O carro de bois e a modernidade

                  Quem me dera que a minha vida fôsse um carro de bois

                  Que vem a chiar, manhãzinha cedo, pela estrada,

                  E que para deonde veio volta depois

                  Quase à noitinha pela mesma estrada.

                  Eu não tinha que ter esperança – tinha só que ter rodas…

              16º poema de “O Guardador de Rebanhos”, de Alberto Caieiro, persona poética de Fernando Pessoa

          Minhas amigas não sabem, mas eu tenho um interesse velado em conversar com elas, interesse que não revelo porque ele poderia ser mal visto e até causar ressentimentos. Gosto de ouvi-las falar para fazer observações e tirar minhas próprias conclusões. Essas conclusões sempre me são úteis para eu escrever no meu humilde espaço. Se eu fosse absolutamente honesta eu deveria até pagar uma comissão a elas porque contribuem para o meu trabalho intelectual, mas como eu não recebo nada para escrever, também não tenho como dar-lhes nada.

          Será a terceira vez seguida que uma determinada amiga minha me serve de fonte de inspiração. Quem me acompanha sabe que ela iria afogar as mágoas em Nova York enfiando o pé na jaca nas compras e sabe que o irmão dela morreu em um acidente, acidente este que adiou a sonhada viagem. Adiou, mas não abortou, aliás, só reforçou o acerto da decisão de tomar um empréstimo no banco a ser pago durante os próximos meses para financiar a viagem. Afinal, é preciso aproveitar a vida, porque a morte é certa. Num café de despedida, ela revelou-me uma crise existencial sobre a compra do I-phone. Não queria gastar muito, mas queria comprá-lo, afinal não pode perder a oportunidade: na verdade dois, um para cada filha, que estão com I-phones 3, já bastante desatualizados.

        Com certeza, é uma oportunidade imperdível. O Brasil tem o I-phone mais caro do mundo segundoo site Bloomberg: US$1.016,74, ao passo que nos Estados Unidos o preço é de US$649. E hoje quem não tem um I-phone é alguém deveras esquisito, como aquele que não tem perfil no Facebook. São realidades da vida, fatos inquestionáveis (como ouvi em uma palestra corporativa outro dia), não dá para negar, não dá para estar fora do mundo.

         Eu consigo ver algum sentido nessas odes à modernidade em países que já chegaram lá em termos de proporcionarcondições decentes de vida à maioria da população. Afinal, quem usa um I-phone e sabe explorar todas as mil e uma utilidades pode até ganhar dinheiro. Outro dia um taxista informou-me que agora ele consegue pegar passageiros por meio de um aplicativo que permite aos usuários da invenção genial de Steve Jobs localizarem um táxi disponível nas proximidades. Para o taxista, principalmente para aqueles que não têm ponto e não querem pagar comissão para uma empresa de rádio-táxi, é uma grande vantagem econômica. Para os usuários, também representa economia de custo, pois não precisam ligar para alguém lhes arranjar um táxi. Eu seria idiota se achasse que o I-phone é uma engenhoca inútil. Para turistas que querem conhecer os pontos principais de uma cidade e estão perdidos, nada como ter mapas facilmente acessíveis pelo simples toque digital. Isso economiza tempo e tempo, mesmo tempo de lazer, é sempre dinheiro.

          O que me incomoda no I-phone é o quanto ele revela em nosso Brasil varonil essa nossa triste sina de queimar etapas, de colocar o carro adiante dos bois. Esta minha amiga vai a Nova York para entre outras coisas comprar um I-phonee ao mesmo tempo está se endividando perigosamente, quando se considera que ela não tem emprego fixo, e portanto não tem renda garantida. Outro dia ouvi duas mulheres no metrô, mulheres que via-se serem simples, conversando: uma delas dizia que iria abrir crédito nas Casas Bahia para comprar um celular, porque não “tinha mais condições de não ter um celular”. Lembro até hoje de quanto fui ridicularizada por uma conhecida a respeito do meu celular Nokia de 100 reais. Ela insistia para que eu comprasse um celular decente e eu pensava com meus botões que eu preferia ser uma sem celular do que ser uma criatura como ela que vivia de vender biscoitos em feira e tinha os dentes amarelos típicos de quem só frequenta o dentista quando está com o canal supurado. Mas eu fiquei quieta, porque se eu lhe falassse algumas verdades ela se sentiria humilhada e eu não vi razão de ser tão cruel. Tenho segurança suficiente para não me ofender com bobagens como essa quando me acusam de ser retrógrada.

