Sob o sol da…

“As águas são esmeraldas, o pôr do sol, alaranjado; as terras, azuis.”

Comentário do pintor holandês Vincent Van Gogh (1853-1890) sobre a região da Provença, no sul da França

“Tínhamos sol, água e terra. Hoje temos sol demais, água de menos, terra poluída.”

Resposta do economista Edmar Bacha à pergunta “O Brasil tem jeito?” posta pelo jornalista Ancelmo Gois na edição de domingo, 14 de fevereiro do jornal O Globo.

“Estamos em 1776. Os hábitos de higiene no Rio de Janeiro são precários. Precaríssimos. A cidade é uma fedentina só. As pessoas estão acostumadas a fazer necessidades num balde, depois esvaziado na janela. As residências não possuem banheiros nem equipamentos sanitários.”

Trecho extraído do livro “A História do Brasil são outros 500” de Cláudio Vieira

    Prezados leitores, há duas semanas, os que me acompanham neste humilde espaço hão de lembrar que pedi aos ratos e urubus que largassem minha fantasia, o que foi uma maneira metafórica de torcer para que o vírus da zika não me pegasse em minhas férias carnavalescas. Com a ajuda da eficientíssima icaridina, passei incólume, posso dar-me por satisfeita: entrei em Maceió, nas Alagoas como turista e saí como turista e aqui falarei sob a perspectiva de uma turista que sai à cata de beleza em algum lugar do mundo.

    Com isso quero dizer que a experiência do turista deve seguir um roteiro esperado: o deleite com as coisas boas e o não contato com as coisas ruins. Quem vai para o Nordeste vai em busca do sol esplêndido que dá os vários tons de azul e verde da água do mar, o contraste do amarelo da areia e do vermelho das falésias com o Oceano Atlântico a perder de vista. Ficar ali, observando as ilhas cheias de árvores, as ondas ao longe batendo fez-me ter inveja dos índios que antes do trágico encontro com os europeus tinham tudo aquilo para si. Claro que seria ingênuo acreditar que o Brasil era o paraíso terrestre descrito por Pero Vaz de Caminha ao chegar à ilha de Vera Cruz. Afinal, os habitantes destas plagas precisavam conseguir o que comer e do que viver e para isso precisavam plantar, caçar, pescar e guerrear entre si.

    De qualquer forma, fazer tudo isso sob um sol resplandecente que dá beleza a tudo o que toca alegra a alma. Não é à toa que Van Gogh pintou alguns dos seus melhores quadros, como A Casa Amarela, O Café à Noite na Praça Lamartine e Quarto em Arles, quando esteve na região da França onde produziu mais de 300 obras, inspirado que foi pelas mais de 2.500 horas de sol anuais. Não estou aqui a comparar-me com o gênio holandês, pois o máximo que conseguirei produzir sobre o sol de Maceió será este opúsculo. Meu objetivo é simplesmente apontar que mesmo para um homem que sofria de depressão como ele o sol teve claros efeitos benéficos.

    Sim, minha alma lagarteou lânguida sob a luz do Nordeste. E no entanto, meu deslumbramento à la Pero Vaz de Caminha e Van Gogh conviveu nos cinco dias em que estive na capital do Estado de Alagoas com meu espanto ao constatar como tudo é sujo! No primeiro dia de minha jornada caminhei pela orla da Praia da Pajuçara, onde estava hospedada, até Cruz das Almas, e não deixei de ver o esgoto fluindo para o mar em nenhum dos locais por que passei. Pior, uma medida básica de colocar cestos de lixo se não na areia ao menos na fronteira entre ela e a calçada não é tomada nem pelo prefeito nem pelo governador, o que faz com que nos deparemos com latas de cerveja, copos de plástico e outras cositas más tanto em terra firme quanto no mar. E isso não foi só na cidade, mas também nas praias distantes alguns quilômetros de Maceió. Onde quer que se olhe há entulho, esgoto, sujeira. Reclamei desse estado de coisas com o recepcionista do hotel e ele repetiu o velho bordão de que é preciso educar o povo. Aos nativos com quem almocei na capital alagoana fui mais cautelosa na crítica, para não ferir susceptibilidades, mas, por serem pessoas esclarecidas, concordaram que há emporcalhamento demais em um local turístico que deveria estar brilhando de limpo.

