Que esquerda, que direita?

É de suma importância que o povo francês saiba a respeito do conteúdo do Acordo Transpacífico e suas motivações para ser capaz de lutar contra ele. Porque nossos compatriotas devem decidir sobre seu futuro, porque eles devem impor um modelo de sociedade que lhes seja adaptado, e não um modelo forçado pelas empresas multinacionais sedentas de lucros. Os tecnocratas de Bruxelas comprados pelos lobbies e os políticos da UMP [o partido do ex-presidente Sarkozy] que são subservientes a esses tecnocratas.

Pronunciamento de Marine Le Pen, líder da extrema-direita francesa, sobre o que promete ser o maior bloco comercial do planeta, reunindo Estados Unidos, Canadá, México, Japão, Vietnã, Cingapura, Brunei, Malásia, Austrália, Nova Zelândia, Peru e Chile.

Benjamin Nétanyahou respira melhor. Israel teve um alívio, graças à anulação no último minuto da votação, durante o Congresso da FIFA no dia 29 de maio, da suspensão da federação israelense de futebol. O primeiro-ministro temia um efeito dominó, no seio de outras instâncias, no caso do sucesso dessa manobra “provocadora”. Mas, de acordo com suas próprias palavras, não é mais do que a primeira pedra de um longo caminho. “Não há nenhuma justificativa para a campanha de deslegitimização lançada contra o Estado de Israel, que consiste em tentar suspender-nos das organizações internacionais”, garantiu Nétanyahou, no domingo, durante o conselho de ministros.

Trecho de artigo publicado na edição eletrônica do jornal Le Monde de 1 de junho, intitulado “Nétanyahou denuncia uma campanha contra Israel”

    Prezados leitores, nos últimos dias tentei colocar minha leitura de jornais em dia, depois de um mês de férias. Para isso li a edição dominical do O Globo que um jornaleiro guardou para mim ao longo de cinco semanas. Uma das coisas que chamou minha atenção foi um questionário para a identificação do perfil ideológico da pessoa de acordo com suas ideias sobre violência e defesa do cidadão, combate à pobreza, cotas nas universidades, direitos trabalhistas, tributos, pena de morte, migração, movimento sindical, redução da maioridade penal e homossexualismo. De acordo com minhas respostas sou de centro-direita, mas tal classificação não me satisfez. Não porque tenha vergonha de assumir minhas posições. Caso tivesse eu não escreveria artigos semanais neste meu humilde espaço,, mas porque acho que em nosso mundo globalizado as posições estão muito confusas. Tentarei explicar-me.

    Não nego que diante de um caso como o do adolescente de 16 anos suspeito de matar um médico na Lagoa, no Rio de Janeiro, a facadas, não consigo concordar com aqueles que enfatizam o mal social, a falta de atenção da família e do Estado para explicar a crueldade do homicida que esfaqueou Jaime Gold pelas costas. No final das contas, isso torna o adolescente uma vítima da sociedade, que não deve ser responsabilizada pelo que fez de maneira integral. Fazer dele um coitado tira o mérito de pessoas pobres que enfrentaram as mesmas dificuldades que esse moço enfrentou e que no entanto não têm 15 passagens pela polícia como o presumido assassino tem. E na minha opinião é preciso fazer diferenciações entre as pessoas que prejudicam o convívio social e aquelas que contribuem para a vida em sociedade, do contrário chegaremos a uma situação em que tudo é desculpável por ser explicável e cairemos na anomia social de que falava Émile Durkheim, se é que já não estamos nela: se não conseguimos distinguir claramente entre aquele que trilha o caminho correto e aquele que trilha o caminho errado, se relativizamos tudo com explicações sociológicas, antropológicas e médicas como estabelecer valores para formar as gerações futuras?

    Portanto, não há dúvida de que sou mais da turma da linha dura com os bandidos do que da turma daqueles que acreditam no ideal iluminista de que a educação resolve tudo, como se não houvesse seres humanos imunes a qualquer tentativa de aprimoramento. Por outro lado, eu não compactuo com a maioria das posições econômicas consideradas de direita no Brasil, mas que lá fora podem ser de direita ou de esquerda, a depender do país. Um assunto hoje envolto em grande polêmica é o tratado comercial que está sendo negociado secretamente por um bloco de países que reúne 40% do PIB mundial e tem 793 milhões de consumidores, de acordo com o portal do O Globo.

