A economia e suas falácias

Usar os juros contra surtos inflacionários é um remédio socialmente amargo. Primeiro, surto inflacionário é principalmente fruto de choques de oferta. Portanto, o remédio pode exigir uma profunda retração de demanda, da produção e do emprego […] Uma elevação da SELIC para dois dígitos poder á jogar o desemprego para além, dos atuais 12 milhões. Pode também restringir o consumo, num país em que quase cem milhões vivem o desespero da insegurança alimentar. E deverá aumentar o rendimento para os ricos, que parecem, a olho nu, ostensivamente mais ricos. […] Se minha análise estiver correta, a austeridade monetária não é só um remédio amargo; é ineficaz, concentradora de renda e politicamente irresponsável.

Trecho retirado do artigo “Juros e a morte súbita da democracia” escrito pelo economista Rogério Studart, associado sênior no Centro de Economia Política do Centro Brasileiro de Relações Internacionais e publicado no jornal O Globo em 17 de abril

 

O teto de gastos é a condição mais importante para se chegar ao crescimento sustentável. Porém, ele exige reformas, como a administrativa. […] O cumprimento do teto de gastos deve criar condição para que os juros caiam, permitindo aos concessionários se financiarem no mercado privado de capitais.

Trecho da entrevista dada pelo economista Affonso Celso Pastore ao jornal O Estado de São Paulo em 17 de abril sobre o documento que ele preparou para o candidato à presidência Sérgio Moro com diagnósticos e proposições econômicas

Falácias verbais – Essas falácias, chamadas de falácias da ambiguidade, surgem quando a conclusão é obtida por meio de um uso inapropriado das palavras. […] A falácia da figura de linguagem é o caso especial que decorre da confusão entre o sentido comum de uma palavra e seu emprego metafórico, figurativo ou técnico (exemplo: Na última semana, a Joana tem vivido nos píncaros do êxtase.” E qual é o endereço dela lá?”).

Trecho retirado do verbete sobre Lógica Aplicada sobre a edição de 1974 da Enciclopédia Britânica

    Prezados leitores, na semana passada eu abordei as propostas audaciosas que Sergey Glazyev têm para colocar a Rússia no caminho virtuoso seguido pela China em termos de alta crescimento econômico e distribuição de renda e as contrapus à receita da presidente do Banco Central russo, Elvira Nabiullina, que segue a cartilha de austeridade monetária que o FMI preconiza. Nesta semana, continuarei a discorrer sobre esse tópico comparando a opinião do economista da terceira via, Affonso Celso Pastore, cujas sugestões, em suas próprias palavras, fogem dos extremos, que são extremos, que são “extremos populistas, tanto o Lula quanto o Bolsonaro.” Farei isso tentando analisar o conceito de crescimento sustentável preconizado por ele como um exemplo de falácia, tal como definida no trecho que abre este artigo.

    Para Pastore, só estabelecendo o teto de gastos e aderindo rigidamente a ele será possível controlar as despesas governamentais de forma que a dívida pública não aumente exponencialmente, exigindo que as autoridades monetárias subam os juros para atrair recursos de investidores que permitam a rolagem da dívida e a manutenção do valor da moeda. Com o controle das despesas e a menor necessidade de financiamento público, os juros podem diminuir e com juros menores os investidores privados poderão captar dinheiro mais facilmente para investirem em projetos de infraestrutura. Tais investimentos permitirão que o Brasil volte a crescer e se a dívida pública diminuir consistentemente por meio da diminuição constante das despesas governamentais, os juros poderão ser baixados, o que facilitará a concessão de empréstimos aos concessionários que continuarão tomando empréstimos e investindo e fazendo a roda da economia gerar. Nesse sentido, o crescimento será sustentável, pois permanecerá ao longo do tempo pela adesão à receita correta, isto é, à realização de sacrifícios no curto e no médio prazo para colher os frutos no longo prazo.

    Este é o mantra que sustenta o sentido positivo que tais economistas responsáveis, não populistas, dão à expressão crescimento sustentável. E no entanto, se tomarmos o sentido literal de sustentável, podemos nos perguntar: o crescimento pode ser sustentado por quem? Nos ombros de quem será colocado o sacrifício da austeridade fiscal que gerará prosperidade econômica? A resposta quem nos dá é Rogério Studart. É a parcela mais pobre da população que sofrerá em duas frentes: tanto com os juros altos necessários para que o governo possa continuar rolando a dívida pública sem causar a desvalorização excessiva da moeda e a inflação, quanto com o corte das despesas governamentais necessário para que os juros altos possam no futuro cair.

