Vox populi?

A eficácia do líder populista nas funções de Governo dependerá da margem de compromisso que ocasionalmente exista entre os grupos dominantes e de sua habilidade pessoal para superar, como árbitro, os enfrentamentos e para encarnar a imagem da soberania do Estado, em face das forças sociais em conflito.

Trecho retira do texto escrito pelo cientista político Francisco Carlos Weffort (1937-), “O Populismo na Política Brasileira”

O que realmente importa não é qual partido controla o governo, mas se o governo é controlado pelo povo. 20 de janeiro de 2017 será lembrado como o dia em que o povo se tornou o comandante deste país de novo.

Trecho do discurso de posse do 45º Presidente dos Estados Unidos, Donald John Trump

Eles financiarão a infraestrutura por meio de títulos de dívida e parcerias público-privadas, linhas de trem e linhas de transporte. Quem serão os beneficiários disso e quem vai pagar por isso? Se o governo não pagar por isso serão os detentores de títulos públicos e Wall Street.

Trecho de entrevista dada pelo professor de economia da Universidade do Missouri, Michael Hudson sobre o plano de Donald Trump de investir na construção e renovação da infraestrutura nos Estados Unidos

    Prezados leitores, por razões profissionais recentemente tive que inteirar-me sobre o mecanismo de funcionamento do empréstimo consignado, cuja lei, de número 10.820, entrou em vigor em 17 de dezembro de 2003. Considero que do legado de Lula, que inclui a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos, o empréstimo consignado constitui uma perfeita síntese do que nosso ex-presidente tentou como legítima expressão do populismo latino-americano, a saber, conciliar interesses antagônicos em sociedades com grandes disparidades econômicas, sociais e culturais como a brasileira. O desconto em folha de pagamento de empréstimos contraídos por assalariados em instituições financeiras é bom para os bancos, porque dá uma garantia mais sólida de que haverá pagamento, e permite ao trabalhador pegar dinheiro a taxas um pouco mais baixas do que as normalmente praticadas no mercado brasileiro. Uma maravilha, não? Em termos.

    O caldo entorna quando o devedor perde o vínculo empregatício e as taxas de juros incidentes sobre a dívida aumentam porque o empréstimo transforma-se em empréstimo comum. Considerando a pouca educação financeira que nós brasileiros temos, isso pode transformar-se em uma bola de neve que escraviza o correntista, porque o banco vai continuar cobrando a dívida fazendo débitos automáticos de qualquer valor que caia na conta do pobre indivíduo que a esta altura estará desempregado, sem renda garantida e provavelmente devendo três vezes mais do que o início (foi o que aconteceu no caso com o qual tive contato). E como não deixar de pagar, se precisamos ter conta corrente se quisermos almejar ter de novo vínculo empregatício? Em suma, o que era um pacto perfeito costurado pelo sindicalista Lula entre o interesse dos banqueiros de aumentar sua carteira de clientes com o mínimo de risco e o interesse dos trabalhadores de ter crédito para comprar bens de consumo duráveis, tem transformando-se muitas vezes em um pesadelo para os incautos trabalhadores do Brasil, irremediavelmente pegos na teia das armadilhas financeiras dos bancos.

    Esta é uma das várias contradições de Lula, que tentou ser amigo de todos, das “zelites”, do povo, e acabou em muitos aspectos sendo amigo da onça de muitos. Como mostra Weffort em seu texto, que li em em meus tempos de escola quando estudávamos o primeiro grande espécime do gênero no Brasil, Getúlio Dornelles Vargas, o populista , ao fazer a ponte entre o povo que o elegeu e os donos do poder, precisa ter muito jogo de cintura e conseguir uma sintonia fina entre os vários interesses: não pode desgostar muito a elite para que ela não pense em derrubá-lo por meio dos meios de que dispõe, e não pode deixar de satisfazer os anseios do povo que nele depositou suas esperanças de conquistar direitos. O PT de Lula conseguiu essa sintonia fina embalado pelo crescimento econômico, mas quando este mingou a partir de 2011 chegou a hora da verdade, os compromissos não mais puderam ser feitos. Era preciso escolher, e os donos do poder no Brasil escolheram livrar-se do PT porque o cobertor ficou extremamente curto para cobrir as veleidades de justiça distributiva a que se dá o nome de populismo fiscal. O Sr. Temer no poder permite passar a conta da crise das finanças públicas para quem não tem direito adquirido nem meio de fazer lobby convincente em Brasília.

