Volta da filha pródiga

Entre todos os povos, foram os gregos quem mais belamente sonharam o sonho da vida

Johann Wolfgang Goethe, após visitar o sul da Itália e a Sicília em 1787

        Prezados leitores, antes de mais nada devo fazer uma pequena retificação. Há duas semanas eu falava do Grand Tour da aristocracia europeia no século XVIII, mas ao menos na Inglaterra este movimento teve início no Renascimento e amadureceu no século XVII. Havia um motivo prático na origem: tais viagens constituíam um treino para o exercício futuro de posições no governo. De fato, a vitória do Estado sobre a Igreja, a qual tinha tanto se encarregado dos negócios oficiais, aumentou as oportunidades de emprego das elites, assim como a expansão dos recursos administrativos e das ambições do governo. Tais oportunidades trouxeram desafios também: os monarcas precisavam de conselheiros, funcionários e diplomatas que fossem capazes e tivessem conhecimento das coisas.

           Assim, os nobres incitavam seus filhos a irem além dos prazeres da caça e a se educarem. Um dos componentes dessa educação eram as viagens. Os viajantes eram orientados não só a olhar a paisagem ou maravilharem-se com a esquisitice dos estrangeiros, mas procurar informarem-se a respeito da organização política e das lutas de poder, da capacidade militar dos locais visitados. Esses conhecimentos não só alimentariam e alargariam a mente dos futuros governantes, mas seriam imediatamente úteis aos pais desses jovens na sede do governo inglês, em Whitehall. Isso tudo eu tirei de uma crítica sobre um livro recém publicado na Inglaterra, The Jacobean Grand Tour: Early Stuart Travellers in Europe.

            Esse intróito sobre os objetivos utilitaristas dos primeiros turistas tem dois propósitos. Serve para lhes comunicar que meu sonho siciliano terminou na sexta-feira e para fazer uma humilde comparaçãodo meu Grand Tour com aquele dos séculos passados. Não volto ao Brasil para ocupar algum cargo no governo ou para fazer relato das maquinações dos inimigos do meu país.Por outro lado, pensar nas semelhanças e diferenças sempre expandem os horizontes de cada um. A começar pelo que é comum, tanto na Sicília quanto aqui no Brasil o luxo e o lixo convivem lado a lado. Os templos gregos, palácios, igrejas, jardins convivem com lixo jogado nas ruas e terrenos baldios, e com os rios transformados em esgoto. Houve momentos da minha viagem em que eu pensei estar nas partes mais sujas de São Paulo.

          Tal convivência dos opostos não é de se estranhar, considerando a situação econômica por que passa a Itália. Um siciliano que encontramos no trem nos contou que 50% da população está desempregada. Não sei o quanto a estatística é confiável, mas de qualquer forma ele deu um exemplo pessoal: ganha 1.600 euros por mês como professor, mas precisa viajar todos os dias de Palermo a Agrigento (duas horas de trajeto) para poder trabalhar, caso contrário ficaria desempregado. De qualquer forma, as pessoas com as quais conversamos foram unânimes em dizer que o euro foi um desastre para a Itália. Ainda que não soubessem precisar a razão, enfatizavam sempre que depois da introdução da moeda única nada tinha sido como antes. Por lá há crianças brancas pedindo dinheiro na rua, homens brancos de olhos azuis sentadosna calçada mendigando. Um velhinho branco abordou-me em uma igreja pedindo dinheiro e perdi a conta das vezes em que vieram oferecer-me flores, isqueiros e outros badulaques na rua.Mencionei a brancura dessas pessoas para enfatizar que a pobreza não está circunscrita a minorias de imigrantes de países subdesenvolvidos da África.Portanto, em muitas ocasiões eu assisti a um filme com cujo roteiro já estou acostumada como brasileira.

          No entanto, houve algo com o qual não estou acostumada e que me fez ter uma nova visão do Brasil, desmistificar a ideia de que somos um país católico. Perto dos sicilianos, somo uns ateus ou pagãos, a depender do ponto de vista. O catolicismo está impregnado no cotidiano das pessoas, a começar pelo respeito ao domingo, domenica. Lembro que quando criança domingo era dia de descanso, tudo ficava fechado, era um dia de paz e tranquilidade. Hoje nas grandes cidades brasileiras domingo é dia de consumo, um dia praticamente como outro qualquer. Na Sicília, mesmo na capital, Palermo, domingo continua a ser o dia em que o Criador descansou após seus monumentais trabalhos da semana.A vida do turista sempre se complica nos domenicas, porque há menos ônibus, muito menos restaurantes. Só as igrejas funcionam de manhã, para a missa.

