Merito, com o perdão da má palavra

           Estamos às voltas no Brasil de 2012 com o problema do magro crescimento econômico. Há os culpados de sempre. O custo Brasil, a crise econômicas mundial, a diminuição da demanda chinesa por commodities, a valorização do real. Dona Dilma está tomando várias medidas para contornar a situação: diminuição do preço da energia elétrica, redução do IPI para certos produtos, proposta de alíquota única do ICMS, queda das taxas de juros. São esforços louváveis, paliativos é certo, mas é o que é possível ser feito em um país em que simplesmente não é possível fazer nenhuma grande reforma tributária, política, previdenciária, nada.

             Independentemente da absoluta falta de consenso sobre o conteúdo de tais mudanças, o fato é que há uma reforma ainda mais difícil e ainda mais profunda que é a mudança de mentalidade. É um clichê dizer que nossa cultura precisava mudar, mas não é menos válido porque vemos isso todos os dias: como nosso modo de ver as coisas determina nossa maior ou menor adesão a leis que pretendam modernizar o país. Quero compartilhar com vocês um aspecto da minha vivência estudantil, como aliás faço frequentemente no Montblatt que me mortifica: o solerte desprezo que nós brasileiros temos inconscientemente à ideia de mérito. Nossas relações de compadrio, de amizade, falam mais alto sempre, o que faz com que qualquer reforma que se proponha da educação (maiores salários aos professores, mais cotas, mais ProUni, mais dinheiro, mais merenda ou o que for)não terá nenhum efeito prático de melhoria da qualidade dos alunos.

          Nesta semana participei de um juri simulado na minha faculdade, organizado pelo meu professor de Processo Penal, que é desembargador no Tribunal de Justiça de São Paulo (salário ao redor de 40.000 reais). O jugamento era o do caso real de um homem acusado de matar a facadaso marido da sua amante. A participação era facultativa, mas valia três pontos na média. Havia vários papéis: jurados, juiz, oficial de justiça, policial, promotor, advogado de defesa, organizador, réu, testemunha. Os mais espertos alunos entre aqueles que se dignaram a ir à aula em que seria feita a escolha, escolheram os papeis fáceis em que não era preciso prática nem habilidade. As pedreiras eram os cargos de promotor e advogado de defesa. Ninguém se prontificou. No final, eu e meu amigo nos oferecemos para sermos os advogados de Antonio Carlos Batista dos Santos, natural de Itambé, Bahia.

         Lemos 400 páginas de processo, preparamos a defesa e na quarta-feira estávamos lá a postos. Os espertos simplesmente de espectadores, quer como jurados, policiais, testemunhas (que só precisavam ler o depoimento dados pelas pessoas reais nos autos). Eu e o meu colega nos esfalfamos, rebatíamos os argumentos da promotoria, procurávamos detalhes nos autos. No momento dos debates orais fui eu a falar, e modéstia à parte falei muito bem, eu havia estudado bastante: a plateia prestou atenção em mim e no final privadamente o professor me elogiou. Eu perdi a causa, meu cliente, foi condenado, mas era um caso difícil, porque ele havia confessado na delegacia e quando interrogado durante o processo caiu em contradições. Além do mais, os jurados estavam contra nós, a promotora era mais conhecida das pessoas, apesar de não falar tão bem quanto eu, tem perfil no facebook e é estagiária do professor.

         Enfatizei a palavra privadamente porque quando a “sentença” foi proferida o professor agradeceu todos que tinham comparecido, mas o fez de maneira geral, como se todos tivessem contribuído da mesma forma, o que não era verdade. Acho que como educador ele deveria ter elogiado o esforço da acusação e da defesa que tinham ficado com o grosso do trabalho intelectual e físico. Mas não, como somos todos amigos, como somos apegados ao consenso, é melhor que todo mundo saia bem na fita. Fazer distinções entre o melhor e o pior é algo que não cabe porque gera discórdia e nós brasileiros temos horror à discórdia, não é mesmo? O importante é varrer as diferenças para debaixo do tapete e fingir que tudo é legal.