    Nós, na América Latina, estamos acostumados com a ascensão e queda de populistas. A grande novidade no momento é que no lado de cima do Equador, os antagonismos econômicos provocados pela globalização fizeram surgir um populista em pleno Primeiro Mundo, o Aprendiz Donald Trump, que em seu discurso de posse deixou claro que pretende ser a ligação direta entre o povo, em nome do qual o poder é exercido, e o exercício do poder. O mundo espanta-se com isso, mas o fato é que nos últimos 30 anos os Estados Unidos acabaram vendo surgir em seu seio bolsões de Terceiro Mundo, infestados de desemprego, de criminalidade, de falta de infraestrutura pública, cuja existência Trump teve a qualidade de reconhecer e enfatizar, algo que sua adversária, Hillary Clinton, nunca fez, preocupada que estava com a política das minorias. Mas agora, cabe a pergunta, que tipo de populista será o 45º presidente dos Estados Unidos? Terá ascensão e queda meteórica como o costuma acontecer no lado de baixo do Equador? Ou conseguirá ser o fazedor de consensos, gerando crescimento econômico e empregos e fazendo todos prosperarem, transformando-se em criador de uma nova síntese pós-globalização?

    Uma vantagem de Trump é que ele chega curtido na batalha feroz que travou com a grande imprensa de seu país, e sabe que ela jamais lhe dará trégua. Por isso não cansa de fustigar a CNN, o New York Times e outros, e vale-se do Twitter e da mídia alternativa na internet para transmitir sua mensagem, blindando-se contra os ataques. O PT e seu mentor perceberam muito tarde que os principais meios de comunicação do Brasil queriam defenestrá-los do poder e para tanto promoveram incansavelmente a cruzada contra a corrupção dos governos Lula e Dilma. A má fé da nossa grande imprensa mostra-se agora quando a vetusta VEJA já descarta de antemão como teoria da conspiração qualquer suspeita sobre a morte para lá de estranha do juiz mais sério do STF, Teori Zavascki, que não havia cedido à tentação de tornar-se celebridade. Não é de se admirar que a morte de Teori não cause a comoção que deveria causar nos supostos arautos da honestidade na política. Afinal, o objetivo principal era tirar o PT do poder e isso já foi conseguido. Enfim, o Aprendiz, por ser um homem que já trabalha há muito anos na televisão, sabe que quem não domina os meios não domina os conteúdos das mensagens e não domina as mentes. Por mais que a mídia tradicional trucide Trump, ele é um manipulador hábil e não se deixará imolar como um bezerro desmamado.

    Por outro lado, nos Estados Unidos a briga de grupos com interesses conflitantes é briga de cachorro grande, não é para amadores. Há o complexo industrial-militar que quer que o Império Americano se expanda eternamente, mesmo à custa de mais e mais déficits, há as agências de inteligência que querem continuar invadindo a privacidade dos cidadãos, há os que querem briga com a China, outros que querem briga com o Irã, ainda outros para quem que o inimigo deve ser a Rússia. O que Trump fará? Vai jogar um grupo contra os outros para melhor governar em nome do povo, vai tentar chegar a um denominador comum ou vai jogar migalhas aos pobres, como Michael Hudson acha que ele vai fazer no caso da infraestrutura usando os bancos para viabilizar financeiramente as obras e tornando o país mais endividado?

    Prezados leitores, preparem-se para um espetáculo inédito, um legítimo populista em pleno coração do Primeiro Mundo. Se Donald Trump será a voz do povo ou será um eficaz ventríloquo nas mãos das elites globais permitindo-lhes escamotear os efeitos perversos do seu sistema de um mundo sem fronteiras, é uma grande incógnita no momento. Esperemos e apertemos os cintos, porque os solavancos virão, qualquer que seja o desfecho.

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Será?

Sabe-se que 90% dos atletas olímpicos brasileiros receberam algum tipo de incentivo com recursos públicos, enquanto menos de 50% contaram também com recursos da iniciativa privada. Existe muita desconfiança por parte das empresas acerca do destino de seus possíveis investimentos em esporte, uma vez que as federações esportivas no Brasil são verdadeiras caixas-pretas e os escândalos se empilham nas notícias do dia a dia.

Trecho retirado do artigo intitulado Copa e Olimpíadas: o Brasil passou a vez de Billy Graeff

Defensoria do AM quer indenização de R$ 50 mil a famílias de presos -Valor será definido pelo governo nos próximos dias; Estado pode ter que desembolsar R$ 3,2 milhões

Manchete de artigo publicado na versão eletrônica do jornal O Globo de 12 de janeiro

    Prezados leitores, meu humilde artigo de hoje tentará refletir minha perplexidade por meio de uma série de perguntas para as quais obviamente não tenho e ninguém tem resposta. Meu propósito em tudo o que escrevo aqui não é convencer ninguém, afinal como tentei mostrar na semana passada, argumentos que não sejam estritamente científicos em larga medida têm como fundamento valores e convicções que variam muita na nossa sociedade dividida em guetos. Dividirei as perguntas em temas para facilitar o entendimento.

