Eu te disse, não disse?

“Não nos esqueçamos que quem pariu o EstadoIslâmico fomos nós ”

Dominique de Villepin, primeiro-ministro da França de 2005 a 2007 em uma entrevista à rádio RLT em 29 de setembro de 2014

Quase 12 milhões de sírios – metade da população do país – foram desalojados de suas casas por causa de mais de quatro anos de conflito na Síria. Uma guerra que foi subrrepticiamente instigada pelos Estados Unidos, Grã Bretanha e França que queriam uma mudança de regime e a deposição do Presidente Bashar al Assad. Outros países instigadores da guerra na Síria são a Arábia Saudita, Catar, Jordânia, Turquia e Israel. O governo sírio disse várias vezes que era vítima de uma conspiração internacional criminosa composta dos países ocidentais acima, que estão em conluio com o assim chamado grupo terrorista Estado Islâmico e outros mercenários ligados à Al-Qaeda para derrubar Assad – um aliado da Rússia e do Irã. O garoto na reportagem da CNN disse claramente que sua família e seus vizinhos estavam fugindo do ISIS, não de Assad. Mas, conforme já observado, a CNN e o resto dos veículos de imprensa ocidentais não parecem perceber a ironia.

Trecho retirado do artigo “A Polícia Europeia é “mais amendrontadora do que os terroristas do ISIS”” escrito por Finian Cunningham

    O ex-presidente da França, Jacques Chirac, do alto dos seus 82 anos, deve estar regojizando-se ante a presciência de suas palavras. Para quem não se lembra, Jacques Chirac colocou-se contra a Guerra no Iraque proposta e levada a cabo pelo cowboy texano George Bush e em 14 de fevereiro de 2003, seu primeiro-ministro, Dominique de Villepin fez um discurso na ONU contra a guerra, justificando o veto da França no Conselho de Segurança da ONU. Em 2004, Jacques Chirac afirmou que nós abrimos uma caixa de Pandora no Iraque que somos incapazes de fechar. E quem não concordaria com ele hoje, considerando a instabilidade atual da região, fruto da tentativa do ISIS de fundar um novo califado no Oriente Médio com pedaços do Iraque esfacelado pela guerra de 2002, da Líbia, cujo líder Muammar Gaddafi foi deposto e morto em outubro 2011, depois de uma intervenção militar dos países ocidentais e da Síria, cujo presidente Bashar al Assad ainda resiste?

    Mas é uma constante na história humana que esta Völkerwanderung dos povos do Oriente Médio e do Norte da África rumo à Europa seja considerada pelos poderosos deste mundo como um mero detalhe, pois o importante é a realpolitik, que dita que no momento atual que deve haver um embate sem tréguas na Síria para que certos objetivos sejam atingidos. De um lado, Assad, Rússia, Irã, de outro os países ocidentais, os países árabes e Israel querendo derrubar Assad. E por que derrubar Assad? Assad defende os interesses da Rússia e por isso recusou-se a consentir com a construção de um gasoduto que passaria pela Síria e chegaria à Turquia onde conectar-se-ia ao projeto chamado Nabucco, patrocinado pela União Europeia e os Estados Unidos, para o fornecimento de gás natural à Europa e iniciadoem 2002. Para aqueles que quiserem mais informações, consulte os verbetes gasoduto Catar-Turquia e gasoduto Nabucco.

    E por que a Rússia não quer que o gasoduto seja construído? Ora, o aumento da oferta de gás natural diminuiria a dependência dos países da do Sudeste da Europa do produto russo, dependência esta que permite que a Rússia cobre $ 500 por mil metros cúbicos no Leste Europeu ao passo que na Grã Bretanha, menos dependente de um único fornecedor, o preço cai para $ 300, de acordo com Simon Pirani, pesquisador sênior do Instituto Oxford de Estudos sobre Energia. Em suma, é briga de cachorro grande, briga em que as partes beligerantes agem de acordo com seus interesses econômicos e geopolíticos. Putin não abandonará Assad e já mandou seus marines para ajudá-lo em 4 de setembro, que estão lotados nas cidades de Slunfeh, Jableh e Homs, de acordo com Leith Fadel, editor do Al-Masdar News. Por outro lado, Israel cuida dos rebeldes feridos que lutam contra Assad, de acordo com um relatório de 15 páginas da Força de Observação da ONU.

