É dando que se recebe

A única maneira para uma pessoa, uma família, uma sociedade crescer, a única maneira para fazer avançar a vida dos povos é a cultura do encontro; uma cultura segundo a qual todos têm algo de bom para dar, e todos podem receber em troca algo de bom. O outro tem sempre algo a nos dar, desde que saibamos nos aproximar dele com uma atitude aberta e disponível, sem preconceitos.

Papa Francisco em discurso no Theatro Municipal do Rio a políticos e empresários

      Eu era adolescente quando a Assembleia Constituinte foi eleita para escrever nossa nova Constituição. Um dos personagens que se tornaram lendários àquela épocafoi Roberto Cardoso Alves, o líder do grupo entitulado Centrão (lembram-se?). Ele era conhecido por seu bordão franciscano “É dando que se recebe”, que usava para justificar seus conchavos, o toma lá dá cá que caracterizou os trabalhos dos representantes eleitos pelo povo para enterrar de vez o entulho autoritário. O resultado foi que a Constituição de 1988, fruto de contemporizações, ou para usar um termo mais popular, de acochambradas, não mexeu com vários esqueletos ditatoriais, o mais flagrante deles na minha opinião é o do limite ao número de deputados que faz com que os Estados do Sul e Sudeste do Brasil estejam subrepresentados no Congresso Nacional. Mas há também a questão da necessidade de candidatos a cargos eletivos terem de pertencer a partidos políticos, o que impede que haja uma renovação da política brasileira.

       Esses esqueletos nos assombram até hoje e fazem com que sejamos dominados por esta mentalidade pseudofranciscana da troca de favores entre os poderosos. No final das contas, todos, incluindo o paladino da moralidade, Joaquim Barbosa, usam jatos da FAB, e o presidente do STFinclusive recebeurecentemente 560.000 reais em atrasados e ninguém do Executivo ou do Legislativo estrilou, porque também eles têm seus direitos adquiridos,tudo na mais perfeita legalidade. A hospedagem de Dilma no hotel mais caro de Roma para assistir à posse do Papa Francisco não tem nada de ilícito, assim como os 10 mil reais de salário dos garçons do Congresso.

         Em suma, a falta de oxigenação da política brasileira faz dos partidos políticos grupos de castas que se protegem mutuamente e o Poder Judiciário, que deveria servir de contraponto ao Poder Legislativo e Executivo ao fim e ao cabo tem como preocupação precípua garantir seus privilégios. Os juizes brasileiros mostram uma grande capacidade de mobilização quando precisam defender seu direito à aposentadoria integral, a vales-refeição atrasados, mas são pouco criativos para propor qualquer remédio à lerdeza da justiça que vá além de contratar mais funcionários. Eu tive um professor de Direito Previdenciário que toda aula reclamava contra o atentado à Constituição que eram as propostas de fazer os servidores públicos cair na vala comum do INSS. Os argumentos dele eram brilhantes claro, sempre fundados na nossa Constituição, mas nem tudo que é legal é moral.

           Como tornarmos nossos três poderes menos legalistas e mais morais? Não estou aqui a defender golpes de Estado ou revoluções, mas seria preciso que nossas autoridades parassem de usar a letra da lei como escudo protetor do seu egoísmo, da sua cupidez, da sua incompetência e passassem a se preocupar mais com o espírito das leis. Quando a Constituição fala em alocação obrigatória de recursos à educação e à saúde, não basta apenas despejar dinheiro a torto e a direito para cumprir as dotações orçamentárias, é preciso planejamento, método, prioridades.

          A resposta pífia até agora dos poderes constituídos aos protestosmostram que o caminho do povo brasileiro rumo a um maior controle sobre o que os que estão por cima da carne seca fazem é árduo e incerto.Será que o único resultado prático será fazer da Dilma um bode expiatório para que a volta do Lula se torne indispensável? Será que é impossível surgir alguma nova liderança que se aproxime do povo, que o escute de maneira aberta, como pregou o papa no sábado? Será que não haverá nenhum membro dos nossos partidos políticos que esteja disponível para não tratar os manifestantes com condescendência como fez a Dilma em seu discurso no auge dos protestos, em que só faltou nos chamar de parvos por desconfiarmos que talvez os recursos públicos emprestados para a construção das “arenas” não serão devolvidos? Será que não haverá nenhum deputado, senador, governador, vereador que considere que o povo tenha algo de bom a dar além de votos e que suas sugestões devam ser levadas em conta?Será que algum dia vamos parar de ouvir tipos como Sérgio Cabral, amendrontados diante dos protestos , repetirem a cantilena de que só os protestos pacíficos e ordeiros valem? Seu governador, eu concordo que violência é ruim, mas antes de falar algo desse tipo por favor investigue seriamente a denúncia de que agentes infiltrados da polícia foram responsáveis pelo coquetel molotov que foi usado como justificativa para que os soldados pegassem pesado contra manifestantes.Será que algum dia nossos governantes terão uma atitude mais aberta em relação a protestos, que fazem parte da vida cotidiana de países com França, Espanha, Inglaterra, Suíça e outros em que os donos do poder são um pouco mais bem controlados do que aqui? (Será mera coincidência?)