         Endividamo-nos sem poder para comprar os símbolos da modernidade, mas fazendo isso ficamos cada vez mais longe da verdadeira modernidade. O governo, de olho nas eleições, vai prorrogar a isenção do IPI para carros, para garantir as vendas e os números do PIB a serem mostrados nos famigerados programas eleitorais. Pensamos na turbinada temporária do PIB e esquecemos de uma visão de longo prazo: será que o estímulo aos carros é viável sob o ponto de vista da mobilidade urbana? Será que os congestionamentos causados pelo excesso de carro nas ruas no final causam mais perdas do que os ganhos causados pelo aumento das vendas? Será que a maior poluição, o número de negócios perdidos devido ao tempo gasto pelos motoristas parados dentro dos carros, não tiram muito mais pontos do PIB do que aqueles adicionados pela indústria automotiva? Enquanto isso, a bicicleta, um meio de transporte típico dos muito pobres, é totalmente desestimulado, em vista da alta carga tributária (40,5% contra os 32% dos carros) e dos altos preços das peças, o que faz com que uma bicicleta custe R$ 640 reais no Brasil e R$ 286 reais nos Estados Unidos. Ainda cultivamos a mística dos anos 50 de que fabricar carros é algo moderno, é algo que mostra que progredimos.

         E assim caminhamos de arroubos em arroubos, até o carro sem bois descarrilar. Nesta semana o grupo OGX do senhor Eike Batista entrou com pedido de recuperação judicial. De acordo com Dilma Rouseff “Eike era o nosso padrão, a nossa expectativa e sobretudo, o orgulho do Brasil quando se trata de um empresário do setor privado.” Concordo com Dona Dilma em gênero, número e grau. Como não concordar, Eike é o padrão, ele reflete a média da mentalidade brasileira de ser incapaz de construir o futuro pela obstinado trabalho no presente, de gastar o que não temos: o negócio do seu Eike era vender possibilidades como realidades, projeções como fatos, usufruindo sem ter ainda nada de palpável. Seus executivos se deram muito bem, alguns vendedores do futuro saíram com bônus de 200 milhões de reais. Quem ficou com a dura realidade das dívidas, das ações que viraram pó nas mãos dos investidores, que apague a luz.

         Quem sabe um dia nós brasileiros deixemos de querer ser modernos a todo custo e simplesmente sigamos o conselho do poeta, puxando nosso carro de boi lenta e inexoravelmente, sem ansiedades, sem atropelos, sabendo que um dia chegaremos lá?

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Minha máxima culpa

          Prezados leitores, quem de vocês nunca sentiu culpa? A culpa é um sentimento difundido na sociedade e os psicanalistas dirão que a origem da culpa deve-se à nossa cultura judaico-cristã, ao Deus terrível que pune os pecadores. Com certeza há um componente religioso na culpa, afinal se não nos sentíssemos culpados perante Deus não obedeceríamos a seus comandos, e devemos lembrar que a maioria dos códigos de ética vigentes no mundo tiveram origem em alguma religião. Por outro lado, neste nosso mundo cada vez mais laico, em que a influência das religiões tradicionais é cada vez menor, o papel da culpa em nossas vidas não deixa de aumentar. Querem ver? Vou lhes dar alguns exemplos que não me deixam mentir.

          O mais óbvio deles é o sucesso presidencial do Partido dos Trabalhadores capitaneado por Lula. Seria natural e legítimo em uma democracia, em que todos têm o direito de perseguir seus prórios direitos, que os que se beneficiam dos programas sociais, notadamente do Bolsa Família, votem maciçamente no Lula e na Dilma, para que tenham segurança da garantia de seus benefícios. É intrigante contudo, que cidadãos brasileiros que não se beneficiam de maneira nenhuma de programas sociais, que na verdade financiam tais programas pelos impostos que pagam, votem no Partido dos Trabalhadores. Em minha opinião, esse apoio da classe média, que é um fator decisivo para as vitórias do PT, deve-se à culpa que ela sente pela miséria brasileira. A mesma culpa que sentimos quando vemos mendigos na rua, pedintes, gente que remexe o lixo à cata de algo comestível ou utilizável.

          Assim, garantindo que os muito pobres tenham suamesada para lhes proporcionar o mínimo para sobreviverem, apaziguamos nossa consciência e sentimo-nos em paz. Não importa que as transferências de renda tenham chegado a um patamar em que seu retorno é cada vez menor para a diminuição das desigualdades e que seja necessário um salto de qualidade para que possa haver mudanças mais profundas. O importante é este sentimento de considerar-se moralmente correto e estar contribuindo para o progresso do Brasil, ainda que a passos de tartaruga. mas podemos retrucar: sim, mas já é alguma coisa, pois antes nada se fazia pelos miseráveis e agora estamos fazendo, isso é uma revolução!Qualquer argumento em contrário será insensível, retrógrado: distribuição de renda é sempre uma coisa boa e quem quer diga algo em contrário é simplesmente culpado. Ponto final.