    Diante de interesses tão poderosos, é preciso que a mesquinharia e a cobiça sejam camufladas com histórias da carochinha e bodes expiatórios. Refiro-me à conversa sobre a obrigação moral que a Alemanha teria de receber 800.000 refugiados por ano como forma de purgar seu passado nazista. Ora, o que os alemães que vivem agora no país têm a ver com isso? Por acaso devem pagar pelos erros de gerações passadas ad aeternum? Como esperar que a integração de um tal número de pessoas de cultura, língua e religião diferente não coloque sérios riscos para a coesão social? Se as pessoas reclamarem da invasão repentina e intensa por acaso deverão ser crucificadas como racistas e desumanas? Por que os europeus devem pagar pelos erros da sua elite dirigente, que tem interesse em manter uma política exterior que aposta na guerra total no Oriente Médio. Por acaso os dirigentes das empresas fornecedoras de armas, das empresas concessionárias da construção do gasoduto Nabucco, os políticos que recebem dinheiro dessas empresas

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A Rota da Independência ou da Seda?

Um grupo com 9 dos mais importantes empresários brasileiros recebeu Joaquim Levy na 4ª feira (2.set.2015) à noite em São Paulo. No encontro reservado, quase secreto, apresentaram as condições para continuar a apoiar o governo, a gestão da economia e a própria permanência de Levy no cargo de ministro da Fazenda. A agenda tem três pontos: 1) fazer todos os esforços para que o Brasil mantenha o grau de investimento dado por agências de classificação de risco; 2) buscar um superávit de 0,7% do PIB na execução das contas de 2016 e 3) promover um forte corte em subsídios e programas governamentais para atingir essa meta.

Retirado do blogue de Fernando Rodrigues de 4 de setembro de 2015

Os bancos preferem aplicar em títulos públicos a oferecer crédito a taxas competitivas ao setor produtivo, pois o retorno é alto e há garantia do Tesouro.

Trecho retirado do artigo “Com Empurrão do BNDES – Apoio do banco a estados quando repasses da União minguaram agravou crise fiscal publicado no jornal O Globo de 6 de setembro

À medida que as instituições financeiras americanas começaram a tentar solapar a confiança dos investidores na China por meio de táticas psicológicas alegando que a economia chinesa estava passando por um desaquecimento e que o mercado chinês estava em queda livre, Pequim anunciou ter comprado 600 toneladas de ouro em um mês e que o Banco da China havia livrado-se de mais de 17 bilhões de dólares americanos das suas reservas em moeda estrangeira. As reservas da China — excluindo aquelas de Hong Kong e Macau — estavam em 3,71 trilhões de dólares americanos em maio de 2015. Elas tinham caído para 3,69 trilhões de dólares americanos em junho de 2015. O principal ponto aqui é que os títulos do Tesouro Americano detidos pela China estão sendo vendidos de maneira agressiva, ao ritmo de $ 107 bilhões até agora em 2015.

Trecho retirado do artigo A guerra financeira monetária de Washington contra a China: a derrocada do dólar americano frente ao yuan publicado por Mahdi Darius Nazemroaya

A China conseguiu seu lugar legítimo ao sol de pois de 400 anos de estupro, saques e desprezo.

Retirado do artigo entitulado “A Vitória Esquecida da China na Segunda Guerra Mundial, do jornalista canadense Eric Margolis

    Prezados leitores, hoje foi dia de desfiles da Independência pelo Brasil afora, exibições da Quadrilha da Fumaça em Brasília com os novos Super Tucanos, exibição de um novo boneco inflável, desta vez da Presidente Dilma Rousseff manchada com o óleo da Petrobrás. Dilma esteve acompanhada na solenidade só dos ministros petistas, a turma do PMDB, à exceção do Vice-Presidente, Michel Temer, não quis comparecer, sentindo o forte cheiro de carniça no ar. Parece que é a isso que assistiremos nos próximos meses, uma lenta decomposição do governo. O sinal claro de que Dilma está cada vez mais sendo vista como favas contadas é a declaração explícita do mordomo de filme de terror, como o descrevia Antônio Carlos Magalhães, de que “Ninguém vai resistir três anos e meio com esse índice baixo”. Ora, sabemos que Michel Temer é o novo Marco Maciel, um sujeito que tem o dom de nunca apostar em cavalo manco. Assim, se o homem está falando que ela cai é porque Dilma já está à beira do precipício.