    De um lado, os juros altos fazem com que os capitais disponíveis sejam canalizados para financiar a dívida pública. Sem investimentos produtivos não há geração de empregos, nem oferta de produtos, portanto há alta de preços mesmo não havendo consumo. De outro lado, o corte de despesas governamentais é sentido na pele pelas parcelas mais pobres. Afinal, quando economistas como Pastore falam de reforma administrativa, no mais das vezes na prática o que se consegue fazer, considerando o jogo de forças políticas no Brasil, é cortar as despesas de maneira indiscriminada e os grupos de funcionários públicos que estão na elite conseguem de uma forma ou de outra livrar-se dos sacrifícios fazendo greves ou pressionando deputados e senadores no Congresso por aumentos de salários ou regalias na aposentadoria não disponíveis para os mortais comuns.

    No frigir dos ovos, cortam-se professores, agentes comunitários, médicos, enfermeiros, que não têm o poder de influência que têm a turma de cima dos fiscais da Receita Federal, dos policiais federais, dos membros do Ministério Público, diplomatas, membros de Tribunais de Contas e dos magistrados do Judiciário, consultores legislativos, advogados-gerais, defensores públicos e procuradores da Fazenda, em suma as ditas carreiras típicas de Estado. Assim, esses cortes afetam os serviços públicos utilizados pela população mais pobre, como saúde e educação, e não afetam os serviços públicos prestados ao andar de cima, no caso os serviços de prestação jurisdicional, fiscalização de contas e de obrigações tributárias.

    Os sacrifícios necessários para o crescimento sustentável tal como preconizado por economistas ortodoxos como Affonso Celso Pastore na verdade recaem sobre quem menos deveria pagar o pato, porque tem menos gordura para queimar em termos de renda disponível para absorver altas nos preços e diminuição de serviços públicos gratuitos. E nesse sentido, a austeridade monetária sustentada pela população mais pobre acaba não criando crescimento sustentável nenhum, porque ele nem ocorre conforme prometido por essa receita de sacrifícios e nem tem condições de perdurar.

    A taxa de inflação média entre 2010 e 2021, medida pelo IPCA, ficou em 6.09%, o que é algo a se comemorar, considerando nosso histórico de hiperinflação nas últimas décadas do século XX. Mas tal meta foi conseguida à custa do sacrifício do crescimento econômico, impossível em um ambiente de pouco investimento. Entre 2001 e 2019 o Brasil cresceu 26,3% de acordo com o Banco Mundial, uma média de menos de 1.5% ao ano. E de acordo com números do IBGE, nossa taxa de investimentos como porcentagem do PIB só vem diminuindo desde a década de 90: 18,8% no período entre 1991 e 2000, 18,2% entre 2001 e 2010 e 18% entre 2011 e 2019. Como crescer sustentavelmente sem investimentos? E como haver investimentos produtivos se todo o capital disponível é atraído pelos juros altos oferecidos pelos títulos públicos? Como diminuir tais juros? Impondo os sacrifícios aos mais pobres pelo corte de despesas públicas? É só isso que os economistas “responsáveis” têm a nos oferecer? Mais desemprego e maior concentração de renda? Como garantir crescimento ao longo de vários anos no século XXI sem investir para que a população seja educada e saudável? Afinal, é viável no longo prazo colocar o tipo de crescimento preconizado pelos não populistas nas costas dos brasileiros que não têm representação política para garantir que eles não sejam os principais sustentáculos da conta a ser paga em termos de falta de investimentos, tanto públicos quanto privados, falta de emprego, falta de oferta de bens públicos e privados a preços acessíveis?

    Prezados leitores, a falácia de que somente a austeridade fiscal garante crescimento sustentável está proposta como o único meio-termo entre a polarização à esquerda e à direita. Oxalá que encontremos uma Terceira Via que rechace tal receita fadada ao fracasso, como mostra o desempenho pífio do Brasil no século XXI, que nos torna presos na armadilha de baixos níveis de investimento, de produtividade, de emprego, de renda, de consumo, de oferta e impede que a inflação seja controlada por outros mecanismos que não os juros altos, como por exemplo, pelo choque da oferta. Se continuarmos nessa trilha, ninguém, nem mesmo aqueles que são sempre chamados a fazer sacrifícios, poderá sustentar nosso crescimento.

