Marina, aproxima

Ela diz que no seu governo não vai ter lugar para a fisiologia do PMDB. Você acha que Sarney e Renan vão sentar na beira da calçada e chorar: “A Marina não quer a gente no governo?”. Os fisiológicos têm voto. Não estão lá por acaso. Se só estivessem no Congresso os melhores, a política seria outra.

Trecho de entrevista concedida por Cesar Romero Jacob, cientista político da PUC-Rio, para o jornal O Estado de São Paulo em 31 de agosto

Nos governos do PT e do PSDB, cada um tem um apagão para chamar de seu.

Marina Silva, no debate dos presidenciáveis em 26 de agosto

                Prezados leitores, continuando meu esforço deinformar-me sobre os candidatos à Presidência da República assisti ao debate na Band mediado por Ricardo Boechat. É óbvio que o desempenho dos contendores não influenciará muito o resultado, já que a audiência foi baixíssima (1,7 na Grande São Paulo, uma piora em relação a 2010, quando chegou a 2,4 pontos), talvez em virtude do horário ingrato, talvez em virtude de os eleitores fazerem sua opção com base em outros critérios que não o conteúdo das propostas ou a habilidade de argumentação. De qualquer forma, foi possível constatar o porquê de Marina Silva ter disparado nas pesquisas e ser a catalisadora do voto útil.

                O grande truque dela é colocar-se acima das refregas tão ínúteis e repetidas entre o PSDB e o PT. Enquanto Dilma acusava Aécio de leviano em suas acusações a respeito da má gestão da Petrobrás, sem respondê-las especificamente e sem dizer porque eram levianas, e Aécio acusava Dilma de vender ao eleitorado um país de mentira que não corresponde à realidade da dona de casa que vai à feirae vê so preços aumentarem, Marina habilmente paira sobranceira sobre eles, com sua mensagem da nova política. A mensagem torna-se crível pelo fato de Marina ainda não ter tido a oportunidade de ser vidraça, de não ter tido experiência no Executivo que pudesse ter sido criticada, como Aécio, duasvezes governador de Minas e Dilma, uma vez presidente. Mais crível ainda porque a ex-seringueira calmamente fala coisas sensatas, por exemplo a necessidade de reconhecer os erros e tentar corrigi-los, e anecessidade de reconhecer que o governo de Fernando Henrique e de Lula tiveram pontos positivos e negativos, FHC conseguiu a estabilização da moeda, cuja preservação é interesse de todos, Lula teve a visão estratégica de trilhar o rumo da realização da justiça social.

               Como não concordar com avaliações assim tão equilibradas da Dona Marina? Como não ter a sensação de que Aécio, enaltecendo o governo de Fernando Henrique em detrimento do de Lula, e Dilma, enaltecendo o governo de Lula em detrimento do de Fernando Henrique, são infantis? Como não vislumbrar Marina como a verdadeira terceira via que vai permitir ao Brasilsuperar a dialética PT x PSDB e chegar a uma sínteseque nos leve a novos caminhos?Afinal, não estamos precisando de novas abordagens em um cenárioem que a participação da indústria no PIB diminuiu drasticamente de 27% na década de 80 para 14% em 2010, em que estamos correndo o risco de entrarmos em mais um período de estagflação como aquele que minou nossas energias vitais antes da entrada em vigor do Plano Real? A economia sustentável de Marina, fazer mais com menos, não é uma receita adequada para que possamos voltar a crescer sem inflação e com aumento de renda? Produtividade não é a palavra-chave para saírmos do lamaçal do PÌBinho que tanto nos assusta? Não é isso que dizem todos os economistas e não é isso que a economia de recursos preconizada pelos ambientalistas prega?

               Tudo isso é verdade, mas devo confessar-lhes que concordo com o candidato Aécio quando diz, para atacar Marina, que o Brasil não é para amadores.Os brasileiros adoram apostar em caras novas para os cargos executivos, mas nas eleições para os parlamentos, às quais normalmente não damos a mínima importância, acabamos mantendo o baixo nível de sempre. O sistema de representação não ajuda, porque os Estados mais desenvolvidos, que têm mais condições de oferecer candidatos ao legislativo de melhor qualidade,são vergonhosamente subrepresentados no Congresso Nacional, de forma que os Sarney e os Renan Calheiros é que dão o tom. Marina martela, como um dos pontosfortes do seu arsenal de marketing , na tecla de que é preciso governar com os melhores, seja de quepartido forem. Belas palavras, mas é pouco provável que ela encontre o crème de la crème na Câmara dos Deputados ou no Senado. Pode até ser que ela forme um ministério de notáveis com as melhores cabeças pensantes da sociedade brasileira. Mas e o apoio político para que as ideias maravilhosas produzidas por essas mentes brilhantes sejam concretizadas? É crível pensar que o PSB, o partido ao qual Marina está afiliada, vá conquistar uma maioria no Congresso Nacional?

