Dura lex sed lex

            Aqueles que são bem governados. . .não enchem seus pórticos com normas escritas, mas somente acalentam a justiça em sua alma; pois não é pela legislação, mas pela moral que os estados são bem dirigido

        Na semana passada falei de Sócrates, o brasileiro, que apesar de ter sido espinafrado pela Veja na semana passada, recebeu menção honrosa em várias publicações internacionais. O colunista de esportes inglês Roger Alton descreveu o meio-campista brasileiro como mandado por Deus: era de classe média como nós, apreciava Camus e Che Guevara, formou-se médico, usava uma faixa na cabeça com os dizeres: “Não Ao Terror”. Seu corpo se encurvava em um perfeito “S”, sua espinha reta, a cabeça perfeitamente equilibrada, pernas fortes, braços esguios, olhos focados na bola. Um modelo de como um atleta deveria ser, mas no Brasil como temos uma mentalidade coletiva bipolar do tipo sim/não, já que ele tinha laivos de esquerda a Veja considera um imbecil e descreve-o ironicamente do alto das suas certezas ideológicas: “Como pensador era um excelente jogador”. Não estou aqui a julgar os pensamentos de Sócrates, apenas lamento que não sejamos capazes de reconhecer que as pessoas têm defeitos e virtudes. Talvez por isso gostemos tanto de heróis da pátria e vilipendiemos os traidores da pátria.

          Nesta semana, começarei com um outro filósofo, Isócrates, orador e retórico ateniense que viveu de 436 a.C. a 338 a.C. Suas palavras, eu as achei em um texto que falava sobre a profusão de leis nos Estados Unidos, o que para o autor era sintoma do esgarçamento do tecido social. Onde as pessoas não se entendem é preciso estabelecer leis repressivas para garantir o poder das elites, que de outro modo, não conseguiriam manter o status quo, já que ele não traz nenhum benefício à população.

             Eu poderia falar aqui da miríade de leis, regulamentos, portarias que permite que tenhamos uma carga tributária de 36% do PIB, recorde histórico, que permite que alguns privilegiados juízes do Tribunal de Justiça do Rio ganhem 650.000 reais por mês (levantamento do Conselho Nacional de Justiça), tudo na mais absoluta legalidade, apesar da flagrante injustiça. É claro que nenhum desses nababos responderá a solicitações de esclarecimento, mas se algum dia tiverem que dar explicações à Eliana Calmon, por exemplo, do CNJ, que parece ser uma mulher proba, disposta a fazer uma faxina moral, alegarão direitos adquiridos e citarão as normas legais que aprovam o despautério, dão um jeitinho para que a concepção de teto de salário da Constituição seja flexibilizada de maneira que o salário máximo dos membros do STF seja apenas um trampolim para alavancar os egrégios magistrados rumo ao infinito.

         Assim, ao mesmo tempo em que a Justiça presta um péssimo serviço, em que o acesso aos processos é difícil, pois não são digitalizados, em que a celeridade garantida como direito pela Constituição é uma mera quimera, as leis que estabelecem os privilégios dos magistrados são rigorosamente respeitadas, e ai de quem se insurgir contra esse estado de coisas. A noção de que um estado de leis e não de homens é o que de melhor podemos almejar está rigorosamente entranhada entre os bem pensantes: falar mal do Judiciário nesse sentido é falar mal da própria sacrossanta democracia.

           E de fato temos seguido celeremente nesta seara legalista. São tantas as normas na Junta Comercial, na Previdência Social, na Receita Federal que no Brasil maior pesadelo do que abrir uma empresa é o de fechá-la, o que demora pelo menos quatro anos para que possamos cumprir todos os ritos. Não admira que a maioria dos empreendimentos abertos feche em menos de doze meses. No campo criminal reformamos o Código em 2009 e agora um ato libidinoso que dá até 10 anos de cadeia inclui desde estupro até um beijo mal dado que não satisfez a vítima e que por isso reclamou na polícia ter sido molestada. Importamos também do primeiro mundo a tendência de tornar comportamentos repreensíveis que ficavam no domínio da moral privada fenômenos públicos, sobre os quais psicólogos, médicos, psiquiatras e claro, advogados, agora nos chamam a atenção constantemente em campanhas de esclarecimento: bullying nas escolas, homofobia, castigo físico, tudo é diagnosticado, publicizado e ostracizado. Alguns dirão que trazer tudo isso à lume é um avanço e permitirá coibir os abusos. A mim me parece um sinal da nossa incapacidade de ter um comportamento minimamente civilizado, que deveria ser corrigido no ambiente familiar, por meio do exemplo dado pelos pais, conversas, que nos permitiriam aprendermos com quem tem mais experiência de vida.

