O chimpanzé e a abelha

O poder, haurido do capital, é corruptor, pois de fato o dinheiro compra e influencia posições, direcionamentos e interesses da política.

Allyson Mascaro, professor de Filosofia do Direito e autodeclarado único marxista no tradicional Largo São Francisco

Bonita teoria. Espécie errada.

Comentário do sociobiólogo e teórico da evoluçãoamericano,Edward Osborne Wilson, especialista no comportamento das formigas, sobre o marxismo

            Prezados leitores, no ano passado eu já falei a respeito do meu professor marxista que muito me ajudou não só dando-me ideias para meus artigos (Reacionários do mundo, uni-vos!, O lado negro da força), mas principalmente permitindo que eu as tornasse claras para mim mesma. A vantagem de ficar ouvindo coisas com as quais você absolutamente não concorda é que se torna necessário revisar seus próprios pontos de vista para verificar se eles estão prontos para aguentar a aenxurrada de ataques. E é isso o que eu fazia: tive que perscrutar a mim mesma e me fazer perguntas incômodas do tipo: será que sou contra o socialismo simplesmente por ser uma burguesinha privilegiada que não quer largar o osso ou eu posso legitimamente alegar que tenho razões éticas para ser a favor da livre concorrência? Posso dizer-lhes que venci minha batalha interior e vou provar-lhes que consegui tomando como ponto de partida as citações acima.

            A frase do meu professor marxista foi tirada de uma entrevista que ele deu para o jornal O Estado de São Paulo e que apareceu na edição de 30 de junho. Para falar a verdade eu nem li a entrevista toda porquepara quem o ouviu durante seis meses como eu é chover no molhado. De qualquer forma, pincei a parte em que ele falava sobre as reclamações das pessoas que se manifestaram na rua sobre a corrupção no Brasil. A visão marxista dele é que corrupção é parte da engrenagem capitalista, afinal o poder deriva do “capital” e portanto só uma transformação radical das estruturas da sociedade poderá cortar o mal pela raiz. Aliás, osmarxistas sempre olham com condescendência a classe média que reclama contra corrupção, seja quando ela vota na UDN, no Jânio Quadros ou no Collor. Talvez o novo paladino da luta contra a corrupção seja o Joaquim Barbosa, e provalvemente os marxistas vão sorrir ante a inocência dos que esperam por lisura e honestidade em moldes capitalistas.

            Pois como contraponto à visão marxista de que com a socialização dos meios de produção os vícios da cobiça e da ganância desaparecerão porque não haverá mais motivo para roubar e enganareu cito um biólogo. E cito um biólogo porque eu acredito que há características do ser humano que nunca vão permitir que simplesmente mudando as estruturas da sociedade mudaremos o modo como o homem se comporta. Explicando melhora teoria do Wilson e fazendo minhas as palavras dele, quando ele fala de espécie errada para aplicar a teoria marxista seu ponto é o seguinte: entre formigas e outras espécies de animais o socialismo pode funcionar. Quando você é estéril e relaciona-se intimamente com os membros da colônia, a sobrevivência e transmissão do seu código genético são possibilitadas pela subordinação do seu interesse individual ao bem da comunidade. Os seres humanos não são assim. Nossa sociabilidade é diferente, ela é cooperativa e competitiva ao mesmo tempo. Em suma, o ser humano é 90% chimpanzé e 10% abelha. Para que o socialismo funcionasseseria preciso que nossa porção abelha fosse muito maior.Ou em outras palavras, aqueles que acusam o outro de serem burgueses, na verdade morrem de inveja e querem se tornar burgueses, se não for pela aquisição dos meios de produção será pela aquisição do controle do Estado que lhes permitirá ter poder, que é o que um legítimo macaco quer: tornar-se o rei do pedaço. Quem quiser ler o artigo de onde tirei essa comparação, visitehttp://www.spectator.co.uk/life/the-wiki-man/8940221/why-politics-needs-more-darwinists-and-fewer-economists/.

            Isso tudo significa que eu tendo a aceitar mais explicações biológicas da nossa natureza, o que me faz ser obviamente uma conservadora, porque para mim certas coisas não podem ser mudadas por nenhuma revolução, seja ela Gloriosa, Francesa, Russa ou Cultural. Por outro lado, isso não significa dizer que eu seja uma cínica ou cética, pelo contrário, eu acredito que é tarefa do ser humano neste nosso vale de lágrimas tentar, na medida das possibilidade de cada um, fazer o nosso lado chimpanzé ser mitigado pelo lado abelha. E quando vejo isso acontecer na prática, isto é, quando vejo pessoas com uma consciência moral tão aguçada que põe sua integridade física em risco, eu me emociono. Cheguei aonde queria chegar, mais precisamente no Senhor Edward Snowden, o ex agente da Agência de Segurança Nacional dos EUA.