             Assim é o tempo todo, em nome do que os alunos dizem ser solidariedade franciscana. É preciso colar e principalmente dar cola, para os colegas que “não conseguiram estudar”. É preciso dar trabalhos feitos a aluno retardatário para ele entregar ao professor (hoje uma menina mandou um e-mail desesperado de ajuda com esse objetivo). O aluno estudioso tem a obrigação moral de ajudar todo mundo a se virar para conseguir o seu diploma, direito de todos consagrado na Lei Maior, como dizem os meus futuros colegas de profissão. Para os professores essa solidariedade também é muito conveniente, porque lhes permite ir levando na banguela. Isso significa por exemplo que sabendo ou pressupondo que pelo menos uns 30% dos alunos comprarão ou reciclarão o trabalho de conclusão de curso, nem se dão ao trabalho de orientar os franciscanos otários que se esforçam para escrevê-lo por eles mesmos.

            Isso tudo para dizer, meus caros leitores, que mérito é uma palavra que ainda não aderiu ao nosso DNA cultural, por razões que o grande Sérgio Buarque explicou em Raízes do Brasil. E na minha opinião, a solução de todo os nossos males passa por considerarmos o mérito um bem em si, algo a ser protegido e incentivado. A corrupção, o apagão da mão de obra, a baixa produtividade do nosso trabalhador, a falta de investimento, a falta de crescimento, o custo Brasil, tudo tem alguma relação direta ou indireta com a falta de cultivo do mérito em terras tropicais. Eu teria ficado muito feliz se o meu professor tivesse feito menção especial àqueles que queimaram neurônios, tivesse nos avaliado e reconhecido nossos pontos fortes e pontos fracos.

           Mas não me iludo, porque sei que aqui o mais importante para os que estudam em universidade pública não é mostrar desempenho, mas signos de status, de pertencer ao seleto grupo dos que vão herdar os privilégios de bons empregos. O maisimportante em suma é ser bom não porque almejou e conquistou o máximo, mas porque fez o mínimo necessário para se distanciar da ralé, dos que não pertencem, dos que não herdam as capitanias hereditárias. Com o perdão da má palavra: mérito, oh mérito, algum dia você desembarcará na Terra de Santa Cruz?

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Cronicas academicas

       Estou agora no quarto ano de faculdade e os alunos começam a focar seus estudos. É uma corrida atrás de créditos, em uma perfeita análise de custo benefício: qual matéria oferece o maior número de créditos a um custo menor, isto é, sem que seja preciso fazer muito esforço? Uma das campeãs é Cinema e Direito do Trabalho. São polpudos quatro créditos à sombra fresca do projetor, pois as aulas consistem em assistir a filmes e discutir sua mensagem jurídica subliminar. Como a discussão geralmente é algo perfunctório que só se faz quando necessário para conseguir algo prático, como nota e aprovação, fazer das aulas uma harenga de debates é um convite aos alunos entrarem na sala, darem uma disfarçada, assinarem a lista e picarem a mula. Eu até cheguei a matricular-me nessa matéria, mas cancelei o registro sentindo-me culpada. Acabei optando por Direito dos Seguros Privados, onde há não mais que dez gatos pingados.

          Essa matéria tem defeitos mortais. Em primeiro lugar oferece dois créditos, concorrendo no horário com a maravilhosa disciplina trabalhista. Em segundo lugar, o professor não é “cocha”, gíria estudantil para aqueles acadêmicos que facilitam a vida dos alunos em termos de notas, em parte por um resquício do lema dos anos 60 “é proibido proibir”, de acordo com o qual os alunos têm o direito de fazer o que querem com seu tempo porque são adultos e não podem ser manietados pela autoridade repressora; e também porque alguns dos professores são macacos velhos cínicos que acham que todos os alunos são irremediavelmente vagabundos e qualquer compromisso em educá-los e redimi-los seria pura perda de tempo.Em terceiro lugar, e talvez este seja um pecado de lesa-majestade, porque a matéria versa sobre direito privado e as únicas matérias relevantes em uma faculdade pública são as de direito público, isto é para falar em um português claro, aquilo que é pedido em concursos.