    Enquanto Temer está começando a entoar o réquiem com aquela sua voz soturna, Fernando Henrique Cardoso faz o trabalho sujo de atacar a presidente, para poupar seu pupilo Aécio de fazê-lo. Assim o senador mineiro pode ficar em silêncio e posar de estadista que só se preocupa com o futuro do Brasil, qualificando-se para ser o próximo chefe da Nação. Infelizmente, os únicos que parecem ter um plano para o nosso país são os tais dos líderes empresariais que querem continuar ganhando com a desgraça alheia, no caso a dívida pública federal que consumiu 7,9% do PIB nos doze meses terminados em julho de 2015. É preciso garantir que o governo continue em condições de honrar as Letras Financeiras do Tesouro, as Notas do Tesouro Nacional e outros títulos, o que fica prejudicado com um rombo no caixa que as más línguas dizem ser de 80 bilhões. O plano dos representantes do PIB do Brasil é que sacrifícios sejam feitos para garantir o grau de investimento do Brasil, o significa que poderemos continuar sendo bons pagadores do carnê do Baú. O sacrifício, claro será da parte não representada na reunião da quarta-feira, os beneficiários dos tais dos programas sociais que constituíram a base do voto no PT nas três últimas eleições presidenciais. Se Dilma estiver ou sentir-se fraca o suficiente para aceitar essa intervenção branca, isso pode significar o enterro das perpectivas do PT, que perderá seu eleitorado fiel.

    No nosso 193º ano de independência, fica a impressão de que somos tão vulneráveis quanto éramos em 1825, quando fomos obrigados a tomar um empréstimo em Londres de dois milhões de libras esterlinas para compensar Portugal pelo prejuízo da perda de uma parte do território da Metrópole. Do outro lado do mundo, em Pequim, um evento realizado na quinta-feira dia 5 passou quase despercebido no Ocidente, vidrado que está na crise dos refugiados sírios na Europa. A China celebrou os 70 anos do fim da Segunda Guerra Mundial com um desfile militar em que mostrou estar pronta para competir com os Estados Unidos, Europa e Rússia na exportação de equipamentos militares e mais importante, que está pronta para defender suas reivindicações territoriais no Mar da China, inclusive Taiwan. Nenhum líder ocidental de peso compareceu à cerimônia, somente o Presidente da República Tcheca, Milos Zeman. Os chineses são low profile, fazem tudo na surdina para não dar na cara. Para livrarem-se da dependência em relação aos EUA que representa o uso do dólar, estão pouco a pouco vendendo seus US Treasury bonds e valendo-se de sua própria moeda para realizar transações comerciais. Em abril de 2015 a China abriu no Catar a primeira câmara de compensação de transações denominadas em yuan e realizadas nos mercados do Oriente Médio e Norte da África.

    Prezados leitores, neste 7 de setembro o Brasil está mais do que carcomido pela corrupção e pela incompetência que nos faz sermos endividados e incapazes de defender nossos interesses, pois nem sabemos determinar quais são eles. As placas tectônicas da geopolítica mundial estão movendo-se lenta mas inexoravelmente. Fomos dependentes de Portugal, da Inglaterra, dos Estados Unidos e agora parece que caíremos na esfera de influência da China, isto se os chineses conseguirem afirmar-se perante os Estados Unidos, como parecem querer. Será que continuaremos a sermos eternos tomadores de empréstimos? Será que sempre seremos pegos de calças curtas ante qualquer crise externa, como aconteceu em 1929, com a crise na Bolsa de Nova York, 1973 e 1979 com os choques do petróleo, e 2008 com a crise financeira global? Independência do Brasil: quando afinal ela chegará?

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Superpoderosas e Superbonitas

“[…] Uma mulher deve ter um amplo conhecimento de música, canto, desenho, dança e línguas modernas para mercer o título de mulher; e além de tudo isso, ela deve possuir algo em sua atitude e maneira de andar, o tom da sua voz, seu porte e expressão, ou do contrário o nome de mulher não será inteiramente merecido.” “Tudo isso a mulher deve ter”, acrescentou Darcy, “e a tudo isso deve ser adicionado algo mais substancial, o aprimoramento da mente por meio de extensa leitura.”