             E aqui mora o perigo. Por acaso temos convivência que nos permita respeitar diferenças, negociar para vivermos juntos? O que é o espaço doméstico hoje se não um grupo de pessoas que compartilham o mesmo local físico, mas cada uma na sua baia? Uns na televisão, outros no blackberry, outros no facebook (o Brasil é o país em que as crianças são introduzidas mais precocemente ao maravilhoso mundo dos perfis). Abrimo-nos ao mundo ao clicar de botões, mas é um mundo totalmente sob o nosso controle, em que não há conflito real, em que não há o desgaste de enfrentar outra individualidade cujos valores são diferentes dos seus. Talvez por isso quando saímos do mundo virtual e entramos no mundo real, sejamos tão ingênuos e por conseqüência, tão intolerantes e irredutíveis. Horas e horas cultivando nosso narcisismo em frente ao computador nos faz muitas vezes refratários a aceitar o que não é espelho, o que não se reduz às nossas expectativas abstratas.

        Vemos agora a Europa no processo de elaborar mais um tratado, com uma torrente de normas sobre disciplina fiscal e orçamentária para afastar de vez a crise de confiança na capacidade de pagamento dos países da zona do euro. Será que não seria mais eficaz se cada agente econômico, cada governo, cada cidadão respeitasse uma única regra do senso comum, que é a de não viver além das suas possibilidades? Não seria tão mais fácil se cada elemento da sociedade se propusesse seriamente a gastar só aquilo que tem concretamente?

        Alguns considerarão minha imprecação contra as leis ingênuas, afinal tudo está cada vez mais complexo, as transações se multiplicam e portanto, há necessidade de regular as relações entre as pessoas. Talvez. Mas não custa sonhar com um mundo em que cada indivíduo colocará em seu coração, para seu próprio bem-estar espiritual, dois princípios simples: cumprir sua obrigação de não causa mal a ninguém de maneira intencional e fazer o bem no limite de suas possibilidades. Quem sabe então uma grande parte das leis se tornaria supérflua?

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Wikileaks

        Eu costumava assistir ao Manhattan Connection na época em que o Paulo Francis estrelava o programa. Era divertido vê-lo se digladiar com o Caio Blinder, vê-lo vociferar contra a esquerda, o que não me impedia de lamentar que o discurso liberalizante dele tenha sido muitas vezes usado pelos órgãos para os quais trabalhava, como a Globo, para justificar o mais acabado reacionarismo.

        De qualquer forma havia debate. Atualmente, a equipe é composta de Ricardo Amorim, Caio Blinder e Diogo Mainardi. Continua a ser um programa analítico, mas a polêmica já não é seu forte, pois todos rezam pela mesma cartilha subliminarmente transmitida, em voga em toda a imprensa: a veiculação da ideia de que o domínio econômico, político e social de uma elite financeira que faz tudo se organizar em torno de seus interesses é natural, é algo inevitável, e a única coisa a fazer é nos adaptar. Adaptar significa, por exemplo, deixar de agir como crianças mimadas e se acostumar com uma vida frugal representada por mais anos de trabalho, menos benéficios previdenciários. O Ricardo Amorim falava outro dia: os países ricos mais cedo ou mais tarde vão ter que cair na real, a vida boa acabou! Quanto ao Diogo Mainardi nem é preciso falar muita coisa, afinal ele é o porta voz da visão equilibrada da Veja a respeito de segurança pública, política econômica, etc…

        Seria possível achar que tal ponto de vista distorcido é um problema da nossa imprensa, daquilo que o trágico Lima Barreto identificava como o mal do Brasil. “Todos se guiam por ideias feitas, receitas de julgamentos, e nunca se aventuram a examinar por si qualquer questão, preferindo resolvê-las por generalizações quase sempre recebidas de segunda ou terceira mão”. Mas o fato é que essa premissa do caráter inevitável do estado de coisas é compartilhada por órgãos de imprensa muito menos maniqueístas do que nossa querida Veja.

