Manifesto Minorista

     Não tenho dúvidas de que há minorias politicamente corretas e minorias politicamente incorretas, isto é, há aquelas minorias cujos direitos devem ser protegidos a todo custo, e as minorias cujos direitos não valem um tostão. Eu pertenço a uma minoria cujos direitos devem ser trucidados. Explico-me.

     Minha faculdade está em greve há um mês. Os alunos pleiteam que a grade curricular seja mudada, para que 60 créditos sejam livres, ou seja, para que possam fazer quaisquer matérias que queiram na universidade, independemente de qualquer ligação com o Direito. Também há um problema com relação às matrículas, pois como há falta de professores, não há vagas para todo mundo, então as pessoas acabam não conseguindo se matricular naquilo que querem. Eu vivi esse problema quando fiz o curso de Letras: como eu não estava disposta a dormir ao relento para garantir uma vaga em Filologia Românica, que contava com um único professor, acabei tendo que cursar matérias que a mim eram inúteis, como por exemplo Cultura do Povo Judeu, em que a professora falava do rito da circuncisão.

     São os percalços das universidades públicas no Brasil, com os quais os alunos têm que conviver ao longo de sua carreira acadêmica. Apesar de reconhecer as dificuldades sou totalmente contra a greve de alunos, por uma questão de fundo. Antes de exigirmos qualquer coisa devemos estar plenamente conscientes de que gozamos do imenso privilégio de termos acesso ao estudo superior gratuito e por isso seria de bom tom se cumpríssemosnossas obrigações enquanto alunos, o que inclui comparecimento às aulas, dedicação, etc. Os meus colegas queixam-se do método de ensino ultrapassado, da leitura de códigos, da falta de uma formação multidisciplinar, etc. Mas se houvesse maior participação concreta dos alunos no dia a dia da faculdade, se ele estivessem presentes discutindo com os professores, colocando-lhes perguntas, dedicando-se aos estudos, tenho certeza que o nível das aulas subiria muito, porque nossos mestres sentiriam-se desafiados e teriam que fazer um esforço maior. Reclamar da qualidade do ensino comportando-se como estudantes ausentes para mim é uma leviandade, para não dizer desfaçatez.

     Uso essas palavras pesadas porque a maioria dos que estão insuflando a greve, que têm tocado bumbo pelos corredores da faculdade para inviabilizar qualquer aula, que colocaram cadeiras de pernas para o ar no fundo das salas, cadeiras essas que são patrimÕnio público, são pessoas que aparecem só no dia da prova, mostrando ser tão burocráticos, tão focados no canudo do diploma quanto os professores que eles acusam de ser focados no código. Há duas semanas estávamos falando dos privilégios da Administração em juízo quando a turba entrou sem pedir licença, cantando, tocando bateria e rodeando os alunos como eu que teimavam em continuar, sentados, com a vã esperança de que os grevistas percebessem que queríamos continuar a ter aulas e éramos contra a interrupção da aula. Infelizmente, eles venceram-me pelo cansaço, ou melhor, pelo barulho ensurdecedor da escola de samba improvisada. Quando eu me levantei para sair,exclamei: grande exemplo de democracia que vocês estão dando, impondo a greve a quem não quer fazer greve!

    Agora fica claro o porquê de eu identificar-me como pertencentea uma minoria politicamente incorreta. Faço parte de um grupo que não quer fazer mais nada do que cumprir a lei, afinal estou em uma Faculdade de Direito. Não tenho interesse em política estudantil, não concordo com a pauta dereivindicações pelas razões expostas acima. Quero simplesmente ter aulas, às quais ganhei o privilégio por ter passado em um vestibular que teve critérios objetivos. Não tenho interesse em revoluções obviamente por causa da minha idade, não tenho mais os hormônios necessários para entusiasmar-me com causas, mas também acho queo melhor que posso fazer para o Brasil como retribuição por terestudado cinco anos de graçaé ser uma boa profissional que não engane ninguém por malandragem e que não faça ninguém perder dinheiro por incompetência. Sou uma conservadora, por isso acho que a tarefa precípua deum cidadão em prol da sociedade é cumprir suas obrigações. Fazer greve não vai resolver os problemas do ensino jurídico no Brasil, ao contrário exacerba-os: estudantes da lei que descumprem seu dever de estudar, pagos pelo Estado que são, serão os futuros operadores de um direito no Brasil em que a prática da justiça fica sempre muito aquém do blá blá blá colocado na Constituição, nos Códigos.Em minha opinião, greve de alunos privilegiados, que têm outros meios de manifestar sua opinião sobre reforma no ensino, não passa de birra de adolescentes que não estão acostumados que lhes sejam impostos limites, porque a eles tudo é dado.