          De fato, rebater argumentos fundados na culpa alheia é muito difícil, pois aqueles que elaboram esses argumentos normalmente são seres dotados da especial capacidade de manipular. As cotas na universidade pública são outra seara em que a culpa é o fundamento de todo o edifício intelectual dos defensores do programa. Aqueles que conquistaram sua vaga na universidade pública devem se sentir culpados porque o seu mérito foi fruto não do esforço pessoal, mas simplesmente (uso a palavra simplesmente com o claro objetivo de desmerecer o tal do esforço) porque tiveram acesso ao privilégio da escola particular. Colocando pessoas na universidade que lá não estariam se não fosse pela cota estamos resolvendo o problema da educação no Brasil, pois estamos aumentando o acesso dos mais humildes à formação acadêmica, certo? Errado, se considerarmos que o objetivo da educação é formar pessoas que possam ser produtivas para o país, que possam, munidas do conhecimento que adquiriram nos bancos escolares, solucionar problemas práticos e com isso criar riquezas. As cotas só nivelam por baixo, mediocrizando o ensino porque partem da premissa que educação é simplesmente um direito que deve ser dado a todos indiscriminadamente, quando na verdade a educação, para que tenha uma influência positiva na sociedade, deveria ser um dever e uma oportunidade de desenvolvimento. Quem usufrui da educação unicamente como direito, direito a merenda, a notas, a diploma, será aquele que desrespeita o professor, que cola, que se preocupa muito mais com o fim que é o diploma, do que com o processo, que é o aprendizado. Infelizmente o debate sobre as cotas é dominado por aqueles que querem fazer os privilegiados se sentirem culpados e portanto ele gira em torno da ideia de que tirar os “filhinhos de papai” e colocar os “raladores” é algo que produzirá maravilhas e nos fará subir 30 degraus na escala PISA que mede o nível educacional dos países do mundo.

          Nesta semana tivemos mais um exemplo magistral do uso da culpa para fins escusos no terrorismo politicamente correto dos defensores dos beagles do Instituto Royal que os utilizava para experimentos com remédios. As pessoas do bem, preocupadas com o bem-estar dos fofos dos beagles invadiram o estabelecimento, depredaram as instalações de um local que funcionava de acordo com as leis vigentes, afinal tinha alvará da prefeitura,e resgataram os bichos. Os donos do Instituto sofreram prejuízos, perderam a licença de funcionamento de uma hora para a outra (será porque os cachorros uivavam muito?) e são culpados, até prova em contrário, de usarem animais como instrumentos para experiências científicas com propósito comercial, portanto são uns capitalistas que só pensam no dinheiro e não dão a mínima à dignidade do animais. Isso justifica que seu patrimônio seja avariado, que seus esforços sejam jogados na lata do lixo.

          Perdoem os leitores que são fãs dos direitos dos animais, eu também sou e quando minha cachorra morreu de falência renal aos 17 anos em janeiro passado eu senti como se houvesse perdido um membro da família. Eu pessoalmente não teria estômago para fazer experiências com animais e vê-los sofrer, mas para quem tem esta insensibilidade devemos agradecer-lhes pois sem essa capacidade de certos homo sapiens, não poderia haver testes de remédios para que sejam usados com segurança em seres humanos. É claro que a nova sensibilidade para com a dignidade dos bichos vai nos levar a inventar meios alternativos de testes de remédios, mas daí a considerarmo-nos moralmente superiores porque temospena dos pobres beagles engaiolados e darmo-nos o direito de invadirmos e depredarmos propriedade alheia vai um passo muito grande. É a típica arrogância dos narcisistas que nunca erram e que consideram que qualquer indivíduo que não reflita a imagem do Narciso é culpado de lesa-majestade.

          Para finalizar meu rol de culpados, quem melhor do que as mães? As mães que acham que devem fazer tudo pelos filhos e que se consideram desnaturadas se não fazem esse tudo e se consideram incompetentes se os filhos fazem algo ruim? Semana retrasada o irmãode uma amiga minha morreu em uma das estradas da morte brasileiras em seu Celta, onde estava com a mulher que também morreu e os três filhos, que sobreviveram. Uma grande tragédia, considerando que ele não deixou bem nenhum, não tinha vínculo empregatício e portanto obrigará os parentes a tomar conta de crianças ainda pequenas. Advinhem quem deu o dinheiro para o moço comprar o carro no financiamento? A mãe! A mãezona que passava a mão na cabeça do filho coitadinho e no frigir dos ovos foi indiretamente responsável pela sua morte. Afinal, se o dono do Celta não tivesse tido dinheiro da progenitora para comprar ele teria pego um ônibus para viajar e estaria vivo para cuidar dos seus filhos até que eles chegassem à vida adulta.