        Na semana passada eu estava lendo um artigo na revista inglesa The Economist sobre a crise do euro. Falavam sobre a Irlanda, que cortará drasticamente os gastos do governo, leia-se gastos sociais, para poder cumprir as metas acordadas com a Comissão Européia e o FMI, que lhe emprestaram dinheiro. Há um momento no texto em que se admite que o governo irlandês não precisava ter garantido 100% dos depósitos e títulos aos investidores, pois isso representava um ônus muito grande para o orçamento público. Mas o tom geral é de concordância com o mantra do poder financeiro: não importa que os bancos tenham ganhado muito nos tempos da bonança, eles nunca podem deixar de ganhar porque se tiverem perdas deixarão de investir, por isso é preciso que outro pague a conta, o povo palhaço, que sofrerá com o desemprego, com a piora dos serviços públicos. O autor do artigo considera que o fato de Angela Merkel ter proposto que no futuro os detentores de títulos compartilhem as perdas com o Estado no caso de insolvência foi criticado pois uma ameaça vaga como essa deixa os investidores nervosos.

        Essa unanimidade que se construiu ao longo do tempo é um sintoma da falta de desafios ao capitalismo. Quando havia o bloco soviético era necessário contrabalançar a predominância do capital sobre o trabalho pela concessão de direitos sociais, pois do contrário as idéias socialistas poderiam frutificar e colocar o sistema abaixo. Hoje não há nenhum poder constituído que seja capaz de fazer frente ao capitalismo. Os únicos poderes emergentes são Índia e China que juntas têm um contingente colossal de mão de obra que ainda não entrou no mercado de trabalho e que está louco para se juntar à economia de mercado. Vê-se a falta de alternativas quando governos ditos socialistas como o de José Luis Zapatero, na Espanha, não fazem nada de diferente em termos de política pública do que um governo de direita: mesmo arrocho social, mesmos benefícios injustos dados a especuladores.

        Por isso vejo o barulho que o Wikileaks e seu líder o australiano Julian Assange com alegria. As revelações sobre as relações diplomáticas dos EUA com o resto do mundo têm sido reveladas em jornais respeitados como o Le Monde, que mesmo publicando-as faz censura prévia, limitando-se o mais das vezes a divulgar fofocas como a preocupação de Hillary Clinton com os problemas intestinais de Nestor Kischner que o levavam a ser irritadiço ou a influência da popularidade de Carla Bruni no Brasil sobre as relações amistosas entre Sarkozy e o Lula. Mas há também coisas mais sérias, como o desejo dos EUA que abrigássemos presos de Guantánamo, a negociação em curso sobre a compra de aviões Rafale da França em troca de transferência de tecnologia. Para não falar da podridão correndo solta no Afeganistão e no Iraque.

        Muitas acusações estão sendo feitas a Julian Assuange, mas ninguém o acusou de ser mentiroso. Para os donos do poder que querem continuar fazendo tudo que lhes beneficia na surdina, para os pagadores do pato não perceberem e continuarem sendo patos, suas revelações prejudicam o trabalho da diplomacia, afetando a segurança dos Estados, para os cínicos ele quer aparecer às custas dos verdadeiros heróis que se arriscam lhe passando informações. O interessante é que a reação imediata e robusta mostra que verdades estão sendo ditas. O site do Wikileaks foi tirado do Amazon, por pressão dos EUA, a primeira-ministra da Austrália, Julia Gillard mandou-lhe avisar que ele é persona non grata no país, e uma acusação na Suécia de estupro que havia sido retirada foi novamente feita coincidentemente neste momento e o Sr. Julian tem mandado de prisão decretado pelo governo sueco. Ele aparentemente está em algum lugar na Inglaterra e só não foi preso porque o mandado tinha um erro técnico. Seu crime foi ao estar transando com uma mulher e ela notar que ele não tinha camisinha não ter parado quando ela o pediu. Quem garante que essa mulher não está a soldo do Mossad ou da CIA?