       Infelizmente no Brasil temos esta tendência funesta a eleger bodes expiatórios para eximirmo-nos de examinar as situações mais fundo e tentar resolvê-las. Começamos com Domingos Fernandes Calabar na invasão holandesa, passando por Joaquim Silvério dos Reis na Inconfidência Mineira, ambos “traidores da pátria”. Incluo neste rol de bodes para imolação Paulo Maluf na época da transição democrática, tão parte do status quo ditatorial quanto José Sarney, que acabou nos governando por ter virado a casaca na hora certa. Parece estar ocorrendo o mesmo agora com Dilma, cujo semblante cerrado não ajuda a termos uma visão simpática dela. Eu não votei na atual presidente, mas querer fazer dela a raiz de todos os males é uma grande covardia. A publicação frequente de pesquisas de popularidade mostrando a queda vertiginosa da Sra. Rousseff parece servir este propósito. Trocando a Dilma em 2014 cessam os problemas num passe de mágica… Quem defende isto está ou sendo inocente ou então defendo seus próprios interesses.

           Fiz muitas perguntas ao longo deste texto e não tenho resposta a nenhuma delas. A despeito da minha estupefação,o sorriso infalível do Jorge Mario Bergoglio, torcedor de carteirinha, literalmente, do Club Atlético San Lorenzo de Almagro, tomador de chimarrão, contagiou-me e eu não perco a esperança. A alegria de viver vem da esperança, da fé de que é possível que as coisas melhorem, de que possamos “descobrir novos caminhos” como disse o Papa. Sigo isto na minha vida pessoal, é preciso nos abrirmos ao mundo, explorarmos o que ele tem para nos oferecer, mesmo que ao final o resultado não seja aquilo com que sonhávamos. Espero que enquanto país nós brasileiros possamos fazer a mesma coisa.

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Un village brésilien

          Depois de um ano de labuta, que incluíram duas férias sacrificadas no altar dos livros e do notebook de anotações, acabei meu trabalho de conclusão de curso, o famigerado TCC, que discorreu sobre as disputas do Brasil contra o Canadá em torno dos aviões (Embraer x Bombardier, lembram-se?) e contra os Estados Unidos no caso do algodão. Como patriota brasileira que sou, falei mal dos países desenvolvidos, que protegem com unhas e dentes sua agricultura na Organização Mundial do Comércio por meio de um acordo que tem tantas exceções, ressalvas e tergiversações que fica difícil achar qualquer problema com as políticas agrícolas dos Estados Unidos e da União Europeia. O clube dos ricos alega que a agricultura não pode se submeter aos rigores do livre comércio preconizado por Adam Smith porque ela não tem uma função estritamente econômica, mas social, cultural e ambiental.

        Bem, apesar de tal postura afetar a balança comercial do meu país em virtude da perda de exportações que isso acarreta, não se pode negar que há uma certa lógica. Tal lógica ficou muito clara para mim ao assistir a um programa na TV5 intitulado“Le Village Préféré des Français 2013”. No verão, os franceses, que têm direito a férias remuneradas, picam a mula das grandes cidades e muito frequentemente procuram lugares em seu próprio país. Daí a pertinência de uma enquete sobre quais as pequenas cidades preferidas para descansar em julho e agosto. Para quem tiver curiosidade sobre as vilas campeãs, http://www.france2.fr/emissions/le-village-prefere-des-francais/accueil.

