Aristóteles e o open office

“De acordo com Aristóteles, faltavam a muitas pessoas – na verdade à maioria – dos seres humanos aquelas mais altas qualidades da alma necessárias para a liberdade. A escravidão não era boa somente para o senhor, que tinha à sua disposição instrumentos viventes, mas para o escravo, que recebia orientação que era incapaz de conseguir por si só.”

Retirado da Enciclopédia Britânica, volume 16, edição de 1975

        Desde o final do ano passado eu trabalho num local de open office. Para quem não conheceo termo em inglês, open office é um escritório aberto, isto é, em que não há divisórias nem paredes, de forma que todos fiquem juntos em um mesmo ambiente. Os idealizadores do open office tinham objetivos bastante grandiosos: fomentar o trabalho em grupo e o companheirismo, estimular conversas casuais que levassem ao surgimento de ideias inovadoras, criar um ambiente em que os colegas ajudassem uns aos outros. Tudo muito bonito, perfeito para o nosso mundo sem hierarquias, em que as pessoas são responsáveis por seu próprio trabalho e por sua própria carreira e não devem mais contar com uma empresa paternalista com um monte de gerentes dando ordens a autômatos.

      Viva a participação, viva a a criatividade, abaixo a linha de montagem, o apertar de parafusos, viva o Google, abaixo a Ford (ou melhor dizendo, o método fordista inventado pelo fundador da empresa)! Quem não sonha em trabalhar em um local com redes para tirar uma soneca, um local em que o indivíduo não é um mero empregado com registro em carteira, não é um funcionário que bate o ponto, é mais do que isso é um recurso humano, o maior ativo da empresa? Portanto, para que ele dê o melhor de si e gere resultados deve-se tratá-lo como um ser livre e adulto, capaz de dar sugestões, de participar de igual para igual.

       Meus caros leitores, não sei como uma empresa como o Google funciona na prática. O que vejo é o que a imprensa mostra, e o jornalista que foi ao local para tirar fotos e passar uma tarde não chegou a trabalhar por algum tempo para verificar como a coisa de fato se desenrola. Seria portanto leviano da minha parte dar uma opinião sobre algo que não conheço. O que conheço é o local em que trabalho e digo com todas as letras à la Vicente Matheus, finado presidente do Corithinas, que na prática a teoria é outra.

         O lado negro do open office fica muito claro quando o chefe não está, porque é nesse momento que as pessoas são mais autênticas. Hoje foi um desses dias no meu cafofo corporativo, estávamos livres, leves e soltos, aliviados de em uma sexta-feira não termos os olhares do chefe a perscrutar tudo e todos do fundo da sala (afinal para a “liderança” está é a razão mais profunda para o open office, poder haver um controle mútuo das pessoas, que então vão saber se comportar de maneira adequada). Descrevo-lhes agora o que de fato se desenrola.

        As coversas informais fomentadoras de ideias inovadoras consistem basicamente no comentário sobre os acontecimentos mais espetaculares da semana: o estudante de psicologia que atropelou o ciclista e jogou o braço do infeliz no córrego, o programa da Regina Casé na televisão (perdoem se erro a informação, não tenho certeza se a Regina Casé realmente tem um programa, posso ter ouvido mal), gozações sobre o toque “Shake your body” do celular de um colega,comentários sobre um site na internet que vende aparelhos eletrônicos a preço de banana e claro sobre o facebook, acessado a não mais poder quando o feitor está longe.Não vejo como tal tipo de conversa possa contribuir para melhorar os processos de trabalho.

