Liberdade de expressão ou de avacalhação

            Liberdade de expressão. O sentido dela está magnificamente resumido nas palavras de Voltaire: “posso não concordar com nenhuma das palavras que você diz, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las”. Em suma, devemos desenvolver a virtude da tolerância, respeitar o que as pessoas têm a dizer, por mais que nossos valores sejam diametralmente opostos. Essa é uma das pedras de toque da cultura ocidental, não é mesmo? A liberdade de criticar, de inovar foi um dos fatores que permitiu a explosão de riqueza material e cultural nos países capitalistas desenvolvidos. Ultimamente, no entanto, acho que essa grande virtude ocidental tem sido tão usada e abusada que acaba sendo um dos signos da malaise espiritual dos nossos tempos.

            Os leitores do Montblatt devem ter ouvido falar do grupo de punk rock feminista russoPussy Riot, formado de jovens mulheres que realizam apresentações em Moscou para manifestarem-se contra alguma coisa. A última delas foi na Catedral de Moscou em que começaram a cantar em protesto contra o Patriarca de Moscou, Kirill I, que segundo elas ama mais Putin do que Deus. Elas estão sendo agora processadas sob a acusação de blasfêmia e podem terminar na cadeia. Como seria de se esperar, vários artistas e celebridades ocidentais manifestaram-se a favor dasmoças, que estariam sofrendo perseguição política do regime autoritário de Putin.

            Não sou lá muito fã de Putin pelo que foi feito na Chechênia, mas confesso que não pude deixar de concordar com algo que ele disse que eu tentarei parafrasear: se elas tivessem cantado punck rock em alguma sinagoga em Israel ou em uma mesquita de algum país muçulmano teriam sido imediatamente caladas por seguranças e acusadas de anti-semitismo ou racismo. Como seu show foi feito em uma igreja cristã, asopiniões se dividem de maneira radical: para os que acreditam em Deus e na Igreja Ortodoxa Russa foi uma afronta a um lugar sagrado, para os que acreditam na liberdade de expressão acima de tudo e de todos foi um protesto sadio, uma manifestação política que deve ser protegida e estimulada.

           Decidir quem está com a razão depende dos valores de cada um e como não me furto a expor os meus na medida do que é relevante para desenvolver meus argumentos, digo logo que não vi nada de edificante em um bando de mulheres mascaradas fazendo uns trejeitos dentro de uma igreja. Sim, havia um conteúdo, mas quando estudei Letras aprendi que a forma cria seu próprio conteúdo e a forma não me agradou de jeito nenhum: vociferar vitupérios em frente a ícones religiosos nesses nosso tempos em que cada um quer ter seus cinco minutos de fama não importa como a mim parece apenas mais uma maneira de chamar a atenção para si e realizar o desejo narcíssico de ser o centro das atenções, tornando-se hit no you tube. Afinal, crítica verdadeira pressupõe diálogo e não há diálogo verdadeiro sem que uma parte tenha a capacidade de reconhecer que a outra possa ter valores diferentes que afetam o entendimento mútuo. Uma coisa é colocar-se contra a religião depois de entender o porquê da religião, quais são suas premissas etc. Outra coisa é chegar chutando a porta, fazendo pouco caso de símbolos e locais considerados de especial valor para os crentes de maneira explícita e acintosa. Para mim, longe de ser uma legítima expressão de ideias, é ao contrário prova cabal da total falta de ideias e devalores. Ou melhor, se valores há, não são aqueles que normalmente respaldavam os livres pensadores como Voltaire, que lutaram contra a prepotência dos poderosos: a busca de um melhor entendimento das coisas pelo debate, pelo cotejamneto de diferentes pontos de vista até chegar-se a um consenso. Parece-me que a intenção das moças russasestava longe disso: se quisessem realmente dialogar com o patriarca de Mosocu e tentar demovê-lo do seu apoio a Putin, elas teriam levado em conta suas sensibilidades religiosas e não teriam de maneira chocante ferido todas as convenções estabelecidas sobre como se comportar em umlocal de culto religioso.

