Teoria da Conspiração

Ela tem o compromisso com o brasileiro que precisa mais do governo. Tem muita gente que gostaria que nem existisse Estado – o sujeito que produz, entrega parte para o Estado e recebe de volta uma infraestrutura toda deficiente, por exemplo. Mas, para a maioria da população, o Estado é a solução. E, para esse povo, a Dilma tem o que mostrar.

 Trecho da entrevista de Cid Gomes, governador do Ceará, nas páginas amarelas da Veja

 Agências ficam à míngua – Redução de gastos deixa Anatel, Anac e Aneel sem recursos para fiscalização e atendimento

 Manchete do caderno de economia do jornal O Globo de 17 de novembro

            Prezados leitores, eu me considero uma conspiracionista. Esse meu estado de espírito vai muito além de achar que John Kennedy, cujo assassinato completa 50 anos, não foi morto por Lee Harvey Oswald, mas por gente de dentro do governo que queria realizar a Operação Northwoods à qual Kennedy se opunha; que Osama Bin Laden já tinha morrido de insuficiência renal muito antes de Barack Obama ter anunciado de maneira triunfal sua eliminação por um grupo de SEALs (lembrem-se que a materialidade de um crime é obtida pela apresentação do corpo, o que não aconteceu com Osama, que segundo os americanos foi jogado no mar); que a Princesa Diana foi morta por agentes do SAS inglês devido ao seu envolvimento embaraçoso com muçulmanos; que Fukushima é um acidente nuclear sem grandes consequências. Em tudo isso eu acredito, mas não tentarei convencer quem me lê porque não tenho provas cabais, simplesmente confio na palavra de certas pessoas que desconfiam das versões oficiais. Argumentar aqui seria perda de tempo, pois é mera questão de fé. Talvez daqui a algumas décadas, a verdade venha à tona sobre esses episódios, mas nem eu nem meus leitores estaremos nesta Terra. Só me aventurei a falar de Fukushim, porque a perspectiva de ser o desastre ambiental que marcará para sempre a história da humanidade levou-me a compartilhar minha angústia com vocês.

            Meu conspiracionismo tem um lado que acredito seja mais palatável, que é o de acreditar que há certos grupos na sociedade que tramam e se unem a outros para obter vantagens, às custas dos grupos que ficam fora das negociações. Eu não me canso de repetir isso aqui neste meu humilde espaço, mas infelizmente não consigo me calar porque é algo que afeta nossas vidas cotidianamente. Não estou aqui a falar da luta de classes de Marx, porque para ele, pelo menos do que sei do Velho Barbudo, a luta de classes é uma chave de explicação e uma espécie de motor contínuo da História. Para minha mentalidade burguesa, acho que deveríamos criar condições na sociedade não para que esse embate fosse eterno, mas para que pudéssemos chegar a uma entente cordiale. Isso parece estar cada vez mais difícil neste nosso mundo globalizado.

            Nos Estados Unidos, o desemprego atinge níveis alarmantes e a única coisa que o governo sabe fazer é imprimir mais dinheiro para manter os bancos à tona e poderem continuar fingindo que tudo está bem. (Aliás, para quem queira ler uma sátira muito inteligente sobre esse estado de coisas, sugiro esta pequena notícia tirada do realismo fantástico: http://www.theonion.com/articles/recessionplagued-nation-demands-new-bubble-to-inve,2486/). Na Europa a salvação do euro e do projeto da Europa tão querido aos burocratas ciosos do seu ganha-pão justifica tudo, vender tudo a preço de banana, oferecer cidadania européia a quem pagar mais, deixar os cidadãos comuns em situação desesperadora. E no Brasil? Eu seria tola se dissesse que estamos em uma situação tão desesperadora, afinal temos taxa de desemprego de 5,4% atualmente, mas mesmo assim acho que há uma grande conspiração.

            O próprio governador do Ceará que apóia a reeleição de Dilma, admite que o governo federal não faz nada para quem produz, mas simplesmente para aqueles que precisam do governo para sobreviver. Ele implicitamente se refere aos beneficiários do Bolsa Família, dos aumentos reais do salário mínimo. Eu modestamente incluiria aqueles que vivem da dívida do governo, e das benesses VIPs do governo. Afinal, a falta de dinheiro para as agências reguladoras é conseqüência direta das engenharias financeiras necessárias para ter o superávit fiscal primário e pagar os juros da dívida. Portanto, para o “sujeito que produz”, como diz Cid Gomes, o sujeito que precisa ter aeroportos funcionando, aviões voando, ferrovias e hidrovias para escoar a produção, serviços de telefonia eficientes e a preço justo, planos de saúde regulados, estradas em que não se corra o risco de morrer, o que o governo oferece é muito pouco, para não dizer outra coisa. A outra coisa a que me refiro inclui aumentos de impostos como aquele que o Sr. Prefeito Fernando Haddad de São Paulo impôs no IPTU de até 19% com a justificativa de que vai construir conjuntos habitacionais populares. Espero que esse dinheiro que sairá do meu bolso não se esvaia pelo mesmo ralo por que passou o dinheiro que os ficais do ISS deixaram de cobrar dos seus amigos.

