Marina e o meio ambiente

Sustentabilidade: solução ou mistificação?

        Nesta semana Dona Marina Silva escolheu seu companheiro de chapa, Guilherme Leal, vice-presidente da Natura, empresa campeã da idéia de sustentabilidade. Nada mais coerente não? A campeã do meio ambiente se alia à entidade que veicula por meio de suas campanhas publicitárias, a mensagem de que é possível aliar crescimento econômico com preservação do meio ambiente, ou melhor, que só há desenvolvimento econômico com respeito ao meio ambiente. Sem sustentabilidade não há linha Ekos de cosméticos, não há sabonete de maracujá, creme de andiroba e por aí vai, portanto não há verdadeira riqueza: afinal a pele macia, o cabelo sedoso mostram que a pessoa tem uma grande qualidade de vida, não é mesmo?

         Ironias à parte, o ponto que quero discutir aqui e se essa tão propalada idéia de sustentabilidade pode ser realizada na prática em proveito do nosso povo. Será que é possível uma saída pela qual o crescimento econômico e a preservação do meio ambiente não entram em conflito? Será que há sempre uma terceira via pacificadora? Esta é a mensagem da Marina, sua marca registrada.

       A necessidade de levar em conta os impactos ambientais de grandes obras públicas como hidroelétricas tem sido incorporada pelo Poder Público, seja por ações do Ministério Público, seja por especificações dos próprios editais de licitação. A Usina Belo Monte é um exemplo. O reservatório será do tipo fio d’água que inunda uma área menor, e portanto, destrói menos as áreas ao derredor. Ao mesmo tempo, por depender mais do regime de chuvas, não produzirá energia quando o Xingu estiver com menor volume na estação seca.

        Aqui se coloca uma questão: para que então fazer uma usina desse porte, gastar o volume de dinheiro que iremos gastar, se ao final a produção da usina será pífia? Querendo aliar preservação e produção de energia para turbinar o crescimento econômico, teremos o pior dos dois mundos: destruição do meio ambiente e não geração de eletricidade suficiente.

      O que quero mostrar é que a ideia de sustentabilidade, por mais atraente que pareça para vender cosméticos, para receber medalha de honra do Greenpeace, para atrair o James Cameron ao Brasil não serve para balisar um governo. Pois governar é traçar metas, estabelecer prioridades, trabalhar para alcançá-las e preparar-se para enfrentar os efeitos colaterais da negligência de outros aspectos.

       A China claramente prioriza o crescimento econômico, a ponto de ter grandes índices de poluição do ar e da água, problemas sérios de desertificação, e mais importante, não se comprometer com nenhuma cláusula de diminuição de emissão de gás carbônico (da qual é campeã), como ficou claro na reunião de Copenhagen. Os chineses consideram que têm direito de poluir para crescer, como os países ricos fizeram por 200 anos para se industrializar, e ignoraram solenemente as pressões internacionais para estabelecerem limites de emissão.

     Por outro lado, eles estão se conscientizando dos estragos causados e realizando medidas, financiadas pelo dinheiro que acumularam nestes últimos 20 anos, para sanar os problemas, Isso inclui o maior programa de reflorestamento do mundo, investimento maciço em fontes de energia alternativas (eólica, por exemplo), investimento em tecnologia verde para serem pioneiros nas novas indústrias do século XXI e buscando novos fornecedores de matérias primas na África e América Latina para garantir que terão combustível para crescer ainda mais.

     Em suma, as vantagens que conseguiram conquistar com o crescimento econômico a todo custo, dinheiro e tecnologia, estão sendo utilizadas para enfrentar as desvantagens trazidas por esse modelo.

     Não digo que devamos adotar este modelo para o Brasil, meu objetivo é o de mostrar que qualquer opção que façamos, mesmo a tão atrativa terceira via da sustentabilidade, implicará custos e benefícios. De qualquer forma a sociedade brasileira precisa estar ciente de tais implicações, e não se deixar encantar por palavrinhas mágicas que fazem sentido para os marketeiros, mas pouco sentido em termos de políticas de governo.

