Argentina: salva pelo gongo?

A dívida pública, que de início era uma segurança para os governos, por fazer com que muitas pessoas se interessassem pela tranquilidade pública, caso seja excessiva tende a tornar-se um instrumento de subversão. Se os governos pagam essa dívida por meio de pesados encargos, eles perecem por tornarem-se odiosos à população. Caso não paguem, os governos serão destruídos pelos esforços do mais perigoso de todos os partidos; quero referir-me a um amplo e descontente interesse financeiro, prejudicado mas não dizimado. Os homens que constituem esse interesse buscam sua segurança, em primeiro lugar por meio da fidelidade do governo, em segundo lugar pelo poder desse governo. Caso considerem velhos regimes decadentes, depauperados e com sua energia vital enfraquecida, de maneira que não tenham o vigor suficiente para seus propósitos, eles podem vir a procurar novos governos que tenham mais energia; e essa energia será derivada não da aquisição de recursos, mas de um descaso pela justiça.

Edmund Burke (1729-1797) em “Reflexões sobre a Revolução na França”

              Prezados leitores, em um artigo anterior eu já citei o filósofo nascido em Dublin que foi um profundo crítico da Revolução Francesa. Faço-o pela segunda vez, e de maneira mais extensa, porque um grande pensador nunca fica desatualizado e sempre lança luz sobre fatos presentes, passados e futuros para quem quiser e souber adaptá-lo. Ao ler Burke não me canso de traçar paralelos entre a situação que ele descreve, especificamente as medidas tomadas pela Assembleia Nacional da França no início da Revolução naquele país no fim do século XVIII, e nossas atribulações do século XXI.

                 Entre as várias críticas que Burke faz aos revolucionários, a mais apaixonada é aquela contra o confisco dos bens da Igreja e da nobreza. Como bom conservador, ele considera que o atentado à propriedade é um atentado à liberdade e à justiça, e a justiça deve ser sempre a prioridade número um de qualquer governo civil que seja digno do nome. Burke vê no confisco uma medida tomada como resultado de uma aliança espúria entre o setor financeiro, interessado em tornar os bens confiscados lastro para a emissão de títulos públicos que permitisse ganhos especulativos, ea população em geral, sedenta de vingança contra seus opressores seculares.

              Tal aliança é possibilitada pelos iluministas ateus que denunciavam os abusos do clero e da nobreza e é mal vista por Burke, porque leva a medidas injustas, isto é, a uma violência a direitos de propriedade garantidos até então por leis há muito estabelecidas a que todos os cidadãos estavam acostumados e que ditavam seu comportamento.O confisco da propriedade de uma hora para outra, tornando o que era perfeitamente legal em algo revoltante, é para Burke uma violência que só pode levar à substituição de uma tirania por outra. Em suma, o pensador político irlandês é um ferrenho defensor do que hoje denominaríamos como segurança jurídica e que ele chamava de justiça imparcial, aplicável a todos os cidadãos indistintamente, sem que um determinado grupo seja feito bode expiatório de culpas passadas, presentes e futuras de membros individuais.

                Pois bem, tais palavras fizeram-me refletir sobre o drama que a Argentina vive neste momento. Na segunda-feira dia 16 de junho a Suprema Corte dos Estados Unidos confirmou a decisão do juiz Thomas Griesa de Nova York que decidiu que a Argentina deve pagar integralmenteUS$ 1,5 bilhões de dólares devidos aos fundos abutres. Este nome nada lisonjeiro deve-se ao fato de a especialidade desses fundos é a de comprar a preço de banana papéis de empresas e governos à beira do colapsoe de tentar cobrar o dinheiro judicialmente. É umnegócio de risco que aposta em uma decisão favorável em jurisidição que protege o interesse dos credores. Foi o que aconteceu nesse caso, um juiz americanodando ganho de causa a donos de títulos da dívida do governo argentino que se recusaram a entrar em negociação e aceitar receber menos, como outros fizeram.

