Para não dizer que não falei de flores

                       Bote fé no velhinho, que o velhinho é demais, bote fé no velhinho que ele sabe o que faz

                      Jingle do deputado Ulysses Guimarães para a campanha presidencial de 1989

                   Prezados leitores, nesta semana vou deixar meu azedume de lado. Sei que a maioria dosmeus artigos fala mal de alguma coisa, da Copa dos elefantes brancos, das eleições pautadas pela gangorra das pesquisas, das inconsistências da política externa americana e por aí vai. Hoje vou falar de uma iniciativa de uma escola de inglês de São Paulo, cujo nome não vou dar porque não estou sendo paga para fazer propaganda. Tal iniciativa é proporcionada pela tecnologia no seu lado luminoso, o de proporcionar a pessoas que jamais teriam se conhecidoque entrem em contato e realizem uma verdadeira comunicação, baseada na troca de experiências, de impressões mutuamente enriquecedoras. Isso era o que sempre se esperou da internet, mas a ideia sempre fica muito além da realidade, como pudemos ver no linchamentode Fabiane Maria de Jesus, tornado uma realidade por causa de uma página no facebook.

                 O lado luminoso de que vou falar aqui é o das conversas online. A escola colocou recentemente em prática em caráter experimental o projeto deconectar seus estudantes de inglês em Sâo Paulo com velhinhos americanos que moram em um asilo em Chicago. O objetivo é que os alunos ouçam falantes nativos e possam conversar com eles de acordo com uma pauta previamente elaborada. Uma vez a pauta sendo concluída o jovem brasileiro e o senhor ou senhora nos Estados Unidos podem falar de maneira mais livre. O chat é então gravadoe carregado no youtube, acessível pelos professores da escola para fins de avaliação do desempenho do aluno em conversação.

                   Assisti a alguns trechos de conversas. Uma adolescente brasileira comete o erro comum de dizer “I have thirteen years old” em vez do correto “I am thirteen years old” e sua interlocutora americana a corrige gentilmente. Em um outrochat um adolescente reclama deos seus pais não lhe terem permitido ir ao Lollapalooza ao que o velhinho retruca: “Que bom, isso significa que são bons pais.” Um menino de ascendência japonesa até convida seu amigo de 88 anos a hospedar-se em sua casa quando vier ao Brasil. Pode até ser que seja uma balela, afinal sabemos como nós brasileiros falamos muita coisa da boca para fora simplesmente para terminarmos uma conversa com um “passa lá em casa”, sabendo que isso nunca ocorrerá. De qualquer forma é um indício de que houve uma interação.

                 O que a mim parece fantástico é que seja feita essa ponte entre o passado e o presente. Vivemos em uma sociedade pautada pela mentalidade da versão mais atualizada do WINDOWS, em que sob um certo aspecto os pais têm necessariamente uma posição inferior aos filhos porque são mais antigos e entendem menos da parafernália tecnológica. O resultado muitas vezes é que veem-se os pais correndo atrás dos filhos, tentando manter-semodernos e nessa corrida maluca muitas vezes acabam não desempenhando o papel que lhes cabe de orientar e dar segurança aos pequenos. Pois bem, esses meninos e meninas brasileiros terão a experiência única de conversar com pessoas que, independentemente deseu nível cultural ou econômico, têm um mundo de coisas a lhes oferecer por conta simplesmente do número de quilômetros rodados.

                   Está aí uma coisa que se perdeu em nossa sociedade tecnológica, essa passagem do bastão de uma geração à outra pela transmissão de conhecimentos e valores. Pessoas como veículo disso tornaram-se totalmente redundantes: a internet é fonte inesgotável de conhecimentos acessíveis instantaneamente, os valores morais, se é que alguma importância é dada a esse tipo de bagagem, são obtidos pelos relacionamentos virtuais.A posição do indivíduo na sociedade, seu status, está cada vez mais ligado àquilo que ele faz no mundo virtual, às fotos postadas, aos comentários feitos, enfim à imagem projetada nas redes sociais.Nesse sentido, não espanta que Júlia Rebeca, de 17 anos, moradora de Parnaíba no Piauí, tenha se matado depois que um vídeo íntimo seu, mostrando cenas de sexo dela com uma garota e um rapaz, foi divulgado na internet. Afinal a identidade dela tinha sido chamuscada, porque ela pareceu ser uma vadia devido aos seu papel no vídeo. Na sua despedida da mãe, também feita por meio virtual sua vergonha fica óbvia: “Eu te amo, desculpa eu não ser a filha perfeita, mas eu tentei… Desculpa, desculpa, eu te amo muito.”