        Pode até ser que as revelações do Wikileaks atrapalhem o modus operandi diplomático. Bem, terão que conjecturar novos meios de trabalhar. Um valor maior está aqui em jogo, nosso direito a ter uma visão alternativa das coisas, mais herética, menos ligada a uma premissa de que invadir países que não agrediram ninguém, de que dar bilhões de dólares do dinheiro do povo a banqueiros que usam o dinheiro para se darem fartos bônus é natural e inevitável. Assuange promete agora divulgar documentos sobre corporações financeiras e se algo acontecer com ele em suas próprias palavras “Os arquivos foram espalhados juntamente com material significativo dos Estados Unidos e outros países para mais de 100.000 pessoas em forma de código.” Se atualmente não temos força para nos contrapor ao capitalismo financeiro feito de bombs and bail-outs” ao menos podemos ver a verdade atrás da máscara. É de esperar que a História agradeça ao Wikileaks pelas contribuições.

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Realpolitik

            Estava eu nesta semana zapeando na TV depois do jantar quando peguei um programa que me chamou a atenção. Falavam a respeito dos homens de negócio franceses, em sua maioria indivíduos que haviam sido antes membros de grupos militares de seu país, que vão ao Iraque, apesar de todos os riscos, para assinar contratos.

            E que riscos! Chegam ao aeroporto, pegam um carro blindado e se encaminham ao bunker dos franceses, um tipo de hotel em que ficam hospedados. Lá, depois de o veículo ser revistado, são recepcionados pelo embaixador da França no Iraque, um homem de 40 anos, que lhes explica sobre a necessidade de estarem em Bagdá apesar da insegurança, para não perderem as oportunidades, pois o Iraque vai se transformar no primeiro produtor de petróleo no mundo.

            Então esta é a moral da história? A conversa fiada de Bush e seu poodle Blair, um escroque picareta que tem a lábia de advogado e a capacidade de contar mentiras sem piscar o olho; as histórias sobre o perigo eminente das armas de destruição do Sadam Hussein; a invasão do Iraque, o vale de lágrimas que tem sido aquele país para seus habitantes, milhares dos quais foram mortos, mutilados, forçados a deixar suas casas. Tudo foi para que os homens de negócio possam agora investir seus capitais para reconstruir tudo o que foi bombardeado?

            Alguns dirão que não é bem assim, que a invasão do Iraque foi planejada por George Bush como uma parte de seu plano de neutralizar a Al Qaeda e de instalar um regime democrático no Iraque que fosse amigo de Israel e contrabalançasse a influência maligna dos fundamentalistas do Irã. O caos que se instalou no país foi uma conseqüência inesperada da falta de planejamento da invasão, pois os falcões americanos, capitaneados por Donald Rumsfeld, acharam que tudo seria muito mais fácil do que realmente foi. Dentro dessa linha de pensamento, a presença dos capitalistas no Iraque, oferecendo aquilo de que o país precisa, consultoria em segurança, bien sur, armas para equipar a guarda nacional criada depois da derrubada de Hussein, serviços de engenheira, são um sintoma da relativa normalidade de que goza o país, resultado da pacificação bem-sucedida. Com o tempo, as coisas vão se ajeitando, a violência vai amainando e o Iraque se transformará num próspero país capitalista, democrático e multicultural, com curdos, sunitas e shiitas convivendo lado a lado, cada macaco no seu galho, mas todos comendo banana ou melhor, tâmaras…

            Esse foi o argumento utilizado por muitos bem pensantes, incluindo nosso conhecido Mario Vargas Llosa, o Nobel de literatura deste ano que apoiou a derrubada de Sadam Hussein, pois era um facínora psicopata, e outros menos conhecidos aqui como o inglês Christopher Hitchens, um polêmico escritor inglês, que já escreveu um livro massacrando Madre Teresa de Calcutá, acusando-a de cultivar a miséria para satisfazer seu ego e que aparentemente considerava Sadam Hussein tão maligno quanto a finada religiosa.

