia, ao passo que nós somos o país negro demais para eles.

                   Os alemães, ao contrário dos argentinos, irremediavelmente presos à América Latina, não precisam provar nada para ninguém, e por isso aceitaram nossa diversidade de maneira relaxada e até entusiasmada, típica dos europeus que se maravilharam com o sol dos trópicos quando aqui chegaram nas caravelas. Dançaram ao som da Luz deTieta, torceram pelo Brasil e mostraram respeito pelo nosso patrimônio futebolístico, tanto que não fizeram tantos gols quanto poderiam ter feito contra aquele amontoado de gente que só o Felipão, o Parreira e talvez o Galvão Bueno, cada um deles com seus próprios interesses, consideravam capaz de ganhar a Copa do Mundo.

                      Em suma, torci pelos alemães porque foram perfeitos na organização, souberam se adaptar às condições do ambiente tropical, não ficaram reclamando dos desafios colocados pelo calor, não ficaram caindo em campo para cavar pênaltis e faltas, como tantos dos nossos jogadores fizeram a mando do professor Scolari, jogaram futebol, e quando nos massacraram no Mineirão não nos tripudiaram com dribles ou pedaladas, como provavelmente teríamos feito se tivéssemos estado na mesma situação. Como não admirar tamanha eficiência, seriedade, honestidade e grandiosidade? Por outro lado, é algo assustador para nós, sul-americanos, sob vários aspectos.

                     Esta é a primeira vez que uma seleção europeia ganha uma Copa do Mundo nas Américas. Se levarmos em conta que a última vez que os sul-americanos ganharam o torneio foi em 2002 com o Brasil, podemos talvez pensar que esteja havendo uma decadência do nosso outrora tão decantado futebol-arte. Como não pensar assim? Afinal será mera coincidência que em 2010 a campeã do mundo foi a Espanha, cuja base era o time do Barcelona, e que neste ano foi um time em que sete dos jogadores atuam no Bayern de Munique? Será coincidência que por mais que Argentina e Brasil, para falar das maiores forças sul-americanas, tenham nomes de qualidade, a falta de entrosamento de jogadores que atuam em todos os cantos do globo, menos em seus próprios países, torne as coisas difíceis? Tanto em um quanto no outro time, apenas três jogadores dos convocados atuavam em clubes brasileiros ou argentinos. Será coincidência que nossos campeonatos nacionais nem se comparem àqueles da Espanha e da Alemanha, os últimos campeões mundiais? Será coincidência que as potências atuais do mundo futebolístico não sejam exportadoras de talentos, como são nós e los hermanos?

                  Todos esses dados parecem mostrar que o futebol em 2014 é uma indústria global e os europeus souberam aprender conosco, reconhecendo a importância da técnica, e nos superar, aliando a técnica à força e à organização para cultivar talentos nacionais que formam a base das seleções. E o futebol hoje não é apenas uma indústria em si, que movimenta dinheiro com a venda de ingressos, de direitos de transmissão, de compra e venda de jogadores. Ele acaba tendo um efeito fora dos seus limites estreitos, criando valor de maneiras inesperadas. Dona Angela Merkel, a primeira-ministra da Alemanha, não estava presente no Maracanã para assistir à final simplesmente porque é fã de futebol e é pé quente, dando sorte ao time. O campo de futebol, a escola e o centro de treinamento deixados pela Federação Alemã de Futebol aos habitantes de Santa Cruz Cabrália projetam a imagem de um país que aceita a diversidade e traz benefícios às comunidades não brancas. A própria composição da seleção, formada de alguns jogadores de origem turca, serve para mostrar uma Alemanha muito distante daquela da Segunda Guerra Mundial que privilegiava a pureza do sangue ariano, que queria conquistar a Europa como um direito ao espaço vital de uma raça superior. Enfim, em um mundo em que os contatos entre os diversos povos estão cada vez mais frequentes, abraçar o multiculturalismo, patrociná-lo e exercê-lo na prática rende pontos. Para culminar esse esforço de soft power, os alemães vencedores imitaram a dança dos pataxós que viram na Bahia ao redor da taça de campeões do mundo.