            Podem chamar-me de careta, mas muito do que passa por expressão do pensamento hoje no Ocidente resvala para a vulgaridade e a gozação fátuas, desprovidas de sentido. Aqui incluo o humor de um Rafinha Bastos, que declarou na TV que queria comer a Wanessa Camargo. Muitos lamentaram o processo aberto pela vítima da “comida”, em nome da ideia de que o humor para ser humor não deve poupar ninguém. De fato, uma das coisas mais abomináveis que surgiram nos últimos tempos foi a camisa de força do politicamente correto, que nos proíbe de usar determinadas palavras para com isso moldar aquilo que pensamos e sentimos em relação aos grupos vitimizados.

           Por outro lado, não há como não ter nostalgia dos nossos grandes humoristas, dentre os quais posso citar dois ilustres recentes falecidos, Ivan Lessa e Millôr Fernandes. Quando o Ivan Lessa referia-se ao Brasil como o “bananão” ele não estava provocando o choque gratuito, pelo mero prazer de aparecer. Havia todo um universo de valores e sentimentos por trás: seu desencanto e ceticismo em relação a um Brasil que era incapaz de tomar decisões corajosas, que empurrava tudo com a barriga, que evitava conflitos a todo custo, mesmo que isso significasse a total paralisia e a não resolução de problemas seculares. As piadinhas de um Rafinha, em comparação, parecem-me dignas não de um verdadeiro humorista, que precisa ter indignação moral, mas de um mero bobo da corte, que imita tudo e todos apenas para manter o rei satisfeito.

           Liberdade de expressão é fundamental para que possamos criticar, lutar e mudar o status quo. Liberdade de avacalhação, ao nivelar tudo e todos em torno do mínimo denominador comum da vulgaridade, só serve para fazer com que tudo continue como está.

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As idades do homem

        Há muitos anos eu assisti a um monólogo do Sérgio Viotti chamado As Idades do Homem em que ele tomava de empréstimo  um poema de Shakespeare que consta da peça “As you Like it”que é intitulado “The Seven Ages of Man” em que o poeta descreve as fases da vida do homem desde a infância até a velhice. Uso esse título para falar não das sete mas das três idades do homem, na minha humilde visão.

          Em primeiro lugar devo esclarecer que vou falar do homem ocidental, porque não conheço nada do homem oriental, se é que existe uma categoria que possa ser descrita como tal. E a razão da minha escolha é simples. No Brasil não estudamos nada a respeito da história antiga que não seja europeu, portanto seria leviano eu tentar falar de confucionismo, shamanismo ou qualquer outro conceito filosófico dos povos amarelos. Nós brasileiros somos um efeito colateral do expansionismo ocidental, não pertencemos ao núcleo duro do Ocidente, mas mesmo assim culturalmente, pelo menos a classe social a que pertenço, absorve aquilo que o Ocidente tem a oferecer, para o bem e para o mal.

          Como segundo esclarecimento, devo ressalvar que não sou teóloga nem falo alemão como o Leonardo Boff, portanto perdoem meu amadorismo ao lidar com religião, mas ultimamente tenho pensado sobre a questão da ética e da justiça, que são também questões religiosas, e acho que está na hora deeu colocar isso no papel. Afinal, aqui no Monblatt falamos tanto sobre o mensalão, sobre a corrupção que grassa no país, sobre as mentiras que nos contam, que nada mais natural do que tentar entender de onde isso vem.

           É minha firme convicção que o Homem Ocidental, pelo menos tal como ele é concebido teoricamente, mesmo que sua existência prática seja muito mais complexa, passou por três fases. Vou chamá-las para fins didáticos de o Homem Racional, o Homem Cristão e o Homem Técnico. O primeiro é fruto do caldo de cultura do mundo grego, o segundo da ascensão do cristianismo, e o terceiro do Iluminismo e do Capitalismo.

