Un village brésilien

          Depois de um ano de labuta, que incluíram duas férias sacrificadas no altar dos livros e do notebook de anotações, acabei meu trabalho de conclusão de curso, o famigerado TCC, que discorreu sobre as disputas do Brasil contra o Canadá em torno dos aviões (Embraer x Bombardier, lembram-se?) e contra os Estados Unidos no caso do algodão. Como patriota brasileira que sou, falei mal dos países desenvolvidos, que protegem com unhas e dentes sua agricultura na Organização Mundial do Comércio por meio de um acordo que tem tantas exceções, ressalvas e tergiversações que fica difícil achar qualquer problema com as políticas agrícolas dos Estados Unidos e da União Europeia. O clube dos ricos alega que a agricultura não pode se submeter aos rigores do livre comércio preconizado por Adam Smith porque ela não tem uma função estritamente econômica, mas social, cultural e ambiental.

        Bem, apesar de tal postura afetar a balança comercial do meu país em virtude da perda de exportações que isso acarreta, não se pode negar que há uma certa lógica. Tal lógica ficou muito clara para mim ao assistir a um programa na TV5 intitulado“Le Village Préféré des Français 2013”. No verão, os franceses, que têm direito a férias remuneradas, picam a mula das grandes cidades e muito frequentemente procuram lugares em seu próprio país. Daí a pertinência de uma enquete sobre quais as pequenas cidades preferidas para descansar em julho e agosto. Para quem tiver curiosidade sobre as vilas campeãs, http://www.france2.fr/emissions/le-village-prefere-des-francais/accueil.

       O que é oferecido aos turistas na Alsácia, na Normandia, nos Pirineus e outros lugares? Basicamente boa comida e bebida, melhor dizendo, comida e bebida típicas de cada região preparadas de acordo com métodos e ingredientes locais: há a pimenta de Espelette, o pernil preparado à maneira medieval em cavernas, chamadas de troglôs, porque formadas a partir da exploração de pedra para construir os castelos dos nobres, as tortas doces do País Basco. Está aí o caráter especial da agricultura. Atualmente, ela responde por 2% do PIB e 3,8% da mão de obra na França, o que a torna insignificante do ponto de vista econômico, mas as externalidades positivas que ela gera justificam os privilégios de que goza. Afinal, esses agricultores e produtores rurais que possibilitam que haja pratos encontrados somente em uma determinada região no final das contas viabilizam a própria indústria do turismo, a maior do mundo: em 2012 a França recebeu 83 milhões de turistas estrangeiros.

          É claro que as pessoas não vão à França somente para comer e beber, vão para visitar museus, construções históricas, etc. Mas o que seriam das pequenas igrejas, das ruínas de castelos senão houvesse pessoas no local, que lá conseguem se manter à custa de polpudos subsídios concedidos pela Política Agrícola Comum, que causa calafrios em todos os países com vocação agrícola natural como o Brasil? Provavelmente, se as pequenas vilas ficassem despovoadas muito do patrimônio histórico ficaria descuidado, para não falar das paisagens, que não seriam floridas e encantadoras como são. Em suma, a agricultura respalda em muito a situação econômica atual em que 80% do PIB da França é produzido pelo setor de serviços.

          Repito, sou uma patriota e quero o bem do meu país. Não vejo chances de o Brasil conquistar mais participação no comércio agrícola mundial por meio de acordos multilaterais, porque como mostrei aqui, embora os subsídios acabem beneficiando grandes produtores de commodities agrícolas e de vacas loucas, não se pode negar que os pequenos produtores beneficiam-se em menor escala, mas com todos esses efeitos benéficos que venho descrevendo. São esses efeitos que gostaria de ver serem imitados no Brasil.

          O turismo no Brasil é anêmico. Atraímos por ano 5,6 milhões de visitantes estrangeiros por ano, o mesmo que a Argentina, um país que é três vezes menor do que o Brasil. Nós brasileiros preferimos viajar aos Estados Unidos e à Europa do que conhecermos nosso país. Claro que há o problema da nossa mente colonizada, mas não há como negar as dificuldades de acesso, os preços que fazem com que Miami ou Paris apresentem uma relação custo-benefício melhor. Não vou tratar aqui do custo Brasil, isso é matéria econômica, vou apenas propor que ofereçamos nossas próprias villages brésiliens, e para tanto precisamos criar nossas próprias tradições.