       O que é oferecido aos turistas na Alsácia, na Normandia, nos Pirineus e outros lugares? Basicamente boa comida e bebida, melhor dizendo, comida e bebida típicas de cada região preparadas de acordo com métodos e ingredientes locais: há a pimenta de Espelette, o pernil preparado à maneira medieval em cavernas, chamadas de troglôs, porque formadas a partir da exploração de pedra para construir os castelos dos nobres, as tortas doces do País Basco. Está aí o caráter especial da agricultura. Atualmente, ela responde por 2% do PIB e 3,8% da mão de obra na França, o que a torna insignificante do ponto de vista econômico, mas as externalidades positivas que ela gera justificam os privilégios de que goza. Afinal, esses agricultores e produtores rurais que possibilitam que haja pratos encontrados somente em uma determinada região no final das contas viabilizam a própria indústria do turismo, a maior do mundo: em 2012 a França recebeu 83 milhões de turistas estrangeiros.

          É claro que as pessoas não vão à França somente para comer e beber, vão para visitar museus, construções históricas, etc. Mas o que seriam das pequenas igrejas, das ruínas de castelos senão houvesse pessoas no local, que lá conseguem se manter à custa de polpudos subsídios concedidos pela Política Agrícola Comum, que causa calafrios em todos os países com vocação agrícola natural como o Brasil? Provavelmente, se as pequenas vilas ficassem despovoadas muito do patrimônio histórico ficaria descuidado, para não falar das paisagens, que não seriam floridas e encantadoras como são. Em suma, a agricultura respalda em muito a situação econômica atual em que 80% do PIB da França é produzido pelo setor de serviços.

          Repito, sou uma patriota e quero o bem do meu país. Não vejo chances de o Brasil conquistar mais participação no comércio agrícola mundial por meio de acordos multilaterais, porque como mostrei aqui, embora os subsídios acabem beneficiando grandes produtores de commodities agrícolas e de vacas loucas, não se pode negar que os pequenos produtores beneficiam-se em menor escala, mas com todos esses efeitos benéficos que venho descrevendo. São esses efeitos que gostaria de ver serem imitados no Brasil.

          O turismo no Brasil é anêmico. Atraímos por ano 5,6 milhões de visitantes estrangeiros por ano, o mesmo que a Argentina, um país que é três vezes menor do que o Brasil. Nós brasileiros preferimos viajar aos Estados Unidos e à Europa do que conhecermos nosso país. Claro que há o problema da nossa mente colonizada, mas não há como negar as dificuldades de acesso, os preços que fazem com que Miami ou Paris apresentem uma relação custo-benefício melhor. Não vou tratar aqui do custo Brasil, isso é matéria econômica, vou apenas propor que ofereçamos nossas próprias villages brésiliens, e para tanto precisamos criar nossas próprias tradições.

         Sim, tradição é algo que se cria, não é algo dado, mas algo conquistado. Explico-me: todo lugar tem sua história, seus pratos típicos, bebidas preferidas. A questão é que alguns países conseguem consolidar todas essas idiossincrasias e estabelecer que aquilo é tradicional, agregando valor a um costume pela mera aposição de um nome. Infelizemente no Brasil achamos que só porque fomos fundados em 1500 não temos nada para contar. Mas temos sim, e muito, e para ilustrar meu ponto não vou falar da comida mineira, ou baiana, do arroz de carreteiro, do pato no tucupi. Falarei de duas viagens que fiz no Brasil que foram frustrantes porque não pude visitar locais que para mim eram interessantes e que poderiam sê-lo a outros turistas se isso lhes fosse oferecido.

       Há três anos fui a Sergipe e não houve meio, apesar de muito procurar, de encontrar alguma agência que me levasse a Angico onde Lampião foi abatido pelas forças da ordem. O cangaço é parte da nossa história, da nossa tradição de justiça feita com as próprias mãos à margem do Estado que passa pela Guarda Nacional, pelos linchamentos e pelas milícias de que tanto se fala hoje em dia. Só me restou fazer passeio de barco pela Hidroelétrica de Xingó, e o museu que lá havia sobre as populações autóctones estava fechado. A outra viagem que fiz e que não proporcionou tudo o que podia, foi a Congonhas do Campo, em Minas Gerais. O local de onde Aleijadinho tirava a pedra-sabão, matéria-prima das esculturas dos profetas, está abandonado, disse-me um guia local.

     Ante o estado calamitoso das finanças da maioria dos municípios brasileiros, é urgente criarmos atividades econômicas que possam fazer com que eles deixem de ser eternamente dependentes das verbas do Fundo de Participação dos Municípios. Seria bem-vinda qualquer ajuda financeira que criasse nossas próprias localidades, cheias de tradição para dar e principalmente vender.

