O Maranhão é aqui

       A Balaiada maranhense começou a partir de uma série de disputas entre grupos da elite local. (…) À frente do movimento estavam o cafuzo Raimundo Gomes, envolvido na política local, e Francisco dos Anjos Ferreira, de cujo ofício – fazer e vender balaios – o nome da revolta. Ferreira aderiu à rebelião para vingar a honra de uma filha, violentada por um capitão de polícia. Paralelamente, surgiu um líder negro conhecido como Cosme – sem sobrenome pelo menos nos relatos históricos – à frente de 3 mil escravos fugidos.

Retirado do livro “História do Brasil”, de Boris Fausto

Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá

As aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá

Trecho de Canção do Exílio, de Antônio Gonçalves Dias (poeta maranhense – 1823-1864)

       Prezados leitores, outro dia deparei-me com um artigo muito interessante a respeito das diferenças culturais nos Estados Unidos. O autor alega que as várias regiões daquele imenso país foram povoadas por pessoas de partes diferentes do Reino Unido que tinham valores completamente diferentes. Os habitantes do nordeste americano, que fundariam a colônia de Massachusetts,eram puritanos ingleses, que cultivavam a necessidade de as pessoas responsabilizarem-se por seu próprio governo, estimulavam a participação política, em suma valorizavam o que hoje podemos chamar de civismo e que é a base das sociedades verdadeiramente democráticas, em que não há salvadores da pátria, ditadores, caudilhos e coisas afins, mas simplesmente pessoas que pelo esforço e trabalho duro se destacam, em um meio em que todos comportam-se mais ou menos da mesma forma.

       Esta é a imagem que normalmente nós, não-americanos, temos dos Estados Unidos, uma nação construída por puritanos que sempre levavam as coisas a sério e construíram um sistema político cujo objetivo era livrá-los dos males criados pelos privilégios consolidados pelas monarquias europeias, em que a posição social dos pais ditava o destino do indivíduo. No entanto, o quadro é mais complexo, pois oSul dos Estados Unidos foi povoado em primeiro lugar pelos cavaliers, que apoiaram o rei Carlos I e seu filho Carlos II na Guerra Civil inglesa e eram portanto o que se pode chamar de reacionários, pois favoráveisà monarquia absoluta. Perdedores da guerra, emigraram para os Estados Unidos e dedicaram-se a replicar seu modo de vida por meio da economia agrária do Sul, baseada nas plantations e na mão de obra escrava. Construíram assim uma sociedade aristocrática, hierárquica, em que a honra era um valor importante, os mais velhos eram reverenciados e na qual os assuntos governamentais deveriam ser deixados a cargo da elite de homens brancos que tinha a natural aptidão e capacidade para liderar.

      Para quem não sabe, quando esse grupo de pessoas saiu derrotado da Guerra de Secessão americana, alguns membros emigraram para o Brasil para poder continuar vivendo de acordo com seus valores, o que em termos práticos significava continuar possuindo escravos para cultivar a terra. Americana, uma cidade no interior de São Paulo, foi fundada por esses nostálgicos sulistas americanos. Quem não se lembra do filme E o Vento Levou? A condescendência dos brancos em relação aos negros, exemplificada pela heroína Scarlett O’Hara que ora insulta e bate em uma negra, ora a faz sua confidente,a falta de espírito prático de homens como Ashley, que era incapaz de sobreviver no mundo do capitalismo selvagem trazido pelos Ianques. Como dizia Darcy Ribeiro, o Brasil é os Estados Unidos se os sulistas tivessem ganho a guerra.

      Para completar esse quadro resumido, o Oeste americano, zona de fronteira, em que o governo central tinha uma presença fraca por razões geográficas, foi habitado por pessoas provenientes dos confins do Reino Unido, gente do Norte, irlandeses, escoceses e ingleses setentrionais, que haviam sofrido por séculos a opressão do governo sediado em Londres e que portanto cultivavam um ódio e desconfiança viscerais a qualquer tipo de governo. Eram os libertários, para quem a lei só poderia ser aquela que o indivíduo fazia para si mesmo, e qualquer disputa deveria ser resolvida pelas vias de fato.Filmes antológicos como “The Outlaw Josey Wales”, estrelado por Clint Eastwood, mostram esse homem individualista que não se curva à autoridade, e que está sempre pronto para o combate, para defender o que é seu, seja sua casa, sua plantação, sua família ou seu dinheiro. Para quem tiver interesse em ler o artigo: http://www.theamericanconservative.com/dreher/white-people-the-persistence-of-culture/.