            Essa receita de Estado para certos grupos em detrimento dos outros tem dado muito certo nesse nosso Brasil em termos de eleições, ela têm sido a base da nossa democracia. A maioria que não tem elege os candidatos aprovados pela minoria que recebe a parte do leão das benesses e que consente que certas migalhas sejam dadas à maioria que vota para que os interesses dessa minoria influente sejam mais bem servidos. Na segunda página do caderno de economia do Globo há uma entrevista com o Secretário da Receita Federal, que perdeu muitos poderes de fiscalização nos últimos tempos porque aparentemente a prioridade do governo é oferecer parcelamentos de dívidas para multinacionais, as quais, a propósito, em grande parte gozam de monopólios de mercado no Brasil.

            Este é o script que vem sendo seguido à risca: Estado distributivista e ineficiente, que atende a fila preferencial à perfeição, mas que faz o cidadão comum, que não se encaixa em nenhuma categoria privilegiada, penar cotidianamente com impostos altos, infraestrutura deficiente, para utilizar as palavras do excelentíssimo governador, custo de vida que só faz crescer. Não gosto desse filme que se desenrola à minha frente, por uma simples razão: não fui chamada a dar palpites no roteiro. Eu voto, mas nossa democracia é meramente um plebiscito sim ou não a cada quatro anos, sem que haja nuances nas escolhas. Não tenho controle sobre o que os legisladores fazem, muito menos nas instituições que supostamente exercem controle. A mim todos parecem membros de uma única patota que conspiram contra mim. Posso estar esquizofrênica e sofrendo com as alucinações típicas da doença, mas não vejo um grande futuro a longo prazo para o Brasil como um todo como resultado desta grande conspiração.

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Fukushima, a verdadeira celebridade

“Quando penso no futuro de Fukushima, parece que a liberação da radiação será praticamente inevitável. Os níveis de radiação nos prédios 1, 2 e 3 está agora tão alto que nenhum ser humano pode entrar nos núcleos derretidos ou chegar próximo deles. Portanto, sera impossível remover esses núcleos por milhares de anos, se é que será possível.”

(..) um dos primeiros passos que o governo japonês deveria realizar para impedir consequências graves será cancelar os Jogos Olímpicos de Tóquio de 2020.

Helen Caldicott, física australiana opositora da energia nuclear

Em agosto de 2013, quase dois anos e meio após o acidente nuclear, verificaram-se vários vazamentos de material radioativo e, ainda, a possibilidade de um grande transbordamento de água contaminada com material radioativo para o Oceano Pacífico, colocando em estado de emergência o complexo nuclear de Fukushima e acirrando as pressões sobre a Tepco. O governo do Japão acredita que os vazamentos de água estejam ocorrendo há dois anos.

A Tepco havia construído uma barreira subterrânea junto ao mar, mas a água proveniente dos reatores danificados está passando por cima da estrutura de contenção. Segundo um dirigente do Ministério da Economia, Comércio e Indústria do Japão, o volume de água despejado diariamente no Pacífico é de aproximadamente 300 toneladas por dia. Segundo o jornal Asahi Shimbun, uma força-tarefa do governo japonês calculou em três semanas o prazo para a água contaminada chegar à superfície.

Retirado do verbete “Acidente em Fukushima” da Wikipedia

            Quando eu resolvi ter meu próprio espaço virtual para escrever, convenci-me a fazê-lo respaldada na convicção de que eu poderia apresentar um ponto de vista diferente ou fatos pouco divulgados que pudessem ser úteis aos meus leitores: úteis para saberem de algo que não sabiam ou para pensarem algo que nunca tinham pensado. Inovar é algo muito difícil, especialmente em um mundo em que temos excesso de tudo, ainda que obviamente muito mal distribuído. Sempre que sento na cadeira para escrever um artigo pergunto a mim mesma: o que estou trazendo que não pode ser lido nos jornais e nos sites de notícias mais conhecidos na internet? Se eu não consigo me convencer de que o que vou escrever vai além da minha própria personalidade e serve para outros eu desisto. Afinal, auto-idolatria e narcissismo brotam como erva daninha na internet, todos querendo chamar atenção para si, para quão especiais eles são. E na verdade como diz o velho ditado, o cemitério está cheio dos insubstituíveis…