Trecho retirado do livro “Orgulho e Preconceito”, da escritora inglesa Jane Austen (1775-1817)

Na cidade maranhense de Bom Jardim, a prefeita, foragida, é acusada de desviar dinheiro da merenda escolar para bancar plásticas e carrões. O caso expõe a ineficiência da fiscalização nas contas dos municípios.

Trecho retirado do artigo “Prefeita Ostentação” publicado na revista Veja de 2 de setembro

O plenário do Senado aprovou nesta terça-feira (25), em primeiro turno, uma proposta de emenda à Constituição (PEC) que estabelece cotas para mulheres nas eleições para deputado federal, estadual e vereador. […] O texto prevê percentual mínimo de representação de cada gênero na Câmara dos Deputados, Assembleias Legislativas, Câmara Legislativa do Distrito Federal e Câmaras Municipais.

Retirado do site “Ceticismo Político”

    Prezados leitores, o Maranhão realmente nunca deixa de nos brindar com espécimes emblemáticas, que simbolizam tudo o que há de ruim com a política nacional. Não preciso citar aqui os marimbondos de fogo da família Sarney, que espalharam-se por todo o Brasil, chegando em bandos a Brasília, capitaneados por José Sarney, presidente da República de 1985 a 1990, o qual trouxe atrás de si seus rebentos Roseana Sarney, que foi senadora da República até 2011, José Sarney Filho, atual deputado federal pelo ilustre Estado em seu oitavo mandato e Fernando Sarney indiciado pela Polícia Federal na Operação Boi Barrica em 2009. Agora temos um outro gênio da raça maranhense, ou melhor gênia da raça, Lidiane Leite, acusada pela Polícia Federal de desviar quase 23 milhões de reais dos cofres da pobre prefeitura de Bom Jardim que fica a 270 quilômetros de São Luiz.

    Antes de descrever Dona Leide Day, como é chamada pelas amigas nos grupos de WhatsApp, devo fazer uma ressalva. Estou aqui a falar mal do Maranhão, mas seria injusto de minha parte dizer que Lidiane é um produto típico daquele Estado. Ao contrário, ela representa um ideal feminino, ou pelo menos o ideal de uma parte das mulheres brasileiras, caso tomemos como evidências aquilo que se publica na mídia em revistas de celebridades ou programas de televisão como Superbonita da GNT, em que é dada às mulheres a possibilidade de passarem por uma transformação radical para ficarem parecidas com uma musa da beleza. Lidiane é a mulher poderosa que conquistou a perfeição à custa de cirurgias plásticas e transformações visuais que a tornam uma boneca Barbie: loira de cabelo liso, claro, afinal é preciso destacar-se dos pretos e pobres que compõem uma grande parte da população, a boca carnuda da Angelina Jolie, os seios avantajados das atrizes de Hollywood que são os paradigmas de beleza. Talvez o único item de customização tropical seja o derrière avantajado que com certeza ela deve ter, apesar de eu não ter tido a oportunidade de vê-la de costas. As unhas vermelhas, sensuais, estão sobre o I-phone, item indispénsável para que a deusa possa tirar fotos e admirar ainda mais sua beleza refletida na tela do aparelho.

    Lidiane entrou na política como a maioria das mulheres faz, por intermédio de um membro da família, no caso o então marido Beto Rocha cuja candidatura nas eleições para prefeito de 2012 foi impugnada pela Lei da Ficha Limpa. Beto sacou então sua coelhinha da cartola, que foi eleita para o cargo de prefeita, cargo que lhe serviu como instrumento de “empoderamento” para usar uma palavra muito difundida no mundo corporativo: ela torrou dinheiro em cirurgias, baladas, carros importados, e com isso as criancinhas de Bom Jardim ficaram sem merenda e sem material escolar, os professores sem salário, as escolas sem banheiro. Só nos resta esperar que a Justiça consiga reaver ao menos parte do dinheiro surrupiado e que os eleitores não esqueçam os desmandos da bonequinha de luxo.