     Prezados leitores, este modesto intróito sobre a formação dos Estados Unidos, um país tão grande quanto o nosso, serve para eu lançar-lhes uma pergunta: será que esse mesmo raciocínio não se aplica ao Brasil? Será que nossos historiadores não chegariam a conclusões utilíssimas se tentassem estabelecer diferenças culturais entre as regiões do Brasil se olhassem um pouco a história do povoamento nos vários Estados brasileiros? Essa indagação veio-me à cabeça nesta semana, quando recebemos mais notícias ruins do Maranhão. Pois se antes sabíamos que os Sarney mandam em tudo, no Executivo, Legislativo e Judiciário, na imprensa, na televisão, que eles têm uma ilha particular cuja propriedade foi conquistada sabe-se lá como, que o Maranhão é um Estado miserável, hoje sabemos que a incompetência, a corrupção atingem níveis absurdos, causadores do caos que se instalou nos presídios de lá.Tanto é assim que a digníssima governadora Roseana, ante a divulgação dos vídeos mostrando presos sendo decapitados no Complexo de Pedrinhas, reagiu criticando o sensacionalismo do vídeo, e não o fato de ter ocorrido tal ato de barbárie. Ou seja, reagiu de maneira defensiva, e mais não poderia fazer quando se sabe que o mais importante para dona Roseana é comprar lagostas frescas, camarões e patinhas de caranguejo para abastecer o palácio e a casa da praia.

       Li no UOL na semana passada que o desejo desta moça finíssima é mudar-se para os Estados Unidos, mas seu pai aparentemente a convenceu a candidatar-se a senadora porque assim livra-se da aporrinhação dos processos judiciais. Coitadinha, moçoila de saúde frágil que está sempre baixando aqui no Sírio Libanês, tem que ser sacrificada para o bem dacosa nostra, quer dizer, da família. Desejo a ela toda sorte do mundo, e que nunca tenha o desprazer de ter que comer uma das quentinhas servidas aos presidiários do Maranhão, feita de feijão podre, frango cru e arroz frio. Tenho fé que Roseana será eleita de maneira retumbante, afinal o povo do Maranhão parece não ter alternativas, ou parece ser cooptado com as esmolas dadas em época de eleição ou quem sabe as máquinas de votar escolham os membros do clã Sarney automaticamente?

      Ao contrário do que cantou um dos seus ilustres filhos, Gonçalves Dias, o Maranhão parece ser uma terra amaldiçoada. Os franceses lá se estabeleceram em 1612, fundando São Luís, mas não ficaram.A balaiada, a revolta contra os desmandos dos poderosos, terminou mal: Cosme, o negro foi enforcado e nada foi conseguido, além de umas chapuletadas do ínsigne Luís Alves de Lima e Silva, responsável pela repressão do movimento, e que por isso recebeu o título de Barão de Caxias.. Parece haver qualquer coisa no povo, uma resignação bovina, um fatalismo que os impede de ao menos livrarem-se da sua oligarquia, como outros Estados brasileiros, inclusive nordestinos, conseguiram.

      Qual a razão de haver certas regiões deste país que parecem nunca progredirem, sempre estacionadas no passado? Espero que os historiadores brasileiros um dia façam essa radiografia do nosso país, e ao invés de tratarem tudo como uma questão econômica, do tipo pau-brasil versus açúcar, açúcar versus ouro, ouro versus café, façam uma análise dos valores das diversas populações brasileiras.

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2014, o ano do descontentamento

Deus criou o povo para trabalhar, arar o solo e cuidar da subsistência por meio do comércio; o clero, para as obras da fé; mas a nobreza para promover a virtude e conservar a justiça, para servir de espelho para os outros pelos seus atos e costumes

Trecho extraído do livro “O Outono da Idade Média” de Johan Huizinga

                Prezados leitores, antes de mais nada, devo recomendar-lhes a leitura do livro do qual tirei o trecho reproduzido acima. Comprei-o em uma feira de livros no ano passado em suaves prestações mensais. A edição brasileira de 2010 foi preparada com esmero pela editora paulistana CosacNaify em papel cuchê, com ilustrações coloridas, e o mais importante, com tradução direto do original em holandês. O subtítulo explica o tema: “Estudo sobre as formas de vida e de pensamento dos séculos XIV e XV na França e nos Países Baixos”. Apesar de ser um calhamaço de 650 páginas, pode-se lê-lo em pedaços, pois é composto de ensaios sobre determinados temas.