            Não vou aqui entrar em detalhes sobre o percurso dele, tenho certeza que meus leitoresjá estão mais que inteirados, inclusive das teorias que pululam na internet sobre o que está por trás das denúncias que ele vem fazendo sobre a espionagem global realizada pelo governo dos Estados Unidos. Seria ele espião chinês? Seria ele um factóide do próprio governo americano para desviar a atenção do que estão prestes a fazer na Síria, isto é ajudar os rebeldes a derrubar o governo de Assad? Nenhum de nós tem condições de saber, porquenão temos acesso aos fatos de maneira direta, in loco, apenas àquilo que se fala dele, e o que ele deixa escapar por meio dos documentos que vaza a certos jornais. De qualquer forma, não há como negar que ele está se arriscando.

             Afinal, está num limbo jurídico na zona internacional do aeroporto de Moscou desde 23 de junho. Seu passaporte americano foi-lhe retirado, seu pedido de asilo negado por todos os países europeus a quem o fez, tratado como um verdadeiro leproso, de tal maneira que a suspeita de que pudesse ter se introduzido sorrateiramente no avião do Presidente da Bolívia, Evo Morales, fez com que o avião fosse parado em Viena para averiguações. Mesmo que ele consiga asilo na Venezuela, na própria Bolívia ou na Nicarágua, como ele conseguiria chegar até a América Latina? Em suma, sua vida, e a vida das pessoas que o amam, seus familiares, seus amigos, nunca mais será a mesma.

          E não há como negar que ele está nos mostrando muitas verdades, nuas e cruas. Não falo da espionagem de outros países em si, afinal com relação a nós da América Latina, no balanço geral a interferência dos Estados Unidos ao longo da história foi mais maléfica do que benéfica, portanto não deverianos causar surpresa que eles nos vigiem para melhor controlar.

           Falo da atitude poltrã da União Europeia que mostra que, longe de ser aquele contrapeso ao poderio americano que ela pretendia ser, na verdade está toda vendida e rendida aos yankees, porque chegaram ao cúmulo de tratar um chefe de Estado como delinquente obedecendo às ordens dos americanos. Provavelmente todos os chefes de Estado lá têm muito a esconder. E falo principalmente, e acho que este é o alvo principal da indignação moral de Snowden, da revelação de que o governo americano vigia seus próprios cidadãos, e assim como chantageia todos os países europeus por aquilo que pode revelar, também tem o poder de chantagear os próprios cidadãos americanos que teoricamente têm o poder de controlar o governo.

          Em suma, o que Snowden está a denunciar é que os Estados Unidos já são um país totalitário, nos moldes do que foi a União Soviética, a Alemanha Nazista. Seu governo faz coisas sobre as quais o povo não tem a mínima influência ou controle e sua Constituição, que tinha por objetivo garantir os direitos do povo contra os abusos do Estado,é em grandeparte letra morta. E sob um certo aspecto suas revelações corroboram a máxima do meu professor: o dinheiro compra o poder que compra decisões políticas que não interessam à população em geral, mas aos que deram o dinheiro.Minha única esperança está em quecada um de nós enquanto indivíduos tenhamos, ao menos uma vez na vida, um lampejo de Snowden e façamos cessar tudo quanto a antiga musa canta que um valor mais alto se alevanta: façamos com que a abelhinha dentro de nós pense sobre o papel que ela exerce na colônia e assim amenize um pouco nossas tendências simiescas.

Categories: Internacional | Tags: , , | Leave a comment

Da Comunidade Facebook à Sociedade Brasil

Uma pesquisa recente mostrou que a média das pessoas com idade entre 18 e 35 anos tem 237 amigos no Facebook. Quando indagadas sobre em quantas elas podem confiar em uma crise, a resposta média foi dois. Um quarto dos entrevistados disse poder confiar em uma pessoa. Um oitavo disse não poder confiar em ninguém.

Jonathan Sacks, rabino principal das Congregações Hebraicas Unidas da Commonwealth nascido em Londres

                Nestaúltima semana recebi um e-mail convocando as pessoas para uma greve geral na segunda-feira, dia 1 de julho. Na verdade a convocação não era por e-mail, mas pelo Facebook, e o e-mail mencionava o número de pessoas que haviam aderido ao chamado. Pois é, os protestos que se iniciaram há duas semanas em São Paulo espalharam-se por todo o Brasil, insuflados em grande parte pela comunicação instantânea possibilitada pelas mídias sociais.