    Está aí algo perigossíssimo, cujo objetivo é passar por cima das regras arduamente negociadas no seio da Organização Mundial do Comércio, na qual os Estados Unidos não têm a predominância absoluta que gostaria de ter, e estabelecer a supremacia de um tratado internacional sobre as leis e o Judiciário dos países. Se o TTIP for aprovado, as empresas multinacionais terão mais condições ainda de enfrentar governos soberanos de igual para igual e poderão resolver suas pendências em matéria trabalhista, ambiental e financeira de maneira rápida e inapelável em câmaras de arbitragem reduzindo direitos humanos e danos ecológicos a uma mera questão de aplicação de normas de liberalização do comércio. No Brasil, muitos doutos economistas lamentam o fato de estarmos de fora desse acordo e preferirmos a companhia de bolivarianos e outros pobrecitos da América do Sul. Pois bem, considero que nesse sentido seria muito mais fácil que num governo do PSDB aderíssemos a um tratado sinistro como esse, que vem empacotado como incentivo ao crescimento econômico global. Paradoxalmente, apesar de no Brasil ser contra o TTIP seja considerado ser de esquerda, na Europa o único líder político que está denunciando as implicações dessa carta branca à atuação das multinacionais é Marine Le Pen, que está à direita da direita tradicional na França, representada no país pelos gaullistas, e cuja principal bandeira é a resistência à União Europeia.

    Aliás, a respeito da tendência americana de querer impor suas leis a todo mundo, verificada na sua liderança das negociações do TTIP, considero-me igualmente mais inclinada a alinhar-me com a esquerda que denuncia essas ingerências americanas. Esse embroglio da FIFA é exemplar nesse sentido. Os Estados Unidos deram-se o direito de prender cartolas na Suíça porque um tribunal seu considerou em 2014 que a lei de combate a organizações criminosas de 1970 pode ser aplicada fora do país, desde que estruturas americanas sejam usadas para cometer ilícitos. Não estou aqui a defender José Maria Marin, Joseph Blatter, Ricardo Teixeira e outros que têm ganhado rios de dinheiro explorando o futebol. Mas como o próprio Blatter disse em entrevista A RTS, a TV pública suíça, essa indignação moral americana com os desmandos do futebol vem exatamente depois de os Estados Unidos terem perdido a disputa da sede da Copa de 2022. As prisões aconteceram um dia antes de uma votação em que Israel poderia ter sido suspenso das instâncias internacionais do futebol pelas graves violações de direitos humanos na Faixa de Gaza. E como sabemos, Israel e Estados Unidos são unha e carne. Em suma, esse afã de moralizar o futebol parece ser motivado pelo despeito dos perdedores e para criar uma cortina de fumaça em um dia em que Israel poderia ter se tornado um pária como foi outrora a África do Sul do apartheid. Mas claro que no Brasil a luta contra os desmandos no futebol, por mais que José Maria Marin e os outros presos sirvam como bodes expiatórios, será defendida tanto pela Veja quanto pela Carta Capital.

    Em suma leitores, posso até ser de centro-direita, mas non troppo. Em um mundo em que socialistas juntam-se a capitalistas para impor goela abaixo do povo estruturas transnacionais que não respondem a ninguém além delas mesmas, como a União Europeia e o TTIP, fica difícil estabelecer muito bem as fronteiras políticas. Fica a pergunta: o que é ser de direita e o que é ser de esquerda na nossa aldeia global?

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The Winner Takes it All

The winner takes it all
The loser has to fall
It’s simple and it’s plain
Why should I complain?

Trecho da letra da música “The Winner Takes it All”, do grupo Abba

O mensalão era a única forma de governar o Brasil

Palavras de Lula ao ex-presidente uruguaio José Mujica de acordo com os jornalistas Andrés Danza e Ernesto Tulbovitz, autores do livro Uma ovelha negra no poder

     Prezados leitores, houve eleições na quinta-feira passada, dia 7 de maio na Grã Bretanha. Não há feriado, é um dia normal de trabalho e a única diferença perceptível é que há sinais em certos locais indicando ser ali local de votação. Afinal, o voto é facultativo, portanto não faz sentido que as pessoas parem suas atividades, como acontece no Brasil. O motivo de eu abordar as eleições não é para elogiar o fato de que o cidadão pode escolher votar ou não, ao contrário da obrigatoriedade de exercer nosso direito a que nós brasileiros estamos submetidos. O que chamou minha atenção foi o sistema de votação deles, que chamam de first-past-the post e a que denominarei para tropicalizar, Ao vencedor as batatas, o que chega primeiro leva tudo.