                O capítulo do qual tirei a citação intitula-se “ A Concepção Hierárquica da Sociedade”. Vocês provavelmente já devem ter ouvido falar que a sociedade medieval era estamental. Aprofundando essa ideia, Huizinga nos informa que não era simplesmente uma questão de haver três grupos na sociedade, o povo, o clero e a nobreza. Na verdade havia muito mais divisões, em termos de profissões, de idade, sexo. E cada indivíduo, de acordo com o grupo a que pertencia, usava determinadas roupas e cores e comportava-se de determinada maneira. Vou dar-lhes alguns exemplos prosaicos: as parturientes da nobreza tinham seu quarto decorado de verde quando iriam dar à luz e na época do resguardo. O luto variava de forma de acordo com a pessoa que morria, se o marido (seis semanas de cama), o pai ou mãe (nove dias na cama e o resto das seis semanas deveriam ser despendidas pela mulher sentada diante da cama, sobre um grande pano preto), o irmão mais velho (recolhimento ao quarto por seis semanas, mas não restrita à cama).

                O que me interessa nesse livro, além das curiosidades históricas, é mostrar-lhes que havia na época um ideal de comportamento. Cada um deveria cumprir um papel, assumir determinadas responsabilidades. A elite, representada pela nobreza, deveria servir de exemplo em termos de virtudes cavalheirescas de proteção dos pobres e fracos, de compromisso com a verdade, com a ética. É claro que não podemos ser ingênuos e achar que as elites daquela época cumpriam seu papel à perfeição. O povo comum era oprimido pelas guerras, pelos impostos cobrados para financiá-las, e elas serviam quase sempre exclusivamente aos interesses dinásticos da nobreza. A tal da honra do cavaleiro era muitas vezes um verniz que mal escondia o egoísmo, a sede de poder, de glórias, de conquista dos privilegiados. Mas essas fraquezas são fraquezas humanas presentes em todos os momentos da história.

                Independentemente da distância entre a teoria e a prática, os pobres mortais procuravam seguir o roteiro, fazer o que era esperado. Havia um horizonte, fugidio sempre, mas que não deixava de dar esperança às pessoas por um mundo melhor.Mais de seis séculos depois, acredito que temos muito mais motivos reais de termos esperança, afinal a tecnologia revolucionou nossas vidas de uma maneira maravilhosa, permitindo-nos viver muito mais do que qualquer daqueles homens do século XV poderiam sonhar. Para aqueles como eu que têm gosto pela história, não há como não nos sentirmos privilegiados por termos nascido no século XX, quando comparamos a existência cheia de medos daqueles indivíduos angustiados ante tantas preocupações, fome, doenças mortais, com nossa vida de pessoas que esperam viver no mínimo 80 anos.

                Por outro lado, é inegável que aquele ideal de comportamento é totalmente descabido no século XXI, e isto em minha opinião é uma grande pena. Nâo esperamos muita coisa das nossas elites, que elas nos sirvam de modelo de comportamento ético. Num certo sentido, nosso mundo é plano pelo fato de termos um mínimo denominador comum aplicado a ricos e pibres: aceitamos de bom grado que as pessoas mintam, trapaceiem, matem, enganem. Nossa reação não é estigmatizar os picaretas, asssassinos, estelionatários, chamá-los de bruxos ou pecadores, queimá-los na fogueira, submetê-los a torturas em nome da justiça, mas no máximo conceder-lhes o devido processo legal, fazê-los pagar indenização por perdas e danos e a depender do crime dar-lhes uma pena que depois de cumprida os torna aptos a frequentar a sociedade.

                  Não me entendam mal, não estou aqui a defender a volta das penas capitais, meu ponto é que nossa tolerância com desvios de comportamento é muito maior do que em outros tempos, justamente porque nos falta um ideal que estabeleça de maneira categórica o que é certo ou o que é errado. Em nossa sociedade, o comportamento ético, sem nenhuma conotação religiosa, fica no mais das vezes submetido a infindáveis discussões jurídicas que fazem a fortuna de advogados, mas não chegam a nenhuma conclusão que lave nossa alma e nosso sentimento de justiça.