            Nossos políticos, que estavam em princípio atônitos, começaram a reagir aos protestos da geração Facebook, comparacendo às sessões do Congresso com mais assiduidade, fazendo discursos. Mas que reação é essa? Será algo positivo? E por trás dessa pergunta, há outra, mais importante: para onde a geração Facebook quer levar o país? Uma resposta a essa pergunta é fundamental para que em um momento de crise econômica e social possamos estabelecer as prioridades corretas e tomar as decisões que nos levem a sacrificar certos bens em prol de outros, que devem ser preservados a todo custo.

            A mensagem das ruas parece ser a de menos corrupção, mais saúde e educação, mais transporte, mais segurança, enfim mais serviços públicos. É um anseio típico de classe média, que paga impostos de todas as formas possíveis, na fonte, embutidos no preço, por carnê,e é a que usufrui menos benefícios. Fazendo essa leitura, nossos congressistas se entregaram a uma fúria de aprovação de leis e de discussões de propostas legislativas: tipificação da corrupção como crime hediondo foi a mais sensacional da semana, e há também a velha solução mágica de destinar obrigatoriamente recursos para a educação, no caso as receitas dos royalties do pré-sal.Para não falar da prisão de um deputado por corrupção pela primeira vez desde 1988. Vejam que milagres fazem as pessoas nas ruas: sentir o bafo do povo no cangote faz os poderes constituídos terem um sentido de urgência que lhes falta normalmente, afinal eles estão com a vida ganha, ao contrário da maioria dos brasileiros que não tem emprego vitalício bem remunerado.

              Vamos por partes. Ontem eu assistia ao jornal de notícias e o membro de uma ONG falava da crise de representatividade, do fato de que os políticos brasileiros constituem uma classe que tem seus próprios interesses, os quais eles defendem com unhas e dentes, e tais interesses não são os mesmosdo povo brasileiro. Tipificar a corrupção como crime hediondo combina com esta ideia de que há certos grupos ou certos tipos de pessoas corruptos que devem ser estigmatizados como criminosos e colocados à parte. Quem não há de concordar que a prisão do Natan Donadon na Papuda não manda uma mensagem aos pilantras para ao menos irem mais devagar?

             Por outro lado, não há como negar que a probidade não é um valor que nós brasileiros tenhamos como muito próximos do coração. Estou no quinto ano de Direito da maior e mais importante universidade do país e não me canso de ver alunos falsificando assinaturas, exercendo influência indevida sobre funcionários da faculdade ou para sermos mais coloquiais, “chavecando” os funcionários para conseguirem “abono” de faltas.A cola é amplamente difundida, e hoje é realizada por meio dos I-phones e smart phones, que permitem a fácil digitalização de imagens. Pior, elaé até encorajada por certos professores que se referem a ela ironicamente como “método de aprendizagem”.

              Em suma, nossos valores morais não são suíços, alemães ou nem mesmo asiáticos. Para que a corrupção seja efetivamente combatida no Brasil é preciso que haja um controle prévio ao do Estado, que criminaliza, condena e pune. É preciso que os membros da sociedade estigmatizem tal prática, considerem-na desonrosa e ostracizem o corrupto. Isso está longe de acontecer no Brasil, onde a esperteza e a malandragem acabam sempre tendo um pezinho na desonestidade.

           Quanto à educação, e o raciocínio pode ser aplicado aos serviços públicos em geral, antes de fazermos dotações orçamentárias obrigatórias sob a premissa de que mais dinheiro resultará em mais qualidade, cabe uma pergunta prévia. Que tipo de educação quer a geração Facebook?O ensino no Brasil continua sendo em larga medida baseado na decoreba: eu posso contar nos dedos das mãos as questões em que eu tive que resolver algum problema jurídico prático, apesar de estar teoricamente me preparando para exercer uma profissão. Tal método facilita a vida do professor, que não precisa ficar quebrando a cabeça na correção de provas e nem na orientação real do aluno, e a vida do aluno que pode recorrer à cola. No final, chegamos ao denominador comum da mediocridade. As pessoas que clamam na rua por mais educação querem o que? Querem ter diploma de ensino superior de graça conseguidos com o mínimo esforço possível? Ou querem ser estimuladas a um esforço intelectual maior para conseguirem saltos de qualidade?