     Prezados leitores, não sou paladina da moralidade, apenas espanta-me a inconsistência entre a teoria e a prática de pessoas que têm, ou que deveriam ter, nível intelectual para ver que democracia não é a ditadura da maioria, que greve não pode ser algo imposto aos que não querem aderir, e que não é porque uma minoria é politicamente incorreta e defende a ordem, que ela não tem direito de ser protegida como qualquer das minorias que são mais bemquistas no mercado das ideias. Mesmo porque a tal da maioria que justificaria a greve foi conseguida em assembleia na qual a votação era aberta e nos debates as pessoas que eram contra a paralisação manifestavam-se timidamente ante a maioria dos grevistas.

     Esse pequeno episódio pessoal, que relato a vocês por achar que ele tem alguma relevância para terceiros, mostra que temos um legado ruim da ditadura, um gosto amargo na boca das elites intelectuais do Brasil para quem todo apelo à lei e à ordem é necessariamente autoritário, para quem o revoltar-se contra o status quo é necessariamente bom. Nossa democracia ainda tem um quê na mera reivindicação cacofônica de direitos sem que haja uma linha norteadora para nossas escolhas, sem que tenhamos uma exata noção das consequências, tanto boas quanto ruins, das opções feitas. Em outras palavras, não dá para ter tudo na vida, ou como dizem os economistas, não há almoço grátis. É bom que a nossa juventude dourada saiba que para ter educação superior gratuita é preciso abdicar de certas coisas, entre as quais o excesso de reivindicações em um país em que há meninas e meninos se prostituindo e que dariam tudo para ter acesso a um mero curso de corte e costura.

     Estou correndo o risco de perder meu semestre e não me formar por conta dessas reivindicações. É uma perda para o Estado, que paga os professores para nos darem aulas, e para os alunos, que têm sua vida perturbada pela postergação da graduação. Torço para que o clima de torcida de futebol deixe de prevalecer e que as minorias como eu que querem simplesmente estudar tenham um pequeno canto onde possam levar sua vida comezinha, feita de sonhos pequeno-burgueses de ascensão pelo trabalho, longe das grandes ideias dos paladinos das reformas de base.

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A sinistra ditadura do PC

          Prezados leitores, permitam-me ser politicamente incorreta e fazer o papel de advogada do diabo, a respeito de um episódio recente. Vou tentar aqui explorar o outro lado porque acho que toda unanimidade esconde por trás interesses os mais variados, desde aqueles de pessoas legitimamanete indignadas com uma situação que consideram imoral, quanto aquele de cínicos que muitas vezes se aproveitam de uma situação para conseguir atingir propósitos escusos.

        Falarei da questão da lei antigay assinada pelo Presidente da Rússia, Vladimir Putin em junho, que proíbe e sanciona a propaganda de relações sexuais não tradicionais e impõe multas àqueles que realizam paradas de orgulho gay e outras demonstrações afins. Tal lei foi considerada homofóbica em todos os cantos do mundo e levou inclusive a uma conclamação pelo boicote dos Jogos Olímpicos de Inverno que se realizarão na cidade Russa de Soichi em 2014. O herói da causa gay em seu país, David Cameron, que conseguiu a aprovação pelo Parlamento do casamento de homossexuais, expressou-se oficialmente lamentando a tal lei, assim como Barack Obama, que recentemente cancelou uma reunião de cúpula com a Rússia por conta do asilo dado a Edward Snowden.