    A depender dos nossos digníssimos senadores, no entanto, é provável que Lidiane volte e volte por cima para cumprir um nobre propósito: preencher a cota de mulheres na política que, se a PEC relatada no início deste artigo for aprovada e tornar-se emenda constitucional, será de 10% na primeira legislatura após a promulgação da medida de “empoderamento”, 12% na segunda e de 16% an terceira. Afinal, como preencher cotas se não recrutando mulheres, mães, irmãs, amantes de políticos? É inclusive uma boa maneira de aumentar o poder de famílias como os Calheiros, Barbalho e Sarney. E para não dizerem que tenho preconceito contra o Nordeste e Norte do Brasil, para aumentar a influência da família Suplicy, em Sâo Paulo, que já conta com a ex-mulher de Eduardo Suplicy, senador por São Paulo de 1991 a 2015, na política, Marta Smith de Vasconcelos Suplicy,mais conhecida pelo nome do primeiro marido, e no Rio de Janeiro a influência da família de Anthony Garotinho, cuja mulher Rosinha foi governadora daquele Estado de 2003 a 2007, incentivada pelo marido, que ocupou o cargo imediatamente antes, de 1999 a 2002. Acredito também que em vista do modelo de mulher perfeita em vigor em nossa sociedade, a cota para mulheres pode ampliar a pauta de reivindicações do sexo feminino: que tal pleitearmos uma bolsa-plástica, isto é um vale que o Estado daria às mulheres para que pudessem realizar o sonho da repaginação, especialmente para livrarem-se daquela barriguinha indesejada adquirida depois da gravidez? Isso criaria emprego para cirurgiões, valorizando o trabalho humano e a livre iniciativa, tal como preconizado no artigo 170 da Constituição Federal e concretizaria o direito à saúde e a proteção à maternidade insculpidos no artigo sexto daquele diploma legal, como dizem os advogados.

    Prezados leitores, há muito tempo já pronunciei-me contra cotas para afro-descendentes sendo parte prejudicada e portanto legislando em causa própria. Agora, na qualidade de parte beneficiada, pronuncio-me contra cotas para mulheres, pois acredito que será meramente um cabide de emprego para familiares do sexo feminino de políticos. E considerando que as qualidades que a média das mulheres atualmente busca estão longe daquilo que poderia contribuir para a elevação do nível do debate nacional, temo que as cotas farão pulular pelo Brasil afora as Lidianes que acabarão sendo as caras-metade dos Cunhas, Sarneys, Barbalhos, Calheiros, Garotinhos e quejandos. Pessoalmente, acredito que cultivar o narcissismo pode ser prazeiroso quando somos jovens, cheias de energia e de amor para dar, mas quando chegamos a uma certa idade mais, digamos, provecta, o melhor para a sanidade mental e a paz de espírito é seguirmos uma receita mais clássica do tipo dado no século XVIII por Jane Austen. Infelizmente parece que o padrão Superpoderosa Superbonita prevalecerá.

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Sejamos honestos

[…] Mas caso sejamos honestos, o que raramente somos, devemos admitir que normalmente não conseguimos atender aos critérios de homem racional propostos por Bertrand Russell, isto é, aquele que decide no que crer na proporção exata das evidências a favor daquela crença. Nunca encontrei ninguém assim, e Russell certamente não era racional ele mesmo.

Trecho retirado do artigo “Isso não é a Verdade” do psiquiatra e escritor inglês Theodore Dalrymple

Até o momento do discurso em Harvard, eu tinha considerado de maneira inocente viver em um país onde uma pessoa poderia dizer aquilo que ela quisesse, sem lisonjas à sociedade em redor. Mas, na realidade, a democracia ela também espera ser elogiada. Tanto que eu havia jurado não “viver na mentira” na União Soviética [em um apelo lançado em Moscou no dia 12 de fevereiro de 1974, às vésperas de seu banimento – nota do organizador ] tudo ia bem – mas não viver na mentira nos Estados Unidos? Jamais!

Trecho retirado do prefácio escrito por Claude Durand à versão em livro do discurso pronunciado por Aleksandr Solzhenitsyn em Harvard em 1978

    Prezados leitores, hoje confirmei, para minha satisfação pessoal, algo que já repeti ad nauseam neste espaço. A política hoje na era da comunicação e do pensamento instantâneo, resume-se a um embate entre inimigos entrincheirados que interpretam os fatos de acordo com sua própria agenda e que na maioria das vezes nem admitem a possibilidade de que a outra parte possa ter alguma razão. Talvez eu seja inocente e como apontou Theodore Dalrymple, o homem seja em todas as épocas e locais, incapaz de uma perfeita racionalidade. De qualquer forma tendo a considerar que em nossos tempos em que a política e os políticos são alvo de fotos desairosas, charges e piadas trocadas na internet, este viés não faz mais do que intensificar-se. Vou dar-lhes um exemplo concreto.