           O ponto a que quero chegar é o seguinte. Esta geração que descobriu as redes sociais como instrumento político precisa também perceber que só conseguiremos de fato mudar este Brasil quando adquirirmos um sentido de sociedade, em que todos tenham obrigações e deveres. Poderemos protestar e as classes dirigentes responderem com plebiscitos, reformas políticas, orgias de leis. Mas enquantonão tivermos a percepção de que uma sociedade deve ser mais do que uma comunidade de pessoas que curtem alguma coisa, acaberemos em uma cacofonia de reivindicações de direitos que jamais poderão ser satisfeitos simultaneamente. E no final poderemos chegar à triste constatação de que nossos amigos do Facebook na verdade são inimigos porque querem as mesmas coisas que nós e não estão dispostos a cedê-las. Oxalá que nós brasileiros consigamos fazer a transição da comunidade Facebook para a sociedade Brasil.

Categories: Politica | Tags: , , , | Leave a comment

Indignez vous: a luta continua

Deveríamos ter feito o mesmo a respeito dos gastos com o fiasco dos gastos das Olimpíadas, mas nós engolimos tudo como um bando de idiotas inocentes. Devemos ter respeito por estes brasileiros que estão se levantando para defender suas ideias e para não serem enganados pela propaganda esportiva.

Comentário no Tweeter colocado por um indivíduo chamado Hanty de Londres em 19 de junho

                Uma coisa que me irrita profundamente é quando leio um artigo na imprensa que aborda um acontecimento qualquer, por exemplo, uma ação que está se desenrolando no judiciário, e depois o veículo de imprensa não acompanha os desdobramentos do caso. Por isso é que eu vou dar-lhes notícia do resultado de um plebiscito realizado na Suíça em 3 de março deste ano de que tratei no meu artigo Indignez-vous publicado neste espaço em 1º de março. Com uma aprovação de 67,9% dos suíços que votaram (46% do total de cidadãos),eles decidiram estabelecer limites ao pagamento dado aos executivos de sociedades anônimas. Mas o mais importante para os propósitos deste meu artigo é que nesta semana houve efeitos desta iniciativa popular. Rudof Wehrli, presidente da Economiesuisse, a entidade que se opôs veementemente ao plebiscito, e Pascal Gentinetta, seu diretor geral, acabaram de renunciar aos respectivos cargos, em virtude do desgaste sofrido. Em suma, reconheceram a postura arrogante de pintar na época um quadro de catástrofe se a proposta de corte da remuneração corporativa fosse aprovada e enfiaram a viola no saco. Com certeza, a Economiesuisse será toda ouvidos a visões alternativas e mudará seu comportamento.

                Se retomo este episódio helvético, não é somente para cumprir uma função informativa, mas também para abordar o outro lado daquele país. Esse mecanismo de participação popular é excelente para colocar freios nos donos do poder, para lembrá-los de que não podem sair muito da linha, enfim uma atitude típica de países desenvolvidos em que a classe média tem voz para exigirpadrões de governança e impedir que haja as disparidades de renda típicas de países subdesenvolvidos. Por outro lado, há o revés da moeda deste ativismo dos cidadãos que se reflete no exterior: os países de Primeiro Mundo são excelentes para defenderem seus próprios interesses com unhas e dentes aonde quer estejam, indepedentemente das consequências sobre povos mais despreparados.Neste momentodevo mencionar a FIFA, a famigerada organização sediada em Zurique que tornou-se bode expiatório das manifestações contra a corrupção que estão varrendo o Brasil. Digo famigerada porque ela vai lucrar muito com a Copa do Brasil de 2014, às custas do povo brasileiro que vai pagar pelo circo.

                No entanto, eu seria ingênua e leviana em colocar a FIFA como vilã, mesmo porque, como disse aqui na semana passada, ela não é uma organização de direito internacional público, e portanto não assina tratado com nenhum país que vai sediar a Copa. As condições da FIFA, incluindo a qualidade dos estádios construídos pelo Brasil afora, foram impostas pela Lei Geral da Copa, aprovada no Congresso Nacional, oficialmente a Lei 12663 de 5 de junho de 2012. Foram nossos representantes que se comprometeram a proporcionar a infraestrutura necessária à realização do evento, e como estamos a ver agora que o povo acordou para a total inversão de prioridades que foi a decisão de sediar um evento que vai nos custar bilhões de reais, nossos representantes não nos representam de nenhuma maneira.