                          Não admira que embuída de tal espírito de fazer frente aos desafios modernos a Alemanha tenha se dado muito bem com a globalização. Enquanto que para o Brasil a ascensão da China tem sido uma faca de dois gumes, pois de um lado tem causado nossa desindustrialização pela perda de competitividade e de outro aberto mercado para nossas commodities, para os alemães tem sido até agora um casamento perfeito: os chineses vão atrás da tecnologia alemã e os alemães vão atrás do grande mercado asiático.

                   Prezados leitores, por mais que eu admire a lição de eficiência e diplomacia dada pelos teutônicos, não posso deixar de entristecer-me com o fato de que nós brasileiros, que éramos os senhores absolutos do futebol, perdemos nossa competitividade e atualmente estejamos vivendo muito mais das lembranças do passado glorioso. Desde 1982, com a fatídica derrota ante os italianos, temo-nos dedicado a destruir nosso futebol e em 2014, nosso esforços foram recompensados. Tivemos a pior seleção da nossa história, porque não soubemos manter nossas qualidades e nos livrarmos dos nossos defeitos em matéria de organização fora do campo. Nossos competidores no futebol globalizado souberam adquirir novas qualidades edeixar para trás suas fragilidades. Esta Copa de 2014, em que tomamos dez gols em apenas dois jogos, certamente será um divisor de águas, pois solidifica uma impressão que já tínhamos tido quando o Santos sofreu o mesmo revés contra o Barcelona. A de que já não estamos nem entre os melhores do mundo no futebol e que em mais esse quesito a globalização nos pegou de calças curtas.

Categories: Esportes | Tags: , , , , , , | Leave a comment

Em busca do Santo Gaal

Sentíamos que o Krul seria o mais apropriado. Ele tem envergadura. Foi-lhe dito que se preparasse, estava previsto. Se eu tivesse cometido um erro, eu teria que ter enfrentado as críticas.

Aloysius Paulus Maria Van Gaal, professor de educação física e técnico da seleção holandesa de futebol, explicando sua substituição do goleiro titular Cillessen para a cobrança de pênaltis nas quartas-de-final da Copa do Mundo.

O peculiar da vida brasileira parece ter sido, por essa época, uma acentuação singularmente enérgica do afetivo, do irracional, do passional, e uma estagnação ou antes uma atrofia correspondente das qualidades ordenadoras, disciplinadoras, racionalizadoras.

Trecho extraído de Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda

             Prezados leitores, como diria o poeta, “cessa tudo quanto a antiga musa canta que um valor mais alto se alevanta”. Se na semana passada, eu quis chamar a atenção para os dramas que estão se desenrolando no mundo afora enquanto cá estamos experimentando fortes emoções na Copa do Mundo, nesta semana farei o contrário e focarei minhas atenções em um personagem futebolístico, para mim muito interessante porque ele dá o que pensar a respeito de outros assuntos.

           Falo do rabugento e politicamente incorreto técnico da seleção holandesa, conhecido como Louis Van Gaal, e que ontem realizou seu maior feito: ao substituir um goleiro de 1,88 por um de 1,93, Van Gaal causou um abalo psicológico no time da Costa Rica, que apesar de ter um excelente goleiro,Keylor Navas, e de ter se saído bem na cobrança de pênaltis contra a Grécia, acabou sendo derrotada. Digo seu maior feito, porque Van Gaal tem se caracterizado por mostrar uma capacidade incrível de dançar conforme a música tocada nesta Copa das Copas, o que significa mudar os jogadorese o estilo de jogar do time de acordo com os desafios do momento. Aliás, ele já usou 20 dos 23 jogadores que convocou, o que mostra que se vale de todos os recursos para conseguir seu intento de ganhar o título.

               É sempre admirável ver um líder em ação, alguém que tem uma meta, sabe traçar um caminho e sabe mobilizar sua equipe para chegar lá.  Para isso, pessoas como Van Gaal nunca agradam e estão pouco se importando em agradar. O goleiro Cillessen quando saiu de campo mostrou sua irritação chutando uma garrafa de água, tendo sido pego de surpresa já que não sabia dos planos do chefe. Depois do resultado obtido, ele enfiou a viola no saco e pediu desculpas, afinal teve que reconhecer que o técnico holandês havia se preparado para o pior, isto é, a decisão por pênaltis, e que para tal decisão o goleiro mais alto intimidaria mais os batedores da Costa Rica.