         Sim, tradição é algo que se cria, não é algo dado, mas algo conquistado. Explico-me: todo lugar tem sua história, seus pratos típicos, bebidas preferidas. A questão é que alguns países conseguem consolidar todas essas idiossincrasias e estabelecer que aquilo é tradicional, agregando valor a um costume pela mera aposição de um nome. Infelizemente no Brasil achamos que só porque fomos fundados em 1500 não temos nada para contar. Mas temos sim, e muito, e para ilustrar meu ponto não vou falar da comida mineira, ou baiana, do arroz de carreteiro, do pato no tucupi. Falarei de duas viagens que fiz no Brasil que foram frustrantes porque não pude visitar locais que para mim eram interessantes e que poderiam sê-lo a outros turistas se isso lhes fosse oferecido.

       Há três anos fui a Sergipe e não houve meio, apesar de muito procurar, de encontrar alguma agência que me levasse a Angico onde Lampião foi abatido pelas forças da ordem. O cangaço é parte da nossa história, da nossa tradição de justiça feita com as próprias mãos à margem do Estado que passa pela Guarda Nacional, pelos linchamentos e pelas milícias de que tanto se fala hoje em dia. Só me restou fazer passeio de barco pela Hidroelétrica de Xingó, e o museu que lá havia sobre as populações autóctones estava fechado. A outra viagem que fiz e que não proporcionou tudo o que podia, foi a Congonhas do Campo, em Minas Gerais. O local de onde Aleijadinho tirava a pedra-sabão, matéria-prima das esculturas dos profetas, está abandonado, disse-me um guia local.

     Ante o estado calamitoso das finanças da maioria dos municípios brasileiros, é urgente criarmos atividades econômicas que possam fazer com que eles deixem de ser eternamente dependentes das verbas do Fundo de Participação dos Municípios. Seria bem-vinda qualquer ajuda financeira que criasse nossas próprias localidades, cheias de tradição para dar e principalmente vender.

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Nova Economia ou Nova Idade Média?

        No Brasil sempre estivemos acostumados com baixos padrões. Quero dizer que diferentemente de um país como a Argentina, para falar de um vizinho nosso, nunca fomos ricos, nunca fomos ao paraíso para depois descermos ao inferno. Talvez seja essa uma das razões pelas quais asúltimas grandes manifestações em nosso país tivessem ocorrido em 1992 em torno do impeachment do Collor. Para nós a incompetência, a má fé, a corrupção são parte do nosso cotidiano e não temos lembrança de priscas eras que pudessem servir de termo de comparação.

     Um empresário como o Eike Batista, por exemplo, se não constitui expressão da maioria doshomens de negócio brasileiros, ao menos representa aquela parcela mais influente. Suas empresas tomaram 10 bilhões de reais do BNDES, ele se vangloriava em ser um empreendedor moderno, expressão do novo Brasil que está se formando, dos capitalistas que assumem riscos, que apostam no futuro do país, blá blá blá. Pois bem, recebeu benesses do governo, entre outras o dinheiro dado pelo nosso banco de desenvolvimento para formar um novo campeão nacional, a concessão para explorar o Maracanã, depois de pronto, reformado é claro com o dinheiro dos otários, quero dizer do povo.  Como contraprestação pelas vantagens que havia conseguido graças a sua amizade com Sérgio Cabral e com Lula, o Sr. Eike (refiro-me a ele como representante da holding que controla as tais das empresas X)havia se comprometido entre outras coisasa desenvolver projetos de reflorestamento no Rio de Janeiro, de revitalização do bairro da Glória, onde está localizado o Hotel Glória, que é de propriedade do Grupo EBX desde 2008 e estava (as obras estão paradas) sendo reformado com financiamento público.

    Claro que agora que a nau adernou é o salve-se quem puder e nenhuma dasboas ações serão realizadas. O dinheiro da viúva, como diria o Elio Gaspari, foi investido em uma empresa que não tinha ativos tangíveis, apenas intangíveis, isto é, projeções de produção de petróleo que quando foram desmentidas fizeram tudo virar pó. Mas assim é na tal da nova economia, cuja contabilidade permite avaliar uma empresa totalmente pelo que as pessoas acham que ela vale. O mais triste disso tudo é que sabemos que se o momento fosse mais oportuno, isto é, não houvesse uma inquietação popular, o grande empreendedor já teria conseguido uma nova ajudado BNDES, pois como diria Dona Beja, quem tem amigos tem tudo. De qualquer forma, mesmo que o Grupo EBX não consiga dinheiro novo vai conseguir certamente um reescalonamento da dívida, mesmo porque não há muito o que possa ser feito quando não há bens materiais que possam ser executados.