               Há mais uma preocupação que desejo externar neste meu humilde espaço. Marina, apesar de todo seu apelo do século XXI, está mostrando ter sido picada pela mosca azul do poder. Em entrevista ao Roda Viva em 2013 ela dizia não ter interesse em se candidatar e que sua preocupação era formar seu partido para concretizar sua ideias sobre a nova política. Pois bem, apesar do seu choque com a morte de Eduardo Campos, ela imediatamente lançou-se candidatae tem feito concessões típicas de quem quer conquistar o poder, mesmo que isso signifique quebrar alguns ovos. Cedeu aos evangélicos a respeito do casamento gay, retirando apoio a essa medida do seu programa, e já havia cedido a respeito dos transgênicos e da transposição do Rio São Francisco que passou a apoiar quando foi Ministra do Meio Ambiente. Nessa toada, não seria surpresa se tivesse proximamente uma reunião com o Ronaldo Caiado, um dos líderes da bancada ruralista no Congresso.

               Não há nada de mal em que ela apare seus radicalismos para tornar-se mais palatável, isso é esperável, o perigo a meu ver é que Marina não admita isso e se torne tão messiânicae auto-centrada como Lula, para quem os erros estão sempre nos outros. Prezados leitores, a despeito de todo o apelo marinístico, não posso deixar de ver um fundo de verdade nas palavras de Luciana Genro, a candidata “marginal” do PSOL, que no debate acusou Dilma, Aécio e Marina de serem todos variações do mesmo tema, no caso os fiéis baluartes do tal do tripé macroeconômico (metas de inflação, câmbio flutuante e independência do Banco Central)que faz com que o Estado brasileiro invista mais no pagamento de juros da sua dívida do que naquilo que o país realmente precisa para dar um salto de qualidade no crescimento e no desenvolvimento social.

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Marina Silva, a divergente positiva

Assim, na medida em quepude me conter, evitei dar recomendações políticas ou avaliar diferentes ações. (…) Acontece que já estamos fartos de políticas, tratados e financiamentos para o desenvolvimento sustentável. Eles não estão em falta. Então para que mais? A crise, como Kofi Annan advertiu durante anos está a caminho; sabemos o que fazer … mas não fazemos. Por quê? Esse é o território de origem do divergente positivo. Cabe a você determinar a coisa certa a fazer, onde quer que esteja, removendo ou desviando das políticas, orçamentose outros obstáculos que o impeçam de fazer acontecer.

Trecho do livro “O Divergente Positivo – Liderança em Sustentabilidade em um Mundo Perverso”, de Sarah Parkin.

Vivemos um momento de agregação dispersiva, pessoas que vão se agregando em cima de ideais maiores e mais difusos. As pessoas querem ética na política, querem um mundo melhor. Isso possibilita uma agregação, mas que é dispersiva (…) Porque ao estar integradas a estes grandes ideais, as pessoas se dispersam para as suas causas. Isso faz uma dispersão agregadora.Imantadas por este grande ideal as pessoas vão se agregando, uma em torno das outras (…)

Trecho da entrevista de Marina Silva ao jornal Valor em 21 de junho de 2013

          Prezados leitores, está chegando a hora de escolhermos nosso candidato a Presidente da República. Para alguns brasileiros será relativamente fácildecidir sobre que número apertar ou não apertar na urna eletrônica, pois o critério será a defesa de seus interesses materiais. Um beneficiário de algum programa de transferência de renda do governo federal votará em Dilma, para não correr o mínimo risco de ter o dinheiro retirado, um fazendeiro de soja no Centro-Oeste com certeza não votará em Marina Silva porque ela não facilitará a vida deles com suas exigências ambientais .Quem como eu não tem uma escolha óbvia, por lhe faltar um candidato que prometa fazer ou continuar a fazer algo que o beneficia diretamente, precisa pautar-se por outros critérios.