            Dito isso, minha contribuição dessa semana procura passar ao largo de assuntos que deram notícia. Acho engraçado como nós, os bem pensantes, falamos mal das celebridades e no entanto ficamos obcecados com elas. Neste domingo li um artigo de página inteira, escrito por um acadêmico, sobre Alexander de Almeida, considerado um dos reis da noite de Sâo Paulo pela Veja. Mesmo que o artigo fosse de crítica, o fato é que para uma celebridade, independentemente do julgamento moral que se faça sobre ela, o importante é que ela fique em evidência. Julgamentos morais hoje são irrelevantes em vista do valor principal que é consumir, portanto quando falamos sobre celebridades estamos fazendo o jogo delas. A única maneira de não encorajarmos o seu culto seria simplesmente ignorá-las.

            O mesmo ocorre com outro tipo de celebridade, os políticos. Nossos jornais dedicam páginas e página às novas leis, aos novos programas, às alianças dos polítcisos, suas marchas e contramarchas na dança pelo poder. Sou da opinião que se deixássemos de dar importância aos políticos como pessoas e passássemos a focalizar as políticas concretas que são executadas no Brasil, como elas de fato se desenrolam, que resultados elas alcançam independentemente de quem tenha tido a ideia original, tenho certeza que nossa conscientização sobre nossos problemas e as possíveis soluções aumentaria. Mas isso seria pedir muito, porque afinal é muito mais palatável e divertido ver a política como um embate dos poderosos, tucanos versus petistas, Dilma versus Aécio, conservadores versus progressistas: sempre haverá os perdedores e os ganhadores e esse tipo de raciocínio é muito enraizado em nossas mentes.

            Meu assunto é a tragédia de Fukushima, que se desenrola desde 11 de março de 2011. Não tenho condições de entrar nas minúcias do que ocorreu lá porque não sou física nem engenheira nuclear. Meu objetivo aqui é chamar a atenção dos meus leitores para algo tão importante, que terá repercussõesmundiais e que no entanto é tratado de maneira secundária. Repercussões mundiais não só pela água radioativa que está sendo lançada no Oceano Pacífico, pelos reatores que ainda estão queimando, sem possibilidade alguma de serem desligados. As emissões radiativas podem tornar a vida no Norte da Terra perigossísima, e não haveria a possibilidade de transferir um bilhão de habitantes para o Sul do Equador, que ficvaria a salvo da radiação.

          Outro dia assisti na televisão a uma reportagem sobre donas de casa em Seul, na Coreia, que compram peixes somente em lugares em que há medidores de radiação e não há produtos originários do Japão. Infelizmente desastres ambientais não dizem respeito a uma determinada região, mais cedo ou mais tarde todos que estão na Mãe Terra, como diria o historiador britânico Arnold Toynbee, serão afetados. Afinal, as águas radioativas que estão sendo despejadas no Pacífico correrão o mundo.

           Nem os japoneses e muito menos a comunidade internacional está sendo informada da seriedade da coisa. Tóquio foi escolhida como sede das Olimpíadas de 2020 como se o Japão continuasse a ser um país normal, quando na verdade tornou-se um país condenado a ver a incidência de câncer aumentar exponencialmente, a ver partes do seu exíguo território serem consideradas absolutamente inabitáveis.Aliás, se não tivesse havido o tsunami e os reatores sido invadidos pela água, hoje pelo menos metade do Japão já estaria totalmente imprestável. O Japão é um páis amaldiçoado para sempre por Fukushima e no entanto, a mentalidade é de “business as usual”.

          Prezados leitores, talvez muitos de vocês já sabiam do que está verdadeiramente ocorrendo em Fukushima e portanto minhas informações são irrelevantes. De qualquer forma, meu objetivo foi mostrar que um tipo de acontecimento em que não há protagonistas, não há heróis nem vilões especiais, mas apenas incompetência democraticamente distribuída entre o governo e o setor privado, passa despercebido pela mídia. Eu posso estar sendo pessimista, e só o tempo é o senhor da razão, mas um acontecimento tão enfadonho e técnico como um acidente nuclear poderámudar para sempre a vida na Terra.