           Não tenho condições aqui de fazer um percurso pela filosofia grega, mas para meus fins quero dizer que a razão dos gregos era uma razão ao mesmo tempo prática e subjetiva. Prática porque ela se prestava a revelar a realidade e subjetiva porque era fruto da iniciativa do homem de empreender esse esforço de conhecimento tanto do mundo exterior quanto de si mesmo. Sócrates falava dos seus daimones, sua vez interior que funcionava como uma bússola moral dizendo-lhe o que não fazer e dando-lhe a oportunidade de fazer escolhas morais. Sim, porque o homem racional grego é um animal político inserido na pólis, que toma decisões a respeito da vida da cidade e de sua vida com base em certos valores. Um homem é justo, na visão de Aristóteles, porque ele age conscientemente com justiça, decidindo no caso concreto como ser justo em vista das circunstâncias.

             E isso requer um esforço mental e moral, mental de análise dos fatos e moral de como moldar os fatos em vista dos objetivos que se quer ver concretizados. Se o Ministro Ricardo Lewandowski estivesse fazendo justiça na Grécia, muito provavelmente ele não se ateria tanto ao aspecto técnico da insuficiência de provas para condenar os réus do mensalão. De fato, há o brocardo jurídicoquod non est in actis non est in mundo (“o que não está nos autos não está no mundo”), e ao seu pautar por ele o Ministro Relator está seguindo a estrita técnica que é ensinada nas faculdades de direito e o Código de Processo Penal. Mas para além da mera aplicação da lei, há a equidade aristotélica que requer que se pergunte: como posso fazer justiça neste caso? Como terei dado a cada um o que é seu de acordo com os critérios de proporção escolhidos pela sociedade? Como terei tirado de quem tem mais para dar a quem tem menos e tirado de quem tem menos para dar a quem tem mais? É justo não condenar criiminosos de colarinho branco que assaltam o erário, que estabelecem máfias de maneira acintosa, simplesmente porque eles fazem um serviço bem feito de não deixar rastros? O Estado de Direito, tão propalado pelos constituintes de 1988, pelos advogadosa torto e a direito, estará bem servido se a população perceber que os ricos têm mais simplesmente porque as provas ocntra eles nunca são cabais? Por acaso não é preciso calibrar a lei a depender do tipo de crime? Provas não cabais não quer dizer que não haja provas, mas simplesmente que o tipo de crime com que se está lidando é um crime praticado por pessoas finas, que sabem ser sutis. O grego levaria issso em conta para fazer justiça na prática.

        Toda essa preocupação com a equidade, com a atuação do homem em sociedade, foi praticamente enterrada com o cristianismo. Para um dos pais da Igreja como Santo Agostinho, a vida na terra era um vale de lágrimas, em que a injustiça, a crueldade e a miséria estavam sempre presentes. A única saída era a contemplaçãodo paraíso, contemplação esta que tem um quê de platonismo no sentido do mundo ideal, mas que na prática acaba tornando o homem refém do status quo e incapaz de utilizar sua razão para fazer escolhas e mudar o mundo. O Homem Cristão é um homem amedrontado, que se preocupa com a salvação da sua alma mais do que qualquer outra coisa.

        A terceira idade do homem vem como uma reação ao fatalismo cristão, e por isso é cheia de energia e otimismo. Os Iluministas acreditavam que a miséria e a ignorância podiam ser combatidos pela razão, que lançaria luz sobre as trevas e levaria a humanidade a ser feliz por se livrar de superstições milenares. Mas como parte do projeto de combate à religião, a razão secular iluminista é uma razão prática e objetiva, destinada a controlar a natureza, a criar meios que melhorassem a vida do homem e o permitissem se livrar do sofrimento. O aspecto moral das escolhas que fazemos com base em certos valores foi deixado absolutamente de lado, pois falar de valores, do certo e do errado, do justo e do injusto, era voltar ao maniqueísmo cristão. Daí ter surgido esse Homem Técnico, homem que usa a razão para conceber projetos fantásticos e para colocá-los em prática, mas que nunca se pergunta do efeito deles sobre os membros da sociedade.