     Nessas últimas eleições isso significou na prática que os Conservadores mantiveram-se no poder porque foram os primeiros e derrotaram os Trabalhistas, apesar das previsões das pesquisas de opinião de que nenhum dos partidos conseguiria obter a maioria. Esse sistema de first-past-the-post fica claro quando analisamos os números. Os tories obtiveram 36,9% dos votos, o que lhes deu 331 cadeiras, o Partido Trabalhista obteve 30,4% dos votos, o que lhes deu 232 cadeiras, o Partido Nacionalista Escocês obteve 4,7% dos votos, o que lhes deu 56 cadeiras no Parlamento, os Liberais Democratas obtiveram 7,9% dos votos, conseguindo colocar oito representantes no Parlamento e o Partido Verde obteve 3,8% dos votos, elegendo 1 MP, como eles chamam. Agora aqui vem o dado espantoso: o UKIP, o partido polêmico que quer o Reino Unido fora da União Europeia e prega a imposição de limites à imigração, obteve 12,6% dos votos, muito mais do que todos os outros partidos pequenos e sabe quantos representantes terão em Westminster? Um único! 4 milhões de pessoas votaram no UKIP, ao passo que menos da metade desse número votou no SNP que quer a independência da Escócia, e no entanto estes ficaram com 56 das 59 vagas para aquele país no Parlamento do Reino Unido.

     Em suma, tal sistema faz com que os dois grandes partidos, que coincidentemente são o azul e o vermelho como no Brasil temos os tucanos e os petistas, fiquem com 87% das cadeiras tendo angariado somente dois terços dos votos. Digo somente porque em comparação com o desempenho deles na década de 1950, quando conseguiam mais de 95% dos votos, eles vêm tornando-se menos representativos a cada eleição que passa. É claro que essa pouca representatividade foi duramente criticada nas eleições, especialmente por aqueles que perderam. Hoje li um artigo no jornal em que a autora dizia que tal sistema está ultrapassado porque reflete um Reino Unido que votava de acordo com divisões de classe entre trabalhadores e capitalistas. Hoje, a sociedade está muito mais diferenciada e as pessoas querem ter mais opções de escolha política.

    Diante dos números acima, como negar que os britânicos estão sendo representados de maneira no mínimo distorcida e para os mais exaltados totalmente não democrática? Só que há um motivo por trás desse sistema que dá ao vencedor as batatas, que é muito legítimo e o motivo pelo qual estou aqui falando dele. Ele permite a formação de uma maioria no parlamento que forma um governo. A tal da corrida de cavalo entre conservadores e trabalhistas leva muitas vezes os eleitores a votarem útil para livrarem-se de um candidato, o que muitas pessoas que simpatizavam com as propostas do partido de Nigel Farage, o UKIP, fizeram, votando nos conservadores para evitar um governo de esquerda chefiado por Ed Miliband considerado muito radical porque queria, entre outras coisas, aumentar o imposto sobre imóveis a partir de uma determinado valor. Por outro lado, permite que haja um claro vencedor ao final, que terá força para executar determinadas políticas pois há votos garantidos pela maioria formada pela representação distorcida.

     Prezados leitores, há algumas semanas eu propus que copiássemos o modelo de Cingapura que pune com eficiência a delinquência juvenil como uma tentativa de coibir o cometimento de crimes mais graves por adolescentes e jovens no Brasil. Fiz essa proposta colocando as devidas ressalvas sobre as diferenças culturais, geográficas e econômicas entre uma cidade-Estado e um país de dimensões continentais. Repetirei a dose agora em relação a esse sistema de representação britânico e da mesma forma colocarei minha pitada de sal. O fato é que o Brasil tem 32 partidos atualmente, número que continua aumentando a cada novo recolhimento e validação de assinaturas pelo STF, prevendo-se que cheguem a 73.

      O resultado é que embora todas as opiniões, ou falta delas, tenham a possibilidade de encontrarem expressão no nosso Congresso, isso leva o ato de governar a ser um ato primordialmente de negociar, barganhar, criar ministérios e secretarias para ter cartas na mesa do pôquer de Brasília, esperar quem vai pagar para ver, quem vai blefar, quem vai jogar a toalha ou virar a mesa e sair bufando, com raiva de ter perdido. Vemos essa pantomima ocorrer no Brasil diariamente, as marchas e contramarchas do presidente para garantir apoio a seus projetos. Não chegarei a falar que o Lula ou o Fernando Henrique ou a Dilma são vítimas desse sistema do é dando que se recebe, porque afinal quando se elegeram sabiam quais as regras do jogo e as aceitaram e praticaram, cada um a seu modo. Mas não há como negar que a margem de manobra do Presidente da República Federativa do Brasil é muito pequena. Estamos em uma sinuca de bico, em que temos um sistema que dá muitas atribuições legislativas à União, em termos das áreas sobre as quais ela tem responsabilidade (29, para ser extaa, de acordo com o artigo 22 da Constituição) e ao mesmo tempo estabelece todo o trâmite de análise e aprovação de projetos de lei pelo Congresso, Congresso este que historicamente tem muito pouca iniciativa em termos de propostas. Copiamos o presidencialismo dos Estados Unidos, mas nos Estados Unidos o governo é muitíssimo mais descentralizado do que aqui, e o presidente acaba tendo como atribuição principal a política externa.