                Há várias faces dessa tragédia para a Argentina. Em primeiro lugar, o país teria que pagar US$ 900 milhões de dólares até dia 30 de junho para os credores que aceitaram a renegociação, mas se o fizer em Nova York correrá o risco de ter esse dinheiro embargado para garantir o pagamento dos US$ 1,5 bilhão e portanto entrar em moratória por não honrar os compromisso assumidos desde 2001, quando de sua moratória. Em segundo lugar, se a Argentina decidir pagar integralmente os credores que foram à justiça corre o risco de abrir uma caixa de Pandora, porque de acordo com a cláusula RUFO (sigla em inglês para Rights Upon Future Offers), válida até o final deste ano, teria que estenderas condições oferecidas aos credores reclamões aos credores que haviam aceito as condições menos vantajosas oferecidas anteriormente pelo país. Em terceiro lugar,qualquer que seja a decisão do governo argentino, negociar com os credores que foram à justiça, atendê-los totalmente ou ignorá-los totalmente, o fato é que a Argentina corre o risco de se tornar um pária nos mercados internacionais e ter cada vez mais dificuldades de captar dinheiro, algo fundamental para nós latino-americanos, que não nos destacamos por sermos grandes poupadores.

                A lição desse lamentável episódio é que vivemos em um admirável (ou abominável) mundo em que o destino de uma nação de 43 milhões de habitantes é decidido por um juiz de direito privado preocupado exclusivamente com a execução de contratos. O fato é que o governo argentino, à semelhança do nosso, não prima por altos padrões de eficiência, e deixou que as finanças públicas ficassem descontroladas. Na prática, considerando as restrições cada vez maiores que o direito internacional coloca ao calote soberano dos países, as consequências das más decisões dos administradores públicos serão suportadas pelo povo em geral, em termos de recessão e desemprego. É o que já acontece com a Grécia, obrigada pelos seus compromissos com a União Europeia e pelo Fundo Monetário Internacionala impor medidas draconianas de contenção de gastos públicos, para que a dívida fosse paga. De maneira análoga, para que o lucro dos fundos de investimento seja garantido, o cinto dos argentinos terá que ser apertado ainda mais.

                Prezados leitores, Lionel Messi salvou a Argentina no jogo contra o Irã com um gol tirado do fundo da cartola do craque. É verdade que brasileiros e argentinos são rivais no futebol, é verdade que os argentinos que invadiram o Rio de Janeiro não estejam gastando os reais que fariam com que a Copa nos desse lucro, como prometeu Dona Dilma, afinalnem em hotel eles se hospedam, dormindo em ônibus e peruas. A despeito de tudo isso, precisamos torcer para que a Argentina ache uma solução de última hora e seja salva pelo gongo aos 45 minutos do segundo tempo, pois os destinos de brasileiros e hermanos estão intimamenteligados: somos o principal parceiro comercial da Argentina, que destina 20% das suas exportações a nós, e a Argentina é o nosso terceiro principal parceiro, a quem destinamos 7,5% de nossas exportações.Em suma, que a Argentina ache seu Lionel Messi no campo econômico e político como achou no campo futebolístico!

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Advogada do diabo

Hoje está igual ao fim do segundo mandato do Lula, o estilo é esse. Passa quatro dias da semana viajando. Só aqui em Porto Alegre ela já anunciou as obras da segunda ponte do Guaíba, que nunca começam, três vezes.

Senador Pedro Simon, do Rio Grande do Sul, que acaba de anunciar sua aposentadoria, em entrevista ao jornal O Globo de 15 de junho

Você viu que não tinha ninguém com a cara de pobre, a não ser você, Dilma. Não tinha nenhum pelo menos moreninho. Era a parte bonita da sociedade, que comeu a vida inteira e chegou ao estádio para mostrar que educação a gente aprende em casa, vem de berço. Eu duvido que um trabalhador desse país, que uma mulher ou que um homem tivesse coragem de falar 1% dos palavrões que eles destilaram, de uma cretinice fomentada por uma parte da imprensa brasileira.

Lula durante um encontro do PT em Pernambuco no dia 13 de junho

                Prezados leitores, hoje tratarei de um assunto óbvio, a Copa do Mundo, e dentre os vários temas possíveis, de um subtema mais óbvio ainda, as vaias e xingamentos infligidos á presidente Dilma Rousseff no jogo de estreia do Brasil na Copa. Digo óbvio porque muito se falou a respeito desse tema, e serei eu mais uma a dar minha opinião.O tom geral foi de indignação pela falta de educação, de cavalheirismo em face de uma mulher; pela falta de respeito em relação à figura da chefe da Nação; pela inconsistência da burguesia paulista que nunca vaiou Maluf, um homem quenão pode sair do Brasil, porque será preso; pela defesa de interesses mesquinhos dos privilegiados que estão descontentes com as políticas públicas do PT no poder em favor dos mais desfavorecidos; pela falta demotivo plausível para protesto, afinal as pessoas que tinham dinheiro para comprar ingresso padrão FIFA não sofriam com as mazelas dos serviços públicos de saúde e educação.