          A culpa e os inventores da culpa, os narcissistas, são vencidos com auto-estima, que leva à lucidez, à razoabilidade, à maturidade. Se não tenho esperanças que como sociedade deixemos de chafurdarmos na infantilidade da culpa, ao menos acho que individualmente possamos nos tornar adultos que têm direitos e obrigações, mas que deixaram a culpa para trás quando assumiram plena responsabilidade pelo própriodestino.

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90 milhões em ação

O total gasto pelo Poder Judiciário foi de aproximadamente R$ 57,2 bilhões, comcrescimento de 7,2% em relação ao ano de 2011. Essa despesa é equivalente a 1,3% do produto interno bruto (PIB) nacional, 3,2% do total gasto pela União, pelos estados e pelos municípios no ano de 2012 e a R$ 300,48 por habitante. (grifo meu)

O total de processos em tramitação no Poder Judiciário aumenta gradativamente desde o ano de 2009, quando era de 83,4 milhões de processos, até atingir a tramitação de 92,2 milhões de processos em 2012, sendo que, destes,28,2 milhões (31%) são casos novos e 64 milhões (69%) estavam pendentes de anos anteriores

 O maior gargalo do judiciário apresenta-se na liquidação do estoque, visto que, inobstante os tribunais terem sentenciado e baixado quantidade de processos em patamares semelhantes ao ingresso de casos novos, o quantitativo de processos pendentes tem se ampliado em função dos aumentos graduais da demanda pelo Poder Judiciário. (grifo meu)

 Os magistrados julgaram mais processos em 2012 que nos anos anteriores. Cada magistrado sentenciou em média 1.450 processos no ano de 2012, 1,4% a mais que em 2011. A cada ano, os magistrados julgam mais processos. Ainda assim, o aumento do total de sentenças (1 milhão – 4,7%) foi inferior ao aumento dos casos novos (2,2 milhões – 8,4%), o que resultou em julgamento de 12% processos a menos que o total ingressado.

 Dados retirados do relatório Justiça em Números de 2013, publicado pelo Conselho Nacional de Justiça 

            Prezados leitores, creio ter passado desbercebida a divulgação na terça-feira dia 15 de outubro do relatório cujo objetivo é, de acordo com o que está escrito na Introdução, “propiciar dados concretos para a formulação e o planejamento das políticas judiciárias. Ler o relatório é algo bem laborioso, para dizer o mínimo: cheio de estatísticas sobre o número de servidores, o número de processos baixados, o número de processos novos, índices de produtividade dos magistrados. Talvez por isso não tenha atraído a atenção da nossa mídia do modo como merece, porque afinal de contas um país que tem praticamente um processo tramitando na justiça para cada dois habitantes tem algo de errado.

            Com base nos dados citados acima é possível fazer um resumo da ópera: o Judiciário está cada vez sendo mais acionado, e por mais que haja aumento da estrutura, diga-se aumento das despesas, principalmente com recursos humanos, que correspondem a 88,7% do total gasto por aquele poder, não é possível dar conta. Aliás, a respeito de despesas, saibam os senhores que a criação de mais quatro Tribunais Regionais Federais está por um fio.Aprovada como EmendaConstitucional no Congresso, ela foi objeto de Ação Direta de Inconstitucionalidade e o Joaquim Barbosa concedeu liminar para suspender o início da instalação dos novos tribunais, que consumirão 922 milhões de reais por ano.

            A quem interessa o gigantismo do Judiciário? Uma resposta óbvia é que interessa aos próprios advogados, ou pelo menos a uma parte deles. A OAB apóia a criação de quatro novos tribunais federais, a Associação Nacional dos Procuradores Federais não, e por isso ajuizou a Ação Direta de Inconstitucionalidade. Portanto, para alguns quanto mais Poder Judiciário maior o número de ofertas de trabalho, para outros, que já têm que lidar com a avalanche de casos, a criação de mais tribunais significa mais caos, pois para criar um tribunal federal não basta erigir um prédio e contratar juízes, é preciso que sejam contratados mais procuradores federais, promotores, defensores públicos, etc.