    Começarei pela onda das rebeliões em presídios, que parece estar espalhando-se pelo Brasil como um rastro de pólvora, quem sabe pelo fato de os presos estarem sentindo-se celebridades depois da farta divulgação dos seus feitos nas mídias sociais. Provavelmente a iniciativa da Defensoria Pública do Estado do Amazonas será imitada pelas Defensorias dos outros Estados onde houve assassinatos nas prisões e todas pedirão indenização do Estado para as famílias dos presos. Os brasileiros pagarão em todos os momentos, as vítimas dos que estão encarcerados são as primeiras a pagar, em seguida os contribuintes pagam os parceiros privados como a tal da empresa Umanizzare que gere muito mal várias cadeias no Brasil, mas claro é remunerada regiamente para fazê-lo, quando os presos fogem como está acontecendo agora pagamos com o aumento da insegurança e o contribuinte será chamado pelos defensores públicos a arcar com a conta mais uma vez para ressarcir os danos materiais e morais às viúvas, mães e filhos de presos.

    Por quanto tempo mais aguentaremos pagar a conta? Por quanto tempo mais continuaremos a ser chamados a assumir o prejuízo quando as coisas dão errado, ou melhor quando as coisas dão errado para a maioria e dão certo para uma minoria? É certo que esse estado calamitoso nas prisões beneficia alguns, a começar pelas facções criminosas e as autoridades que fazem vista grossa ao que elas fazem em troca de compartilhamento do botim proporcionado pelas atividades ilícitas. Por quanto tempo conseguiremos sustentar essa política de multiplicação de direitos de grupos e coletividades específicas? Posso dar-lhes outros exemplos para não me acusarem de ser partidária da limpeza étnica nas nossas “masmorras”, como disse o ex-Ministro da Justiça José Eduardo Cardozo. O Ministério Público tem defendido os direitos daqueles atingidos pelo estouro da barragem em Mariana, o Judiciário concede liminares a quem tem doenças raras para que o Estado pague a realização de exames caros e a importação de remédios cuja eficácia nem sempre é comprovada. E quem defende o povo brasileiro como coletividade única e não como uma reunião de grupos que disputam entre si os escassos recursos? Ou será que já não é mais moralmente defensável pensarmos em um homem médio porque isso seria sexista ou racista ou intolerante? Será que estaremos condenados a permanecer nessa trilha de cada um puxar para si um cobertor cada vez mais curto? Ou pior, antes que o cobertor rasgue por completo, será que nossa democracia tupiniquim está rapidamente transformando-se em um narcoestado? Será que nosso PCC, CV e outras facções já estão chegando ao nível da La Zeta mexicana, que manda pendurar a cabeça de indivíduos abatidos em viadutos para dar exemplo? O próprio talvez futuro Secretário de Estado dos Estados Unidos, Rex Tillerson, na ínfima menção que fez à América do Sul ao ser sabatinado no Senado mostrou-se preocupado com os recentes acontecimentos por aqui. Será que o governo americano considerará o Brasil mais um caso de failed state? Se positivo, qual será o efeito disso na prática? Haverá em nosso território o nível de interferência americana que há na Colômbia, por exemplo?

    Os otimistas apontarão que a Operação Lava-Jato e seus desdobramentos no Judiciário mostram, ao contrário, a força das nossas instituições. Não há como negar que todas essas prisões, delações premiadas e as medidas anticorrupção quando finalmente transformarem-se em lei terão um efeito dissuasório ou ao menos camuflador das práticas corruptas. Por outro lado, uma dúvida surge. Será que a partir desse saneamento a política atrairá pessoas honestas e bem-intencionadas? Ou terá o efeito perverso de permitir a sobrevivência apenas dos mais fortes, no caso daqueles que conseguem arrecadar fundos suficientes para arcar com os maiores riscos do negócio, especificamente os inevitáveis problemas na justiça? Será que no final das contas todo esse esforço de anos pela limpeza moral do Brasil simplesmente criará uma barreira a mais para novos ingressantes, impedindo que neófitos aventurem-se na seara política, por medo de serem processados e não terem como arcar com os custos? É cedo demais para vislumbrar como todas essas medidas de combate à corrupção vão influir a prática democrática a longo prazo, mas se nós brasileiros continuarmos a votar com base em pesquisas de opinião e guiados por uma imprensa que tem sua própria pauta de interesses corporativos será difícil impedir que ocorra a seleção dos tiranossauros rex da política brasileira e a suspensão do advento do homo sapiens.

    Aliás, por falar em grande imprensa brasileira, por que ela raramente cumpre uma função verdadeiramente pública? A cobertura dos megaeventos esportivos que realizamos, tanto antes como durante, foi na base do oba-oba, os problemas eram mostrados secundariamente, pois a prioridade era ter esperança de que tudo afinal daria certo, de que as obras ficariam prontas e de que daríamos um grande espetáculo para o mundo. Só agora um veículo como a VEJA espinafra de cabo a rabo o legado da Copa e das Olimpíadas, em um artigo na sua edição de 18 de janeiro, mostrando o abandono das arenas, os roubos que estão ocorrendo no Maracanã e a falta de destino do Parque Olímpico no Rio de Janeiro, como se este fosse o momento mais oportuno de lavarmos a roupa suja, quando só nos resta pagar a conta da incompetência e da malandragem. Não teria sido mais útil enfatizar antes o fato de que o público foi chamado a arcar com os custos desde o início e que a tal da iniciativa privada só entraria com sua fatura da construção dos elefantes brancos? Utilizo o verbo enfatizar porque o que quero apontar não é a total falta de informações sobre o desafio de construção de um verdadeiro legado positivo para o povo brasileiro, mas a falta do devido destaque aos efeitos de longo prazo desses megaeventos, em prol da cobertura sensacionalista da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos.