         É verdade que forma-se uma camaradagem, afinal todo mundo ri junto, conta piadas, mas isso tem um preço. Tamanho barulho e algazarra acaba atrapalhando as pessoas que precisam se concentrar para realizar seu trabalho e as deixam irritadas. Falo por mim, porque realmente tenho vontade de me enfurnar em uma cabine do banheiro quando o chefe não está e o nosso open office vira a gaiola das loucas. Hoje tive grande dificuldade para completar minhas tarefas e se eu pedisse para as pessoas se calarem tenho certeza que seria atendida durante dois minutos no máximo e depois falariam de mim pelas costas na copa ou em outro local. Infelizmente, minhas impressões pessoais são corroboradas por estudos realizados nos Estados Unidos, que mostraram que o barulho intenso diminui a motivação do “colaborador” e a possibilidade de ser solicitado constantemente para ajudar seus colegas diminui a produtividade dos mais capazes (http://ideas.time.com/2012/08/15/why-the-open-office-is-a-hotbed-of-stress/)

       Por tudo isso, e sendo fiel à minha alma reacionária, não posso deixar de concordar com Aristóteles:há pessoas que nasceram para ser escravas. O open office é uma ideia esplêndida para um determinado tipo de pessoa que existe muito pouco na prática. Aquele indivíduo que tem um trabalho apaixonante que o realiza como pessoa, o homem livre que não precisa de chefe para chicoteá-lo e para fazê-lo trabalhar porque ele tem introjetadas em si suas responsabilidades e é feliz sendo virtuoso. Aristóteles no século IV a.C. teve o bom senso de perceber que as pessoas não são iguais e nunca serão por mais iguais que sejam seus direitos. Os idealizadores doopen office vislumbraram o homem ideal, o home da economia do conhecimento, que com sua liberdade contribuiria para a economia capitalista. Bah! Parafraseando o Paulo Francis, que deve ter copiado de alguém: quando ouço falar de ambinete colaborativo de trabalho eu saco meu protetor auricular!

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Jogos Mortais

What is a word really?

It is a piece in chess.

Ludwig Wittgenstein (1889-1951)

     Wittgenstein foi um filósofo austríaco que estudou a possibilidade de obtenção de uma linguagem perfeita, isto é, uma linguagem que não causasse confusões e que pudesse ser usada como instrumento para chegar à verdade. Um exemplo simples de quão a língua pode ser enganadora é dado por uma pergunta simples como: “Qual foi o início do mundo?” Ora, decompondo a sentença percebe-se que ela é totalmente desprovida de sentido, pois pressupor um começo, de acordo com o significado usual de começo na língua, é pressupor que tenha havido algo antes e algo depois deste início. Mas como pode ter havido algo antes se antes do início do universo não havia universo?

      Dessa forma, a linguagem comum, longe de ser reduzível a conceitos claros, unívocos, é poluída por ranços de teorias filosóficas passadas, sentidos consolidados pela tradição, em suma, por toda sorte de conotaçõese denotações advindas do seu emprego contínuo por um grande número de pessoas através dos tempos. Iniciandoseu percurso intelectual na filosofia matemática, ao final de sua vida Wittgenstein acaba rendendo-se à linguagem tal como ela é, concebendo-a como um jogo: há determinadas regras a serem cumpridas sobre como falar, e o sentido de cada palavra só pode ser obtido no momento do seu uso no caso concreto. E este sentido não necessariamente expressa qualquer verdade, pois não há necessariamente uma conexãoda língua com algo existente. Em suma, a linguagem é um jogo, um jogo que produz múltiplos sentidos e que se encerra em si mesmo: não há jogo ruim ou bom, cada um tem suas regras específicas, e não nos cabe fazer tais julgamentos, mas simplesmente optar por um determinado jogo e jogar.

      Essa minha digressão filosófica foi-me inspirada pela notíciada criação pela presidente Dilma Rousseff da 39º pasta ministerial, a das pequenas e médias empresas. Quando eu era criança, na década de 80 (sou da safra 1972), eu conseguia saber mais ou menos de cor os nomes dos Ministérios porque eu conseguia associá-los a algo no mundo real. Ministério da Fazenda tinha a ver com dinheiro e eu lembro de Ernane Galveas com a indefectível pastinha ir pedir esmolas no FMI, desculpem, empréstimos-jumbo, no auge da nossa crise da dívida. Ministério da Agricultura tinha a ver com plantas, Ministério do Trabalho com pessoas batendo o ponto e se esfalfando, Ministério da Saúde com hospitais, Ministério da Educação e Cultura com livros. Aliás a marca MEC era muito forte na minha cabeça, porque tínhamos um dicionário da língua portuguesa publicado pelo MEC e eu até hoje o consulto para expressões em latim. Havia também o Ministério da Marinha, que eu sempre associava à cor branca dos uniformes, o Ministério do Exército, verde e o Ministério da Aeronáutica, azul, pelas mesmas razões. Em suma, aprender os nomes das pastas ligando os nomes a algo concreto era automático.