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Nova Economia ou Nova Idade Média?

        No Brasil sempre estivemos acostumados com baixos padrões. Quero dizer que diferentemente de um país como a Argentina, para falar de um vizinho nosso, nunca fomos ricos, nunca fomos ao paraíso para depois descermos ao inferno. Talvez seja essa uma das razões pelas quais asúltimas grandes manifestações em nosso país tivessem ocorrido em 1992 em torno do impeachment do Collor. Para nós a incompetência, a má fé, a corrupção são parte do nosso cotidiano e não temos lembrança de priscas eras que pudessem servir de termo de comparação.

     Um empresário como o Eike Batista, por exemplo, se não constitui expressão da maioria doshomens de negócio brasileiros, ao menos representa aquela parcela mais influente. Suas empresas tomaram 10 bilhões de reais do BNDES, ele se vangloriava em ser um empreendedor moderno, expressão do novo Brasil que está se formando, dos capitalistas que assumem riscos, que apostam no futuro do país, blá blá blá. Pois bem, recebeu benesses do governo, entre outras o dinheiro dado pelo nosso banco de desenvolvimento para formar um novo campeão nacional, a concessão para explorar o Maracanã, depois de pronto, reformado é claro com o dinheiro dos otários, quero dizer do povo.  Como contraprestação pelas vantagens que havia conseguido graças a sua amizade com Sérgio Cabral e com Lula, o Sr. Eike (refiro-me a ele como representante da holding que controla as tais das empresas X)havia se comprometido entre outras coisasa desenvolver projetos de reflorestamento no Rio de Janeiro, de revitalização do bairro da Glória, onde está localizado o Hotel Glória, que é de propriedade do Grupo EBX desde 2008 e estava (as obras estão paradas) sendo reformado com financiamento público.

    Claro que agora que a nau adernou é o salve-se quem puder e nenhuma dasboas ações serão realizadas. O dinheiro da viúva, como diria o Elio Gaspari, foi investido em uma empresa que não tinha ativos tangíveis, apenas intangíveis, isto é, projeções de produção de petróleo que quando foram desmentidas fizeram tudo virar pó. Mas assim é na tal da nova economia, cuja contabilidade permite avaliar uma empresa totalmente pelo que as pessoas acham que ela vale. O mais triste disso tudo é que sabemos que se o momento fosse mais oportuno, isto é, não houvesse uma inquietação popular, o grande empreendedor já teria conseguido uma nova ajudado BNDES, pois como diria Dona Beja, quem tem amigos tem tudo. De qualquer forma, mesmo que o Grupo EBX não consiga dinheiro novo vai conseguir certamente um reescalonamento da dívida, mesmo porque não há muito o que possa ser feito quando não há bens materiais que possam ser executados.

      Assim, estamos resignados com os privilégios dos donos do poder que sempre conseguem proteção nos momentos de dificuldades, estamos resignados com prioridades erradas, como a construção das arenas para a Copa nos mostra. Dizemos sempre que no Brasil é assim mesmo, que aqui só tem picareta, que os portugueses que vieram aqui fundar a colônia só vieram para roubar.Num certo sentido nossa familiaridade com o nivelamento por baixo faz de nós grandes estóicos, porque como esperamos quase nada das nossas autoridades em geral, qualquer pequena melhora é vista como algo miraculoso e qualquer piora já é antecipada. Quem viveu a década de 80 no Brasil sabe que é sempre bom preparar-se para o pior em termos de dinheiro.

    O caso muda de figura em países que estão acostumados a altos padrões e que de repente começam a descer a ladeira. É sempre um choque e mais ainda quando se trata dos Estados Unidos, que tanto nos influencia com seus filmes, com sua língua e claro, com seu imperialismo. Refiro-me aqui a uma parte da população americana, especialmente a classe média baixa, que está vendo seu mundo desmoronar com o advento da tal da Nova Economia. Esta fez desaparecer os empregos manuais (o que eles chamam de blue-collar jobs) que proporcionavam um meio de subsistência digno às famílias. Digno porque havia sindicatos fortes o suficiente para negociar salário mínimo, assistência médica,fundo de pensão, férias remuneradas. Mas a globalização, que trouxe o NAFTA, a invasão de manufaturados da China, a ênfase nos resultados de curto prazo fizeram com que esses trabalhadores se tornassem caros demais e obsoletos. Tal estado de coisas é mostrado de maneira pungente em um documentário chamado Two American Families produzido pela TV pública dos Estados Unidos, chamada PBS. Para quem quiser: http://www.salon.com/2013/07/10/watch_two_american_families_now/.