           Aqui chego no ponto central da minha “fala”. No nosso Brasil do século XXI a tarefa da faculdade de direito de uma universidade pública é ser um trampolim para um cargo público, seja no Judiciário, no Legislativo ou no Executivo. Uma faculdade pública não é um lugar que presta serviços públicos à população, onde há uma reflexão sobre o estado das coisas no país feito por uma elite pensante que formula estratégias para o futuro da nação. Pode até haver tais iniciativas entre os professores, para justificarem seus salários de servidores do povo, mas na prática discente o ensino gratuito é um privilégio a ser usufruído até as últimas consequências. Os alunos fogem de matérias que formam mentes e correm atrás daquelas que treinam para provas, isto é que passam conteúdos de exames.

Dou um exemplo. Neste semestre estou cursando Instituições Judiciárias, que se propõe a discutir os males que afligem o judiciário brasileiro: excesso de demandas, poderosos interesses que querem aumentar ainda mais a máquina judiciária, falta de canais alternativos de solução de conflitos, por exemplo departamentos jurídicos bem estruturados nas empresas e arbitragem mais acessível, o papel atual do CNJ, a mania de mudar as leis a todo instante. Em suma, questões prementes que permitiriam aos jovens ter uma visão geral do que é o direito na prática no Brasil, como ele se manifesta de acordo com nossa cultura e espírito tropicais. No primeiro dia de aula, o professor, esperançoso, lançou-nos um desafio: “cabe a vocês mudarem este estado de coisas”. Uma colega minha, aliás muito boa aluna, ao final da palestra, comentou irritada: “essa matéria é inútil para concurso, vou me matricular em Contratos Administrativos”.

         Sob esse aspecto a universidade pública torna-se para o felizardo que consegue lá entrar um meio de adquirir de graça os conhecimentos que são vendidos a peso de ouro em cursinhos jurídicos pelo país afora. Isso lhe dá uma vantagem muito grande. Mesmo que trabalhe durante o dia, poderá economizar dinheiro para ao final da graduação ter aulas particulares de reforço além daquilo de que já gozou a custo zero. Assim herdam-se as capitanias hereditárias, isto é, os empregos bem remunerados da Administração Pública, a maioria dos quais é ocupada por egressos de universidades públicas. Temos então um círculo vicioso ou virtuoso em que o privilégio cria mais privilégio e o tipo de serviço prestado à população em termos de justiça efetiva fica um sonho cada vez mais distante. Afinal, o que esperar de juízes, promotores e afins que entram na carreira sem terem tido na maior parte das vezes real experiência de vida, além de estudos preparatórios nos seus recantos de conforto? Só estrelismo e arrogância, como vemos tanto por aí.

           Bem, já perdi muito tempo com esse meu artigo de conteúdo irrelevante. Preciso voltar para a corrida maluca, mesmo porque tenho que fazer um esforço redobrado para competir com os jovens membros de nossa juventude dourada: meu hardware cerebral de velhinha é mais cheio e portanto tenho menos capacidade de decorar letra de lei, o que é pedido em concursos; trabalho o dia todo em empresa privada, que não me oferece licença prêmio, horário de estudante ou faltas abonadas como meus colegas oficiais e escreventes de justiça (que formam a grande maioria do corpo estudantil); e confesso ter uma ojeriza a ficar ouvindo as histórias da carochinha a respeito de direitos fundamentais, de princípios constitucionais e tal que muitas vezes no Brasil são apenas beletrismo sem sustância. Quem sabe eu vencendo todos esses obstáculos vocês leitores do Montblatt ainda não ouvirão falar de mim como egrégia servidora do Estado? Aguardem-me!

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Bons ares

        Queridos assinantes do Montblatt: muita coisa aconteceu no mundo enquanto  estávamos fora do ar. Coisas sinistras, de humor negro, como a última dos EUA de querer derrubar o governo da Síria ̵acusado de ser uma ditadura cruel,mas cujo verdadeiro pecado é se recusar a seguir a cartilha de Washington e Tel Aviv̵ apoiando jihadistas que alhures são considerados terroristas inimigos da liberdade. Atos desesperados, como o de Julian Assange que, tendo sido entregue pelo governo sueco aos Estados Unidos para ser extraditado em virtude de uma acusação de estupro que havia sido considerada infundada, mas que depois foi desenterrada por um juiz amigo do American way of life, refugiou-se na embaixada do Equador em busca de asilo político, já que sua pátria de origem, a Austrália, jogou-lhe aos leões ianques. Picaretagens das mais variadas, como a do Banco Barclays na Inglaterra, que montou um esquema de manipulação da taxa LIBOR de juros para melhorar seus balanços e continuar com o seu papelna operação do cassino em que se transformou o sistema financeiro internacional com a conivência de governos ávidos por dinheiro “barato”.