       Idos tempos que não voltam mais. Confesso que naqueles tempos de lusco-fusco, em que estávamos deixando os anos de chumbo para trás mas ainda não tínhamos plenas liberdades políticas, as coisas eram mais claras para mim, porque agora eu me perco no jogo democrático realizado em um país que tem 39 nomes diferentes para expressar as funções do governo, que consistem em oferecer à população bens públicos, isto é, produtos e serviços que satisfaçam as necessidades sociais e econômicas, como por exemplo, saúde, educação, transportes, segurança.

      Vamos começar com Secretaria de Comunicação Social. É um nome que me deixaperplexa: como haverá comunicação que não seja social? Afinal comunicar não significa expressar um conteúdo mental em palavras, palavras estas que são convencionais, isto é, estipuladas pelos membros da sociedade de comum acordo? Portanto o que seria uma comunicação do tipo não social não sei o que quer dizer, preciso consultar o juiz do jogo (no caso o Lula, que adicionou a regra ao regulamento em 2007 e provalvemente é o mais qualificado para esclarecer o sentido de se criar uma Secretaria de Comunicação Social).

    E a Secretaria de Assuntos Estratégicos? O que são estratégicos? Assuntos prioritários, imprescindíveis? Quer dizer então que as outras pastas ministeriais tratam de assuntos desimportantes ou até inúteis? Por que elas existem então? Novamente aqui peço a Lula, que em 2008 assinou o Decreto-Lei que deu à luz à criança, uma ajuda. Quem sabe ele inadvertidamente surfando na web pegue carona em minha pequena marolinha e leia este humilde artigo?

        Peço licença aos leitores para citar mais uma peça neste xadrez que está me deixando maluca. Eu nunca aprendi a jogar xadrez, só sei gamão:o que é Ministériodo Desenvolvimento Agrário? Está no Aurélio: agrário, relativo à agricultura. Portanto, Desenvolvimento Agrário é Desenvolvimento da Agricultura. Mas se é isto, qual a diferença entre esta pasta e a pasta da Agricultura? Por acaso o Ministério da Agricultura cuida do subdesenvolvimento agrário? Aqui o juiz é outro, é Fernando Henrique Cardoso, ele mora perto da minha casa, quem sabe um dia eu não tope com ele na rua e ele me expliqueo sentido?

      Eu poderia falar da sobreposição de funções destas Secretarias e Ministérios, a começar com a Secretaria de Direitos Humanos, o Ministério da Igualdade Racial e a Secretaria de Políticas para as Mulheres, que pelo sentido usual das palavras deveriam estar reunidas em uma só. Mas seria uma discussão inútil, pois meu olhar é o de um não participante do grande jogo que se joga em Brasília, daí eu não entender as regras e não achar sentido neste cipoal de nomes esdrúxulos (deixei de fora o Ministério das Relações Institucionais e o Gabinete de Segurança Institucional, pois não sei nem como começar a falar desta palavrinhatão cara aos nossos líderes, “Instituição”). Para que eu pudesse atribuir um significado a essas pastas e descobrir-lhes as funções na máquina governamental eu precisaria estar em Brasília, jogando o jogo democrático e seguindo as regras. E a regra número um parece ser que mais do que gerenciar o país, tentar resolver os problemas que nos afligem, o importante é garantir a vitória nas próximas eleições, criando pastas para troca de favores entre os membros da Máfia quero dizer, das instituições democráticas brasileiras.