   O jornalista Bill Moyers acompanhou a trajetória de duas famílias, os Neumann, brancos, casal e três filhos e os Stanley, negros, casal e cinco filhos, todos residentes em Milwaukee, no Estado de Wisconsin, um dos mais atingidos pelo sumiço dos empregos na indústria. O interessante é que o programa começa em 1992 quandoTony Neumann consegue seu último emprego decente, em uma fábrica de motores, e termina 20 anos depois, quando Neumann recusa-se a ser entrevistadoe sobrevive fazendo bicos. Nesse entrementes, tudo piora: Terry, a mulher, é obrigada a trabalhar apesar de ter filhos pequenos, o marido vai ficando cada vez menos tempo nos empregos que se tornam cada vez mais precários, incluindo trabalho à noite. O casal mal se vê, os filhos não veem os pais que precisam acumular atividades para poderem pagar a casa. Ao final, o divórcio, Terry perde a casa, e atualmente isto é, em 2013, sobrevive trabalhando meio período como cuidadora de um menino que sofre de paralisia cerebral. Os filhos do casal estão em uma situação pior ainda: um dos filhos trabalha como cortador de grama e já tem três filhos com três mulheres diferentes; o outro está desempregado e a filha mulher sustenta o marido desempregado.

      Quanto aos Stanley, o pai Claude em 1992 consegue um trabalho checando a impermeabilização do porão das casas e em 2013 aos 60 anos de idade trabalha como coletor de lixo. Entrevistado por Bill Moyers ele diz que terá que trabalhar até morrer, porque nunca conseguirá ficar em um emprego por tempo suficientepara ter direito à aposentadoria. A mulher Claude trabalha como corretora de imóveis, mas sua comissão é pouca porque as casas que vende não estão nos melhores bairros da cidade. O único dos cinco filhos que tem alguma estabilidade é o mais velho que conseguiu se formar na faculdade e arranjar um emprego público.

      Esse programa ilustra várias características da Nova Economia que pegaram em cheio um país como os Estados Unidos, que fez uma radical opção pelo descarte de sua base industrial. Para quem não tem capacidade de trabalhar no Sillicon Valley, a única coisa que sobrou em termos de emprego é nos chamados setores não comercializáveis, isto é, cuja atividade não pode ser terceirizada para a Índia ou a China, como serviços de saúde, atendimento em bares, lojas. Mostra também o cículo vicioso em termos de perda de capital humano: famílias destruídas, filhos sem modelos de conduta, gravidez precoce, violência.

      Em suma, esta Nova Economia está provocando uma volta a velhos tempos, mas tempos que nós imaginávamos tivessem ficado para trás: tempos de grandes disparidades de renda, dos muito ricos e dos muito pobres, dos pobres vivendo sob eterno temor e dos ricos controlando a vida dos pobres de todas as maneiras. Nova Economia ou Nova Idade Média? As revelações do Edward Snowden e o programa Two American Families colocaram a pulga atrás da minha orelha.

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O chimpanzé e a abelha

O poder, haurido do capital, é corruptor, pois de fato o dinheiro compra e influencia posições, direcionamentos e interesses da política.

Allyson Mascaro, professor de Filosofia do Direito e autodeclarado único marxista no tradicional Largo São Francisco

Bonita teoria. Espécie errada.

Comentário do sociobiólogo e teórico da evoluçãoamericano,Edward Osborne Wilson, especialista no comportamento das formigas, sobre o marxismo

            Prezados leitores, no ano passado eu já falei a respeito do meu professor marxista que muito me ajudou não só dando-me ideias para meus artigos (Reacionários do mundo, uni-vos!, O lado negro da força), mas principalmente permitindo que eu as tornasse claras para mim mesma. A vantagem de ficar ouvindo coisas com as quais você absolutamente não concorda é que se torna necessário revisar seus próprios pontos de vista para verificar se eles estão prontos para aguentar a aenxurrada de ataques. E é isso o que eu fazia: tive que perscrutar a mim mesma e me fazer perguntas incômodas do tipo: será que sou contra o socialismo simplesmente por ser uma burguesinha privilegiada que não quer largar o osso ou eu posso legitimamente alegar que tenho razões éticas para ser a favor da livre concorrência? Posso dizer-lhes que venci minha batalha interior e vou provar-lhes que consegui tomando como ponto de partida as citações acima.