     Por isso é que contra o mensalão, petrolão e compras de votos proponho um parlamentarismo nos moldes britânicos, em que a representatividade é sacrificada em certa medida em prol da formação de uma sólida maioria e por tabela de um governo forte. Sei que é uma proposta que nunca será aceita, porque nossa democracia ainda é muito tenra, ao contrário da inglesa, cujo parlamentarismo está em vigor no mínimo desde 1688. Falar em calar a voz dos nanicos no Brasil seria um blasfêmia quando há pouco mais de 30 anos nem grandes nem pequenos partidos podiam se manifestar plenamente. No entanto, fica aqui registrada minha proposta para colocarmos um pouco de ordem neste templo cheio de vendilhões.

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Clube do Bolinha

Esta segunda e definitiva reintegração de duas tradições culturais antigas permitiu à civilização europeia desenvolver-se até atingir sua forma moderna. Aquela civilização permaneceu dominante até que, no século vinte, ela fosse desafiada pelo modernismo, e depois pelo pós-modernismo, que defendia o repúdio tanto do passado clássico quanto do passado cristão.

Trecho retirado do livro The Renaissance in Europe da professora de história do Brooklyn College Margaret L. King

   Prezados leitores, viagens são grandes oportunidades de renovar o guarda-roupa e a biblioteca, pois sempre é possível encontrar pechinchas. Eu por exemplo encontrei um livro de 368 páginas em papel couchê por um pouco menos de 50 reais, o que seria difícil no Brasil e atraquei-me a ele tal como minhas colegas de trabalho não perdem uma oportunidade de comprar roupas a preços de bananas chinesas no Aliexpress. A dita obra é sobre a Renascença na Europa e já que tenho visto tantas esculturas e pinturas daquele período em Londres resolvi tentar informar-me mais sobre o período.

    Uma estatística interessante apresentada pela autora é aquela compilada pelo historiador Peter Burke em 1968 a respeito da elite criativa na Itália Renascentista. Examinando a origem social, econômica e geográfica dos pintores, escultores, escritores, humanistas, cientistas e músicos do período, Burke obteve os seguintes números: 26% deles eram da Toscana, 23% do Vêneto (isto é, as regiões ao redor de Florença e Veneza), 18% dos Estados Papais (isto é, centro da Itália, mais ou menos), 11% da região da Lombardia (ao redor de Milão), 7% do Sul da Itália e 2,5% do noroeste da Itália (Piemonte e Ligúria); 114 desses criadores e inovadores eram filhos de artesãos e lojistas, 84 eram filhos de nobres, 48 eram filhos de mercadores ou profissionais e 7 eram filhos de camponeses e trabalhadores agrícolas os quais no entanto compunham o grupo mais numeroso na sociedade como um todo. (O autor não conseguiu identificar a profissão dos pais de todos os 600).

   Em suma, esse grupo que compôs músicas, pintou, esculpiu, escreveu e pensou entre 1300 e 1700 vivia em determinados lugares e pertencia a determinadas classes sociais, lugares estes que até hoje são os mais desenvolvidos na Itália. É verdade que os camponeses não mais constituem um conjunto significativo de pessoas nos países mais desenvolvidos e mesmo aqueles em desenvolvimento, devido à intensa urbanização experimentada com a industrialização, mas de qualquer forma permanece o fato de que são basicamente as classes médias que têm a capacidade e a vontade de chacoalhar o ambiente social e econômico de maneira duradoura. Quando o povão se revolta, normalmente tudo termina em caos e violência, como ocorreu na Europa em vários momentos e lugares no fim da Idade Média, em que a repressão dos camponeneses foi violenta, ou mesmo em tempos mais modernos no Haiti em 1791, quando os escravos rebelaram-se e proclamaram a independência do país em 1804. Por acaso, o Haiti ao livrar-se dos brancos, 3.000 a 5.000 dos quais foram mortos naquele ano, tornou-se um país justo e próspero?