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Esquerda (direita) rosé

            Na semana passada ao falar sobre as agruras de Dominique Strauss Kahn, eu acabei dando uma definição de que ser de esquerda é querer tirar dos ricos para dar aos pobres e de que ser de direita é querer tirar dos pobres para dar aos ricos. Sob essa ótica, ser de esquerda é mais ético, porque está-se a fazer justiça social, ao passo que ser de direita seria imoral e até mesmo cínico. Mas ao longo da semana alguns episódios ocorreram que me fizeram refletir sobre essa visão.

            Não falarei aqui do grande mundo representado pelas roubalheiras do Palocci, pela desfaçatez da nossa (in)Justiça que depois de onze anos finalmente resolveu prender o Sr. Pimenta das Neves. Falarei aqui do meu pequeno mundo, particularmente da minha faculdade. Nesta semana veio à tona, por uma série de contratempos que houve entre alunos e elementos estranhos ao corpo docente e discente, que na sede do Centro Acadêmico há venda de drogas aos alunos. A celeuma foi muito grande, afinal como pode haver a prática de atos ilícitos em uma faculdade de direito? Muitas críticas foram feitas à atual gestão do XI de Agosto, por estarem coniventes e até se aproveitando do tráfico para conseguir comprar  droga para eles mesmos.

            O interessante para mim foi ouvir os argumentos colocados pelas partes: os diretores do Centro, eleitos no ano passado pelo partido dito Fórum da Esquerda, ante a exigência feita pelo pessoal da “direita” da faculdade de chamar a polícia e mandar os traficantes embora, argumentaram que o porão, como é chamado o local, é um espaço público e que não se pode simplesmente barrar a entrada de pessoas a priori, mas se eles tentarem vender drogas OK, haverá um segurança a mais para coibir.

            Na verdade há muito indivíduos, moradores de rua do entorno do Largo São Francisco que prestam pequenos serviços como coleta de garrafas quando há festas na faculdade. São pessoas da “casa”, que já conhecem o pessoal do Centro Acadêmico e estão sempre por lá. Como simplesmente expulsá-los sob o argumento de que são traficantes? Não é preconceito social e racial julgar as pessoas pela aparência, só porque são pretos e pobres como diria Caetano Veloso?

            Em uma reunião realizada para discutir o assunto, disse um dos membros do Fórum de Esquerda que quem quisesse estudar sem ter mendigos por perto, como ocorre com aqueles que estudam em uma faculdade pública no centro da cidade, que fossem então estudar no Mackenzie, em Higienópolis, local de gente diferenciada, onde não há mendigos. Nisso ele foi rebatido por um representante da “direita” que disse a ele: “Ué, tá com pena leva pra casa! E desse modo prosseguiu a reunião, os dois lados repetindo clichês como “Respeite o Centro e o Centro respeitará você”, “As coisas tem que ser resolvidas depois de profunda discussão”. “É proibido proibir”. “Não adianta ser hipócrita”.

            E assim, tudo ficou como dantes no quartel de Abrantes. De um lado os diretores do centro acadêmico certos de suas convicções, continuarão sendo freqüentadores assíduos do porão, onde passam o tempo todo discutindo as questões sociais e sendo totalmente negligentes com relação à tarefa para a qual o Estado lhes colocou lá, que é estudar Direito. Sairão depois de cinco anos com um diploma no bolso, conseguido à custa de um privilégio, e certos do seu papel político, com certeza arvorar-se-ão representantes dos movimentos sociais, e para isso tentarão conseguirão gordas prebendas por meio de seus contatos, afinal conhecem todo mundo, os funcionários da faculdade, os mendigos da faculdade, os meliantes da faculdade.