       Não sei aonde esse tipo de democracia, feita de eleições frequentes que nos dão mais do mesmo, vai nos levar. Só sei que é um jogo cujas regras não me agradam. Sempre achei o xadrez complicado demais, lento demais. Prefiro a celeridade do jogo dos faraós egípcios. Leitores, tirem suas próprias conclusões, mas eu por mim jogo a toalha: meu voto para presidente será sempre nulo, desde o primeiro turno, porque em priscas eras eu ainda escolhia alguém no primeiro. E vocês, continuam ainda sentindo prazer em jogar ou acham que toda essa atividade lúdica vai nos levar ao buraco? Quem viver verá o apito final.

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Socialismo Bolivariano S.A.

“But if you think of a start-up as an
aircraft, passion is the fuel and the
engine. It creates velocity. But logic
and reason are the engineering and
the steering mechanism; you need
both, and you’re not going anywhere
exciting without both”
John Bradberry, autor do livro
Secrets to Startup Success

 

         Deparei-me com o trecho acima quando um amigo mandou-me um artigo sobre os erros que as pessoas queestão montando um negócio próprio cometem. Para John Bradberry, o principal motivo por que depois de dois anos aproximadamente 80% dos novos empreendimentos fecham as portas (números dele) é que os empreendedores ficam cegos de paixão.Eles se entusiasmam tanto com a ideia que tiveram, e realmente esse tipo de gente tem ideais sensacionais, que se negam a enfrentar a realidade e a se perguntar coisas básicas como: Há um mercado para o meu produto?Ou é melhor mudar de ramo porque há oportunidades mais promissoras em outro setor? É claro que é preciso ter paixão, paixão para enfrentar os momentos difíceis, para ser determinado, mas a paixão deve ser temperada pelos fatos de maneira que ela se transforme no que o autor chama de “earned optimism”, um otimismo conseguido por uma avaliação das suais condições e possibilidades reais, de maneira que caso as coisas falhem você consiga mudar de rumo e seguir em frente com seu projeto, mesmo que ele ao final seja totalmente diferente do que você tinha imaginado.Easier said than done,mas fica a mensagem de que paixão e razão não são coisas intrinsecamente boas ou ruins, para que floresçam e possam dar bons frutos precisam se alimentar mutuamente.

          Caros leitores, perdoem-me a lição de auto-ajuda, mas esta metáfora do avião ajudou-me a entender um pouco as reações que a morte de Hugo Rafael Chávez Frias,presidente da Venezuela, em 4 de março,provocou. Herança sombria é o título da capa da VEJA desta semana. Nem preciso ler a reportagem, porque já sei muitodo que vai ser dito contra ele. Os destemperos verbais, ilustrados durante a última campanha para presidente em 2012, em que chamou o candidato da oposição, Henrique Capriles Radonski, de porco. Sua atuação econômicapolêmicainspirada pelo tal do socialismo bolivariano que na prática consistiu em nacionalizações e expropriações e no uso da estatal do petróleo, a PDVSA, para fins políticos, especialmente depois da greve de 2003, que levou à demissãode 20.000 funcionários, e pior, à emigração de milhares de engenheiros de petróleo para o Canadá, Colômbia e os Estados Unidos (https://www.cia.gov/library/publications/the-world-factbook/geos/ve.html ).

        O resultado da sua tentativa de superar o capitalismo não é lá muito positivo: a inflação em 2012 foi de 20,9%, fruto de uma capacidade produtiva insuficiente, que não foi melhorada pelas cooperativas bolivarianas introduzidas pelo “Comandante”. O país tem que importar produtos agrícolas e industriais e continua muito dependente do petróleo, que responde por 95% de suas exportações, 45% das receitas públicas e 12% do PIB. O grave é que devido ao uso das receitas do petróleo, cujo barril passou de 17 dólares em 1999, quando Chávez assumiu a Presidência, para 100 em 2011, para programas sociais, as instalações petrolíferas carecem dos investimentos necessários à sua manutenção e modernização. A economia informal ocupava 41,6% da população ativa em 2011 (dados tirados de www.lemonde.fr).Em suma, Chávez, convicto de que uma economia solidária é melhor do que uma economia capitalista, deixou de prestar atenção aos fatos de maneira que o socialismo bolivariano melhorasse para algo mais próximo do socialismo de mercado chinês que decididamente cria riquezas.