                 Em uma eleição presidencial tendemos a escolher o candidato por seu carisma pessoal, por sua trajetória de vida que de algum modo nos encanta. Nesse sentido, a candidata do PSB é a mais espetacular dentre os candidatos. Venceu a malária, a leishmaniose, a intoxicação por mercúrio, alfabetizou-se aos 16 anos, formou-se historiadora e hoje é uma líder de causas ambientais mundialmente reconhecida. Já em 1996 ela recebeu o Prêmio Ambiental Goldman. Em 2010 a revista Foreign Policy, editada por David Rothkopf, ex diretor presidente da Kissinger Associates, a colocou na lista dos principais pensadores globais.

                 Como negar que nossa mais famosa ambientalista esteja em sintonia comas novas tendências de pensamento do século XXI? Sarah Parkin, diretora-fundadora do Forum for the Future, a principal entidade beneficentena área do desenvolvimento sustentável do Reino Unido, define o divergente positivo como aquele que não espera nada dos governose resolve agir por si mesmo em prol da sustentabilidade do planeta, assumindo um papel de liderança contra a corrente do conformismo. Repetidas vezes em suas entrevistas Marina fala dos novos atores políticos, que não se identificam com nenhuma organização tradicional,como partido ou sindicato, e querem ser eles mesmos protagonistas, em vez de receberem ordens dos chefes ou seguirem orientações ideológicas predeterminadas.

                A tal da agregação dispersiva de que Marina fala parece justamente apontar para uma superação da política feita por meio das instituições consagradas. Em uma entrevista ao Programa Roda Viva em outubro de 2013, a ex-seringueira aventou a possibilidade de as pessoas exercerem fiscalização do que os políticos fazem por meio das mídias sociais. Não é de surpreender que fica difícil categorizá-la ideologicamente. Esquerda ou direita? Seria natural que optássemos pela primeira hipótese, afinal ela entrou na política pelas mãos de Chico Mendes, um líder de seringueiros,filiou-se ao PT em 1985, foi ministra no governo Lula. Por outro lado, considerando que a coordenadora do programa do PSB é Maria Alice Setúbal, pertencente à família dona do Itaú, e que Marina é a favor da independência do Banco Central na condução da política monetária, fica difícil considerá-la como alguém cujasmedidas econômicas desagradariam nossa elite financeira.

                Nem esquerda, nem direita, talvez a tal da terceira via, o Santo Graal procurado por todo o político que quer cair nas graças da nova geração, aquela que nasceu depois da Queda do Muro de Berlim e para quem capitalismo, socialismo, comunismo são conceitos que não fazem muito sentido. De fato, Marina é a candidata que mais votos tem entre os eleitores na faixa entre 16 e 24 anos de idade (22%, ante os 14% de Aécio Nevese de Dilma Rousseff). Os conceitos com os quais a candidata trabalha, ética ambiental, sustentabilidade, economia verde são muito mais palatáveis a uma geração que já está acostumada a ouvir falar das mudanças climáticas, do aquecimento global, da necessidade de preservação do meio ambiente para as gerações futuras.

                 A questão que se coloca é como essas palavras mágicas traduziriam-se na prática no caso de um governo de Marina Silva.Pois se de um lado temos um eleitorado jovem que não quer mais saber dos políticos tradicionais que dão para receber, por outro há eleitores para quem belas palavras não são muito relevantes e precisam de algo tangível. O candidato ao governo do Rio, Anthony Garotinho, distribui enxoval a mulheres grávidas por meio da sua empresa Palavra da Paz. Uma eleitora entrevistada pelo jornal O Globo, Jaqueline Santos, de 29 anos, afirmou que “meu voto será e sempre foi dele, porque ele ajuda as pessoas.” Quem há dejogar a primeira pedra nesta mulher? Afinal, não foi Marx quem disse que a moral é apenas uma racionalização de interesses de classe?A mulher que vota em um político em troca de enxoval é tão interesseira quanto o fazendeiro de soja que vota em um candidato que promete defender o agronegócio ou no lavrador que recebe o Bolsa Família.

                Eu diria até que mesmo aqueles eleitores que prezam a sustentabilidade e todas essas coisas bonitas também têm seus próprios interesses mesquinhos. Sâo pessoas urbanas que querem que a Floresta Amazônica seja preservada para que eles possam viver tranquilamente nas cidades, abastecidos pela água das chuvas cujo regime depende tanto do que occore no Norte do Brasil. E é aí que está o perigo de Marina. Camuflar ou negligenciar divisões sociais é com certeza uma boa estratégia para arregimentar votos e ganhar a eleição, mas uma vez no poder, a líder em sustentabilidade, a divergente positiva terá que formular políticas públicas, eleger prioridades, desagradar alguns, negociar com as raposas que com certeza estarão no Congresso Nacional e que preferirão ir direto ao ponto, i.e. o que você tem para me dar e o que eu posso lhe oferecer em vez de perder tempo commasturbações intelectuais, como diria o finado Ministro das Comunicações de Fernando Henrique Cardoso, Sérgio Motta.