            De outro lado, haverá os alunos de “direita” que sequer pretendem se apiedar dos mendigos, que são a favor da ordem e da disciplina, mas que têm em comum com os de esquerda o fato de usufruírem do privilégio da educação superior gratuita sem se preocuparem muito com as conseqüências práticas disso. Afinal, qual deveria ser o objetivo público de o Estado dar tal privilégio? Será o de simplesmente perpetuar a posição favorecida de alguns poucos, seja de direita ou de esquerda, ou de investir nessas pessoas para que elas possam render frutos depois e contribuir com a prosperidade da sociedade como um todo? Será que não deveria haver uma conscientização maior por parte dos alunos e professores de que o papel da elite deveria ser o de dar o tom na sociedade isto é, estabelecer padrões de conduta ética que, embora em última análise sejam elaborados à imagem e semelhança dela ao menos tenham um mínimo conteúdo de justiça?

            Mas não, ao contrário o que temos é uma divisão da faculdade em guetos, tribos, os “maconheiros”, os “nerds”, os nazistas”, os “esquerdistas”, os “alienados” que não dialogam verdadeiramente porque não entendem ou não querem entender as premissas mútuas. E o resultado é uma má formação de ambos os campos. Aqueles que passam os cinco anos flauteando no Porão terão aprendido alguns clichês jurídicos sobre direitos humanos, devido processo legal, etc. e talvez algum dia exerçam a profissão, mas sem muita pressa, porque não precisam lutar para sobreviver. Os mais pragmáticos, que querem ganhar dinheiro e arranjar um bom emprego, terão estudado mais para serem operadores da técnica jurídica, sem nenhuma preocupação de como sua justiça, a justiça que ele praticará graças ao seu diploma gratuito, afeta os brasileiros comuns.

            Por isso digo que muito mais importante do que ver quem é de direita e quem é de esquerda, o mais importante é saber quem está pagando e quem está ganhando na sociedade, e daí quem tem vontade de mudar a situação e quem não tem. Em nosso Brasil, a direita e esquerda acabam se fundindo num rosa insidioso que por ser claro e benévolo, sempre acaba se perpetuando no poder.

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Democracia tupiniquim

            Nesta semana lia na Revista Getúlio, publicação bimestral da Fundação Getúlio Vargas, uma entrevista com uma professora de relações internacionais da casa, Maria Lúcia Pádua Lima, para quem “além das vantagens de recursos naturais abundantes, agricultura forte, indústria desenvolvida e boa gestão, o país tem a garantia de uma democracia consolidada”. É de causar espanto em como se formou, mesmo em meios acadêmicos de elite, um consenso em torno da situação do Brasil, cujo elemento mais notório é a tal estabilidade institucional. Na opinião da ilustre professora, a vantagem competitiva do Brasil em relação à China é a estabilidade da nossa democracia em comparação à estabilidade inerente de regimes autoritários como o chinês.

            Essa entrevista me levou a pensar sobre o significado que no Brasil adquiriu a palavra democracia. Parece que aqui o fato de não termos mais golpes de Estado, regimes de exceção é tudo o que se pode esperar da democracia. A eleição de um candidato ungido pelo ocupante atual do cargo é uma conquista, pois significa que as políticas bem-sucedidas de estabilidade monetária e os programas de renda mínima serão continuados e aprofundados. Nossa normalidade democrática chegou a tal nível de sofisticação que votar em Dilma, Serra ou Marina será como escolher a cor da gravata: vermelha, azul ou verde tanto faz, porque estamos no caminho inexorável de nos tornarmos um “player agressivo no mercado global”. Viva a democracia brasileira, vivam as urnas eletrônicas, viva a primeira “presidenta”!