          Por outro lado, a paixão deste homem o levou a ficar embuído de uma indignação ante o fato de que a Venezuela, que tem as maiores reservas de petróleo do mundo, ser um país em que a maior parte da população não se beneficia da riqueza. Não há como negar queas taxas de pobreza, desemprego, analfabetismo e mortalidade infantil diminuíram consideravelmente sob o regime: em 1999 50% da população era considerada pobre, em 2011 esse número caiu para 17%. Programas de distribuição de benefícios a adolescentes grávidas, a menores pobres a pessoas deficientes foram introduzidos. Em 2011 Chávez lançou o “La Gran Mission Vivienda” para combater o déficit de 2,7 milhões de habitações.

           Muitos detratores do socialismo bolivariano dirão que tais conquistas sociais nada mais são do que uma consequência natural da alta dos preços do petróleo. Não há dúvida de que sem o ouro negro, a MisiónBarrio Adentro, de distribuição de medicamentos aos mais pobres, a Misión Robinson para a educação, a Universidade Bolivariana da Venezuela não teriam sido realizados. A pergunta é: considerando que a Venezuela explora petróleo desde o início do século XX, por que isso não havia sido feito antes? Chávez teve a coragem de fazê-lo, fruto da sua crença na justiça social.

           Coragem era uma marca deste tenente-coroneldesde que tentou o golpe militar em fevereiro 1992 para tomar o poder de Carlos Andrés Pérez. Para aqueles interessados em relações internacionais como eu, não deixa de lavar a alma ouvi-lo lançar impropérios contra George Bush. Chamá-lo de assassino e torturador não é coisa de aloprado, é simplesmente dar nome aos bois, pois o legado de George Bush foi e continua sendo nefasto. Se o ex-presidente americano não foi levado às barras do Tribunal Penal Internacional por crimes contra a humanidade é porque infelizmente a justiça é a dos vencedores, e enquanto os Estados Unidos forem o “Império” poderão agir impunemente. Palmas para Chávez que expressou a indignação que as pessoas de bem devem ter contra o alcoólatra responsável pelo famigerado Patriot Act.

         No frigir dos ovos o que dizer do empreendimento chavista? A paixão do seu fundadorlevou a Socialismo Bolivariano S.A. a fechar as portas? É impossível dizer no momento se as conquistas sociais serão mantidas, ou se tudo será desmantelado, ou se não passou de uma ilusão para ganhar o apoio das massas. Um dos efeitos da paixão é que ela causa divisões. Muitos dos que odiavam Chávez, como as classes média e média alta, foram embora (ao redor de um milhão de pessoas).  Talvez este tenha sido o grande erro do regime, rechaçar os setores com formação educacional suficiente para investir, criar empregos, fazer com que a principal riqueza do país possa ser explorada. Porque cuidar dos pobres permitiu ao presidente morto vencer eleições, mas não se pode dar costas à realidade e achar que os “lacaios do imperialismo” não vão fazer falta à Venezuela. Só nos resta torcer para que o avião venezuelano alce voo bem abastecido e comvelocidade de cruzeiro, mas que seja bem pilotado para enfrentar as turbulências e possa ter uma longa vida útil.

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Indignez-vous!

       Indignez-vous! é o nome de um livro de autoria de Stéphane Hessel, membro da Resistência Francesa que morreu no último dia 27 de fevereiro, aos 95 anos de idade. Nesse livro, o autor prega que as pessoas devem protestar de maneira não violenta contra as injustiças deste mundo, entre as quais ele incluía os ataques militares de Israel em Gaza e sua ocupação da Palestina. Tal conclamação inspirou dentre outros o movimento Los Indignados na Espanha, que protestam contra a classe política que os levou a uma situação em que 55% dos jovens estão desempregados.