      Assim, estamos resignados com os privilégios dos donos do poder que sempre conseguem proteção nos momentos de dificuldades, estamos resignados com prioridades erradas, como a construção das arenas para a Copa nos mostra. Dizemos sempre que no Brasil é assim mesmo, que aqui só tem picareta, que os portugueses que vieram aqui fundar a colônia só vieram para roubar.Num certo sentido nossa familiaridade com o nivelamento por baixo faz de nós grandes estóicos, porque como esperamos quase nada das nossas autoridades em geral, qualquer pequena melhora é vista como algo miraculoso e qualquer piora já é antecipada. Quem viveu a década de 80 no Brasil sabe que é sempre bom preparar-se para o pior em termos de dinheiro.

    O caso muda de figura em países que estão acostumados a altos padrões e que de repente começam a descer a ladeira. É sempre um choque e mais ainda quando se trata dos Estados Unidos, que tanto nos influencia com seus filmes, com sua língua e claro, com seu imperialismo. Refiro-me aqui a uma parte da população americana, especialmente a classe média baixa, que está vendo seu mundo desmoronar com o advento da tal da Nova Economia. Esta fez desaparecer os empregos manuais (o que eles chamam de blue-collar jobs) que proporcionavam um meio de subsistência digno às famílias. Digno porque havia sindicatos fortes o suficiente para negociar salário mínimo, assistência médica,fundo de pensão, férias remuneradas. Mas a globalização, que trouxe o NAFTA, a invasão de manufaturados da China, a ênfase nos resultados de curto prazo fizeram com que esses trabalhadores se tornassem caros demais e obsoletos. Tal estado de coisas é mostrado de maneira pungente em um documentário chamado Two American Families produzido pela TV pública dos Estados Unidos, chamada PBS. Para quem quiser: http://www.salon.com/2013/07/10/watch_two_american_families_now/.

   O jornalista Bill Moyers acompanhou a trajetória de duas famílias, os Neumann, brancos, casal e três filhos e os Stanley, negros, casal e cinco filhos, todos residentes em Milwaukee, no Estado de Wisconsin, um dos mais atingidos pelo sumiço dos empregos na indústria. O interessante é que o programa começa em 1992 quandoTony Neumann consegue seu último emprego decente, em uma fábrica de motores, e termina 20 anos depois, quando Neumann recusa-se a ser entrevistadoe sobrevive fazendo bicos. Nesse entrementes, tudo piora: Terry, a mulher, é obrigada a trabalhar apesar de ter filhos pequenos, o marido vai ficando cada vez menos tempo nos empregos que se tornam cada vez mais precários, incluindo trabalho à noite. O casal mal se vê, os filhos não veem os pais que precisam acumular atividades para poderem pagar a casa. Ao final, o divórcio, Terry perde a casa, e atualmente isto é, em 2013, sobrevive trabalhando meio período como cuidadora de um menino que sofre de paralisia cerebral. Os filhos do casal estão em uma situação pior ainda: um dos filhos trabalha como cortador de grama e já tem três filhos com três mulheres diferentes; o outro está desempregado e a filha mulher sustenta o marido desempregado.

      Quanto aos Stanley, o pai Claude em 1992 consegue um trabalho checando a impermeabilização do porão das casas e em 2013 aos 60 anos de idade trabalha como coletor de lixo. Entrevistado por Bill Moyers ele diz que terá que trabalhar até morrer, porque nunca conseguirá ficar em um emprego por tempo suficientepara ter direito à aposentadoria. A mulher Claude trabalha como corretora de imóveis, mas sua comissão é pouca porque as casas que vende não estão nos melhores bairros da cidade. O único dos cinco filhos que tem alguma estabilidade é o mais velho que conseguiu se formar na faculdade e arranjar um emprego público.

      Esse programa ilustra várias características da Nova Economia que pegaram em cheio um país como os Estados Unidos, que fez uma radical opção pelo descarte de sua base industrial. Para quem não tem capacidade de trabalhar no Sillicon Valley, a única coisa que sobrou em termos de emprego é nos chamados setores não comercializáveis, isto é, cuja atividade não pode ser terceirizada para a Índia ou a China, como serviços de saúde, atendimento em bares, lojas. Mostra também o cículo vicioso em termos de perda de capital humano: famílias destruídas, filhos sem modelos de conduta, gravidez precoce, violência.

