Turista com muito orgulho

                  Prezados leitores, não sei se vocês sabem, mas o turismo enquanto conceito nasceu na Europa para denotar as viagens realizadas pelos europeus que davam um giro pelos principais países do Velho Continente para aprimorar sua formação cultural e intelectual por meio do contato com diferentes formas de pensar, de ver, de sentir. Goethe foi um desses famososturistas, algo que pude comprovar hoje visitando o santuário de Santa Rosália, a santa padroeira de Palermo. Rosália Sinibaldi era uma nobre siciliana, descendente de Carlos Magno, que decidiu viver como eremita no Monte Pelegrino e acabou morrendo lá. Seus restos mortais foram achados em uma gruta no montee no local foi erigida uma igreja. Háduas placas, uma em italiano e outra em alemão, testemunhando a visita de Johann Wolfgang von Goethe ao santuário, quem sabe à espera de um milagre?Afinal, diz a lenda que a Santa salvou Palermo da peste, que grassava na cidade em 1624, e por isso é tida como protetora contra doenças infecciosas.

               Viram quantas coisas eu aprendi em uma única subida de morro? Consegui obter todas essas informações in loco lendo com certa dificuldade os textos em italiano. Além de aprender apreciei a paisagem, o céu aqui é de um azul cobalto, como os sicilianos dizem, sem uma nuvem no céu. Vi árvores e plantas que por razões óbvias não existem no Brasil, tive uma vista de 360° de Palermo, com a placidez do Mar Mediterrâneo ao fundo. Aliás, estes últimos dias têm sido um privilégio em termos de visitas a lugares espetaculares.

             Na terça-feira fui a Érice, uma pequena cidade encravada em uma montanhaque conserva a arquitetura original de tempos antanhos, especificamente da Idade Média.A vista do mar deveria ter sido maravilhosa, mas escolhi um mau dia para visitá-la, chovia, ventava e tudo estava envolto em brumas. Como sou adepta da filosofia do “se tiver um limão faça uma limonada” não me apoquentei com a crueldade climática e passeei pela cidade, ziguezagueando pelas ruelas absolutamente vazias. Vendem-se cerâmicas lindíssimas no lugar e pude olhá-las nas vitrines, mesmo com praticamente todas as lojas fechadas.Tudo é um primor, o modo como a arquitetura se integra com a vegetação, e como a modernidade se integra com o antigo, o conforto do século XXI em um cenário do século XIV.

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                 Na quinta-feira, tive uma sorte danada em termos de céu de brigadeiro e visitei Selinunte, onde há ruínas de uma cidade grega da época clássica, isto é, ao redor dos séculos quinto e sextoantes de Cristo. As escavações iniciadas em 1822 por dois ingleses, Samuel Angell e William Harris, permitiram que fossem reconstruídos alguns dos antigos edifícios ao menos em parte. O resultado é que vemos um templo completo com as famosas colunas dóricas, e no alto de um morro à beira do Mediterrâneo vê-se a parte dianteira da acrópolis. Realmente a combinação de arquitetura e paisagem é de tirar o fôlego especialmente considerando que nesta época do ano, devido às chuvas, há um sem fim de tons de verde que não fazem feio perante nossa luxúria tropical. E mais, sendo baixa estação havia uns gatos pingados ali, o que tornava tudo divinamente silencioso. Digo divinamente porque curtir o sol forte no inverno contemplando o belo sem ninguém matraqueando para lhe tirar a concentração faz o indivíduo chegar perto das estrelas.

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            No sábado foi a vez de Segesta, em que há um único templo dórico bem conservado, cuja construção foi iniciada em 416 antes de Cristo.Em compensação atrás dele há o vale de um rio que serpenteia lá embaixo entre dois paredões de pedra. Ouvir seu barulho cá em cima com o sol aquecendo-me foi uma experiência que tratarei de guardar em minha memória para os dias em minha vida em que estarei enfadada, triste ou irritada. É minha poupança emocional.