    De acordo com Margaret L. King, essa elite pensante estabeleceu as bases intelectuais para a Reforma Protestante, a Revolução Científica e os Descobrimentos e permitiu à civilização ocidental dominar o mundo. E tem sido assim até hoje, com a globalização o campo alargou-se um pouco, alguns países asiáticos fazem parte da patota agora, mas a impressão que eu tenho é que basicamente são sempre as mesmas pessoas, que moram em determinados locais, normalmente ao Norte do Equador. A que se deve tal impressão, puramente pessoal e portanto passível de toda crítica? Digo-lhes que em minhas andanças pelo British Museum, pela National Gallery, pelo Victoria and Albert Museum, pelo National History Museum cheguei a uma triste constatação. Alguns dos 15,3 milhões de turistas (cifra de 2011) que anualmente visitam Londres, caso não soubessem nada sobre a América do Sul, continuariam totalmente ignorantes sobre o que é feito lá, em termos de produção econômica e cultural. Por outro lado, teria alguma ideia de que temos uma natureza exuberante ao ver os pássaros empalhados e as pedras preciosas das Minas Gerais no National History Museum e saberia que as vilas eram rodeadas pela floresta, como pintado por Frans Post em seu quadro sobre Olinda que está exposto na National Gallery.

   Eu, como brasileira, sei que o nosso país teve e tem pintores, escultores, músicos, pensadores, cientistas e escritores. Eu tive contato com eles ao longo de toda minha vida nos bancos escolares e depois. E, no entanto, eles definitivamente não fazem parte do clubinho dos que fazem a diferença, porque fazer parte de uma elite não é simplesmente realizar algo notável, é ser reconhecido como tendo-o feito pelos outros membros. O exemplo de Santos Dumont, que só é pai da aviação aqui no Brasil, é o exemplo mais gritante para nós, mas vou dar-lhes outro, do qual eu já sabia mais ou menos, mostrando que injustiças ocorrem até mesmo entre os habitantes do Norte e não somente na relação deles com o Sul do Equador. Charles Darwin é reconhecido como o autor da Teoria da Evolução, mas isso se deve ao fato de que ele publicou seu livro antes de dar tempo a Alfred Russel Wallace, outro biólogo britânico, colocar as mesmas ideias no papel.

    É claro que se o Brasil tivesse sido colônia da Inglaterra eu teria visto muito mais coisas a respeito de nossa cultura e natureza, afinal os britânicos teriam estado aqui e “arrematado” tudo de bom como fizeram na Grécia com os frisos do Parthenon, na China, onde coletaram as mais lindas peças de cerâmica e porcelana e pelo mundo afora onde se instalaram para fazer negócios e absorver o que lhes era útil, como o chá, que foi levado do Império do Meio para a Índia e assim a Inglaterra pôde quebrar o monopólio daquele país sobre o produto. De qualquer forma, o fato é que eu vi praticamente nada sobre o Brasil e isso deixou-me com a triste impressão de que fomos barrados no baile. Mas isso não deve ser nenhuma tragédia, porque a maioria dos países também não recebe bilhete de admissão. Assim como o Brasil é inexistente para a capital daquele que foi o maior império da História, a Bulgária, também é, a Argentina, por incrível que pareça para nossos hermanos, a Argélia, Nepal, Bangladesh, para citar exemplos aleatórios de outros lugares sobre os quais não vi nada nos templos de cultura que visitei.

   Seria maravilhoso que fossêmos mencionados em uma cidade que é altamente cosmopolita, em que se ouvem línguas do mundo todo e que serve como uma grande vitrine. O que fazer? Será que o lema do segundo governo da Dilma, Brasil, Pátria Educador,a pode nos inspirar a tornarmo-nos parte do clube do Bolinha, isto é, da elite criativa do mundo? Será que algum dia algum brasileiro de uma geração posterior à minha visitará uma cidade global como Londres e verá o Brasil ser citado sobre algo além da floresta tropical, da arara-azul e da surucucu? Temo que não estarei viva para ouvir falar de tal feito.

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Apalpando pintinhos

Apalpar os genitais de pintos recém-nascidos pode não ser o emprego mais glamouroso do mundo, mas por 40.000 libras por ano não é mal pago. Requer energia: você pega em centenas de pintos por dia e checa se são macho ou fêmea. Se for fêmea, ela é mandada para ser engordada e botar ovos. Se for macho, bem, é melhor não perguntar. Quase ninguém na Grã-Bretanha quer fazer isso, então as vagas permanecem não preenchidas. A indústria do frango, em desespero, pediu ao governo que adicione o “identificador do sexo de pintos” a sua lista crescente de empregos que aparentemente não podem ser preenchidos.