      Em suma, esta Nova Economia está provocando uma volta a velhos tempos, mas tempos que nós imaginávamos tivessem ficado para trás: tempos de grandes disparidades de renda, dos muito ricos e dos muito pobres, dos pobres vivendo sob eterno temor e dos ricos controlando a vida dos pobres de todas as maneiras. Nova Economia ou Nova Idade Média? As revelações do Edward Snowden e o programa Two American Families colocaram a pulga atrás da minha orelha.

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O chimpanzé e a abelha

O poder, haurido do capital, é corruptor, pois de fato o dinheiro compra e influencia posições, direcionamentos e interesses da política.

Allyson Mascaro, professor de Filosofia do Direito e autodeclarado único marxista no tradicional Largo São Francisco

Bonita teoria. Espécie errada.

Comentário do sociobiólogo e teórico da evoluçãoamericano,Edward Osborne Wilson, especialista no comportamento das formigas, sobre o marxismo

            Prezados leitores, no ano passado eu já falei a respeito do meu professor marxista que muito me ajudou não só dando-me ideias para meus artigos (Reacionários do mundo, uni-vos!, O lado negro da força), mas principalmente permitindo que eu as tornasse claras para mim mesma. A vantagem de ficar ouvindo coisas com as quais você absolutamente não concorda é que se torna necessário revisar seus próprios pontos de vista para verificar se eles estão prontos para aguentar a aenxurrada de ataques. E é isso o que eu fazia: tive que perscrutar a mim mesma e me fazer perguntas incômodas do tipo: será que sou contra o socialismo simplesmente por ser uma burguesinha privilegiada que não quer largar o osso ou eu posso legitimamente alegar que tenho razões éticas para ser a favor da livre concorrência? Posso dizer-lhes que venci minha batalha interior e vou provar-lhes que consegui tomando como ponto de partida as citações acima.

            A frase do meu professor marxista foi tirada de uma entrevista que ele deu para o jornal O Estado de São Paulo e que apareceu na edição de 30 de junho. Para falar a verdade eu nem li a entrevista toda porquepara quem o ouviu durante seis meses como eu é chover no molhado. De qualquer forma, pincei a parte em que ele falava sobre as reclamações das pessoas que se manifestaram na rua sobre a corrupção no Brasil. A visão marxista dele é que corrupção é parte da engrenagem capitalista, afinal o poder deriva do “capital” e portanto só uma transformação radical das estruturas da sociedade poderá cortar o mal pela raiz. Aliás, osmarxistas sempre olham com condescendência a classe média que reclama contra corrupção, seja quando ela vota na UDN, no Jânio Quadros ou no Collor. Talvez o novo paladino da luta contra a corrupção seja o Joaquim Barbosa, e provalvemente os marxistas vão sorrir ante a inocência dos que esperam por lisura e honestidade em moldes capitalistas.

            Pois como contraponto à visão marxista de que com a socialização dos meios de produção os vícios da cobiça e da ganância desaparecerão porque não haverá mais motivo para roubar e enganareu cito um biólogo. E cito um biólogo porque eu acredito que há características do ser humano que nunca vão permitir que simplesmente mudando as estruturas da sociedade mudaremos o modo como o homem se comporta. Explicando melhora teoria do Wilson e fazendo minhas as palavras dele, quando ele fala de espécie errada para aplicar a teoria marxista seu ponto é o seguinte: entre formigas e outras espécies de animais o socialismo pode funcionar. Quando você é estéril e relaciona-se intimamente com os membros da colônia, a sobrevivência e transmissão do seu código genético são possibilitadas pela subordinação do seu interesse individual ao bem da comunidade. Os seres humanos não são assim. Nossa sociabilidade é diferente, ela é cooperativa e competitiva ao mesmo tempo. Em suma, o ser humano é 90% chimpanzé e 10% abelha. Para que o socialismo funcionasseseria preciso que nossa porção abelha fosse muito maior.Ou em outras palavras, aqueles que acusam o outro de serem burgueses, na verdade morrem de inveja e querem se tornar burgueses, se não for pela aquisição dos meios de produção será pela aquisição do controle do Estado que lhes permitirá ter poder, que é o que um legítimo macaco quer: tornar-se o rei do pedaço. Quem quiser ler o artigo de onde tirei essa comparação, visitehttp://www.spectator.co.uk/life/the-wiki-man/8940221/why-politics-needs-more-darwinists-and-fewer-economists/.