                   Prezados leitores, teremos neste ano de 2014 eleições gerais no Brasil, mas alguém tem esperança de que haja um mínimo de apreço pela verdade? Nesta semana que passou os números da balança comercial foram divulgados para 2013, o pior dos últimos 13 anos, resultado de manobras contábeis que fizeram com que as importações de 2012 só fossem registradas no ano seguinte e que receitas de exportações de plataformas de petróleo que nunca deixaram o país fossem computadas. Ou seja, o resultado na verdade é uma grande mentira, e nós cidadãos comuns não temos acesso aos números reais. Como também não teremos acesso à verdade quando formos “informados” do programa político dos candidatos a presidente: será um amontoado de estatísticas, números usados pelos marqueteiros para vender seu produto. E quando o produto tiver sido desovado do estoque, depois da mega liquidação, o vendedor sumirá e não dará assistência no pós-venda quando a mercadoria começar a apresentar os vícios ocultos.

              Sozinhos com a mão no bolso, nós brasileiros, provavelmente sofreremos os efeitos de uma maxidesvalorização da moeda, já que nossas reservas internacionais têm diminuído para cobrir afalta de entrada de recursos externos. Em 2013 elas encolheram 2,8 bilhões de dólares. Como consequência, a inflação aumentará, mas o governo que tiver sido eleito, seja ele vermelho, azul ou verde, não se sentirá moralmente compelido a dar satisfações à população sobre a diferença entre o quadro róseo pintado pelos marqueteiros na época das eleições e a realidade da carestia e do aumento da nossa vulnerabilidade aos solvancos de uma economia global que está para lá de instável. Afinal, honra, decência são palavras antiquadas, absurdas em um mundo em que a manipulação é arma do sucesso e o sucesso é a medida de todas as coisas.

         Prezados leitores, futuros consumidores lesados dessa eleição presidencial: preparem-se para a desconversa, para as meias verdades, para o roto com dedo em riste contra o esfarrapado. O sucesso do presidente eleito em outubro, seja ele quem for, terá sido obtido à custa de nenhuma consideração real pelo bem comum. Só nos resta resignarmos com nosso descontentamento.

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Liberdade, abre as asas sobre nós

PAVIA, Italy — Renowned for its universities and a celebrated Renaissance monastery, this Lombardy town about 25 miles south of Milan has in recent years earned another, more dubious, distinction: the gambling capital of Italy.

Slot machines and video lottery terminals, known as V.L.T.s, can be found all over in coffee bars and tobacco shops, gas stations, mom-and-pop shops and shopping malls, not to mention 13 dedicated gambling halls. By some counts, there is one slot machine or V.L.T. for every 104 of the city’s 68,300 residents.

Critics blame the concentration of the machines for an increase in chronic gambling — and debt, bankruptcies, depression, domestic violence and broken homes — recorded by social service workers in Pavia.

Retirado de um artigo intitulado “Medo deDistúrbios Sociais à medida que a jogatina explode na Itália” na versão eletrônica do jornal The New York Times

Foi muito feliz a revista The Economist ao declarar o Uruguai “o país do ano” e qualificar como admiráveis as duas reformas liberais mais radicais tomadas em 2013 pelo governo do presidente José Mujica: o casamento gay e a legalização e regulamentação da produção, venda e consumo da maconha.

Retirado do artigo intitulado “O Exemplo Uruguaio”, de Mário Vargas Llosa

         Prezados leitores, no Brasil nós temos e já tivemos muitos partidos com o nome de liberais e já tivemos expoentes da ideologia liberal, o mais notório deles sendo Roberto Campos, lembram-se dele? Fernando Collor, quando eleito presidente, também flertou com as ideias liberais e tomou de empréstimo, para usarmos um eufemismo, os escritos de José Guilherme Merchior (1941-1991), em que o pensador, crítico literário e diplomata brasileiro defendia o conservadorismo liberal. Bem, sabemos como o governo de Fernando Collor terminou e sabemos que a verdadeira filosofia do PFL, do PL e outros partidos brasileiros que têm ou tiveram o L no nome é na verdade a do locupletamento, puro e simples.