Trecho do artigo intitulado “Um milagre ocorrendo” sobre o boom de empregos na Grã-Bretanha atualmente, de autoria de Fraser Nelson, publicado na revista The Spectator de 21 de março de 2015

   Prezados leitores, é sempre difícil escrever quando estamos em férias. Eu realmente não gosto de abusar da paciência de ninguém falando como eu sinto, ou o que vi, especialmente se forem coisas óbvias como é o caso neste momento. Estou em Londres e obviamente devo conhecer o Parlamento, o Palácio de Buckingham, etc. No ano passado estive na Sicília, sendo mais fácil surpreender as pessoas com relatos de viagem porque não é um destino turístico conhecido. Mas Londres é muito batido. E a quantidade de chineses e japoneses tirando fotos é realmente incrível, mas totalmente de acordo com o script.

    De fato, a facilidade das câmeras digitais, dos tablets e dos I-phones juntou a fome com a vontade de comer, pois os asiáticos sempre viajaram para tirar fotos, e agora mais do que nunca ir a museus para eles é ficar fazendo filmes com o celular. Eles nem perdem o tempo olhando as esculturas ou pinturas gratuitamente, pelo prazer de olhar, simplesmente ao pararem já sacam do aparelho para registrar o momento e quando não estão parados tirando fotos estão andando rápido buscando outras oportunidades de registro, normalmente à cata das obras colocadas como as principais nos guias. Mas que preconceito o meu, pois Thomas o personagem do filme sueco Force Majeure do qual falei na semana passada, também tinha como única preocupação filmar o espetáculo avalanche que se desenrolava à sua frente, como sua esposa teve o desprazer de descobrir. Espero que ninguém tenha morrido no Nepal por causa disso.

     Portanto, não falarei das minhas experiências na cidade em si, mas de um encontro que tive com um brasileiro no voo que fez escala em Casablanca, no Marrocos. Estávamos lá nós dois esperando o avião que só partiria dali duas horas e começamos a conversar. Reclamamos da impossibilidade de comer porque os marroquinos espertos queriam que nós lhes pagássemos em euros e devolvessem o troco na moeda local. Eu então lhe perguntei o que iria fazer em Londres e ele me disse que pretendia morar lá, arranjar um emprego, firmar-se e trazer a família.

   A história dele (desculpem, mas nem fiquei sabendo do seu nome) é a seguinte. É filho de portugueses e tem cidadania europeia, portanto pode trabalhar legalmente. Ele tinha uma empresa prestadora de serviços de informática com o irmão em São Paulo, mas estava cheio de pagar tantos impostos, achava que não valia mais a pena. O moçoilo, que deve estar se aproximando dos 40 anos de idade, tem bacharelado em Ciência da Computação, pós-graduação em sistemas de informação e mestrado em engenharia elétrica. Já desenvolveu programas para a Bolsa de Valores de São Paulo para integrar as operações às da Bolsa de Londres. Em suma, tem amplas qualificações para conseguir emprego em uma área que sempre carece de profissionais em qualquer lugar do mundo.
No entanto, meu companheiro de voo tem um enorme calcanhar de aquiles. Fala quase nada de inglês. Realmente isso é muito comum nas pessoas com formação em exatas. É muito raro encontrar aquelas que reúnem habilidade com números e com palavras. Por isso o plano dele é começar sua carreira no Primeiro Mundo de maneira humilde como motoboy, esperar um ano até dominar o inglês e começar a tentar encontrar emprego em sua área, para “não se queimar”.

    Desejo-lhe boa sorte, e espero sinceramente que ele não acabe apalpalndo pintinhos, aliás como fazem os haitianos aqui no Brasil, largamente empregados em granjas pelo Brasil afora. Nos últimos cinco anos, um mihão e meio de empregos foram criados na Grã Bretanha, e atualmente considera-se que a economia do país está em pleno emprego. O aumento da isenção de imposto de renda para a faixa mais baixa, a fiscalização mais estrita daqueles que recebem seguro-desemprego, tudo isso fez com que trabalhar ficasse mais atrativo na Grã Bretanha, pois o montante recebido é maior do que o benefício social concedido aos desocupados. Há grande carência atual de carpinteiros, eletricistas. O desafio para o próximo governo, que será eleito no próximo dia 7 de maio, é aumentar os salários, que permanecem baixos depois da crise financeira.