          Para desempenhar o papel de advogado do diabo a que me propus, devo primeiro investigar as razões profundas pelas quais os russos decidiram adotar tal lei. Digo os russos porque de acordo com uma pesquisa lá realizada pelo Levada Center, 76% dos entrevistados apóiam a lei (para mais detalhes vejam a reportagem  da Russia Today, emhttp://rt.com/news/russia-gay-law-myths-951/). O fato é que após a derrocada do comunismo, com seu ideário de igualdade dos gêneros,os russos estão cada vez mais se voltando às suas raízes tradicionais, que incluem a Igreja Ortodoxa, que como toda grande instituição religiosa, incluindo a Igreja Católica, condena o homossexualismo. Há de se levar em conta também a tragédia demográfica que se abateu sobre o país. A taxa de fertilidade está em 1,61, incapaz de garantir a manutenção da população nos níveis atuais, tanto que o crescimento populacional será negativo em 2013 (-0,02%). Os homens têm uma expectativa de vida de 64 anos e as mulheres de 76 anos.Considerando que a Rússia é o mair país do mundo, esse vazio populacional coloca desafios geopolíticos muito grandes em termos de controle de áreas próximas à fornteira com a China, que sofre com problemas sérios de poluição ambiental, e portanto teria todo interesse em adquirir pela força, ou outros meios persuasórios, terras mais “limpas”.

              Em vista de tal realidade, o governo tem como um dos objetivos tentar fazer com que a população russa aumente sem que tenham que recorrer à imigração, como fizeram muitos países ocidentais em vista da diminuição das taxas de natalidade. Em outras palavras, o lema é “Crescei e multiplicai-vos” e para isso as autoridades russas acreditam que é preciso valorizar a família tradicional composta de homem e mulher e filhos e encorajar relações sexuais que visem a procriação. Com tais metas em sua mira, não é de se estranhar que elas queiram coibir o homossexualismo, que afinal não é um tipo de relação que leva à produção de filhos.

            Pode-se questionar a eficácia da lei que proíbe a propaganda antigay, porque afinal ela parte da premissa de que o homossexualismo é uma escolha que pode ser adotada ou abandonada. Se o homossexualismo for algo inteiramente determinado por nossos genes, qualquer esforço que se faça para educar as pessoas, especialmente crianças, de maneira a adotarem práticas sexuais convencionais, é algo inútil, porque quem nasceu com os genes parao homossexualismo será sempre homossexual. A ciência ainda não nos deu uma resposta definitiva sobre essa questão, e talvez nunca dê, o que faz com que qualquer opinião que se tenha deva necessariamente ser respaldada nas convicções morais de cada um.

         Desse modo, independentemente da eficácia da lei em estimular determinado comportamento por meio da educação antigay, o fato é que o povo russo em sua maioria partilha a convicção de que a disseminação do homossexualismo é algo ruim para o país que deve ser coibido. Não estou aqui fazendo um julgamento de valor sobre se estão certos ou errados, só manifesto minha opinião de que cada povo tem o direito de autodeterminar-se, isto é de decidir sobre como quer viver, que valores quer cultivar, e assim como há muitas pessoas no Ocidente que acham que o estilo de vida gay traz contribuições benéficas à sociedade em termos de inovação e de diversidade, há os que são contra em prol da homogeneidade e da unificação de princípios.

           Por isso causa-me espanto e devo dizer desgosto, esta unanimidade que se criou contra a lei. Respeito aqueles que temem que a figura do “incentivoà propaganda homossexual”seja usada para calar vozes dissidentes e sirva para ostracizar os gays na sociedade russa, mas não respeito dois grupos de pessoas que estão mais vociferando, os fanáticos da correção política e certos políticos ocidentais.

         Quanto ao primeiro grupo, refiro-me àquelas pessoas que teimam em identificar qualquer posição contra o homossexualismo como necessariamente homofóbica. Considero essas pessoas fanáticas pelo fato de que elas consideram que tolerar os homossexuais não é suficiente, é preciso aceitar seu modo de vida sem restrições. Não basta que respeitemos os direitos fundamentais dos homossexuais, que eles sejam livres para viverem da maneira que quiserem em sua esfera privada, e não sejam molestados fisicamente por causa disso. É preciso que aceitemos o modo gay de viver como algo bom e benéfico, que só traz vantagens. Ness linha, apontar qualquer desvantagem das relações homoafetivas equivale moralmente à atitude daqueles que batem em homossexuais, que os matam e que os insultam. Não concordo com tal posição e quem faz tal equivalência na verdade tem como objetivo estigmatizar aqueles que pensam de maneira diferente deles para assim neutralizá-los.

           Quanto ao segundo grupo, refiro-me especificamente ao David Cameron e Barack Obama, que estão se aproveitando desse episódio para divulgarem sua ideia de que a Russia é um país mau, inimigo das liberdades. Coincidentemente a Rússia é um país que se coloca contra os designios de dominação dos ocidentais, que querem derrubar o presidente da Sírianão para ajudar a democracia a avançar. O objetivo é simplesmente neutralizar um inimigo de Israel, que quer ter rédea solta para expulsar os palestinos da Faixa de Gaza. Se é para adotarmos posturas morais em eventos esportivos, devemos boicotar não só os que oprimem homossexuais mas aqueles que matam civis inocentes no Afeganistão, no Paquistão e outros páises asiáticos com seus drones, como fazem os Estados Unidos.