            Mas será que democracia é só isso? Será que não estamos na verdade nos atendo aos piores aspectos da democracia e sendo incapazes de lhe aproveitar as vantagens? A democracia faz com que as decisões demorem mais a serem tomadas, porque as políticas governamentais estão mais sujeitas à influência de grupos de pressão, que podem impedir que medidas mais enfáticas sejam tomadas. A China não tem esse problema: seu governo consegue estabelecer uma estratégia definida de inserção do país na economia globalizada, mesmo que ela implique haver grandes perdedores: os indivíduos que perdem sua propriedade para os incorporadores imobiliários,  os habitantes das cidades que sofrem com a poluição causada pela industrialização a todo custo, os pescadores e agricultores que perderam seu meio de vida com a construção da faraônica usina hidrelétrica de Três Gargantas.

            O Brasil, por ser uma democracia, não consegue fazer valer medidas tão drásticas como as que a China consegue. Por outro lado, a democracia permite o debate e o debate supostamente leva ao aprimoramento das políticas públicas. Se houvesse debate na China talvez eles não tivessem tantos problemas ecológicos, tantas pessoas sentindo-se injustiçadas com desapropriações. Será que no Brasil fazermos uso dessa vantagem?

            A resposta óbvia é não, como se pode ver nessas eleições. Não houve nenhuma discussão séria a respeito da situação do Brasil, todos os candidatos só tecendo loas ao status quo e prometendo fazer ajustes finos. Críticas são inexistentes. E teríamos muitos motivos para tal. A educação no Brasil é um descalabro, descalabro porque mesmo nossas melhores instituições estão a ano-luz de padrões aceitáveis nos “grandes players globais”: as escolas mais bem colocadas no ENEM conseguem apenas um desempenho mediano (nota 6) se avaliado de acordo com o teste internacional  PISA; nossa melhor universidade, a USP, fica no pelotão das 150 melhores universidades do mundo de acordo com o ranking da Universidade de Jiao Tong da China, sendo ultrapassada de longe por universidades de países com população infinitamente menor, como Israel e Finlândia. Nossa infra-estrutura está em frangalhos e não há PAC que possa resolver isso sem uma discussão séria de como poderemos aumentar nossa capacidade de poupança para realizar os investimentos necessários. O crescimento brasileiro está baseado no endividamento, tanto das famílias quanto do governo, nos sujeitando às oscilações do mercado financeiro mundial. O Brasil está envelhecendo antes de ter enriquecido e não há ninguém na mídia, na classe política que nos lembre disso.

            Enfim, parece que a democracia em terras tupiniquins contentou-se em resumir-se a um consenso em torno de um mínimo denominador comum. Vamos indo, empurrando com a barriga nossos problemas estruturais e focando apenas no pouco que deu certo, sem nos preocuparmos com o muito que se não resolvido, pode se revelar catastrófico. Viva a estabilidade democrática!

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Democracia corintiana

            Leio no UOL notícias que 60 mil pessoas se reuniram em Brasília para protestar contra a corrupção. Vira e mexe há alguma demonstração no Brasil contra a violência, contra a corrupção. Pombas da paz são soltas, as pessoas cantam e tocam bumbo, fazem uma grande fuzarca que vira manchete nos jornais do dia seguinte. Qual o efeito prático disso tudo? Por acaso nossas práticas políticas, culturais melhoram? Por acaso, as pessoas votam de maneira mais consciente, por acaso deixam de dar pequenos golpes cotidianos para burlar as leis que nos põem canga, por acaso deixam de se idiotizar vendo TV e dando importância desmesurada ao futebol? Por acaso, os mesmos indivíduos que xingam jogadores baladeiros, que pressionam pelo bom comportamento dos seus ídolos, que quebram as instalações do clube se ele vai mal no campeonato exercem o mesmo tipo de controle cotidiano sobre os donos do poder no Brasil?

            O que dizer de cada um dos três poderes da República? O vetusto Judiciário exerce sofregamente um grande lobby para ter seus proventos aumentados, e ao mesmo tempo se contenta diante da estatística de que 80% dos inquéritos sobre homicídios dolosos no Brasil não chegam a um culpado, e manda os promotores arquivarem os processos inconclusos para desafogar a justiça e satisfazer as metas de celeridade do Conselho Nacional de Justiça (está em O Globo do domingo, 4 de setembro). Ou seja, a tão propalada faxina na Justiça na verdade não passa muitas vezes de medidas perfunctórias que caem bem em um Balance Scorecard de desempenho que só enfoca números, mas que não têm nenhuma influência sobre a vida de uma família de pretos e pobres que perde seu ente querido e que não terá direito nem a saber quem é o algoz.