                Se o julgamento da sociedade sobre nossa bondade ou maldade fica cada vez mais dependente do que somos no espaço virtual, a possibilidade que o contato com os moradores do asilo americano dá de os jovenssaberem que houve um dia um mundo em que não havia internet é fantástica, pois mata dois coelhos com uma cajadada só. Não tira o adolescente do século XXI do seu ambiente natural, do local onde ele nasceu, vai crescer e morrer, mas ao mesmo tempo lhe oferece outras perspectivas, especialmente a de conversar com pessoas que acham natural dar conselhos, que acham natural que haja uma hierarquia no mundo em que os mais velhosensinam aos mais novos. Humildade para quem está se iniciando nesse nosso vale de lágrimas é sempre uma grande qualidade e esses adolescentes poderão experimentar esse sentimento ao falarem com vetustos senhores esenhoras que para começar falam um inglês bem melhor que o deles e do que o de seus professores brasileiros.

                       Eu particularmente não consigo imaginar o que teria sido de mim sem o contato com os mais velhos. Lembro-me de quanto eu conversava com a mãe da minha mãe, de quantas histórias ela me contava da sua infância, do seu típico pai pater familias, que sempre tinha a última palavra a respeito do que os filhos deveriam ou não fazer. Meu outro contato seminal com uma velhinha deu-se quando uma ex colega de trabalho da minha mãe, uma viúva austríaca que havia se casado com um brasileiro, quebrou o fêmur e pediu ajuda a nós. Eu me prontifiquei a fazer coisas para ela durante seu período de convalescência por puro interesse: eu podia falar inglês com ela e ela cozinhava divinamente. O resultado foi uma troca mutuamente proveitosa: anos e anos eu lhe fiz companhia nas noites de sábado e anos e anos eu me embeveci com suas peripécias durante a Segunda Guerra Mundial, sua fuga dos russos que estupravam sistematicamente as mulheres, o bombardeio incessante, seu trabalho de intérprete para a CIA no interrogatório de uma irmã do famigerado Adolf Hitler.

                     Eu posso estar sendo levianamente otimista, mas acho que esse projeto for adiante, a vida desses adolescentes nunca mais será a mesma, e eles se entenderão muito melhor. Meninos e meninas do Brasil, botem fé nos velhinhos!

Categories: Educação | Tags: , , , , | Leave a comment

Os ricos são mais ricos

Nós não pagamos impostos, só a gentinha paga impostos.

Leona Helmsley (1920-2007), nova iorquina, empresária do ramo hoteleiro e imobiliário que em 1989 foi condenada por evasão fiscal por lançar suas despesas pessoais como se fossem despesas dos seus hotéis e ficou 19 meses na prisão.

Eles estavam andando na rua quando passaram por um mendigo que pedia uma moeda. Donald disse: “Sabe, aquele homem é tão rico quanto eu” e a mulher dele disse “Você quer dizer que ele é bilionário?” e Donald disse “Não,ele tem pelo menos zero de patrimônio líquido. Eu tenho um patrimônio liquido negativo, tenho muitas dívidas com os bancos”.

Conversa entre Donald Trump (1946-) investidor americano do ramo imobiliário, e sua ex-mulher.

            Prezados leitores, sem eu querer acabei idealizando um projeto, modesto claro, mas não desprovido de um objetivo. Devido às contingências do momento iniciei uma trilogia sobre a globalização, que pretendo fechar hoje. O primeiro “volume” da saga foi a respeito das leis globais, o segundo volume da saga sobre as pessoas globais, o terceiro volume pretende ser sobre o dinheiro global. O mote para este assunto é a discussão que está sendo realizada em torno do livro de Thomas Piketty, economista francês especializado em renda e desigualdade que lançou em 2013 o livro Capitalismo do Século 21, alçado agora à posição de mais vendido no site da Amazon, após a publicação em 24 de abril deste ano de sua versão em inglês. No livro Piketty argumenta que entre 1930 e 1975 a desigualdade foi revertida por meio da distribuição de renda promovida pelo Estado e pelo grande crescimento econômico verificado no período. Essa tendência para ele ficou defnitivamente para trás no século 21, no qual o mundo corre o risco de reverter para um capitalismo patrimonial, em que a maior parte da economia é dominada por uma riqueza herdada criadorade uma oligarquia. Piketty ao final de sua obra propõe um imposto global sobre fortunas de até 2% e um imposto de renda progressivo que atinja a alíquota máxima de 80%.

                 Meu objetivo aqui não é o de criticar ou defender o jovem economista nascido em 1971, quem sou eu para fazê-lo? Como disse acima, as reações que o livro despertou fizeram-me refletir sobre este dinheiro que atravessa fronteiras e multiplica-se pela própria inércia. Como não me canso de repetir aqui neste espaço, concordar ou não com um imposto sobre grandes fortunas gira em torno dos valores de cada um, nesse caso específico das inclinações capitalistas ou anti-capitalistas do indivíduo. Quem concorda com o escritor francês Balzac, para quem atrás de toda grande fortuna existe um crime, será um entusiasta da punição dos ricos po rmeio da tributação confiscatória. Para aqueles que acham que o capitalismo tem suas virtudes, taxar os ricos dessa maneira escorchante será um tiro pela culatra porque vai diminuir a produção de riqueza no mundo. Lembram-se que o ator francês Gérard Depardieu recentemente fugiu da França e dos seus altíssimos impostos?