          Não estou a dizer que a Rússia é uma paladina das liberdades, afinal séculos de tzarismo, leninismo e stalinismo deixam suas marcas, e não há dúvida de que em vista do seu passado, feito de pogroms, de gulags e de trabalhos forçados, não é irrazoável pensar nos abusos que uma tal lei contra a propaganda homossexual pode ensejar. Meu objetivo é ver o outro lado da história e mostrar que as ideias politicamente corretas muitas vezes na prática acabam erncorajando comportamentos que elas teoricamente condenam, como a intolerância. Se há perseguição a homossexuais, também há perseguição àqueles que não compartilham o ideário ocidental hoje em voga, que prega o descolamento de toda tradição, considerada necessarimaente retrógrada e ruim.Oxalá que no futuro consigamos fazer com que os tradicionalistas e os modernos tenham uma convivência melhor de maneira que os dois grupos possam viver suas vidas paralelas sem serem oprimidos mutuamente. Tenho lá minhas dúvidas.

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Heróis e vilões

                  Eu nunca fui ao cinema assistir a um filme de James Bond, mas às vezes assisto a alguns trechos na TV, pois vire e mexe há o festival 007 com todos os galãs que interpretaram o espião britânico, desde Sean Connery, passando por Roger Moore, Timothy Dalton até o atual, Daniel Craig. Nos primeiros tempos enfatizava-se a inteligência do 007, suas tiradas espirituosas, seu trato com as mulheres, era um gentleman, um homem que reunia o poder e educação para realizar as missões que lhe eram confiadas.

                   Nos últimos tempos, porém, com Pierce Brosnan e especialmente com o clone do Vladimir Putin, eu tenho a impressão de que a série ficou mais ideologizada, no sentido de ser um instrumento para veicular a ideia de que o Ocidente, capitaneano pelos Estados Unidos e secundados pela Inglaterra, a pátria de James Bond, são da turma do bem, da democracia, da prosperidade, e os vilões dos filmes são todos localizados em países que não fazem parte do círculo de amigos dos americanos, seja a Coreia do Norte, Cuba, Rússia, Bolívia, China. Coincidentemente, todos os inimigos dos Estados Unidos nos filmes são repúblicas autoritárias, ou repúblicas das bananas,ou dirigidas por loucos que devem ser combatidos. Tenho certeza que um dos próximos filmes terá alguma intriga se desenrolando no Irã.

                Aliás, talvez Hollywood nem precise se valer de algum vilão iraniano para passar o recado. Afinal, Argo, o ganhador do último Oscar, que conta a história da fuga de seis agentes da CIA da embaixada dos Estados Unidos no Irã já fez um bom trabalho nesse sentido. Os iranianos são mostrados como religiosos fanáticos e estúpidos que são facilmente enganados pelos astuciosos americanos, capazes de elaborar um plano ousado para saírem do país em meio à Revolução Islâmica de 1979. Há uma série de detalhes factuais inverídicos no filme, e para quem quiser saber quais são, acesse este site, http://mondoweiss.net/2013/02/argos-oscar-failure.html. Isso poderia ser relevado porque, afinal, há certas adaptações que precisam ser feitas para o bem do roteiro e de sua capacidade de prender a atenção do expectador. Por outro lado, fica claro que todas as modificações feitas no que de fato aconteceu em seguida à invasão à embaixada americana servem o propósito de homenagear os feitos dos heróis da CIA que conseguiram escapar ilesos do inferno que era o Irã, como disse Ben Affleck, o diretor de Argo, ao agradecer o Globo de Ouro, e elogiar“os serviços clandestinos e o serviço diplomático que estão fazendo sacrifícios em nome do povo americano todos os dias e nossas tropas que servem no estrangeiro, quero agradecer-lhes muito.” Tais sacrifícios incluíam treinar a polícia secreta do xá do Irã deposto pelo revolucionários, denominada SAVAK, em técnicas de tortura e de interrogatório forçado, alías aprendidas com os nazistas.Este envolvimento dos Estados Unidos com o governo corrupto de Mohammad Reza Shah foi aliás uma das causas de a embaixada americana ter sido tomada de assalto, em uma crise que acabou com o governo de Jimmy Carter.