    Almoçando com uma amiga minha americana perguntei-lhe de maneira despretensiosa se ela já tinha candidato a presidente, afinal sei que ela sempre manda o voto dela pelo correio. Ela respondeu-me que não sabia ainda, e fazendo uma alusão indireta a Hillary Clinton, que já foi sua escolha em eleições passadas, comentou o escândalo que atualmente desenrola-se nos Estados Unidos a respeito do uso que a então Secretária de Estado fez de um servidor particular para enviar e-mails não criptografados contendo informações confidenciais sobre os assuntos da pasta. O FBI está investigando o caso e apreendeu o servidor de Hillary, constatando que todos os e-mails haviam sido apagados. A candidata às primárias democratas do ano que vem tem dado respostas não convincentes sobre o porquê de ter decidido não usar um servidor público para enviar e-mails na qualidade de chefe da diplomacia americana no primeiro mandato de Obama, havendo suspeitas de que Hillary fazia isso para poder trocar favores de maneira escusa com possíveis doadores à fundação de seu marido.

    Pois bem, o primeiro comentário de minha amiga sobre o episódio foi: “Os Republicanos estão insistindo nesse caso. Não dá para saber se tudo que estão falando é verdade.” Em seguida ela tentou defender Hillary dizendo que considerando a falta de segurança dos servidores públicos de e-mails ela fez bem em usar seu servidor privado e se ela apagou todos os e-mails antes de o pessoal do FBI chegar o fez em nome da segurança nacional. Em suma, uma eleitora de Hillary com graduação e mestrado em engenharia por uma grande universidade americana, que inclusive já trabalhou para o governo do seu país em projetos de mísseis, consegue achar n justificativas para um comportamento que se não foi criminoso, foi ao menos negligente, considerando a possibilidade de hackeamento de um servidor privado pela China ou pela Rússia. Tudo resume-se a uma conspiração dos inimigos da direita que estão explorando esse faux pas de Dona Hillary para sua vantagem política.

    Não me espanto com tal reação de uma pessoa educada como minha amiga, pois se até um filósofo como Bertrand Russell, ao menos de acordo com Theodore Darlymple, não conseguia ser isento, que dirá nós, meros mortais? A diferença entre pessoas mais ou menos educadas é que as primeiras apegam-se a meias-verdades para justificar seus preconceitos, enquanto os menos letrados simplesmente vociferam seus impropérios contra os oponentes, atacando tanto o caráter do alvo quanto suas ideias políticas, como se as ideias “ruins” sempre fossem expressão de uma falha de caráter. A meia-verdade a que a engenheira eleitora de Clinton apega-se é que a bola fora da ex Secretária de Estado renderá dividendos políticos a quem não quer vê-la no Salão Oval da Casa Branca. Com certeza é um prato cheio para os republicanos, mas isso significa dizer que as investigações devem ser abortadas para não caírem nas mãos erradas ou que elas nunca chegarão à verdade dos fatos porque os inimigos de Hillary não permitirão que haja objetividade?

    Obviamente vivemos o mesmo sectarismo no Brasil, e os mesmos dilemas colocam-se para nós. Na semana passada eu lancei dúvidas sobre a razoabilidade de colocar Dilma como foco da insatisfação de uma parcela da população. Não quero dizer com isso que considere as investigações da Lava-Jato uma conspiração do PSDB para derrubar um governo de esquerda legitimamente eleito. Não há dúvida de que há uma exploração matreira dos resultados das investigações pelos tucanos para impulsionar um processo de impeachment no Congresso, mas a esta altura tudo leva a crer que o PT fez uso de modos escusos de financiamento de suas campanhas para manter-se no poder a qualquer custo, inclusive o de fazer da Petrobrás uma casa da Mãe Joana.

    Minha única preocupação é que resumir a pauta de reivindicações dos manifestantes ao “fora Dilma e o PT junto” não aborda questões mais profundas que estão na base dessa podridão a que assistimos: o regime presidencialista de coalizão, a representação distorcida dos Estados no Congresso Nacional, o desinteresse com que os brasileiros votam nos representantes do Legislativo, a própria obrigatoriedade do voto, o sistema proporcional de representação que leva à fragmentação do Congresso. Colocar o impeachment de Dilma como prioridade número um pode ser uma maneira de focar as atenções e as energias, mas caso a presidente seja defenestrada, eu temo que toda essa indignação será dispersada porque afinal aqueles que não gostam do PT terão tido sua “vingança” e isso lhes bastará.

