Maus Selvagens

Nós consideramos ao contrário que o poder político é universal, imanente ao social (quer o social seja determinado pelos “laços de sangue” ou pelas classes sociais), mas que ele se realiza de dois modos principais: poder coercitivo, poder não coercitivo.

Trecho retirado do ensaio “Copérnico e os Selvagens” do livro A Sociedade contra o Estado do antropólogo francêsPierre Clastres (1934-1977)

 

                Prezados leitores, há alguns dias li na Revista Piauí um perfil do antropólogo carioca Eduardo Viveiros de Castro, que está fazendo sucesso no meio acadêmico mundial com seus estudos sobre a metafísica peculiar dos índios sul-americanos, para os quais o que é universal é a cultura e o que muda, o que é construído, é a natureza, uma visão diametralmente oposta à ocidental. Viveiros tem como um dos seus mentores intelectuais Pierre Clastres, que estudou o modo de exercício do poder nas sociedades indígenas, caracterizado por ele como do tipo não coercitivo. O chefe de uma tribo deve ter três qualidades principais: deve ser um fazedor de paz, isto é ser a “instância moderadora do grupo”, procurando manter a paz e a harmonia, e “mais do que um juiz que sanciona ele é um árbitro que tenta reconciliar”; deve ser generoso com seus bens e deve ser um bom orador.

                  Devo dizer que minha atitude em relação à antropologia é ambígua. Fiz um curso há alguns anos na faculdade, daí eu ter lido o livro de Pierre Clastres, e àquela época entusiasmei-me bastante, principalmente porque o professor mesmo era apaixonado pela disciplina. Normalmente pessoas de esquerda identificam-se com os estudos sobre outras culturas não ocidentais, porque é uma maneira de criticar a sociedade capitalista, apresentar uma alternativa de vida ao nosso modus operandi. É inegável que a antropologia tem essa qualidade de permitir-nos ter uma sensação de estranhamento e perceber que nosso comportamento não é natural.Deixem-me dar-lhes um exemplo de tal atitude.

                  Em um desses encontros fortuitos na copa, uma colega de trabalho confessou-me que tinha viajado para o Primeiro Mundo. Digo confessar porque esses fatos não podem ser divulgados abertamente no ambiente corporativo, em que a luta de classes ocorre na surdina. Como sou da turma que “viaja ao Primeiro Mundo” minha colega não teve vergonha de dar-me detalhes da sua estadia nos Estados Unidos, em Orlando, pois eu não sentiria rancor por nunca ter feito uma viagem internacional. O objetivo oficial era que a filha única conhecesse os parquesaquáticos, o objetivo velado era fazer compras, aproveitar o maravilhoso mundo dos outlets, dos shopping malls, em que tudo é até três vezes mais barato do que em nosso paraíso tropical que leva nas costas o tal do custo Brasil.

               A orgia consumista resultou em quatro malas cheias de roupas, cremes, sapatos e o alívio existencial de saber que a gastança na verdade é uma economia, porque a família de minha colega teve a oportunidade de comprar coisas que no Brasil não estariam acessíveis ao seu bolso. Claro que felicitei-a por ter tido tal oportunidade de fazer da viagem algo proveitoso do ponto de vista econômico, mas não pude deixar de admirar-me e dizer a mim mesma: Meu Deus, a pessoa passa dez dias em um país estrangeiro, e em vez de apreciar a paisagem, tentar conhecer a culinária local, a cultura local, visitar algum museu, instruir-se valendo-se dos recursos de que dispõem um país de Primeiro Mundo, ela se enfurna em lojas para comprar obsessivamente. Um creme de cabelo estava sete dólares em Miami Beach e três dólares em Orlando(ou vice-versa, não lembro mais). Minha colega com raiva de ter pago mais caro comprou dois no local mais barato, para compensar. Provavelmente vai ter creme de cabelo pelos próximos dez anos, se é que não vai ter que jogá-lo fora quando expirar o prazo de validade.