            Isso tudo significa que eu tendo a aceitar mais explicações biológicas da nossa natureza, o que me faz ser obviamente uma conservadora, porque para mim certas coisas não podem ser mudadas por nenhuma revolução, seja ela Gloriosa, Francesa, Russa ou Cultural. Por outro lado, isso não significa dizer que eu seja uma cínica ou cética, pelo contrário, eu acredito que é tarefa do ser humano neste nosso vale de lágrimas tentar, na medida das possibilidade de cada um, fazer o nosso lado chimpanzé ser mitigado pelo lado abelha. E quando vejo isso acontecer na prática, isto é, quando vejo pessoas com uma consciência moral tão aguçada que põe sua integridade física em risco, eu me emociono. Cheguei aonde queria chegar, mais precisamente no Senhor Edward Snowden, o ex agente da Agência de Segurança Nacional dos EUA.

            Não vou aqui entrar em detalhes sobre o percurso dele, tenho certeza que meus leitoresjá estão mais que inteirados, inclusive das teorias que pululam na internet sobre o que está por trás das denúncias que ele vem fazendo sobre a espionagem global realizada pelo governo dos Estados Unidos. Seria ele espião chinês? Seria ele um factóide do próprio governo americano para desviar a atenção do que estão prestes a fazer na Síria, isto é ajudar os rebeldes a derrubar o governo de Assad? Nenhum de nós tem condições de saber, porquenão temos acesso aos fatos de maneira direta, in loco, apenas àquilo que se fala dele, e o que ele deixa escapar por meio dos documentos que vaza a certos jornais. De qualquer forma, não há como negar que ele está se arriscando.

             Afinal, está num limbo jurídico na zona internacional do aeroporto de Moscou desde 23 de junho. Seu passaporte americano foi-lhe retirado, seu pedido de asilo negado por todos os países europeus a quem o fez, tratado como um verdadeiro leproso, de tal maneira que a suspeita de que pudesse ter se introduzido sorrateiramente no avião do Presidente da Bolívia, Evo Morales, fez com que o avião fosse parado em Viena para averiguações. Mesmo que ele consiga asilo na Venezuela, na própria Bolívia ou na Nicarágua, como ele conseguiria chegar até a América Latina? Em suma, sua vida, e a vida das pessoas que o amam, seus familiares, seus amigos, nunca mais será a mesma.

          E não há como negar que ele está nos mostrando muitas verdades, nuas e cruas. Não falo da espionagem de outros países em si, afinal com relação a nós da América Latina, no balanço geral a interferência dos Estados Unidos ao longo da história foi mais maléfica do que benéfica, portanto não deverianos causar surpresa que eles nos vigiem para melhor controlar.

           Falo da atitude poltrã da União Europeia que mostra que, longe de ser aquele contrapeso ao poderio americano que ela pretendia ser, na verdade está toda vendida e rendida aos yankees, porque chegaram ao cúmulo de tratar um chefe de Estado como delinquente obedecendo às ordens dos americanos. Provavelmente todos os chefes de Estado lá têm muito a esconder. E falo principalmente, e acho que este é o alvo principal da indignação moral de Snowden, da revelação de que o governo americano vigia seus próprios cidadãos, e assim como chantageia todos os países europeus por aquilo que pode revelar, também tem o poder de chantagear os próprios cidadãos americanos que teoricamente têm o poder de controlar o governo.

          Em suma, o que Snowden está a denunciar é que os Estados Unidos já são um país totalitário, nos moldes do que foi a União Soviética, a Alemanha Nazista. Seu governo faz coisas sobre as quais o povo não tem a mínima influência ou controle e sua Constituição, que tinha por objetivo garantir os direitos do povo contra os abusos do Estado,é em grandeparte letra morta. E sob um certo aspecto suas revelações corroboram a máxima do meu professor: o dinheiro compra o poder que compra decisões políticas que não interessam à população em geral, mas aos que deram o dinheiro.Minha única esperança está em quecada um de nós enquanto indivíduos tenhamos, ao menos uma vez na vida, um lampejo de Snowden e façamos cessar tudo quanto a antiga musa canta que um valor mais alto se alevanta: façamos com que a abelhinha dentro de nós pense sobre o papel que ela exerce na colônia e assim amenize um pouco nossas tendências simiescas.