            É cedo demais para vaticinarmos qual será o destino do Iraque, se acabará se desmembrando, se conseguirá manter sua unidade territorial. Mas o fato é que a guerra no Iraque e seus desdobramentos, talvez um pequeno ataque aéreo ao Irã nos próximos meses, mostra a falência moral do Ocidente.

            Pois de um lado temos os capitalistas do Ocidente, que na sua marcha inexorável de produção de lucro e destruição pelo mundo iniciada com o fim da Idade Média construíram sua obra prima na pobre América, criando aqui seus entrepostos, seus empreendimentos agrícolas, e acima de tudo criando sociedades doentes, fundadas na escravidão que deixou tantas marcas na nossa psiquê, nossa falta de solidariedade, nossa incapacidade de firmarmos pactos sociais, nossa crueldade. Vemos isso se desenrolar agora com os episódios trágicos no Rio de Janeiro: não fomos capazes de investir em educação saúde, cultura e família, e agora a única solução parece nos entregarmos a orgias de assassinatos de vez em quando para aliviarmos um pouco a pressão.

            América no século XVI, Ásia e África no século XIX, Oriente Médio agora. A diferença é que os homens de negócio de hoje não se perguntam do porquê de suas ações. Se no século XVI ele agiam para espalhar a fé cristã e a cultura ocidental, hoje nem se dão ao trabalho de dar justificativas, “it’s pure business”, oportunidades de investimento, um moto contínuo, uma engrenagem que se alimenta de uma racionalidade toda especial, feita de reduzir o homo sapiens ao homo economicus.

            E pior, aqueles que ainda tem fé nos ideais do Ocidente, no humanismo de seus grandes luminares, que libertou o homem da superstição e a mulher da opressão, se apegam a conceitos que não mais fazem sentido no contexto de hoje. Vargas Llosa, Hitchens e outros consideraram que a defesa da democracia vale o sacrifício. Mas o que é democracia hoje no Ocidente? Por acaso o cidadão discute, participa assume responsabilidades como nos aerópagos gregos? Vimos recentemente na França quão fraca a voz do povo está: depois de dias de protesto contra as mudanças nas regras de aposentadoria, o Parlamento deles aprovou o aumento da idade como uma medida absolutamente necessária. Que dirá então em países como o nosso, que nunca teve tradição de luta e protesto? O que é a democracia nessas plagas, senão uma farsa em que a escolha entre o vermelho e o azul é absolutamente perfunctória? Na França ou no Brasil, qual o futuro da democracia num regime econômico de crescente financeirização? Que futuro há para o povo em que os direitos sociais, entre eles o direito ao trabalho, estão cada vez mais ameaçados, reduzindo as pessoas à condição de reféns da necessidade de pagar dívidas de outros, de manter o cassino internacional feito de derivativos, swaps, securitização funcionando?

            Talvez a completa desfaçatez que foi a Guerra no Iraque, seja um símbolo do ocaso do Ocidente, carente de idéias consistentes e cheio de cinismo. Talvez o espírito do século XXI, seu ethos, sua estrutura material, esteja se desenrolando na Ásia. Seus principais expoentes, China e Índia, não nutrem as mesmas ambições dos ocidentais a respeito de direitos: o único direito que há na China é o direito ao trabalho, e na Índia, que está avançando rapidamente no comércio internacional, vendendo serviços de back-office, consultoria, engenharia, a democracia convive com um sistema de castas inaceitável aos olhos ocidentais. E detalhe importante, a China e a Índia não invadem nenhum país em missão civilizadora, são muito pragmáticos para isso, sai mais barato comprar terras e outros ativos na África, América Latina e garantir fornecimento de matéria prima como a China tem feito recentemente. Essa receita mais comezinha quem sabe pode se revelar mais estável nas próximas décadas do que a grandeza podre do Ocidente.