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O carro de bois e a modernidade

                  Quem me dera que a minha vida fôsse um carro de bois

                  Que vem a chiar, manhãzinha cedo, pela estrada,

                  E que para deonde veio volta depois

                  Quase à noitinha pela mesma estrada.

                  Eu não tinha que ter esperança – tinha só que ter rodas…

              16º poema de “O Guardador de Rebanhos”, de Alberto Caieiro, persona poética de Fernando Pessoa

          Minhas amigas não sabem, mas eu tenho um interesse velado em conversar com elas, interesse que não revelo porque ele poderia ser mal visto e até causar ressentimentos. Gosto de ouvi-las falar para fazer observações e tirar minhas próprias conclusões. Essas conclusões sempre me são úteis para eu escrever no meu humilde espaço. Se eu fosse absolutamente honesta eu deveria até pagar uma comissão a elas porque contribuem para o meu trabalho intelectual, mas como eu não recebo nada para escrever, também não tenho como dar-lhes nada.

          Será a terceira vez seguida que uma determinada amiga minha me serve de fonte de inspiração. Quem me acompanha sabe que ela iria afogar as mágoas em Nova York enfiando o pé na jaca nas compras e sabe que o irmão dela morreu em um acidente, acidente este que adiou a sonhada viagem. Adiou, mas não abortou, aliás, só reforçou o acerto da decisão de tomar um empréstimo no banco a ser pago durante os próximos meses para financiar a viagem. Afinal, é preciso aproveitar a vida, porque a morte é certa. Num café de despedida, ela revelou-me uma crise existencial sobre a compra do I-phone. Não queria gastar muito, mas queria comprá-lo, afinal não pode perder a oportunidade: na verdade dois, um para cada filha, que estão com I-phones 3, já bastante desatualizados.

        Com certeza, é uma oportunidade imperdível. O Brasil tem o I-phone mais caro do mundo segundoo site Bloomberg: US$1.016,74, ao passo que nos Estados Unidos o preço é de US$649. E hoje quem não tem um I-phone é alguém deveras esquisito, como aquele que não tem perfil no Facebook. São realidades da vida, fatos inquestionáveis (como ouvi em uma palestra corporativa outro dia), não dá para negar, não dá para estar fora do mundo.

         Eu consigo ver algum sentido nessas odes à modernidade em países que já chegaram lá em termos de proporcionarcondições decentes de vida à maioria da população. Afinal, quem usa um I-phone e sabe explorar todas as mil e uma utilidades pode até ganhar dinheiro. Outro dia um taxista informou-me que agora ele consegue pegar passageiros por meio de um aplicativo que permite aos usuários da invenção genial de Steve Jobs localizarem um táxi disponível nas proximidades. Para o taxista, principalmente para aqueles que não têm ponto e não querem pagar comissão para uma empresa de rádio-táxi, é uma grande vantagem econômica. Para os usuários, também representa economia de custo, pois não precisam ligar para alguém lhes arranjar um táxi. Eu seria idiota se achasse que o I-phone é uma engenhoca inútil. Para turistas que querem conhecer os pontos principais de uma cidade e estão perdidos, nada como ter mapas facilmente acessíveis pelo simples toque digital. Isso economiza tempo e tempo, mesmo tempo de lazer, é sempre dinheiro.

          O que me incomoda no I-phone é o quanto ele revela em nosso Brasil varonil essa nossa triste sina de queimar etapas, de colocar o carro adiante dos bois. Esta minha amiga vai a Nova York para entre outras coisas comprar um I-phonee ao mesmo tempo está se endividando perigosamente, quando se considera que ela não tem emprego fixo, e portanto não tem renda garantida. Outro dia ouvi duas mulheres no metrô, mulheres que via-se serem simples, conversando: uma delas dizia que iria abrir crédito nas Casas Bahia para comprar um celular, porque não “tinha mais condições de não ter um celular”. Lembro até hoje de quanto fui ridicularizada por uma conhecida a respeito do meu celular Nokia de 100 reais. Ela insistia para que eu comprasse um celular decente e eu pensava com meus botões que eu preferia ser uma sem celular do que ser uma criatura como ela que vivia de vender biscoitos em feira e tinha os dentes amarelos típicos de quem só frequenta o dentista quando está com o canal supurado. Mas eu fiquei quieta, porque se eu lhe falassse algumas verdades ela se sentiria humilhada e eu não vi razão de ser tão cruel. Tenho segurança suficiente para não me ofender com bobagens como essa quando me acusam de ser retrógrada.