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             Prezados leitores, a essa altura devo confessar que nem sempre tive essa visão positiva da condição de turista. Em 1995, quando fui a Paris em pleno verão, senti-me uma otária perdida na multidão. Eu me irritava em fazer parte das massas que tiravam fotos sofregamente, que se acotovelavam nas atrações turísticas. Fiquei tão frustrada em ser mais uma que deixei de ir a alguns lugares porque não queria ser vista como turista, negava-me a vestir a carapuça. Eu preferia escrever cartões postais ao Brasil reclamando do calor e do populacho. O tempo, antes de nos matar nos muda, preparando-nos para a morte, pelo menos para aqueles que o aproveitam bem. Hoje tenho uma visão mais equilibrada, mais objetiva da minha posição no globo terrestre. A começar com o abandono da pretensão adolescente de ser especial. Sou uma turista como outros tantos bilhões de indivíduos que viajam pelo mundo e daí? Aprendi que é possível ter experiências incríveis em termos sensoriais, culturais e intelectuais, mesmo fazendo aquilo que todo mundo faz. Por outro lado, tomo precauções para não ser devorada pela multidão, como por exemplo viajar na baixa estação. Há grandes inconvenientes nessa escolha, por exemplo os horários limitados devisitação, o tempo ruim, as lojas fechadas, mas creio que evito muitos aborrecimentos causados por pessoas cujo único objetivo é tirar fotos para poderem colocar no facebook e acumular pontos nas suas milhagens aéreas e existenciais.

                Por tudo isso, digo que hoje, no meu quadragésimo segundo ano de vida, sou turista com muito orgulho.Não nego os inconvenientes: ficar carregando água e comida na mochila, estar sempre cansada de tanto andar, com a roupa amarfanhada e empoeirada, fazer cara de tonto quando não entende alguma coisa que lhe falam. Mas os inconvenientes são superados pela riqueza de experiências.Tenho em minha mente os cheiros, as cores, as formas que eu vi guardados em meus arquivos cerebrais. Terei mais termos de comparação para escolher o melhor lugar do mundo para passar uma tarde e uma noite de inverno, uma tarde e uma noite de verão. E poderei sonhar com o sol, o corpo de Deus vivo e desnudo, como dizia Fernando Pessoa, acalentando-me.Viva o turismo, praticado com respeito e moderação!

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Turismo

         Prezados leitores, como lhes havia informado na semana passada, estou em férias na Sicília. Não é possível expressar o alívio que senti quando senti a frescura do frio pela primeira vez ao sair do aeroporto e entrar em contato com o clima real.Imediatamente esqueci o calor infernal do Brasil, a estiagem, o racionamento de água e energia, o lançamento do PAC3 sem que tenham sido completados nem o PAC 2 e muito menos o PAC 1. Estou em modo viagem, por assim dizer, deleitando-me com o sol siciliano, que tem brilhado todos os dias, apesar da temperatura que gira em torno de 15 graus. Um clima perfeito se você está bem agasalhado e pode de vez em quando tomar um expresso.

       Viagens são feitas para esquecermos nossa vida comezinha, nosso ramerrão diário, são feitas para nos darmos um tempo que normalmente não temos. Tempo para apreciar coisas belas, para nos determos sobre pequenos detalhes de um prédio, de uma paisagem. Tempo para esquecermos que precisamos ganhar dinheiro e para nos darmos ao luxo de gastarmos despreocupadamente, esquecendo que o euro vale quase 3,5 reais. Tempo para nos darmos a chance de sentarmos em um banco de praça e comermos uma tangerina para aplacar a fome do turista que, andarilho incansável, tem sempre um apetite leonino.Tempo para lembrarmos do Brasil com saudade das coisas boas, quando anteontem em um restaurante, enquanto eu comia um delicioso macarrão com anchovas, daqueles que minha mamãe sempre tentou fazer e nunca conseguiu, eu ouvia a música ambiente e tinha certeza que ela era versão em italiano de MPB de autoria do nosso grande Djavan.