                A essa altura é forçoso que eu me posicione nessa refrega, porque afinal este meu humilde blog serve para eu expor minhas opiniões. Direi a vocês que sou a favor do capitalismo pela possibilidade que ele dá de fazer as pessoas competirem e assim fazer justiça às óbvias qualidades de certos indivíduos. Quem há de negar que o americano Warren Buffett conseguiu seu patrimônio, que atualmente gira em torno de 58 bilhões de dólares, graças aos seus infinitos talentos? Em 1944, aos 14 anos, ele fez sua primeira declaração de renda, pois àquela época já havia vendido chiclete de porta em porta e bolas de golfe recauchutadas e já havia investido em ações. Dizer que um homem desses conseguiu sua fortuna explorando os outros é uma bobagem. A única coisa que ele fez na vida foi usar sua inteligência, seu conhecimento e seu tino comercial parabrilhar e ele não pode ser culpado se nasceu com certas características que o destacam dos demais. A única culpada nesse caso é a Mãe Natureza, que distribuiu qualidades e defeitos de maneira bastante aleatória.

            O mesmo se pode dizer de indivíduos como Donald Trump, neto de imigrantes alemães, e Leona Helmsley, filha de imigrantes judeus poloneses. Sâo pessoas que independentemente de sua ganância ou de sua relutância em dividir seu dinheiro com o Estado, são obstinados, eternos otimistas, visionários que enxergaram uma oportunidade no mercado que poucosviram no momento, ou que souberam relacionar-se com as pessoas certas. Não importa, o ponto aqui é que mostraram qualidades raras de serem encontradas e que um sistema de competição feroz como é o capitalismo acaba ressaltando de maneira gritante. O problema começa quando essas pessoas atingem o topo, isto é, tornam-se milionárias ou biliardárias. O dinheiro delas começa a se multiplicar de maneira mágica, em um círculo virtuoso. É o famoso dinheiro criando dinheiro que Marx denunciou. Parece que hoje esse milagre da multiplicação está se tornando cada vez mais fácil, o que faz com que a desigualdade aumente não só porque os ricos ganham mais, mas principalmente porque o tipo de riqueza que criam atualmente baseada na valorização de ativos, como imóveis, ações, fruto de especulação, não gera empregos, não provoca um efeito cascata que beneficie os peixes pequenos.

            O episódio que descrevi acima com Donald Trump ilustra essaideia.Contabilmente falando, o magnata americano apresentador do Aprendiz não estava mentindo. Seu patrimônio líquido era negativo porque ele goza de inúmeros privilégios tributários negados aos comuns mortais, à gentinha a que se referia com desprezo a finada Leona Helmsley. Nós da classe média, assalariados que somos, temos nossa renda tributada na fonte. Um indivíduo alçado à condição de capitalista é sócio de empresas, das quais recebe dividendos e lucros, rendimentos da pessoa física isentos de tributação. Os ativos das empresas de Donald Trump, imóveis, são depreciáveis ao longo dos anos, o que gera despesas e diminui o lucro tributável da pessoa jurídica. Tem-se ao final uma situação irreal, mas legal e contabilmente perfeitamente cabível, em que prédios que estão lá há anos e continuarão incólumes por muito tenpo ainda, são considerados como tendo valor zero quando então são vendidos, iniciando-se um novo ciclo de depreciação e geração de lucro.

            Isso tudo para dizer que Loena Helmsley tinha toda razão quando dizia que os ricos não pagam impostos, pela simpes razão de que eles estão em um patamar em que não tem renda, mas capital, e capital é investimento. Nesse nível é possível entrar em um acordo tácito com qualquer governo no mundo, que está doido para atrair investimentos e por isso tende a diminuir sobremaneira os impostos sobre ganhos de capital. Não faz muita diferença se o capital é aplicado para abrir uma fábrica e dar empregos a centenas de pessoas ou se ele é utilizado para comprar outra empresa e realizar um corte profundo na folha de pagamentos. Uma vez que o dinheiro receba o rótulo de capital, gerador de lucros e dividendos, ele entra em uma zona em que tudo é permitido. A Apple desenha seus produtos nos Estados Unidos, terceiriza a produção para a China e tem domicílio fiscal na Irlanda. O mundo global, em que a disputa por investimentos é feroz, permite que ela faça isso, e assim compartilhe o menos possível com o governo e os trabalhadores.  Não é de se admirar que a renda fique concentrada nas mãos daqueles que têm o produto mágico.