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Política externa

            A presidente eleita Dilma Rousseff leu seu discurso ao lado dos seus companheiros da longa jornada, entre os quais o nosso familiar Sarney, que consegue estar em todas, à direita, à esquerda, no centro e tenho fé que ao final estará no inferno, seu lugar merecido. À parte os chavões que caracterizaram toda a campanha, como a defesa do pré-sal, esse factóide em que estamos nos fiando para queimar etapas e chegarmos ao primeiro mundo sem muito esforço, foi gritante a falta de qualquer menção às nossas relações externas. Dilma não parece muito preocupada com isso, pois talvez concentrará seus esforços na erradicação final da miséria, na ampliação do Bolsa Família, no outro grande factóide que é o PAC, que talvez agora se transforme em realidade. Mas o fato é que o pouco que ela pretende fazer, pois quase não falou durante a campanha em nenhuma grande reforma fiscal, previdenciária ou política, dependerá muito de nossas relações externas, neste mundo globalizado.

            Estamos passando por um período de grande acomodação das placas tectônicas da geopolítica. O advento de Barack Obama ao poder, que prometeu mudanças e está seguindo a velha cartilha do imperialismo e dos privilégios à elite financeira, parece marcar o início da decadência dos Estados Unidos. A bolha imobiliária estourou e os americanos perceberam que estão de calças curtas, com uma taxa de desemprego estrutural, fruto da desindustrialização por que passaram e um déficit gigantesco, intratável, fruto entre outras coisas das guerras pelo mundo afora e agravado recentemente pela ajuda vergonhosa aos bancos, que só permitiu a estes maquiar seus balanços e distribuir bônus generosos a seus executivos.

            Mesmo ferido pela globalização que ajudou a detonar e menos auto-confiante do que outrora, o Tio Sam ainda tem alto poder de destruição. Estamos vendo isso se desenrolar aos nossos olhos com a política do Banco Central americano de despejar dólares no mercado para que os banqueiros emprestem às empresas e consumidores e assim reativem a economia. Nenhuma das duas coisas está acontecendo, mas os banqueiros estão se dando muito bem pegando esse dinheiro a taxas de juro próximas de zero, e inundando os países emergentes, entre os quais nós, de dólares. Aqui são atraídos pelas taxas de agiotagem que temos que manter, em vista do nosso imenso déficit público que esquerdistas e direitistas nunca souberam ou quiseram tratar. Para enxugar essa enxurrada e não sobrevalorizar por demais o real, o nosso Banco Central compra os títulos do Tesouro americano que hoje não rendem nada.

            Essa sangria não dará boa coisa para nós ainda que possa ser extremamente rentável aos financistas. De um lado empilhando títulos de um tesouro que a cada dia se revela mais incapaz de honrar seus compromissos. De fato, a vitória do Tea Party nos EUA mostra o alarmismo de uma parte da população americana com o tamanho do rombo. De outro, provocando a alta de nossa moeda, e, ao lado de nossa infraestrutura inexistente, de nossa mão de obra desqualificada, contribuindo para a perda de competitividade da indústria nacional e a inundação do Brasil de manufaturados importados.

            Os Estados Unidos, na melhor tradição do big stick não assumem sua responsabilidade por esse desequilíbrio que está causando nos mercados de câmbio e elege como bode expiatório a China, que nada mais faz do que proteger seus interesses, seja desenvolvendo sua capacidade manufatureira, seja não permitindo que sua moeda oscile muito. Fica claro que teremos que tomar uma decisão a respeito do que queremos para nós e é aqui que a presidente Dilma terá que dar atenção às nossas relações externas. Faremos coro com os Estados Unidos para pressionar a China a ceder e deixar o ren min bi se valorizar ou tentaremos nos desvencilhar da nossa ligação com o dólar que está cada dia mais enfraquecido?

            Nesse sentido, seria bom que nossa política externa fosse pautada menos pela tentativa de mostrarmos alinhamento com uma pauta de esquerda. O flerte do Lula com o presidente do Irã é um típico exemplo de desperdício de munição. Nenhum esforço diplomático que o Lula fizesse seria suficiente para dirimir as tensões, porque já há um consenso estabelecido por todos aqueles que apóiam o complexo militar americano e o lobby israelense, de que o Irã é do “eixo do mal” e de que deve estar na mira do Império, como o Paquistão, o Afeganistão e o Iraque. Por que então nos desgastarmos com um país que não faz parte dos nossos interesses estratégicos? Para mostrarmos nossa independência em relação aos EUA? Seria melhor mostrarmos essa independência tomando uma atitude firme em relação ao quantitative easing perpetrado pelo Banco Central Americano. José Dirceu, Marco Aurélio Garcia, ou quem quer que vá dirigir as relações exteriores do Brasil, chega de bravatas, chega de um terceiro mundismo e de um anti-americanismo do século XX, os desafios mudaram, realismo já em nossa política externa!