                 Prezados leitores,o melhor a fazer no momento é esperarmos que o programa de governo de Dona Marina Silva seja elaborado e explicitado para que possamos ter uma ideia mais clara do que será o poder exercido de maneira sustentável. Caso continuemos no escuro até as eleições e a divergente positiva seja eleita torçamos para que ela aprenda rápido a transformar belas e vagas ideias em resultados concretos para os brasileiros.

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Por quê?

O insucesso da experiência holandesa no Brasil é, em verdade, mais uma justificativa para a opinião, hoje corrente entre alguns antropologistas, de que os europeus do Norte são incompatíveis com as regiões tropicais.

Trecho de Raízes do Brasil de Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982)

Lembrem-se que o Brasil é um país sofisticado que vem exportando produtos como aeronaves para os Estados Unidos há muitos anos.  Eles têm um grande mercado interno e um setor agrícola fabuloso. Energia hídrica e muitos recursos. Grandes e modernas cidades. Não estamos falando de Lesoto ou Laos.

Trecho de um artigo sobre o Brasil intitulado “O Brasil no lado mais fraco de um placar de 7 a 1”de Scott Sumner, um economista americano com doutorado pela Universidade de Chicago

                   Prezados leitores, vendo hoje à tarde pela televisão o enterro de Eduardo Campos pude conhecer um pouco deste Recife histórico que foi a sede da Nova Holanda, a colônia no Brasil da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais de 1630 a 1654. Em seu livro Raízes do Brasil, Sérgio Buarque de Holanda dá alguns motivos para o fato de os holandeses terem fracassado no Brasil. O tipo de colono que veio aos trópicos não era lá da melhor qualidade, eram aventureiros que queriam fazer fortuna rápido, e não pessoas que queriam criar vínculos, pois havia poucos incentivos para abandonar a República Holandesa no século XVII, que ia muito bem após sua independência da Espanha. Outro motivo dado pelo ilustre historiador paulista era que o holandês teve uma dificuldade muito grande em adaptar-se ao clima tropical, às gentes que se encontravam aqui, ao passo que os portugueses sempre foram muito mais flexíveis. O “espírito de empreendimento metódico e coordenado” não rendeu frutos em um ambiente em que predominava a “moral das senzalas”, “contemporizadora e narcotizante”.

                   É sempre difícil refutar ou aceitar explicações totalizantes como as que Sérgio Buarque de Holanda tenta dar em seu livro para o porquê de o Brasil não ter dado certo como os Estados Unidos deu, em termos de produção de riqueza e qualidade de vida da população. Nosso termo de comparação é sempre os Estados Unidos, devido às semelhanças de tamanho de território, de localização geográfica e de origem histórica. Digo totalizante porque Sérgio Buarque não trabalha com estatísticas, números, mas antes de tudo com uma narrativa em termos gerais, isto é, sem entrar em muitos detalhes históricos específicos, a respeito do tipo de colonização feita no Brasil, predatória, imediatista, que teria dado origem a uma determinada conformação espiritual e cultural presente até hoje por estas plagas. Essa é a explicação a que normalmente temos acesso na escola quando estudamos nossa história, que pode ser resumida na dicotomia colônia de exploração versus colônia de povoamento.

                    Tal tipo de porquê tem suas limitações, porque dificulta a descoberta de novos caminhos. Afinal, se tudo é uma questão de mentalidade que se formou então caímos no fatalismo de achar que só mudando a cabeça das pessoas, é que conseguiremso fazer com que as coisas avancem. E como mudar a cabeça dos brasileiros? Fazer uma reprogramação neurolinguística, algo que estava na moda há alguns anos? Sob esse ponto de vista, atermo-nos aos números do Brasil talvez seja mais profícuo porque pode nos mostrar caminhos concretos para a solução dos problemas. É o que faz o economista americanoScott Sumner que compara o Brasil não só aos Estados Unidos mas à China, e mostra como perdemos de goleada, afamigerada goleada do Mineirão, em vários quesitos.