                     Como não apreciar o papel dos estudos sobre as chamadas economias de subsistência dos indígenas para despertar nossa consciência sobre o problema da sustentabilidade ambiental em uma sociedade baseada no consumo desenfreado como é a nossa? Nós ocidentais falamos muito da tal da preocupação com o meio ambiente, mas na prática o único efeito disso em nossa economia capitalista é ter criado um novo nicho de mercado de produtos orgânicos, recicláveis, biodegradáveis, probióticos e seja lá o que for que apenas mudou o tipo de consumo e não sua quantidade.Ou seja, a roda da fortuna continua a girar…

                   Por outro lado, não consigo deixar de ver na antropologia uma certa inutilidade. Se ela nos alerta sobre o quão o modo de ser capitalista é uma entre outras possibilidades, por outro lado, o conhecimento sobre o modo de organização de sociedades indígenas serve pouco para melhorarmos nosso modo de vida. Saber que há um tipo de poder não coercitivo, baseado no consenso, no diálogo, na capacidade de conciliar os opostos não tem como influenciar nossas capacidade de resolver os problemas concretos que se colocam na cena mundial. O conflito entre israelenses e palestinos é um exemplo dessa impotência.Por mais que haja uma certa indignação mundial com a desproporcional matança de civis na Faixa de Gaza, o fato é que Israel aos poucos vai atingindo seu objetivo de minar a resistência palestina à conquista do território, valendo-se dos métodos que são tidos e sabidos na realpolitik há milênios, desde que Tucídies escreveu seu A Guerra do Peloponeso: uso da força, capacidade de mobilização de aliados poderosos, aniquilação física e moral.

                De fato,de 1949 a 2014 o país recebeu US$ 121 bilhões de dólares de ajuda do governo dos Estados Unidos, que o provê de armamentos para tornar Israel o principal poder militar do Oriente Médio. O lobby da AIPAC, o Comitê de Assuntos Públicos EUA-Israel, foi bem-sucedido desde sua fundação, há 51 anos, em identificar a causa nacional palestina com o terrorismo.Em um cenário desses, em que os palestinos vão sendo mortos ou incapacitados fisicamente, qual o sentido de falarmos em um modo alternativo de exercício do poder? Não é ingenuidade falarmos de diálogo, conciliação quando a capacidade militar e de convencimento dos formadores de opinião mundiais rendem frutos? Israel só se veria obrigado a mudar seu comportamento se houvesse uma mobilização internacional em termos de boicote a produtos israelenses ou outra medida que afetasse a economia do país. Ou seja, a força deve ser enfrentada com uma força oposta de igual intensidade. A lição dos antropólogos nesse caso é contraproducente, poisquanto mais esperamos pela boa vontade do governo israelense, por sua tomada de consciência de que fazer a paz é o melhor caminho, maisseus objetivos de longo prazo, i.e. garantir todos os territórios disputados para si por meio da ocupação, serão mais bem concretizados.

                    Em suma, a antropologia pode ser uma fonte de inspiração para vislumbramos um mundo em que os principais problemas da civilização ocidental, entre eles o colapso ambiental, possam ser resolvidos, mas ela não deve fazer-nos perder de vista que as complexidades das sociedadesorganizadas à maneira ocidental requerem muitas vezes soluções que só podem ser encontradas se olharmo-nos no espelho sem sonharmos ingenuamente com mundos paralelos de duvidosa concretização.

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Que Medo!

Na semana passada, a Guarda Civil da Espanha prendeu 21 usuários demídias sociais sob a alegação de estarem glorificando o terrorismo no Twitter e no Facebook. Quinze deles foram detidos nas regiões do Norte da Espanha de Navarra e do País Basco, uma área que sempre alimentou aspirações separatistas. Dois deles eram menores de idade. Caso sejam condenados, os usuários do Tweeteer e do Facebook podem pegar até dois anos de prisão.

Notícia retirada do site da Al Jazeera em inglês

Qualquer coisa que se mova na área, mesmo que seja uma criança de três anos, deve ser morta.

Justificativa dada por um comandantes israelense para a morte à queima roupa com 17 tirosde uma menina de 10 anos, Imana al-Hams,que entrou em uma área de segurança. Notícia tirade do site do jornal inglês The Guardian.

É isso que é a prisão: um clarão de luz que cega e uma cacetada que imediatamente coloca o presente no passado e transforma o impossível em uma realidade onipotente.