           Vimos essa insensibilidade moral tantas vezes no século XX.  Mao Zedong, Stalin, Pol Pot, Hitler foram todos homens para quem dilemas morais eram preocupações infímas em vista da grandeza do que deveria ser colocado em prática. Qual era a importância de milhões de mortos, mutilados, traumatizados,em vista doReich de Mil Anos ou o comunismo ou a Grande Marcha para a Frente?. Pode-se argumentar que eram todos psicopatas e que não devemos tomar tais líderes políticos como parâmetros para estabelecer as características do homem moderno, fruto do Capitalismo e do Iluminismo. Mas, o que dizer dos engenheiros que participaram do Projeto Manhattan? De acordo com os valores do Homem Técnico eles apenas cumpriram suas tarefas e não podem ser responsabilizados pelo uso que foi feito do resultado do seu trabalho, a bomba atômica. Esta é a tragédia moderna: tal qual em uma linha de montagem em nossa sociedade as escolhas morais são feitas por um grupo e as escolhas técnicas por outro. É por isso que nossa especialidade é darmos desculpas à la Eichmann, que era apenas um cumpridor de ordens e não podia ser culpado pela morte dos judeus que ele despachou nos trens: o meu dever limita-se a cumprir minha pequena tarefa no grande esquema das coisas, se o produto do que faço causa algum mal, eu não posso ser responsabilizado, o uso é em outro departamento…

         E assim caminha a humanidade, prezados leitores, e aqui deixo a indagação sobre qual será a próxima Idade do Homem, que suplantará este Homem Técnico. Quem sabe o desastre ambiental do total esgotamento dos recursos naturais inaugure uma nova era? A queda de Roma trouxe à luz o Homem Cristão, os grandes descobrimentos trouxeram o Homem Técnico, uma guerra nuclear entre Estados Unidos e seus muitos inimigos pode trazer grandes novidades. Com certeza nós não estaremos aqui para testemunhá-las.

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A liberdade de avacalhação continua

                Prezados leitores do Montblatt, permitam-me usar meu espaço semanal para responder à minha maneira, como diria o Frank Sinatra, aos questionamentos colocados pela leitora Monica, que mora na Nova Zelândia. Na sua carta ao editor a Mônica disse entre outras coisas que não há liberdade de expressão na Rússia e que as moçoilas do grupo Pussy Riot não poderiam ter protestado em outro lugar.

              Não vale a pena discutirmos aqui se na Rússia há democracia e se o Ocidente pode dar lições de moral na China, que está se tornando agora um dos inimigos dos Estados Unidos ou no ex-inimigo mortal dos tempos da Guerra Fria. Eu seria leviana em afirmar categoricamente que na Rússia há tanta liberdade de expressão, um dos indícios de democracia, quanto nos países da Europa e da América do Norte. Leviana porque nunca fui à Rússia e muito menos aos Estados Unidos e tudo o que sei sobre o que acontece atualmente naquelas paragens tem como fonte a imprensa oficial, isto é aqueles órgãos considerados como confiáveis, e a imprensa alternativa que hoje floresce na internet.

              Devo confessar que cada vez mais eu me apóio nessa, porque eu tomei uma grande ojeriza por publicações que antes me davam prazer e agora só me aborrecem. Um exemplo é a revista inglesa The Economist da qual fui assinante por quase 20 anos, até decidir neste ano abandoná-la quase que completamente, a não ser por algumas leituras no site deles na internet. Depois que comecei a ler outras versões dos fatos na internet, o tom monocórdico de defesa do capitalismo mais ou menos como ele está, salvo por alguns pequenos ajustes, ajustes esters sempre às expensas do lado mais fraco, me é um tanto quanto insuportável.