                Em suma, meus caros leitores, citei apenas dois exemplos de filmes para ilustrar o quanto as visões maniqueístas permeiam nossa percepção da realidade. Isso não é uma fraqueza somente de pessoas que frequentam o cinema e não tem cultura ou curiosidade intelectual suficiente para informarem-se sobre a história buscando fontes escritas.Ela também parece ser um tipo de categoria conceitual que ajuda muitos bem pensantes a olharem para a realidade e formularem seus julgamentos. No caso de pessoas com mais bagagem intelectual a coisa se passa de maneira mais sutil, mocinhos e bandidos são substituídos por “mais pior” ou “menos pior”. Em outras palavras,em vista de escolhas que não são posssíveis de serem feitas inequivocamente, o melhor é tomar partido enfatizando as qualidades de um lado e minimizando-lhes os defeitos, demodo que os pontos positivos possam determinar a escolha. Explico-me citando mais uma vez o caso do Edward Snowden a quem recentemente o serviço de imigração da Rússia concedeu asilo provisório de um ano.

                 Antes de tal decisão, Mario Vargas Llosa já havia escrito um artigo, que li no Estadão, colocando-se contra o que o americano mais procurado do mundo fez sob o argumentoque pode ser resumido no famosoditado popular: “Dize-me com quem andas e eu te direi quem és.”Se A China, a Rússia, o Equador, a Venezuela, países que de acordo com o peruano não cultivam a liberdade política e de expressão como os Estados Unidos fazem, apoiaram de alguma forma ou de outra Snowden, seja oferecendo-lhe ou concedendo-lhe asilo, seja permitindo-lhe escapar de Hong Kong, isso significa que boa coisa ele não está fazendo e a luta dele é um embuste. Afinal,aliando-se a países ditatoriais, paísesem que a imprensa é amordaçada, o americano é um vilão, porque está revelando segredos que podem colocar em perigo a defesa dos Estados Unidos como país democrático e livre.

                Não vou aqui discutir profundamente as premissas do argumento do Mário Vargas Lllosa a respeito dos Estados Unidos como terra da liberdade. Basta dizer que em 30 de julho Bradley Manning foi condenado em 20 das 25 acusações que pesavam contra ele por uma corte marcial, a despeito do fato de que ao revelar o que acontecia no Iraque em termos de torturade prisioneiros e sofrimento gratuito inflingido a civis, nada mais fez do que cumprir sua obrigação de relatar crimes de guerra.  O julgamento de Manning foi digno dos tempos de Stalin em que Nikolai Bukharin foi condenado à morte em 1938 por conspirar contra a derrubada do Estado Soviético. Era certo que seria condenado porque ao revelar as táticas americanas em suas guerras ele acaba servindo o inimigo, os terroristas que precisam ser combatidos. A pena ainda será estabelecida, mas considerando o número de condenações não há de ser pequena, afinal deve servir de exemplo a outros traidores.

                Meu ponto é que parece que os Estados Unidos, ao lutarem contra o bloco soviético durante a Guerra Fria, acabaram por se contaminar com as características dos vilões, e a priorizar a ideologia em detrimento dos fatos. Qualquer coisa vale para combater o terrorismo, incluindo morte de civis, tratamento degradante de prisioneiros, invasão da privacidade de cidadãos, que acabam transformando-se em mal necessário para combater o “mal maior”. Os amantes dos filmes de ação e intelectuais libertários como Llosa podem ainda acreditar que apesar dos defeitos, no balanço geral os americanos continuam a ser os heróis lutando contra os vilões, e que não há como fazer uma omelete sem quebrar os ovos. O problema a meu ver é que há uma tendência clara: os mocinhos de antigamente, que eram definitivamente bons, estão cada vez mais fazendo coisas que pessoas decentes não podem aceitar. Em que momento devemos admitir que o que era perfeito, é o menos pior e vai transformar-se em algo definitivamente maléfico? Qual será o ponto de inflexão para a consciência moral das pessoas? Está aí uma pergunta a que talvez só James Bond consiga responder realizando suas façanhas de 007.