        Na quinta-feira fui à catedral de Monreale, construída pelos normandos, que reinaram na Sicília de 1130 a 1250. Ontem fui ao Palácio Real, onde ficava a sede do governo. Não me cansei de ver mosaicos em ouro de Jesus Cristo Pantocrator, Nossa Senhora e todos os santos da Igreja Católica. Não sou religiosa, mas qualquer pessoa apreciadora da beleza se impressiona com os dedos em riste de Jesus, sua face séria, concentrada, firme, falando a verdade. Dada a quantidade de igrejas que há na Itália, dá pena pensar que daqui a 50 anos provalvemente só as mais espetacularmente belas se salvarão da ruína, afinal a fé do povo se esvai cada vez mais, e veem-se muitas igrejas fechadas, provavelmente por já estarem em um estado lamentável de conservação e por não haver público que cuide delas. De qualquer forma é uma herança e tanto: a Capela Palatina em Palermo, dentro do Palácio Real, tem elementos muçulmanos (as formas geométricas), gregos (os mosaicos e as inscrições) e normandos (as janelas em ogiva). No mesmo palácio assisti a uma exposição comemorando os 50 anos da realização do filme O Leopardo de Luchino Visconti, exatamente sobre a Sicília, na época da unificação italiana, no final do século XIX. Pude ver dois dos figurinos originais usados por Cláudia Cardinale para interpretar Angélica, e ter uma noção dos preparativos do diretor para a escolha dos cenários.

         Prezados leitores, mas nem tudo são flores, claro. Para que eu possa me deleitar com as construções de Palermo preciso fazer certas concessões à realidade. Uma delas é não ficar em um hotel, mas alugar um apartamento que é muito mais barato, e isso significa arrumar a casa, ir ao supermercado LIDL onde os produtos são mais em conta, carregar as compras até o ponto de ônibus, fazer comida em casa, lavar a louça.E devo confessar que o Brasil tem uma grande vantagem em relação a qualquer velha civilização europeia como a Itália, que perdeu a Segunda Guerra Mundial e portanto está mais presa pela canga dos americanos. Nós não respeitamos direitos autorais, portanto a maioria dos documentários e programas disponíveis na internet são facilmente acessíveis na terra do samba e do pandeiro, ao passo que aqui na Itália, quando eu sonhava em passar minhas noites tranquilamente assistindo a tudo aquilo que não consigo em Sâo Paulo, qual foi minha frustração ao perceber que tudo é barrado. Até o site kboing de músicas é inacessível, provavelmente deve ser pura pirataria. Mas tudo isso são detalhes que não abalam minha convicção de que viajar é preciso, para qualquer lugar que seja, para transportarmo-nos à tranquilidade das estrelas.

          Para não me acusarem que só fiquei navegando nas estrelas, acompanhei a grande novidade deste domingo na Europa, que é o resultado do referendo ocorrido na Suíça a respeito do restabelecimento de cotas de imigração, que haviam sido suspensas depois de um tratado biletaral do país com a União Europeia.Desde 2002, entraram 80.000 estrangeiros no país quando as autoridades haviam prometido apenas 8.000 no máximo por ano, o que fez com que a porcentagem de imigrantesno país aumentasse de 20% para 23,5%. A consequência das tergiversações dos governantes é que 56% dos helvéticos, a maior participação desde 1971, votaram e decidiram, por 50,3%dos votos, estabelecer limites à imigração, introduzindo um sistema parecido com o do Canadá de triagem de quem pode e de quem não pode entrar com base na qualificação.

        O resultado deste referendo pode abrir a porteira para outros grupos dentro da Europa que não estão contentes com o estado de coisas atual, e facilitar a vida de partidos de direita no Reino Unido (UKIP) e na França (Front Nationale). Resta saber qual será a reação concreta da União Europeia, que ultimamente andamuito combalida depois do”Fuck the EU” dito pela diplomata americana Victoria Nuland. Quem sabe os suíços não se sentiram encorajados com esse desprezo e resolveram mandar seus grandes empresários, partidos, governo e principalmente a UE às favas? Veremos os próximos desdobramentos. Preciso agora voltar ao fogão para preparar meu jantar e economizar os euros para os meus passeios!