            Para nós, meros ganhadores de renda,sobram o sangue, o suor e as lágrimas. Afinal, de acordo com uma versão apócrifa do diálogo entre o escritor americano Francis Scott Fitzgerald e Ernest Hemingway, o pai de Gatsby disse ao autor de Por quem os Sinos Dobram:“os ricos são diferente de mim e de você”, ao queeste respondeu: “Sim, eles têm mais dinheiro”.

Categories: Economia | Tags: , , , , , | Leave a comment

Quem espera sempre alcança?

É absolutamente necessário dizer aos brasileiros que eles estão lá para mostrar a beleza do país e sua paixão pelo futebol. Se eles puderem esperar um mês antes de fazerem protestos, isso será bom para o Brasil e para o mundo do futebol.

Declaração de Michel Platini, presidente da UEFA,em 25 de abril, em Paris ao ser interrogado por jornalistas sobre as manifestações sociais que têm sacudido o Brasil

A situação é muito preocupante. Essa antecipação das férias escolares, por conta da Copa, deixa as crianças desprotegidas.

Declaração da deputada federal pelo Rio de Janeiro Liliam Sá, relatora da CPI da Exploração Sexual Infantil

                Prezados leitores, na semana passada eu falei sobre um dos aspectos mais fascinantes e assustadores da globalização que é o fato de como a legislação internacional que ganha corpo por meio dos acordos de comércio está tornando as leis feitas localmenteirrelevantes e colocando corporações e Estados Nacionais em pé de igualdade do ponto de vista jurídico. Hoje tratarei de uma outra face da globalização, que é a dos cidadãos globais, aqueles indivíduos que não estão ligados a nenhum país especificamente, não por serem apátridas, mas por terem interesses econômicos e culturaisque os ligam a entidades internacionais, quer sejam elas organizações com representantes de centenas de países do mundo, como a ONU, a OMC e a FIFA, ou empresas multinacionais.

                A declaração de Michel Platini o faz um típico representante dessa classe de pessoas. Sua fidelidade é ao mundo do futebol e tudo deve ser colocado à disposição desse mundo para que ele funcione perfeitamente. O descontentamento que a população brasileira tem demonstrado com o nosso estado de coisas, às vezes de forma pacífica e às vezes de forma bárbara como vimos no Rio de Janeiro na semana passada, não pode atrapalhar a realização da Copa. O papel do povo brasileiro no mundo global do futebol é claro: devemos parecer ao público dos jogos felizes, sorridentes, dançando samba, comemorando as vitórias da seleção canarinho, tocando bumbo e cornetas, soprando apitos e realizando qualquer coisa que sirva para encantar os turistas reais que aqui aparecerem (estimam-se 600.000) e os turistas virtuais que assistirão ao espétaculo pela televisão ou pela internet. Devemos ser os figurantes acionados pelos organizadores do espetáculo para que estes possam entregar o produto que venderam a preço de ouro: uma Copa do Mundo radiante no país onde o futebol corre no sangue das pessoas. A jogada de marketing é essa, como fica óbvio por outra frase de Platini no mesma ocasião: “as pessoas vão ao Brasil para a Copa do Mundo, como os muçulmanos vão a Meca, como os judeus vão a Jerusalém e os cristãosa Roma…”

                Nada mais óbvio, não?No grande esquema das coisas há países que têm certas vantagens competitivas que lhes cabe explorar e naquilo em que não são tão bons devem ceder o lugar a outros países mais competentes. Futebol é com o Brasil, quanto a outras coisas, como competitividade econômica, altos indicadores sociais, devemos deixar tais assuntos com outros países que são melhores do que nós. Aliás, um outro cidadão global, Ronaldo o Fenômeno, membro do comitê organizador da Copa, deixou isso claro quando disse que não se fazem estádios com hospitais. Entre estádios e hospitais a escolha é clara para o Brasil: devemos ficar com os estádios, pois essa é a nossa vocação natural. Ronaldo pode ter passaporte brasileiro e ter nascido na Vila Cruzeiro, mas ele já há muito tempo ingressou para a turma dos globais, não só por ser comentarista na maior rede de televisão do Brasil, mas por se aliar aos interesses maiores do mundo do futebol ao qual as necessidades nacionais devem ser sacrificadas. Ronaldo ê tão global que ele vai até a Davos para o Fórum Econômico Mundial e ainda é chamado a opinar sobre questões econômicas.