Trecho do livro “O Arquipélago Gulag” de Aleksandr Solzhenitsyn (1918-2008), escritor russo Prêmio Nobel de Literatura de 1970

                        Prezados leitores, finalmente iniciei a leitura de um livro que estava há tempos na minha lista, O Arquipélago Gulag, um testemunho da experiência do autor nos campos de concentração stalinistas. É uma leitura difícil, porque nos mostra o quão baixo o ser humano pode descer em termos de crueldade, ignorância, covardia e principalmente injustiça. Digo isso porque a injustiça flagrante é algo que penetra fundona alma de qualquer um e faz com que na sociedade predomine a desconfiança, a corrupção, o cinismo. Não admira que atualmente a Rússia, depois de 70 anos sob o regime bolchevique, seja hoje caracterizada pela onipresença das máfias, a taxa de crescimento populacional eja negativa (-0.03 estimada para 2014) e que a expectativa de vida dos homens seja tão baixa, de 64 anos. Demorará muito para que o vácuo moral deixado pelo comunismo seja remediado. Afinal, o regime exigiu sacrifícios enormes da população em termos de vidas perdidas para nada, a não ser auto-perpetuar-se até morrer de esclerose múltipla em 1991.

                Solzhenitsyn descreve como as prisões eram arbitrárias, condicionadas muito mais pela necessidade dos órgãos de segurança de cumprir quotas do que por uma ameaça real. O objetivo era muito mais causar medo à população pelo caráter errático das acusações e assim minar qualquer atividade contrarevolucionária. De qualquer forma, o importante era cortar o mal pela raiz e evitar qualquer possibilidade de resistência de grupos que pudessem não concordar com o comunismo bolchevique.Daí a prisão dos kulaks, os camponeses prósperos que foram os maiores afetados pela coletivização forçada da agricultura e pelo confisco de produtos para o bem do socialismo, das pessoas que teimavam em ter fé religiosa, da classe média de profissionais que compunham a burguesia, mesmo de oficiais do Exército Vermeho cujos valorosos serviços prestados ao país na guerra contra a Alemanha não os imunizaram contra a detenção, caso do autor. Algo que deixou-me particularmente indignada foi o tratamento diferenciado que era dado aos diferentes tipos de mulheres presas nas ondas dos expurgos stalinistas da década de 30. As prostitutas, criminosas comuns, tinham status privilegiado. Conseguiam continuar trabalhando, servindo os chefes dos campos e ainda depois de cumprir a sentença voltavam para casa cheias de bens. As mulheres que tinham sido presas por suas convicções religiosas, ao contrário, eram consideradas perigosas ameaças ao sistema e por isso quando saíam da prisão não tinham direito de voltar aos seus locais de origem, para não continuar suas atividades “subversivas”. Essa diferença entre os criminosos comuns e os políticos é retratada no filme Caminho da Liberdade, de Peter Weir, em que o personagem Valka, vivido por Colin Farrell, era um ladrão, assassino e tinha Stalin tatuado no peito, por admirar o fato de ele “tirar dos ricos para dar para os pobres”. Após fugir do Gulag para não ser morto por ter dívidas na prisão, ela acaba voltando porque não saberia viver como um homem livre, considerando a prisão um local melhor.

                       Ao mostrar as entranhas do comunismo, o Arquipélao Gulag ajudou a derrubar um império, como disse a escritora Doris Lessing, pois desmascaroua fachada igualitária do comunismo. A única igualdade que havia era a submissão de todos ao regime, que deveria ser preservado a qualquer custo, especialmente ao custo de milhões de pessoas talentosas, inocentes, que nunca haviam feito mal a ninguém, que haviam contribuído a seu modo à sociedade, mas que foram moídas na máquina totalitária,tachadas de contrarevolucionários a serviço da burguesia.

                Prezados leitores, a tragédia de nós homo sapiens, é que se individualmente conseguimos aprender com nossos erros, coletivamente acabamos sempre repetindo-os, o que nós faz vulneráveis às tiranias. Parece estar se desenhando no mundo um regime com alcance global que tem seus próprios inimigos, os tais dos terroristas. Estes podem ser espanhóis insatisfeitos com a crise econômica que acomete o país e que procuram uma solução no separatismo, podem ser palestinos que defendem o direito de permanecer na Faixa de Gaza e lá construir um Estado Soberano, podem ser muçulmanos egípcios descontentes com seu governo corrupto. Todos são colocados no mesmo balaio e a palavra terrorista serve para dar uma fachada de respeitabilidade a tudo que se faz para a manutenção dos poderosos em suas respectivas posições de privilégio. Chamar os palestinos de terroristas é conveniente a Israel, que já matou 1.752 pessoas neste mais recente conflito, e que claramente parece querer reduzir a população dos inimigos e confiná-los em guetos como ocorria nos bantustões da África do Sul.Há inclusive um deputado do Knesset (Parlamento de Israel), Moshe Fleigin, que enviou uma carta ao primeiro-ministro Benjamin Netanyahu defendendo abertamente o extermínio dos inimigos islâmicos e o envio dos restantes a um acampamento a ser construído na Península do Sinai.Prender pessoas que defendem a separação de certas regiões da Espanha é conveniente ao governo espanhol, o qual ao chamar os críticos do regime de terroristas escamoteia sua própria incompetência causadora de uma situação tão ruim que faz as pessoas pensarem em separar-se.