    Não sei qual a solução para voltarmos às priscas eras em que a natureza era imaculada e nem estou aqui a dizer que São Paulo, onde moro, é um exemplo de limpeza comparado a Alagoas. Mas ficar esbarrando em objetos ao nadar e sentir cheiros nauseabundos quando estamos a flanar é mais chocante em um local que quer vender-se como belo e atraente. E realmente Alagoas precisa dos turistas. As crianças maltrapilhas vêm aos bandos nos pedir comida, os taxistas nos dizem que lá só há fazendas de coco e turismo como atividade econômica. De fato, o setor de serviços respondeu por 72% do PIB do Estado em 2013 e a agricultura por 10% do PIB de acordo com a publicação “Alagoas em Números” divulgada pela Secretaria de Estado do Planejamento, Gestão e Patrimônio. Para terem uma ideia do que estou falando a respeito da sujeira predominante, vou dar-lhes mais um número da terra de Graciliano Ramos: a rede de esgoto atendia em 2013 581.619 pessoas de um total no Estado de 3.340.932 em 2015, ou seja, mais ou menos (o cálculo não é exato porque o ano de referência é diferente) 20% dos alagoanos têm acesso ao saneamento básico. Governador José Renan Calheiros Filho, cuide das latrinas do seu povo que os turistas do Sul Maravilha com certeza acharão Alagoas uma beleza!

    Prezados leitores, não há como deixar de concordar com a opinião de Edmar Bacha sobre o que nós brasileiros fizemos com a terra onde se plantando tudo dá e onde os índios banhavam-se até dez vezes ao dia, na profusão de rios límpidos que aqui corriam. Não mais jogamos as águas servidas pela janela, mas num momento em que o mosquito da dengue, da zika e da chikungunya está manchando nossa reputação aos olhos do mundo, o tema da Campanha da Fraternidade Ecumênica 2016, intitulada “Casa Comum, Nossa Responsabilidade” vem bem a calhar. Caso não sigamos os conselhos da CNBB, o turista das regiões mais prósperas do Brasil trocará definitivamente o sol do Nordeste pelo sol da Provença e de outros lugares mais salubres.

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Ratos e Urubus, Larguem Minha Fantasia

48,6% da população têm acesso à coleta de esgoto.
Mais de 100 milhões de brasileiros não tem acesso a este serviço.
Mais de 3,5 milhões de brasileiros, nas 100 maiores cidades do país, despejam esgoto irregularmente, mesmo tendo redes coletoras disponíveis.
Mais da metade das escolas brasileiras não tem acesso à coleta de esgotos.
47% das obras de esgoto do PAC, monitoradas há 6 anos, estão em situação inadequada. Apenas 39% de lá para cá foram concluídas e, hoje, 12% se encontram em situação normal.
39% dos esgotos do país são tratados.
O custo para universalizar o acesso aos 4 serviços do saneamento (água, esgotos, resíduos e drenagem) é de R$ 508 bilhões, no período de 2014 a 2033.Para universalização da água e dos esgotos esse custo será de R$ 303 bilhões em 20 anos.

Dados obtidos no site www.tratabrasil.org.br

    Prezados leitores, a salvação da lavoura no momento não é nem o Rodrigo Janot, nem o Sérgio Moro e nem o japonês da Polícia Federal que prende os larápios. Chama-se Exposis, o repelente mais eficaz contra o famigerado aedes. 100 ml custam 53 reais e de acordo com o atendente da farmácia onde adquiri meu frasco, há pessoas que quando ficam sabendo que um novo lote chegou correm para adquirir cinco, seis exemplares para segurança. Afinal, para quem pode comprar um repelente tão caro faz sentido proteger-se contra o lado negro dos trópicos ao desfrutar as delícias do sol e do mar em algum resort no Nordeste brasileiro. Entre os planos do governo está a distribuição de mata-bichos às mulheres grávidas, mas duvido que o princípio ativo seja a icaridina importada da Alemanha. Afinal, tudo o que é feito para os pobres neste país é mal feito ou feito pela metade.

    Os dados que citei acima corroboram essa má vontade que temos com os necessitados. O tratamento do esgoto causaria um impacto gigantesco na vida dos brasileiros em termos de diminuição de doenças associadas à sujeira da água e ao lixo acumulado. Não é coincidência que o epicentro da transmissão do vírus zika esteja no Nordeste. Lá, apenas 28,8% do esgoto é tratado, a segunda pior região do Brasil, atrás apenas da Região Norte, cuja porcentagem de tratamento fica em 14,7%. O aedes aegypti, apesar de botar seus ovos em água limpa, não reinaria tão lindo e faceiro se vivêssemos em cidades limpas e arejadas. Mas para que conseguíssemos isso seriam precisos investimentos de bilhões de reais e temos outras prioridades, como a Copa do Mundo e as Olímpiadas que ocorrerão em agosto, pagamento de juros estratosféricos aos credores da dívida estatal e pagamento de propinas a funcionários públicos e políticos para que o presidencialismo de coalizão que conseguimos depois de 25 anos de democracia possa continuar mantendo os mesmos macacos velhos no poder.