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Oportunidades à vista

A busca é por cadeias mais curtas e mais ágeis e que também poluem menos. Diferentemente de outros momentos em que a industrialização contou com apoio do governo, agora é um movimento orgânico das empresas. Por outro lado, há movimentos contrários que não ajudam, como alta taxa de juros, que tende a tornar a tomada de decisão de investimento mais demorada.

Trecho retirado do artigo “Saída Nacional – Nó das cadeias globais estimula indústrias a aumentar a produção local, publicado na edição de 10 de abril do jornal O Globo

O que é a meta de inflação na prática? É um conjunto de medidas extremamente primitivo e internamente contraditório, cuja aplicação leva a economia à armadilha da estagflação. O Banco Central estabeleceu a livre flutuação do rublo, o que é absurdo do ponto de vista das metas de inflação em uma economia aberta, na qual a taxa de câmbio afeta diretamente os preços. E vemos como a desvalorização do rublo periodicamente acelera os preços. Além disso eles reduziram a política monetária a somente uma ferramenta absolutamente primitiva – a manipulação da taxa de juros básica. Mas essa taxa é a porcentagem na qual o Banco Central empresta dinheiro aos agentes econômicos e retira dinheiro da economia. Suas tentativas de suprimir a inflação pelo aumento das taxas de juros não conseguem ser bem-sucedidas na economia atual, porque quanto maior a taxa de juros, menor o crédito, menor o investimento, menor o nível técnico e a competitividade.

Trecho da entrevista dada por Sergey Glazyev, economista russo membro da Academia Russa de Ciências e do Conselho Financeiro Nacional do Banco Central Russo à revista eletrônica Business Online Magazine em 27 de março de 2022 intitulada “Acontecimentos como este acontecem somente uma vez a cada cem anos”

    Prezados leitores, neste meu humilde espaço eu muitas vezes tracei paralelos entre a Rússia e o Brasil, com relação, por exemplo, à mentalidade criada por longos períodos de tempos em que houve servos lá e escravidão aqui. Nesta semana, o objeto dessa busca de semelhanças será a economia. Pois lá como aqui há o embate entre os monetaristas e os desenvolvimentistas e no caso específico da Rússia atualmente tal disputa se dá entre a presidente do Banco Central Russo, Elvira Nabiullina, que segue a cartilha ditada pelo FMI, e Sergey Glazyev, que já foi conselheiro de Vladimir Putin e considera que as sanções econômicas impostas ao país pelas potências ocidentais é uma oportunidade única para o país mudar de rota totalmente  e seguir o caminho da China de altos níveis de investimento, desenvolvimento técnico, crescimento econômico consistente e prosperidade. Permitam-me tentar explicar as respectivas posições e vocês verão como elas são pertinentes à própria situação do Brasil.

    O FMI é a instituição que concede empréstimos a países em dificuldades financeiras para que eles possam honrar suas obrigações internacionais. Em troca dos empréstimos o FMI exige que o país siga os princípios que ele considera darem frutos, isto é que permitem que a moeda nacional tenha um valor estável. Para isso é preciso acumular reservas em moedas fortes, principalmente o dólar americano e o euro, os quais são obtidos pela venda dos ativos do país, como obras de infraestrutura (por exemplo, portos, aeroportos, hidroelétricas) e empresas estatais a investidores estrangeiros. Acumulando reservas o país construirá a confiança no valor da moeda local.

    Tal confiança é importante porque, o câmbio flutuante, outro dos princípios do FMI, faz com que a perda de confiança no valor da moeda traduza-se rapidamente em uma fuga de capitais do país. Para evitar tal fuga e as grandes oscilações cambiais, que afetam os preços dos produtos no mercado local, o Banco Central, além de acumular reservas, deve estabelecer uma taxa de juros que impeça a desvalorização excessiva da moeda e a alta de preços, isto é a inflação.

    Um último e importante fator que estimula a confiança dos investidores globais no valor da moeda é o controle do governo sobre as contas públicas, que permita que seja gerado um superávit primário para pagar os juros dos empréstimos soberanos contraídos no estrangeiro e assim manter o fluxo de capitais para dentro e para fora do país, sem que haja perdas bruscas do valor da moeda local. Caso haja uma fuga de capitais por algum motivo há duas saídas possíveis: uma alta exacerbada dos juros ou a venda de moeda forte para sustentar o preço da moeda do país que segue a cartilha do FMI.