     É claro que há sempre um quê de loucura nos líderes. Van Gaal pode acertar retumbantementemantendo-se fiel a suas ideias, mas de vez em quando sua autenticidade é pura teimosia. Que o diga o jogador brasileiro Rivaldo quando foi dirigido pelo holandês. Van Gaal queria que ele jogasse como ponta esquerda e Rivaldo preferia atuar no meio campo. Como Rivaldo não obedecia ao técnico este passou a persegui-lo, implicando com 20 segundos de atraso ou com a camisa para fora do calção. Acabou fazendo Rivaldo sair do Barcelona e recebendo a acusação de ter inveja. Outro brasileiro “perseguido” por Van Gaal foi Lúcio, que foi dispensado do Bayern Munique na temporada 2009 2010 quando o holandês passou a dirigir a equipe alemã.

          Em suma, todos esses detalhes futebolísticos que trago aqui levaram-me a lamentar que tipos como Aloysius Paulus Maria Van Gaal não sejam mais comuns nas nossas plagas.Pode ser que o Brasil seja campeão do mundo na base da tal da “raça”, da gana de ganhar a Copa em casa por parte dos jogadores que querem dar um presente ao povo brasileiro “patrocinador” por bem ou por mal dos custos monstruosos do evento. Será um feito incrível, e deveremos isso ao imponderável da influência das emoções à flor da pele, em virtude da saída de Neymar à base da joelhada nas costas e da vontade de vencer dos jogadores raivosos com o que foi feito ao nosso maior craque, o mártir da Copa. A mim isso não importa, porque estou interessada no mundo além futebol.

         Quantos de nós brasileiros vemos métodos racionais serem aplicados nas várias esferas da vida em terras tropicais? Antes de mais nada devo esclarecer que para mim ser racional não é reprimir as emoções, ser “travado” como dizemos aqui. Ser racional é tomar decisões baseadas nos fatos tal como se apresentam a olhos serenos e não naquilo que queremos que os fatos sejam, significa que um problema concreto será resolvido pela análiseda realidade do momento e pela estimativa dos piores cenários para que caso os acontecimentos se desenvolvam de maneiranegativa, não sejamos pegos desprevenidos.

           Voltando à pergunta, quantos de nós no Brasil somos ensinados nas escolas a resolver problemas? Minha passagem pelos bancos escolares, nos quais estive até o ano passado, sempre me deixou com a sensação de queo mais importante é cumprir protocolos, fazer provas, passar o conteúdo colocado no currículo para estar em dia com as exigências burocráticas do MEC, mas a utilidade prática de tudo aquilo não era importante, o importante era o carimbo ao final, em suma o diploma. Quantos denós no Brasil vemos obras públicas sendo construídas prevendo o pior cenário de maneira que ele possa ser prevenido e não ocorra?Nesta última semana um dos legados da Copa em Belo Horizonte, um viaduto que seria uma importante ligação para o Mineirão espatifou-se, matando duas pessoas, um triunfo da esperança de que nada de mal ocorreria, apesar de haver toda probabilidade de ocorrer, já que a prefeitura da cidade não havia fiscalizado a obra.

         Finalmente, quantos de nós brasileiros já fomos testemunhas de uma campanha política em queo radicalismo das opções absolutas dá a tônica e as discussões giram em torno do embate de personalidades, sem que seja dada importância sobre o que o candidato de fato fez? Por acaso, a disputa Dilma Rousseff versus Aécio Neves versus Eduardo Camposestá sendo apresentada em termos de eficiência objetiva? Dilma é sempre a apadrinhada do Lula, Aécio é o apadrinhado do avô, Tancredo Neves, Eduardo Campos é o apadrinhado de seu avô, Miguel Arraes, Marina Silva é apadrinhada de Chico Mendes.O que de fato cada um dos candidatos fizeram quando ocuparam postos no Executivo ou Legislativo? Isso não é importante, o importante é a peleja, o duelo dos titãs, danem-se os fatos, viva o drama, as emoções!