                E quantos sacrifícios nós brasileiros faremos. No altar da Copa do Mundo estamos colocando as crianças e adolescentes de baixa renda e de famílias desestruturadas, que sem ter o que fazer na época das férias escolares, estarão mais disponíveis não só para assistir aos jogos, mas também para se prostituírem e serem prostituídos; estamos colocando também os moradores das regiões “pacificadas” à bala no Rio de Janeiro, submetidos às açõespoliciais ditadas pela ânsia de transformar a toque de caixa favelas em ilhas da fantasia; estamos colocando também os moradoresque foram desalojados de suas casas para dar lugar às obras das arenas; para não falar do sacríficio do dinheiro de todos os brasileiros a quem foi dito de má fé que a maior parte de tudo seria financiada pela iniciativa privada.

                Hoje à tarde estava tomando meu café e lendo o jornal como faço todos os domingos e não pude deixar deouvir a conversa de dois homens de meia idade. Um deles falava que queria que arquibancadas caíssem, houvesse apagão nos estádios e os turistas perdessem jogos por causa de atraso nos vôos. Para ele, o caos seria benéfico porque seria a única maneira de “derrubar o governo”. Tratava-se obviamente de alguém que quer ver Dilma pelas costas e torce para que o fracasso da organização da Copa seja motivo suficiente para convencer o povo a eleger um não petista. Não concordo com tal torcida pelo quanto pior melhor, porque a esta altura do campeonato se houver um grande desastre na Copa o maior prejudicado será o povo brasileiro como um todo. Afinal, o mal já está feito, já gastamos o dinheiro que deveria ter sido despendido com coisas mais prioritárias e menos globais. O melhor é que tudo saia a contento e que pelo menos temporariamente a economia brasileira aproveite o bônus do maior evento esportivo do planeta.

                Por outro lado, não posso concordar com MessieurPlatini, quando conclama nós brasileiros a esperarmos o fim da Copa do Mundo para reclamarmos sobre a violência que nos alflige, a precariedade dos serviços públicos,a alta dos preços. Diante da total incapacidade da nossas democracia de dar vazão aos anseios do povo, além do mínimo necessário para que os políticos possam se eleger, talvez o fato de que o Brasil estará sob os holofotes globais seja uma oportunidade única para que coloquemos pressão sobre nossos representantes. Se fosse possível que nossos protestos fossem pacíficos e não degenerassem em vandalismo e delinquência, ir às ruas em junho e julho é uma boa ideia para tentarmos mudar o que está aí. Mas talvez eu seja muito ingênua e as manifestações que porventura ocorrerem no Brasil serão dominadas pela turma dos que não tem compromissos com nenhum tipo de mudança consistente e querem apenas aproveitar-se da situação para dar vazão a seus interresses mesquinhos.

                De qualquer forma, cidadão globais, Platini e Ronaldo: vocês estão tentando nos convencer de que quem espera sempre alcança. E eu lhes respondo que depende de quemespera: neste nosso admirável mundo novo aqueles queservem os interesses globais sempre alcançam.

Categories: Politica | Tags: , , , , , | Leave a comment

Sobre coisas chatas e irrelevantes

            Porto de águas turbulentas no Uruguai

Brasil apóia projeto de terminal que pode contar com recursos do BNDES e de fundo do MERCOSUL e desviar carga do Brasil

 

Manchete do caderno de Economia do jornal o Globo de 20 de abril sobre a construção do porto de Rocha no Uruguai que contará com financiamento de um bilhão de dólares do BNDES.

 

 

            Prezados leitores, há certos assuntos que passam despercebidos na imprensa, tanto mundial quanto nacional. São assuntos enfadonhos, enfadonhos porque cheios de detalhes incompreensíveis para quem não tenha conhecimento técnico, e principalmente porque não envolvem pessoas que possam ser idolatradas ou vilipendiadas. A imprensa nacional dá atenção às suspeitas de corrupção na Petrobrás porque há culpados, há pessoas que podem ser condenadas pela justiça. O principal atrativo da campanha eleitoral no Brasil é o fato de ser uma dança das cadeiras, os candidatos sofregamente procurando meios de serem mais rápidos do que seus concorrentes, e todos medindo seus passos ao ritmo da música, no caso das pesquisas de intenção de voto. Quando a música para, ou seja, quando as pesquisas de intenção são divulgadas e fica-se sabendo quem desceu e quem subiu, é preciso rearranjar os assentos, o que significa descobrir novos podres dos adversários, divulgá-los na imprensa “séria” e retomar a dança.

            Não se iludam a respeito da imprensa internacional, como se ela fosse mais respeitável e enfocasse os assuntos enfadonhos. Longe disso. O importante é o neoeurasianismo do diabólico Putin que quer fazer renascer a União Soviética por meios tortos, como se os Estados Unidos não estivessem em plena expansão pelo mundo, fazendo guerras no Oriente Médio, na África, “protegendo” seus aliados na Ásia contra a China e ajudando os inimigos de Maduro na Venezuela. Mas meu foco não são as diferenças de tratamento dadas pela imprensa aos Estados Unidos e  à Rússia, algo de que já falei aqui neste espaço. Meu foco hoje são os tais dos assuntos entediantes, que ficam escondidos nas páginas internas dos jornais ou na parte de baixo, quando muito, dos sites de notícias. Meu objetivo é tentar mostrar como o que é aborrecido tem importância vital para nossas vidas cotidianas.