    Aliás, por falar em Olimpíadas, provavelmente terão o mesmo destino da Copa do Mundo, cujo legado foram os elefantes brancos e as dívidas. Independentemente de as previsões catastróficas dos infectologistas e especialistas em saúde pública a respeito do nível de contaminação concretizarem-se, o mal já foi feito. A Organização Mundial de Saúde soou as trombetas do caos, declarando emergência máxima, e agora todo mundo, inclusive os potenciais turistas do maior evento esportivo do ano, sabem que há mais um motivo para evitar o Brasil, além da violência endêmica. Pobres atletas que terão que vir para cá sujeitarem-se a pegar hepatite nas águas poluídas da Baía de Guanabara ou uma das três doenças transmitidas pelo aedes. Para aqueles que já deram uma passada para reconhecer o terreno onde irão lutar por medalhas, os treinadores, entre eles o japonês Shineo Knase, recomendam ficarem o mais dentro do hotel possível e quando saírem no calor de 35 graus à sombra da cidade maravilhosa usarem calças compridas e camisas de manga. É verdade que as autoridades cariocas estão inspecionando os locais onde ocorrerão as competições olímpicas em busca de qualquer foco de mosquito, e provavelmente farão um bom trabalho nessas áreas privilegiadas até dia 5 de agosto, mas nossa imagem já foi indelevelmente conspurcada na comunidade internacional, e em matéria de turismo imagem é tudo.

    A respeito do alerta da OMS, é sempre bom termos um pé atrás em relação às previsões médicas, afinal é do interesse da classe manter os pobres leigos com medo da morte e da doença para que sigamos suas prescrições e eles mantenham o controle sobre nossas vidas. A gripe suína, a gripe aviária, o ebola, foram anunciados como as pragas do Egito, e no final não foram tudo isso que disseram. As catástrofes anunciadas geram manchetes na capa dos jornais e revistas, geram memes no facebook, e por aí vai. E mesmo quando os médicos falam de maneira sensata, sem declarações bombásticas, a mensagem chega distorcida por falta de conhecimento científico da plebe. Correlação é diferente de causação: dizer que dois fenômenos sempre ocorrem juntos, como dizem os especialistas ser o caso do vírus zika e da microcefalia em bebês de mães portadoras da doença, não significa que o vírus cause o problema, afinal pode haver um outro elemento que seja responsável pela ocorrência dos dois. Uma série de fatores devem ser levados em conta, como o nível de nutrição dos contaminados, o nível de exposição a agentes ambientais tóxicos, etc., o que faz com que qualquer conclusão no momento seja leviana. Há vários grupos de pesquisadores tanto no Brasil quanto no exterior que estão tentando fazer as perguntas pertinentes para chegar às respostas mais satisfatórias e talvez daqui a alguns anos saibamos qual a exata ação do vírus no corpo humano.

    Enquanto os cientistas verificam suas hipóteses, o troféu de epicentro de uma epidemia mundial já foi dado ao Brasil, o ex-país do futebol e ex-BRIC, pois agora, depois de nossa débâcle econômica, já não somos considerados parte do grupo dos emergentes, cujo nome passou a ser TICKs: Rússia e Brasil, meros produtores de commodities, foram colocados de lado em prol de países que vendem produtos tecnológicos, Taiwan e Coreia do Sul. Por isso leitores, recomendo-lhes, quando forem divertir-se no carnaval em praias paradisíacas, mas provavelmente com um pouquinho de esgoto, não deixem de levar seu frasco de Exposis para livrarem-se da zica do mosquito. Parodiando o famoso enredo de Joãozinho Trinta à frente da escola de samba Beija-Flor em 1989: aedes, largue minha fantasia.

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Cá como lá

Um fator de previsão muito bem-sucedido da política governamental durante um longo período é o conceito do economista político Thomas Ferguson denominado “teoria política do investimento”, que interpreta as eleições como ocasiões em que segmentos do setor privado formam uma coalisão para investir no controle do estado.

Trecho retirado do ensaio “Ano 514: globalização para quem?” de autoria do linguista americano Noam Chomsky.

No longo prazo, temos duas crises que se articulam e se alimentam: o fim do ciclo de expansão fiscal e o esgotamento do modelo de coalizão política. […] A “bolsa empresário do BNDES é muito maior que o Bolsa Família.