                O total descolamento entre nossa democracia de escolher entre o vermelho e o azul e as aspirações do povo tornou-se flagrante nestes últimos dias. É espantoso o silêncio sepulcral dos nossos deputados, senadores, governadores, prefeitos nesta semana, todos caladinhos, encafofados sabe-se lá onde, alguns na Rússia, ensinando como organizar uma Copa aos próximos hospedeiros do parasita futebolístico. Onde está o Lula, onde está o Aécio Neves, onde está a Marina Silva, para cobrir um largo espectro político? O povo está falando por meio de cartazes, por meio de gritos de ordem, e nossa classe política está pairando no ar, não sabendo onde pousar, seja para fazer um mea culpa e pedir perdão pelas trapalhadas, seja para condenar as manifestações. Os únicos que se pronunciaram foram o prefeito e o governador do Rio de Janeiro, mas a respeito da atuação da polícia, não sobre o conteúdo dos protestos em si. E Dona Dilma, que prometeu que vai nos ouvir, com toda a condescendência da mãe que quer controlar as manifestações para seu proveito nas futuras eleições.

                Uma honrosa exceção ficou por conta do deputado federal Romário. Recomendo assistirem ao vídeo em que ele manifesta sua opinião claramente. Parece que o nascimento da filha deficiente do baixinho fez com que ele descesse do Mundo de Caras em que vivia ao lado de belas mulheres, festas e diversão e aterrissasse no Brasil real, em que o Primeiro e o Terceiro Mundo convivem intimamente, para nosso prejuízo.A postura de Romário é ainda mais elogiável quando vemos outros ex-jogadores que tentam ser politicamente corretos para não ficarem impopulares, mas não conseguem ser sinceros. É o caso de Ronaldo e do Pelé, cujo apoio às manifestações é meramente protocolar. O Sócrates nesta hora faz uma falta!

                Prezados leitores, ninguém sabe no que isso tudo vai dar. Pode ser que finda a Copa das Confederações haja um exaurimento natural, pode ser que a imprensa internacional ache um assunto mais interessante, tipo uma guerra total na Síria, e percamos nosso palco, pode ser que os vândalos tomem conta e dêem o tom dos protestos. Mas eu nunca esperei ver isso na minha vida e estou vendo nós brasileiros, de paciência bovina, nos levantarmos. Uma lição deve ser tirada, que éa de que precisamos achar canais de expressão de nossas prioridades alternativos aos mecanismos da nossa democracia de fachada que provaram ser tão falhos. Os plebiscitos à moda suíça são uma saída, colocada aliás por nossa própria Constituição, propostas de emenda constitucional, voto facultativo, algo terá que ser encontrado. O que não podemos é deixarmos a peteca cair. É preciso que façamos uma blitzkrieg para despertarmos nossos políticos do seu sono em berço esplêndido pago com nosso dinheiro. Uma coisa já conseguimos: a FIFA e a Copa do Mundo nunca mais serão as mesmas depois que nós brasileiros denunciamos os gastos faraônicos com elefantes brancos e exigimos hospitais padrão FIFA para o povo.

                Este é apenas o começo, nossa indignação deve ser constante, caso contrário ela servirá apenas como manchete de jornal e não terá efeitos práticos. A luta continua!

Categories: Politica | Tags: , , , , , , | 1 Comment

Tercero mundo es una m…

Manda a conta para a FIFA

Pixação em um muro na Rua Bela Cintra em São Paulo após as manifestações do dia 13 de junho contra o aumento da tarifa de ônibus

                Eu sempre aprendi nas minhas aulas de história que o Brasil passou por ciclos econômicos que acabaram em tragédia ou, para ser menos pessimista, em ressaca. Tivemos o ciclo da cana de açúcar no Nordeste nos séculos XVI e XVII, que durou até o momento em que passamos a sofrer a concorrência do produto das Antilhas fabricado nas colônias holandesas. O resultado foi que o Nordeste, que era o centro da vida econômicano Brasil, mergulhou nas sombras da pobreza e do atraso das quais até hoje não se recuperou totalmente. Depois tivemos o ciclo do ouro nas Minas Gerais no século XVIII, que perdurou até oesgotamento dos veios dos rios e deixou como legado a opção pela não produção de manufaturas tanto no Brasil quanto em Portugal, já que poderíamos comprar da Inglaterra os têxteis e demais produtos que ela precisava desovar. Assim, a industrialização no Brasil só ocorreria de fato no século 20.