                   A esta altura devo confessar uma coisa: tenho muito medo de um dia ser considerada terrorista. É verdade que tomo minhas precauções e não tenho conta no Twitter e nem no Facebook para não dar bandeira, mas num mundo em que a espionagem norte-americana é onipresente, nunguém está a salvo. Meu único alívio é saber que sou lida por pouquíssimas pessoas e que escrevo em uma língua que tem pouca relevânciano mundo virtual, onde predomina o inglês. De qualquer forma, se algum dia eu ficar algumas semanas sem publicar nada neste meu humilde espaço, sem qualquer explicação, podem ter certeza que estarei em algum novo Gulag, que com certeza terá um outro nome, mas que terá a mesma natureza que o outro, pois contrarevolucionários e terroristas são todos os que ameçam de alguma forma aqueles que estão no poder. Torçam por mim!

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Aparências nada mais

Tony Blair – o enviado de paz para o Oriente Médio –  organizou uma festa de arromba para sua esposa sexta-feira à noite no seu refúgio rural em Buckinghamshire, ao mesmo tempo em que o tenebroso número de mortos no conflito em Gaza já passou de 1.050.

Ele deu a festa surpresa de 60 anos para Cherie na mansão rural South Pavilions que custou seis milhões de libras esterlinas e pertencia a John Gielgud, convidando 150 dos seus amigos mais íntimos, que incluíram ex-ministros trabalhistas, assim como ricos homens de negócio e celebridades da TV.

Trecho de notícia extraída da edição eletrônica do jornal Daily Mail de 26 de julho de 2014

(…)a mim parece altamente provável que em 2033 será revelado repentinamente que Tony Blair enganou a Câmara dos Comuns e o público a respeito da invasão do Iraque e a polícia será vista carregando plásticos pretos de fora das casas de repouso e asilos habitados por antigos membros do seu gabinete (…)

Retirado do artigo “Uma caça às bruxas tipicamente britânica” do jornalista inglês Rod Little, publicado na revista britânica The Spectator de 12 de julho de 2014

            Prezados leitores, um dia desses estive assistindo no Youtube à entrevista dada ao programa Roda Viva em 24 de março de 2014 pela escritora Adélia Prado em que ela citava o sociólogo francês Jean Baudrillard (1929-2007), autor do livro de ensaios “A Transparência do Mal”, com reflexões sobre a tal da pós-modernidade, isto é a era pós 1960, feita de simulações, reproduções e ecletismo.Adélia aplicava a teoria de Baudrillard à cena política brasileira em que o desencanto é tão grande, o mal é tão transparente, que a melhor opção seria nas próximas eleições não votarmos em ninguém, porque nenhum dos candidatos inspira nossa confiança, nenhum encarna um ideal.

            Não consigo deixar de pensar que a epítome deste estado espiritual da nossa era é o ex primeiro-ministro britânico Tony Blair, hoje com 61 anos. Ninguém na cena internacional encarna melhor este vácuo moral do que um homem que depois que deixou o mais alto cargo do governo do seu país amealhou uma fortuna estimada em cerca de 50 milhões de dólares dedicando-se a atividades das mais variadas, incluindo a consultoria a países subdesenvolvidos e emergentes e debates públicos em defesa da fé recentemente descoberta no Catolicismo. Sua mais nova máscara é a de enviado de paz ao Oriente Médio, com a missão de facilitar um acordo de paz entre israelenses e palestinos.