             Por isso, a única revista que leio impressa (além da inevitável Veja, é claro) é uma revista de humor inglesa publicada a cada 15 dias que se chama Private Eye. Além de tirar sarro dos políticos ingleses de maneira inteligente, ela denuncia as maracutaias financeiras perpetradas por meio de bancos que lavam dinheiro de cleptocratas africanos, os respeitáveis homens de negócio como Richard Branson que fazem uso de todos os esquemas possíveis e imagináveis para pagar o mínimo de impostos possível (sonegação ou planejamento tributário?), a incompetência do governo que contrata empresas privadas para realizar serviços públicos, paga rios de dinheiro e recebe pouco em troca (conhecem algum outro país em que isso acontece?). Essa podridão eu não via retratada na vetusta Economist, e por isso comecei a me sentir enganada. Por outro lado lado, as arbitrariedades do imperador da Rússia são amplamente divulgadase a punição das Pussy Riots por vandalismo é mais uma prova de que aRússia do ex chefe da KGB não é um país democrático.

                 Toda essa digressão sobre minhas leituras na imprensa foi para que eu possa esclarecer aos leitores que minhas considerações sobre as punkeiras russas baseiam-se naquilo que eu pesquisei na internet, particularmente no blog de um americano chamado Llewellyn Harrison Rockwell,cujas ideias libertárias me agradam. Mas não pretendo nesse momento discutir os valores que compartilho com ele, pois isso não levaria a nenhuma discussão produtiva. O que pretendo aqui é expor os fatos que foram apurados por pessoas que desconfiam dessa conversa toda de apresentar a Rússia de Putin como um antro de opressão e corrupção. Os leitores do Montblatt podem achar que tal fonte não é confiável, e tem todo direito de ter tal opinião e descartar tudo o que falo. De qualquer forma, se isso levar as pessoas a refletirem sobre o outro lado das coisas que estão aparentemente consolidadas já me darei por satisfeita.

            Em primeiro lugar a canção de protesto que as moças entoaram na igreja tinha os seguintes dizeres (transcrevo em inglês por respeito ao original de onde tirei):

Holy shit, shit, Lord’s shit!

 Holy shit, shit, Lord’s shit!

 St. Maria, Virgin, become a feminist…

 Patriarch Gundyaev believes in Putin

 Bitch, you better believed in God

                Pressupondo que tais palavras realmente foram ditas pelas críticas do poder de Putin, deixo aos leitores o julgamento sobre que tipo de liberdade de expressão é essa que quer chocar usando palavras de baixo calão a torto e a direito sem a formulação de um pensamento coerente.

Em segundo lugar devo agora passar às manifestações prévias do grupo formado em 2008:

          Elas incluíram pintar o membro masculino em uma ponte emSão Petersburo, encenar uma orgia pública no Museu Timiryazev em Moscou que tinha nudismo e aparentemente um ato sexual completo com penetração (Nadezhda Tolokonnikova, uma das acusadas no episódio da igreja, participou da performance já em adiantado estágio de gravidez), jogar gatos vivos nos funcionários de um restaurant McDonald’s em Moscou, capotar carros de polícia, sendo que em uma ocasião aparentemente havia um policial dentro, jogar coquetéis Molotov em edifícios, simular o enforcamento de um imigrante e de um homossexual, jogar cinco baratas vivas sobre estômago da grávida Tolokonnikova e o roubo de um frango congelado de um supermercado que foi enfiado na vagina de uma dasmulheres do grupo.

            Leitores, reitero aqui que não tenho como confirmar essas informações, mas se elas forem fidedignas como acredito que sejam, meu objetivo com isso é o de frisar um ponto:o de que caímos em uma cilada perigosa quando levamos a sério pessoas cujo propósito é o de mera avacalhação, o protesto niilista, e as defendemos com unhas e dentes em nome da liberdade de expressão, e por outro lado, não levamos a sério pessoas como o Julian Assange, que prestou serviços inestimáveis de revelar muitos trambiques perpetrados à custa da população em geral, e está refugiado na embaixada do Equador e considerado como simples estrela mediática. O perigo é que nossa indignação contra a sorte de mulheres oprimidas seja a de inocentes úteisque acabam servindo a agenda daqueles que querem eleger determinados bodes expiatórios para satisfazer seus próprios interesses.

Uma última palavra: Mônica, agradeço por ler meu artigo e ter me levado a escrever este outro.