    Prezados leitores, guerra entre facções criminosas, greve de policiais, rescaldos do impeachment, receitas públicas que caem vertiginosamente: parece que estamos vivendo um período de ressaca. Há alguns anos eu humildemente previ que teríamos o mesmo destino da Grécia que sediou os Jogos Olímpicos de 2004, ou seja, a bancarrota, que está levando aquele país a vender todo o patrimônio público que tem para pagar dívidas. Minha última pergunta desta semana será: estamos começando um círculo vicioso ou simplesmente chegamos ao fundo do poço e melhoraremos em 2017?

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Guerra de Palavras

Crátilo acredita que qualquer pessoa que saiba o nome de uma coisa também conhece a coisa. […] Porque os nomes não somente servem como ferramentas de referência, algo que inúmeras etiquetas poderiam fazê-lo, eles também servem para nos instruir sobre a natureza das coisas, sobre o modo como o mundo é.

Trecho retirado da Introdução à edição americana do diálogo platônico Crátilo sobre a relação entre a linguagem e a realidade

Os raciocínios analíticos são aqueles que, partindo de premissas necessárias, ou pelo menos indiscutivelmente verdadeiras, chegam, por meio de inferências válidas, a conclusões igualmente necessárias ou verdadeiras. Os raciocínios analíticos transferem a necessidade ou a verdade das premissas à conclusão: é impossível que a conclusão não seja verdadeira se a pessoa raciocina de maneira correta a partir de premissas verdadeiras. O tipo de raciocínio analítico era para Aristóteles o silogismo.

Trecho retirado do livro “Logique juridique, Nouvelle rhétorique, de Charles Perelman

    Prezados leitores, muito reclamamos da escola brasileira, de como os alunos não sabem escrever, de como estamos sempre na rabeira da classificação nos testes internacionais. Junto-me ao coro dos reclamões colocando-me como vítima da insuficiência acadêmica, eu que passei duas vezes e formei-me com certa distinção duas vezes pela maior e melhor universidade do país. Já estou com 44 anos e ainda tento por iniciativa própria suprir uma chaga na minha formação, qual seja: nunca aprendi nos bancos escolares brasileiros a pensar. Aprendi a ler, e certo, na Faculdade de Letras aprendi a ler nas entrelinhas dos textos o preconceito racial, sexual, a ideologia de classes por trás do discurso dos escritores, e na Faculdade de Direito tive contato com leis e meus ilustres professores fizeram-me ver como toda decisão de juiz, petição de advogado ou defesa devem estar fundamentados nos direitos fundamentais “insculpidos” na Constituição.

    Tudo suficiente para escrever bonito, mas nada que nos desse sustância intelectual para aprendermos a formular os tais dos silogismos tão fundamentais para apresentar um ponto de vista. Afinal, nunca nem ao menos tentaram explicar-nos a importância da definição dos conceitos, a importância do discernimento de qual sentido está sendo atribuído a uma determinada palavra para identificar as premissas do argumento, a importância de seguir os passos corretos para tirar conclusões a partir das premissas. Sócrates, um dos personagens do diálogo Crátilo, desafiava seus alunos justamente indagando-lhes a respeito do sentido das palavras que eles utilizavam para fazer suas declarações. O só sei que nada sei dele é nada mais nada menos do que esse exercício de identificação das premissas do argumento para verificar se elas se sustentam ou não, o que envolve sempre a busca do significado das palavras. Essa nossa incapacidade generalizada afeta até os relacionamentos pessoais, pois cria animosidades que poderiam ser evitadas se as pessoas soubessem por que estão discordando. Vou dar-lhes um exemplo disso relatando uma experiência recente por mim vivida em uma troca de e-mails com uma professora universitária.

    O motivo da discussão era o feminismo, ou melhor, a vertente do feminismo que declara que as mulheres sempre foram oprimidas pelos homens porque os homens sempre se valeram de sua posição predominante para reprimir e explorar as mulheres, negando-lhe direitos. Essa inferioridade jurídica, econômica e cultural deve ser superada pela luta das mulheres pelo fim do paradigma masculino na sociedade, o que levará a uma diversidade de gêneros fora da lógica binaria macho/fêmea ainda prevalente. Pois bem, depois de eu tentar apontar em vão exemplos na história de mulheres que pensaram, que escreveram, que foram reconhecidas mesmo em uma sociedade opressora, eu apontei à minha correspondente que seria inútil continuarmos a discutir porque eu não compartilhava as premissas dela e nem ela as minhas. Em minha opinião, há diferenças biológicas irredutíveis entre pessoas do sexo masculino e pessoas do sexo feminino, ao passo que ela considera que essas características dos dois gêneros estabelecidos na sociedade são totalmente construídas e devem ser desconstruídas em prol da multiplicidade de identidades.