Trecho da entrevista do economista Eduardo Giannetti da Fonseca publicada no jornal O Estado de 17 de janeiro

Uma democracia não consegue funcionar de maneira eficaz quando os membros acreditam que as leis podem ser compradas e vendidas.

Trecho do voto dissidente do Ministro da Suprema Corte dos Estados Unidos John Paul Stevens, dado em 21 de janeiro de 2010 no caso dos Cidadão Unidos contra a Comissão Federal Eleitoral, que tratava da regulamentação dos gastos de organizações em campanhas políticas.

    Prezados leitores, em 21 de janeiro de 2010 uma decisão muito importante foi tomada pela Suprema Corte dos Estados Unidos. Tendo como fundamento a Primeira Emenda à Constituição, de acordo com a qual fica terminantemente proibida a elaboração de qualquer lei que limite a liberdade de expressão, os magistrados daquela corte estabeleceram a ilegalidade da restrição a gastos políticos independentes por parte de organizações sem fins lucrativos. O princípio da liberdade de expressão das pessoas jurídicas, consideradas como tendo direito aos mesmos privilégios das pessoas físicas, foi estendido a organizações com fins lucrativos, sindicatos e associações.

   Na prática, o que uma tal decisão faz é tornar perfeitamente legal a atuação das corporações americanas nas campanhas políticas com o intuito de influenciar os resultados. Se antes havia restrições à manifestação do livre pensamento das pessoas jurídicas nos Estados Unidos, agora elas gozam de chancela oficial para atuarem da maneira que acharem melhor. Considerando o poder que os CEOs têm de dispor do dinheiro das empresas independentemente da opinião sequer dos acionistas, não é difícil vislumbrar o quanto isso faz com que a democracia se transforme na “tirania privada irresponsável” no dizer de Noam Chomsky: as corporações doam dinheiro aos políticos fazerem campanha e estes fazem aquilo que seus doadores solicitam, independentemente da vontade dos eleitores. Uma das razões do sucesso de candidatos alternativos como Bernie Sanders e Donald Trump, que atualmente concorrem nas primárias democratas e republicanas, respectivamente, para a escolha do candidato dos dois partidos à sucessão presidencial nos Estados Unidos, é que se apresentam como não tendo o rabo preso com ninguém: um porque é socialista e portanto, persona non grata às empresas doadoras, e outro porque sua fortuna pessoal faz com que não precise do dinheiro de ninguém.

    Exemplos abundam no país mais rico do mundo da influência perniciosa dos donos do dinheiro sobre as leis promulgadas, citarei apenas dois. O NAFTA, que entrou em vigor em 1994 para estabelecer uma área de livre comércio abrangendo o México, o Canadá e os Estados Unidos, com certeza otimizou a alocação de recursos das multinacionais americanas, mas por outro lado expôs os agricultores mexicanos à concorrência dos produtos americanos altamente subsidiados e expôs igualmente os trabalhadores ao norte do Rio Grande à concorrência de pessoas dispostas a fazer o mesmo por menos. O TARP, lançado em 2008 para ajudar as instituições financeiras a saírem do buraco, representou um investimento de quase 450 bilhões de dólares. Considerando que o buraco foi cavado pela revogação, durante o governo de Bill Clinton, de uma outra lei denominada Glass-Steagall, que proibia que uma instituição financeira realizasse simultaneamente atividade de banco comercial e de banco de investimentos, o TARP nada mais fez do que cobrir os prejuízos causados ao sistema financeiro por instituições que tinham ampla liberdade para usar os depósitos de seus clientes em apostas arriscadas em derivativos, swaps, hipotecas de primeiro e segundo grau e por aí vai.

    Cá como lá, a atuação das pessoas jurídicas no processo eleitoral é uma questão premente. No Brasil as empresas começaram oficialmente a financiar campanhas em 1994. Em 2014 as empresas doaram 3 bilhões de reais dos 7 bilhões de reais gastos por candidatos a presidente, senador, deputado estadual e federal e governador. Juridicamente a situação parece que está melhor aqui, já que o STF decidiu em 17 de setembro de 2015 que a doação de empresas para campanhas políticas é inconstitucional. Por outro lado, há uma PEC no Senado, de número 182, que autoriza o financiamento de campanhas por pessoas jurídicas. Sabemos que mesmo que o Senado decida não aprovar a PEC, essas doações de empresas ocorrerão por inúmeras e obscuras vias. De todo modo, a proibição serviria ao menos para, se não coibir, ao menos estigmatizar as empresas com um nome a zelar que doassem dinheiro a políticos em troca de favores.