            A frase do meu professor marxista foi tirada de uma entrevista que ele deu para o jornal O Estado de São Paulo e que apareceu na edição de 30 de junho. Para falar a verdade eu nem li a entrevista toda porquepara quem o ouviu durante seis meses como eu é chover no molhado. De qualquer forma, pincei a parte em que ele falava sobre as reclamações das pessoas que se manifestaram na rua sobre a corrupção no Brasil. A visão marxista dele é que corrupção é parte da engrenagem capitalista, afinal o poder deriva do “capital” e portanto só uma transformação radical das estruturas da sociedade poderá cortar o mal pela raiz. Aliás, osmarxistas sempre olham com condescendência a classe média que reclama contra corrupção, seja quando ela vota na UDN, no Jânio Quadros ou no Collor. Talvez o novo paladino da luta contra a corrupção seja o Joaquim Barbosa, e provalvemente os marxistas vão sorrir ante a inocência dos que esperam por lisura e honestidade em moldes capitalistas.

            Pois como contraponto à visão marxista de que com a socialização dos meios de produção os vícios da cobiça e da ganância desaparecerão porque não haverá mais motivo para roubar e enganareu cito um biólogo. E cito um biólogo porque eu acredito que há características do ser humano que nunca vão permitir que simplesmente mudando as estruturas da sociedade mudaremos o modo como o homem se comporta. Explicando melhora teoria do Wilson e fazendo minhas as palavras dele, quando ele fala de espécie errada para aplicar a teoria marxista seu ponto é o seguinte: entre formigas e outras espécies de animais o socialismo pode funcionar. Quando você é estéril e relaciona-se intimamente com os membros da colônia, a sobrevivência e transmissão do seu código genético são possibilitadas pela subordinação do seu interesse individual ao bem da comunidade. Os seres humanos não são assim. Nossa sociabilidade é diferente, ela é cooperativa e competitiva ao mesmo tempo. Em suma, o ser humano é 90% chimpanzé e 10% abelha. Para que o socialismo funcionasseseria preciso que nossa porção abelha fosse muito maior.Ou em outras palavras, aqueles que acusam o outro de serem burgueses, na verdade morrem de inveja e querem se tornar burgueses, se não for pela aquisição dos meios de produção será pela aquisição do controle do Estado que lhes permitirá ter poder, que é o que um legítimo macaco quer: tornar-se o rei do pedaço. Quem quiser ler o artigo de onde tirei essa comparação, visitehttp://www.spectator.co.uk/life/the-wiki-man/8940221/why-politics-needs-more-darwinists-and-fewer-economists/.

            Isso tudo significa que eu tendo a aceitar mais explicações biológicas da nossa natureza, o que me faz ser obviamente uma conservadora, porque para mim certas coisas não podem ser mudadas por nenhuma revolução, seja ela Gloriosa, Francesa, Russa ou Cultural. Por outro lado, isso não significa dizer que eu seja uma cínica ou cética, pelo contrário, eu acredito que é tarefa do ser humano neste nosso vale de lágrimas tentar, na medida das possibilidade de cada um, fazer o nosso lado chimpanzé ser mitigado pelo lado abelha. E quando vejo isso acontecer na prática, isto é, quando vejo pessoas com uma consciência moral tão aguçada que põe sua integridade física em risco, eu me emociono. Cheguei aonde queria chegar, mais precisamente no Senhor Edward Snowden, o ex agente da Agência de Segurança Nacional dos EUA.

            Não vou aqui entrar em detalhes sobre o percurso dele, tenho certeza que meus leitoresjá estão mais que inteirados, inclusive das teorias que pululam na internet sobre o que está por trás das denúncias que ele vem fazendo sobre a espionagem global realizada pelo governo dos Estados Unidos. Seria ele espião chinês? Seria ele um factóide do próprio governo americano para desviar a atenção do que estão prestes a fazer na Síria, isto é ajudar os rebeldes a derrubar o governo de Assad? Nenhum de nós tem condições de saber, porquenão temos acesso aos fatos de maneira direta, in loco, apenas àquilo que se fala dele, e o que ele deixa escapar por meio dos documentos que vaza a certos jornais. De qualquer forma, não há como negar que ele está se arriscando.