    Pelo fato de eu atribuir um significado biológico aos termos homem e mulher, considero que em última análise o indivíduo do sexo masculino, enquanto tiver as características hormonais com as quais ele normalmente nasce, sempre verá a mulher como um objeto sexual, o mesmo valendo para os indivíduos do sexo feminino. Em suma, enquanto o homo sapiens continuar a se interessar pelo sexo oposto, haverá sempre um jogo de conquista mútua que necessariamente tem um conquistador e um conquistado. Considerar isso como fonte de opressão que deve ser superada pela educação para a igualdade para mim é ilusório, com base nas minhas premissas.

    Infelizmente, quando afirmei a ela que nem as minhas premissas nem as dela poderiam ser estabelecidas com certeza, afinal o ser humano nasce em sociedade, ou como disse Aristóteles, anthropos physei politikon zoon, o que torna impossível separar no homem o que é 100% biológico do que é cultural, a conversa desandou. Se nossas respectivas premissas são inverificáveis, as afirmações dela são tão válidas ou tão inválidas como as minhas, o que a levou a dizer que eu a estava acusando de mentirosa. Nesse momento identifiquei o mal que a aflige que é compartilhado por todos os brasileiros, como eu também, educados totalmente aqui (quero crer que haja ainda lugares em que os estudantes aprendam a pensar). Não sabemos distinguir o que são premissas, o que são as consequências necessárias das premissas e como fazer essa operação de derivar um de outro. O resultado é que batemos boca à toa, trocamos farpas, muitas vezes fazemos ataques pessoais. Eu desisti completamente da discussão, mas ela não desiste de tentar convencer-me, mesmo porque além de eu ser anti-feminista (isto é nos moldes em que ela concebe o feminismo) fui a favor da eleição do facínora aprendiz de ditador, Donald Trump, o homem que é sempre mostrado em jornais, revistas e internet rosnando. É preciso salvar-me do pecado e por isso ela manda-me artigos que claro pregam para os convertidos ao ódio ao presidente eleito dos Estados Unidos. Está aí um outro caso de divergência sobre conceitos.

  Quando digo pregar para convertidos é escrever para quem compartilha suas premissas básicas. Hoje minha correspondente enviou-me o “comovente” discurso de Meryl Streep contra o magnata. Para achar qualidade naquilo que ela fala é preciso concordar com o conceito de que discriminar, isto é, estabelecer diferenciações com base em certos critérios, é necessariamente ruim porque racista e xenófobo. O muro com o México é obviamente o pomo da discórdia e o motivo da indignação de pessoas de bem como Meryl Streep. No entanto, como eu considero que discriminar pode ser bom, a depender dos critérios que sejam estabelecidos, acho que os americanos tem tanto direito de construir um muro para evitar ou diminuir a entrada de drogas, armas e criminosos, como nós brasileiros temos o direito e até o dever, para o bem da paz interna, de controlarmos de maneira infinitamente mais estrita do que atualmente fazemos nossos 17.000 quilômetros de fronteiras com países que incluem produtores de cocaína como Bolívia, Peru e Colômbia. Se estabelecer critérios para que determinados tipos de pessoas e objetos que potencialmente podem causar danos internamente não entrem é algo terminantemente proibido porque racista e xenófobo, qual outra maneira que os bem-pensantes propõem para garantir a segurança da população do país? Soltar pombas da paz como fazemos frequentemente no Brasil? Educar para a cidadania e esperar que os ensinamentos sejam absorvidos total e imediatamente? Na prática é preciso agir logo, como a situação dos presídios brasileiros, controlados por gangues de traficantes de drogas nos mostra.

    Prezados leitores, dizem que estamos na era da pós-verdade, eu diria que a era da pós- verdade é a era dos guetos: nossos valores, convicções, princípios são tão diversos que as discussões tornam-se diálogos de surdos vociferados por interlocutores que não concordam nem sobre o que estão falando. O resultado vemos à nossa volta e vejo em mim mesma, claro: violência verbal, desprezo e ódio mútuos, cada um no seu canto, informando-se nos veículos que compartilham seus dogmas e ignorando o resto. Parafraseando Tim Maia: chamem o Sócrates!

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Alvíssaras

‘aquele país lindo […] que não tem similar sob o céu’

Escrito por João Mauricio de Nassau-Siegen, governador do Brasil holandês (1604-1679)

É inegável, porém, que, além de habilitá-lo a concluir a Mauritshuis, o Brasil abria a Nassau um campo promissor às suas ambições de avanço profissional, até então sofreadas pela lentidão da carreira militar

Trecho da biografia de Nassau escrita pelo historiador brasileiro Evaldo Cabral de Mello

A fotografia pode não ter sido uma invenção brasileira -a despeito dos protestos de Hércule Florence, um imigrante francês, de que havia descoberto o método de Daguerre de maneira independente anos antes que ficasse conhecido no mundo – mas ela amadureceu no país, que conquistou sua independência somente em 1822.