                Enfim, as vaias e os xingamentos são descabidos porque vindos de um grupo de brasileiros mimados, ricos e como todo rico e mimado, mal-educado. Lula, como sempre um mestre na manipulação das tensões sociais do Brasil em proveito próprio, lançou mão do seu velho truque de comparar os pobres virtuosos, que jamais cometeriam a deselegância de mandar a presidente tomar no ##, com os ricos cheios de vícios. Ao mesmo tempo, como a época é de eleições e votos sempre são bem-vindos, espertamente ele colocou a culpa pela animosidade na imprensa. Eu poderia acrescentar que os mauricinhos e patricinhas que estavam no estádio não teriam xingado Dilma da maneira desabrida com que fizeram se estivesse cara a cara com ela. Cada um deles sentiu-se encorajado ante a proteção da multidão que entoava o coro em uníssono. É um comportamento que replica aquele que se torna muito comum na internet, o de criação de perfis falsos para que a pessoa possa dar vazão a suas raivas e ressentimentos lançando vitupérios a torto e a direito, protegida pela certeza da impunidade, da falta de consequências negativas de seus ataques.

             Se de um lado não há como negar a deselegância e a covardia do ato, permitam-me desempenhar o papel de advogada do diabo, lançando-lhes umapergunta: Quem estava na Arena Corinthians na tarde de 12 de junho de 2014 sendo vaiada? A Presidente daRepública Federativa do Brasil, Dilma Rousseff, representante do país que está sediando a Copado Mundo, ou a candidata do PT à reeleição? A resposta pode parecer óbvia, mas a mim não parece, considerando que a campanha está nas ruas, e como afirmou Pedro Simon, a chefe do governo dedica uma considerável parte do seu tempo ao esforço de reeleger-se. E pior, muitas medidas tomadas pelo Executivo federal são concebidas com vistas às eleições, haja vista a criação de despesas, renúncias de receita e emissões de dívida, que somaram só em 2014 R$27,9 bilhões, de acordo com o jornal o Estado de São Paulo.É um fato da nossa política que a busca por um novo mandato afeta todas as decisões do governo no anodo escrutínio eleitoral, e não é nenhum exagero dizer que no Brasil infelizmente este “modo reeleição”, especialmente com relação ao cargo de Presidente, tem se antecipado cada vez mais, de tal modo que já no início do terceiro ano de mandato o governante já começa a preocupar-se com as alianças políticas, a escolher ministros com base no toma lá dá cá necessário para angariar apoios.

                Para não me acusarem de ser uma anti-petista enrustida, os tucanos agem da mesma forma. Um exemplo gritantes dessa arte de governar no “modo reeleição” tem sido dado pelo governador Geraldo Alckmin com relação ao gerenciamento da estiagem prolongada em São Paulo. Não sabemos se podemos acreditar naspalavras oficiais, segundo as quais o racionamento tem sido evitado devido às medidas tomadas, entre elas a transferência de água de um sistema para o outro, no caso do Alto Tietê e Guarapiranga para o Cantareira, a utilização do volume morto do Cantareira e do incentivo econômicoà economia de água.Fica a suspeitade que todas essas explicações na verdade são uma cortina de fumaça, ou na melhor das hipóteses um remendo que permitirá à SABESP, a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo, garantir o abastecimento de água aos trancos e barrancos até que a eleição do mandatário atual ocorra de maneira segura. Depois de outubro, só São Pedro sabe o que poderá acontecer em São Paulo.E os tucanos ficam ainda mais sujos nessa história quando lembramos que foi Fernando Henrique Cardoso quem moveu céus, terras e dinheiro para aprovar a emenda da reeleição.