            Uma respostas mais sinistra é que a presença cada vez maior do Judiciário na vida dos brasileiros interessa àqueles que não têm direito, àqueles que contam com a capacidade dos seus advogados de irem protelando por recursos uma decisão definitiva porque sabem estar errados, mas querem ganhar tempo, e afinal de contas tempo é dinheiro… Podemos incluir nesse rol de enroladores profissionais grandes empresas que violam o Código do Consumidor sistematicamente, que não têm Serviços de Atendimento ao Cliente que resolvam de maneira rápida e satisfatória as reclamações, cujos Departamentos Jurídicos muitas vezes não agem de boa fé porque sabem que qualquer ação que um insatisfeito vá propor na Justiça contra cobrança indevida, falha do produto ou recusano atendimento demorará em média 10 anos para ter um julgamento final.

         Se levarmos em conta que o Poder Público também figura em posição de destaque no rol de participantes do teatro legal, o quadro torna-se mais sinistro ainda: caros leitores, vocês sabiam que 45,4% dos casos na Justiça Federal tem alguma entidade pública como litigante? O topo da lista é encabeçado pelo INSS, 43,12%. Ou seja, há milhares de pessoas neste Brasil adentro que não conseguem obter um benefício previdenciário satisfatório, ou mesmo não conseguem nenhum benefício e recorrem à Justiça. Que país é este em que nem o Poder Público cumpre a lei?

         Pior, além de não cumprir a lei, o Poder Publico muitas vezes se vale do Judiciário como instrumento para arrecadar dinheiro. O próprio linguajar do Justiça em Números é emblemático: “as receitas também aumentaram de forma acentuada e registraram crescimento de 63% no período, (…) a arrecadação de 10,9 bilhões representou mais de um terço das despesas totais.” Ora, o que vêm a ser tais receitas? Por acaso é alguma criação de riqueza que aumente o PIB do Brasil? Não, ela diz respeito, entre outras coisas, a execuções fiscais e impostos. Judiciário e Executivo juntos para tomar nosso dinheiro. Aliás a execução fiscal apresenta uma taxa de congestionamento altíssima, de 89%, ou seja, de cada 100 processos de execução que tramitaram no ano de 2012, apenas doze foram baixados. Tal congestionamento se deve ao fato de que os caso novos ultrapassam em 538.173 o total de processo baixados. Resumindo, o governo tenta arrecadar o quanto pode.

         Até agora citei os números da tragédia, falta falar das soluções. Resolver este gargalo exigiria mudanças políticas e culturais. Políticas porque há muita coisa que nós brasileiros pedimos do Judiciário cujo destinatário mais adequado seriao Legislativo. Não tem cabimento entrar com ação contra a venda do campo de Libra do pré-sal alegando que causa prejuízos ao país. Digo que não tem cabimento, porque os modelos de concessão do nosso petróleo deveriam ter sido discutidos no Congresso pelos representantes do povo. O que ocorre na maioria das vezes é o kit Medida Provisória + voto de liderança que transformao decreto executivo em lei. A interferência cada vez maior de um poder não eleito, como o Judiciário, em que os membros de sua cúpula, o STF, são nomeados, é um perigo para a possibilidade de que tenhamos alguma influência em relação às decisões sobre o nosso destino.

        Culturais porque nós brasileiros temos uma dificuldade imensa de admitirmos que estamos errados e pedirmos desculpas. O espírito dos nossos ancestrais nhonhôs da casa-grande fazem com que nós sempre queiramos nos sair bem em qualquer circunstância, mesmo que isso signifique pisar nos outros, no caso nos seus direitos. Gilberto Freyre explica, aliás como já apontei aqui nesta coluna. Em suma, é difícil para nós aceitarmos enfiar a viola no saco e pagarmos aquilo que devemos, preferimos ir empurrando com a barriga para levarmos a vantagem “gersoniana”.

          E de chicana em chicana, os brasileiros que efetivamente foram lesados, que têm direito a uma reparação justa, ficam no mais das vezes a ver navios. Isso é uma calamidade, um motivo de desesperança que faz com que nossa crença nas Instituições chegue a níveis muito baixos. Se o Legislativo é formado de 500 picaretas como dizia o Lula, se o Executivo só nos toma dinheiro sem dar quase nada em troca, e se o Judiciário não é capaz de resguardar nossos direitos o que nos resta?

          Ia me esquecendo, o site do CNJ de onde tirei todos os números com os quais eu os aborreci é www.cnj.jus.br.