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Planos

Responsáveis pelo abastecimento de mais de 9 milhões de pessoas, os reservatórios do Sistema Cantareira estão no nível mais baixo da história. O volume armazenado no sistema é de apenas 21,9%. A situação chegou ao limite pro causa da seca em janeiro. Choveu 87,8 mm, contra média de 259,9 mm

Notícia extraída do jornal o Estado de São Paulo de domingo, dia 2 de fevereiro

          Prezados leitores, para quem acompanha esta que vos fala, na semana passada eu expressei aqui meu medo da falta d’água na cidade de São Paulo devido à falta de chuva e ao calor infernal, recorde em 71 anos. E não é que as autoridades admitiram a possibilidade? Para evitar o pior a SABESP dará desconto na conta a quem economizar água. É uma pena que no Brasil nós só pensemos em planejar quando estamos à beira do precipício, oque faz com que o planejamento na verdade seja um mero apagar de incêndio que evita o pior. O fato é que estamos ouvindo há anos a notícia de que os reservatórios estão incrivelmente baixos, mas nenhuma política de longo prazo é executada para fazer com que a relação das pessoas com a água seja alterada e o consumo torne-se mais consciente da importância da preservação de um bem tão escasso.

           Não estou aqui a falar em aumento das tarifas para estimular as pessoas a economizar na marra, mas de outras medidas que possam ser tão eficazes quanto a penalização pecuniária, por exemplo dando benefícios fiscais às empresas que produzirem equipamentos sanitários mais econômicos, deduções no imposto de renda às famílias que investirem na reforma da casa para torná-la mais sustentável ambientalmente falando. Mas estou aqui com quimeras. Se acaso os bônus de economia funcionarem, como funcionaram em 2004, quando a SABESP também adotou política de desconto, esqueceremos o problema crônico do déficit de água no Sudeste do Brasil até que de novo nos encontremos à beira do abismo.

         É da nossa psiquê comportarmo-nos assim. Os preparativos para a Copa do Mundo estão atrasados e as obras de infraestrutura ficarão muito aquém do prometido, a ponto de Carlos Alberto Parreira ter lamentado publicamente a perda da oportunidade de mostrarmos aos gringos um Brasil organizado, seguro e apreços razoáveis, para que o legado da Copa fosse positivo e de longo prazo. Corremos os risco de os preços extorsivos, fruto da falta de opções e do custo Brasil, e a qualidade ruim dos equipamentos de mobilidade urbana deixarem uma impressão indelével nos turistas que se aventurarem a vir aqui. Tão indelével e marcante impressão que esses turistas espalharão aos quatro ventos como a Copa do Mundo foi feita em um rincão do Terceiro Mundo que não tinha a mínima condição de recebê-la.

           É bem provável que nossa alma flex nos permita darmos um jeitinho e fazer com que a Copa não seja nenhum desastre, mas também nenhuma maravilha. Provavelmente conseguiremos isso, afinal estamos em um ano eleitoral e o governo terá todo o interesse do mundo em que nada de muito ruim aconteça que possa fazer-nos passar vergonha lá fora, coisa a que o brasileiro bem-pensante tem horror. Aliás, o fato de termos eleiçõesgerais a cada quatro anos, aliado à nossa vocação para o improviso, são uma combinação explosiva. O empurrar com a barriga torna-se uma prática corriqueira, chancelada pelo processo democrático. Anuncia-se para este ano de 2014 uma safra recorde de soja de 91,5 milhões de toneladas, 11% maior do que no ano passado. O gargalo logístico está longe de serresolvido, mas teremos uma boa gambiarra à nossa disposição: marcação de hora na agenda do Porto de Santos, para evitar as filas quilométricas que se formaram em 2013. O caminhoneiro que não tivermarcado horárioserá barrado no baile, sem dó nem piedade. Resolvemos o problema? Claro que não, apenas criamos mais um procedimento burocrático para evitar a cena embaraçosa dos caminhões esperando há dias o momento de desembarcar a mercadoria no porto.