            Prezados leitores, tenho certeza que no dia em que considerarmos o método Van Gaal de lidar com os assuntos, sem atropelos, com objetividade e sem confiança demasiada nas boas intenções, teremos dado enormes passos para resolver tantos dosnossos problemas, e poderemos ser menos melodramáticos, menos masoquistas e martirizados do que somos hoje.

Categories: Esportes | Tags: , , , , , | Leave a comment

Morte às diferenças!

(…) o primeiro tipo de legislador levava em conta os diferentes tipos de cidadãos e os combinava em uma única comunidade, o outro tipo, os legisladores metafísicos e alquimistas,seguia o caminho exatamente oposto. Eles tentarammisturar todos os tipos de cidadãos, da melhor maneira que podiam, em uma massa homogênea.

Edmund Burke (1729-1797) em “Reflexões sobre a Revolução na França”

                Prezados leitores, a Copa do Mundo está se desenrolando no Brasil,proporcionando grandes emoções aos espectadores, com reviravoltas inesperadas, grande ansiedade para nós brasileiros, eternos sofredores diante desta seleção canarinhopara lá de medíocre montada pelo retranqueiro e maquiavélico Felipão, para quem o fim de vencer justifica os meios, e a influência talvez não decisiva mas considerável do calor na eliminação de pesos-pesados do futebol como Itália e Inglaterra. Com tantas manchetes espetaculares, a mídia brasileira tem deixado de lado muito do que acontece na cena internacional. Mas o fato é que há coisas muito importantes se desenrolando lá fora que podem afetar a vida de todos nós.

                Talvez a mais significativa para o futuro da humanidade seja a crise na Ucrânia. Nenhuma negociação chegou a bom termo, e o último passo foi dado pela União Europeia, que deu um ultimato à Rússia para que esta reprima as manifestações separatistas que estão ocorrendo no sul e leste da Ucrânia, sob pena de serem impostas sanções aos russos. O que Putin vai fazer? Ceder à pressão dos Estados Unidos por meio de suas marionetes europeias ou partir para o conflito escancarado, cortando o fornecimento de gás à Europa, ou mesmo lançando um míssel nuclear? A posição dos americanos é clara: eles querem que a Rússia ceda a todas as exigências americanas e que ela aceitena sua fronteira um governo totalmente hostil pró OTAN e pró União Europeia, com a qual acaba de assinar um acordo comercial.Provavelmente, por ora Putin espera que os europeus se convençam que é melhor negociar, cada uma das partes cedendo, mas se os líderes da Europa continuarem defendendo os interesses americanos e se esquecendo dos seus poderemos ter uma guerra nuclear.

                A crise da dívida da Argentina, sobre a qual falei neste espaço na semana passada, está se desenrolando e resta saber se a Argentina conseguirá efetuar o pagamento dos credores que aceitaram a reestruturação da dívida em Nova York. Será que as partes chegarão a um acordo de cavalheiros ou a Argentina conseguirá pagá-los em outra jurisdição, por exemplo na Europa? Será que os Estados Unidos colocarão obstáculos a tal alternativa? Essa pergunta é pertinente se levarmos em conta outro episódio que está se desenrolando juridicamente e que mistura política externa e indústria financeira. O banco francês BNP Paribas, um dos maiores bancos europeus, está sendo processado criminalmente em Nova Yorque acusado de violar as leis americanas por realizar transações com Cuba, Irã e Sudão, países do “eixo do mal”, por meio de suas filiais americanas. A multa está colocada em 10 bilhões de dólares. Recentemente, quando da comemoração do desembarque na Normandia na Segunda Guerra Mundial,Hollande pediu a Obama que houvesse certa proporcionalidade, mas Obama esquivou-se dizendo que não tem influência nenhuma sobre o Judiciário, o que é altamente questionável, considerando o quanto o Judicário americano tem ajudado o Executivo na sua luta contra o “terror”, em vista do tratamento dado a Bradley Manning e a Julian Assange.