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O ópio do povo

Em junho de 2013, 5% dos empréstimos ao consumidor no Brasil estavam atrasados por mais de 90 dias, o dobro da taxa na Índia, e mais do que no México, África do Sul e Rússia, de acordo com a Fitch Ratings

Tirado de um artigo no site de noticias www.zeroedge.com sobre a bolha de consumo no Brasil

 

                Tenho uma amiga de 45 anos que está em plena crise existencial. Separou-se de fato do marido no ano passado, entre outras razões pelo fato de que ele não a ajudava nas despesas da casa. Ela quer mudar de carreira, deixar de trabalhar de maneira autônoma e conseguir um emprego com carteira assinada, para ter mais estabilidade, mas depois de alguns mesesainda não encontrou nada. Isso a enche de angústia porque ela tem uma filha de 14 anos para sustentar e o ex,depois de outras carreiras infrutíferas, agora é corretor de imóveis de uma grande empresa em São Paulo. Isso não significa um emprego no sentido clássico do termo, porque o corretor é obrigado a estar sempre de terno, na estica, e em troca ganha uma cadeira e uma mesa em um estande de vendas, o direito de disparar eletronicamente aos incautos, entre eles essa que vos fala, anúncios de apartamentos comercializados pela corretora, e principalmente a obrigação de assinar um termo em que afirma não ter vínculo empregatício com a dita cuja. Minha amiga vive na esperança das comissões que ele recebe de tempos em tempos para ter alguma ajuda nas despesas com a filha. No entrementes vai à terapeuta e desabafa com as amigas, entre elas eu, que empresto meus pacientes ouvidos gratuitamente.

                Pois bem. Qual foi minha surpresa quando recebi um e-mail dela neste domingo contando-me que vai para Nova York no dia 22! Digo surpresa porque para uma mulher que está com a corda no pescoço e que acaba de pagar o carro adquirido por alienação fiduciária viajar para Nova York à base do cartão de crédito é um passo ousado, para usar um eufemismo. Considerando que ela vai gastar muito na meca do consumo (os brasileiros são os turistas que mais gastam na Big Apple), afinal não há como resistir a preços tão mais baratos do que o que pagamos aqui, fazer uma viagem ao exterior na situação dela é enfiar o pé na jaca. No e-mail ela me disse que “surtou” e que quando pensa no que vai gastar “passa até mal”. Mas talvez seja a sina denós brasileiros, gastarmos.

                Isso é um clichê batido, masnão deixa de ser verdade. O consumo é um poderoso “afogador” de mágoas. Uma poderosa cena que captura a imaginação das mulheres é a fúria de consumo de Julia Roberts no filme “Uma Linda Mulher”, em que a musa ganha um cartão de crédito do bonitão Richard Gere ese dá um banho de loja: de prostituta de rua transforma-se em Julia Roberts, melhor seria dizer, sem exagero, que ela renasce. Uma das grandes manifestações do novo status  das mulheres na era pós-feminista, em que somos donas do nosso próprio nariz, é nosso poder de consumir, de gastarmos quanto queremos, pelo simples prazer de nos “darmos um presente”. Consumir é como que um passaporte para uma existência plena: se você está deprimida, carente ou perdida, vá ao cabeleireiro, compre roupas, fique bonita e você vai levantar sua auto-estima, sentir-se poderosa, dona do seu destino.

                O sexo também age como um poderoso “consolador” em nossa sociedade em que o fracasso, a perda são pouco tolerados. Fazer sexo é também um indicativo de que você está vivendo e quem fica muito tempo sem sexo é considerado um fracassado, alguém que está perdendo tempo de vida. Daí este fenômeno contemporâneo das “pegadas”, dos “rolos”, que permitem que você marque pontos e seja considerado alguém que vive plenamente. Um beijo, um amasso já é suficiente, não precisa necessariamente haver sexo, basta que vivenciemos alguma experiência.

              Lula, que como todo líder carismático, tem um conhecimento instintivo da psiquê humana e se utiliza dele a seu favor, percebeu muito bem como conquistar o voto dos brasileiros explorando nossa necessidade de consumir como meio de definirmos nossa identidade. O Bolsa Família, os aumentos reais no salário mínimo, o Programa Minha Casa Minha Vida, os empréstimos dados pelos bancos públicos para a aquisição de carros (entre 2004 e 2010 eles triplicaram, e hoje chegam a 70 bilhões de dólares por ano) tudo isso permitiu aos brasileiros consumirem. Isso nos dá uma sensação de conforto existencial muito grande, um otimismo: enquanto estivermos consumindo, comprando aquilo que nos permite participar da sociedade enos sentir incluídos, nenhuma notícia econômica ruim vai nos abalar. Podemos ouvir falar da crise nos países desenvolvidos, podemos saber mais ou menos que a fatura da Copa e das Olimpíadas será alta, mas enquanto estivermos consumindo sentiremo-nos razoavelmente tranquilos, como minha amiga que vai deixar seus problemas de lado por uma semana e se esbaldar em Nova York.