                    Em termos de PIB, o Brasil cresceu em média 1,5% ao ano nos últimos três anos, ao passo que a China cresceu 7,5%.O PIB per capita do Brasil é de 12.200 dólares em termos de paridade de poder de compra, ao passo que nos Estados Unidos, este número fica em 53.100 dólares. Os gastos governamentais no Brasil respondem por 39% do PIB, o que é muito mais do que ocorre nos outros países latino-americanos, mas Scott Sumner aponta que gastamos mal, preferindo investir em aposentadorias do que na infraestrutura, ao passo que a China, nosso concorrente entre os emergentes, constrói estradas, portos, ferrovias e usinas hidrelétricasde maneira rápida e a um baixo custo.O autor também aponta que nos últimos anos o Brasil apostou na diminuição da desigualdade como único motor do crescimento econômico, mas chega à conclusão de que diante dos nosso números pífios de crescimento essa nova receita, proposta principalmente por economistas de esquerda, não rendeu lá muitos dividendos.

                          Diante desses números, Scott Sumner afirma categoricamente que o Brasil é e será eternamente o país do futuro, e que sua celebração como parte dos emergentes não tem sustentação na realidade. Por outro lado, ao contrário do nosso Sérgio Buarque de Holanda, o economista americano confessa não saber o porquê de sermos um fracasso relativamente a países de igual potencial em termos de recursos e geografia, apesar dos pontos positivos citados no início deste artigo.De qualquer forma, esses dados mostrados por ele apontam mais ou menos algumas das coisas nas quais devemos focar: fazer com queo Estado invista mais e melhor em bens públicos, isto é naquilo que vai beneficiar todos os brasileiros e não apenas certos grupos de interesse, tornar o gasto público mais eficiente, isto é, gerador de riqueza e não criador de dificuldades para os agentes econômicos.

                     Como fazer isso na prática? Por onde começar? Educar as pessoas para mudar a maneira de pensar, de votar, de agir? E como escolher as pessoas certas para começar o trabalho certode mudança das mentalidades por meio da educação se os eleitores continuam “mal educados”?Se ao menos pudéssemos encontrar a causa primeira dos nossos problemas e pudéssemos eliminá-la! A angústia é a mesma que nós brasileiros experimentamos diante do acidente que matou o candidato a presidente nascido na ex Nova Holanda. Terá sido falha mecânica? Falha do piloto? Pressão de Eduardo Campos sobre o comandante da aeronavepara voar de qualquer jeito? Mais uma peça pregada pelas brumas do litoral de São Paulo e do Rio de Janeiro, que já mataram outros políticos como Ulisses Guimarães, Severo Gomes e celebridades fugazes, como a namorada do herdeiro João Paulo Diniz (lembram-se deste caso?)?

                      Prezados leitores, como o brasileiro Artur Avila, um dos quatro ganhadores do Prêmio Fields de matemáticabem sabe, o buraco émais embaixo. Artur consagrou-se mundialmente tentando enquadrar em fórmulas numéricas os sistemas dinâmicos, que se caracterizam por sua imprevisibilidade. Talvez a melhor solução seja nos conformarmos que há uma série de variáveis que devem ser levadas em conta e que para conseguirmos montar uma equação que gere um resultado devemos pensar os desafios do Brasil como um combate em várias frentes. Adaptação ao clima tropical, mudança da mentalidade, ajustes na política econômica e por aí vai…Easier said than donecomo se diz em inglês. Minha perplexidade de brasileira frente aos nossos problemas é a mesma do economista americano. O consolo é que começar a fazer perguntas já éum início de solução. Ou não?

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Maus Selvagens

Nós consideramos ao contrário que o poder político é universal, imanente ao social (quer o social seja determinado pelos “laços de sangue” ou pelas classes sociais), mas que ele se realiza de dois modos principais: poder coercitivo, poder não coercitivo.

Trecho retirado do ensaio “Copérnico e os Selvagens” do livro A Sociedade contra o Estado do antropólogo francêsPierre Clastres (1934-1977)

 

                Prezados leitores, há alguns dias li na Revista Piauí um perfil do antropólogo carioca Eduardo Viveiros de Castro, que está fazendo sucesso no meio acadêmico mundial com seus estudos sobre a metafísica peculiar dos índios sul-americanos, para os quais o que é universal é a cultura e o que muda, o que é construído, é a natureza, uma visão diametralmente oposta à ocidental. Viveiros tem como um dos seus mentores intelectuais Pierre Clastres, que estudou o modo de exercício do poder nas sociedades indígenas, caracterizado por ele como do tipo não coercitivo. O chefe de uma tribo deve ter três qualidades principais: deve ser um fazedor de paz, isto é ser a “instância moderadora do grupo”, procurando manter a paz e a harmonia, e “mais do que um juiz que sanciona ele é um árbitro que tenta reconciliar”; deve ser generoso com seus bens e deve ser um bom orador.