                Por fim, não posso deixar de lembrar de outro evento geopolítico momentoso, a desintegração do Iraque cujas fronteiras foram estabelecidas artificialmente pela França e pela Inglaterra em 1916 pelo tratado secreto Sykes-Picot. A derrubada de Saddam Hussein, que mantinha o país unido na marra, levou à abertura de uma caixa de Pandora, e atualmente, em vez da democracia que os Estados Unidos prometeram levar aos iraquianos, tem-se uma guerra fraticida, em que uma parte do norte e do oeste do país está nas mãos dos sunitas, o sul, incluindo a capital Bagdá, está nas mãos dos shiitas e há ainda uma terceira região que os curdos pretendem que brevemente seja o Curdistão.O caos que se instalou no Iraque está servindo como uma desculpa para os Estados Unidos estarem considerandointervir de novo. Quem sabe dessa vez eles acertam e estabeleçam um governo estável que traga a prosperidade e a paz aos infelizes iraquianos? Afinal, as intenções são as melhores possíveis, levar os valores ocidentais para os países muçulmanos…

                Prezados leitores, tendo mencionado esses três exemplos de crises que se desenrolam no mundo enquanto cá estamos no Brasil totalmente focados na Copa do Mundo, volto ao filósofo Edmund Burke, minha leitura atual. Para ele uma das condições da instalação de um governo tirânico é a deliberada negligência das diferenças entre as pessoas e a tentativa de imposição de um modelo único, elocubrado na mente dos filósofos que queriam um novo homem, que se comportasse da maneira tal que as ideias dos “sofistas” sobre progresso pudessem ser concretizadas. Não é difícil verificar no nosso mundo tão conturbado como essa lição é de difícil aprendizado. A Argentina colocou-se em uma situação delicada do ponto de vista financeiro,em virtude de decisões erradas dos seus governantes que importaram soluções econômicas mágicas – paridade cambial, Consenso de Washington–as quais acabaram levando ao calote de 2001 e desde então a um sofrido caminho de pagamento de suas dívidas, negociadas e renegociadas em condições draconianas para o país, que permitiram que a Argentina fosse enquadrada por um juiz americano como está sendo agora. Os Estados Unidos interveio no Iraque, país em que as fidelidades religiosas são muito maisimportantes do que qualquer ideal abstrato de liberdade e democracia, e o resultado está aí para todo o mundo ver. E agora querem enquadrar no molde da OTAN-UE a parte da Ucrânia que tem uma maioria étnica russa eque na maior parte da sua história pertenceu à Rússia. Para tanto, é preciso diabolizar Vladimir Putin, com base não no que ele realmente fez, mas no que o vilão criado no Ocidente diz que ele faz. A Crimeia foi anexada depois que sua população decidiu em referendo voltar a ser parte da Rússia e no entanto, somos informados que Putin invadiu a Crimeiae que o referendo é fajuto. Presume-se que as informações dadas pela maior parte da imprensa “democrática” do Ocidente são verdadeiras e que tudo que a Russia Today, o canal de notícias financiado pelo governo russo, mostra seja falso, fruto da guerra de propaganda do ditador Putin, afinal consideramos que a imprensa nas mãos da iniciativa privada é necessariamente livre. E no entanto, Obama tem uma aprovação de 41% nos Estados Unidos, Vladimir Putiné aprovado por 76% de sua população de acordo com a Public Opinion Research Center. Mas claro, a pesquisa é falsa, encomendada pelo monstro perseguidor de homossexuais, opressor dos ucranianos.

                Tudo isso para dizer que vivemos em um mundo global em que precisamos nos enquadrar em certos moldes impostos por certos grupos que são os primeiros a se beneficiarem da padronização. Precisamos ser contra o “terror”, que parece muito mais uma justificativa para intervenção militar em todos os cantos do planeta, a favor de uma certa ideia de democracia que se assemelha muito mais a uma oligarquia, a favor de uma versão do capitalismo que premia as finanças em detrimento da produção. Resta saber qual será o resultado final de mais uma tentativa de padronização na história humana.

Categories: Internacional | Tags: , , , , , , | Leave a comment