         Endividamo-nos sem poder para comprar os símbolos da modernidade, mas fazendo isso ficamos cada vez mais longe da verdadeira modernidade. O governo, de olho nas eleições, vai prorrogar a isenção do IPI para carros, para garantir as vendas e os números do PIB a serem mostrados nos famigerados programas eleitorais. Pensamos na turbinada temporária do PIB e esquecemos de uma visão de longo prazo: será que o estímulo aos carros é viável sob o ponto de vista da mobilidade urbana? Será que os congestionamentos causados pelo excesso de carro nas ruas no final causam mais perdas do que os ganhos causados pelo aumento das vendas? Será que a maior poluição, o número de negócios perdidos devido ao tempo gasto pelos motoristas parados dentro dos carros, não tiram muito mais pontos do PIB do que aqueles adicionados pela indústria automotiva? Enquanto isso, a bicicleta, um meio de transporte típico dos muito pobres, é totalmente desestimulado, em vista da alta carga tributária (40,5% contra os 32% dos carros) e dos altos preços das peças, o que faz com que uma bicicleta custe R$ 640 reais no Brasil e R$ 286 reais nos Estados Unidos. Ainda cultivamos a mística dos anos 50 de que fabricar carros é algo moderno, é algo que mostra que progredimos.

         E assim caminhamos de arroubos em arroubos, até o carro sem bois descarrilar. Nesta semana o grupo OGX do senhor Eike Batista entrou com pedido de recuperação judicial. De acordo com Dilma Rouseff “Eike era o nosso padrão, a nossa expectativa e sobretudo, o orgulho do Brasil quando se trata de um empresário do setor privado.” Concordo com Dona Dilma em gênero, número e grau. Como não concordar, Eike é o padrão, ele reflete a média da mentalidade brasileira de ser incapaz de construir o futuro pela obstinado trabalho no presente, de gastar o que não temos: o negócio do seu Eike era vender possibilidades como realidades, projeções como fatos, usufruindo sem ter ainda nada de palpável. Seus executivos se deram muito bem, alguns vendedores do futuro saíram com bônus de 200 milhões de reais. Quem ficou com a dura realidade das dívidas, das ações que viraram pó nas mãos dos investidores, que apague a luz.

         Quem sabe um dia nós brasileiros deixemos de querer ser modernos a todo custo e simplesmente sigamos o conselho do poeta, puxando nosso carro de boi lenta e inexoravelmente, sem ansiedades, sem atropelos, sabendo que um dia chegaremos lá?

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Minha máxima culpa

          Prezados leitores, quem de vocês nunca sentiu culpa? A culpa é um sentimento difundido na sociedade e os psicanalistas dirão que a origem da culpa deve-se à nossa cultura judaico-cristã, ao Deus terrível que pune os pecadores. Com certeza há um componente religioso na culpa, afinal se não nos sentíssemos culpados perante Deus não obedeceríamos a seus comandos, e devemos lembrar que a maioria dos códigos de ética vigentes no mundo tiveram origem em alguma religião. Por outro lado, neste nosso mundo cada vez mais laico, em que a influência das religiões tradicionais é cada vez menor, o papel da culpa em nossas vidas não deixa de aumentar. Querem ver? Vou lhes dar alguns exemplos que não me deixam mentir.

          O mais óbvio deles é o sucesso presidencial do Partido dos Trabalhadores capitaneado por Lula. Seria natural e legítimo em uma democracia, em que todos têm o direito de perseguir seus prórios direitos, que os que se beneficiam dos programas sociais, notadamente do Bolsa Família, votem maciçamente no Lula e na Dilma, para que tenham segurança da garantia de seus benefícios. É intrigante contudo, que cidadãos brasileiros que não se beneficiam de maneira nenhuma de programas sociais, que na verdade financiam tais programas pelos impostos que pagam, votem no Partido dos Trabalhadores. Em minha opinião, esse apoio da classe média, que é um fator decisivo para as vitórias do PT, deve-se à culpa que ela sente pela miséria brasileira. A mesma culpa que sentimos quando vemos mendigos na rua, pedintes, gente que remexe o lixo à cata de algo comestível ou utilizável.

          Assim, garantindo que os muito pobres tenham suamesada para lhes proporcionar o mínimo para sobreviverem, apaziguamos nossa consciência e sentimo-nos em paz. Não importa que as transferências de renda tenham chegado a um patamar em que seu retorno é cada vez menor para a diminuição das desigualdades e que seja necessário um salto de qualidade para que possa haver mudanças mais profundas. O importante é este sentimento de considerar-se moralmente correto e estar contribuindo para o progresso do Brasil, ainda que a passos de tartaruga. mas podemos retrucar: sim, mas já é alguma coisa, pois antes nada se fazia pelos miseráveis e agora estamos fazendo, isso é uma revolução!Qualquer argumento em contrário será insensível, retrógrado: distribuição de renda é sempre uma coisa boa e quem quer diga algo em contrário é simplesmente culpado. Ponto final.