            Mas a religião não se manifesta só no culto ao ritual dominical. Há o culto aos santos, colocados em altares nas ruas, nas lojas, nas casas, há as rezas puxadas normalmente por uma mulher ao final da tarde, as procissões para celebrar a vida dos santos. Acompanhei uma delas, a de São Gerlando, pelas ruas de Agrigento, cidade da qual ele é patrono, tendo lá morrido em 25 de fevereiro de 1100: o apresentador contava as peripécias de Gerlando contra os sarracenos, enquanto as pessoas vestidas a caráter como personagens da Idade Média subiam as estreitas vielas da cidade rumo à Catedral, onde estão as relíquias do santo. Aliás, relíquias é o que não faltam na Itália: eu vi o ombro direito de Santa Lúcia, um seu vestido vermelho, o corpo de Sâo Luís na Catedral de Monreale. Realmente, o catolicismo na Sicília está em outro patamar em termos de intensidade.Apesar de a Igreja ter perdido grande parte da sua clientela, o fato é que o catolicismo não foi substituído por nenhuma outra religião, como aconteceu no Brasil com a ascensão dos evangélicos. Devotos ou não, os sicilianos continuam fiéis à Igreja Católica Apostólica Romana.

          Por fim, devo mencionar outra experiência que tive nessa viagem que me fez refletir sobre o Brasil. Na minha longa viagem de volta eu tive que tomar um avião de Palermo para Barcelona, e lá fiquei algumas horas, tempo suficiente para andar por dois parques à noite, ver as pessoas fazendo cooper, andando de bicicleta, passeando com o cachorro, tudo de graça, com direito a apreciar a natureza, sentir o cheiro das plantas e olhar a lua. Na minha Sâo Paulo diversão gratuita em parques públicos é muito difícil. As pessoas de “bem” têm como lazer ir ao shopping center, ao cinema, à praia, todas atividades que demandam dinheiro. Parque é normalmente o lugarem que pobre faz churrasco porque não tem aonde ir. É muita exclusão social, um verdadeiro apartheid, que na minha opinião muito contribui para nossa violência: os lugares públicos em São Paulo estão cada vez mais esvaziados e menos acessíveis. O Parque Burle Marx, onde há a última faixa de floresta nativa na várzea do Rio Pinheiros, está sendo assediado por construtoras, e os moradores da região estão lutando para conseguir barrar os empreendimentos e garantir o acesso de todos a um espaço tão privilegiado, nem que seja teórico, considerando a falta de transporte fácil até lá.

           Prezados leitores, é com essas reflexões sobre os pontos fortes e fracos da Sicília que finalizo meu Grand Tour. Na semana que vem a filha pródiga, retornada mentalmenteao Brasil,voltará a se ocupar dele, tendo acumulado uma grande dose de cores, cheiros e formas de que com certeza lembrarei pelo resto da minha vida.

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Desastres

           Prezados leitores, o Carnaval está nas ruas no Brasil, e a maior parte das notícias que vejonos sites de notícias diz respeito a quem desfilou, como foi o desfile, quem beijou quem, quem chorou, quem foi um sucesso, quem foi um fracasso, quem cantou, quem dançou e por aí vai. O mundo fica suspenso para nós, brasileiros, ou melhor, para os jornalistas que escrevem as notícias e priorizam o Carnaval. Como estou a quase 10.000 quilômetros de distância e onde estou mal se percebe que estamos a 40 dias da Semana Santa, tomo a liberdade de dedicar essas linhas a outros assuntos, assuntos esses que ocuparam minha mente de turista nesses últimos dias.