    Além disso, cá como lá, a influência dessas doadoras sobre as políticas governamentais, em detrimento da população como um todo, é flagrante. A Operação Lava Jato está revelando como determinadas empreiteiras investiam dinheiro em políticos para conseguir contratos polpudos com a Petrobrás. A Zelotes por sua vez está dissecando o trato das montadoras com políticos, na base do toma doações que eu levo medidas provisórias favoráveis aos meus interesses. Aliás, as evidências do tratamento privilegiado à indústria automobilística e pior, da inutilidade de tais benesses estão aí: depois de 16 bilhões de reais em subsídios dados pelo governo federal, atualmente a ociosidade no setor é a maior em 25 anos e 40 mil operários poderão perder seu emprego num futuro próximo. Em um momento em que percebemos que o cobertor ficou curto para que as reivindicações de todos possam ser satisfeitas, teremos que estabelecer prioridades. A pergunta é: quem estabelecerá onde gastar o dinheiro público: os doadores das campanhas ou o povo que elege os representantes?

    Ho boulomenos. Essa expressão em grego significa “qualquer pessoa que deseje” e era utilizada pelos cidadãos de Atenas para falar na Assembleia, apresentar uma moção ou ocupar um cargo. É verdade que 80% dos habitantes da cidade não eram considerados cidadãos e não podiam participar das deliberações nem decidir sobre os destinos da sociedade. Por outro lado, os que estavam dentro tinham uma ampla gama de atribuições: discutiam a forma de governar e as leis, nomeavam os dirigentes e juízes, tinham poderes para declarar a guerra. Essa democracia direta, em que todos tinham o direito de opinar e ao mesmo tempo governar, foi reproduzida parcialmente no ocidente pela democracia representativa, iniciada no século XVII na Inglaterra. Mas já no século XVIII Adam Smith denunciava que os mercadores e industriais eram os principais formuladores das políticas estatais e garantiam que seus próprios interesses eram satisfeitos, independentemente de quão deletérios os efeitos sobre os outros, incluindo o povo da Inglaterra.

    Prezados leitores, cá como lá a democracia tal como é praticada está longe de atender às necessidades da maioria da população. Será que a Lava Jato e a Zelotes conseguirão passar o Brasil a limpo e permitir que refundemos nossa democracia representativa? Ou será que elas só servirão para colocar o PT como bode expiatório da corrupção política e deixar tudo como está para os que não forem indiciados? Será que nós brasileiros algum dia teremos mais influência sobre o que nossos políticos decidem? Aguardemos os próximos capítulos.

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Orgulho e Preconceito

Uma onda de indignação tomou conta da Alemanha depois da revelação de uma série de agressões contra mulheres, ocorridas na noite de São Silvestre perto da estação central de Colônia. Agressões sem precedentes, das quais o país só constatou a amplidão em 5 de janeiro.

Trecho retirado de um artigo publicado na versão eletrônica do jornal Le Monde em 6 de janeiro

‘Quando colegas de classe me perguntavam o que fazia um líder comunitário, eu [Barack Obama] não conseguia responder-lhes diretamente,’ escreveu o futuro presidente. Em vez de dar uma resposta, ele dizia, ‘Eu tecia considerações sobre a necessidade de mudança.’
Ao contrário, Trump amealhou uma fortuna de $10 bilhões e emprega 34.500 pessoas. Ele não fez isso sendo um idiota, um louco, um fanático, alguns dos termos mais suaves que foram utilizados para descrevê-lo.

Trecho do artigo de Ronald Klesser sobre a festa de fim de ano a que ele compareceu em uma das propriedades de Donald Trump em Palm Beach, publicado na versão eletrônica do jornal Daily Mail em 6 de janeiro

Os homens são os protetores e mantenedores das mulheres porque Alá fez o homem superior à mulher e porque os homens gastam para sustentá-las. Assim, mulheres direitas são obedientes e na ausência do marido elas guardam aquilo que Alá ordena que elas guardem. E, em relação àquelas mulheres de quem vocês temem a desobediência, dê-lhes um aviso, mande-as para uma cama diferente e bata nelas.

Trecho retirado do Corão, o livro sagrado dos muçulmanos

    Prezados leitores, uma pequena grande notícia passou despercebida. Na noite do dia 31 de dezembro pelo menos 90 mulheres foram atacadas na cidade alemã de Colônia por um bando de homens, entre 20 e 40, que aparentavam ser árabes ou do Norte da África, segundo os testemunhos. Esses homens faziam parte de um grupo de cerca de 1000 indivíduos entre 18 e 35 anos que perigosamente soltou fogos de artifício no meio da multidão, e em seguida cercaram, assediaram, roubaram e agrediram as alemãs, o que incluiu ao menos um estupro. De acordo com a polícia, provavelmente o número de ataques é muito maior. O país está em choque agora que a verdade foi pelo menos parcialmente revelada. Estranhamente, nesses cinco dias que se passaram, nada foi divulgado na mídia tradicional, somente na internet, e as autoridades estão fazendo de tudo para tranquilizar a população dizendo que não se sabe com certeza se esses homens pertencem à leva de 1 milhão e quinhentos mil que a Alemanha recebeu em 2015, instada por sua primeira-ministra, Angela Merkel.