      Tudo isso é muito deprimente e nos enche de indignação, especialmente quando levamos em conta nossa impotência para combater as injustiças e patifarias que grassam neste mundo global. Para comemorar nossa volta, com uma semana de atraso, porque eu estava de férias, falarei de um assunto ameno, minha singela viagem à capital da Argentina, Buenos Aires. Tenho certeza que a maioria dos leitores do nosso jornal já devem conhecê-la, mas mesmo assim considero útil fazer um breve relato da minha viagem porque lança luz sobre nossos próprios problemas para atrair turistas.

      É verdade que a Argentina anda bem problemática. Com falta de divisas internacionais, o governo tem baixado medidas draconianas para estimular os argentinos a acumular pesos e não dólares. Qualquer aquisição da moeda americana tem que ser justificada e a última da Dona Cristina Kichner foi a de na semana poassada proibir transações de venda de imóveis em moeda que não seja o peso. Isso torna a vida do turista um tanto quanto difícil. Os restaurantes não aceitam dólares, ou quando aceitam estipulam condições desvantajosas para os incautos. Por exemplo, notas de 50 não podem ser usadas ou então a taxa de câmbio é irreal: oferecem-se 4,5 pesos na média por cada dólar, 4,3 no mínimo, 5 no máximo. Na Calle Florida é possível encontrar os “empreendedores do mercado negro”, vulgo cambistas, que nos oferecem 5,7 pesos, a depender do dia, cifra mais próxima do valor real de seis pesos (fiquei sabendo que hoje já está em 6,8 pesos). O metrô (o subte) é sujo demais, o que contrasta com a imaculada limpeza do metrô de São Paulo e há pessoas dormindo lá dentro, o que aqui é impensável.

        Feitas todas essas ressalvas, em termos de custo-benefício Buenos Aires tem muito a oferecer a nós brasileiros. O subte pode ser sujo, mas custa dois pesos e meio (o equivalente a um real) ao passo que o metrô da capital paulista custa três vezes mais e é muito menos extenso. Fui a uma cidade próxima, Tigre, onde os argentinos passam o fim de semana, e gastei menos de dois pesos na viagem de trem. Bem, nem é preciso falar que em meu Estado o trem só serve para ligar a capital às cidades dormitório e não há nenhuma alternativa de transporte para o turista que não seja ônibus ou carro. Outros preços são também muito convidativos: fazer a mão custou-me 10 reais (aqui pago 15), comer em um restaurante árabe de boa qualidade, com direito a entrada, prato principal, refrigerante, sobremesa e café custou-me 40 reais, o que em São Paulo sairia por pelo menos uns 70.

        Mas o mais sensacional, para os padrões de uma paulistana como eu, é que consegui divertir-me e instruir-me sem gastar nenhum tostão. O Museu Nacional de Belas Artes, é gratuito, ao passo que seu equivalente em São Paulo, o MASP, custa 15 reais. O Museu do Bicentenário que fica ao lado da Casa Rosada (acessível sem custo aos sábados e domingos) e ocupa as ruínas da antiga alfândega, também é gratuito. Eu que não sabia nada da história argentina, pois no colégio só me ensinaram a história da Europa, pude assistir a vídeos que traçam a trajetória do país desde 1810, o ano da independência. Aprendi também sobre a história do Brasil, chamado de império escravista, contra o qual a Argentina lutou no Rio da Prata.Não posso deixar de mencionar também o Cemitério da Recoleta, não pelo túmulo da Eva Peron, que não tem nada de mais, mas pelas esculturas magníficas que lá se encontram, em muito maior número do que no Cemitério da Consolação, em São Paulo. E por útimo, um local surpreendente que descobri na internet: o museu da dívida externa, sediado na Faculdade de Economia da Universidade de Buenos Aires e que conta a história da dívida da Argentina desde 1810 até os dias atuais. Apesar do viés peronista da versão apresentada, é muito relevante para nós brasileiros, que também passamos pela Via Crúcis do calote de 1982, dos pacotes do FMI, do Plano Brady, do Consenso de Washington. A responsabilidade pelo conteúdo ficou a cargo dos estudantes da universidade sob a supervisão dos professores, e inclui uma revista em quadrinhos contando o drama da dívida argentina ao longo dos seus 200 anos de história (assim como aconteceu conosco, a dívida nasceu com o país, tendo o mesmo credor, os ingleses).