          De fato, rebater argumentos fundados na culpa alheia é muito difícil, pois aqueles que elaboram esses argumentos normalmente são seres dotados da especial capacidade de manipular. As cotas na universidade pública são outra seara em que a culpa é o fundamento de todo o edifício intelectual dos defensores do programa. Aqueles que conquistaram sua vaga na universidade pública devem se sentir culpados porque o seu mérito foi fruto não do esforço pessoal, mas simplesmente (uso a palavra simplesmente com o claro objetivo de desmerecer o tal do esforço) porque tiveram acesso ao privilégio da escola particular. Colocando pessoas na universidade que lá não estariam se não fosse pela cota estamos resolvendo o problema da educação no Brasil, pois estamos aumentando o acesso dos mais humildes à formação acadêmica, certo? Errado, se considerarmos que o objetivo da educação é formar pessoas que possam ser produtivas para o país, que possam, munidas do conhecimento que adquiriram nos bancos escolares, solucionar problemas práticos e com isso criar riquezas. As cotas só nivelam por baixo, mediocrizando o ensino porque partem da premissa que educação é simplesmente um direito que deve ser dado a todos indiscriminadamente, quando na verdade a educação, para que tenha uma influência positiva na sociedade, deveria ser um dever e uma oportunidade de desenvolvimento. Quem usufrui da educação unicamente como direito, direito a merenda, a notas, a diploma, será aquele que desrespeita o professor, que cola, que se preocupa muito mais com o fim que é o diploma, do que com o processo, que é o aprendizado. Infelizmente o debate sobre as cotas é dominado por aqueles que querem fazer os privilegiados se sentirem culpados e portanto ele gira em torno da ideia de que tirar os “filhinhos de papai” e colocar os “raladores” é algo que produzirá maravilhas e nos fará subir 30 degraus na escala PISA que mede o nível educacional dos países do mundo.

          Nesta semana tivemos mais um exemplo magistral do uso da culpa para fins escusos no terrorismo politicamente correto dos defensores dos beagles do Instituto Royal que os utilizava para experimentos com remédios. As pessoas do bem, preocupadas com o bem-estar dos fofos dos beagles invadiram o estabelecimento, depredaram as instalações de um local que funcionava de acordo com as leis vigentes, afinal tinha alvará da prefeitura,e resgataram os bichos. Os donos do Instituto sofreram prejuízos, perderam a licença de funcionamento de uma hora para a outra (será porque os cachorros uivavam muito?) e são culpados, até prova em contrário, de usarem animais como instrumentos para experiências científicas com propósito comercial, portanto são uns capitalistas que só pensam no dinheiro e não dão a mínima à dignidade do animais. Isso justifica que seu patrimônio seja avariado, que seus esforços sejam jogados na lata do lixo.

          Perdoem os leitores que são fãs dos direitos dos animais, eu também sou e quando minha cachorra morreu de falência renal aos 17 anos em janeiro passado eu senti como se houvesse perdido um membro da família. Eu pessoalmente não teria estômago para fazer experiências com animais e vê-los sofrer, mas para quem tem esta insensibilidade devemos agradecer-lhes pois sem essa capacidade de certos homo sapiens, não poderia haver testes de remédios para que sejam usados com segurança em seres humanos. É claro que a nova sensibilidade para com a dignidade dos bichos vai nos levar a inventar meios alternativos de testes de remédios, mas daí a considerarmo-nos moralmente superiores porque temospena dos pobres beagles engaiolados e darmo-nos o direito de invadirmos e depredarmos propriedade alheia vai um passo muito grande. É a típica arrogância dos narcisistas que nunca erram e que consideram que qualquer indivíduo que não reflita a imagem do Narciso é culpado de lesa-majestade.