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Da Comunidade Facebook à Sociedade Brasil

Uma pesquisa recente mostrou que a média das pessoas com idade entre 18 e 35 anos tem 237 amigos no Facebook. Quando indagadas sobre em quantas elas podem confiar em uma crise, a resposta média foi dois. Um quarto dos entrevistados disse poder confiar em uma pessoa. Um oitavo disse não poder confiar em ninguém.

Jonathan Sacks, rabino principal das Congregações Hebraicas Unidas da Commonwealth nascido em Londres

                Nestaúltima semana recebi um e-mail convocando as pessoas para uma greve geral na segunda-feira, dia 1 de julho. Na verdade a convocação não era por e-mail, mas pelo Facebook, e o e-mail mencionava o número de pessoas que haviam aderido ao chamado. Pois é, os protestos que se iniciaram há duas semanas em São Paulo espalharam-se por todo o Brasil, insuflados em grande parte pela comunicação instantânea possibilitada pelas mídias sociais.

            Nossos políticos, que estavam em princípio atônitos, começaram a reagir aos protestos da geração Facebook, comparacendo às sessões do Congresso com mais assiduidade, fazendo discursos. Mas que reação é essa? Será algo positivo? E por trás dessa pergunta, há outra, mais importante: para onde a geração Facebook quer levar o país? Uma resposta a essa pergunta é fundamental para que em um momento de crise econômica e social possamos estabelecer as prioridades corretas e tomar as decisões que nos levem a sacrificar certos bens em prol de outros, que devem ser preservados a todo custo.

            A mensagem das ruas parece ser a de menos corrupção, mais saúde e educação, mais transporte, mais segurança, enfim mais serviços públicos. É um anseio típico de classe média, que paga impostos de todas as formas possíveis, na fonte, embutidos no preço, por carnê,e é a que usufrui menos benefícios. Fazendo essa leitura, nossos congressistas se entregaram a uma fúria de aprovação de leis e de discussões de propostas legislativas: tipificação da corrupção como crime hediondo foi a mais sensacional da semana, e há também a velha solução mágica de destinar obrigatoriamente recursos para a educação, no caso as receitas dos royalties do pré-sal.Para não falar da prisão de um deputado por corrupção pela primeira vez desde 1988. Vejam que milagres fazem as pessoas nas ruas: sentir o bafo do povo no cangote faz os poderes constituídos terem um sentido de urgência que lhes falta normalmente, afinal eles estão com a vida ganha, ao contrário da maioria dos brasileiros que não tem emprego vitalício bem remunerado.

              Vamos por partes. Ontem eu assistia ao jornal de notícias e o membro de uma ONG falava da crise de representatividade, do fato de que os políticos brasileiros constituem uma classe que tem seus próprios interesses, os quais eles defendem com unhas e dentes, e tais interesses não são os mesmosdo povo brasileiro. Tipificar a corrupção como crime hediondo combina com esta ideia de que há certos grupos ou certos tipos de pessoas corruptos que devem ser estigmatizados como criminosos e colocados à parte. Quem não há de concordar que a prisão do Natan Donadon na Papuda não manda uma mensagem aos pilantras para ao menos irem mais devagar?

             Por outro lado, não há como negar que a probidade não é um valor que nós brasileiros tenhamos como muito próximos do coração. Estou no quinto ano de Direito da maior e mais importante universidade do país e não me canso de ver alunos falsificando assinaturas, exercendo influência indevida sobre funcionários da faculdade ou para sermos mais coloquiais, “chavecando” os funcionários para conseguirem “abono” de faltas.A cola é amplamente difundida, e hoje é realizada por meio dos I-phones e smart phones, que permitem a fácil digitalização de imagens. Pior, elaé até encorajada por certos professores que se referem a ela ironicamente como “método de aprendizagem”.

              Em suma, nossos valores morais não são suíços, alemães ou nem mesmo asiáticos. Para que a corrupção seja efetivamente combatida no Brasil é preciso que haja um controle prévio ao do Estado, que criminaliza, condena e pune. É preciso que os membros da sociedade estigmatizem tal prática, considerem-na desonrosa e ostracizem o corrupto. Isso está longe de acontecer no Brasil, onde a esperteza e a malandragem acabam sempre tendo um pezinho na desonestidade.