            Digo máscara porque todos sabemos que nunca haverá paz naquela região e o próprio Tony Blair sabe disso. Em vez de perder seu tempo em Israel onde o pau come solto ele dedicou-se a organizar o rega-bofe para sua amada esposa, em que os convidados eram revistados por policiais antes de terem acesso ao local. Provavelmente o senhor Blair deve ter medo de terroristas, os terroristas da Al-Qaeda no Iraque ou os terroristas do Hamas na Palestina, quem sabe? Afinal, o que não faltam no mundo são terroristas, e precisamos de homens como Blair, que não descuida da guerra ao terror até em seu próprio refúgio idílico na zona rural da Inglaterra.

            Mas o importante é que, para uma celebridade como o ex primeiro-ministro britânico os fatos são irrelevantes. Em 19 dias de combate, 1.033 palestinos morreram, seis mil ficaram feridos e mais de 160.000 são considerados agora refugiados. Do lado israelense, 42 militares e três civis perderam a vida, e 138 soldados ficaram feridos. Esta é apenas mais uma escaramuça: em 2006 Israel lutou contra o Hezbollah, em 2009 Israel lançou a operação Chumbo Fundido, em 2012, houve a operação Pilar de Defesa. Ou seja, tais embates são cíclicos obedecem a um script, e as partes desempenham seu papel: os atores principais são atualmente o governo do primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, eo Hamas que controla a Faixa de Gaza. Um não pode viver sem o outro.

           De fato, Bibi precisa de um inimigo como o Hamas, cujos membros se escondem entre civis, usam áreas civis para lançar mísseis e escavam túneis para realizar atentados e sequestrar militares israelenses. Sem que houvesse esse comportamento de guerrilha combatente disposta a colocar em risco a vida de inocentes em nome da causa, o governo de Israel não poderia tachá-los de terroristas e não poderia justificar a morte de crianças, mulheres e velhos, o que viola as Convenções de Genebra. Por outro lado, o Hamas não pode existir sem um inimigo como o governo de direita atualmente em Israel, porque a desproporção das mortes mostra quão diabólicos são os “judeus” e reforça a imagem de mártires da causa islâmica do Hamas. Em suma, este radicalismo das partes é bom para ambos os lados, permite ao Hamas posar como defensor legítimo dos muçulmanos e permite a Israel ir fazendo aos poucos alimpeza do terreno e ir confinando os palestinos a certas áreas, tais como os bantustões que existiam na África do Sul.

          O enviado de paz Tony Blair surge aí como ator coadjuvante: seu papel é de manter as aparências de que alguém está seriamente preocupado em fazer com que as partes cheguem a um meio termo. Claro que ninguém está. Quem se importa com os palestinos que vivem no gueto de Gaza? Tanto o Hamas como o governos israelense os utilizam como instrumento de sua política, num caso como escudo no outro como alvo preferido de ataques. É verdade que tem havido protestos em todo o mundo contra os excessos da guerra,mas tudo parece ser fogo fátuo. Acredito que só haveria a possibilidade de mudar o comportamento do governo israelense se pudesse ser organizado um boicote por parte de consumidores de todo o mundo de produtos israelenses e que só haveria a possibilidade de mudar o comportamento estúpido do Hamas de lançar foguetes que não cumprem nenhum objetivo militar além de dar uma desculpa para os ataques israelenses se os palestinos começassem a perceber que o martírio e o sofrimento eternos não os levarão a lugar nenhum.

              Tenho certeza que Tony Blair, depois do descanso merecido, voltará a dar as caras no Hotel King David em Jerusalém e dar uma olhadinha em como as coisas estão. E tenho certeza que infelizmente a verdade sobre o grande personagem será revelada tarde demais, quando ela não for maisofensiva a ninguém e em 2033 o mundo descobrirá que Tony Blair era um grande factóide pós-moderno.

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Sobre outras guerras

Quando nacionalistas cubanos levantaram-se contra a Espanha em 1895, a simpatia dos Estados Unidos pelos rebeldes foi estimulada pelos relatos da “imprensa amarela” sobre supostas atrocidades cometidas pelos espanhóis. Em que pese ter sido de causa indeterminada, o afundamento no porto de Havana do navio americano Maine (15 de fevereiro de 1898) causou reação na imprensa e o furor do público. A Espanha anunciou um armistício (9 de abril), mas os Estados Unidos emitiram resoluções que declararam o direito de Cuba à independência, exigiram a retirada da Espanha, autorizaram o uso da força pelo Presidente e renunciaram a qualquer intenção dos Estados Unidos de anexar Cuba.