          Para finalizar meu rol de culpados, quem melhor do que as mães? As mães que acham que devem fazer tudo pelos filhos e que se consideram desnaturadas se não fazem esse tudo e se consideram incompetentes se os filhos fazem algo ruim? Semana retrasada o irmãode uma amiga minha morreu em uma das estradas da morte brasileiras em seu Celta, onde estava com a mulher que também morreu e os três filhos, que sobreviveram. Uma grande tragédia, considerando que ele não deixou bem nenhum, não tinha vínculo empregatício e portanto obrigará os parentes a tomar conta de crianças ainda pequenas. Advinhem quem deu o dinheiro para o moço comprar o carro no financiamento? A mãe! A mãezona que passava a mão na cabeça do filho coitadinho e no frigir dos ovos foi indiretamente responsável pela sua morte. Afinal, se o dono do Celta não tivesse tido dinheiro da progenitora para comprar ele teria pego um ônibus para viajar e estaria vivo para cuidar dos seus filhos até que eles chegassem à vida adulta.

          A culpa e os inventores da culpa, os narcissistas, são vencidos com auto-estima, que leva à lucidez, à razoabilidade, à maturidade. Se não tenho esperanças que como sociedade deixemos de chafurdarmos na infantilidade da culpa, ao menos acho que individualmente possamos nos tornar adultos que têm direitos e obrigações, mas que deixaram a culpa para trás quando assumiram plena responsabilidade pelo própriodestino.

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90 milhões em ação

O total gasto pelo Poder Judiciário foi de aproximadamente R$ 57,2 bilhões, comcrescimento de 7,2% em relação ao ano de 2011. Essa despesa é equivalente a 1,3% do produto interno bruto (PIB) nacional, 3,2% do total gasto pela União, pelos estados e pelos municípios no ano de 2012 e a R$ 300,48 por habitante. (grifo meu)

O total de processos em tramitação no Poder Judiciário aumenta gradativamente desde o ano de 2009, quando era de 83,4 milhões de processos, até atingir a tramitação de 92,2 milhões de processos em 2012, sendo que, destes,28,2 milhões (31%) são casos novos e 64 milhões (69%) estavam pendentes de anos anteriores

 O maior gargalo do judiciário apresenta-se na liquidação do estoque, visto que, inobstante os tribunais terem sentenciado e baixado quantidade de processos em patamares semelhantes ao ingresso de casos novos, o quantitativo de processos pendentes tem se ampliado em função dos aumentos graduais da demanda pelo Poder Judiciário. (grifo meu)

 Os magistrados julgaram mais processos em 2012 que nos anos anteriores. Cada magistrado sentenciou em média 1.450 processos no ano de 2012, 1,4% a mais que em 2011. A cada ano, os magistrados julgam mais processos. Ainda assim, o aumento do total de sentenças (1 milhão – 4,7%) foi inferior ao aumento dos casos novos (2,2 milhões – 8,4%), o que resultou em julgamento de 12% processos a menos que o total ingressado.

 Dados retirados do relatório Justiça em Números de 2013, publicado pelo Conselho Nacional de Justiça 

            Prezados leitores, creio ter passado desbercebida a divulgação na terça-feira dia 15 de outubro do relatório cujo objetivo é, de acordo com o que está escrito na Introdução, “propiciar dados concretos para a formulação e o planejamento das políticas judiciárias. Ler o relatório é algo bem laborioso, para dizer o mínimo: cheio de estatísticas sobre o número de servidores, o número de processos baixados, o número de processos novos, índices de produtividade dos magistrados. Talvez por isso não tenha atraído a atenção da nossa mídia do modo como merece, porque afinal de contas um país que tem praticamente um processo tramitando na justiça para cada dois habitantes tem algo de errado.

            Com base nos dados citados acima é possível fazer um resumo da ópera: o Judiciário está cada vez sendo mais acionado, e por mais que haja aumento da estrutura, diga-se aumento das despesas, principalmente com recursos humanos, que correspondem a 88,7% do total gasto por aquele poder, não é possível dar conta. Aliás, a respeito de despesas, saibam os senhores que a criação de mais quatro Tribunais Regionais Federais está por um fio.Aprovada como EmendaConstitucional no Congresso, ela foi objeto de Ação Direta de Inconstitucionalidade e o Joaquim Barbosa concedeu liminar para suspender o início da instalação dos novos tribunais, que consumirão 922 milhões de reais por ano.

            A quem interessa o gigantismo do Judiciário? Uma resposta óbvia é que interessa aos próprios advogados, ou pelo menos a uma parte deles. A OAB apóia a criação de quatro novos tribunais federais, a Associação Nacional dos Procuradores Federais não, e por isso ajuizou a Ação Direta de Inconstitucionalidade. Portanto, para alguns quanto mais Poder Judiciário maior o número de ofertas de trabalho, para outros, que já têm que lidar com a avalanche de casos, a criação de mais tribunais significa mais caos, pois para criar um tribunal federal não basta erigir um prédio e contratar juízes, é preciso que sejam contratados mais procuradores federais, promotores, defensores públicos, etc.