     A indignação das pessoas ante situações de flagrante iniquidade pode assumir várias formas, que não sejam necessariamente protestos de rua como no caso espanhol. O banco suíço UBS foi um dos que mais perderam com a crise das hipotecas em 2008. Estabeleceu-se um consenso no país de que um dos fatores da crise foi o fato de os executivos do banco, na ânsia de aumentarem seus bônus, assumiram riscos de maneira temerária, apostando em instrumentos financeiros que acabaram virando pó. Pois bem, Thomas Minder, empresário e político na Suíça, propôs uma iniciativa de referendo sobre os esquemas de pagamento a serem feitos a executivos de sociedades anônimas. Para coibir abusos, propõe-se entre outras coisas que os pacotes de remuneração sejam votados pelos acionistas e estes também decidam sobre quem fará parte do Conselho de Administração.

       A Economiesuisse, que é a FIESP de lá, é contra a proposta, que será votada por meio de referendo a ser realizado no domingo 3 de março, por considerar que impor limites aos pagamentos feitos aos executivos helvéticos diminuirá a competitividade do país. É sempre assim nestes nossos tempos globais: qualquer medida que vise coibir ou diminuir as desigualdades provocadas pelo capitalismo deve sempre ser podada, afinal devemos nos render incondicionalmente ao capital para que ele floresça e seja investido e gere empregos. É uma bela justificativa, mas será que todo esse dinheiro acumulado será mesmo usado para fins socialmente úteis? Será que não vale a pena frear um pouco a desigualdade em benefício da harmonia social? Os suíços parecem pensar assim e provavelmente votarão a favor de cortar as asas dos executivos que estabelecem seus próprios salários na estratosfera e quando saem da empresa recebem gordas indenizações (o que em inglês denomina-se golden parachutes) mesmo que sua contribuição aos resultados tenha sido pífia ou até mesmo desastrosa. Espero sinceramente que o sim ganhe nesse referendo.

     Não sou ingênua o suficiente para achar que esse tipo de democracia direta poderia ser transplantado para o Brasil, pois organizar referendos para uma população de 8 milhões de habitantes é muito diferente do que fazê-lo com 200 milhões de habitantes em um país com grandes disparidades regionais como o nosso. Mas um pouco do espírito de indignação que animava Stéphane Hessel e anima os espanhóis e os suíços poderia nos ajudar a mostrar à nossa elite política e econômica que não se pode brincar com o povo, porque ele está atento aos desmandos. Infelizmente, sou pessimista a respeito da capacidade dos brasileiros de se levantarem, ou ao menos de o fazerem pelos motivos corretos. O episódio da morte do menino boliviano Kevin Béltran, de 14 anos, atingido por uma sinalizador na partida do seu time San José, realizada em Oruro no dia 20 de fevereiro contra o Corinthians, para mim ilustra nossas errôneas prioridades.

     Diante da punição imposta pela Comenbolcontra o time paulista, cujos torcedores foram responsáveis pelo lançamento do sinalizador na Bolívia, vários corinthianos entraram na justiça pedindo uma liminar para que pudessem assistir ao jogo no estádio do Pacaembu, que ficaria fechado na partida contra o Millionarios no dia 27 de fevereiro. Armando José Terreri Rossi Mendonça, Milton Guilherme Rossi Mendonça, Gerson Mendonça Neto, Karina Bellinato Mendonça, Maurício Andreanelli Pimenta e Rodrigo Adura obtiveram a permissão para entrar, afinal já tinham comprado o ingresso e lá estavam, vibrando com o time. É sempre bom ver as pessoas defenderem seus direitos, mas eu me pergunto: o que nos deveria causar indignação? A falta de respeito do Corinthians aos consumidores lesados pelo fechamento do estádio ou a morte de um menino que tinha a vida pela frente? O que é mais importante, o futebol ou o futuro dos nossos jovens, a harmoniasocial? Será que o interesse de não perder o dinheiro do ingresso não se apequena diante da enormidade de um acontecimento que não só destruiu a vida de Kevin, mas a de seus pais também, que com toda a certeza nunca superarão perderem um filho assim, a cabeça estourada por causa de um torcedor idiota que usa o futebol como válvula de escape de suas frustrações?