            O Executivo é o todo poderoso de plantão cujo poder de cobrar impostos tanto nos amedronta. Dona Dilma, na maior cara de pau, diz que é um bom momento para ressuscitar a CPMF. O único problema de sua primeira vida foi que não foi usada na saúde e desta vez claro terá o destino que merece, ser aplicada para cuidar dos doentes. Será verdade? Quando se analisa o que de fato está sendo feito nesse meio – aumento cada vez maior da presença da iniciativa privada na área da saúde, sucateamento deliberado de hospitais públicos, seu loteamento pelas seguradoras de saúde (vide o Hospital das Clínicas em São Paulo), criação de fundações de médicos e profissionais da saúde que nada mais fazem do que usufruir dos equipamentos públicos sem nada dar em troca, vemos que o objetivo da CPMF não será o de contribuir para diminuir as agruras dos diabéticos, hipertensos e outros doentes, mas apenas aumentar o caixa do governo.

            Governo este que freqüentemente bate recordes de arrecadação (R$ 90,247 bilhões em julho de acordo com a Receita Federal), aumenta o superávit primário, e nos faz presos aos ditames dos banqueiros: mais superávit, mais pagamento de juros, mais rolagem de dívida, menos investimento naquilo que interessa para tornar o país auto-sustentável e independente. Pelo contrário, o objetivo é tornar o Brasil cada vez mais refém dos financiadores dos políticos: os banqueiros, os grandes grupos econômicos, que são os principais beneficiários das tetas do governo. De um lado se beneficiam diretamente por empréstimos do BNDES ou do PROER, de outro se beneficiam indiretamente pela fraqueza dos órgãos reguladores que pouco fazem para coibir comportamentos anti-concorrenciais, desrespeitos ao Código de Defesa do Consumidor, exercício abusivo de direitos.

            Antes e depois das grandes privatizações dos anos 90 o Brasil continua a ser dominado por oligopólios: a Telefônica em São Paulo, um dos produtos da venda de estatais, é uma das campeãs de reclamações no PROCON e continuará sendo por muito tempo, pois o consumidor não tem alternativa de serviço. Argumenta-se que os investimentos em telefonia aumentaram depois das vendas das teles, mas isso poderia ter sido feito pelo próprio Estado se tivesse mantido capacidade de investir. Ao invés disso, vendemos o patrimônio público, e o consumidor é forçado a pagar tarifas escorchantes por luz, telefone, gás e ainda vivemos sob a constante ameaça de apagões e explosões, já que o seu Fernando Henrique Cardoso esqueceu-se de que o objetivo de uma privatização que realmente satisfizesse o interesse público seria atrair investimentos para aumentar a oferta de infraestrutura, e não simplesmente vender empresas a toque de caixa para resolver um problema pontual de combate à inflação que só fez dar aos empresários uma fonte de renda segura na forma das tarifas por serviços que já eram oferecidos antes de elas chegarem ao mercado.

            Seria lógico falar agora do Legislativo, supostamente o representante do povo, mas não perderei meu tempo com um local que abriga Tiririca, Renan Calheiros, Paulo Maluf pois nosso Congresso é mera prostituta de bataclã. Cria dificuldades, fazendo-se de virtuosa, ameaçando debandar, para vender facilidades. Seu papel é de chantagear o Executivo e depois abrir-lhe as pernas quando os nobres deputados e senadores conseguem aquilo que querem, verbas e cargos para seus apaniguados e para si próprios. Abrir as pernas e deixar que o Executivo enfie goela ou outro orifício qualquer abaixo as famigeradas Medidas Provisórias.