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Maquinas maravilhosas

            No último final de semana fui convidada por uma amiga a ir à casa de veraneio dela em um condomínio em Embu Guaçu, na região sul de São Paulo. Diante dos dias tórridos que vêm ocorrendo nada melhor do que uma escapada a um lugar cheio de mata, com cachoeira, piscinão, ar puro. Como eu tinha coisas a fazer durante o dia, não pude aproveitar a carona de minha amiga na sexta-feira e então combinei que iria no sábado no final da tarde. Ela deu-me instruções sobre o ônibus a tomar, Embu Guaçu Cipó no terminal Jabaquara. Eu desceria no ponto final e lá ela me pegaria.

            Lá fui eu toda animada sonhando acordada com meu pulão na água no domingo. Cheguei ao ponto de ônibus exatamente às 18:10 e depois de 50 minutos de espera em que para passar o tempo li o jornal de domingo, o ônibus intermunicipal chegou. Quando o vi estacionado senti um alívio: putz, minhas pernas já estão doendo! Graças a Deus eu poderia sentar e apreciar minha experiência antropológica de reconhecimento de Parelheiros, bairro de que já ouvira tanto falar e que nunca tinha tido a oportunidade de conhecer. Duas horas sentada seria suficiente para eu observar o povo, os lugares, protegida pela janela do ônibus.

            Meu alívio durou pouco. Quando vi o cobrador e o motorista saindo do carro, pensei: droga,vai demorar ainda para nós partirmos! E de fato o cobrador sumiu e o motorista pendurado no celular também. Eu já não tinha mais o que fazer, já tinha lido o jornal de cabo a rabo. “Caramba, o que está acontecendo? Este motorista só fala no celular e o cobrador fica correndo de cá para lá! Foi então que ouvi a notícia trágica do motorista, dada aos primeiros da fila: o pneu dianteiro esquerdo tinha furado e não havia outro carro para substituir. Fiquei atarantada. O que fazer, esperar o próximo ônibus ou voltar à minha casa? Com um fio de esperança já descendo pelo ralo, fui em direção ao motorista. Lá estava ele ao lado do pneu, totalmente arriado. Eu perguntei: O senhor tem previsão de quando vem o próximo ônibus? Ele disse não sei, não dá para saber. Eu pensei: realmente é demais, ficar esperando aqui mais uma hora, sem nada para matar o tempo! Como diria Machado de Assis, nós matamos o tempo e o tempo nos mata…

            Fui embora, bufando: “onde já se viu, a EMTU não fazer a manutenção do ônibus? Como deixam chegar a esse estado? Será que não vêem que aumenta o risco de acidente?” Mas pensando bem deveria me considerar uma felizarda, pois deixei para trás umas trinta pessoas que não tinham a opção como eu de voltar à “Rive Gauche” de metrô porque moram na periferia a que se tem acesso somente de ônibus. Fui privada do direito a um simples dia de lazer e os infelizes que ficaram lá privados do direito de voltar para casa mais cedo. Por essas e por outras, incluindo a superlotação de metrô e ônibus, é que os usuários de transporte público se sentem excluídos, excluídos de conforto, de pontualidade, de segurança, de ar condicionado (não há ar condicionado na maioria dos ônibus porque mesmo em um calor de 40 graus no verão, isso é considerado item de luxo, inacessível aos tipos que freqüentam os veículos públicos).

            Daí o sonho de todo brasileiro é pertencer à classe dos incluídos, o que para nós não significa ser um cidadão que pode exercer de fato seu direito ao transporte público de qualidade. Que nada, tudo o que é público no Brasil é coisa de pobres, pretos e otários. Ser incluído é não depender de transporte público, é resolver seu próprio problema pela compra, que é o que a lavagem cerebral da propaganda nos ensina, o consumo resolve seus problemas. No caso a compra milagrosa que cura todos os males é a do carro. Ser incluído é ter um carro. É verdade que há mais incluídos do que outros, como diria George Orwell. Há os que têm um “carrinho”, geralmente carros mil pagos em 50 prestações, há os que têm um carro legal, os modelos nacionais mais sofisticados e há os happy few que têm “the car, the legend”: SRVs, SUVs e todos os vs importados. Ser importado é fundamental. O Audi A3 no início era coisa fina, depois que começou a ser fabricado no Brasil, foi rebaixado de patamar.