                Prezados leitores, o ponto a que quero chegar é simples. Nossos membros dos cargos máximos do Executivo, prefeitos, governadores e presidente, ao dedicarem a maior parte de seus esforços à maratona da reeleição, perdem a compostura, e acabam confundindo o interesse público com o interesse de permanecer no cargo, subordinando o primeiro ao segundo. E quem não se dá ao respeito não merece respeito. Talvez essa confusão seja inerente à democracia, e teremos sempre que conviver com o fato desagradável que o político só satisfaz o interesse dos seus eleitores quando aquilo pode beneficiá-lo, seja permitindo sua reeeleição, seja permitindo a eleição de um seu colega de partido ou aliado. Nesse sentido, toda a eleição, seja ela para permitir a permanência do mandatário atual no cargo ou não, é um convite à manipulação, à troca de favores entre o político e sua base eleitoral, o que nem sempre leva à realização de escolhas sensatas para o país a longo prazo.De qualquer forma, essa visão de curto prazo poderia ser ao menos mitigada no Brasil se acabássemos com o instituto da reeleição e alongássemos o mandato do presidente para seis anos como era antigamente, ou para cinco anos no caso de governadores e prefeitos.

                A burguesia mal-educada presente no Itaquerão estava exercitando seu direito de repudiar um candidato, de mostrar seu descontentamento com um gerenciamento medíocre dos preparativos da Copa que fizeram com que a luz do estádio apagasse durante algum tempo, que não houvesse internet sem fio ao redor do estádio, e que os europeus não tenham visto a estapafúrdia cerimônia de abertura por causa de falha de comunicação. Dirigia-se à candidata Dilma, que já está em plena campanha desde ao menos o início de 2014. É verdade que além da candidata estava lá presente a presidente da República, democratica e legalmente eleita, que merece toda consideração do povo brasileiro. Mas nessa nossa democracia da reeleição fica cada vez mais difícil distinguir um do outro.

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Sindicato de ladrões

O que tinha para ser roubado já foi.

Joana Havelange diretora do Comitê Organziador Local da Copa do Mundo

A Comissão Europeia publicou seu primeiro relatório oficial sobre a corrupção na União, cuja extensão o comissário autor do documento descreveu como de tirar o fôlego: em uma estimativa conservadora, a corrupção custa à União Europeia tanto quanto todo o orçamento da organização, algo em torno de 120 bilhões de euros – o número real sendo “provavelmente muito maior”.

Perry Anderson, historiador e professor na Universidade da Califórnia, no artigo “O Desastre Italiano”, publicado no London Review of Books em 22 de maio de 2014

                Prezados leitores, a corrupção é um tema caro a nós brasileiros. Vira e mexe ela aparece como fator de grande influência política. Para quem se lembra, Fernando Collor de Mello foi eleito para presidente pegando carona na luta contra os marajás de Alagoas. A onda de protestos que ocorreu no Brasil no ano passado teve como mote a falta de transparência nos gastos para a Copa, o fato de que os estádios custaram muito mais do que o previsto, de que a Copa do Brasil será em termos de dinheiro despendido, equivalente à Copa da Alemanha e da África do Sul juntas. Por outro lado, apesar de o povo se indignar com a corrupção, no frigir dos ovos muitos de nós acabam relevando-a quando pensam que todos roubam, portanto no momento de escolher um candidato é melhor levar em conta outros fatores.

                   De fato, o PT tem o José Dirceu e o mensalão, o PSDB tem Eduardo Azeredo e o mensalão mineiro. O PT tem o escândalo dacompra da Refinaria de Pasadena em seu passivo, o PSDB tem o escândalo da Alstom em São Paulo, governado há décadas pelos tucanos, e portanto de sua inteira responsabilidade. Lula e Dilma eximiram-se de culpa nos dois grandes casos de “maracutaias”. O candidato do PSDB, Aécio Neves, por seu turno, em uma entrevista a uma jornalista da Revista Piauí, que o abordou a respeito da ação penal que estava no STF contra Azeredo, limitou-se a dizer que o ex-deputado mineiro é um “homem de bem” e estava “abatido”, mudando logo de assunto. Isso quando Eduardo Azeredo renunciou ao mandato para levar o processo à primeira instância e adiar o julgamento ainda mais, contribuindo assim para uma prescrição antes mesmo que haja sentenção condenatória,uma atitude sem dúvida velhaca, não condizente com alguém que não teme ser submetido ao escrutínio judicial.