    Prezados leitores, devo confessar-lhes que sou um tanto pessimista quanto à possibilidade de nossa democracia conseguir ser mais do que uma cacofonia de pessoas que reivindicam direitos para si, como ela é agora. Cada vez mais prevalece o valor de que dividir é bom, de que reconhecer minorias, grupos específicos, direitos tais e tais contribui para a diversidade e para a democracia, mas não vejo ainda nós brasileiros, que já somos historicamente desiguais, fazendo a transição do reconhecimento das diferenças para o reconhecimento de algumas semelhanças e o estabelecimento de um denominador comum para que nosso sistema político seja sustentável tanto social quanto economicamente. Alguns poderão acusar-me de que tentar achar esse denominador comum é escamotear as injustiças e assim perpetuá-las. Pode ser, mas prefiro crer que achar pontos de contato pelo diálogo permitirão concessões mútuas e assim evitarão que vejamos no diferente apenas um famigerado conspirador. Sejamos honestos: criticar os outros é fácil, ainda mais quando os defeitos são óbvios, difícil é reconhecermos que temos tantos ou mais defeitos do que nossos opositores. Olhemo-nos no espelho!

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Je suis…

O uso de um animal ou pássaro, sobre o qual os males da comunidade são despejados antes de ser expulso, tem uma longa história nas civilizações ao redor do mundo. O nome derivava do bode dos primeiros judeus, descrito no Levítico, apresentado vivo ao Senhor ‘para a expiação dos pecados’ e depois solto ‘como um bode expiatório no meio selvagem’. Mas havia procedimentos s similares em outras sociedades, alguns envolvendo mulheres ou crianças, ou pessoas com deficiência, quase todas elas terminando os dias em alguma morte ritual desagradável para os ‘bodes expiatórios, que eram apedrejados ou atirados de um penhasco, e como resultado disso considerava-se que a comunidade estava purgada dos pecados, ou da praga e da pestilência.

Trecho retirado do livro “The Journey” da historiadora inglesa Antonia Fraser a respeito de Maria Antonieta, a rainha francesa guilhotinada em 16 de outubro de 1793

Je suis Barueri

Je suis Osasco

Ô pessoal dos panelaços, porque a indignação seletiva?

Pichação no muro do cemitério da Consolação em São Paulo

    Prezados leitores, é com grande tristeza que cheguei ao fim da história de Maria Antonieta que morreu de uma forma humilhante, condenada à guilhotina, acusada entre outras coisas de fazer sexo com o filho de 8 anos, algo que o próprio menino acusou a mãe frente a frente com ela, instruído e manipulado pelos revolucionários franceses. Vítima de hemorragias diárias, provavelmente fruto de um câncer no útero, no seu último dia de vida a então ex-rainha teve que fazer sua toilette na frente de um guarda e depois foi transportada de carroça até a Place de la Concorde com os braços amordaçados. Digo com grande tristeza porque ao acabarmos um livro nunca mais teremos o prazer de lê-lo pela primeira vez, nunca mais experimentaremos o frescor da descoberta. Só nos resta voltarmos a consultá-lo para lembrar dos trechos que mais nos chamaram a atenção e usá-los como referência. O que seria de nós sem a memória, para nos consolar da perda?

    Parece que aqui em terra tropicais já estamos preparando o cadafalso da presidente Dilma Rousseff. Afinal, está cada vez mais plausível seu enquadramento no artigo 85 da Constituição Federal , seja por atos que atentem à probidade na administração (inciso V) ou à lei orçamentária (inciso VI). Fernando Henrique Cardoso conclamou-a renunciar, como um ato de “grandeza”, protestos em favor do impeachment ocorreram no domingo em várias cidades. Tenho idade suficiente para lembrar-me do processo de impedimento de Fernando Collor de Mello, que no final acabou renunciando em 29 de dezembro de 1992, para não ser condenado pelo Senado Federal. Em 2006 foi eleito senador por Alagoas e em 2014 foi reeleito senador derrotando Heloísa Helena, uma das grandes defensoras da moralidade na política.