        Não pensem vocês que só museus são acessíveis. Para quem não tem interesse em assuntos culturais ou artísticos, nada melhor do que uma caminhada pelas ruas de Palermo ou da Recoleta e não querendo apreciar a elegante arquitetura das construções, curtir as praças limpas e arborizadas(que também invariavelmente têm alguma escultura monumental),cuja grama encontrei sempre reluzente (a Praça General San Martin pareceu-me a mais bela),e os parques (Rosedal, 3 de febrero), que em dias de sol ficam lotados de argentinos de todas as classessociais ansiosos por desfrutar da calma e beleza das árvores e lagos, dos amplos espaços para piqueniques e jogos de futebol. Em suma, o turista em Buenos Aires tem várias opções ao seu dispor: pode gastar muito dinheiro em shows de tango, passeios de catamarã pelo Rio da Prata,compras nas Galerias Pacífico, mas pode optar como eu pela frugalidade e mesmo assim ter ótimos momentos. Nesse sentido, a cidade é tremendamente mais democrática do que São Paulo, cujas opções de lazer seguras, isto é, livres de assaltos, requerem sempre dinheiro.

        Leitores do Montblatt, no próximo feriado prolongado não deixem de apreciar os jacarandás das ruas de Palermo, a placidez das águas do Rio da Prata. Nada melhor  para tornar o Mercosul uma realidade além dos tratados internacionais do que visitarmos cada vez mais nossos vizinhos, nos inteirarmos de sua história e de sua cultura para que um dia possamos, quem sabe, nos livrarmos do complexo de vira-lata que aflige os latino-americanose nos unirmos de maneira que não aconteça o que recentemente ocorreu no Paraguai, com a  defenestração sumária de um presidente.

        P.S.: para felicidade do nosso editor, o General Jorge Videla, que governou a Argentina nos anos de chumbo e já estava preso pelos abusos cometidos contra os rebeldes esquerdistas, acaba de ser condenado pelo rapto de crianças de prisioneiros políticos.

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A chantagem emocional das cotas

Leitores do Montblatt, lanço-lhes uma pergunta à queima-roupa e espero que me respondam com sinceridade: alguma vez em sua vida já foram submetidos a uma chantagem emocional? Digo logo a vocês que eu fui, desde a mais tenra infância. Mas uma experiência que me marcou e me fez refletir muito sobre a luta de classes velada que existe na sociedade foi uma amizade que eu tive com uma colega de faculdade, cujo nome não interessa divulgar. Ficamos amigas logo no primeiro ano e viajamos muitas vezes juntas, nos divertimos e vivemos bons momentos. Mas haviauma tensão no nosso relacionamento que era muito sutil e da qual eu só fui me dando conta ao longo dos anos. Nossa origem social era muito diferente: ela era filha de mãe solteira e não tinha nem o nome do pai nacertidão de nascimento, morava na periferia de São Paulo e com seus próprios esforços e ajudada por sua inteligência havia entrado na universidade pública. Eu era totalmente diferente: cresci em uma família de classe média, estudei em escola particular e minha entrada na universidade pública foi uma consequência natural das oportunidades a que tive acesso e da minha seriedade nos estudos.