             Afinal, está num limbo jurídico na zona internacional do aeroporto de Moscou desde 23 de junho. Seu passaporte americano foi-lhe retirado, seu pedido de asilo negado por todos os países europeus a quem o fez, tratado como um verdadeiro leproso, de tal maneira que a suspeita de que pudesse ter se introduzido sorrateiramente no avião do Presidente da Bolívia, Evo Morales, fez com que o avião fosse parado em Viena para averiguações. Mesmo que ele consiga asilo na Venezuela, na própria Bolívia ou na Nicarágua, como ele conseguiria chegar até a América Latina? Em suma, sua vida, e a vida das pessoas que o amam, seus familiares, seus amigos, nunca mais será a mesma.

          E não há como negar que ele está nos mostrando muitas verdades, nuas e cruas. Não falo da espionagem de outros países em si, afinal com relação a nós da América Latina, no balanço geral a interferência dos Estados Unidos ao longo da história foi mais maléfica do que benéfica, portanto não deverianos causar surpresa que eles nos vigiem para melhor controlar.

           Falo da atitude poltrã da União Europeia que mostra que, longe de ser aquele contrapeso ao poderio americano que ela pretendia ser, na verdade está toda vendida e rendida aos yankees, porque chegaram ao cúmulo de tratar um chefe de Estado como delinquente obedecendo às ordens dos americanos. Provavelmente todos os chefes de Estado lá têm muito a esconder. E falo principalmente, e acho que este é o alvo principal da indignação moral de Snowden, da revelação de que o governo americano vigia seus próprios cidadãos, e assim como chantageia todos os países europeus por aquilo que pode revelar, também tem o poder de chantagear os próprios cidadãos americanos que teoricamente têm o poder de controlar o governo.

          Em suma, o que Snowden está a denunciar é que os Estados Unidos já são um país totalitário, nos moldes do que foi a União Soviética, a Alemanha Nazista. Seu governo faz coisas sobre as quais o povo não tem a mínima influência ou controle e sua Constituição, que tinha por objetivo garantir os direitos do povo contra os abusos do Estado,é em grandeparte letra morta. E sob um certo aspecto suas revelações corroboram a máxima do meu professor: o dinheiro compra o poder que compra decisões políticas que não interessam à população em geral, mas aos que deram o dinheiro.Minha única esperança está em quecada um de nós enquanto indivíduos tenhamos, ao menos uma vez na vida, um lampejo de Snowden e façamos cessar tudo quanto a antiga musa canta que um valor mais alto se alevanta: façamos com que a abelhinha dentro de nós pense sobre o papel que ela exerce na colônia e assim amenize um pouco nossas tendências simiescas.

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Da Comunidade Facebook à Sociedade Brasil

Uma pesquisa recente mostrou que a média das pessoas com idade entre 18 e 35 anos tem 237 amigos no Facebook. Quando indagadas sobre em quantas elas podem confiar em uma crise, a resposta média foi dois. Um quarto dos entrevistados disse poder confiar em uma pessoa. Um oitavo disse não poder confiar em ninguém.

Jonathan Sacks, rabino principal das Congregações Hebraicas Unidas da Commonwealth nascido em Londres

                Nestaúltima semana recebi um e-mail convocando as pessoas para uma greve geral na segunda-feira, dia 1 de julho. Na verdade a convocação não era por e-mail, mas pelo Facebook, e o e-mail mencionava o número de pessoas que haviam aderido ao chamado. Pois é, os protestos que se iniciaram há duas semanas em São Paulo espalharam-se por todo o Brasil, insuflados em grande parte pela comunicação instantânea possibilitada pelas mídias sociais.

            Nossos políticos, que estavam em princípio atônitos, começaram a reagir aos protestos da geração Facebook, comparacendo às sessões do Congresso com mais assiduidade, fazendo discursos. Mas que reação é essa? Será algo positivo? E por trás dessa pergunta, há outra, mais importante: para onde a geração Facebook quer levar o país? Uma resposta a essa pergunta é fundamental para que em um momento de crise econômica e social possamos estabelecer as prioridades corretas e tomar as decisões que nos levem a sacrificar certos bens em prol de outros, que devem ser preservados a todo custo.