    Assim como os ataques foram abafados o mais possível, provalvemente a identidade desses criminosos será revelada na base das meias-verdades. Afinal, dona Merkel foi eleita a personalidade do ano pela revista Time por sua atitude corajosa de mandar que os refugiados das guerras no Oriente Médio viessem à Europa que seriam muito bem-vindos. Os que alertam contra essa onda de homens desempregados, com altos níveis de testosterona, são considerados como nazistas, como o grupo Pegida na Alemanha e o primeiro-ministro da Hungria, que quis fechar as fronteiras de seu país e aceitar somente refugiados cristãos. Bem, o resultado de misturar pessoas com valores totalmente diferentes está aí: muçulmanos acostumados a verem mulheres cobertas o tempo todo em seu país de origem chegam ao paraíso ocidental e veem fêmeas caminhando livremente nas ruas, vestidas de maneira infinitamente menos pudica que as muçulmanas. Para eles, as ocidentais estão todas disponíveis para o sexo, e nada mais “natural” do que o macho tomar a iniciativa e partir para cima. Alemãs, queiram por favor acostumar-se com esse novo padrão de namoro. Esqueçam o respeito que os alemães nativos mostram por vocês, respeito advindo de uma cultura em que as mulheres têm direitos e dignidade. Mulher existe para servir o homem como prega o Corão, e mulher que se nega a fazer as vontades do macho deve levar chapuletadas para aprender a andar na linha e abrir as pernas quando o homem tiver necessidades a serem satisfeitas.

    Alguns interpretarão minhas palavras como racistas. Voilà. Só quero chamar a atenção para um fato: independentemente da quantidade de besteiras que o Ocidente fez e faz no Oriente Médio, intervenções estas que contribuíram para perpetuar no poder elites predatórias, não há como negar que a religião muçulmana implica valores totalmente incompatíveis com o estilo de vida do Ocidente. Há vantagens e desvantagens da liberação feminina e fazer um balanço sobre se os pontos positivos suplantam os negativos depende em larga medida dos pré-conceitos de cada um. Achar que os recém-chegados vão adaptar-se rapidamente ao direito que as mulheres europeias têm de fazer o que quiserem com seu corpo e sua alma é ser otimista ou leviano. Aliás, corre na internet a notícia de que ataques semelhantes a mulheres ocorreram em outras cidades na Alemanha.

    A propósito de estigmas, os bem-pensantes acusam Donald Trump de ser racista por ele propor a construção de um muro na fronteira com o México e a deportação de ilegais. É bem provável que mandar embora pessoas que estão há anos nos Estados Unidos não seja muito factível, mas a ideia do fenômeno de mídia é simples e clara. É preciso controlar as fronteiras para não deixar que qualquer indivíduo entre no país. Por acaso países civilizados como Canadá e Austrália não têm um processo rígido de seleção de imigrantes? Por acaso faz sentido importar estupradores, assassinos, estelionatários para seu país só para ser considerado magnânimo com os desvalidos deste mundo? Por acaso não é sensato importar somente pessoas que contribuirão de maneira benéfica para a sociedade?

    Trump é a epítome do racista, mas ele foi pioneiro nos clubes que criou na Flórida em aceitar negros e judeus, quando muitos em Palm Beach não faziam e ainda não fazem. Ele certamente é um grande palhaço, mas um palhaço que faz acontecer: cria empregos, gera riquezas e faz isso porque sabe relacionar-se com pessoas, sabe convencê-las, arregimentá-las para seus projetos. Se prestássemos mais atenção ao que as pessoas de fato fazem e não ao que elas falam, com certeza melhoraríamos nossas escolhas políticas, por exemplo. No Brasil, se tivéssemos analisado o que Dilma Rousseff fez ao longo de sua vida, e não tivéssemos deixado-nos inebriar pelas palavras do Grande Timoneiro garantindo que o produto era bom, talvez estivéssemos em situação um pouco melhor. Dilma abriu uma loja que vendia cacarecos a 1 e 99 e faliu e sempre foi conhecida pela dificuldade de relacionar-se com pessoas que não seja na base do grito e da ordem. Quando foi preciso que ela conquistasse pessoas por outros meios que não fossem a demonstração de poder, ela revelou ser uma incompetente. Nunca soube relacionar-se com seu Vice-Presidente, com o Presidente do Congresso, com seu Ministro da Fazenda. Mas o povo brasileiro acreditou nas palavras doces de Lula, que atuava em causa própria, querendo colocar um tampão na Presidência da República para guardar lugar para o iluminado voltar.