                    Em suma, no Brasil parece que há um sindicato de ladrões, e lamentamos o quanto isso corrói nossa democracia, o quanto isso contribui para a falta de entusiasmo da população em votar, o desleixo com que o fazemos especialmente nas eleições para o Legislativo. Nas próximas eleições presidenciais Marina Silva tem chances de desempenhar o papel de personagem impoluta em quem serão depositadas as esperanças, cada vez mais tênues, de moralidade. Mas, será que também em um eventual governo de Eduardo Campos-Marina Silva, quando os dois realmente colocarem a mão na massa, tiverem que conseguir apoios para aprovação de projetos, tiverem que preencher cargos commissionados, em suma virem-se às voltas com o cotidiano de governar, não farão a mesma coisa que petistas e tucanos fazem há muito tempo?Será que a corrupção não é parte intrínseca do sistema?

                    Essa ideia parece ser plausível quando nos deparamos com o fato de haver grande corrupção em países com instituições muito mais fortes do que as nossas e com um povo que vota facultativamente, e portanto, teoricamente ao menos, com mais consciência. De acordo com o artigo de Perry Anderson citado acima,nenhum país membro da União Europeia escapa incólume do câncer dos “jabaculês”, das “caixinhas”. Um exemplo significativo disso é a Espanha, cujo rei Juan Carlos acaba de abdicar em favor do filho Felipe. Não é simplesmente para dar oportunidade aos mais jovens, como disse o monarca na segunda-feira, dia 2 de junho, e nem por estar alquebrado, depois de cinco operações no quadril, que está passando o bastão.

                    O fato é que o Estado espanhol passa por uma séria crise de credibilidade, pois o país está em crise e o povo percebe que suas elites vivem muito bem. Mariano Rajoy, o primeiro-ministro foi pego com a boca na botija, no caso recebendo nos últimos 10 anos 250 milhões de euros a título de propina para assinatura de contratos de construção. Tal dinheiro foi-lhe repassado por seu tesoureiro Luís Bárcenas, que está sendo processado por ter 48 milhõesde euros em contas não declaradas na Suíça. No seu caderninho de beneficiários, encontra-se outro notável do Partido Popular, o ex-diretor do FMI, Rodrigo Rato. Enquanto isso, em 2013 o índice de desemprego na Espanha atingiu 26,3%, e a Catalunha, a região mais próspera do país, planeja realizar um referendo sobre a separação em novembro que é considerado ilegal pelo governo central. Seja a monarquia, seja o prório Estado unitário, algo será sacrificado na Espanha para satisfazer a sanha do povo por mudanças, afinal em manifestações os espanhóis não se cansam de repetir “que se vayan todos”, incorformados com a desfaçatez dos poderosos.

                    Esta aí um velho novo desafio para as democracias ocidentais, como continuar representando uma população que se vê cada vez mais alienada do sindicato de ladrões. Não deixa de surpreender que ainda nos vejamos às voltas com tais tipos de problemas, afinal teoricamente a independência dos poderes, a existência do devido processo legal, a eleição direta de representantes deveriam ter sido suficientes para que não houvesse mais abusos como havia na época em que os poderosos nem legalmente prestavam contas dos seus atos. Em 31 de outubro de 1517 o monge agostiniano Martinho Lutero publicou suas 95 teses condenando a corrupção na Igreja, cuja manifestação mais gritante era a venda de indulgências. O resultado desse ato de rebeldia foi o cisma no cristianismo ocidental, que no longo prazo selou a decadência da Igreja como formadora da cabeça das pessoas.Mais de dois séculos depois, em 14 de julho de 1789, eclodiu a Revolução Francesa como uma luta pela igualdade jurídica entre os homens contra os privilégios da nobreza e do clero.Com isso, tanto a Igreja quanto o Estado, onipresentes na vida das pessoas na forma de impostos dosmais variados, tiveram seus poderes domados e tiveram que ser mais transparentes nos seus atos e prestar contas ao povo.