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É dando que se recebe

A única maneira para uma pessoa, uma família, uma sociedade crescer, a única maneira para fazer avançar a vida dos povos é a cultura do encontro; uma cultura segundo a qual todos têm algo de bom para dar, e todos podem receber em troca algo de bom. O outro tem sempre algo a nos dar, desde que saibamos nos aproximar dele com uma atitude aberta e disponível, sem preconceitos.

Papa Francisco em discurso no Theatro Municipal do Rio a políticos e empresários

      Eu era adolescente quando a Assembleia Constituinte foi eleita para escrever nossa nova Constituição. Um dos personagens que se tornaram lendários àquela épocafoi Roberto Cardoso Alves, o líder do grupo entitulado Centrão (lembram-se?). Ele era conhecido por seu bordão franciscano “É dando que se recebe”, que usava para justificar seus conchavos, o toma lá dá cá que caracterizou os trabalhos dos representantes eleitos pelo povo para enterrar de vez o entulho autoritário. O resultado foi que a Constituição de 1988, fruto de contemporizações, ou para usar um termo mais popular, de acochambradas, não mexeu com vários esqueletos ditatoriais, o mais flagrante deles na minha opinião é o do limite ao número de deputados que faz com que os Estados do Sul e Sudeste do Brasil estejam subrepresentados no Congresso Nacional. Mas há também a questão da necessidade de candidatos a cargos eletivos terem de pertencer a partidos políticos, o que impede que haja uma renovação da política brasileira.

       Esses esqueletos nos assombram até hoje e fazem com que sejamos dominados por esta mentalidade pseudofranciscana da troca de favores entre os poderosos. No final das contas, todos, incluindo o paladino da moralidade, Joaquim Barbosa, usam jatos da FAB, e o presidente do STFinclusive recebeurecentemente 560.000 reais em atrasados e ninguém do Executivo ou do Legislativo estrilou, porque também eles têm seus direitos adquiridos,tudo na mais perfeita legalidade. A hospedagem de Dilma no hotel mais caro de Roma para assistir à posse do Papa Francisco não tem nada de ilícito, assim como os 10 mil reais de salário dos garçons do Congresso.

         Em suma, a falta de oxigenação da política brasileira faz dos partidos políticos grupos de castas que se protegem mutuamente e o Poder Judiciário, que deveria servir de contraponto ao Poder Legislativo e Executivo ao fim e ao cabo tem como preocupação precípua garantir seus privilégios. Os juizes brasileiros mostram uma grande capacidade de mobilização quando precisam defender seu direito à aposentadoria integral, a vales-refeição atrasados, mas são pouco criativos para propor qualquer remédio à lerdeza da justiça que vá além de contratar mais funcionários. Eu tive um professor de Direito Previdenciário que toda aula reclamava contra o atentado à Constituição que eram as propostas de fazer os servidores públicos cair na vala comum do INSS. Os argumentos dele eram brilhantes claro, sempre fundados na nossa Constituição, mas nem tudo que é legal é moral.

           Como tornarmos nossos três poderes menos legalistas e mais morais? Não estou aqui a defender golpes de Estado ou revoluções, mas seria preciso que nossas autoridades parassem de usar a letra da lei como escudo protetor do seu egoísmo, da sua cupidez, da sua incompetência e passassem a se preocupar mais com o espírito das leis. Quando a Constituição fala em alocação obrigatória de recursos à educação e à saúde, não basta apenas despejar dinheiro a torto e a direito para cumprir as dotações orçamentárias, é preciso planejamento, método, prioridades.

          A resposta pífia até agora dos poderes constituídos aos protestosmostram que o caminho do povo brasileiro rumo a um maior controle sobre o que os que estão por cima da carne seca fazem é árduo e incerto.Será que o único resultado prático será fazer da Dilma um bode expiatório para que a volta do Lula se torne indispensável? Será que é impossível surgir alguma nova liderança que se aproxime do povo, que o escute de maneira aberta, como pregou o papa no sábado? Será que não haverá nenhum membro dos nossos partidos políticos que esteja disponível para não tratar os manifestantes com condescendência como fez a Dilma em seu discurso no auge dos protestos, em que só faltou nos chamar de parvos por desconfiarmos que talvez os recursos públicos emprestados para a construção das “arenas” não serão devolvidos? Será que não haverá nenhum deputado, senador, governador, vereador que considere que o povo tenha algo de bom a dar além de votos e que suas sugestões devam ser levadas em conta?Será que algum dia vamos parar de ouvir tipos como Sérgio Cabral, amendrontados diante dos protestos , repetirem a cantilena de que só os protestos pacíficos e ordeiros valem? Seu governador, eu concordo que violência é ruim, mas antes de falar algo desse tipo por favor investigue seriamente a denúncia de que agentes infiltrados da polícia foram responsáveis pelo coquetel molotov que foi usado como justificativa para que os soldados pegassem pesado contra manifestantes.Será que algum dia nossos governantes terão uma atitude mais aberta em relação a protestos, que fazem parte da vida cotidiana de países com França, Espanha, Inglaterra, Suíça e outros em que os donos do poder são um pouco mais bem controlados do que aqui? (Será mera coincidência?)