          A princípio considerávamo-nos muito íntimas e em pé de igualdade, mas na verdade quando penso retrospectivamente percebo queela sempre estava acima de mim, tanto porque ela se colocava lá quanto porque eu a mantinhana posição. No pedestal estava a self-made woman que em razão das dificuldades que enfrentou, dos obstáculos que teve que superar era naturalmente mais virtuosa do que eu, uma menininha mimada que nunca teve que traballhar de recepcionista e estudar à noite. De fato, como eu poderia negar isso? Como poderia negar que as coisas que me preocupavam, como por exemplo o objetivo moral de ser professora, eram muito aristocráticas e platônicas em face das questões práticas que minha amiga tinha que enfrentar, tais como como pagar as contas, onde morar etc? Isso me fazia me sentir muito culpada quando eu vinha com minhas crises existenciais e lembro da mal disfarçada condescendência com que ela me escutava e me dava conselhos. Sim, porque como pobre e sofredora virtuosa era ela sempre quemme dava sua opinião sábia, era ela sempre que ralhava ligeiramente comigo por coisas que eu dizia e que feriam suas suscetibilidades de pessoa que não se sente bem aceita em um novo meio social diferente do seu de origem. Eu ficava sempre mortificada por ela ter entendido que eu estava gozando dela ou estava sendo cruel e preconceituosa porque no fundo eu não passava de uma burguesa mimada.

             Com o passar do tempo, fui amadurecendo e tornando-me mais assertiva ecomecei a perceber que a indignação moral dela com minhas “infantilidades” tinha muito de má fée rancor. A gota d’água foi quando um diacompartilhei com minha cara metade a opinião de que o Departamento de Recursos Humanos das empresas era uma grande picaretagem, porque o que contava mesmo não eram as regras de boa governança corporativa ou o Manual de Conduta Ética, masas relações de poder. Ela me replicou, dizendo que estava muito magoada, afinal ela trabalhava com RH. Foi a minha vez então de pela primeira vez me rebelar e não pedir desculpas. Afinal, eu tinha feito a ressalva que estava discutindo ideias, não estava falando dela pessoalmente. Sabia que ela era uma pessoa honesta e se eu abordava o assunto é porque a achava de posse da experiência e da inteligência suficientes para que tivéssemos uma boa discussão.

           O fato é que a partir daí eu fui me afastando desta paladina dos pobres e oprimidos e fui me assumindo como eu sou, uma pessoa que nunca foi pobre, pelo menos até agora, mas que não se considera menos boa cidadã do que os que tiveram menos oportunidades que eu. Parei de me sentir culpada por coisas que eu não fiz: afinal não fui eu quem se envolveu com o homem errado e ficou grávida de maneira indesejada, não fui eu quem tornou a vida das mães solteiras no Brasil difícil por causa da falta de assistência do Estado. É verdade que não dôo o dinheiro que ganho em virtude das melhores oportunidades que tive como forma de compensação pelas injustiças que não sofri, mas ao menos nunca na vida eu soneguei impostos, apesar de pela minha profissão ter a oportunidade de fazê-lo.

           Este grande intróito leitores, a respeito da minha disputa com uma ex amiga, é para tratar de um assunto que já foi abordado aqui neste Montblatt, mas sobre o qual gostaria de apresentar minha opinião, que é a questão das cotas nas universidades públicas. Pelo modo como contei minha história de vida fica claro de que lado fico nesta polêmica. Sou terminantemente contra estabelecer esse segundo critério paralelo de entrada no ensino superior. Acho isso pura chantagem emocional, mais uma que politicamente se faz com a classe média brasileira tradicional, isto é , aquela que surgiu no bojo do grande crescimento econômico que experimentamos na segunda metade do século XX até meados dos anos 70.

           Por favor, não me entendam mal. Não acho a classe média imune a críticas, pelo contrário. Realmente, somos bem mimados em termos de educação superior e pior, damos muito menos do que poderíamos dar em troca desse privilégio. Há muita vagabundagem nas universidades públicas brasileiras, e para muitos alunos estar lá durantequatro, cinco ou seis anos é apenas um álibi para mostrar aos pais enquanto estão no hotel (coincidentemente ontem à noite estava descendo a Rua Riachuelo para voltar para casa depois da aula quando vi saindo de um hotel um casal de namorados da minha classe) no bar ou na balada. Sou uma típica aluna nerd, e me espanta sempre como tudo é nivelado por baixo, como os professores, com honrosas exceções, se abstém de exigir a excelência porque dá menos trabalho e se acostumam com a mediocridade.