              Daí a dificuldade de a oposição no Brasil, isto é, aquelespartidos que não têm cargos no governo, articularem alguma ideia coerente sobre o que anda mal em nosso país. Eduardo Campos, o neto de Miguel Arraes que será candidato a presidente ou a vice-presidente, caso ele ceda o lugar a Marina, fala em “melhorar a qualidade de vida, o transporte, a saúde, a educação”. Claro, é o mais óbvio caminho para pegar carona nos protestos ocorridos em junho. Mas será que essas preocupações realmente calam fundo na alma dos brasileiros para fazerem-nos mexer no time que está ganhando? Os problemas que o país enfrenta – a falta de infraestrutura, a falta de perspectivas de crescimento sustentável, as deficiências nos serviços públicos – serão suficientes para nos demover da ideia de que está tudo bem?Porque afinal, apesar de algumas nuvens carregadas aqui e ali, a inflação querendo ameaçar de novo,a perspectiva de um calote monumental no Minha Casa Minha Vida, os brasileiros que decidem as eleições, aqueles que adquiriram o direito de consumir e portanto de existir, continuam comprando a TV de LCD, o carro popular em prestações a perder de vista, o material de construção para ampliar a casa. O que há de errado no Brasil sob o ponto de vista dessas pessoas? Nada, o céu é de brigadeiro.

                Prezados leitores, posso estar redondamente enganada e dou-lhes o direito de cobrar-me sobre minha previsão, mas Marina Silva, Eduardo Campos, Aécio Neves não tocarão a alma dos brasileiros, porque Lula e sua fórmula mágica de garantir o consumo da classe C já tocou. E tocou de uma maneira que os deixa anestesiados, curtindo seu nirvana. Enquanto for possível manter essas pessoas na “nóia”, seja confiscando o FGTS, seja pela inflação, seja pelo aumento de impostos, não há nada que a oposição possa fazer para tirar o time que está ganhando de campo.

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Eu quero a frota russa!

Que tipo de sociedade os Estados Unidos se tornariam: uma economia industrial urbana auto-suficiente que se beneficiaria de níveis crescentes de produtividade e salários, ou uma economia de exportação dependente cada vez mais da Grã-Bretanha para conseguir produtos manufaturados e de alta tecnologia?

America’s Protectionist Takeoff 1815-1914, The Neglected American School of Political Economy de Michael Hudson

    Prezados leitores, tenho falado muito de leis ultimamente, embargos infringentes, duplo grau de jurisdição e toda essa barafunda de conceitos jurídicos que para a maioria da população não significa nada. De fato, enquanto nossos eminentes advogados discutiam se os mensaleiros teriam direito a uma nova etapa processual, o povo, ou uma parte dele, fazia justiça a seu modo. No mundo paralelo daqueles que têm sede de vingança, e não de direito, os quatro acusados de participarem de um assalto na periferia de Sâo Paulo que levou ao assassinato à queima roupa de um menino boliviano de dois anos foram julgados e sentenciados. Todos foram mortos de uma forma ou de outra, sendo que um deles foi obrigado a tomar um coquetel composto de creolina, cocaína e Viagra dentro da prisão. Esses pobres coitados não tiveram e jamais teriam a oportunidade de chegar à fase dos embargos infringentes, ficaram muito atrás na fase da investigação policial que se tiver sido falha terá levado ao assassinato de inocentes.

       Vivemos em um país em que a alguns são dadas todas as garantias de defesa e a outros não é dada nem ao menos uma morte digna. Se isso não mostra o grau de fantasia a que chegamos em matéria de justiça, então não sei o que é capaz de deixar as coisas mais claras. No entanto, há outros domínios em que as inconsistências são flagrantes e um deles é a economia, mais particularmente a questão da infraestrutura. Em primeiro lugar, preciso desculpar-me por voltar a esse assunto, mas a culpa não é minha, a culpa é dos jornais que não se cansam de martelar a respeito dos nossos gargalos: estradas esburacadas, portos que não dão conta do escoamento da soja, leilões fracassados, preparação deficiente de editais de concorrência. Nesta semana, devo também atribuir a culpa dos meus pensamentos sobre infraestrutura a um programa de rádio sobre os 150 anos da chegada da frota russa para ajudar os ianques na Guerra Civil Americana. Para quem quiser, está no seguinte sítiohttp://tarpley.net/2013/09/27/tarpley-at-national-press-club-for-150th-anniversary-of-russian-fleets-of-1863/.