Trecho de artigo de David Gelber, tesoureiro da sociedade sediada em Londres Denominada Society of Court Studies, sobre o desenvolvimento da fotografia no Brasil, estimulada pelo imperador Dom Pedro II

A cultura é um fenômeno do dia-a-dia que determina como as economias e os estados, os governantes e os governados veem o mundo, exercem o poder e são forçados a submeterem-se.

Trecho do artigo “Falsos Profetas e Falsas Notícias”, publicado em 31 de dezembro de 2016 pelo sociólogo James Petras

    Prezados leitores, aparentemente começamos o ano com o pé esquerdo, com rebelião de presos no Estado do Amazonas, já cognominada de Carandiru 2, devido ao alto número de mortos. Com certeza essa notícia ocupará algumas linhas de jornais na Europa e confirmará a ideia de que o Brasil e um país irremediavelmente violento. Permitam-se apresentar-lhes exemplos de narrativas recentes na imprensa mundial que longe de reforçarem os nossos eternos defeitos, mostram coisas das quais devemos orgulhar-nos.

    U motivo obvio de regozijo nacional não pode deixar de ser nossa natureza tropical luxuriante. Para quem ainda não sabe, em setembro de 2016 foram descobertos no arquivo Noord-Hollands na cidade de Haarlem 34 desenhos realizados por Frans Post (1612-1680), que partiu para o Brasil em outubro de 1636 para integrar a missão organizada por João Maurício de Nassau composta de 46 cientistas, intelectuais e artistas, quando da vinda do então conde para o Nordeste, recém-ocupado pela Companhia Holandesa das Índias Ocidentais. Frans Post fora indicado por seu irmão, Pieter Post, que havia projetado o palácio de João Maurício na Haia, o Mauritshuis. Não podemos negar que essa missão artística trazida por Nassau não era composta por luminares europeus, já que ou estes não estariam dispostos a fazer uma viagem tão longa e cheia de riscos ou exigiriam salários altíssimos. Frans Post era obscuro, mas quando voltou à Europa com o já ex-governador geral Nassau em 1644 aproveitou esses desenhos para pintar quadros que retratavam o Brasil.

    Essa relação entre a atividade de Post no Brasil e seu posterior trabalho artístico na Europa é mostrada na exposição denominada Frans Post: Animais no Brasil atualmente em cartaz no Rijksmuseum, em Amsterdã até 8 de janeiro, tendo iniciado em 7 de outubro. Para quem como eu não terá a oportunidade de visitar a Holanda, resta o consolo de que um livro sobre os desenhos de Frans Post no Brasil foi preparado por Alexander de Bruin. De qualquer forma, seja ao vivo, seja por meio do papel, para nós brasileiros é interessante saber o quanto sua estadia aqui determinou todo seu percurso profissional, pois de acordo com David Gelber, que escreveu um artigo sobre essa exposição publicado em novembro de 2016, Post passou os seus “36 anos restantes recreando em larga escala esse mundo exótico para um público holandês curioso.”

    Não foi só para um obscuro pintor que o Brasil foi um divisor de águas. Para o próprio João Mauricio de Nassau sua passagem pelo Brasil de 1637 a 1644 foi o ponto alto da sua vida. De acordo com o perfil dele elaborado por Evaldo Cabral de Mello edificou palácios (Vrijburg, Boa Vista e La Fontaine), parques, pontes, urbanizou Recife, revitalizou a economia açucareira, estendeu o domínio holandês do rio São Francisco, na Bahia, até o Maranhão, e do outro lado do Atlântico, a Angola e São Tomé. Sua capacidade militar e administrativa foi reconhecida tempos depois em 1653 quando o Imperador Ferdinando II lhe fez Príncipe. Não é encorajador saber que para aquilo a que se propusera o governador geral, isto é fazer a colônia em Pernambuco gerar lucros para a metrópole holandesa, Nassau governou de maneira eficiente no Brasil e até deixou um legado material que perdura em pleno século XXI, como a exposição em um dos principais museus do mundo mostra?

    De maneira análoga, tivemos um outro governante que deixou uma marca que o mundo aproveitou. Independentemente de D. Pedro II ter somente de maneira tardia abolido a escravidão no Brasil, nosso segundo imperador fez muito para que a fotografia florescesse de acordo com o artigo supracitado. Já em 1842 eram organizadas exposições de fotos na Academia Imperial de Belas Artes e em 1851 Pedro II nomeou o francês Abraham-Louis Buvelot como fotógrafo da corte, dois anos antes de a rainha Vitória criar um cargo equivalente.