    E quando o país obediente do ponto de vista da política econômica foge dos trilhos na seara política? Bem, o sistema internacional, comandado pelos Estados Unidos, impõe sanções. No caso da Rússia, um valor de 350 bilhões de dólares e euros mantidos fora do país foram confiscados como resposta à invasão da Ucrânia, iniciada em 24 de fevereiro.  Dona Elvira Nabiullina, que foi responsável pela acumulação dessas reservas desde 2013, viu seu castelo fortificado ser bombardeado. A propósito, a eficácia de quaisquer sanções que a tal da “comunidade internacional” impõe a um país recalcitrante depende justamente de quão à risca ele segue as orientações do FMI. Pois se o valor da moeda local depende inapelavelmente da quantidade de euros e dólares acumulada, então a indisponibilidade repentina desses sustentáculos monetários faz com que haja uma desvalorização brutal da moeda, encarecendo os preços dos produtos e deixando as pessoas insatisfeitas com a carestia, o que pode encorajá-las a derrubar o governo que não está agradando a “comunidade internacional”.

    Se para a presidente do Banco Central russo as sanções impostas devido à guerra na Ucrânia são um desafio a ser enfrentado com venda das moedas fortes que a Rússia tem dentro do país e com a alta de juros, para Sergey Glazyev está é uma oportunidade única de seu país sair da camisa de força imposta pelo cânone monetarista. O Banco Central não deve ter como única meta estabelecer metas de inflação e persegui-las a todo custo, pois isso causa estagflação. Limitar a oferta de dinheiro à disponibilidade de reservas internacionais torna o país dependente de capitais externos e sujeito à ação de especuladores que lucram com as movimentações do câmbio causadas pelas flutuações nas taxas de inflação e de juros.

    Conforme explica o trecho que abre este artigo, para Sergey o Banco Central deve preocupar-se em garantir a oferta de crédito suficiente para que haja investimentos na produção que permitam à Rússia mudar de patamar em termos de desenvolvimento, inaugurando um círculo virtuoso que quebre o padrão de falta de investimentos e falta de produção em que o país esteve mergulhado desde a década de 1990, quando começou a seguir a cartilha do FMI. Nas contas de Glazyev, 50 trilhões de rublos deixarem de ser produzidos, 20 trilhões de rublos deixaram de ser investidos e o único fruto dessa política monetarista são os 300 bilhões de dólares investidos em ativos estrangeiros para acumular reservas, ativos esses que foram perdidos devido às sanções.

    E como fazer para construir a confiança no rublo sem o pilar das moedas fortes? O economista russo propõe que a China, a Rússia e outros países da Ásia estabeleçam um sistema financeiro paralelo em que as trocas comerciais seriam feitas com base no valor médio de uma cesta de moedas de produtores de commodities, as quais incluiriam ouro, petróleo, metais, grãos e água. Com base nesse padrão monetário de referência, os países ofertariam crédito localmente sem estarem obrigados a manter investimentos em títulos do Tesouro americano para que sua moeda tenha valor.

    Será que esse sistema alternativo à dominância do dólar vingará? Para Glazyev, esta oportunidade é única de criá-lo porque a Rússia, privada de dólares e euros, não conseguirá comprar produtos manufaturados no exterior dos países que só transacionam em dólares e euros, e assim terá que substituir as importações, fabricando localmente. Mas se Elvira Nabiullina permanecer fiel aos princípios que ela introjetou como verdades absolutas, ela tentará manter o valor do rublo por meio de um aperto monetário sem precedentes que fará a festa dos especuladores e dos bancos, mas diminuirá a oferta de crédito para a produção.

    Prezados leitores, considerando que nós no Brasil também seguimos a cartilha do FMI há décadas, não seria a hora de nós também agarrarmo-nos a essa oportunidade de debandada? Afinal, de acordo com dados divulgados pelo jornalista Rolf Kuntz, temos um contingente de 37,3 milhões de pessoas desempregadas, desalentadas, subocupadas com insuficiência de horas e afastadas do mercado e o PIB crescerá apenas 1% neste ano. Será que aumentando os juros como está fazendo o Banco Central para manter o valor da moeda e segurar a inflação não estaremos apenas chafurdando no círculo vicioso da falta de investimentos, de produção e de emprego? Será que o combate à inflação não seria mais eficaz se fosse abordado não do ponto de vista do fluxo monetário, mas do ponto de vista do choque da oferta de produtos por meio da substituição das importações afetadas pela disrupção das cadeias de suprimento causada pela pandemia de covid-19 e pela guerra na Ucrânia?