         Por outro lado, em que pese o fato de que o liberalismo, quer seja ele social, político, econômico ou cultural, nunca tenha de fato rendido bons frutos no Brasil, que conseguiu achincalhar um conceito com uma linda tradição nos países europeus, na teoriaé algo que a mim parece perfeito. Como Mário Vargas Llosa defende em seus artigos e especialmente neste a respeito das medidas recentes tomadas na nossa antiga província Cisplatina (tenho certeza que meus leitores sabem que o Uruguai, às vezes chamado de a Suíça da América Latina, pertencia ao Brasil, que o perdeu em 1828 na Guerra da Cisplatina), o liberalismo propõe a liberdade de deixar as pessoas escolherem o melhor caminho para si, sem interferências do Estado e de nenhuma outra instituição. Nesse sentido, se a pessoa quer fumar maconha, cheirar cocaína, ser gay, jogar videopôquer no bar ou no café como fazem freneticamente os italianos, que terão gasto 115 bilhões de dólares em 2013 em apostas, de acordo com estimativas,não há porque proibi-la. Cada um é dono do seu próprio nariz, especialmente se o indivíduo é informado dos riscos e das vantagens de cada opção,de modo que possa fazer as melhores escolhas de acordo com seu perfil pessoal. Como ser contra tal filosofia, se vemos que a política de repressão às drogas só gera corrupção das autoridades, criminalidade, famílias destruídas e hipocrisia? Lembrem-se também que nosso príncipe iluminista, Fernando Henrique Cardoso, também defende a liberalização das drogas usando como argumento a pouca eficácia da atual política vigente na miaor parte do mundo.

         Realmente, o ideal de pessoas informadas, capazes de tomar decisões racionais baseadas em uma ponderação das vantagens e desvantagens, é uma premissa tanto do Iluminismo do século XVIII, que queria livrar o homem do fatalismo religioso, quanto da ciência econômica de Adam Smith, que queria mostrar que o capitalismo era a melhor rota rumo à felicidade do homem na Terra. Indivíduos produtivos, criadores de riqueza, senhores do seu destino, livres das amarras que haviam aprisionado o homem na superstição e no medo. Laisser faire, laisserpasser le monde va de lui même! No entanto, a esta altura da minha vida, confesso que eu, que quando mais moça encantei-me com os ensaios de Isaiah Berlin, não acredito que dada a variedade humana, a receita liberal possa ser aplicada a todos.

         Minhas ressalvas vão além da questão de haver muitas pessoas desinformadas neste mundo, o buraco é mais embaixo. Minha experiência de vida, e não pretendo aqui que ela seja taxativa, mostrou-me que há pessoas com uma maior ou menor capacidade de viver de maneira sensata, isto é, de controlar seus apetites e seus instintos de maneira que ao dar vazão a eles não provoquem grandes estragos em si mesmas e nos seus familiares. Eu não sei porque isso ocorre, se é genético ou social, mas não há como negar que há aqueles que, independentemente de classe social, nível educacional, não têm o mínimo senso do equilíbrio. Quem não conhece ao menos um energúmeno que gasta demais, que bebe demais, que casa três, quatro vezes, deixando um rastro de filhos para trás? O exemplo da Itália, citado na abertura deste artigo, é ilustrativo: a jogatina estava antes nas mãos do crime organizado mas, para arrecadar impostos e tirar essas atividades da ilegalidade, o governo permitiu a abertura de cassinos e a instalação de máquinas nos bares e cafés.O resultado é o descrito na reportagem (http://mobile.nytimes.com/2013/12/29/world/europe/fears-of-social-breakdown-as-gambling-explodes-in-italy.html?partner=rss&emc=rss&smid=tw-nytimesworld) : pessoas viciadas e falidas, famílias desestruturadas.

         Isso não significa dizer que eu ache que os viciados, compulsivos e obcecados de todo gênero sejam pessoas doentes, vítimas de sua própria condição que devam ser tratados de maneira paternalista pelo Estado ou por alguma instituição. Acho que as pessoas devem assumir responsabilidade por seus atos, e nisso compartilho o credo liberal, porque medicalizar o problema, considerar qualquer comportamento exagerado como um problema psiquiátrico, é fazer com que a sociedade como um todo arque com as consequências de escolhas morais feitas por cada indivíduo.Para resumir minha opinião, digo o seguinte: sou contra a liberalização das drogas porque acredito que há uma parcela da população incapaz de agir de maneira responsável, que ao comer melado vai sempre se lambuzar. Ao mesmo tempo, sou contra a internação compulsória de usuários de crack, política que está sendo tentada aqui em São Paulo, porque o viciado não é vítima de uma doença, ele procurou aquele caminho e não é justo que eu tenha que arcar com o tratamento de uma pessoa que nem quer se tratar. Aliás, um psiquiatra húngaro, Thomas Szasz (1920-2012), considerava que as doenças mentais não eram doenças médicas no sentido fisiológico, e pregava o fim da institucionalização da psiquiatria.