       Infelizmente no Brasil temos esta tendência funesta a eleger bodes expiatórios para eximirmo-nos de examinar as situações mais fundo e tentar resolvê-las. Começamos com Domingos Fernandes Calabar na invasão holandesa, passando por Joaquim Silvério dos Reis na Inconfidência Mineira, ambos “traidores da pátria”. Incluo neste rol de bodes para imolação Paulo Maluf na época da transição democrática, tão parte do status quo ditatorial quanto José Sarney, que acabou nos governando por ter virado a casaca na hora certa. Parece estar ocorrendo o mesmo agora com Dilma, cujo semblante cerrado não ajuda a termos uma visão simpática dela. Eu não votei na atual presidente, mas querer fazer dela a raiz de todos os males é uma grande covardia. A publicação frequente de pesquisas de popularidade mostrando a queda vertiginosa da Sra. Rousseff parece servir este propósito. Trocando a Dilma em 2014 cessam os problemas num passe de mágica… Quem defende isto está ou sendo inocente ou então defendo seus próprios interesses.

           Fiz muitas perguntas ao longo deste texto e não tenho resposta a nenhuma delas. A despeito da minha estupefação,o sorriso infalível do Jorge Mario Bergoglio, torcedor de carteirinha, literalmente, do Club Atlético San Lorenzo de Almagro, tomador de chimarrão, contagiou-me e eu não perco a esperança. A alegria de viver vem da esperança, da fé de que é possível que as coisas melhorem, de que possamos “descobrir novos caminhos” como disse o Papa. Sigo isto na minha vida pessoal, é preciso nos abrirmos ao mundo, explorarmos o que ele tem para nos oferecer, mesmo que ao final o resultado não seja aquilo com que sonhávamos. Espero que enquanto país nós brasileiros possamos fazer a mesma coisa.

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Un village brésilien

          Depois de um ano de labuta, que incluíram duas férias sacrificadas no altar dos livros e do notebook de anotações, acabei meu trabalho de conclusão de curso, o famigerado TCC, que discorreu sobre as disputas do Brasil contra o Canadá em torno dos aviões (Embraer x Bombardier, lembram-se?) e contra os Estados Unidos no caso do algodão. Como patriota brasileira que sou, falei mal dos países desenvolvidos, que protegem com unhas e dentes sua agricultura na Organização Mundial do Comércio por meio de um acordo que tem tantas exceções, ressalvas e tergiversações que fica difícil achar qualquer problema com as políticas agrícolas dos Estados Unidos e da União Europeia. O clube dos ricos alega que a agricultura não pode se submeter aos rigores do livre comércio preconizado por Adam Smith porque ela não tem uma função estritamente econômica, mas social, cultural e ambiental.

        Bem, apesar de tal postura afetar a balança comercial do meu país em virtude da perda de exportações que isso acarreta, não se pode negar que há uma certa lógica. Tal lógica ficou muito clara para mim ao assistir a um programa na TV5 intitulado“Le Village Préféré des Français 2013”. No verão, os franceses, que têm direito a férias remuneradas, picam a mula das grandes cidades e muito frequentemente procuram lugares em seu próprio país. Daí a pertinência de uma enquete sobre quais as pequenas cidades preferidas para descansar em julho e agosto. Para quem tiver curiosidade sobre as vilas campeãs, http://www.france2.fr/emissions/le-village-prefere-des-francais/accueil.