   Como mostra o trecho na abertura deste artigo, as empresas no Brasil estão tentando produzir localmente por necessidade, mas para que tal esforço surta efeitos e seja sustentável no longo prazo, o governo precisaria ajudar diminuindo as taxas de juros e facilitando o crédito, para viabilizar investimentos e ganhos de escala. Infelizmente, prevê-se que no Brasil as taxas de juros serão baixadas somente em 2024, segundo estimativas divulgadas na edição de VEJA de 13 de abril. Enquanto isso, ficaremos presos na estagflação, assim como os russos ficarão se Dona Elvira continuar estabelecendo a política monetária do país. Sabemos quem são os clones dela no Brasil, pois eles têm estabelecido a política econômica do país desde o choque do petróleo em 1979, mas quem são os similares tupiniquins de Glazyev?  Quem sabe os debates dos candidatos à presidência revelem isso para nós.

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Obviedades ostensivas

“A definição ostensiva” pode ser definida como “qualquer processo pelo qual a pessoa é ensinada a entender uma palavra de outra maneira que não seja pelo uso de outras palavras.”. […] as palavras que têm definições ostensivas frequentemente denotam características recorrentes do ambiente, tais como membros da família, comidas, brinquedos, animais de estimação, etc. […] A linguagem, desde o início, ou melhor, desde o início da reflexão sobre a linguagem, corporifica a crença em pessoas ou coisas mais ou menos permanentes.

Trecho retirado do livro “Human Knowledge – Its Scope and Limits” do filósofo e matemático inglês Bertrand Russell (1872-1970)

Senadora do Estado do Tennessee Marsha Blackburn: Você consegue dar uma definição de mulher?

Juíza Ketanji Brown Jackson: “Não neste contexto, Eu não sou uma bióloga.

Diálogo ocorrido na sessão de sabatina da candidata à juíza da Suprema Corte dos Estados Unidos em 23 de março

 

[…] nós como humanos, não somos deuses nem oráculos. Só temos uma maneira de tentar alcançar a verdade: apresentar hipóteses e ideias, e depois avaliá-las, refutando aquelas que se mostram erradas. Se algumas ideias não podem nem mesmo ser expressadas, e outras não podem ser questionadas, então estamos desabilitando nosso mecanismo principal de chegar à verdade.

Trecho da entrevista dada pelo psicólogo Steven Pinker, catedrático da Universidade Harvard  à revista VEJA de 30 de março

    Prezados leitores, no livro mencionado na abertura deste humilde artigo Bertrand Russell propõe-se a investigar as características da linguagem natural para determinar que tipo de conhecimento é acessível ao homem. Para tanto, ele começa com as palavras que têm uma definição ostensiva, isto é, palavras cujo sentido pode ser explicado simplesmente mostrando à pessoa que está aprendendo a língua a que o termo se refere. Russell dá detalhes desse processo descrevendo o modo pelo qual as crianças aprendem a falar e como os adultos as ensinam. Podemos tomar como exemplo a palavra mulher.

    Para que a criança aprenda o que é uma mulher, é preciso que o adulto repita a palavra toda vez que a criança está em presença de um indivíduo que apresenta uma característica distintiva, facilmente observável, recorrente e emocionalmente interessante, de forma que com o tempo a criança adquira o hábito de associar o substantivo mulher a todos os seres humanos que apresentam um grau de semelhança que pode ser estabelecido imediatamente. Dessa forma, o sentido das palavras com definição ostensiva é obtido pelo reconhecimento sensorial de por parte do falante da língua que, depois de ser exposto inúmeras vezes à mesma experiência de ouvir o substantivo mulher ser utilizado para se referir a uma espécie com determinados atributos, aprende finalmente a fazer por si mesmo a associação entre o nome e o referente e a considerar isso como algo permanente.

    Nesse sentido, não é mera coincidência que a noção filosófica de substância, isto é, de natureza essencial esteja associada aos substantivos ou nomes da língua. Conforme explica o trecho que abre este artigo, a língua tem uma série de premsisas e entre as mais importantes está a de que certas coisas não mudam, são estáveis: qualquer falante da língua reconhecerá um cachorro, uma mulher, uma árvore. Falar que uma mulher é um significante utilizado para se referir a uma série de impressões sensíveis conectadas por uma similaridade e relações causais, mas sem identidade material, pode ser mais apropriado do ponto de vista estritamente empírico, mas não faz parte das regras do jogo do falante nativo da língua: para ele, o significado de mulher é óbvio ululante e basta ele apontar para um indivíduo do sexo feminino na rua que o sentido do substantivo ficará imediatamente cristalino.