         Prezados leitores, não sou médica, não sou especialista, apenas uma liberal desencantada: que a liberdade abra as asas sobre nós, mas que tenhamos em mente que, por razões que ainda não conhecemos de todo, há pessoas neste mundo que nunca conseguirão ser verdadeiramente livres. Para elas,a única medida cabível é a repressão, pura e simples.

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Priscas eras

Under WASP hegemony, corruption, scandal and incompetence in high places weren’t, as now, regular features of public life. Under WASP rule, stability, solidity, gravity and a certain weight and aura of seriousness suffused public life. As a ruling class, today’s new meritocracy has failed to provide the positive qualities that older generations of WASPs provided.

Retirado de um ensaio de Joseph Epstein (1937-), escritor americano, publicado no Wall Street Journal em 21 de dezembro

            Prezados leitores, mais de uma vez já defini-me neste espaço como uma reacionária, isto é, alguém que acha que o passado era melhor. Não pretendo convencer ninguém dessa verdade, mesmo porque ela é inverificável: o passado nos chega por meio de relatos e para que eu pudesse estabelecer de uma vez por todas o que é melhor, o que já foi ou o que está sendo, eu teria que ter uma máquina do tempo e viver em outras eras. Como isso não é possível, só me resta resignar-me com o fato de que minha veia reacionária é simplesmente um estado de espírito, uma postura filosófica que não pode ser nem refutada nem corroborada absolutamente. Isso não é motivo para abandoná-la, mesmo porque é ela quem me dá meu ponto de vista sobre o mundo.

            Sob esse ponto de vista, literal e metaforicamente, eu acho, e pelos motivos expostos acima eu não posso ser mais taxativa do que o uso dessa palavra mostra, que estamos passando por uma crise de valores sociais. Tudo aquilo que sustentava a civilização ocidental, noções sobre a família, sobre a ética, a moral, os bons costumes, está ruindo e o que está sobrando em seu lugar é um solipsismo, que é vendido pela mídia e por todos os formadores de opinião como um direito natural à liberdade e à livre escolha: o que é certo e o que é errado é em última análise uma escolha individual e ninguém tem direito a se imiscuir na escolha da pessoa, porque afinal a minha opção é tão válida ou tão inválida como a sua.

            Esse culto a celebridades, esse olhar para o próprio umbigo proporcionado pelo Facebook, em que as pessoas não se cansam de falar delas, das suas escolhas, das suas preferências, das suas experiências, da sua dor e da sua felicidade, é a face mais benigna do solipsismo que domina as mentes deste início do século XXI. A face mais maligna, e que afeta todos, mesmo os que não leem Caras nem ti-ti-ti, e não têm um milhão de amigos nas redes sociais, é a delinquência que vemos em todas as esferas da vida pública. Nós no Brasil sempre estivemos acostumados com comportamentos desregrados das nossas elites, fruto do nosso passado de escravismo, como bem nos ensinaram aqueles que pensaram o Brasil, como Gilberto Freyre, Sérgio Buarquede Hollanda, Machado de Assis. Mas tínhamos como modelo as democracias ocidentais e os brasileiros bem-pensantes esperavam que um dia conseguíssemos chegar ao nível de desenvolvimento de países centrais da América do Norte e da Europa. Não creio que hoje em dia possamos tomar como exemplo ético o que ocorre ao Norte do Equador.

            Para fundamentar minha opinião, eu cito como abertura do meu artigo o trecho de “The Late, Great American WASP”, em que o jornalista lamenta o fato de os Estados Unidos não serem mais dirigidos pelos anglo-saxões, gente como os Rockfeller, cujos ideais eram imitados por novos-ricos como os Kennedy, imigrantes irlandeses que nuncas chegaram a ser WASPS porque um verdadeiro membro da elite não realizaria contrabando de bebidas como Joseph Kennedy fez, não teria amigos na máfia e não correria atrás de mulheres da maneira acintosa e patológica como o ex-presidente John Kennedy corria. Epstein considera que as novas elites que dominam o país são inferiores às de antanho porque mesmo havendo a meritocracia, isto é, mesmo que os membros dessa nova classe dominante tenham frequentado as melhores escolas, Harvard, Yale, Princeton, a educação que recebem só serve seus próprios interesses egoístas de sucesso e não tem nenhum fundamento moral em noções de bem comum, sacrifício pessoal. Ao contrário, os que ocupam cargos públicos hoje amanhã estão trabalhando como lobistas de grupos de interesse. O ensaísta americano é tão saudosista que chega a dizer que os banqueiros WASPS não teriam feito esta lambança com hedge funds e títulos hipotecários podres que deu na crise de 2008, da qual o mundo ainda não se recuperou, afinal eles não eram “porcos gananciosos” como são os banqueiros modernos e tudo o que faziam pautava-se por uma consideração sobre os efeitos sobre a sociedade como um todo.