        Como já disse aqui em outra oportunidade, viajar é dar-se um tempo que não nos damos normalmente para certas coisas. Estou no momento em Piedimonte Etneo, aos pés do Monte Etna, aquele que em dezembro de 2013 brindou os sicilianos com “maravilhosos” fogos de artifício. Coloco maravilhosos entre aspas porque como turista adoraria ter a sorte de vê-lo em erupção claro, aliás da janela do apartamento onde estou posso ver o pico do Monte Etna coberto de neve. Mas, para os habitantes dos arredores, é um grande transtorno financeiro, é preciso, entre outras coisas,reparar os telhados cobertos de cinzas. Aliás, nós havíamos inicialmente contratado a hospedagem com outra pessoa, mas a casa dela foi afetada pelas diatribes do vulcão e ela teve que nos dar o cano.

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         Pois bem, a vila tem exatamente 3.671 habitantes e não tem em si grandes atrações turísticas, por isso neste domingo dediquei-me a uma coisa simples que me dá um prazer imenso, tomar sol. Fui a um mirante com vista para o Mar Jônico ao fundo e para a vegetação florida à frente e sentei-me num banco. Está um frio danado aqui, danado para nosso padrões tropicais, nove graus. Eu estava toda encapotada e não há como descrever a sensação de deixar-se banhar pelo sol sem culpa. No Brasil, em vista da intensidade dos nossos raios, nunca fico muito tempo com a cara voltada para cima, penso nos raios ultravioleta, penso no câncer de pele, e no final das contas só me permito ficar de bruços para secar o corpo depois de um banho. Mas logo o que era quentura se transforma em ardência e o prazer se esvai. Aqui na Sicília, não: o vento frio soprava e o sol me acalentava. Só não entrei em alfa, ou estado de meditação, como dizem os budistas, porque ouvia os cachorros latindo e os carros que passavam de vez em quando.

          De qualquer forma, mesmo que não houvesse carros nem cachorros, eu não conseguiria deixar de pensar, minha cabeça de turista cuja vida cotidiana está suspensa por um mês fica sempre cheia de reflexões. A mais óbvia é sobre as marcas deixadas pelo Etna na Sicília, o solo cinza resultante da decomposição da lava que dizem ser muito fértil, a cor dos prédios das cidades. Diz a lenda que o filósofo Empédocles teria se matado jogando-se na cratera do Etna para tornar-se imortal: dê-se à natureza antes que ela leve você! O que certamente o famoso siciliano conseguiu foi evaporar-se no calor de 1.000 graus Celsius. A última grande erupção realmente destrutiva ocorreu em março de 1669 e destruiu dez vilas. Havendo atividade vulcânica isso significa que há terremotos também, claro,aliás a Sicília encontra-se no ponto em que a Placa (i.e. placa tectônica) Africana se encontra com a Placa Eurasiana. O pior terremoto da história da Itália foi o de 1693, que atingiu magnitude 7,4. Na quinta-feira passada, dia 27 de fevereiro, visitei uma cidade, que hoje é patrimônio histórico da humanidade, Noto, totalmente reconstruída, a partir de 1703, depois do terremoto, em um estilo barroco tardio.

        Mas não são só os desastres naturais que eu me vejo contemplando aqui na Sicília. Há também os desastres produzidos pelo homem, e o principal deles talvez seja a guerra. Um testemunho disso está em Siracusa, cidade que hospedou-me por quatro dias em Ortígia, ilha onde ela nasceu e onde fiquei em um pequeno apartamento com vista para o Mar Jônico. A principal atração da cidade é o parque arqueológico chamado de Neápolis, onde vê-se o teatro grego em que Ésquilo estreou sua peça Os Persas e As Mulheres de Atenas. Ainda hoje encenam-se peças neste teatro no verão. Há outra construção no parque que ao contrário do teatro, rende homenagem à face negra do ser humano. Já no século VI antes de Cristo explorava-se no local uma pedreira, denominada Latomia del Paradiso. Em 427 e 415 a.C. Atenas mandou expedições contra Siracusa, mas esta derrotou os invasores tanto em terra quanto no mar. Os atenienses perdedores foram feitos escravos e trabalharam na pedreira, o que deve ter sido particularmente duro, considerando que na Sicília o verão registra temperaturas de 40 graus Celsius. Pois bem, uma das obras feitas à custa de trabalho forçado é uma caverna artificial, a Orelha de Dionísio, que tem uma excelente acústica.