            Começo com a pauta internacional. Vocês já ouviram falar do Tratado de Comércio Transatlântico (TIIP na sigla em inglês) entre Europa e Estados Unidos? Talvez não e,  por favor, não se sintam culpados pela ignorância, pois não é para vocês terem ouvido falar: por motivos estratégicos, tudo está sendo negociado na surdina, à margem dos parlamentos nacionais dos países europeus e dos Estados Unidos. Quando as cláusulas tiverem sido negociadas pelos doutos representantes comerciais elas serão todas, de uma vez, submetidas ao Parlamento Europeu para ratificação, mas então talvez seja tarde demais para que haja algum controle externo. Os deputados provavelmente se perderão na miríade de detalhes e não terão condições de verificar o impacto do que for decidido na vida dos cidadãos comuns. E muito provavelmente o objetivo é mesmo este, de enfiar goela abaixo o pacote pronto, neutralizando qualquer tipo de reação.

            E por que um tratado de comércio deveria ser fonte de preocupação? Afinal, um acordo dessa envergadura criaria um mercado comum de 820 milhões de consumidores, representaria metade do PIB mundial e faria o PIB da União Europeia e dos Estados Unidos aumentar meio por cento ao ano, criando dois milhões de empregos, de acordo com seus defensores. O problema é que o diabo está nos detalhes, tão técnicos e tão entediantes.    O TIIP irá não só diminuir as barreiras alfandegárias, isto é as tarifas aduaneiras, mas também levará a uma harmonização das barreiras não alfandegárias ao comércio, que são as normas ambientais, agrícolas, trabalhistas, fitosanitárias. De acordo com as ONGs européias que denunciam o acordo, isso significará na prática menos direitos trabalhistas, menos proteção contra alimentos transgênicos e contra frangos e gado cheios de hormônios que podem causar malefícios à saúde, entre outras salvaguardas.

            Mas a grande revolução do TIIP, o grande cavalo de Tróia que deixa aqueles que se preocupam com o futuro da democracia ocidental com os cabelos em pé, é a parte jurídica. O principal meio de solução de disputas será a arbitragem. Para quem não sabe, arbitragem é julgamento realizado por um juiz indicado pelas partes que segue a lei que as partes tiverem escolhido previamente. Isso significa que uma empresa multinacional que tiver um litígio com um Estado Nacional qualquer não será julgada pela lei do local, por juízes locais de acordo com o princípio da supremacia do interesse público e todas aquelas garantias e privilégios de que normalmente os Estados tradicionalmente gozaram porque fornecem serviços públicos, isto é que beneficiam toda a coletividade do país. A arbitragem permitirá que uma empresa brigue de igual para igual com um país e ganhe. Aliás, isso já aconteceu aqui na América Latina, quando o Equador foi condenado a pagar 1,77 bilhões de dólares à Occidental Petroleum, que conseguiu fazer com que seu caso fosse julgado em Washington por um tribunal de arbitragem ligado ao Centro Internacional para a Resolução de Conflitos sobre Investimentos (ISCID em inglês) como uma violação do tratado de investimentos entre os Estados Unidos e o Equador. Detalhe: a própria empresa violara o contrato com o governo do Equador que achou por bem tomar a decisão política de encerrá-lo.

            Perceberam a revolução que a arbitragem traz? A transferência de poder dos Estados para as transnacionais? A irrelevância de todas as normas locais quando elas estiverem em desacordo com as normas contidas no tratado de livre comércio? Para que elegermos representantes no Legislativo e mandatários no Executivo se tudo o que eles fizerem em termos de criação de leis e de realização de políticas públicas terá que se conformar com as normas hierarquicamente superiores, porque internacionais, colocadas nos tratados de livre comércio?

            A essa altura devo dizer que uso a segunda pessoa do plural de propósito. Se o TRIIP é um assunto que diz respeito aos europeus e americanos, o acordo que está sendo negociado entre o MERCOSUL e a União Européia diz respeito a nós brasileiros. E aqui enfoco a pauta nacional. Essas negociações não recebem lá muita atenção da nossa imprensa, afinal são coisas técnicas que devem ser deixadas aos especialistas. Mas elas estão caminhando, e poderão ter muitas das conseqüências do TIIP. E pior, nosso governo já parece estar tomando decisões levando em conta os interesses do MERCOSUL muito mais do que os do Brasil individualmente. O porto de Rocha, no Uruguai, com certeza tornará nossa soja mais competitiva por facilitar o acesso à Ásia. Mas e os outros setores econômicos brasileiros, ou seja, aqueles não ligados à exportação de commodities? Será que não seriam mais beneficiados se investíssemos esse dinheiro em nossos próprios portos?