            Prezados leitores, minha alma reacionária não pode deixar de assinar embaixo de todas as críticas que Joseph Epstein faz às novas elites americanas.Será que Franklin Delano Roosevelt, um WASP da gema, teria ficado rindo e se divertindo tirando fotos ao lado de uma loira como Obama fez na cerimônia fúnebre em homenagem a Nelson Mandela? Alguns dirão que FDR provalvemente se distraía, mas não havia fotógrafos com lentes poderossíssimas como há hoje e não havia I-phone para servir de arma contra compromissos oficiais enfadonhos. Talvez isso seja verdade, e se hoje mitificamos o passado é porque ele está encoberto pelas brumas do desconhecimento da sua verdadeira face. Por outro lado, uma tal discussão é inútil porque a própria capacidade que temos hoje em dia de perscrutar a vida dos poderosos em seus mínimos detalhes faz com que não consigamos mais acreditar que eles possam ser nobres, e nossas baixas expectativas os eximem de obrigar-se a manter-se na linha. O círculo virtuoso de priscas eras, em que o público não tinha acesso a todas as informações dos governantes permitia manter-lhes a aura,estabelecendo padrões altos de conduta para que o mito pudesse ser alimentado. Hoje em dia temos um círculo vicioso: quanto mais podres sabemos dos nossos líderes, menos acreditamos neles, menos esperamos deles, e eles não se sentem mais embuídos da responsabilidade moral de corresponder a expectativas que evaporaram no ar.

            Para terminar com uma tropicalização das ideias aqui desenvolvidas, lanço-lhes uma pergunta: alguém acha que entre o Barão de Mauá, nosso primeiro grande empresário, que construiu ferrovias, fundições, estaleiros, foi à falência e morreu pobre, e Eike Batista, o empresário-celebridade ou a celebridade-empresária, que ao que parece criou apenas uma pirâmide da felicidade em queo último é que apague a luz,há umadiferença de qualidade? Quem acha que há concorda em parte com minha saudade de priscas eras.

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Deixa a vida me levar

Se a coisa não sai
Do jeito que eu quero
Também não me desespero
O negócio é deixar rolar
E aos trancos e barrancos
Lá vou eu!
E sou feliz e agradeço
Por tudo que Deus me deu…

Deixa a vida me levar
(Vida leva eu!)
Deixa a vida me levar
(Vida leva eu!)
Deixa a vida me levar
(Vida leva eu!)
Sou feliz e agradeço
Por tudo que Deus me deu…

Zeca Pagodinho

Do ponto de vista macroeconômico e olhando a longo prazo, é impossível crescer só o consumo sem crescer o investimento. Isso é possível por alguns anos, mas não pode ser mantido de forma sustentável por um longo período

Roberto Setúbal, presidente do Itaú em entrevista ao jornal O Globo de 15 de dezembro

       Na semana passada assisti a uma palestra na empresa em que trabalho sobre finanças pessoais. Era um misto de auto-ajuda e noções básicas sobre controle de gastos cuja principal mensagem era a seguinte: jamais sigam a máxima do famoso pagodeiro carioca do “Deixa a vida me levar”. Precisamos controlar gastos fazendo compras conscientes e não podemos nos conformar com um equilíbrio entre receitas e despesas. Isso é mera sobrevivência, é preciso ir além e fazer com que as receitas sejam maiores que as despesas para que possamos investir e assim alcançarmos nossas metas: comprar uma casa, fazer uma viagem etc.