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         Prezados leitores, Siracusa remeteu-me à Guerra do Peloponeso, descrita por Tucídides e aos mesmo tempo fez-me refletir sobre mais uma guerra que se avizinha e que talvez possa atingir grandes proporções, envolvendo vários países. Falo da Ucrânia e na mobilização de tropas na Crimeia (dada à Ucrânia em 1954 por Khrushchev) a mando de Putin. Não vou aqui tomar partido a favor da Rússia ou dos Estados Unidos, porque não há santos aqui.Os Estados Unidos estão há anos financiando ONGs para fomentar a oposição em países que faziam parte da União Soviética com o objetivo de trazê-los para a zona de influência do Ocidente. A Rússia, por sua vez, tem um histórico imperial e como todo império já massacrou muitas nacionalidades, etnias. O fato é que a Ucrânia é o palco das disputas e como é um país quebrado, sem poder de barganha, terá que acatar ordens.

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     Ao contrário da Suíça, que no começo de fevereiro depois de seu não à imigração de cidadãos europeus foi ameaçada de “excomunhão” pela União Europeia, mas como a Alemanha depende da eletricidade comprada da Confederação Helvética para não gelar no inverno, na prática o que eram promessas de vingança transformaram-se em negociações a serem realizadas. Se Putin cortar o fornecimento de gás da Ucrânia, o país morre de frio, como defender os interesses nacionais, quaisquer que sejam eles, em tal posição? Talvez a essa altura, a melhor solução seja que o país seja dividido, o Leste que é habitado majoritariamente por pessoas de origem russa voltaria à Rússia, e a parte Oeste ficaria melhor na esfera de influênciado Ocidente, pois tem seus produtos agrícolas para oferecer no mercado comum europeu. Esperemos pelo menor número de desastres possível neste ano de 2014, que marca os 100 anos do começo da Primeira Grande Guerra, iniciada por um episódio no Leste Europeu, em Sarajevo. Que as coincidências parem por aí.

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Apenas uma turista latino-americana

       Prezados leitores, meu Grand Tour continua. Mas, ao contrário da elite europeia que no século XVIII tinha seu séquito de assistentes para preparar a logística das operações (hospedagem, transporte e alimentação), sou apenas uma garota latino-americana sem parentes importantes, parafraseando a música de Belchior, e por isso sou eu mesma quem tem que se encarregar dos arranjos, aliás compartilho as tarefas com meu companheiro de viagem, responsável pelo transporte e pela programação. O ideal, claro, é sempre ter um orçamento folgado o suficiente para alugar um carro, hospedar-se em hotel, comer em restaurantes, de forma que a diversão seja total. Isso é possível somente a uma pequena minoria de turistas que circulam pelo mundo. A maioria é composta de pessoas de classe média que devem ater-se a um orçamento, que não comporta esses três tipos de luxo, provavelmente apenas um deles.

          No meu caso, meu dinheiro permite apenas que uma vez por dia eu coma um lanche fora para matar a fome durante o dia, sempre exaustivo para o turista que anda quilômetros em museus, em parques e pelas cidades. Isso significa gastar no máximo 8 euros por pessoa, ao redor de 27 reais, e preparar a verdadeira refeição em casa, o que significa depois ter de lavar a louça, limpar o fogão, varrer o chão e vocês sabem mais o que. Se fossêmos comer duas vezes ao longo do dia em restaurantes, gastaríamos 30 euros no mínimo por pessoa (o menu turístico mais barato fica em torno de 15 euros ou 51 reais). Gastar 100 reais por dia com comida não dá, além do que passaríamos fome:afinal, este menu turístico nunca é uma lauta refeição de encher a pança. Portanto, leitores, devo confessar a vocês que meu contato com a culinária italiana, ou melhor siciliana, é, e será até o fim da minha viagem, limitado a experimentar os doces divinos de amêndoa e pistache que são a especialidade da região e que são acessíveis ao bolso de uma pobre garota tropical como eu. É uma pena, mas é preciso estabelecer prioridades.