    Estou aqui a relembrar a trajetória do ex-presidente porque sem memória não somos seres humanos e lembrando o que aconteceu a nós brasileiros no início de 1990 podemos nos orientar para agir no futuro. Se formos pautarmo-nos pelo sucesso posterior de Collor na política, o processo de impeachment que o 32º Presidente da República sofreu não serviu para nada. A população, pelo menos a de Alagoas, não o puniu pela má conduta enquanto chefiava o Executivo Federal e a prática do caixa dois nas doações de campanha continuaram a rédeas soltas, como estamos tendo a oportunidade de verificar por meio das investigações da operação Lava-Jato. Assim, de que valeu os protestos da juventude cara-pintada em 1992 para colocar o mais jovem presidente da nossa história para fora?

    Faço a mesma pergunta em relação ao já quase inevitável processo de impeachment de Dilma Rouseff, fazendo as devidas ressalvas. A primeira é que as acusações contra ela estão inseridas no contexto de um amplo esforço investigativo da Polícia Federal em frutuosa parceria com o Ministério Público que está desvendando os vários tentáculos da corrupção na principal empresa brasileira e o conluio entre emprésários, políticos e funcionários corruptos da Petrobrás. Isso mostra o fortalecimento das instituições de defesa do Estado, algo que não havia em 1992, já que naquela época a origem das acusações contra Collor foi simplesmente o despeito de um irmão que aparentemente havia sido chifrado. Além do mais, se a acusação contra Dilma por crime de responsabilidade for embasada nas pedaladas fiscais, isto é, nas manobras contábeis que encobriam os crescentes déficits do governo federal, é de se aplaudir que o Tribunal de Contas esteja cumprindo seu papel de inspeção e que a Lei de Responsabilidade Fiscal de alguma forma tenha pegado.

    De qualquer forma, mesmo admitindo a maior maturidade dos nossos mecanismos de controle do poder, coloco aos partidários dos panelaços: de que adiantará o impeachment de uma mulher eleita há menos de um ano? Será que livrando-nos de Dilma, que certamente levará o PT junto, inauguraremos uma era em que a política finalmente será feita com lisura? Será que o trauma das investigações e das prisões fará com que corruptores ativos e passivos mantenham-se na linha, com medo de punição? Será que ao final do tortuoso processo judicial que desenrolar-se-á nos próximos anos como desdobramento da Lava-Jato os cofres públicos serão de fato ressarcidos pelos prejuízos? Será que o povo que agora vai à rua e bate panela conseguirá manter-se alerta e pressionando constantemente mesmo depois que o objeto do ódio comum tiver sido defenestrado do poder? Ou será que nós nos dispersaremos e nos daremos por satisfeitos em nos livrarmos de Dona Dilma? Será que conseguiremos mobilizar-mo-nos futuramente não contra um indivíduo específico, mas contra determinados abusos como má gestão de serviços públicos, chacinas policiais e outros males que nos afligem cotidianamente, ou pelo menos afligem uma parte da população cotidianamente? Não tenho certeza de que haja uma resposta positiva a essas perguntas, e por isso que lanço dúvidas sobre nosso afã em fazer o recall do produto colocado há poucos meses no mercado.

    Prezados leitores, um bode expiatório serve como símbolo para concentrarmos nossas energias e canalizarmo-nas em prol de um objetivo. A morte de Maria Antonieta selou a aliança entre a plebe francesa e os jacobinos, que puderam com isso instalar o Regime do Terror na França, um período que durou de 1793 até 1794 em que a Revolução devorou seus próprios filhos, mas que viabilizou a ascensção de Napoleão Bonaparte ao poder. Por outro lado, o mito do ser que sozinho é culpado de todos os males, como mito que é, esconde uma parte da verdade. Espero que se o processo de impeachment de Dilma Rousseff for iniciado e chegue ao fim ele não seja apenas a imolação de um bode expiatório para nossos problemas sociais e econômicos, que estão longe de terem sido obra exclusiva da presidente ou mesmo do seu mentor, Lula. Oxalá ele inaugure uma era em que nossos dirigentes serão mais probos para não corrrerem o risco de serem flagrados com a boca na botija e custosos e longos processo judiciais não sejam tão necessários . Enquanto isso, prefiro ficar no muro e olhar para o lado porque não sou chegada a asisitir à cerimônia do halal. Afinal, je suis … defensora dos direitos dos animais indefesos.

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