                Já no final do século XIX tivemos dois ciclos econômicos, o da borracha, no Nortedo Brasil e o do café, no Sudeste. O primeiro durou até o momento em que os ingleses levaram as seringueiras para a Malásia e lá iniciaram suas plantations que tornaram o látex natural brasileiro mais caro. Deixou como legado um teatro esquecido em Manaus que só no final do século XX foi restaurado. O segundo ciclo durou até a quebra da Bolsa de Nova York e nos deu o golpe de 30 e o governo de Getúlio Vargas, que marcou a história brasileira para o bem e para o mal.Na década de 60 com a construção de Brasília, tem início o que eu vou chamar de ciclo da dívida, que é conhecido entre nós como o do milagre econômico da substituição das importações: industrializamo-nos à custa de muito dinheiro tomado no exterior, cujo pagamento o governo acabou assumindo e gerou com isso o ciclo da estagflação dos anos 80, em que vivemos para pagarmos juntos por um crescimento econômico excludente que não lançou as bases do desenvolvimento porque não nos permitiu ir além do mero crescimento do PIB.

                Ufa! Percorri nesses dois longos parágrafos praticamente 500 anos de história brasileira e chego ao presente, ao século XXI, em que estamos passando pelo que denominarei de ciclo da Copa. Vivemos anos de estabilidade dos preços depois do sucesso do Plano Real no controle da inflação e tal estabilidade se traduziu em um ambiente mais calmo depois dos conturbados anos de choques econômicos ortodoxos e heterodoxos. Issofez com que passássemos a nos ver, com a ajuda de investidores internacionais, ávidos em lucrar com nossos títulos de dívida que pagavam juros tão atraentes, como parte dos BRICS. Não éramos mais Terceiro Mundo, ou país em desenvolvimento, passamos a ser país emergente que está desabrochando depois de um longo período de dormência. A hiperinflação, a instabilidade política ficaram para trás, não somos mais uma republiqueta das bananas em que um ditador substitui outro, em que muda-se de moeda ao sabor das invencionices dos economistas de plantão.

                Daí por que chamo este momento econômico de Ciclo da Copa. Nossa escolha como sede da Copa do Mundo de 2014 coroa nossos esforços para tornarmo-nos normais, fazermos parte da comunidade das nações do bem, que não patrocinam o terrorismo, que não perseguem seus próprios cidadãos por motivos políticos, religiosos ou étnicos. A Copa do Mundo vai nos dar visibilidade, mostrar que o Brasil é capaz de organizar um evento internacional, e principalmente, vai nos colocar definitivamente no mapa do turismo, o que talvez seja o maior legado da copa.

                  Bem, eu já escrevi sobre o que acho de sediar a Copa do Mundo no Brasil quando eu ainda colaborava para o finado Montblatt, portanto não irei repetir-me, bastando dizer que acho que os benefícios, para alguns, ficarão muito aquém do saldo a pagar que será de responsabilidade de todos os brasileiros, por muitos anos a fio. Só peço que meus leitores se atentem para a coincidência infeliz do contexto internacional em que estamos a promover esta gastança de dinheiro. As informações que darei aqui tirei de um vídeo muito instrutivo a que assisti no You Tube, “A Caminho da Copa”. O orçamento da realização do evento está por enquanto em 60 bilhões de reais. Digo por enquanto, porque se ocorrer o mesmo que ocorreu nos Jogos Panamericanos, em que os 300 milhões originais transformaram-se em 4,5 bilhões, que é o que foi efetivamente gasto, então podemos esperar que a cifra multiplique-se por pelo menos três.

               A coincidência infeliz deve-se ao fato de que neste exato momento, em que estamos construindo os Itaquerões e acabamos de entregar um Maracanã descaracterizado, nosso recém-adquirido status de país emergente confiável está sendo posto à prova. A economia global está em crise e os Estados Unidos, para defenderem sua moeda, planejam aumentar os juros, o que torna nossos títulos menos atraentes aos investidores. Nos próximos meses seremos testados, e na verdade já começou. Só em junho o Banco Central do Brasil gastou 5,7 bilhões de dólares para defender o real dos especuladores que estão começando a desconfiar mais seriamente do estado das nossas finanças públicas. Para aqueles que argumentarem que nossas reservas, em torno de 375 bilhões, serão suficientes para aguentar a fuga de capitais e cobrir o déficit em conta corrente, em 2008 a Rússia, outro emergente, gastou em poucas semanas 210 bilhões de dólares para defender sua moeda dos especuladores. Estes números foram retirados de um jornal inglês, o Daily Telegraph (http://www.telegraph.co.uk/finance/financialcrisis/10119591/Brazil-losing-reserves-fast-as-it-comes-under-speculative-attack.html )