             Por que será que temos tanta dificuldade de planejarmos o futuro no Brasil? Acaso será uma falta de coesão social, que impede que cada um de nós se sinta parte de um todo e contribua para ele? Será que herdamos o foco no presente dos colonizadores que vinham aqui para enriquecer e depois voltar para a Europa e dos escravos que não tinham o direito de ter esperanças de construir algo melhor? Sei que essas explicações que se pretendem sociológicas e históricas são na verdade inverificáveis porque irrefutáveis, e como nos lembrava Karl Popper, o filósofo da ciência austríaco, tudo o que é irrefutável não é científico. Quero dizer com isso que cada um de nós brasileiros, ante a constatação óbvia de que temos uma dificuldade enorme de planejarmos o longo prazo, de nos prepararmos para as contingências futuras com antecedência e segurança, terá uma explicação:uns dirão que esse despreparo é cultural, fruto da herança africana e portuguesa, outros dirão que é econômico, fruto da nossa eterna dependência dos países centrais do capitalismo que impede que elaboremos estratégias de desenvolvimento próprias.

            Bem, a pergunta fica no ar, e a resposta a ela dependerá dos valores de cada um. Só tenho uma certeza: estou neste país há 42 anos, desde que nasci, e os únicos planos com que me acostumei foram a infinita litania daqueles tentadosao longo da minha infância para evitar o desastre da hiperinflação que assombrava nossas vidas.A maioria deles fracassou, o Real deu certo, mas mesmo os planos que dão certo no Brasil têm pés de barro. Os ventos que sopram no cenário internacional estão pará lá de perigosos, e corremos o risco de ao dobrar o Cabo da Boa Esperança (ou das Tormentas, a depender do ponto de vista), naufragarmos no mar da falta de reservas cambiais e do descontrole da dívida pública. Osnúmeros anunciados semana passada mostram que nem o medíocre e nefasto objetivo a que nos propusemos desde o governo de FHC, de obter superávit primário para pagar juros da dívida, está sendo cumprido à risca.Em 2013 ele foi o menor desde 2002, 1,9% do PIB, enquanto o planejado pelo governo havia sido de 2,3%.

            Prezados leitores, como boa brasileira que sou resolvi viver o presente, elaborar um plano de emergência e tirar férias, gastando o que não tenho e esperando que no fim tudo se ajeite. Estou fugindo deste calor infernal rumo à terra dos mafiosos. Pretendo comunicar-me semanalmente como de costume, mas tudo dependerá se terei inspiração, à falta de contato diário com nossa realidade tupiniquim, e conexão com a internet. Volto só depois do Carnaval, e então tentarei fazer planos para 2014, afinal adoramos dizer que no Brasil o ano só começa depois do término da apuração do resultado dos desfiles da Marquês de Sapucaí, não é mesmo?

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Medos

A Copa e a Olimpíada estão destruindo o Rio

Nereu Cavalcanti, arquiteto e historiador

Bem-Vindo ao Futuro, de Jaron Lanier, vê a tecnologia e a cultura do grátis da internet como ameaça às profissões de classe média

Trecho retirado de O Estado de São Paulo de 20 de janeiro de 2014

              Prezados leitores, em um dia desses fui tomar café com uma amiga que tem duas filhas, uma delas de 14 anos. Ela estava bastante chateada porque a filha não conseguira ir bem em um exame de seleção para uma escola técnica. Minha amiga havia nutrido a esperança de que a filha cursasse o ensino médio para que tivesse educação de qualidade e gratuita. Havia 40 vagas e a menina chegou em ducentésimo lugar, portanto seu desempenho esteve muito aquém do mínimo necessário. Eu lhe recomendei então que, em vista da falta de vocação da menina para o estudo, o melhor seria tentar uma vaga de jovem aprendiz em uma empresa, porque a alternativa é ela frequentar a escola particular em que estuda, que não é lá muito boa, e passar as tardes navegando na internet, à cata de fotos, comentários, novidades.

                Senti muito por essa minha amiga pois fico imaginando a angústia de uma mãe em relação ao futuro dos filhos. Pertencer à classe média significa, entre outras coisas, estar sempre consciente que a única coisa que podemos dar aos filhos, à falta do capital que se reproduz automaticamente, no círculo virtuoso explicado e denunciado por Marx, é a educação. Eu particularmente não acredito que uma educação cara faça muita diferença para aqueles que estão no extremo da curva, os muito brilhantes e os totalmente incapazes, pois no primeiro caso o indivíduo é capaz de conseguir tudo o que uma boa formação proporciona sozinho e no segundo caso despender dinheiroé inútil. No entanto, para a grande maioria que está no meio, frequentar instituições em que o indivíduo possa ter contato com pessoas que lhe abram portas é sempre útil, independendentemente da formação acadêmica.