       E a prioridade do turista mediano é sempre conhecer o maior número de lugares possível, pelo menos fazer o básico aconselhado pelos guias, o que inclui visitar os locais declarados patrimônio histórico da humanidade. Aqui a dependência de transporte público é muitas vezes frustrante. A Itália está em crise, e por isso cortando gastos. Isso na prática significa que há museus fechados, para grande consternação minha, o museu arqueológico de Palermo, um dos mais importantes do país, está fechado para “reformas” – eufemismo para indicar a falta de dotação orçamentária para mantê-lo aberto  –, e pior, sem prazo para voltar a funcionar. Há outros casos de museus fechados, mas o pior de tudo é quando as linhas de ônibus ou trem são desativadas ou simplesmente não existem. Para ilustrar o problema vou contar-lhes o drama turístico por que passei no sábado dia 22.

        Seguindo as orientações do Baedecker, tínhamos decidido conhecer Enna, uma cidade situada a 931 metros de altitude com uma vista privilegiada do interior da Sicília. A cidade tem castelos, igrejas e um museu arqueológico ainda aberto ao público. Pois bem, de acordo com as informações que obtivemos em nosso “Rough Guide to Sicily”, haveria um ônibus que passava na estação de trem da cidade, distante 4 quilômetros do centro. Chegamos exatamente ao meio dia em Enna,e para encurtar a história, devo lhes dizer que não há mais linha de transporte ligando a estação à cidade, e só conseguimos chegar a ela duas horas mais tarde, depois de ficarmos andando atarantados pela estrada, ora esperando um quimérico ônibus que nunca vinha e nunca viria, ora pateticamente pedindo carona. Já desacorçoados, decidimos ir andando pela estrada, com o guia na mão, e um homem apiedou-se de dois turistas perdidos recolhendo-nos no seu carro. O pior estava por vir. Ao chegarmos à cidade, como o trem partia às 15:39, decidimos ir atrás de comprar passagem de ônibus para podermos ter mais tempo de conhecer a dita cuja. No entanto, Enna é praticamente morta num sábado à tarde, e a estação de ônibus estava fechada. Quando conseguimos encontrar uma paticceria aberta, quase às três horas, contamos com a ajuda inestimável do dono, que chamou um táxi para nos levar de volta à estação de trem. O taxista explicou-nos que quem manda na cidade não quer que haja turistas em Enna, quer que ela seja unicamente uma cidade dormitório. Será a Máfia que não quer? Pode ser, certamente turistas que dependem de transporte público são banidos, talvez os mafiosos só apreciem turistas finos. No final, gastamos 30 euros de passagem mais 15 de táxi para absolutamente nada, não vimos nenhuma das atrações da cidade. Nosso único consolo foi contemplar da janelado trem a paisagem lindissíma do campo nesse prenúncio de primavera.

       Outra grande frustração do turista de orçamento já todo comprometido, como diria um dos nossos tecnocratas, é nem poder chegar a um lugar que o guia coloca como um must. É o caso de Villa Romana del Casale, onde há mosaicos romanos realizados no século III, não se sabe por quem. Simplesmente não há trem ou ônibus de Agringento, onde nós estamos, e que fica próxima à cidade. Os únicos ônibus disponíveis partem de Catânia, a três horas daqui, seria impossível fazermos um passeio de um dia. E mesmo se fosse possível, talvez sacrificássemos os mosaicos para não passarmos de novo por Catânia. Esta cidade, recebeu duas estrelas de um dos nosso três guias e para lá fomos. Qual foi meu choque quando me vi em um lugar que, à exceção da Piazza Duomo, parecia o Pari, um bairro de São Paulo, em que o antigo é sumplesmente decrépito. Tivemos que passar lá um dia inteiro, lamentando a infelicidade de não ter um carro próprio para picar a mula de uma cidade que foi muito bombardeada na Segunda Guerra Mundial e perdeu muito dos seus prédios históricos. Aliás leitores, foi em Licata e Gela, cidades litorâneas que tive o prazer de conhecer nesta última semana, que os Aliados desembarcaram na Itália. Vêem-se ainda algumas casamatas dos alemães nos morros com vista para o mar.