               O ponto é que a incerteza na Europa, a diminuição do crescimento da China, a maior compradora das nossas commodities, e a renovada atratividade dos títulos americanos em face dos nossos podem provocar um estouro da boiada, e até a necessidade de uma maxidesvalorização da nossa moeda. E como sempre, apesar de toda retórica do governo de que estamos preparados para enfrentar turbulências, sabemos que nossas soluções são sempre remendos. A qualidade dos gastos públicos, a natureza do nosso crescimento econômico, ainda muito pouco sustentável, tanto que ao menor sinal de problemas externos ele já murchou completamente, nada disso foi resolvido. E ainda temos a Copa para fazer. O povo brasileiro já está pagando a conta (50.000 remoções compulsórias até agora de pessoas de suas comunidades, permissão dada pela Lei Geral da Copa de ultrapassagem dos limites de endividamento colocados pela Lei de Responsabilidade Fiscalde 2000, o que será uma grande desculpa para que os governantes coloquem todos os seus excessos na conta das necessidades do evento, destruição de um símbolo do Rio de Janeiro, o Maracanã, que se transformou em arena). Enquanto isso a chiquérrima FIFA, sediada no Primeiro Mundo, que nem organização internacional é, mas que nos impôs uma série de condições como se estivéssemos obrigados por tratado assinado e ratificado, vai lucrar com a venda de ingressos, de direitos de transmissão, etc. Um grande negócio. O povo lá de cima é sempre muito esperto do que nós ao sul do Equador…

                Espero sinceramente que as tais das arenas multiuso não se transformem em elefantes brancos como na África, em que pensam até em demolir os estádios devido ao alto custo de manutenção. E principalmente, espero que este Ciclo da Copa não acabe como os outros que tivemos no Brasil. De qualquer modo, pelo sim pelo não, é melhor nos prepararmos para a ressaca da fase pós BRIC que se anuncia, pois como dizia um namorado meu argentino, Tercero Mundo es una m…

Categories: Economia | Tags: , , , , | Leave a comment

Comissão Nacional de Qual Verdade?

A Comissão Nacional da Verdade foi criada pela Lei 12528 de 2011 e instituída em 16 de maio de 2012. A CNV tem por finalidade apurar graves violações de Direitos Humanos ocorridas entre 18 de setembro de 1946 e 5 de outubro de 1988.

Retirado do site www.cnv.gov.br

Uma sociedade que queira lutar contra os seus inimigos com as mesmas armas, com os mesmos instrumentos, com os mesmos sentimentos, está condenada a um fracasso histórico

Ministro Cézar Peluso do STF em seu voto pela constitucionalidade da Lei de Anistia na ADPF 153 movida pela OAB

                Prezados leitores, hoje vou meter-me a falar de um assunto sobre o qual não tenho experiência concreta, afinal eu nasci em 7 de junho de 1972, há exatos 41 anos, e não tenho nenhuma noção de quão intensa ou não foi a perseguição política nos anos de chumbo da ditadura militar. Além disso, meus pais não eram militantes de coisa nenhuma, nunca lutaram por nenhum ideal político. Portanto, não tenho acesso sequer a uma experiênciatransmitidada época entre 1964 e digamos, 1977. Esta é uma grande deficiência, pois impede que eu tenha um ponto de vista imediato doqual partir. Se meu pai tivesse sido “líder estudantil”em algum grande centro urbano no Brasil ele com certeza teria histórias para contar de passagens pelo DOPS, de delações ou mesmo de tortura. Se ao contrário, ele tivesse sido membro da polícia ou do Exército poderia ter-me falado sobre a ideia do perigo comunista, isto é, do medo de o Brasil ser cooptado pela União Soviética e se transformar em uma república tropical socialista, como Cuba, em que haveria entre outras coisas a abolição da propriedade privada.

                Minha decisão de abordar esse tópico deve-se a um episódio que ocorreu durante minha última aula de Direito Penal Internacional. Portanto, é sob o ponto de vista estritamente intelectual que tecerei meus comentários. O fato é que nossa professora falava da Lei de Anisitia de 1979, que livrou os torturadores do aparato estatal brasileiro de qualquer persecução criminal, pois seus crimes foram considerados conexos aos crimes políticos daqueles que lutaram contra a ordem política vigente. A professora ponderava que isso era muito injusto, afinal os perseguidos pela ditadura foram mortos, torturados, exilados e os agentes do Estado acabaram se beneficiando de uma lei que teve como objetivo permitir a volta dos exilados ecolocou uma pá de cal no passado. Como ela é internacionalista, em sua opinião, apesar da chancela dada pelo STF em 29 de abril de 2010 à Lei de Anistia, ela é ilegal porque permite que crimes contra a humanidade que foram cometidos no Brasil fiquem impunes. Para minha professora, a CNV deveria investigar as violações dos direitos humanos e depois deveria haver processos criminais, de preferência no Tribunal Penal Internacional.