     A solução no entanto, não está em punir os burgueses privilegiados tirando-lhes pelo sistema de cotas uma vaga que eles conquistariam pelo seu mérito acadêmico, mas uma vez eles tendo chegado lá, lembrar-lhes constantemente que estão usufruindo um privilégio e que devem fazer por merecê-lo. Na minha opinião, isso implicaria tornar as condições de aprovação nas disciplinas muito mais rígidas do que são na atualidade, de modo que se não preenchidas houvessem punições severas , como a perda da vaga. A vaga perdida por um burguês mimado mas preguiçoso seria oferecida a alunos de universidades privadas que prestassem um exame de admissão. Minha modesta proposta é portanto fazer das universidades públicas que congregam os melhores alunos os centros de excelência que vão formar os melhores profissionais. Não nego o elitismo da minha visão, mas acredito sinceramente que o Brasil como um todo se beneficiaria se nossas instituições de ensino superior públicas moldassem melhor o material humano que lhe cai nas mãos. Infelizmente, o que muitas vezes acontece é queelas acabam despejando profissionais medíocres no mercado.

      Os defensores dessa democratização do ensino superior alegam que as pesquisas indicam que o desempenho dos alunos que entraram por meio de cotas é equivalente ao dos outros alunos. Só acredito nesses resultados se me provarem que os critérios de avaliação adotados antes são os mesmos  deagora, do contrário esses resultados equivalentes são mera estratégia do professor que ao ver seu público mudar vai simplesmente nivelar por baixo parater menos trabalho. Podem chamar-me de metida, mas estudei um ano em uma universidade particular, e nós tínhamos aula de como estudar porque o público não sabia o que era ler e resumir o texto para absorver as ideais principais.

          A ideia de cotas é uma grande chantagem emocional que faz a alegria de políticos de todos os quadrantes que vendem a maravilha da democratização da universidade,de burgueses preguiçosos que ao apoiarem a cota poderão fazer média, dirimir sua culpa atávica pelas injustiças seculares do país e principalmente se livrar daobrigação de apresentar resultados mais satisfatórios de seus estudos,e claro dos que entrarem na universidade por este atalho. Quem perde é o país, que precisa de pessoas bem formadas e cônscias dos seus deveres de elite em relação ao nosso desenvolvimento.

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Tanatos e Eros

Acho que qualquer leitor do Montblatt sabe daquela história freudiana do Tânatos, o impulso da morte e Eros o impulso da vida, o lado negro e o lado brilhante de nós mesmos em constante embate. Quantas vezes não nos pegamos chafurdando na auto-comiseração, no derrotismo, no rancor contra tudo e todos, num sentimento exagerado de que o mundo nos é injusto? E no outro momento conseguimos dar a volta por cima e acreditar que para que as coisas dêem certo basta que queiramos lutar e perseverar sempre, basta que sempre optemos por nunca desistir, basta que estejamos sempre bem dispostos em relação àqueles que nos rodeiam.

           Uso a  palavra basta plenamente consciente de que tudo isso é muito óbvio, está em qualquer dos livros do Paulo Coelho, mas na prática requer mais do que a leitura atenta de algum livro de auto ajuda. É óbvio dizer que o segredo da vida é o de tentar prolongar os períodos “eróticos” pelo maior tempo possível e minimizar os efeitos do Tânatos que vira e mexe dá as caras, mas é o indivíduo sozinho com seus botões que tem que executar a receita, misturar os ingredientes na medida certa e aplicar as instruções no seu cotidiano, que nunca está previsto em nenhum lugar.

        Todo este meu intróito de rasteira filosofia é para eu dizer que talvez os países também sejam assim, possuidores de uma faceta solar que luta constantemente coma  faceta soturna. Vejo isso no Brasil de uma maneira gritante e isso me faz às vezes sentir-me pessimista em relação ao nosso futuro e outras vezes criticar a mim mesma por não querer ver coisas ululantemente positivas.