Trecho retirado do verbete da Enciclopédia Britânica sobre a guerra entre Espanha e Estados Unidos travada em 1898

Às três da tarde (horário de Greenwich) o Capitão Herrick ordeneu à tripulação do Ogier que abrisse fogo se os torpedeiros se aproximassem e ficassem a uma distânciade nove quilômetros. Por volta das três e cinco, o Maddoxfez três disparos para rechaçar os torpedeiros comunistas. Essa ação inicial nunca foi relatada pelo governo de Johnson, que insistiu que foram os torpedeiros vietnamitas que atiraram primeiro.

Trecho de um relatório elaborado em2005 pela Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidossobre o episódio ocorrido no Golfo de Tonkin no Vietnã, em 1964. O relatório concluiu que no dia 4 de agosto daquele ano não havia nenhuma embarcação norte-vietnamita, ao contrário do que alegara o governo americano.

        Prezados leitores, antes de mais nada, é preciso dizer que a culpa pela morte dos 298 passageiros a bordo do Boeing 777 da Malaysia Airlines, abatido por um míssil na Ucrânia,é do Putin. Quem mais teria a capacidade e a vontade de fornecer um míssel a esses famigerados rebeldes separatistas da Ucrânia? Quem mais tem a crueldade e o cinismo do neoimperialista, nazista, chauvinista presidente da Rússia? Quem mais manipula seu povo abestalhado que acredita nas quimeras nacionalistas que ele lhes oferece e lhe dá 83% de aprovação? A autoria deste atentado atroz que ceifou a vida de civis inocentes é tão óbvia que os Estados Unidos em pouco mais de 24 horas depois do acidente, deposse de evidências incontestáveis, já tinha a resposta na ponta da língua do Prêmio Nobel da Paz, Barack Obama: Vlad, o terrível, a maior ameaça à paz mundial neste século, com o intuito de colocar mais lenha na fogueira da separação da Ucrânia, forneceu os equipamentos e a expertise para que os terroristas disparassem o Buk.

         Nesta história de horrores, é um alívio saber que temos os Estados Unidos, o farol da liberdade e da democracia no mundo, o benfeitor do Iraque, do Afeganistão, do Iêmen, da Síria, da Líbia, do Sudão, e de todos os países, onde os americanos ensinam os nativos a votar e a sematarem entre si. É um alívio porque só o governo americano poderános contar a verdade de maneira imediata, sem intermediários, sem tergiversações, só ele conseguirá desmascarar ditadores sanguinários e insandecidos como o perseguidor das minorias sexuais Putin que não vai descansar enquanto não refizer as fronteiras da antiga União Soviética. Os Estados Unidos como sempre já cumpriram sua obrigação, já nos encheram de indignação diante da morte estúpida dos passageiros do vôo MH17. Agora a comunidade internacional deve agir contra a Rússia, aplicando-lhe sanções econômicas e retaliações à altura da barbárie cometida. Certo?

            Errado, na minha modestíssima opinião. Meu intento não é convencer ninguém que Vladimir Putin é coroinha de missa ou que os rebeldes pró-Rússia que querem se separar da Ucrânia não são capazes de nenhuma violência. Meu propósito é simplesmente chamar-lhes a atenção para episódios históricos em que os Estados Unidos se envolveram e que serviram de justificativa para sua intervenção militar, normalmente como reação de legítima defesa contra um ataque injusto do inimigo. O script é sempre o mesmo: cria-se o demônio para depois abatê-lo sem dó nem piedade, a bem da justiça. Vejamos.

       No primeiro caso, no final do século XIX, a imprensa sensacionalista americana, capitaneada por William Randolph Hearst, pintou a Espanha como a colonizadora decadente opressora dos países do continente americano. O afundamento do Maine foi a gota d´água e como resultado da guerra que se seguiu os Estados Unidos obtiveram Guam, Porto Rico e as Filipinas.No segundo caso, a história contada pelo governo de Lyndon Johnson ao seu povo, de que torpedeiros vietnamitas haviam disparado contra os americanos em 4 de agosto de 1964 teve como efeito imediato a aprovação pelo Congresso americano da resolução do Golfo de Tonkin, que concedia ao Presidente a permissão de ajudar qualquer país do Sudeste Asiático cujo governo fosse considerado como prejudicado pela agressão comunista.Em suma,a resolução serviu de justificativa legal para que Johnson enviasse tropas ao Vietnã para combater os vietcongs, aumentando a intensidade do conflito que já se desenrolava na Indochina desde 1955. A guerra do Vietnã, que duraria até 1975, com a tomada de Saigon pelo norte-vietnamitas, ceifaria a vida de mais deum milhão de pessoas.