                 O fato é que se o seu filho não tem grandes dotes intelectuais, físicos ou artísticos, em suma se ele é uma pessoa comum,e você não tem condições de permitir-lhe frequentar locais em que ele conheça as pessoas certas, a própria posição de classe média pode ficar ameaçada, se formos levar a sério as previsões catastrofistas que dizem que a tecnologia vai tornar a maior parte das pessoas obsoletas. Sobrarão os muito ricos, que herdaram capital, e os muito talentosos, que conseguirão um lugar ao sol, mesmo que seja à sombra das máquinas.O último relatório da Oxfam parece mostrar isso (digo parece porque estatísticas podem ser enganadoras): as 85 pessoas mais ricas do mundo detêm uma riqueza equivalente àquela de metade da população mundial. Emoutraspalavras, comocantava o finadogrupo ABBA, “The winner takes it all, the looser has to fall

                É o tal do apagão dos empregos, que faz com que tenhamos que correr freneticamente para conseguirmos permanecer no mesmo lugar sem pretensões de nem conquistarmos posições na maratona, mas apenas para continuar competindo. Creio que minha profissão de tradutora, por exemplo, está com os dias contados, o máximo que teremos a fazer em uma década será realizar pequenas correções naquilo que o computador produzir.Tenho tentado me preparar para isso, mas a verdade é nunca sabemos em que ponto o tsunami da mudança tecnológica vai arrebentar com mais força. Considerando minhas habilidades, que não se adaptam muito ao mundoexato e matemático criado pelo desenvolvimento da eletrônica, e o estado da sociedade, em que a instituiçãoque antes era responsável por resolver os problemas, a família, tem hoje uma influência cada vez menor sobre a vida dos seus membros, resolvi que disputas na sociedade cada vez mais passarão pelo Judiciário e apostei nesse ramo.Alia jacta est.

                Mas se o espectro do desemprego ocasionado pela obsolescência ronda todos os quadrantes do mundo, nós no Brasil temos adicionalmente outro tipos de medo. Temos o apagão de planejamento, em que as megacidades comoRio e São Paulo estão cada vez mais sufocadas pela facilidade de carros vendidos com IPI reduzido, produtos vendidos no crédito que sujam nossas ruas e enchem nossos aterros e ferros-velho, e pelas dificuldades representadas pela falta de políticas públicas que enfoquem de fato o bem comum e não simplesmente o crescimento econômico de curto prazo, as próximas eleições, a próxima Copa e as próximas Olimpíadas.Por falar nos mega eventos, por acaso vocês não têm medo do quanto vai de fato nos custar esta Copa, depois de feitas todas as contas e adicionados todos os gastos emergenciais? Vocês não têm medo de ver na televisão jogos de menor importância com público mínimo, o que provará que os gringos não vieram (77% dos ingresso vendidos froam para brasileiros até agora)? Vocês não têm medo do que vai ser dessas arenas em alguns anos, passado o torneio? Confesso que tenho medo de tudo isso.

               Não poderia deixar de mencionar o apagão primordial, aquele que deu origem ao uso metafórico do termo apagão para conotar situações de grande deficiência em determinadas áreas. O apagão elétrico, ocasionado pelas baixas chuvas, que fazem com que os reservatórios das hidrelétricas estejam baixos e tenhamos que recorrer às termoelétricas. Tenho medo do quando e em que medida o maior custo da energia será repassado a nós pobres consumidores. Para não falar do meu medo de racionamento de água, em São Paulo, diante do calor infernal e da falta de uso racional de um recurso cada vez mais escasso, em umacidade em que as pessoas teimam em usar o esguicho como vassoura hidráulica.