            Uma respostas mais sinistra é que a presença cada vez maior do Judiciário na vida dos brasileiros interessa àqueles que não têm direito, àqueles que contam com a capacidade dos seus advogados de irem protelando por recursos uma decisão definitiva porque sabem estar errados, mas querem ganhar tempo, e afinal de contas tempo é dinheiro… Podemos incluir nesse rol de enroladores profissionais grandes empresas que violam o Código do Consumidor sistematicamente, que não têm Serviços de Atendimento ao Cliente que resolvam de maneira rápida e satisfatória as reclamações, cujos Departamentos Jurídicos muitas vezes não agem de boa fé porque sabem que qualquer ação que um insatisfeito vá propor na Justiça contra cobrança indevida, falha do produto ou recusano atendimento demorará em média 10 anos para ter um julgamento final.

         Se levarmos em conta que o Poder Público também figura em posição de destaque no rol de participantes do teatro legal, o quadro torna-se mais sinistro ainda: caros leitores, vocês sabiam que 45,4% dos casos na Justiça Federal tem alguma entidade pública como litigante? O topo da lista é encabeçado pelo INSS, 43,12%. Ou seja, há milhares de pessoas neste Brasil adentro que não conseguem obter um benefício previdenciário satisfatório, ou mesmo não conseguem nenhum benefício e recorrem à Justiça. Que país é este em que nem o Poder Público cumpre a lei?

         Pior, além de não cumprir a lei, o Poder Publico muitas vezes se vale do Judiciário como instrumento para arrecadar dinheiro. O próprio linguajar do Justiça em Números é emblemático: “as receitas também aumentaram de forma acentuada e registraram crescimento de 63% no período, (…) a arrecadação de 10,9 bilhões representou mais de um terço das despesas totais.” Ora, o que vêm a ser tais receitas? Por acaso é alguma criação de riqueza que aumente o PIB do Brasil? Não, ela diz respeito, entre outras coisas, a execuções fiscais e impostos. Judiciário e Executivo juntos para tomar nosso dinheiro. Aliás a execução fiscal apresenta uma taxa de congestionamento altíssima, de 89%, ou seja, de cada 100 processos de execução que tramitaram no ano de 2012, apenas doze foram baixados. Tal congestionamento se deve ao fato de que os caso novos ultrapassam em 538.173 o total de processo baixados. Resumindo, o governo tenta arrecadar o quanto pode.

         Até agora citei os números da tragédia, falta falar das soluções. Resolver este gargalo exigiria mudanças políticas e culturais. Políticas porque há muita coisa que nós brasileiros pedimos do Judiciário cujo destinatário mais adequado seriao Legislativo. Não tem cabimento entrar com ação contra a venda do campo de Libra do pré-sal alegando que causa prejuízos ao país. Digo que não tem cabimento, porque os modelos de concessão do nosso petróleo deveriam ter sido discutidos no Congresso pelos representantes do povo. O que ocorre na maioria das vezes é o kit Medida Provisória + voto de liderança que transformao decreto executivo em lei. A interferência cada vez maior de um poder não eleito, como o Judiciário, em que os membros de sua cúpula, o STF, são nomeados, é um perigo para a possibilidade de que tenhamos alguma influência em relação às decisões sobre o nosso destino.

        Culturais porque nós brasileiros temos uma dificuldade imensa de admitirmos que estamos errados e pedirmos desculpas. O espírito dos nossos ancestrais nhonhôs da casa-grande fazem com que nós sempre queiramos nos sair bem em qualquer circunstância, mesmo que isso signifique pisar nos outros, no caso nos seus direitos. Gilberto Freyre explica, aliás como já apontei aqui nesta coluna. Em suma, é difícil para nós aceitarmos enfiar a viola no saco e pagarmos aquilo que devemos, preferimos ir empurrando com a barriga para levarmos a vantagem “gersoniana”.

          E de chicana em chicana, os brasileiros que efetivamente foram lesados, que têm direito a uma reparação justa, ficam no mais das vezes a ver navios. Isso é uma calamidade, um motivo de desesperança que faz com que nossa crença nas Instituições chegue a níveis muito baixos. Se o Legislativo é formado de 500 picaretas como dizia o Lula, se o Executivo só nos toma dinheiro sem dar quase nada em troca, e se o Judiciário não é capaz de resguardar nossos direitos o que nos resta?

          Ia me esquecendo, o site do CNJ de onde tirei todos os números com os quais eu os aborreci é www.cnj.jus.br.

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