    Independentemente do que o futuro reserva para o meu amigo-relâmpago, se pintinhos, motocicletas, furadeira ou serra elétrica, o fato é que para o Brasil é de se lamentar que uma pessoa como ele saia daqui. Imagine quanto nos custou formar uma pessoa com sua expertise, e tal expertise ou será utilizada por um país que nada investiu na sua aquisição ou pior, será desperdiçada no exercício de profissões que agregam baixo valor. Sempre ouvimos falar da fuga de cérebros no Brasil. O exílio de intelectuais durante a ditadura foi cantado em prosa e verso por aqueles que o vivenciaram, mas o êxodo durante a década perdida de 80 e depois nunca foi abordado em nossa imprensa e muito menos quantificado.

    Será que estaremos vivendo um novo desencanto das pessoas que acham que vale a pena exercer ofícios aquém de sua capacidade no exterior para ter uma vida melhor do que teriam no Brasil fazendo aquilo para o que estudaram? Qual terá sido o ponto de inflexão? O mensalão, o petrolão, a reeleição de Dilma? As declarações desabonadoras de Lula sobre a elite branca? O candidato a motoboy em Londres reclamou comigo que “ele sustenta esses caras e ainda é obrigado a aguentar ser xingado.” Será que a sociedade brasileira está ainda mais dividida do que secularmente foi entre aqueles que se beneficiam das políticas de justiça social e aqueles que a financiam sem ter nada em troca além de serem tachados de privilegiados?

     Muitas perguntas, e nem me atrevo a respondê-las, porque para isso precisaria fazer uma pesquisa sociológica em campo para verificar se há realmente um mal estar generalizado na classe média, aquela que arca com a maior parte dos impostos em quantidade, embora não seja tão penalizada como os pobres devido à nossa tributação altamente regressiva. Enquanto isso vou andando por Londres, deparando-me a cada esquina com tiradores de fotos, mas ainda não com nenhum apalpador de pintinhos.

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É tudo verdade

O chefe de Estado François Hollande, confirmou no domingo 19 de abril, quando de sua participação no programa « O Suplemento » veiculado no Canal+, aquilo que os Ministros do Interior, da Defesa e o Primeiro-Ministro negavam há semanas: a existência, revelada pelo Le Monde de 13 de abril, de uma plataforma nacional de criptografia e decodificação que permite a obtenção massiva e a armazenagem de dados pessoais franceses e estrangeiros.

Trecho retirado do Le Monde eletrônico em 20 de abril

A internet está nos transformando em réplicas incapazes de ter empatia pelas pessoas? Restará alguma coisa de nós quando toda nossa vida estiver on-line? […] À medida que nossa vida torna-se cada vez mais computadorizada, em que estágio começamos a nos tornar máquinas?

Trecho do artigo de William Cook entitulado “De volta para o futuro” sobre as previsões acertadas feitas por Ridley Scott em seu filme Blade Runner

    Prezados leitores, constatei duas coisas nesse fim de semana, ambas confirmando suspeitas. Em primeiro lugar, o Big Brother vigiando todos não é só uma iniciativa americana. A invasão da privacidade dos cidadãos é realizada pela França, de acordo com a confissão voluntária ou ato falho do Presidente da República. Em segundo lugar a influência da tecnologia sobre a vida pessoal não ocorre somente em países como o nosso, cujos cidadãos são naturalmente afeitos às novidades como maneira de superar nosso atraso secular em tantas áreas.

    Essa constatação da mudança na dinâmica das famílias veio-me depois de assistir a um filme sueco, Force Majeure que retrata as férias de cinco dias de um casal e seus dois filhos pequenos em uma estação de esqui nos Alpes Franceses. O mote do filme é a atitude do pai no dia em que estão todos sentados à mesa, em um terraço com uma vista magnífica sobre as montanhas. De repente começa uma avalanche e o pai, Thomas, mais que depressa saca do seu poderoso celular para registrar o acontecimento. À medida que a neve vai descendo a encosta a esposa, Ebba, vai ficando nervosa, mas Thomas, concentrado na realização do filme com seu aparelho multiuso, a tranquiliza dizendo que é uma avalanche controlada. No momento em que o caldo entorna e a massa branca efeitvamente chega à beira do terraço, a primeira reação do “pater familias” é acabar a filmagem pegar o celular e suas luvas e picar a mula, deixando mulher e filhos para trás.

    Tal reação de autopreservação de Thomas desencadeia uma série de desentendimentos entre marido e mulher que as crianças percebem e as enchem de angústia. A solução é recorrer ao tablet, a menina Vera tem o seu e o menino Harry tem o dele. Quando Ebba se aproxima para falar com a filha e perguntar-lhe porque está amuada, a menina dá-lhe um grito e a escorraça para que ela possa curtir seu jogo ou sabe-se lá o que faz no seu aparelho. E o desconsolo maior de Harry é quando ele constata que estão sem rede no quarto do hotel e ele não consegue conectar-se à internet. Que tragédia! Fazer o que agora? Conversar com os pais perturbados?