            O carro em nossa sociedade de fato é um dos maiores símbolos de pertencimento. Um homem que têm um carro “top de linha” tem poder, têm um membro sexual maior, e portanto têm mais mulheres, ou homens, a depender da preferência é mais bem sucedido. Mulheres independentes que fazem questão de mostra seu novo poder aos homens compram carros cobiçados pelo sexo oposto. Talvez seja um bom estratagema para conseguir um namorado: compre um carro e ele, atraído pelo bólido gostará de você, afinal você é uma pessoa que pertence à sociedade. Pobre de mim, sinto-me uma ovelha negra: nunca me interessei em dirigir, apesar das pressões familiares, e sempre que tenho alguma dificuldade de chegar a um lugar, seja fora ou dentro de São Paulo, há alguém para me lembrar do meu pecado original e me fazer sentir culpada: “tá vendo, se você tivesse seu carrinho…”

            Se eu tivesse meu carrinho seria mais uma contribuinte ao engarrafamento constante em São Paulo, que tende a aumentar exponencialmente, já que batemos recorde em cima de recorde, foram 3,5 milhões de unidades vendidas em 2010, faltam autopeças para suprir a demanda.  Este é um dos símbolos do sucesso brasileiro, a transformação radical por que passou a indústria automobilística na nossa terra. Há 20 anos a produção patinava em 700 mil unidades e tínhamos que nos contentar com as “carroças” vendidas pelas quatro montadoras aqui instaladas. Agora há uma profusão de máquinas maravilhosas para todos os gostos, facilitada pela alta do real, e novas montadoras instalar-se-ão no Brasil, Honda, Hyundai, além daquelas que já abriram fábricas no Brasil, para atender a sofreguidão dos brasileiros em pertencer.

            Agora finalmente somos modernos! Mas será que somos desenvolvidos? Temos carros, mas não temos onde pô-los, porque a malha viária está em pandarecos no Brasil, dada nossa crônica insuficiência de investimentos em infra-estrutura. E aqueles que não têm condições de comprar um carro ou não querem, como eu? Bem, aos excluídos, virem-se! O Estado não pode ou não quer concretizar o direito do trabalhador ao transporte, previsto na Constituição Federal em seu artigo 7, inciso IV.

            Dirão alguns leitores do Montblatt que sou uma rabugenta, afinal as estradas, ruas, viadutos para escoarem tantos carros virão com o tempo, à medida que o PAC frutificar, que o nosso déficit em conta corrente seja coberto pelos investidores internacionais, ansiosos por aplicar seu dinheiro a taxas escorchantes, com garantia de pagamento. Afinal, o real valorizado “é conseqüência natural do nosso progresso”. Quem disse isso foi o egrégio banqueiro, um dos donos do BTG Pactual, doutor no MIT, Pérsio Árida no Globo do dia 6 de fevereiro, que acaba de comprar a parte boa do Banco Panamericano (a parte podre será custeada por nós otários contribuintes).

            Parafraseando Claude Lévi-Strauss, ser Terceiro Mundo é isso: é se atracar à modernidade, sem passar pelo estágio civilizador de desenvolvimento, que permita que a modernidade seja mais que uma fachada, seja mais do que truques destinados a agradar certas pessoas à custa da maioria. Espero poder viver um dia em um país em que não ter uma máquina maravilhosa seja uma opção viável a qualquer indivíduo, que antes de ser consumidor, é um cidadão. Será que viverei para ver esse dia chegar?