         Como negar que o Brasil atualmente tem muitas coisas das quais se orgulhar? Há poucos dias Dona Dilma anunciou um plano que pode ter impactos fascinantes para o país. Ao custo de três bilhões de reais planeja-se enviar até 2015 100.000 estudantes brasileiros ao exterior para realizarem graduação nos Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha, França e Itália. Imaginem o efeito cascata que esses brasileiros formados terão sobre nossa educação a longo prazo. Nas décadas de 1970 e 1980 levas de brasileiros formados nas melhores uiniversidades do país deixaram a terra do samba e do pandeiro em busca de novas perspectivas e nunca mais voltaram, o que foi uma perda inestimável em termos de riquezas que deixaram de ser produzidas. Agora formaremos nosso capital humano lá fora com a intenção de fazê-lo germinar aqui, produzindo conhecimento, emprego e bem estar. É um grande desenvolvimento sem dúvida, mesmo que represente por enquanto uma gota no oceano de lágrimas que é a educação no Brasil.

          E o que dizer da nossa reputação internacional? Por acaso é possível negar que avançamos várias dezenas de kilômetros nessa trilha? Em 2003 a Petrobrás lançou títulos para captar financiamento e teve que pagar aos investidores taxa de 9,1%. Atualmente o retorno sobre os t[itulos lançados pela Petrobrás é de menos de 5%. Isso permite que empresas brasileiras com presença global como a Vale e a Embraere outras menos famosas possam fazer investimentos e alavancar seus negócios competindo de igual para igual com concorrentes de países desenvolvidos. Quando pensamos que em 1991 a Bombardier canadense entrou com reclamação contra o Brasil por causa de um programa de incentivo às exportações pelo qual nosso governo oferecia juros menores às exportadoras para compensá-las pelo custo Brasil, vemos como as coisas mudaram para melhor. Nossa reputação foi sendo construída aos poucos,  com base na recusa sistemática em dar calotes em nome da soberania nacional, como tantas vezes fez nossa hermana Argentina. É claro que isso vem a um preço, a que eu mesma me referi algumas vezes neste espaço. Somos em larga medida dependentes de  capitais especulativos para financiar nosso déficit público atraído por taxas astronômicas de juros pagas religiosamente. Mas o fato de que um fundo de pensão na Inglaterra possa achar hoje mais seguro investir nos títulos da Petrobrás do que comprar títulos do seu endividado governo éum benefício palpável que beneficia toda a população brasileira e não só as grandes campeãs nacionais, porque em um momento de emergência é de se esperar que nos beneficiemos de uma melhor boa vontade para captar recursos. O ideal seria que nós tivéssemos poupança interna e que quase nunca precisássemos do dinheiro da banca internacional e de investidores de fundos soberanos árabes, mas já que a perspectiva de conseguirmos nos transformar em uma nação poupadora é bem longínqua, melhor que tal captação ao menos seja em condições razoavelmente suportáveis.

      O fato é que o Brasil pode se beneficiar da crise nos países ricos, vergados sob o peso de suas dívidas e de suas populações envelhecidas. Ofereçendo segurança aos investidores poderemos fazer florescer as áreas em que somos naturalmente competitivos, como energia, matérias primas, agronegócio. Mas é aqui que nosso lado Tânatos pode nos atrapalhar. A riqueza que conseguiremos produzir ficará restrita a algumas áreas, enquanto outras perecerão em razão de nossa exposição aos ventos da globalização. Nossa indústria está sentindo a pressão a cada ano e diminuindo sua participação no PIB. O que faremos a respeito disso? Continuaremos a ter uma sociedade extremamente desigual ou tentaremos usar o dinheiro conseguido nas áreas de sucesso para achar alternativas inovadoras para o resto que não se encaixou? No primeiro caso continuaremos a ser um país de segunda categoria, modernizado, mas não realmente desenvolvido, no segundo caso teremos dado um salto de qualidade e deixado para trás nossas tristes memórias de corrupção, pobreza, hiperinflação.

         Eu seria ingenuamente pessimista ou otimista se optasse de maneira taxativa por um ou outro cenário, se me arvorasse em dizer que Tânatos ou Eros predominarão absolutamente. Talvez fiquemos no meio do caminho, tendo nossos bolsões de desenvolvimento verdadeiramente sustentável e ao mesmo tempo convivendo com mazelas seculares. Veremoso que a sorte ou melhor, nosso esforço coletivo, nos reserva.

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