                     Pois bem, parece que em pleno século XXI vivemos uma situação parecida, em que as elites vivem em um mundo da fantasia em que não precisam dar satisfações do que fazem a ninguém, driblando o devido processo legal que outrora foi garantia à igualdade dos cidadãos.Tony Blair, no Reino Unido, Helmut Kohl e Gehard Schroder na Alemanha,Nicolas Sarkozy e Christine Lagarde na França, Silvio Berlusconi na Itália, Bertie Ahern na Irlanda, todos têm a ficha suja, mas continuam por aí, dando palestras, ocupando postos de prestígio, dando as cartas nos escalões do poder. Prezados leitores, talvez seja um alívio saber queo sindicato dos ladrões brasileiros seja uma pequena filial do grande sindicato mundial, mas o desafio é o mesmo: o que fazer ante os desmandos? Só o tempo dirá.

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Um novo bloco carnavalesco e a velha pomba da paz

“Ocupamos durante cinco meses a frente da Assembleia Legislativa, cheios de boas intenções”, lembra um estudante de Direito de 22 anos. “Apresentamos uma pauta de reivindicações. Não deu em nada. Manifestação pacífica não dá resultado.”

 Trecho tirado do artigo “Black Blocs prometem caos com a ajuda do PCC”, publicado no jornal O Estado de São Paulo em 1 de junho

 “A partir do momento em que há vândalos no meio disso, mascarados… A segurança pública tem de conter esses vândalos. Parece que as pessoas acordaram [para os problemas do país], mas acordou todo mundo junto. Ninguém sabe como fazer ou por onde ir. A população tem de protestar sem violência. Nos vândalos, mascarados, tem de baixar o cacete mesmo”

 Trecho de entrevista dada por Ronaldo o Fenômeno, membro do Comitê Organizador da Copa, ao site de notícias UOL

            Prezados leitores, este próximo mês de junho nos promete grandes coisas. Além de cinco feriados (ao menos) por conta dos jogos do Brasil na Copa, veremos talvez surgir um novo bloco carnavalesco na Avenida, aquele formado pelos Black Blocks e pelo PCC. Uma junção entre a “bourgeoisie oisive” que bebe nas fontes do anarquismo e do marxismo para rebelar-se contra o Estado capitalista opressor, e a máfia do PCC, que procura criar o caos para chantagear as autoridades e conseguir vantagens para seus membros. Se tal bloco realmente conseguir desfilar e não se dispersar na Avenida, será uma combinação perfeita de sinergias, como diriam os administradores de recursos humanos. De um lado, a capacidade do PCC de espalhar boatos, de semear o medo, de jogar uma pedra na água e causar um maremoto, e de outro lado o idealismo dos jovens que se insurgem contra a incapacidade do Estado brasileiros de prover serviços básicos à população. Seria inútil eu tentar aqui fazer um prognóstico sobre o que realmente vai acontecer, afinal não sou agente de inteligência da polícia nem estou infiltrada nos grupos. Pode ser que essa união dos titãs revele-se um factóide do tamanho do bug do milênio que iria causar um desastre de proporções bíblicas, lembram-se?

            Para todo cidadão de bem, cumpridor das suas obrigações, nada resta a não ser fazer coro com a opinião de Ronaldo, o Fenômeno e tachar os Black Blocs de vândalos. Em primeiro lugar, o membro do Comitê Organizador da Copa é uma das únicas personalidades brasileiras alçadas ao panteão das celebridades globais, e só por isso deve ser sempre ouvido, em todas as ocasiões e a respeito de todos os assuntos. Afinal, em janeiro de 2014 Ronaldo, estando em Davos enquanto desenrolava-se o Fórum Econômico Mundial, do qual participou, foi entrevistado pela Rede Globo e teceu perorações sobre a economia brasileira. Se Ronaldo é instado a falar sobre áreas fora de sua especialidade porque é uma celebridade, como não ouvi-lo a respeito de Copa do Mundo? E como não concordar com o bom senso da sua definição? De acordo com o dicionário Houaiss, vândalo é “que ou aquele cuja ação ou omissão traz prejuízo à civilização, à arte, à cultura”. Melhor definição não haveria para um grupo de pessoas que ao quebrar vitrines de lojas, destruir caixas automáticos de bancos, atear fogo nas ruas, depredar patrimônio público nada mais faz do que manchar a reputação do nosso país. Se de fato fizerem tudo que prometem e barbarizarem durante a Copa, corremos o risco de sermos vistos com um novo Haiti, um Congo, uma Ruanda da vida, em que a tensão entre os diferentes grupos irrompe de maneira imprevisível e violenta. De membro dos BRICs passaremos a ser vistos como parte dos Estados Párias, os “failed states”, caracterizados por instituições tão fracas que são incapazes de garantir um mínimo de ordem necessário ao progresso social.