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Dica na internet

            Consultando a imprensa brasileira, a escrita, a falada e a eletrônica, temos a impressão de que vivemos no melhor dos mundos possíveis: níveis recordes de emprego, boom imobiliário, capitalização recorde da Petrobrás, consolidação democrática, crescimento econômico impulsionado pela Copa, investimentos estrangeiros crescentes etc. Não há nenhum fator de risco, nada que possa atrapalhar nosso caminho. Ou melhor, se há, ele fica bem escondido pelas meias-verdades que nos são contadas. O boom imobiliário é à custa da alienação fiduciária, em que os grandes beneficiários são os bancos, a consolidação democrática veio à custa de um debate político mínimo, os investimentos estrangeiros são para comprar dívida, aproveitando nossa taxa de juros recorde, não são produtivos, geradores de emprego.

            Caso os leitores do Montblatt queiram ter uma visão mais ácida da realidade consultem o site www.globalresearch.ca., que se propõe a analisar os efeitos da globalização. Ele tem muitos artigos, incluindo de Fidel Castro, e o melhor é selecionar o que se vai ler. Eu às vezes vou pelo tema. Outro dia peguei um artigo sobre o Brasil, intitulado “Brazil’s Debt Crisis” que me permitiu entender o porquê de a privatização de serviços públicos como educação, saúde e de infra-estrutura é, ao contrário do que dizem os panglossianos, contraproducente do ponto de vista econômico.

            Mas meu principal critério de escolha é pelo autor. Há um colaborador, chamado Paul Craig Roberts, que foi secretário assistente do Tesouro americano no governo Reagan que me é particularmente caro. Cheguei até a lhe mandar um e-mail de agradecimento pelas suas sábias palavras, e ele respondeu-me brevemente, mas de maneira cortês. Paul Roberts fala principalmente dos Estados Unidos, da decadência econômica, moral e política do Tio Sam, que se desindustrializou, se endividou para financiar guerras injustas e inúteis e agora vê seu povo empobrecer sem que a classe política, comprometida com o consenso das elites globais financeiras, faça nada para salvar o povo. Ao contrário, ela contribui para enterrar o futuro dos americanos de vez, ao insistir em distribuir maná aos bancos, cortar benefícios sociais e aprofundar a dependência dos manufaturados da China e da disposição desta de financiar o déficit americano comprando títulos do Tesouro.

            Um outro site que sempre consulto é o www.takimag.com. Fundado por um colaborador da revista inglesa The Spectator, ele é a princípio impalatável para nós habitantes do Sul, porque seus colaboradores são politicamente incorretos: defendem controles à imigração por considerar que ela mina a unidade cultural e racial dos EUA, nos consideram inelutavelmente inferiores, mas desconsiderando a parte que nos toca, são acerbamente críticos do papel atual dos EUA como potência imperialista que se arvora o direito de impor seus valores mundo afora. Entre seus colaboradores está um ex candidato a presidente Pat Buchanan. Recentemente ele passou por uma transformação que o tornou mais fútil, com fofocas sobre celebridades, coluna social, mas mesmo assim merece uma olhada. É sempre interessante saber o que os arianos do Norte verdadeiramente pensam sobre nós, para além dos discursos regado a sorriso Colgate que falam sobre cooperação, metas do milênio, e toda a lenga lenga hipócrita que nos impingem para fingir que se importam conosco.

            O fato é que a internet, além de ser repositório dos orkuts, facebooks e outras inutilidades, também vem se transformando num canal alternativo para pessoas que não encontram espaço para suas idéias na mídia tradicional, controlada por grupos econômicos. (O editor do Montblatt que o diga) O pior na imprensa não é que seu conteúdo seja comprometido com determinados interesses, afinal todo e qualquer ser humano que escreve ou fala algo o faz à luz de seus valores que, por serem subjetivos, são passíveis de crítica. O que é insidioso é que as opiniões nos são passadas como se fossem verdades naturais e portanto, indiscutíveis. Deveria ser tarefa do jornalista, ao dialogar com seus usuários, admitir abertamente de que lado está, no que acredita, e assumir a responsabilidade por isso. Imprensa livre é aquela em que o debate de ideias fica mais fácil quando sabemos das premissas dos debatedores. Assim evitam-se desentendimentos e chega-se mais rápido a posições esclarecedoras. A internet talvez venha realizar a tarefa de desmistificar o trabalho do jornalista, mostrá-lo em suas verdadeiras cores.

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