            Assim, nossos Três Poderes são oligárquicos e plutocráticos, servem aos poucos e ricos. Não vejo maneira de mudarmos essa situação seguindo exemplos de fora, especialmente por que tal tendência tem ocorrido nos próprios países centrais, em que a democracia sempre foi mais bem implantada, vide a derrocada dos EUA e União Européia, chafurdando em dívidas impagáveis e desemprego estrutural. Resta-nos somar esforços aqui dentro, para além de meros protestos esporádicos. Deveríamos nos espelhar no comportamento dos fanáticos do futebol que fazem marcação cerrada sobre aqueles cujo desempenham não os satisfazem. Um pouco de espírito corintiano aguerrido, pedras atiradas, carros quebrados, poderia fazer maravilhas para melhorar a qualidade dos nossos políticos, juízes, empresários. Quem sabe o futebol possa ser mais do que uma fonte de perdição e alienação e se torne a fonte de salvação da nossa combalida democracia?

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Civilismo já

            De acordo com o historiador Boris Fausto em seu livro História do Brasil, “a campanha presidencial de 1909-1910 foi a primeira efetiva disputa eleitoral da vida republicana.” De um lado estava o baiano Rui Barbosa, apoiado por São Paulo e Bahia, de outro estava o Marechal Hermes da Fonseca, apoiado por Rio Grande do Sul e Minas Gerais. “A candidatura civil de Rui, em oposição ao militar Hermes da Fonseca, deu nome à sua campanha: a campanha civilista. Pela primeira vez na história republicana, um candidato à presidência percorreu vários pontos do país em busca de votos” (Vitor Amorim de Angelo in http://educacao.uol.com.br/historia-brasil/campanha-civilista.jhtm ). “Rui procurou atrair o voto da classe média urbana defendendo os princípios democráticos e o voto secreto. Deu à campanha um tom de reação contra a intervenção do Exército na política. Atacou os chefes militares e contrapôs a Força Pública estadual ao Exército, como modelo a ser seguido. Embora a base política mais importante de Rui Barbosa fosse, naquela altura, a oligarquia de São Paulo, sua campanha se apresentou como a luta da inteligência pelas liberdades públicas, pela cultura, pelas tradições liberais, contra o Brasil inculto, oligárquico e autoritário. A vitória de Hermes produziu grandes desilusões na restrita intelectualidade da época.” (Boris Fausto em “História do Brasil”) Hermes obteve 403 mil votos e Rui Barbosa obteve 223 mil votos, tendo ganho de Hermes em São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador, sua cidade natal

            Lembrei-me deste episódio um tanto quixotesco da história do nosso Brasil quando li nesta semana a respeito do plebiscito que será realizado em 11 de dezembro no Pará para decidir pelo desmembramento do Estado em Carajás, Tapajós e Pará. É preciso que nós, aqui do Sul, nos mobilizemos contra esse absurdo. E quando digo nós, não estou incluindo os políticos, porque estes, mesmo que saibam que seus respectivos Estados ficarão ainda mais sub representados do que já são na Câmara dos Deputados e no Senado, não têm razões para se indignar porque estão todos comodamente usufruindo das benesses do poder, dos cargos públicos, dos empréstimos privilegiados do BNDES, naquele arranjo onde uns poucos ganham e a maioria perde que é tão tipicamente brasileiro. Nós, os trabalhadores do Brasil, é quem vamos pagar a conta.