        Mais recentemente, para justificar a invasão do Iraque em março de 2003, George Bush e Tony Blair alegaram que Saddam Hussein acumulara uma vasta quantidade de armas de destruição em massa, o que configurava uma ameaça à paz mundial. Em 2008 uma Comissão do Senado dos Estados Unidos chegou à conclusão de que o governo de George Bush sobrestimou a ameaça colocada pelo Iraque, apresentando de maneira distorcida as informações obtidas pelos órgãos de inteligência americanos sobre o programa nuclear do Iraque. O próprio George Bush, que pintara Saddam Hussein como encarnação do demônio, admitiu em dezembro de 2008 que seu maior arrependimento havia sido a falha na obtenção de informações fidedignas a respeito da letalidade do Iraque.As estimativas variam em relação ao número de mortos no Iraque, que pode ter ultrapassado 500.000 desde 2003.

         Prezados leitores, eu poderia também falar de Pearl Harbor e a pretensa surpresa do ataque japonês aos americanos, mas deste já falei há algum tempo e não quero repetir-me.Esses três episódiossão suficientes para mostrar que é no mínimo temerário, ante os antecedentes históricos, confiarmos nas evidências que os Estados Unidos mostram ao mundo para comprovar a justeza da sua causa. O ideal seria que pudesse haver uma investigação séria do episódio, sem conclusões precipitadas, sem achismos baseados em declaraçõescolocadas na internet. Infelizmente é pouco provável que a isenção prevaleça, porque os ânimos estão acirrados, há interesses de todos os lados de continuar alimentando o fogo das hostilidades. Ainda é cedo para dizer qual serão os resultados deste incidente, mas em vista do que a história nos ensina ele promete prenunciar destruição e morte em nome de nobres ideais.

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Tristes reflexões

O aumento no comércio entre a China e a Alemanha na última década – e particularmente o aumento das exportações da Alemanha à China – superaram todas as expectativas. A Alemanha é o maior parceiro comercial da China na União Europeia, e a China é o principal destino dos investimentos estrangeiros das empresas alemãs

Artigo do Conselho Europeu de Relações Internacionais

Déficit de exportação da indústria avança para ser o pior da história

Manchete do jornal O Estado de São Paulo do dia 13 de julho

                         Prezados leitores, escrevo este artigo depois de encerrada a Copa do Mundo com a vitória da Alemanha sobre a Argentina. Pertenço àquele grupo de brasileiros que torceu por uma vitória europeia para que pelo menos nossa humilhação histórica no malfadado jogo de 8 de julho tenha como consolo o fato de termos perdido para os campeões do mundo. Também há um outro motivo pelo qual eu torci contra os hermanos. Não gosto da maneira pela qual os argentinos gostam de mostrar-se superiores a nós porque são 100% brancos de ascendência europeia, ao passo que nós somos o país negro demais para eles.

                   Os alemães, ao contrário dos argentinos, irremediavelmente presos à América Latina, não precisam provar nada para ninguém, e por isso aceitaram nossa diversidade de maneira relaxada e até entusiasmada, típica dos europeus que se maravilharam com o sol dos trópicos quando aqui chegaram nas caravelas. Dançaram ao som da Luz deTieta, torceram pelo Brasil e mostraram respeito pelo nosso patrimônio futebolístico, tanto que não fizeram tantos gols quanto poderiam ter feito contra aquele amontoado de gente que só o Felipão, o Parreira e talvez o Galvão Bueno, cada um deles com seus próprios interesses, consideravam capaz de ganhar a Copa do Mundo.

                      Em suma, torci pelos alemães porque foram perfeitos na organização, souberam se adaptar às condições do ambiente tropical, não ficaram reclamando dos desafios colocados pelo calor, não ficaram caindo em campo para cavar pênaltis e faltas, como tantos dos nossos jogadores fizeram a mando do professor Scolari, jogaram futebol, e quando nos massacraram no Mineirão não nos tripudiaram com dribles ou pedaladas, como provavelmente teríamos feito se tivéssemos estado na mesma situação. Como não admirar tamanha eficiência, seriedade, honestidade e grandiosidade? Por outro lado, é algo assustador para nós, sul-americanos, sob vários aspectos.