                  Devo dizer que minha atitude em relação à antropologia é ambígua. Fiz um curso há alguns anos na faculdade, daí eu ter lido o livro de Pierre Clastres, e àquela época entusiasmei-me bastante, principalmente porque o professor mesmo era apaixonado pela disciplina. Normalmente pessoas de esquerda identificam-se com os estudos sobre outras culturas não ocidentais, porque é uma maneira de criticar a sociedade capitalista, apresentar uma alternativa de vida ao nosso modus operandi. É inegável que a antropologia tem essa qualidade de permitir-nos ter uma sensação de estranhamento e perceber que nosso comportamento não é natural.Deixem-me dar-lhes um exemplo de tal atitude.

                  Em um desses encontros fortuitos na copa, uma colega de trabalho confessou-me que tinha viajado para o Primeiro Mundo. Digo confessar porque esses fatos não podem ser divulgados abertamente no ambiente corporativo, em que a luta de classes ocorre na surdina. Como sou da turma que “viaja ao Primeiro Mundo” minha colega não teve vergonha de dar-me detalhes da sua estadia nos Estados Unidos, em Orlando, pois eu não sentiria rancor por nunca ter feito uma viagem internacional. O objetivo oficial era que a filha única conhecesse os parquesaquáticos, o objetivo velado era fazer compras, aproveitar o maravilhoso mundo dos outlets, dos shopping malls, em que tudo é até três vezes mais barato do que em nosso paraíso tropical que leva nas costas o tal do custo Brasil.

               A orgia consumista resultou em quatro malas cheias de roupas, cremes, sapatos e o alívio existencial de saber que a gastança na verdade é uma economia, porque a família de minha colega teve a oportunidade de comprar coisas que no Brasil não estariam acessíveis ao seu bolso. Claro que felicitei-a por ter tido tal oportunidade de fazer da viagem algo proveitoso do ponto de vista econômico, mas não pude deixar de admirar-me e dizer a mim mesma: Meu Deus, a pessoa passa dez dias em um país estrangeiro, e em vez de apreciar a paisagem, tentar conhecer a culinária local, a cultura local, visitar algum museu, instruir-se valendo-se dos recursos de que dispõem um país de Primeiro Mundo, ela se enfurna em lojas para comprar obsessivamente. Um creme de cabelo estava sete dólares em Miami Beach e três dólares em Orlando(ou vice-versa, não lembro mais). Minha colega com raiva de ter pago mais caro comprou dois no local mais barato, para compensar. Provavelmente vai ter creme de cabelo pelos próximos dez anos, se é que não vai ter que jogá-lo fora quando expirar o prazo de validade.

                     Como não apreciar o papel dos estudos sobre as chamadas economias de subsistência dos indígenas para despertar nossa consciência sobre o problema da sustentabilidade ambiental em uma sociedade baseada no consumo desenfreado como é a nossa? Nós ocidentais falamos muito da tal da preocupação com o meio ambiente, mas na prática o único efeito disso em nossa economia capitalista é ter criado um novo nicho de mercado de produtos orgânicos, recicláveis, biodegradáveis, probióticos e seja lá o que for que apenas mudou o tipo de consumo e não sua quantidade.Ou seja, a roda da fortuna continua a girar…

                   Por outro lado, não consigo deixar de ver na antropologia uma certa inutilidade. Se ela nos alerta sobre o quão o modo de ser capitalista é uma entre outras possibilidades, por outro lado, o conhecimento sobre o modo de organização de sociedades indígenas serve pouco para melhorarmos nosso modo de vida. Saber que há um tipo de poder não coercitivo, baseado no consenso, no diálogo, na capacidade de conciliar os opostos não tem como influenciar nossas capacidade de resolver os problemas concretos que se colocam na cena mundial. O conflito entre israelenses e palestinos é um exemplo dessa impotência.Por mais que haja uma certa indignação mundial com a desproporcional matança de civis na Faixa de Gaza, o fato é que Israel aos poucos vai atingindo seu objetivo de minar a resistência palestina à conquista do território, valendo-se dos métodos que são tidos e sabidos na realpolitik há milênios, desde que Tucídies escreveu seu A Guerra do Peloponeso: uso da força, capacidade de mobilização de aliados poderosos, aniquilação física e moral.