    Prezados leitores, todos os países têm seu rol de palhaços, que são mais patéticos quanto mais bajulados são pela mídia. Angela Merkel será lembrada pelos alemães como aquela que abriu as portas de Roma para os novos vândalos, mesmo que agora goze do favor dos politicamente corretos. Dilma Rousseff será lembrada por nós como sendo o supremo ato narcísico de Lula, apesar de que há alguns anos ela era louvada como “gerentona”. O destino de Trump ainda não sei. Mas tenho certeza que será muito diferente do que aquilo que os formadores de opinião têm em mente para ele, e quem sabe os americanos possam um dia orgulhar-se por ter um “palhaço que faz” na presidência.

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Botando muita pressão

[…] Em 1845, [o Secretário das Relações Exteriores britânico] declarou que os navios negreiros brasileiros eram piratas e 400 foram capturados em cinco anos. Em 1850 a marinha britânica até entrou à força em portos brasileiros para capturar ou destruir centenas de navios usados para o tráfico de escravos — o que foi decisivo para forçar o Brasil, o maior comprador de escravos de todos, a acabar com a maior emigração forçada da história.

Trecho retirado do livro “The English and their History” do Professor de História na Universidade de Cambridge Robert Tombs

Para que o Brasil possa reconquistar credibilidade rapidamente, precisará do apoio da comunidade internacional. O Brasil não tem o equivalente institucional do Banco Central Europeu para fazer “o que for preciso” para manter acesso ao crédito a taxas de juros razoáveis enquanto realiza um ajuste fiscal e estrutural. O mais próximo disso que o país tem é o Fundo Monetário Internacional (FMI), com o qual deveria negociar um programa de ajuste. Tal programa deveria incluir um aumento no superávit primário para 2-3% do PIB no médio prazo, o corte das despesas governamentais (a carga tributária já está nas alturas), e a eliminação das regras de indexação que causam a extrema rigidez dos gastos. Além do mais, o Brasil teria que desvincular as receitas das despesas — uma característica do orçamento do país que torna difícil seu gerenciamento adequado em tempos difíceis. E teria que acabar gradualmente com os subsídios do Tesouro ao BNDES e aumentar o uso de taxas de mercado nos empréstimos feitos pelo banco, ajudando assim a restaurar a saúde fiscal e eliminar distorções na intermediação financeira.

Trecho do artigo intitulado “Terapia do FMI para o Brasil” de Monica Bolle do Peterson Institute of International Economics e de Ernesto Talvi, do Brookings Institution

    Prezados leitores, para refrescar a memória daqueles que tiveram contato com a história do Brasil nos bancos escolares, a citação que abre este humilde artigo lembra-nos que só acabamos com a escravidão porque a Inglaterra botou muita pressão, como dizem os funkeiros. A Lei Eusébio de Queirós de 1850, faz do tráfico negreiro ato ilícito, a Lei do Ventre Livre de 1871 liberta os filhos nascidos de mães escravas, a Lei Saraiva Cotegipe de 1885 concede liberdade aos escravos sexagenários, a Lei Áurea de 1888 torna livres os escravos no Brasil, o último país do Hemisfério Ocidental a tomar essa providência. Sem a Inglaterra fungando no nosso cangote talvez tivéssemos adentrado o século XX com uma economia baseada no trabalho escravo. Digo talvez porque seria tolo de minha parte pretender ter certeza sobre o que teria ocorrido, afinal nem eu nem nenhum historiador tem o poder de realizar experimentos como fazem os físicos, que mudam algumas variáveis, deixam outros fatores constantes e assim podem tirar conclusões.