                     Esta é a primeira vez que uma seleção europeia ganha uma Copa do Mundo nas Américas. Se levarmos em conta que a última vez que os sul-americanos ganharam o torneio foi em 2002 com o Brasil, podemos talvez pensar que esteja havendo uma decadência do nosso outrora tão decantado futebol-arte. Como não pensar assim? Afinal será mera coincidência que em 2010 a campeã do mundo foi a Espanha, cuja base era o time do Barcelona, e que neste ano foi um time em que sete dos jogadores atuam no Bayern de Munique? Será coincidência que por mais que Argentina e Brasil, para falar das maiores forças sul-americanas, tenham nomes de qualidade, a falta de entrosamento de jogadores que atuam em todos os cantos do globo, menos em seus próprios países, torne as coisas difíceis? Tanto em um quanto no outro time, apenas três jogadores dos convocados atuavam em clubes brasileiros ou argentinos. Será coincidência que nossos campeonatos nacionais nem se comparem àqueles da Espanha e da Alemanha, os últimos campeões mundiais? Será coincidência que as potências atuais do mundo futebolístico não sejam exportadoras de talentos, como são nós e los hermanos?

                  Todos esses dados parecem mostrar que o futebol em 2014 é uma indústria global e os europeus souberam aprender conosco, reconhecendo a importância da técnica, e nos superar, aliando a técnica à força e à organização para cultivar talentos nacionais que formam a base das seleções. E o futebol hoje não é apenas uma indústria em si, que movimenta dinheiro com a venda de ingressos, de direitos de transmissão, de compra e venda de jogadores. Ele acaba tendo um efeito fora dos seus limites estreitos, criando valor de maneiras inesperadas. Dona Angela Merkel, a primeira-ministra da Alemanha, não estava presente no Maracanã para assistir à final simplesmente porque é fã de futebol e é pé quente, dando sorte ao time. O campo de futebol, a escola e o centro de treinamento deixados pela Federação Alemã de Futebol aos habitantes de Santa Cruz Cabrália projetam a imagem de um país que aceita a diversidade e traz benefícios às comunidades não brancas. A própria composição da seleção, formada de alguns jogadores de origem turca, serve para mostrar uma Alemanha muito distante daquela da Segunda Guerra Mundial que privilegiava a pureza do sangue ariano, que queria conquistar a Europa como um direito ao espaço vital de uma raça superior. Enfim, em um mundo em que os contatos entre os diversos povos estão cada vez mais frequentes, abraçar o multiculturalismo, patrociná-lo e exercê-lo na prática rende pontos. Para culminar esse esforço de soft power, os alemães vencedores imitaram a dança dos pataxós que viram na Bahia ao redor da taça de campeões do mundo.

                          Não admira que embuída de tal espírito de fazer frente aos desafios modernos a Alemanha tenha se dado muito bem com a globalização. Enquanto que para o Brasil a ascensão da China tem sido uma faca de dois gumes, pois de um lado tem causado nossa desindustrialização pela perda de competitividade e de outro aberto mercado para nossas commodities, para os alemães tem sido até agora um casamento perfeito: os chineses vão atrás da tecnologia alemã e os alemães vão atrás do grande mercado asiático.

                   Prezados leitores, por mais que eu admire a lição de eficiência e diplomacia dada pelos teutônicos, não posso deixar de entristecer-me com o fato de que nós brasileiros, que éramos os senhores absolutos do futebol, perdemos nossa competitividade e atualmente estejamos vivendo muito mais das lembranças do passado glorioso. Desde 1982, com a fatídica derrota ante os italianos, temo-nos dedicado a destruir nosso futebol e em 2014, nosso esforços foram recompensados. Tivemos a pior seleção da nossa história, porque não soubemos manter nossas qualidades e nos livrarmos dos nossos defeitos em matéria de organização fora do campo. Nossos competidores no futebol globalizado souberam adquirir novas qualidades edeixar para trás suas fragilidades. Esta Copa de 2014, em que tomamos dez gols em apenas dois jogos, certamente será um divisor de águas, pois solidifica uma impressão que já tínhamos tido quando o Santos sofreu o mesmo revés contra o Barcelona. A de que já não estamos nem entre os melhores do mundo no futebol e que em mais esse quesito a globalização nos pegou de calças curtas.

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