        Para finalizar minhas lamúrias, devo dizer que há um lugar a mais que eu sonhara em conhecer, mas que ficará para as calendas, pela falta de transporte próprio. Sou fã do filme O Leopardo, de Luchino Visconti, e estava doida para conhecer o Castelazzo di Montechiaro, em Palma de Montechiaro, construído pelo Príncipe Carlo Tomasi di Lampedusa, antepassado de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, o autor do livro. Visconti fez parte das filmagens lá e quando decidi vir para a Sicília, meu primeiro desejo foi entrar na atmosfera do filme e do livro visitando o local. Vão-se os anéis, ficam-se os dedos. Quem sabe minhas frustrações sejam um motivo para voltar aqui em outra oportunidade e preencher as lacunas? Afinal, uma garota latino-americana sem dinheiro no bolso pode se transformar em uma emergente cheia do dinheiro!

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Turista com muito orgulho

                  Prezados leitores, não sei se vocês sabem, mas o turismo enquanto conceito nasceu na Europa para denotar as viagens realizadas pelos europeus que davam um giro pelos principais países do Velho Continente para aprimorar sua formação cultural e intelectual por meio do contato com diferentes formas de pensar, de ver, de sentir. Goethe foi um desses famososturistas, algo que pude comprovar hoje visitando o santuário de Santa Rosália, a santa padroeira de Palermo. Rosália Sinibaldi era uma nobre siciliana, descendente de Carlos Magno, que decidiu viver como eremita no Monte Pelegrino e acabou morrendo lá. Seus restos mortais foram achados em uma gruta no montee no local foi erigida uma igreja. Háduas placas, uma em italiano e outra em alemão, testemunhando a visita de Johann Wolfgang von Goethe ao santuário, quem sabe à espera de um milagre?Afinal, diz a lenda que a Santa salvou Palermo da peste, que grassava na cidade em 1624, e por isso é tida como protetora contra doenças infecciosas.

               Viram quantas coisas eu aprendi em uma única subida de morro? Consegui obter todas essas informações in loco lendo com certa dificuldade os textos em italiano. Além de aprender apreciei a paisagem, o céu aqui é de um azul cobalto, como os sicilianos dizem, sem uma nuvem no céu. Vi árvores e plantas que por razões óbvias não existem no Brasil, tive uma vista de 360° de Palermo, com a placidez do Mar Mediterrâneo ao fundo. Aliás, estes últimos dias têm sido um privilégio em termos de visitas a lugares espetaculares.

             Na terça-feira fui a Érice, uma pequena cidade encravada em uma montanhaque conserva a arquitetura original de tempos antanhos, especificamente da Idade Média.A vista do mar deveria ter sido maravilhosa, mas escolhi um mau dia para visitá-la, chovia, ventava e tudo estava envolto em brumas. Como sou adepta da filosofia do “se tiver um limão faça uma limonada” não me apoquentei com a crueldade climática e passeei pela cidade, ziguezagueando pelas ruelas absolutamente vazias. Vendem-se cerâmicas lindíssimas no lugar e pude olhá-las nas vitrines, mesmo com praticamente todas as lojas fechadas.Tudo é um primor, o modo como a arquitetura se integra com a vegetação, e como a modernidade se integra com o antigo, o conforto do século XXI em um cenário do século XIV.

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                 Na quinta-feira, tive uma sorte danada em termos de céu de brigadeiro e visitei Selinunte, onde há ruínas de uma cidade grega da época clássica, isto é, ao redor dos séculos quinto e sextoantes de Cristo. As escavações iniciadas em 1822 por dois ingleses, Samuel Angell e William Harris, permitiram que fossem reconstruídos alguns dos antigos edifícios ao menos em parte. O resultado é que vemos um templo completo com as famosas colunas dóricas, e no alto de um morro à beira do Mediterrâneo vê-se a parte dianteira da acrópolis. Realmente a combinação de arquitetura e paisagem é de tirar o fôlego especialmente considerando que nesta época do ano, devido às chuvas, há um sem fim de tons de verde que não fazem feio perante nossa luxúria tropical. E mais, sendo baixa estação havia uns gatos pingados ali, o que tornava tudo divinamente silencioso. Digo divinamente porque curtir o sol forte no inverno contemplando o belo sem ninguém matraqueando para lhe tirar a concentração faz o indivíduo chegar perto das estrelas.