     Indignemo-nos, mas em nome de bens comuns, como a justiça, a ética na política, o respeito à vida humana. Torcedores do Corinthians, desculpem-me, mas as conquistas e históriado seu time não valem nada em face de um boliviano de Cochabamba que deveria ter o direito de crescer, tornar-se um adulto eassistir a jogos de futebol simplesmente como diversão e não como fonte de identidade pessoal, como parece ser o caso com muitos amantes do futebol no Brasil,incluindo corinthianos, flamenguistas, atleticanos, gremistas e todos esses fanáticos que levam a sério coisas risíveis e tratam levianamente coisas sérias.Quem sabe um dia nossa indignação permita que o Brasil, o país do futebol, transforme-se no país da democracia participativa?

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Rafael Correa: mero clone do Chavez?

    Nós brasileiros contemplamos os demais países da América do Sul com uma certa distância, determinada pela barreira da língua, dos Andes, da Floresta Amazônica, e tendemos a nos ver como diferentes. Isso fica bem claro quando tratamos de figuras políticas como Hugo Chavez, Rafael Correa e Evo Morales, que nossa mídia tende aconsiderar como caudilhos populistas em contraponto à Lula, que teria dado um passo além do esbravejar contra o imperialismo americano, adotando políticas econômicas normais, isto é, livres de congelamentos, confiscos, calotes etc. e ao mesmo tempo realizando uma política social decombate à miséria. Teríamos então a síntese perfeita aqui no Brasil, cabendo-nos apenas sorrir de maneira complacente ao ouvirmos falar de bolivarianismo, socialismo, indianismo e outras utopias propagadas por esses três líderes.

     Não vou falar aqui de Hugo Chavez, pela simples razão de que minha opinião sobre ele encontra-se atualmente indefinida. Não sei até que ponto suas políticas sociais colocaram a Venezuela no caminho do desenvolvimento econômico, isto é, do crescimento com distribuição de rendaque permita que o aumento do PIB seja duradouro e melhore as condições de vida. Não sei até que ponto as fanfarronices do Chavez são uma forma dese comunicar com os venezuelanos ou simplesmente manifestação de imaturidade. Quanto a Evo Morales, sinceramente acho a Bolívia um caso perdido. Não conheço nenhum país do mundo sem acesso ao mar que tenha dado certo, à exceção da Suíça, que está cheia de lagos. Portanto meu foco será em Rafael Vicente Correa Delgado, eleito Presidente do Equador pela primeira vez em novembro de 2006 e que no último dia 17 de fevereiro foi reeleito com 57% dos votos.

       Prestei atenção nele pela primeira vez quando do episódio Julian Assange, que pediu asilo político ao Equador, graça concedida no dia 16 de agosto de 2012. Digo graça porque se trata de um ato soberano de um Estado, um favor a quem se acha perseguido ou a quem se nega o devido processo legal. Vi muitas charges no Brasil fazendo troça da atitude de Rafael Correa, que aparentemente quis dar um golpe de marketing, projetando sua imagem como paladino da liberdade de imprensa ao mesmo tempo em que quer controlar a imprensa em seu próprio país. Independentemente das intenções do presidente do Equador, considero haver fortes razões para a concessão do asilo, afinal se os Estados Unidos conseguirem colocar as mãos no fundador do Wikileaks e levarem-no para ser julgado lá ele poderá ser condenado à pena demorte por traição e espionagem. Em uma entrevista na TV, Rafael Correa fez uma pergunta sensata: se é para processar Julian na Suécia por estupro por que ele não pode ser interrogado na Embaixada do Equador?