   Não me interessa aqui contar-lhes o desenrolar da história, apenas chamar a atenção para o cotidiano de uma família abastada do Primeiro Mundo, que tem dinheiro para tirar férias e conviver estreitamente fora da rotina de trabalho e escola. E no entanto, cada um fica no seu cafofo eletrônico, o que leva a mãe a entrar em crise existencial a respeito da espécie de homem com quem ela se casou, que não se importa com os filhos e nem com a mulher, apenas consigo próprio e a extensão do seu ser, o celular.

    Da Suécia para a França, da França para o Brasil. Muito tem-se falado sobre os novos atores políticos surgidos pela mobilização de pessoas para passeatas de protesto pelo Brasil afora por meio das redes sociais. Dona Marina Silva adora enfatizar isso como forma de mostrar que o velho modo de fazer política precisa adaptar-se às necessidades daqueles que usam as mídias sociais para externar suas opiniões. Mas que opiniões são essas? Por acaso há algum programa sério sobre o que fazer com o Brasil uam vez que Dilma Rousseff tenha sido defenestrada, como querem? Não falo aqui nem de detalhes de políticas, apenas algumas propostas gerais. O que há nesses movimentos todos além de troca de piadas sobre desafetos, fotos desabonadoras e xingamentos? Será que os que estão em campos opostos realmente discutem civilizadamente, isto é estabelecem os pontos de diferença e procuram chegar a pontos em comum?

    Vemos todos os dias o que de fato acontece. O último protagonista de polêmicas eletrônicas foi o cantor Ed Motta que no dia 9 publicou em seu perfil no Facebook “reclamações sobre brasileiros que, em seus shows na Europa, insistem aos berros para que ele fale português e cante o hit “Manuel”” conforme noticiado no jornal O Globo do dia 19 de abril. Pois bem, o homem foi linchado nas mídias sociais, acusado de arrogância, o que o levou a retratar-se e a tomar ainda mais pilulas tarja preta do que já toma normalmente para sobreviver como músico no Brasil sem render-se ao gosto popular.

    Em suma, o infeliz solta uma frase que por ser curta e grossa provoca reações igualmente violentas. Pão pão queijo queijo, hipérboles pagam-se com hipérboles. Ed Motta com certeza foi mal-entendido, mas as mídias sociais são o paraíso dos mal-entendidos, afinal as pessoas não desenvolvem raciocínios com começo, meio e fim, lançam declarações no espaço sideral que tendem a ser bombásticas pela própria falta de contextualização. Por isso mesmo são o paraíso da fofoca, da maledicência, que cria uma repercussão inversamente proporcional ao tamanho do conteúdo do que pé publicado. “Vocês viram o que o Ed Motta falou no Facebook? Que ele não quer brasileiro nos show dele na Europa!”.

    E ocmo afirmei acima, este crepitar do fogo em capim seco não é apanágio de nós brasileiros terceiro-mundistas. Nos ditos países avançados a política agora também se faz na base do bate-boca, das frases de efeito elaboradas e divulgada no calor da hora. Na França, uma dupla de contendores no Twitter era Louis Sarkozy, filho do ex-presidente bling bling Nicolas Sarkozy, e Léonard Trierweiler, filho de Valérie Trierweiler a ex-namorada traída à bordo de uma scooter por François Hollande. O motivo dos socos virtuais trocados foi o resultado das últimas eleições municipais no “hexágono” em que a esquerda saiu derrotada. Louis gozava do silêncio de Léonard no Twitter, ao que este respondeu a respeito da convocação de Nicolas para depor a respeito de corrupção. Vejam vocês: o Fla x Flu, a disputa pela disputa, a troca de farpas também estão instalados no berço da Declaração dos Direitos do Homem.

    Prezados leitores, Plilip Dick, o autor do livro de ficção científica que inspirou o filme Blade Runner, acertou na mosca quando vislumbrou em seu livro Do Androids Dream of Electric Sheep? o Facebook no show de conversas 24 horas por dia que ele chamou de Buster Friendly and his Friendly Friends. Tudo provou-se verdade: chegamos a um mundo em que a privacidade é cada vez menor, tudo é muito mais compartilhado e a pressa em fazê-lo não permite que nada amadureça e que a troca de ideias seja frágil, facilmente esquecida ao sabor da nova polêmica no Twitter ou no Facebook. Nesse sentido, as perguntas que o filme de 1982 fazem a respeito do que nos torna diferentes das máquinas estão mais pertinentes do que nunca.

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