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            No sábado foi a vez de Segesta, em que há um único templo dórico bem conservado, cuja construção foi iniciada em 416 antes de Cristo.Em compensação atrás dele há o vale de um rio que serpenteia lá embaixo entre dois paredões de pedra. Ouvir seu barulho cá em cima com o sol aquecendo-me foi uma experiência que tratarei de guardar em minha memória para os dias em minha vida em que estarei enfadada, triste ou irritada. É minha poupança emocional.

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             Prezados leitores, a essa altura devo confessar que nem sempre tive essa visão positiva da condição de turista. Em 1995, quando fui a Paris em pleno verão, senti-me uma otária perdida na multidão. Eu me irritava em fazer parte das massas que tiravam fotos sofregamente, que se acotovelavam nas atrações turísticas. Fiquei tão frustrada em ser mais uma que deixei de ir a alguns lugares porque não queria ser vista como turista, negava-me a vestir a carapuça. Eu preferia escrever cartões postais ao Brasil reclamando do calor e do populacho. O tempo, antes de nos matar nos muda, preparando-nos para a morte, pelo menos para aqueles que o aproveitam bem. Hoje tenho uma visão mais equilibrada, mais objetiva da minha posição no globo terrestre. A começar com o abandono da pretensão adolescente de ser especial. Sou uma turista como outros tantos bilhões de indivíduos que viajam pelo mundo e daí? Aprendi que é possível ter experiências incríveis em termos sensoriais, culturais e intelectuais, mesmo fazendo aquilo que todo mundo faz. Por outro lado, tomo precauções para não ser devorada pela multidão, como por exemplo viajar na baixa estação. Há grandes inconvenientes nessa escolha, por exemplo os horários limitados devisitação, o tempo ruim, as lojas fechadas, mas creio que evito muitos aborrecimentos causados por pessoas cujo único objetivo é tirar fotos para poderem colocar no facebook e acumular pontos nas suas milhagens aéreas e existenciais.

                Por tudo isso, digo que hoje, no meu quadragésimo segundo ano de vida, sou turista com muito orgulho.Não nego os inconvenientes: ficar carregando água e comida na mochila, estar sempre cansada de tanto andar, com a roupa amarfanhada e empoeirada, fazer cara de tonto quando não entende alguma coisa que lhe falam. Mas os inconvenientes são superados pela riqueza de experiências.Tenho em minha mente os cheiros, as cores, as formas que eu vi guardados em meus arquivos cerebrais. Terei mais termos de comparação para escolher o melhor lugar do mundo para passar uma tarde e uma noite de inverno, uma tarde e uma noite de verão. E poderei sonhar com o sol, o corpo de Deus vivo e desnudo, como dizia Fernando Pessoa, acalentando-me.Viva o turismo, praticado com respeito e moderação!

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Turismo

         Prezados leitores, como lhes havia informado na semana passada, estou em férias na Sicília. Não é possível expressar o alívio que senti quando senti a frescura do frio pela primeira vez ao sair do aeroporto e entrar em contato com o clima real.Imediatamente esqueci o calor infernal do Brasil, a estiagem, o racionamento de água e energia, o lançamento do PAC3 sem que tenham sido completados nem o PAC 2 e muito menos o PAC 1. Estou em modo viagem, por assim dizer, deleitando-me com o sol siciliano, que tem brilhado todos os dias, apesar da temperatura que gira em torno de 15 graus. Um clima perfeito se você está bem agasalhado e pode de vez em quando tomar um expresso.

       Viagens são feitas para esquecermos nossa vida comezinha, nosso ramerrão diário, são feitas para nos darmos um tempo que normalmente não temos. Tempo para apreciar coisas belas, para nos determos sobre pequenos detalhes de um prédio, de uma paisagem. Tempo para esquecermos que precisamos ganhar dinheiro e para nos darmos ao luxo de gastarmos despreocupadamente, esquecendo que o euro vale quase 3,5 reais. Tempo para nos darmos a chance de sentarmos em um banco de praça e comermos uma tangerina para aplacar a fome do turista que, andarilho incansável, tem sempre um apetite leonino.Tempo para lembrarmos do Brasil com saudade das coisas boas, quando anteontem em um restaurante, enquanto eu comia um delicioso macarrão com anchovas, daqueles que minha mamãe sempre tentou fazer e nunca conseguiu, eu ouvia a música ambiente e tinha certeza que ela era versão em italiano de MPB de autoria do nosso grande Djavan.