            De acordo com cálculos do Ipea (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas), os custos anuais de manutenção de Carajás e Tapajós seriam de R$ 2,9 bilhões e R$ 2,2 bilhões, respectivamente, o que geraria um déficit de R$ 2,16 bilhões, montante que seria pago pelo governo federal. Em média, Tapajós gastaria 51% do seu PIB (Produto Interno Bruto) com a máquina pública e Carajás 23% –a média nacional é de 12,72%. (http://noticias.uol.com.br/politica/2011/07/20/dalmo-dallari-faz-requerimento-no-tse-para-que-o-brasil-todo-vote-sobre-a-divisao-do-para.jhtm). Ou seja, à exceção de Carajás que viveria da extração mineral, os outros Estados são inviáveis economicamente. Os que defendem que a criação de mais dois Estados na Federação estimularia o desenvolvimento regional devem com certeza estar se referindo à criação de empregos públicos: dois novos Judiciários, dois novos Legislativos, dois novos Executivos. Isso não significa criação de riqueza, significa aumento de despesas, que serão pagas por aqueles que trabalham e geram empregos e cuja renda é em grande parte garfada por um Estado que impõe uma carga tributária de 33,6%, superior a de países como Suíça (29,4%) e Canadá (32,2%) (http://www1.folha.uol.com.br/mercado/792959-carga-tributaria-no-brasil-e-maior-do-que-nos-eua-dinamarca-lidera.shtml), cujo nível de serviços públicos digamos que seja infinitamente melhor do que aquele que é oferecido em nossas terras tropicais.

            Já falei anteriormente neste espaço sobre o endividamento do Brasil e muito melhor do que eu o Paulo Passarinho. Os EUA estão dando um grande calote em todo mundo pela desvalorização de sua moeda, que provoca a valorização do nosso real. Não se sabe o futuro do Euro, se os eurocratas conseguirão fazer com que os países do Sul do continente engulam a pílula amaríssima de anos de depressão econômica para pagar as dívidas contraídas com banqueiros inescrupulosos. Em suma, podemos estar adentrando mares revoltos, com uma debandada dos especuladores que sustentam nosso vício de perdulários, o que nos obrigaria a aumentar ainda mais os juros, deteriorando ainda mais nossas contas públicas. Não é hora de torrarmos dinheiro público com bobagens como essa. É claro que há interesses poderosos por trás dessa iniciativa, por exemplo, da Vale que quer se livrar do inconveniente dos sem-terra, dos políticos que querem arrumar um jeito mais fácil de se elegerem. Mas é preciso que as pessoas de bem deste país se unam contra as forças do mal, para que não haja o locupletamento da minoria à custa da maioria silenciosa e bovina.

            Eu lancei um apelo aos meus colegas de faculdade para que levantassem essa bandeira no Centro Acadêmico XI de Agosto, cujos temas de luta recentes foram a mobilização pelos direitos dos homossexuais e contra os ataques machistas da imprensa contra Dilma e suas companheiras de ministério. Só recebi alguns poucos e-mails de gozação e uma sobranceira indiferença de quase toda a juventude dourada que estuda Direito na São Francisco na mesma turma que eu, para quem palavras como pagar contas ou declarar imposto de renda são etéreas, porque os mancebos são dependentes dos pais ou então funcionários públicos, querem mais é preservar o “esprit de corps”.

            Vejo no entanto, uma luz no fim do túnel. Dalmo de Abreu Dallari, professor da minha faculdade, apresentou requerimento administrativo ao TSE para que TODA a população brasileira seja consultada sobre a criação dessas novas unidades políticas, com base no artigo 18 da Constituição Federal. O requerimento será votado em agosto. É preciso que coloquemos pressão nesses juízes, porque se formos depender do bom senso deles tudo estará perdido. E se a divisão for decidida em referendo pelo povo paraense com certeza a divisão será aprovada no Congresso Nacional, dominado pela bancada do Norte e Nordeste, e sancionada por Dona Dilma para agradar a base aliada, já que entre suas convicções (se é que ela tem alguma) e a necessidade de ceder às chantagens, temos visto recentemente que seu caráter é fraco demais para resistir à tentação.

            O gênio da propaganda maligna Duda “Goebbels” Mendonça comandará a campanha pela criação de Carajás. O circo está sendo armado para os palhaços se apresentarem. É preciso que nós, as pessoas que pagam as contas deste Brasil, finquem o pé e não entremos no picadeiro.

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