                Nesse momento da exposição, um dos alunos teve a audácia de colocar um outro ponto de vista que na verdade não era dele, mas de uma outra professora da faculdade, para quem a Comissão Nacional da Verdade está querendo reescrever nossa história com o objetivo de vingança. Usei a palavra audácia, porque talvez se ele tivesse vislumbrado a reação da nossa mestra não teria ousado questionar os motivos por trás dos trabalhos que já se desenrolam há um ano. Sem exageros, ela ficou furibunda: disse que a outra docente que defendia uma tal ideia, apesar de tão jovem, era uma reacionária, conservadora e só podia ser parente de algum militar. “Não se podem falar coisas assim a jovens de 19, 20 anos, é muito perigoso.”

             Eu realmente decepcionei-me com essa professora porque sua reação foi muito emocional, e ela deixou de ser uma intelectual de universidade, por diversas razões. Em primeiro lugar, desqualificar um argumento lançando ataques ao caráter da pessoa é pueril e não leva a lugar nenhum, só a desentendimentos. Como eu procurei explicar aqui há algumas semanas, ao falar da União Europeia e seus ideais, qualquer argumento em última análise é determinado pelos valores da pessoa, então se é para atacar ideias sob esses fundamentos não há possibilidade nenhuma de diálogo.

                 Em segundo lugar, minha professora nem mais quis ouvir o pobre do garoto, que queria esclarecer a posição da “reacionária”, para que seu nome não fosse jogado na lama acadêmica.Para ela não eram necessárias mais explicações, porque o que tinha ouvido já bastava e qualquer nuance era inútil para demovê-la da ideia de que a outra era uma desqualificada. Isso é paradoxal porque ela ficava repetindo o bordão “eu só aceito argumentos jurídicos”, mas na prática os únicos argumentos júridicos para ela eram aqueles que corroboravam sua visão, os outros não.

                  Por último, e não menos importante, apesar de ao final admitir que tinha se alterado, não pediu desculpas. E acho que deveria tê-lo feito, porque estávamos todos em uma universidade, que funciona sob a premissa de que só a discussão leva à verdade. Infelizmente fomos submetidos a uma saraivada de vitupérios. Claro que a maioria dos alunos concordou com ela, mas o exemplo foi horrível: mostrou que a pessoa que tem o poder, no caso o poder de dar notas, pode fazer do ambiente acadêmico um verdadeiro Fla-Flu, com torcida organizada e tudo.

                Há boas razões para ser contra e favor da Lei de Anistia. A vingança pode ser um sentimento mesquinho, um prato que se come frio, mas com certeza ouvir de alguém que torturou e matou um reconhecimento de sua culpa, e um pedido de desculpas, faz uma grande diferença para alguém que sofreu uma injustiça, é um alívio imediato à dor que não cansa de latejar. E poder enterrar seus mortos é direito pelo qual vale a pena viver e morrer, como Antígona nos ensinou. Por outro lado, não devemos esquecer que houve pessoasque lutaram contra a ditadura no Brasil que sequestraram, roubaram e mataram em nome de seus ideais socialistas ou comunistas. Achar que os ideais da esquerda são melhores do que os ideais da direita e justificam alguns excessos para mim é na melhor das hipóteses ser inocente e na pior das hipóteses é ter má fé, em vista dos acontecimentos históricos na China, Rússia e outros locais onde o comunismo foi tentado.

                Para os que querem saber minha opinião, sou a favor da Comissão Nacional da Verdade, mas a verdade que quero que ela revele não é a que parece estar se desenhando de acordo com os desígnios de pessoas como minha professora: a de que os terroristas de Estado eram maus porque mais poderosos e em maior número, eos seus combatentes eram bons, porque mais fracos e pouco numerosos. Para mim, a lição a ser tirada é que devemos, enquanto sociedade, evitar a todo custo chegarmos a uma situação em que sejamos governados por pessoas que tomam o poder para colocar em prática seus ideais, sejam eles de esquerda ou de direita. Pois quem estabelece como meta os ideais faz do ser humano instrumento, e como dizia o velho Kant, o homem nunca pode ser instrumento, nossa dignidade exige que sejamos fins em nós mesmos. Evitemos portanto o nós contra eles e que a CNV defenda os direitos humanos de todos os brasileiros, incluindo policiais, militares, guerrilheiros, líderes estudantis, camponeses, em suma todos que tiveram alguma atuação política durante a ditadura.

Categories: Politica | Tags: , , , | Leave a comment