        Na quinta-feira fui à catedral de Monreale, construída pelos normandos, que reinaram na Sicília de 1130 a 1250. Ontem fui ao Palácio Real, onde ficava a sede do governo. Não me cansei de ver mosaicos em ouro de Jesus Cristo Pantocrator, Nossa Senhora e todos os santos da Igreja Católica. Não sou religiosa, mas qualquer pessoa apreciadora da beleza se impressiona com os dedos em riste de Jesus, sua face séria, concentrada, firme, falando a verdade. Dada a quantidade de igrejas que há na Itália, dá pena pensar que daqui a 50 anos provalvemente só as mais espetacularmente belas se salvarão da ruína, afinal a fé do povo se esvai cada vez mais, e veem-se muitas igrejas fechadas, provavelmente por já estarem em um estado lamentável de conservação e por não haver público que cuide delas. De qualquer forma é uma herança e tanto: a Capela Palatina em Palermo, dentro do Palácio Real, tem elementos muçulmanos (as formas geométricas), gregos (os mosaicos e as inscrições) e normandos (as janelas em ogiva). No mesmo palácio assisti a uma exposição comemorando os 50 anos da realização do filme O Leopardo de Luchino Visconti, exatamente sobre a Sicília, na época da unificação italiana, no final do século XIX. Pude ver dois dos figurinos originais usados por Cláudia Cardinale para interpretar Angélica, e ter uma noção dos preparativos do diretor para a escolha dos cenários.

         Prezados leitores, mas nem tudo são flores, claro. Para que eu possa me deleitar com as construções de Palermo preciso fazer certas concessões à realidade. Uma delas é não ficar em um hotel, mas alugar um apartamento que é muito mais barato, e isso significa arrumar a casa, ir ao supermercado LIDL onde os produtos são mais em conta, carregar as compras até o ponto de ônibus, fazer comida em casa, lavar a louça.E devo confessar que o Brasil tem uma grande vantagem em relação a qualquer velha civilização europeia como a Itália, que perdeu a Segunda Guerra Mundial e portanto está mais presa pela canga dos americanos. Nós não respeitamos direitos autorais, portanto a maioria dos documentários e programas disponíveis na internet são facilmente acessíveis na terra do samba e do pandeiro, ao passo que aqui na Itália, quando eu sonhava em passar minhas noites tranquilamente assistindo a tudo aquilo que não consigo em Sâo Paulo, qual foi minha frustração ao perceber que tudo é barrado. Até o site kboing de músicas é inacessível, provavelmente deve ser pura pirataria. Mas tudo isso são detalhes que não abalam minha convicção de que viajar é preciso, para qualquer lugar que seja, para transportarmo-nos à tranquilidade das estrelas.

          Para não me acusarem que só fiquei navegando nas estrelas, acompanhei a grande novidade deste domingo na Europa, que é o resultado do referendo ocorrido na Suíça a respeito do restabelecimento de cotas de imigração, que haviam sido suspensas depois de um tratado biletaral do país com a União Europeia.Desde 2002, entraram 80.000 estrangeiros no país quando as autoridades haviam prometido apenas 8.000 no máximo por ano, o que fez com que a porcentagem de imigrantesno país aumentasse de 20% para 23,5%. A consequência das tergiversações dos governantes é que 56% dos helvéticos, a maior participação desde 1971, votaram e decidiram, por 50,3%dos votos, estabelecer limites à imigração, introduzindo um sistema parecido com o do Canadá de triagem de quem pode e de quem não pode entrar com base na qualificação.

        O resultado deste referendo pode abrir a porteira para outros grupos dentro da Europa que não estão contentes com o estado de coisas atual, e facilitar a vida de partidos de direita no Reino Unido (UKIP) e na França (Front Nationale). Resta saber qual será a reação concreta da União Europeia, que ultimamente andamuito combalida depois do”Fuck the EU” dito pela diplomata americana Victoria Nuland. Quem sabe os suíços não se sentiram encorajados com esse desprezo e resolveram mandar seus grandes empresários, partidos, governo e principalmente a UE às favas? Veremos os próximos desdobramentos. Preciso agora voltar ao fogão para preparar meu jantar e economizar os euros para os meus passeios!

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