                De fato,de 1949 a 2014 o país recebeu US$ 121 bilhões de dólares de ajuda do governo dos Estados Unidos, que o provê de armamentos para tornar Israel o principal poder militar do Oriente Médio. O lobby da AIPAC, o Comitê de Assuntos Públicos EUA-Israel, foi bem-sucedido desde sua fundação, há 51 anos, em identificar a causa nacional palestina com o terrorismo.Em um cenário desses, em que os palestinos vão sendo mortos ou incapacitados fisicamente, qual o sentido de falarmos em um modo alternativo de exercício do poder? Não é ingenuidade falarmos de diálogo, conciliação quando a capacidade militar e de convencimento dos formadores de opinião mundiais rendem frutos? Israel só se veria obrigado a mudar seu comportamento se houvesse uma mobilização internacional em termos de boicote a produtos israelenses ou outra medida que afetasse a economia do país. Ou seja, a força deve ser enfrentada com uma força oposta de igual intensidade. A lição dos antropólogos nesse caso é contraproducente, poisquanto mais esperamos pela boa vontade do governo israelense, por sua tomada de consciência de que fazer a paz é o melhor caminho, maisseus objetivos de longo prazo, i.e. garantir todos os territórios disputados para si por meio da ocupação, serão mais bem concretizados.

                    Em suma, a antropologia pode ser uma fonte de inspiração para vislumbramos um mundo em que os principais problemas da civilização ocidental, entre eles o colapso ambiental, possam ser resolvidos, mas ela não deve fazer-nos perder de vista que as complexidades das sociedadesorganizadas à maneira ocidental requerem muitas vezes soluções que só podem ser encontradas se olharmo-nos no espelho sem sonharmos ingenuamente com mundos paralelos de duvidosa concretização.

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Que Medo!

Na semana passada, a Guarda Civil da Espanha prendeu 21 usuários demídias sociais sob a alegação de estarem glorificando o terrorismo no Twitter e no Facebook. Quinze deles foram detidos nas regiões do Norte da Espanha de Navarra e do País Basco, uma área que sempre alimentou aspirações separatistas. Dois deles eram menores de idade. Caso sejam condenados, os usuários do Tweeteer e do Facebook podem pegar até dois anos de prisão.

Notícia retirada do site da Al Jazeera em inglês

Qualquer coisa que se mova na área, mesmo que seja uma criança de três anos, deve ser morta.

Justificativa dada por um comandantes israelense para a morte à queima roupa com 17 tirosde uma menina de 10 anos, Imana al-Hams,que entrou em uma área de segurança. Notícia tirade do site do jornal inglês The Guardian.

É isso que é a prisão: um clarão de luz que cega e uma cacetada que imediatamente coloca o presente no passado e transforma o impossível em uma realidade onipotente.

Trecho do livro “O Arquipélago Gulag” de Aleksandr Solzhenitsyn (1918-2008), escritor russo Prêmio Nobel de Literatura de 1970

                        Prezados leitores, finalmente iniciei a leitura de um livro que estava há tempos na minha lista, O Arquipélago Gulag, um testemunho da experiência do autor nos campos de concentração stalinistas. É uma leitura difícil, porque nos mostra o quão baixo o ser humano pode descer em termos de crueldade, ignorância, covardia e principalmente injustiça. Digo isso porque a injustiça flagrante é algo que penetra fundona alma de qualquer um e faz com que na sociedade predomine a desconfiança, a corrupção, o cinismo. Não admira que atualmente a Rússia, depois de 70 anos sob o regime bolchevique, seja hoje caracterizada pela onipresença das máfias, a taxa de crescimento populacional eja negativa (-0.03 estimada para 2014) e que a expectativa de vida dos homens seja tão baixa, de 64 anos. Demorará muito para que o vácuo moral deixado pelo comunismo seja remediado. Afinal, o regime exigiu sacrifícios enormes da população em termos de vidas perdidas para nada, a não ser auto-perpetuar-se até morrer de esclerose múltipla em 1991.