            E no entanto, apesar de saber que a desordem vai prejudicar todos que têm algo a perder neste país, devo admitir que a fala do estudante de 22 anos deu-me o que pensar. Afinal, depois de todas essas manifestações pacíficas que tivemos nos últimos anos, ao final das quais as pessoas bem-intecionadas soltavam pombas da paz, o que tivemos de resultado concreto? Por acaso a violência diminuiu? Por acaso nossas autoridades sensibilizaram-se com as pombas voando no céu azul e tornaram-se mais competentes, menos preocupadas com seus interesses mesquinhos de perpetuarem-se no poder?

           Nossos líderes mentiram para nós quando disseram que a Copa seria financiada com dinheiro privado e quando a verdade foi revelada a respeito dos investimentos públicos massivos ninguém assumiu a responsabilidade pela mentira, e muito menos se desculpou. Quando os brasileiros foram às ruas de maneira relativamente ordeira durante a Copa das Confederações em 2013 a única coisa que conseguimos foi uma garantia de Dona Dilma de que os empréstimos dados pelo BNDES para a construção dos elefantes brancos serão devidamente cobrados, como se a concessão do crédito não fosse em si um escândalo. Como confiar nas garantias de uma senhora que quando era membro do Conselho de Administração da Petrobrás deu seu aval à compra desastrosa de uma refinaria no Texas e quando a verdade veio à tona, desculpou-se dizendo que não havia prestado atenção a uma certa cláusula do contrato? Será que Dilma daqui a alguns anos, se ainda for presidente e diante dos primeiros calotes dados nos empréstimos, dirá que não prestou atenção à capacidade de pagamento do Esporte Clube Corinthians quando nos garantiu que o povo brasileiro não seria lesado?

        A desfaçatez não é exclusividade do Executivo, pois o Legislativo também ignora solertemente qualquer preocupação com a decência. Em 29 de maio foram aprovadas duas emendas do Senado à Medida Provisória 638/2014, que amplia o parcelamento de débitos tributários (o chamado Refis da Crise). A mensagem subliminar é: “Espertos do Brasil Varonil, deem calote nos impostos e serão recompensados de tempos em tempos com um parcelamento, porque quem espera sempre alcança! Otários do Brasil, continuem cumprindo religiosamente suas obrigações e poderão apreciar muitas pombas voando no céu! Aliás, a companhia Vale, com fé, esperou pelo REFIS e deu um calote de 45 bilhões de reais na Receita Federal em tributos sobre o lucro de suas subsidiárias no exterior. Seu mau comportamento foi recompensado: pagou em novembro 5,965 bilhões ao Leão e vai parcelar 16,36 bilhões em 179 meses.

          Prezados leitores, não tenho receita para lutar contra a desfaçatez das nossas autoridades. Não concordo com os Black Blocs, mas também não sou ingênua a ponto de achar que pedidos educados de reconsideração vão fazer com que os privilegiados do Brasil larguem o osso. Que ao menos o bloco carnavalesco Black Blocks-PCC, se realmente vier a dar o ar de sua graça, cause menos estragos do que ameaça fazer e deixe as pombas brancas voarem em paz.

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Jogos mortais

Nosso primeiro objetivo é o de impedir o ressurgimento de um novo rival, seja no território da ex União Soviéticaou na China, que seja uma ameaça do quilate daquela colocada anteriormente pela União Soviética. Essa é uma preocupação constante subjacente à nova estratégia de defesa regional e exige que procuremos impedir que qualquer poder hostil domine a região cujos recursos poderiam, sob um controle consolidado, ser suficientes paragerar poder global.