    Um retrato em 180 graus da cidade do Rio de Janeiro do carioca Marc Ferrez ganhou a medalha de ouro na Exposição do Centenário dos Estados Unidos realizada em 1876 na Filadélfia. Um ano antes, em 1875, Ferrez acompanhara uma missão da Comissão Geológica e Geográfica do Império para registrar a flora, a fauna e a topografia da Bahia. Na década de 1880, ele fotografou tribos indígenas em Goiás e Mato Grosso. Em suma, o entusiasmo do nosso imperador por essa nova tecnologia permitiu seu aprimoramento em terras brasileiras, estimulando seu uso para aumentar nosso conhecimento sobre nosso povo e nossa terra. Assim, nem só de flora e fauna tropicais vivemos nós, brasileiros, no século XIX fomos capazes de abraçar uma novidade técnica e fazer-lhe contribuições, como as vistas panorâmicas de Ferrez, que não só mostraram o Brasil ao mundo como o Brasil aos seus próprios habitantes.

    Prezados leitores, é uma grande tentação termos uma visão anacrônica dos acontecimentos, isto é, olharmos o passado com os valores do presente. Os feitos de Nassau são relevados por nossos historiadores (pelo menos aqueles que estudei em minha época de colégio) porque ele manteve a monocultura açucareira no Nordeste, que fazia a riqueza dos maiores distribuidores do produto brasileiro na Europa, os holandeses. Dom Pedro II é visto como um bestalhão que em seus tours pelo mundo à cata de novidades científicas ignorava de maneira premeditada a chaga da escravidão. É claro que o cultivo do açúcar era a atividade econômica dos proprietários de terra e a fotografia era um passatempo das elites que traficavam negros e os usavam para produzir commodities agrícolas, mas essas eram as condições em que aqueles dois governantes atuaram e exigir que tivessem respondido às aspirações democráticas de expansão de direitos que tomaram força no Brasil na segunda metade do século XX é mero progressismo, a ideia de que os valores e realizações do presente são necessariamente melhores porque vieram depois, ideia esta tão nefasta quanto a ideia conservadora que sustenta que tudo o que já passou era mais perfeito do que o estado de coisas atual. Em tempos como este, em que temos tantas razões para sermos pessimistas, pensarmos que fomos capazes de oferecermos uma contribuição cultural e técnica ao mundo, a despeito das nossas limitações materiais, como exemplificado acima, deve nos lembrar que mesmo em uma época como a nossa de corrupção desabrida, incompetência, desemprego, haverá sempre espaço para algum tipo de realização, por mais modesta que seja. Feliz Ano Novo e que 2017 traga a nós brasileiros, algum legado.

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Luzes, câmera, ação!

É claro que a esquerda americana coloca a culpa na direita pela substituição da política pela libertinagem. Mas a verdade é que todo mundo tem participação nisso. Ambos os lados descrevem os oponentes de maneira interminável não como pessoas com as quais discordam, mas como vilões de histórias em quadrinhos.

Trecho retirado do artigo “Luzes, câmera, política” escrito pelo jornalista Douglas Murray sobre como a arte da política transformou-se em um reality show

Eu sempre pensei sobre a questão da Guerra nuclear; é um elemento muito importante da minha atividade mental. É a catástrofe final, o maior problema que o mundo enfrenta, e ninguém está enfocando o aspecto prático disso. É um pouco como uma doença. As pessoas não acreditam que vão ficar doentes até que elas fiquem. Ninguém quer falar sobre isso. Acho que é uma das coisas mais estúpidas o fato de as pessoas acreditarem que a guerra nuclear nunca vai acontecer, porque todo mundo sabe o quão destrutiva ela será, então ninguém vai utilizar armas nuclearas. Que besteira.

Trecho retirado de uma entrevista dada pelo Presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, à revista Playboy em 1990

    Prezados leitores, o Aprendiz ganhou, mas não levou. Não levou como deveria ter levado, isto é, com aqueles que não votaram em Donald Trump para Presidente dos Estados Unidos aceitando sua vitória. Longe disso. Já houve várias tentativas de solapar sua vitória, vou citar apenas as duas mais importantes. Jill Stein, a candidata do Partido Verde, pediu recontagem dos votos em Estados-chave que poderiam mudar o resultado, mas não adiantou nada. Em Wisconsin, a recontagem aumento o número de votos de Trump, e em Detroit os votos dados a Hillary haviam sido inflados por seis na primeira contagem. O segundo estratagema usado pelos que consideram o bilionário neófito na política uma excrescência foi sugerir aos eleitores do Colégio Eleitoral que deixassem de votar no candidato escolhido pelos americanos. Um professor de Direito de Harvard, Lawrence Lessig, prometeu defender pro bono aqueles delegados quebrassem a tradição e escolhessem o candidato não chancelado pela maioria dos eleitores em cada Estado americano. Não deu certo novamente, e no dia 19 de dezembro Donald Trump foi eleito pelo Colégio Eleitoral Presidente dos Estados Unidos para tomar posse em 20 de janeiro em Washington.