            Prezados leitores, fiz muitas perguntas e não dei nenhuma resposta. As respostas seriam mais bem dadas se houvesse discussão em nosso Congresso e em audiências públicas sobre os prós e contras dos tratados de livre comércio que tanto impacto têm sobre nossas vidas. Mas infelizmente eles são tratados como irrelevantes porque técnicos e chatos. Enquanto isso, na dança das cadeiras, elegeremos novos palhaços para o picadeiro que cada vez mais serão meras marionetes comandadas pelos que mandam no mundo.

Categories: Economia | Tags: , , , , , , | Leave a comment

Plus ça change…

Uma médica foi condenada a seis anos de prisão por mandar cortar o pênis do então noivo após ele romper o relacionamento a apenas três dias da cerimônia. O caso aconteceu em 2002, em Juiz de Fora, Minas Gerais, mas a ela foi presa apenas na noite desta terça-feira (01), segundo informações do Estadão.

 

Notícia tirada de jornal

 

                Prezados leitores, cada pessoa tem um passatempo na vida, uma atividade que lhes permite relaxar, sonhar acordado.  O meu é ler livros de história, mas não qualquer livro de história, porque do contrário não serialazer, seria estudo. Gosto de ler livros que falam sobre a vida das pessoas, principalmente mulheres. Como os registros históricos só nos contam a vida das elites, eu acabo lendo livros sobre rainha, mulheres nobres. Não deixa de ser uma leitura sobre os chiquese famosos à la Caras, mas para não cair no conceito de vocês que me acompanham digo que os historiadores que consumo fazem pesquisas sérias a respeito dos seus personagens, pesquisas tão sistemáticas que acabam revelando o detalhe do cotidiano dessas pessoas, os dramas por que passaram, as felicidades etc.

                Meu favorito é um historiador francês chamado Philippe Erlanger. Ele é um biógrafo não acadêmico, do tipo que não se detém muito sobre o contexto econômico, social e cultural da época. O mais importante para ele é o biografado em si, suas relações, sua trajetória de vida, como se ele fosse único, e não um exemplar de uma determinada época. É isso que dáo prazer da leitura e funciona como uma terapia para mim. Terapia no sentido psicológico da palavra, de tratamento para quem sofre de alguma ansiedade, trauma, comportamento doentio. Ao ler sobre mulheres de antigamente eu relativizo meu lugar no espaço, percebo que perdas, rejeição, necessidade de aceitação, carência, não são exclusivos da minha pessoa ou da minha época. A profissional bem-sucedida que manda cortar o pênis do homem que a abandonou sofre da mesma forma que as pobres coitadas analfabetas, cuja vida resumia-se a parir, morrer de parto, ou se tivessem boa saúde e escapassem dos riscos da gravidez, a cuidar dos filhos. Vou dar-lhes dois exemplos do que estou falando.

                Atualmente, nos meus momentos de descanso leio uma biografia sobre Carlos V, que viveu entre 1500 e 1558 e foi Imperador do Sacro Império Romano Germânico, reinando sobre o que é hoje a Espanha, a América Espanhola, os Países Baixos, a Bélgica, partes da Itália (Nápoles e Sicília), partes da Áustria e da Alemanha. Pois bem, meu foco não é ele, mas sua mãe, Joana, a Louca. Seu codinome foi conquistado em razão do comportamento estranho que mostrou ao longo de sua vida de casada. Seu marido era muito bonito e ela tinha um ciúme doentio dele. Se no começo Filipe, o Belo, loiro de olhos azuis, se mostrou fogoso com sua mulher morena de beleza exótica, logo depois ele começou a interessar-se por outras mulheres e esperava que Joana aceitasse isso como boa esposa e se dedicasse à tarefa de parir. Mas a filha de Isabel a Católica e Ferdinando de Aragão, que a haviam neglicenciado, tinha uma carência de amor infinda e esperava queseu garboso marido, um indivíduo fútil e dedicado aos prazeres, suprisse essa carência. O resultado dessa diferença de expectativas foi um casamento tumultuado: Joana desconfiava de todas as mulheres e chegou a raspar a cabeça de uma de suas damas de honra, arranhar-lhe o rosto com as unhas, e dar golpes de tesoura para que sua face ficasse desifgurada e ela não despertasse mais a atenção do marido. Este deu-lhe uma surra depois do episódio, mas foi em vão. Ela mandou vir da Espanha escravas mouriscas que ela fez desfigurar para serem suas damas de honrae assim não despertarem a lascívia do marido. Para encurtar a história, o fim do casamento de Joana e Filipe, foi trágico. Ferdinando mandou envenenar o genro, com quem disputava o poder após a morte de Isabel, e Joana a partir de então tornou-se ainda mais desequilibrada ao perder seu grande amor. A mando do pai, foi enclausurada na fortaleza de Tordesilhas de onde nunca mais saiu.