    De qualquer forma, o Brasil sempre parece um grande paquiderme que prefere refastelar-se ao sol e só levanta quando alguém o cutuca com vara até tornar sua soneca impossível e obrigá-lo a colocar-se sobre as quatro patas e caminhar. Avançando para o final do século XX, e vemos que de 1978 a 1987 a inflação média anual no Brasil foi de 166% e às vésperas do Plano Real, em junho de 1994, ela havia acumulado nos últimos doze meses uma taxa estratosférica de 4.922,60%. E como debelamos a inflação? Será que foi obra da genialidade econômica de Rubens Ricúpero, o então Ministro da Fazenda de Itamar Franco, que elaborou um plano à prova de erros como haviam sido todos os outros lançados como a salvação da lavoura? (Só para lembrar: Plano Cruzado de fevereiro de 1996, Plano Cruzado II de novembro de 1986, Plano Bresser de junho de 1987, Plano Verão de janeiro de 1989, Plano Collor de março de 1990, Plano Collor II de fevereiro de 1991, Fundo Social de Emergência de dezembro de 1993 e finalmente Plano Real de julho de 1994)

    É tido e sabido que nossa maior inspiração para o Plano Real foram as dez regras básicas colocadas em um texto do economista John Williamson em novembro de 1989, que ficou conhecido como o Consenso de Washington, a receita oferecida aos países da América Latina para livrarem-se do jugo da inflação. E assim fizemos: disciplina fiscal e controle dos gastos públicos aparentemente consolidados por meio da Lei Complementar nº 101 de 2000 – que recentemente foi feita letra morta com as pedaladas do governo federal –, privatização de estatais, abertura comercial, já iniciada com Collor, respeito ao direito à propriedade intelectual por meio da Lei de Propriedade Industrial de 1996. É certo que no Brasil não colocamos em prática tudo o que os economistas do FMI, do Banco Mundial e do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos preconizaram, por exemplo não fizemos reforma tributária e nem cortamos os gastos públicos a sério. Mas o IPMF criado em 1993 e pai da CPMF, criada em 1996 e o boom das commodities, que durou mais ou menos de 2000 a 2014, impediram a explosão do déficit público e garantiram a estabilidade da moeda, pois levaram a um aumento das receitas do governo.

    Os defensores do lulismo dirão que o Brasil soube ser dono do seu nariz durante os dois mandatos do ex-metalúrgico, tanto assim que ao Consenso de Washington executado por Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva contrapôs o Consenso de Brasília, de sua própria lavra, fundado em políticas distributivas. Melhor dizendo, para os maledicentes, como eu, fundado na aliança maquiavélica (maquiavélica no sentido de realizada para a manutenção no poder) que o 35º Presidente do Brasil estabeleceu entre os mais ricos, agraciados com empréstimos subsidiados do BNDES, contratos com empresas estatais e desonerações fiscais, e os muito pobres, agraciados com os programas de transferência de renda. Para os otimistas defensores do jeito de Lula de fazer amigos por onde quer que passe, basta que ele volte em 2018 com sua proverbial capacidade de negociação para que as coisas voltem aos eixos, depois da desastrada passagem de Dilma Rousseff, que não sabe tratar com as pessoas, como seu mentor sabe.

    Será? Será que uma versão atualizada do Consenso de Brasília é possível? Estamos com um déficit de R$536 bilhões, o equivalente a 9% do PIB, sendo que há 18 meses ele estava em 3% do PIB (dados do Bloomberg). Nossas reservas de 370 bilhões de dólares, que ancoraram o real, não cobrem mais a totalidade da dívida pública de curto prazo interna e externa, caso haja uma corrida contra nossa moeda. Os investimentos autorizados do governo federal, que em 2015 foram de 82 bilhões de reais serão de 45,4 bilhões para 2016 e estima-se que a dívida pública chegue a 70% do PIB no primeiro semestre de 2016 (dados do jornal Estado), o que diminui as perspectivas de crescimento econômico. Será que num cenário de deterioração das contas públicas como não conhecíamos desde a época da hiperinflação na década de 80, o sorriso fácil de um líder carismático conseguirá aparar as arestas? Ou será que a Lava-Jato mostrou que o tal do consenso era unicamente uma fórmula certeira para ganhar eleições? E se Lula não voltar, quem terá credibilidade para darmos marcha a ré na nossa disparada rumo ao precipício? Há algum político ou partido proeminente no Brasil que não faça uso das mesmas estratégias de financiamento de campanha de que Lula e o seu PT fazem?

    Prezados leitores, será que precisaremos de outro agente externo para nos enfiar goela abaixo um programa de ajustes, tal como esboçado por Monica Bolle e Ernesto Talvi? Será que teremos que ir de pires na mão ao FMI em 2016 e ouvir lições de moral de uma instituição presidida atualmente por uma mulher, Christine Lagarde, que está respondendo a processo na justiça francesa por favorecer um grande empresário, Bernard Tapie? Por que nunca conseguimos fazer as coisas no nosso ritmo durante um tempo razoável e no final sempre precisamos ser coagidos a agir na base do sufoco? Enquanto procuram as respostas para essas perguntas, tratem de preparar-se para a volta da CPMF, porque com certeza ela voltará.

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