Paul Wolfovitz, intelectual neoconservador responsável pela doutrina militar e de política externa dos Estados Unidos

            Prezados leitores, desde que teve início o embróglio na Ucrânia, houve uma constante na imprensa internacional: todos os veículos de comunicação no Ocidente repetiram em uníssonoa versão que os ucranianos estavam lutando pela liberdade para livrarem-se do jugo da Rússia. Nessa luta seriam com certeza ajudados pelas forças do bem, lideradas pelos Estados Unidos, que se destacam no cenário mundial na sua luta pela democracia e contra o autoritarismo e o terror.As forças do mal são sempre os países que se opõem aos desígnios americanos, países descritos como autoritários, em que a liberdade de expressão é limitada e o governo oprime minorias étnicas, de gênero e outras.

            Não me canso de utilizar este meu humilde espaço para apontar as inconsistências dessa versão “James Bond” do cenário mundial. Os Estados Unidos acusam a Rússia de invadir a Ucrânia e anexar a Crimeia, mas reserva-se o direito de invadir o Iraque, o Afeganistão, a Líbia, o Iêmen, Síria, Paquistão, para ficarmos apenas nos alvos estabelecidos pelos neoconservadores desde o governo de George Bush. Os Estados Unidos acusam a China de ser um país autoritário, mas a China com uma população quatro vezes maio do que a americana, tem menos pessoas na prisão. Os Estados Unidos vangloriam-se da sua liberdade de expressão, mas perseguem implacavelmente aqueles que ousaram revelar secredos inconfessáveis, como Julian Assange, que não pode sair da Embaixada do Equador,e Edward Snowden, que vive escondido na Rússia, deois de ter tentado obter asilo em países europeus e sul-americanos, a maioria dos quais o renegou como a um leproso, por medo de desagradarem o Tio Sam.

            Nesse desenrolar de um roteiro double-oh-seveno vilão é sempre Vladimir Putin. Semana sai semana entra e há sempre um artigo falando como a política de Putin será um tiro pela culatra devido à má situação econômica da Rússia, como a prepotência de Vlad vai levar o país ao isolacionismo e à falência, como há fuga de capitais, como as sanções do Ocidente vão colocar a Rússia de joelhos. Nasemana que passou o Príncipe Charles da Inglaterra comparou-o a Hitler, devido aos seus desejos expansionistas e talvez devido à perseguição às minorias gays. Charles às vezes é criticado quando dá seus palpites arquitetônicos sobre os horrorosos projetos residenciais do governo britânico, mas quando fala aquilo com o que os dirigentes do seu país concordam em gênero, número e grau, seu direito de emitir opiniões políticas é louvado, a despeito de o chefe de Estado na Inglaterra deverser uma figura decorativa, por ordem do Parlamento.

            Tudo isso são meias verdades. É verdade que Putin não quer normalizar o homossexualismo, torná-lo parte davida cotidiana dos russos e defende uma visão tradicional de família que está decididamente sendo descartada no Ocidente. Recentemente a Rússia assinou um tratado de adoção internacional com a Espanha pelo qual fica proibida a adoção de crianças russas por famílias monoparentais ou homossexuais. E é verdade também que os Estados Unidos tem um poder imenso de infligir danos aos seus desafetos, porque controla o sistema monetário internacional por meio do dólar, que continua a ser a principal moeda dastransações internacionais. No entanto, pouco a pouco parece estar havendo uma mudança de paradigmas e o script do filme terá que ser reescrito.

                Um fato que passou despercebidona nossa imprensa foi o acordo assinado entre China e Rússia sobreo fornecimento de 38 bilhões de metros cúbicos de gás natural à China no valor de 400 bilhões de dólares. O acordo passa a vigorar a partir de 2018 e vai incluir grandes obras de engenharia para ligação dos campos de gás russos aos gasodutos chineses. A China vai investir cerca de vinte bilhões de dólares na indústria russa e aumentar a importação de produtos russos, especialmente sistemas militares. No Brasil este acordo foi descrito como uma tentativa de Putin de tirar seu país do isolacionismo. Na verdade, pode significar uma mudança de paradigmas, o marco da mudança do eixo econômico mundial do Ocidente para o Oriente, com a união de esforços e de interesses dessas duas potências terrestres. O problema de tal aliança estratégica é que com certeza ela será mal vista pelos Estados Unidos, que tentarãosolapar qualquer desafio à sua hegemonia. Tratando-se de três países com arsenal nuclear, poderemos ter uma guerra que acabaria com a vida na Terra. Esperemos o desenrolar dos acontecimentos e que o meu pessimismo seja derrotado.

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