    Tomar posse sob que condições? Aí que mora o perigo. Como bem apontou Douglas Murray em seu artigo publicado em 15 de outubro, a política nos Estados Unidos com maior intensidade, mas também na Europa com menos intensidade, transformou-se em entretenimento. Não há lugar para debates, para nuances nos argumentos, para a elaboração de consensos. Sobram acusações que resvalam para a vida pessoal e descrições caricatas dos candidatos que são categorizados pelos seus defensores como mocinhos e pelos seus detratores como bandidos. Aqui é o momento de eu fazer um mea culpa, pois ao argumentar em favor do Aprendiz de presidente eu acabei enfatizando só os defeitos de Dona Hillary Clinton, mas é claro que ela tem qualidades, afinal é uma advogada formada em uma universidade de elite dos Estados Unidos, país que ostenta o maior número de instituições de ensino superior nos rankings de excelência educacional.

    A política como entretenimento pode nos levar a dar boas risadas ao lermos frases de efeito no Twitter, ao vermos Trump sendo comparado ao Garfield pela vastidão da cabeleira, ao vermos um boneco de Hillary Clinton vestida de presidiária dentro de uma cela ser exposto na frente da loja de um partidário de Trump. Mas há um lado sinistro nisso tudo que consiste na vilificação dos personagens que poderá trazer consequências sérias à humanidade. Há um enredo que está sendo encenado no momento, como desdobramento do inconformismo da grande imprensa, que tinha certeza que os americanos seguiriam a recomendação dos jornais e revistas e votariam em Hillary Clinton, de setores da população bem- pensantes que veem Trump simplesmente como um xenófobo, machista e despreparado, e de uma parte do próprio governo dos Estados Unidos, que quer que a política externa do país continue como está semeando guerras pelo mundo para construir a “democracia”.

    Neste enredo há um vilão-mor, Vladimir Putin, invasor da Crimeia e principal apoio do presidente da Síria, Bashar al-Assad, para manter-se no poder, à custa da morte de milhões de civis. Donald Trump é o vilãozinho, porque ele é uma marionete do sanguinário Vlad, que usou sua equipe de experts em computação para invadir os computadores do Partido Democrata dos Estados Unidos e divulgar informações que comprometeram o desempenho da candidata ungida por todas as pessoas sãs deste mundo (informações sobre o modus operandi maquiavélico da equipe clintoniana cuja veracidade, diga-se de passagem, não é contestada). A prova de que Donald Trump só conseguiu eleger-se com a ajuda do ogre russo é que ele escolheu como Secretário de Estado Rex Tillerson, presidente da Exxon Mobil que recebeu em 2013 o prêmio de amigo da Rússia das mãos do próprio Lúcifer em 2012, depois que em 2011 a Exxon Mobil comprometeu-se a investir 500 bilhões de dólares na prospecção de petróleo na região do Ártico em troca de a estatal do petróleo russa, a OAO Rosneft, poder investir em concessões da Exxon Mobil em todo o mundo. A parceria fracassou por causa das sanções impostas pelos Estados Unidos em 2014 depois da anexação da Crimeia. Em suma, Trump quer colocar como Secretário de Estado um homem que quer fazer negócios com os russos, não a guerra.

    Essa história é conveniente para vários grupos e pessoas a começar, por Dona Hillary Clinton, que ao colocar a culpa da sua não eleição em Putin exime-se de olhar de frente sua própria incompetência em perceber aquilo que preocupava os americanos, algo que Trump soube fazer desde o início: o importante para os deploráveis não era garantir que os transgêneros tivessem direito de acesso ao banheiro das mulheres, mas trazer de volta os empregos perdidos com a globalização. Ela também é conveniente para grandes veículos como CNN, Washington Post, New York Times e The Economist, que podem assim justificar a total parcialidade que demonstraram em relação à candidata democrata. Eles podem dizer que os eleitores foram enganados e que se não tivesse havido a tal interferência estrangeira os americanos teriam se guiado pela luz da razão dos sábios jornalistas e votado em Hillary. Por último, e não menos importante, a versão de que Vlad é o fazedor de presidentes é útil para aqueles que querem que os Estados Unidos continuem agindo como polícia do mundo, derrubando governos, colocando títeres, causando destruição e morte no Oriente Médio e no Norte da África.

    Prezados leitores, nesta era da pós-verdade, da política como puro entretenimento, nunca saberemos de fato quem é responsável pelo hacking. As acusações contra os russos foram de agentes anônimos da CIA, que foram imediatamente repercutidas nos ditos veículos sérios da imprensa americana. Por que esses agentes da CIA não se identificam? Por que a CIA agora mete-se em política interna, sua tarefa não é a de atuar pelo mundo afora para viabilizar a política externa americana? Se estão falando a verdade e têm provas porque não vêm à público, por que não comparecem no Congresso Americano? Espero que o façam em breve e fundamentem suas declarações de maneira robusta. Fofocas e maledicências só servem para minar um governo que nem começou e que já está levando saraivadas de todo lado. Eu sinceramente espero que Trump consiga emplacar seu Secretário de Estado e que o Senhor Tillerson contribua para normalizar as relações com a Rússia. Porque se essa história em quadrinhos estrelando a dupla de vilões Donald e Vladimir prosperar, teremos muita ação neste mundo, e como disse o então magnata do ramo imobiliário em 1990 o indizível poderá ocorrer, isto é o enfrentamento nuclear entre as superpotências.

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