       O que é oferecido aos turistas na Alsácia, na Normandia, nos Pirineus e outros lugares? Basicamente boa comida e bebida, melhor dizendo, comida e bebida típicas de cada região preparadas de acordo com métodos e ingredientes locais: há a pimenta de Espelette, o pernil preparado à maneira medieval em cavernas, chamadas de troglôs, porque formadas a partir da exploração de pedra para construir os castelos dos nobres, as tortas doces do País Basco. Está aí o caráter especial da agricultura. Atualmente, ela responde por 2% do PIB e 3,8% da mão de obra na França, o que a torna insignificante do ponto de vista econômico, mas as externalidades positivas que ela gera justificam os privilégios de que goza. Afinal, esses agricultores e produtores rurais que possibilitam que haja pratos encontrados somente em uma determinada região no final das contas viabilizam a própria indústria do turismo, a maior do mundo: em 2012 a França recebeu 83 milhões de turistas estrangeiros.

          É claro que as pessoas não vão à França somente para comer e beber, vão para visitar museus, construções históricas, etc. Mas o que seriam das pequenas igrejas, das ruínas de castelos senão houvesse pessoas no local, que lá conseguem se manter à custa de polpudos subsídios concedidos pela Política Agrícola Comum, que causa calafrios em todos os países com vocação agrícola natural como o Brasil? Provavelmente, se as pequenas vilas ficassem despovoadas muito do patrimônio histórico ficaria descuidado, para não falar das paisagens, que não seriam floridas e encantadoras como são. Em suma, a agricultura respalda em muito a situação econômica atual em que 80% do PIB da França é produzido pelo setor de serviços.

          Repito, sou uma patriota e quero o bem do meu país. Não vejo chances de o Brasil conquistar mais participação no comércio agrícola mundial por meio de acordos multilaterais, porque como mostrei aqui, embora os subsídios acabem beneficiando grandes produtores de commodities agrícolas e de vacas loucas, não se pode negar que os pequenos produtores beneficiam-se em menor escala, mas com todos esses efeitos benéficos que venho descrevendo. São esses efeitos que gostaria de ver serem imitados no Brasil.

          O turismo no Brasil é anêmico. Atraímos por ano 5,6 milhões de visitantes estrangeiros por ano, o mesmo que a Argentina, um país que é três vezes menor do que o Brasil. Nós brasileiros preferimos viajar aos Estados Unidos e à Europa do que conhecermos nosso país. Claro que há o problema da nossa mente colonizada, mas não há como negar as dificuldades de acesso, os preços que fazem com que Miami ou Paris apresentem uma relação custo-benefício melhor. Não vou tratar aqui do custo Brasil, isso é matéria econômica, vou apenas propor que ofereçamos nossas próprias villages brésiliens, e para tanto precisamos criar nossas próprias tradições.

         Sim, tradição é algo que se cria, não é algo dado, mas algo conquistado. Explico-me: todo lugar tem sua história, seus pratos típicos, bebidas preferidas. A questão é que alguns países conseguem consolidar todas essas idiossincrasias e estabelecer que aquilo é tradicional, agregando valor a um costume pela mera aposição de um nome. Infelizemente no Brasil achamos que só porque fomos fundados em 1500 não temos nada para contar. Mas temos sim, e muito, e para ilustrar meu ponto não vou falar da comida mineira, ou baiana, do arroz de carreteiro, do pato no tucupi. Falarei de duas viagens que fiz no Brasil que foram frustrantes porque não pude visitar locais que para mim eram interessantes e que poderiam sê-lo a outros turistas se isso lhes fosse oferecido.

       Há três anos fui a Sergipe e não houve meio, apesar de muito procurar, de encontrar alguma agência que me levasse a Angico onde Lampião foi abatido pelas forças da ordem. O cangaço é parte da nossa história, da nossa tradição de justiça feita com as próprias mãos à margem do Estado que passa pela Guarda Nacional, pelos linchamentos e pelas milícias de que tanto se fala hoje em dia. Só me restou fazer passeio de barco pela Hidroelétrica de Xingó, e o museu que lá havia sobre as populações autóctones estava fechado. A outra viagem que fiz e que não proporcionou tudo o que podia, foi a Congonhas do Campo, em Minas Gerais. O local de onde Aleijadinho tirava a pedra-sabão, matéria-prima das esculturas dos profetas, está abandonado, disse-me um guia local.

     Ante o estado calamitoso das finanças da maioria dos municípios brasileiros, é urgente criarmos atividades econômicas que possam fazer com que eles deixem de ser eternamente dependentes das verbas do Fundo de Participação dos Municípios. Seria bem-vinda qualquer ajuda financeira que criasse nossas próprias localidades, cheias de tradição para dar e principalmente vender.

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