            A mensagem das ruas parece ser a de menos corrupção, mais saúde e educação, mais transporte, mais segurança, enfim mais serviços públicos. É um anseio típico de classe média, que paga impostos de todas as formas possíveis, na fonte, embutidos no preço, por carnê,e é a que usufrui menos benefícios. Fazendo essa leitura, nossos congressistas se entregaram a uma fúria de aprovação de leis e de discussões de propostas legislativas: tipificação da corrupção como crime hediondo foi a mais sensacional da semana, e há também a velha solução mágica de destinar obrigatoriamente recursos para a educação, no caso as receitas dos royalties do pré-sal.Para não falar da prisão de um deputado por corrupção pela primeira vez desde 1988. Vejam que milagres fazem as pessoas nas ruas: sentir o bafo do povo no cangote faz os poderes constituídos terem um sentido de urgência que lhes falta normalmente, afinal eles estão com a vida ganha, ao contrário da maioria dos brasileiros que não tem emprego vitalício bem remunerado.

              Vamos por partes. Ontem eu assistia ao jornal de notícias e o membro de uma ONG falava da crise de representatividade, do fato de que os políticos brasileiros constituem uma classe que tem seus próprios interesses, os quais eles defendem com unhas e dentes, e tais interesses não são os mesmosdo povo brasileiro. Tipificar a corrupção como crime hediondo combina com esta ideia de que há certos grupos ou certos tipos de pessoas corruptos que devem ser estigmatizados como criminosos e colocados à parte. Quem não há de concordar que a prisão do Natan Donadon na Papuda não manda uma mensagem aos pilantras para ao menos irem mais devagar?

             Por outro lado, não há como negar que a probidade não é um valor que nós brasileiros tenhamos como muito próximos do coração. Estou no quinto ano de Direito da maior e mais importante universidade do país e não me canso de ver alunos falsificando assinaturas, exercendo influência indevida sobre funcionários da faculdade ou para sermos mais coloquiais, “chavecando” os funcionários para conseguirem “abono” de faltas.A cola é amplamente difundida, e hoje é realizada por meio dos I-phones e smart phones, que permitem a fácil digitalização de imagens. Pior, elaé até encorajada por certos professores que se referem a ela ironicamente como “método de aprendizagem”.

              Em suma, nossos valores morais não são suíços, alemães ou nem mesmo asiáticos. Para que a corrupção seja efetivamente combatida no Brasil é preciso que haja um controle prévio ao do Estado, que criminaliza, condena e pune. É preciso que os membros da sociedade estigmatizem tal prática, considerem-na desonrosa e ostracizem o corrupto. Isso está longe de acontecer no Brasil, onde a esperteza e a malandragem acabam sempre tendo um pezinho na desonestidade.

           Quanto à educação, e o raciocínio pode ser aplicado aos serviços públicos em geral, antes de fazermos dotações orçamentárias obrigatórias sob a premissa de que mais dinheiro resultará em mais qualidade, cabe uma pergunta prévia. Que tipo de educação quer a geração Facebook?O ensino no Brasil continua sendo em larga medida baseado na decoreba: eu posso contar nos dedos das mãos as questões em que eu tive que resolver algum problema jurídico prático, apesar de estar teoricamente me preparando para exercer uma profissão. Tal método facilita a vida do professor, que não precisa ficar quebrando a cabeça na correção de provas e nem na orientação real do aluno, e a vida do aluno que pode recorrer à cola. No final, chegamos ao denominador comum da mediocridade. As pessoas que clamam na rua por mais educação querem o que? Querem ter diploma de ensino superior de graça conseguidos com o mínimo esforço possível? Ou querem ser estimuladas a um esforço intelectual maior para conseguirem saltos de qualidade?

           O ponto a que quero chegar é o seguinte. Esta geração que descobriu as redes sociais como instrumento político precisa também perceber que só conseguiremos de fato mudar este Brasil quando adquirirmos um sentido de sociedade, em que todos tenham obrigações e deveres. Poderemos protestar e as classes dirigentes responderem com plebiscitos, reformas políticas, orgias de leis. Mas enquantonão tivermos a percepção de que uma sociedade deve ser mais do que uma comunidade de pessoas que curtem alguma coisa, acaberemos em uma cacofonia de reivindicações de direitos que jamais poderão ser satisfeitos simultaneamente. E no final poderemos chegar à triste constatação de que nossos amigos do Facebook na verdade são inimigos porque querem as mesmas coisas que nós e não estão dispostos a cedê-las. Oxalá que nós brasileiros consigamos fazer a transição da comunidade Facebook para a sociedade Brasil.

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