           Quanto à educação, e o raciocínio pode ser aplicado aos serviços públicos em geral, antes de fazermos dotações orçamentárias obrigatórias sob a premissa de que mais dinheiro resultará em mais qualidade, cabe uma pergunta prévia. Que tipo de educação quer a geração Facebook?O ensino no Brasil continua sendo em larga medida baseado na decoreba: eu posso contar nos dedos das mãos as questões em que eu tive que resolver algum problema jurídico prático, apesar de estar teoricamente me preparando para exercer uma profissão. Tal método facilita a vida do professor, que não precisa ficar quebrando a cabeça na correção de provas e nem na orientação real do aluno, e a vida do aluno que pode recorrer à cola. No final, chegamos ao denominador comum da mediocridade. As pessoas que clamam na rua por mais educação querem o que? Querem ter diploma de ensino superior de graça conseguidos com o mínimo esforço possível? Ou querem ser estimuladas a um esforço intelectual maior para conseguirem saltos de qualidade?

           O ponto a que quero chegar é o seguinte. Esta geração que descobriu as redes sociais como instrumento político precisa também perceber que só conseguiremos de fato mudar este Brasil quando adquirirmos um sentido de sociedade, em que todos tenham obrigações e deveres. Poderemos protestar e as classes dirigentes responderem com plebiscitos, reformas políticas, orgias de leis. Mas enquantonão tivermos a percepção de que uma sociedade deve ser mais do que uma comunidade de pessoas que curtem alguma coisa, acaberemos em uma cacofonia de reivindicações de direitos que jamais poderão ser satisfeitos simultaneamente. E no final poderemos chegar à triste constatação de que nossos amigos do Facebook na verdade são inimigos porque querem as mesmas coisas que nós e não estão dispostos a cedê-las. Oxalá que nós brasileiros consigamos fazer a transição da comunidade Facebook para a sociedade Brasil.

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Indignez vous: a luta continua

Deveríamos ter feito o mesmo a respeito dos gastos com o fiasco dos gastos das Olimpíadas, mas nós engolimos tudo como um bando de idiotas inocentes. Devemos ter respeito por estes brasileiros que estão se levantando para defender suas ideias e para não serem enganados pela propaganda esportiva.

Comentário no Tweeter colocado por um indivíduo chamado Hanty de Londres em 19 de junho

                Uma coisa que me irrita profundamente é quando leio um artigo na imprensa que aborda um acontecimento qualquer, por exemplo, uma ação que está se desenrolando no judiciário, e depois o veículo de imprensa não acompanha os desdobramentos do caso. Por isso é que eu vou dar-lhes notícia do resultado de um plebiscito realizado na Suíça em 3 de março deste ano de que tratei no meu artigo Indignez-vous publicado neste espaço em 1º de março. Com uma aprovação de 67,9% dos suíços que votaram (46% do total de cidadãos),eles decidiram estabelecer limites ao pagamento dado aos executivos de sociedades anônimas. Mas o mais importante para os propósitos deste meu artigo é que nesta semana houve efeitos desta iniciativa popular. Rudof Wehrli, presidente da Economiesuisse, a entidade que se opôs veementemente ao plebiscito, e Pascal Gentinetta, seu diretor geral, acabaram de renunciar aos respectivos cargos, em virtude do desgaste sofrido. Em suma, reconheceram a postura arrogante de pintar na época um quadro de catástrofe se a proposta de corte da remuneração corporativa fosse aprovada e enfiaram a viola no saco. Com certeza, a Economiesuisse será toda ouvidos a visões alternativas e mudará seu comportamento.

                Se retomo este episódio helvético, não é somente para cumprir uma função informativa, mas também para abordar o outro lado daquele país. Esse mecanismo de participação popular é excelente para colocar freios nos donos do poder, para lembrá-los de que não podem sair muito da linha, enfim uma atitude típica de países desenvolvidos em que a classe média tem voz para exigirpadrões de governança e impedir que haja as disparidades de renda típicas de países subdesenvolvidos. Por outro lado, há o revés da moeda deste ativismo dos cidadãos que se reflete no exterior: os países de Primeiro Mundo são excelentes para defenderem seus próprios interesses com unhas e dentes aonde quer estejam, indepedentemente das consequências sobre povos mais despreparados.Neste momentodevo mencionar a FIFA, a famigerada organização sediada em Zurique que tornou-se bode expiatório das manifestações contra a corrupção que estão varrendo o Brasil. Digo famigerada porque ela vai lucrar muito com a Copa do Brasil de 2014, às custas do povo brasileiro que vai pagar pelo circo.