    As palavras sábias deste economista, que vai completar 50 anos em 2013 e que antes de entrar na política era professor universitário, me impressionaram também quando assisti ao discurso dele na Rio + 20. Para quem quiser está emhttp://www.youtube.com/watch?v=rBxeyyW_Kko. Foi uma aula sobre a lógica econômica da destruição ambiental. Nosso sistema econômico parte do pressuposto de que os recursos naturais são ilimitados e por isso não incorpora ao preço das mercadorias o custo em termos de danos ao meio ambiente que sua produção provoca. De acordo com Rafael, essa falha do capitalismo, ao não internalizar o passivo ambiental, faz com que os bens ambientais públicos, que em sua maior parte estão nos países em desenvovlimento, não sejam pagos, isto é são usufruídos por todos de graça, ao passo que as mercadorias trocadas entre os agentes, principalmente nos países desenvolvidos, que fazem uso desses bens, são pagas. Nesse sentido, o problema ambiental é um problema político, que requer uma solução pelos donos do poder, isto é, que aqueles que fazem uso dos bens ambientais para produzir mercadorias paguem por eles. Infelizmente a imprensa brasileira acabou destacando apenas os “ataques de Correa aos países ricos”, mas considero queo mais importante é o fato de ele ter explicado as raízes do problema ambiental no próprio funcionamento do regime econômico.

     Bem, alguns argumentarão que já ouvimos muitas palavras sábias de economistas que não nos levaram a nada e de fato no Brasil fomos cobaias deles por várias décadas. Cabe aqui indagar o que Rafael Correa tem feito em seu país além de adotar umapolítica externa independente dos Estados Unidos e de um discurso crítico em relação aos países ricos. De acordo com o “The World Factbook” da CIA, acessível em https://www.cia.gov/library/publications/the-world-factbook/geos/ec.html em janeiro de 2007, em dezembro de 2008 o Presidente do Equador deu o calote na dívida do país de 3,2 bilhões de dólares, e em maio de 2009 recomprou 91% dos títulos em forma de leilão. Como já argumentei aqui em relação à Argentina na semana passada (ver o artigo Viúva Negra), nada mais sensato do que reconhecer o óbvio, de que pagamentos de dívida não podem sacrificar o futuro de um povo, como está ocorrendo na Grécia, que está em recessão desde 2008, sem previsão de mudança no cenário econômico.

       O crescimento da economia equatoriana foi de 3,6% em 2010, 7,8% em 2011 e 4% em 2012, nada mal quando comparado ao nosso, que foi de 7,5%, 2,7% e 1,5%, respectivamente. À parte os números, o que Rafael Correa oferece em termos de estratégias de desenvolvimento? Meu problema com Lula, além de ele ter inventado a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016, é que sua política é o samba de uma nota só, girando em torno do Bolsa Família. Precisamos ir além disso, para que evitemos a bipolaridade que nos tem caracterizado: nos anos 70 crescemos feito doidos, mas não distribuímos rendae o resultado foi que o crescimento se esvaneceu no ar e ficamos praticamente 20 anos patinando. Agora parece que fomos jogados para o pólo oposto: diminuímos as desigualdades mas perdemos o rumo do crescimento, como demonstra nosso “pibinho” do ano passado.

      A menina dosolhos de Rafael Correa é Yachay,palavra que em quechua querdizer conhecimento. Yachay é a cidade que está sendo construída no norte do Equador na província de Imbabura e pretende ser “o mais importante centro de conhecimento da América Latina em produção de tecnologia aplicada em um entorno sustentável” (www.yachay.ec). Há incentivos fiscais para investimento e Rafael Correa tem visitado vários países para divulgar seu projeto, procurando atrair interessados em desenvolver atividades nas áreas de petroquímica, naonociência e nanotecnologia, ciências da vida, tecnologia da informação e da comunicação, energias renováveis e mudança climática. O projeto, inciado em abril de 2010, prevê a inauguração em outubro de 2013 de uma Universidade de Investigação em Tecnologia Experimental.

      Só o tempo dirá se yachay vai ser mais do que uma boa intenção. O ponto que quero ressaltar é que Rafael Correa parece ter uma visão de que o Equador deve dar um salto de qualidade e transformar sua economia de produtora de commodities em produtora de conhecimento. Easier said than done como se diz em inglês, mas de qualquer forma o presidente mostra ser algo mais do que um mero imitador do Chavez ou um sucessor do venezuelano nas invectivas contra o Tio Sam. Desejo-lhe toda a sorte e espero que realmente consiga colocar seu país em outro patamar de desenvolvimento.

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