       As palavras do palestrante deram-me o que pensar, tanto assim que cá estou, compartilhando minhas impressões com meus leitores. Eu decididamente vesti a carapuça. Sou “pagodeira”, isto é, sigo a filosofia de um dos grandes expoentes desse importantíssimo movimento musical brasileiro. Eu decididamente deixo a vida me levar, o que na prática significa que eu deixo o cartão de crédito me levar, faço as despesas passando o cartão de crédito na esperança de que no futuro haverá receita para cobrir a despesa. Quase nunca há, e minha fé então desloca-se da minha capacidade de ganhar dinheiro para o bondoso banco que está lá para cobrir meus desfalques. E assim vou caminhando, ou melhor tropeçando de encargos de limite de crédito e IOF para novos encargos de limite de crédito e IOF, num moto contínuo.

        Não tenho esperanças de que a bola de neve chegue algum dia a derreter e deixar de me meter medo. Sei que soarei agora como mais uma vítima do “sistema” seja lá o que isso for, mas o que fazer se minha identidade e posição social estão atreladas ao consumo? No tempo da minha avó as mulheres se comparavam com a menina mais bonita da escola, ou da vizinhança, ou no máximo da cidade, hoje em dia nós pobres normais nos vemos comparadas a beldades mundiais, mulheres que aliam vantagem genética a um séquito de profissionais de maquiagem, cabelo, preparadores físicos, médicos que as deixam perfeitas. Sei que nunca serei uma Fernanda Lima, capaz de causar comoção nas mídias sociais com seu decote, mas tenho que me mostrar apresentável, utilizável. Em outras palavras, preciso manter estável meu valor de mercado, o que significa tentar postergar ao máximo os efeitos devastadores da idade, que depreciam o capital acumulado.

        A palavra-chave é esta: empregabilidade, em todos os sentidos. Preciso ser sempre uma pessoa útil em todas as áreas: a um parceiro, o que significa ser sexualmente apetitosa, a um empregador, o que significa estar em sintonia com as mais recentes ferramentas informáticas, os mais recentes padrões de comportamento corporativo. Se for preciso endividar-me para fazer um curso, para emagrecer ou manter o peso, às favas com equilíbrio orçamentário e superávit na balança.O mais importante é tomar crédito alheio para adquirirmos a identidade necessária para sermos aceitas, aceitas como namoradas, amantes, esposas, funcionárias diligentes, membros ativos da sociedade de consumo. Tive um namorado que me sugeriu um dia de colocar implantes de silicone, eu a princípio fiquei chocada e indignada, mas depois que ele me deu o fora passei por um período em que achei que a solução para tê-lo de volta seria entrar na faca imediatamente, adquirir o novo visual e apresentá-lo ao ex. Infelizmente ele não deu-me a oportunidade de redenção, porque logo casou-se com outra. O episódio serviu-me como lição: na luta pela vida devemos identificar nossos pontos fracos assim que apareçam e trabalhá-los para melhorá-los, porque bobeou dançou, há sempre alguém na surdina cobiçando o que é seu.

         Diante de tais necessidades prementes, como não se endividar? O próprio governo nos ensina que o endividamento é a chave do consumo e portanto da felicidade. Oferece-nos empréstimo consignado, reduções de imposto para certos produtos para estimular as vendas. Qualquer coisa hoje é acessível, imóvel, carro, produtos de consumo mediante o pagamento de meras prestações mensais a perder de vista. Quando finalmente vemos o fim do túnel, que no caso é o fim do carnê, ou do financiamento, já temos os olhos voltados para novos horizontes, novas fontes de consumo. E assim levamos a vida.

        É verdade que alguns catastrofistas estão prevendo um grande terremoto.Se o dólar for desafiado em sua posição de moeda internacional de trocas e o Banco Central americano tiver que parar de imprimir dólares, o caldo pode entornar, o excesso de dólares que financia nossos eternos déficits, no caso do Brasil e o boom imobiliário poderia de repente desaparecer. Alguns economistas dizem que os ativos de imóveis estão superavaliados nos países emergentes em aproximadamente 50 trilhões dedólares (http://english.caixin.com/2013-11-05/100599385.html?p2). Eu não quero nem saber, não quero nem prever e tenho raiva de quem faz previsões. Quero continuar vivendo, fiando no meu cartão de crédito, na capacidade infinita de ele resolver meus problemas existenciais.Se um dia ele me decepcionar e revelar-se traiçoeiro e ingrato, eu vou agradecer a Deus pelos anos de felicidade que vivi, embalada pelo acalanto da fé de que no final tudo se resolve.

         Prezados leitores, minha conclusão é a seguinte: Zeca Pagodinho é excelente cantor,m economista e filósofo..

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