                No entanto, eu seria ingênua e leviana em colocar a FIFA como vilã, mesmo porque, como disse aqui na semana passada, ela não é uma organização de direito internacional público, e portanto não assina tratado com nenhum país que vai sediar a Copa. As condições da FIFA, incluindo a qualidade dos estádios construídos pelo Brasil afora, foram impostas pela Lei Geral da Copa, aprovada no Congresso Nacional, oficialmente a Lei 12663 de 5 de junho de 2012. Foram nossos representantes que se comprometeram a proporcionar a infraestrutura necessária à realização do evento, e como estamos a ver agora que o povo acordou para a total inversão de prioridades que foi a decisão de sediar um evento que vai nos custar bilhões de reais, nossos representantes não nos representam de nenhuma maneira.

                O total descolamento entre nossa democracia de escolher entre o vermelho e o azul e as aspirações do povo tornou-se flagrante nestes últimos dias. É espantoso o silêncio sepulcral dos nossos deputados, senadores, governadores, prefeitos nesta semana, todos caladinhos, encafofados sabe-se lá onde, alguns na Rússia, ensinando como organizar uma Copa aos próximos hospedeiros do parasita futebolístico. Onde está o Lula, onde está o Aécio Neves, onde está a Marina Silva, para cobrir um largo espectro político? O povo está falando por meio de cartazes, por meio de gritos de ordem, e nossa classe política está pairando no ar, não sabendo onde pousar, seja para fazer um mea culpa e pedir perdão pelas trapalhadas, seja para condenar as manifestações. Os únicos que se pronunciaram foram o prefeito e o governador do Rio de Janeiro, mas a respeito da atuação da polícia, não sobre o conteúdo dos protestos em si. E Dona Dilma, que prometeu que vai nos ouvir, com toda a condescendência da mãe que quer controlar as manifestações para seu proveito nas futuras eleições.

                Uma honrosa exceção ficou por conta do deputado federal Romário. Recomendo assistirem ao vídeo em que ele manifesta sua opinião claramente. Parece que o nascimento da filha deficiente do baixinho fez com que ele descesse do Mundo de Caras em que vivia ao lado de belas mulheres, festas e diversão e aterrissasse no Brasil real, em que o Primeiro e o Terceiro Mundo convivem intimamente, para nosso prejuízo.A postura de Romário é ainda mais elogiável quando vemos outros ex-jogadores que tentam ser politicamente corretos para não ficarem impopulares, mas não conseguem ser sinceros. É o caso de Ronaldo e do Pelé, cujo apoio às manifestações é meramente protocolar. O Sócrates nesta hora faz uma falta!

                Prezados leitores, ninguém sabe no que isso tudo vai dar. Pode ser que finda a Copa das Confederações haja um exaurimento natural, pode ser que a imprensa internacional ache um assunto mais interessante, tipo uma guerra total na Síria, e percamos nosso palco, pode ser que os vândalos tomem conta e dêem o tom dos protestos. Mas eu nunca esperei ver isso na minha vida e estou vendo nós brasileiros, de paciência bovina, nos levantarmos. Uma lição deve ser tirada, que éa de que precisamos achar canais de expressão de nossas prioridades alternativos aos mecanismos da nossa democracia de fachada que provaram ser tão falhos. Os plebiscitos à moda suíça são uma saída, colocada aliás por nossa própria Constituição, propostas de emenda constitucional, voto facultativo, algo terá que ser encontrado. O que não podemos é deixarmos a peteca cair. É preciso que façamos uma blitzkrieg para despertarmos nossos políticos do seu sono em berço esplêndido pago com nosso dinheiro. Uma coisa já conseguimos: a FIFA e a Copa do Mundo nunca mais serão as mesmas depois que nós brasileiros denunciamos os gastos faraônicos com elefantes brancos e exigimos hospitais padrão FIFA para o povo.

                Este é apenas o começo, nossa indignação deve ser constante, caso contrário ela servirá apenas como manchete de jornal e não terá efeitos práticos. A luta continua!

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