                Prezados leitores, diante desse rol de fobias que eu coloquei aquivocês devem estar se perguntando se isso não passa de um mero expediente estilístico e eu lhes respondo que não, decididamente tenho medo de tudo isso. O meu consolo é que sempre procuro dar aos meus medos uma finalidade e assim acabo adotando a filosofia do engenheiro Edward Alvar Murphy Jr. que deu o nome à famosa Lei de Murphy. Para ele, era importante sempre adotar como premissa que o pior dos cenários vai se concretizar para que assim possamos estar sempre preparados e ao fim e ao cabo nada saia de errado. Quero crer que explorar o que pode acontecer de catastrófico conosco enquanto indivíduos e enquanto sociedade, por mais que o que de fato acontece nunca seja tão ruim quanto vislumbramos em nossas previsões, possa nos ajudar a preparar melhor o futuro. Portanto, sempre quando eu der vazão aos meus medos neste espaço saibam que o faço para levá-los a pensar sob um ponto de vista que não tinham abordado. Medos: se não tê-los, como fazer com que trabalhem a nosso favor?

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De fatos de de factóides

        Prezados leitores, parece que o que eu temia, temor este que já expressei aqui neste espaço, já está ocorrendo: a corrida presidencial será dominada por factóides. Antes de mais nada preciso esclarecer o que entendo por factóides para que o que escreverei aqui faça sentido. Factóides são grandes acontecimentos, grandes no sentido de terem repercussão na mídia, mas que no frigir dos ovos têm muito pouca relevância para nossos destinos enquanto nação. O factóide mais recente, é claro, a questão dos rolezinhos, explorada ad nauseam na imprensa escrita, falada e digitada.

        Faço questão de não tecer opinião sobre este assunto. Em primeiro lugar, não quero aborrecer meus leitores com mais uma opinião. Pessoas mais doutas do que eu, cientistas sociais, psicólogos, sociólogos, antropólogos, filósofos já se pronunciaram, portanto acredito que minhaspalavras seriam vãs. Em segundo lugar, devo confessar que não tenho muito interesse por adolescentes, e parece que os adolescentes compõem a maior parte dos participantes dos “little strolls”, como o New York Times, que apresentou um artigo sobre o fenômeno em sua edição eletrônica no domingo dia 19, os traduziu para o inglês. Para ser mais precisa, tenho trauma de adolescentes. Minha carreira de professora de inglês foi abortada por minha incapacidade de lidar com esse grupo. Fui demitida de uma escola de ensino de línguas depois de a diretora ter verificado in loco que eu era incapaz de lidar com as piadinhas, os desafios e a zombaria dos meus alunos. Eu era feita de palhaça o tempo todo e era incapaz de lidar com a situação, principalmente porque minha memória do meu próprio período de adolescente não tinha nada que consistisse em fazer troça dos meus professores.

       Foi uma época difícil da minha vida em que minha auto-estima desceu a níveis preocupantemente baixos por causa de crianças mimadas e enfadadas, sobre as quais todo o meu esforço pedagógico não tinha a mínima influência. Tomei uma tal ojeriza de educação que hoje não consigo nem participar de um programa de aulas voluntárias promovido pela empresa em que trabalho, que oferece aulas a alunos de escola pública. Simplesmente, minha memória dos aborrecentes olhando-me de alto a baixo como se eu fosse uma parva, a total falta de interesse em minhas tentativas de lhes ensinar a língua de John Milton e Shakespeare ficaram tão marcadas em mim que considero a educação algo totalmente impossível no mundo de hoje, porque ela pressupõe uma hierarquia, i.e. alguém que sabe transmitindo a quem não sabe, e a noção de .hierarquia é desprovida de sentido na era da internet e do acesso fácil às informações.

      Por essas razões, é-me impossível falar sobre adolescentes, seres alienígenas em meu pequeno mundo reacionário. Por outro lado, não posso deixar de constatar que os rolezinhos farão parte da pauta da campanha presidencial e novamente teremos as esteréis disputas Fla-Flu: os favoráveis aos adolescentes e à sua liberdade de expressão, e os favoráveis aos shopping centers e seu direito de propriedade, os democratas que lutam contra o racismo e pela ascensão da classe pobre e as elites temerosas do contato com a plebe. Nesse entrementes, aquilo que na prática terá influência sobre a vida de todos os brasileiros será colocado para escanteio. Vou falar de dois assuntos que infelizmente não serão abordados como se deve até outubro porque em larga medida são intratáveis, isto é, requerem uma abordagem complexa demais para serem tratados no circo da campanha presidencial.