       Para aqueles que não têm tempo nem paciência de ouvir toda a locução, vou fazer-lhes um breve resumo. A Rússia foi a única potência estrangeira que de fato interveio na Guerra de Secessão, contribuindo com o envio de navios para defender Sâo Francisco dos Confederados. Além disso, ela deixou claro à Grã-Bretanha que se esta interviesse em favor do Sul, isso significaria guerra. E por que àquela época os russos eram tão amigos de Abraham Lincoln, Cassius Marcellus Clay (por favor, ele não é antepassado do boxeador, mas um abolicionista) e Henry Clay (primo do falso boxeador e proponente de um plano econômico denominado Sistema Americano). Ora, a Rússia e a União tinham como inimigo comum a Grã-Bretanha e por isso consideravam-se almas gêmeas: ambos queriam se desenvolver, emancipar-se da potência dominante que ditava as regras do jogo e os modos de pensar.

        A Grá Bretanha ao final do século XIX era a pátria dos grandes economistas liberais, John Stuart Mill, Adam Smith, David Ricardo, economistas que defendiam a ideia das vantagens comparativas, de que um país como os Estados Unidos estava fadado ao crescimento porque a quantidade ilimitada de terras lhes permitiria viver da exploração de seus recursos naturais, pagando salários de subsistência aos trabalhadores. Tais ideias eram extremamente úteis aos ingleses, que poderiam se beneficiar dos preços baratos do algodão plantado no Sul dos Estados Unidos e da sua própria posição de predominância na fabricação de manufaturados. Um mundo harmônico sem dúvida, cada um explorando suas vantagens comparativas, os Estados Unidos na agricultura, a Grã Bretanha na indústria.

       Mas os emergentes daquela época, a Rússia e os Estados Unidos, se rebelaram, não queriam seguir o script ditado pela Grã Bretanha que afinal só mantinha o status quo. Viam o liberalismo como umapolítica que lhes arruinaria qualquer perspectiva de crescer de maneira sustentável. Na Rússia, o tzar Alexandre libertou os servos. Criou-se nos Estados Unidos a Escola Americana de Economia, pautada pelo protecionismo, pela mão de obra livre e bem remunerada que pudesse consumir os produtos caros feitos pelos ianques que ainda não tinham adquirido a vantagem comparativa dos seus concorrentes ingleses. Isso tudo regado a muita ajuda governamental, na forma de tarifas alfandegária altas e investimentos em infraestrutura…

      E aqui amarro as duas pontas, como diria Machado de Assis e chego ao nosso Brasil varonil. A Rússia e os Estados Unidos tiveram destinos diametralmente opostos no século XX: com a vitória dos ianques na Guerra de Secessão as políticas preconizadas pela Escola Americana de Economia foram executadas a pleno vapor e a América do Norte deslanchou, num círculo virtuoso de crescimento sustentado que perdurou até a década de 70 do século XX. A Rússia embarcou no comunismo como meio de libertação, com as consequências desastrosas que se desenrolaram no século XX. E o Brasil? Nosso Brasil tem pela frente os mesmos desafios que aqueles gigantes enfrentaram há quase 200 anos. Como conseguir o crescimento contínuo necessário para enriquecermos, para mudarmos de patamar? Como conseguir a infraestrutura necessária para que os agentes econômicos possam fazer sua parte?

     Em todos os veículos da mídia ouvimos que o governo é o problema, que o governo deveria estabelecer regras claras, dar segurança aos investidores, que o governo é incompetente, que o governo não sabe lidar com as empresas privadas, que o governo não estabelece política econômica e fiscal consistentes, etc. Tudo isso pode ser verdade e eu não nego. Mas se o governo age mal, e de maneira persistente ao longo de séculos no Brasil, é porque há grupos de pessoas que se beneficiam dessa incapacidade de gerir a coisa pública. Senão conseguimos investir 13,4% do PIB como fez a China e construírmos 35.000 quilômetros de ferrovias como fizeram os chineses nos últimos 25 anos, é porque há grupos que criam as dificuldades para vender asfacilidades. Afinal, se o governo é incompetente, então contratemos empresas privadaspara preparar editaiscontroladas pelos bancos que vão oferecer o financiamento para as obras, contratemos concessionárias para fazer manutenção em estradas em troca de pedágios escorchantes, e por aí vai..

      Gasta-se muita tinta para falar sobre os problemas estruturais do Brasil, e pouco fazemos na prática. Talvez fosse o caso de chamarmos a frota russa do Pacífico para nos dar uma ajuda.

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