                Solzhenitsyn descreve como as prisões eram arbitrárias, condicionadas muito mais pela necessidade dos órgãos de segurança de cumprir quotas do que por uma ameaça real. O objetivo era muito mais causar medo à população pelo caráter errático das acusações e assim minar qualquer atividade contrarevolucionária. De qualquer forma, o importante era cortar o mal pela raiz e evitar qualquer possibilidade de resistência de grupos que pudessem não concordar com o comunismo bolchevique.Daí a prisão dos kulaks, os camponeses prósperos que foram os maiores afetados pela coletivização forçada da agricultura e pelo confisco de produtos para o bem do socialismo, das pessoas que teimavam em ter fé religiosa, da classe média de profissionais que compunham a burguesia, mesmo de oficiais do Exército Vermeho cujos valorosos serviços prestados ao país na guerra contra a Alemanha não os imunizaram contra a detenção, caso do autor. Algo que deixou-me particularmente indignada foi o tratamento diferenciado que era dado aos diferentes tipos de mulheres presas nas ondas dos expurgos stalinistas da década de 30. As prostitutas, criminosas comuns, tinham status privilegiado. Conseguiam continuar trabalhando, servindo os chefes dos campos e ainda depois de cumprir a sentença voltavam para casa cheias de bens. As mulheres que tinham sido presas por suas convicções religiosas, ao contrário, eram consideradas perigosas ameaças ao sistema e por isso quando saíam da prisão não tinham direito de voltar aos seus locais de origem, para não continuar suas atividades “subversivas”. Essa diferença entre os criminosos comuns e os políticos é retratada no filme Caminho da Liberdade, de Peter Weir, em que o personagem Valka, vivido por Colin Farrell, era um ladrão, assassino e tinha Stalin tatuado no peito, por admirar o fato de ele “tirar dos ricos para dar para os pobres”. Após fugir do Gulag para não ser morto por ter dívidas na prisão, ela acaba voltando porque não saberia viver como um homem livre, considerando a prisão um local melhor.

                       Ao mostrar as entranhas do comunismo, o Arquipélao Gulag ajudou a derrubar um império, como disse a escritora Doris Lessing, pois desmascaroua fachada igualitária do comunismo. A única igualdade que havia era a submissão de todos ao regime, que deveria ser preservado a qualquer custo, especialmente ao custo de milhões de pessoas talentosas, inocentes, que nunca haviam feito mal a ninguém, que haviam contribuído a seu modo à sociedade, mas que foram moídas na máquina totalitária,tachadas de contrarevolucionários a serviço da burguesia.

                Prezados leitores, a tragédia de nós homo sapiens, é que se individualmente conseguimos aprender com nossos erros, coletivamente acabamos sempre repetindo-os, o que nós faz vulneráveis às tiranias. Parece estar se desenhando no mundo um regime com alcance global que tem seus próprios inimigos, os tais dos terroristas. Estes podem ser espanhóis insatisfeitos com a crise econômica que acomete o país e que procuram uma solução no separatismo, podem ser palestinos que defendem o direito de permanecer na Faixa de Gaza e lá construir um Estado Soberano, podem ser muçulmanos egípcios descontentes com seu governo corrupto. Todos são colocados no mesmo balaio e a palavra terrorista serve para dar uma fachada de respeitabilidade a tudo que se faz para a manutenção dos poderosos em suas respectivas posições de privilégio. Chamar os palestinos de terroristas é conveniente a Israel, que já matou 1.752 pessoas neste mais recente conflito, e que claramente parece querer reduzir a população dos inimigos e confiná-los em guetos como ocorria nos bantustões da África do Sul.Há inclusive um deputado do Knesset (Parlamento de Israel), Moshe Fleigin, que enviou uma carta ao primeiro-ministro Benjamin Netanyahu defendendo abertamente o extermínio dos inimigos islâmicos e o envio dos restantes a um acampamento a ser construído na Península do Sinai.Prender pessoas que defendem a separação de certas regiões da Espanha é conveniente ao governo espanhol, o qual ao chamar os críticos do regime de terroristas escamoteia sua própria incompetência causadora de uma situação tão ruim que faz as pessoas pensarem em separar-se.

                   A esta altura devo confessar uma coisa: tenho muito medo de um dia ser considerada terrorista. É verdade que tomo minhas precauções e não tenho conta no Twitter e nem no Facebook para não dar bandeira, mas num mundo em que a espionagem norte-americana é onipresente, nunguém está a salvo. Meu único alívio é saber que sou lida por pouquíssimas pessoas e que escrevo em uma língua que tem pouca relevânciano mundo virtual, onde predomina o inglês. De qualquer forma, se algum dia eu ficar algumas semanas sem publicar nada neste meu humilde espaço, sem qualquer explicação, podem ter certeza que estarei em algum novo Gulag, que com certeza terá um outro nome, mas que terá a mesma natureza que o outro, pois contrarevolucionários e terroristas são todos os que ameçam de alguma forma aqueles que estão no poder. Torçam por mim!

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