        Em primeiro lugar está a questão das concessões que o governo federal está fazendo para resolver o gargalo da infraestrutura. Está claro que há um problema sério de gestão que se não for resolvido fará com que nosso crescimento econômico continue atravancado. Leio no Globo do dia 19 de janeiro que 402 obras que deveriam ter sido entregues ainda não foram. De quem é a culpa? Das agências reguladoras que não fiscalizam e não punem como deveriam, ou dos encarregados da elaboração dos editais de licitação, que estabelecem prazos e valores de investimento irrealistas? O fato é que o desempenho das concessionárias de rodovias não atende as necessidades do país. Propostas para solucionar o problema deveriam ser colocadas pelos candidatos, mas provalvemente o máximo que podemos esperar é que todos eles prometam mais investimentos, mais PACS, quando a questão principal é o modo como os investimentos são de fato feitos.

        Em segundo lugar, há a nossa exposição ao dólar, por causa das reservas cambiais que respaldam nossa própria moeda. Os mais espertos, leia-se os asiáticos, já se deram conta de que a derrocada do dólar é, para usar o jargão jurídico, um evento futuro e certo, com termo inicial, sem estar sujeito a nenhuma condição. O Banco Central americano tem comprado títulos do Tesouro americano à razão de um trilhão de dólares por ano, despejando as verdinhas no mercado para que os grandes bancos, que fizeram apostas temerárias e irresponsáveis em derivativos tóxicos, possam ter liquidez e apresentar números azuis no balanço, do contrário teriam que reconhecer que seus ativos não valem nada. Para manter a ilusão de que o dólar ainda vale alguma coisa após uma enxurrada que já dura anos, o FED americano manipula o mercado do ouro, vendendoderivativos do metal para reprimir a demanda colocada por aqueles que querem um refúgio seguro para seu dinheiro.

     Prezados leitores, vocês sabiam que o ouro do Ocidente está sendo transferido para a Ásia? Os asiáticos não se contentam com um derivativo que lhes diz que em algum dia em algum lugar eles terão direito a ter determinada quantidade de ouro à sua disposição. Eles querem o ativo físico, tangível, e os bancos conseguem honrar seus compromissos comprando derivativos daqueles que acreditam que o preço do ouro vai cair e retirando o ouro daqueles que se deixam enganar e confiam que um dia eles verão o metal dourado na sua frente simplesmente mostrando seu título. A demanda asiática é tanta que a quantidade de instrumentos financeiros com lastro em ouro é muito maior do que o ouro físico realmente existente. Uma prova disso é que a Alemanha pediu ao Banco Centralamericano a repatriação de suas reservas em ouro custodiadas pelo Federal Reserve Bank e este concordou em entregar 300 das 1500 toneladas ao longo de sete anos. A Venezuela, tão vilipendiada pelos bem pensantes, conseguiu repatriar as 160 toneladas de ouro que estavam com o FED, pois pediu antes. Todas essas informações eu tirei do artigo “The Hows and Whys of Gold Manipulation”, facilmente encontrado na internet e escrito por dois economistas americanos, Paul Craig Roberts e Dave Kranzler.

      Enquanto aqueles que percebem que o poderio econômico americano, baseado no dólar, está se esfacelando se protegem, nós brasileiros, e nossos governantes, ficaremos na turma dos cornos mansos, os últimos a saber e pagaremos um alto preço por isso. Mas claro, há assuntos mais importantes a serem tratados na eleição, as acusações mútuas de ladroagem que farão os candidatos, a questão premente de dar opções de lazer a adolescentes que têm direito a serem felizes. No fim, por vias tortas eu acabei dando minha opinião sobre os rolezinhos, e acabei na prática dando-lhes tanta importância quanto foi normalmente dado, mas se o fiz, fiz sob protesto e peço aos leitores que levem isso em consideração.Vamos aos fatos e deixemos de lado os factóides se quisermos ter alguma esperança de que nossos grandes problemas serão tratados com seriedade.

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