                Está aí para mim uma boa lição do que a carência faz conosco, do mal que fazemos a nós mesmos quando projetamos expectivas irrealistas em outra pessoa, a quem incumbimos de nos fazer felizes.Talvez se essa médica que acabou sendo presa em Juiz de Fora fosse uma amante de história como eu, ela teria percebido que não era a única mulher a ter desilusões amorosas, que outras mais importantes que ela também sofreram, e assim pudesse ter reagido a sua perda de maneira mais serena, sabendo que qualquer vingança que resolvesse empreender acabaria mal. Pois mesmo que essa mulher cumpra sua sentença e saia logo ou consiga ser solta com algum recurso, sua vida nunca mais será a mesma.

                Outra história que me conforta e me faz não invejar o mundo das celebridades éa de Jacqueline Lee Bouvier Kennedy (1929-1994). Uma mulher linda, culta, poliglota (formada em Letras, falava inglês, francês, espanhol), casada com o homem mais poderoso do mundo. Não repetirei um clichê que ela foi infeliz. Longe disso. Ao contrário de Joana, a Louca, que idealizava o marido, Jacqueline sabia muito bem que tinha casado com um mulherengo contumaz, mas ela era ambiciosa e sabia exatamente o que queria daquele casamento. Aliás, John Kennedy não queria casar, porque sabia que como playboy bon vivant, não estava adaptado a uma vida monogâmica. Mas seu pai o convenceu, ou o obrigou, dirão alguns, argumentando que ele não teria como progredir na carreira política, e passar de senador que era a Presidente da República,se não tivesse esposa e filhos. Duas semanas antes de casar, John Kennedy estava se divertindo na Côte D’Azurcom uma loira maravilhosa. Mesmo tendo sido informada a respeito e visto as fotos Jacqueline não desistiu, porque queria ser primeira dama.

                Se não podemos dizer que foi infeliz, pois consegiui o que queria, Jacqueline passou maus bocados para conseguir seu intento. Seu pai, John Vernou Black Jack Bouvier III era alcólatra e no dia do seu casamento não pôde comparecer porque estava bêbado em um hotel. Kennedy sempre foi um pai ausente e um marido ausente, deixando a família ao léu nos fins de semana para ir à caça. Quando Jacqueline se ausentava da Casa Branca, a caça se realizava lá mesmo na cama do casal. O presidente assassinado só se tornava mais humano e próximo de sua esposa quando era operado (sofria de problemas na coluna e da doença de Addison, uma disfunção endócrina, cujo tratamento tinha como efeito colateral ele estar frequentemente em ereção)e precisava dos cuidados da mulher.

           Valeu a pena para ela?Deve ter valido, porque Jacqueline, depois da revelação de todas aspatifarias do seu marido, nunca pronounciou-se reclamando, nunca colocou-se como vítima, como faria a Princesa Diana décadas depois, de maneira imatura. De qualquer forma, uma das frases de Jacqueline era a seguinte: o segredo da vida é não esperar muito dela. Uma sábia. Grande lição para nós, mulheres com complexo de perfeição, que procuramoscom plásticas, tratamentos de beleza etc tornarmo-nos eternamente lindas para que o companheiro, marido ou namorado não vá atrás de outras. Saibam que ser bela não nos imuniza contra a traição, pois a traição está na cabeça do traidor, a vontade existe independentemente da mulher que está ao seu lado. De fato, quantas mulheres, após receberem um fora, caem no desespero e colocam a culpa nelas mesmas, levam a coisa de maneira demasiadamente pessoal, como se elas fossem particularmente desafortunadas? Saber que uma mulher perfeita como a ex primeira dama americana foi chifrada a torto e a direito é um consolo e um chamamento à razão.

             Espero tê-los convencido dos efeitos terapêuticos do conhecimento da história. Custa infinitamente menos do que um psicólogo, com a vantagem denão nos fazer correr o risco de nos colocarmos no papel de vítima e nem de tornarmo-nos dependentes de uma pessoa que funciona como “pinico” para nossas mágoas, ressentimentos, o que pode acabar fazendo como que os cultivemos para justificar nossas idas ao consultório.Prezados leitores, o segredo da história é que plus ça change plus c’est la meme chose. E isso tem um poder de cura imenso: em certa medida nos impessoaliza, nos torna menos obcecados com nosso próprio ego, nos torna menso ansiosos em atingir a perfeição, que é algo tão cultivadoem nossa sociedade tecnólogica. Sigam meu conselho e nada lhes faltará!

Categories: O espírito da época | Tags: , , , , , | Leave a comment