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Plus ça change

            Não sabemos ainda o que acontecerá no Egito, pode ser que Hosni Mubarak seja defenestrado para ser substituído por outro general da mesma qualidade, ou falta de qualidade, a depender do ponto de vista, de maneira a satisfazer a sanha do povo nas ruas. Pode ser que os egípcios consigam exercer uma pressão suficiente para que o líder da oposição, Mohamed El Baradei, candidato preferido da classe média, seja alçado ao poder. Uma terceira possibilidade é ocorrer a ascensão do fundamentalismo islâmico, na forma da Fraternidade Muçulmana, responsável pelo assassinato de Anwar Sadat.

            Essa organização conta com cerca de 2 milhões de adeptos dentre os  80 milhões de egípcios. Pode parecer pouco, inclusive porque tem sido até agora reprimida por Mubarak. No entanto, a posição do ditador acaba dando credibilidade aos inimigos do regime secular atualmente em vigor no Egito. Amigo de Israel e dos Estados Unidos, mais um dentre tantos árabes que se venderam, não só dificultando o avanço da causa palestina, por ajudar no bloqueio a Gaza, como tornando o país dependente da ajuda militar e financeira dos EUA, Mubarak representa aos olhos dos radicais muçulmanos o mal advindo da aliança com o Ocidente (o Egito tem um tratado de paz com Israel que já dura 30 anos).  Ao tempo de Gamal Abdel Nasser, o Egito tentou trilhar um caminho próprio de desenvolvimento. A partir da ascensão de Mubarak ao poder em 1981, as elites egípcias se decidiram pelo caminho mais fácil, locupletando-se, e o país hoje está mergulhado na miséria e é importador de comida, principalmente do seu financiador, os EUA.

            A injustiça da situação enfrentada pelos egípcios é demonstrada pelo grau de violência que temos visto nos protestos. O povo está indo às ruas contra a corrupção endêmica, contra os privilégios dados aos ricos, contra a falta de emprego, contra a opressão dos muçulmanos perpetrada pelos americanos no Afeganistão, Iraque, Paquistão e Palestina. O acinte a que se chegou, com o beneplácito dos EUA, que tem no Egito de Mubarak um aliado para concretizar sua política no Oriente Médio, só faz desmoralizar os valores ocidentais expressos e aparentemente defendidos pelo Exército americano e seus diplomatas, e por oposição, a dar credibilidade à visão islâmica do mundo, feita de sharia, de justiça sumária e cruel, de obediência literal aos mandamentos do Corão, de colocação das mulheres no seu devido lugar de agentes de reprodução.

            Nesse sentido talvez estejamos chegando a um ponto de inflexão, em que o véu da hipocrisia ocidental está sendo desvendado e rasgado como nunca dantes, a ponto de se tornar pano roto. No período da Guerra Fria, os Estados Unidos arvoraram-se os defensores dos valores da liberdade e da democracia, contra o controle da vida do indivíduo pelo Estado Comunista. Em nome desses valores, os Estados Unidos apoiaram todo e qualquer regime que se colocasse contra o comunismo, desde ditadores sanguinários como Augusto Pinochet, cleptomaníacos como Mobutu Sese Seko, canibais como Charles Taylor. Mas ao final eles justificaram em 1989 dizendo que a Guerra Fria tinha valido a pena já que o inimigo não só foi derrotado de maneira acachapante com inclusive acabou adotando os valores ocidentais. Quem não se lembra na década de 1990, da corrida desenfreada dos russos rumo ao capitalismo, vendendo estatais a toque de caixa e preço de banana? Aparentemente estava inaugurada a Pax Americana, que garantiria estabilidade ao mundo, por proporcionar uma ordem justa, global, calcada no livre comércio, na democracia parlamentarista.  O que temos 20 anos depois?

            Ora, percebe-se claramente que a ofensiva imperialista dos EUA nunca teve como objetivo inaugurar uma ordem que fosse includente, fundada nos direitos humanos, na igualdade de oportunidades para todos, como proclamam os defensores do capitalismo. Seu único objetivo era que fosse lucrativa, não para os americanos como um todo, mas para os grupos que se beneficiam da globalização: a elite financeira que faz a mágica de criar dinheiro a partir de dinheiro, sem nenhuma correspondência com a realidade econômica, socializando os prejuízos quando o truque não dá certo e privatizando os lucros quando a platéia fica embasbacada; as multinacionais que tornaram suas operações globais, transferindo-as para países com custo de mão de obra mais baixo na Ásia e criando nos EUA uma classe média sem nenhuma perspectiva, de quem lhes foi tirado o chão das fábricas de automóveis, aço, e outras indústrias tradicionais; e o complexo militar que se beneficia da caça às bruxas agora em vigor, conseguindo alocar seus mercenários nas guerras sem fim ao terror.

            O resultado desses objetivos puramente mercantilistas de uma elite global, que se irradiou dos EUA para o mundo, não contribuiu em nada para consolidar a democracia, a pluralidade, o liberalismo, a pujança. Na América Latina nos impuseram o Consenso de Washington goela abaixo, e a única coisa que conseguimos foi nos reinventarmos como exportadores de commodities, como temos feito secularmente, e darmos asas a populistas como Hugo Chávez e Evo Morales acumularem poder às custas de uma retórica anti-americana e anti-liberal. Na Europa, os tecnocratas globais criaram a União Européia para livrar o continente de uma vez por todas do espectro do comunismo e das guerras, juntando no mesmo barco economias díspares, levando os países mais frágeis da Europa Oriental e Meridional à bancarrota. Os Estados Unidos atualmente estão, por meio de sua política monetária destinada a livrá-los da recessão, valorizando artificialmente as moedas dos países em desenvolvimento, com conseqüências danosas para a estabilidade financeira deles. O Oriente Médio continua viciado ao petróleo, vício este alimentado pelos grandes consumidores, na maioria países ocidentais, tendo à frente os EUA. Podemos citar talvez a Índia e a China como países que se beneficiaram da globalização, mas em termos especiais. A China impõe controles sobre o acesso a empregos por meio do sistema de hukou, o passaporte interno, e a Índia criou uma casta de engenheiros, operadores de telemarketing, médicos e advogados conectados ao mundo global, mas deixou de lado a maioria daqueles que não tem o inglês perfeito para se encaixar. De qualquer forma, a trajetória desses países, culturas milenares que estavam aí muito antes do Ocidente ascender, mostra que para se dar bem na globalização é preciso cultivar uma atitude de desconfiança em relação à conversa maviosa dos ocidentais, a não querer seguir a cartilha que eles impõem para tirar boas notas. A China é um mau aluno de acordo com o cânone em voga: não respeita direitos humanos, não é democrática e é protecionista, só querendo obter vantagens do sistema global e evitando-lhe as armadilhas. Resultado: se não é amada, ao menos é respeitada como global player.

            Desse modo, as conseqüências pífias, senão desastrosas da Pax Americana, que semearam caos e injustiça no mundo, têm nos acontecimentos no Egito sua mais recente manifestação. Longe de sinalizar uma tentativa de realização da democracia, da pluralidade, da tolerância, o rastro de pólvora que se espalha no Oriente Médio a partir da Tunísia pode ser a pá de cal em qualquer esperança de uma ordem jurídica internacional fundada nos valores ocidentais. Nem due process of law, nem separação de poderes, nada do que o racionalismo conquistou no Ocidente nos últimos 6 séculos. O que está à espreita é a mais lídima teocracia, tal como já existe no Irã. E ironicamente o Ocidente, com sua cobiça desenfreada, seu cinismo e sua indolência movida a consumo, tem uma boa dose de culpa por essa virada espetacular.

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