    E no entanto, em pleno século XXI, ao menos nos Estados Unidos, as definições ostensivas estão sendo postas à prova, como mostra o diálogo entre a senadora do Tennessee e a a juíza que acabou sendo confirmada como nova ministra da Suprema Corte dos EUA. O significado de mulher não é mais o que costumava ser quando nós crianças aprendemos a associar o substantivo a indivíduos com características biológicas femininas, isto é, seios, poucos pelos, quadris mais largos que os dos homens. Tanto é assim, que Ketaji Jackson recusou-se a responder à pergunta sobre o que é uma mulher, pois o que era óbvio ululante passou a ser objeto de disputa ideológica, disputa esta que a juíza reconhece pela sua resposta.

     Afinal, se é preciso recorrer a um biólogo para uma definição do que é mulher, isso significa que não é mais possível a um mero falante da língua explicar o significado de mulher simplesmente apontando na rua um indivíduo: existem pessoas que têm características biológicas do sexo masculino e no entanto, se identificam como mulheres, se vestem como mulheres ou se comportam como mulheres ou simplesmente se sentem mulheres. Serão essas pessoas mulheres apesar de terem órgãos do sexo oposto porque o sentido do termo mulher não pode mais ser limitado por critérios estritamente biológicos? Havendo um aumento no número de critérios a serem aplicados para definir o que é uma mulher será possível daqui por diante reconhecê-las na rua? Será possível ensinar às crianças o sgnificado de “woman”, “femme”, “mulher” ou “mujer” apenas com base no tradicional método indutivo?

    Considerando as implicações da recusa da juíza em responder à pergunta, não admira que a senadora conservadora do Tennessee tenha usado tal resposta para criticar a educação progressista que, segundo ela, é oferecida às crianças americanas e tem como fundamento questionar as noções mais fundamentais. Se em 2022 a pessoa não consegue dar uma resposta direta a uma pergunta que até algumas décadas atrás teria como resposta o óbvio ululante, pois todos concordavam sobre o que era uma mulher e saberiam apontar uma mulher na rua, isso significa que há discordâncias profundas sobre os pressupostos da linguagem.

    De fato, aquilo que era substância imutável tornou-se fluido, sujeito a disputas ideológicas: quem acredita que a biologia é o único critério para definir o que é um indivíduo do sexo feminino continuará reconhecendo mulheres na rua com base em suas características físicas; quem acredita que a biologia é um critério limitado e utilizado propositalmente para oprimir minorias atribuirá um significado mais amplo ao substantivo mulher, de forma que ele deixará de ter uma definição meramente ostensiva: será preciso usar outras palavras para descrever o que é uma mulher, palavras que, ao descreveram o estado psicológico da pessoa digam respeito à percepção que ela pessoa tem de si.

    Aonde vamos parar se passarmos a nos desentender dessa maneira tão fundamental? Será que o caminho proposto por Pinker na abertura deste artigo para chegar à verdade ficará inviabilizado? De um lado há pessoas que consideram ridícula uma juíza que não consegue responder a uma pergunta óbvia sobre o que é uma mulher e de outro lado há pessoas que entendem perfeitamente a dificuldade de definir o que é uma mulher. Nesse contexto de polarização, como fazer para que os partidários da biologia e os partidários das minorias troquem ideias e pratiquem a racionalidade de Pinker, que nada mais é do que um humilde processo de busca da melhor aproximação possível da verdade, sem nenhuma pretensão de chegar finalmente a ela? Será possível discutir, isto é, dialogar sem insultar, quando não concordamos sobre o significado das palavras mais comezinhas da língua?

    Prezados leitores, o óbvio ululante de outrora abriu-se ao meio e criou um abismo entre pessoas de diferentes espectros ideológicos. O desafio será evitar que a fissura se alargue tanto que a margem esquerda do rio perca de vista a margem direita. Não deixemos de ter esperança: talvez um dia voltemos ao mundo das obviedades ostensivas em que todos éramos felizes como as crianças que aprendiam que mulher era uma mulher.

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De que lado da dialética ficaremos?

As regularidades e recorrências do tipo que normalmente se manifestam no reino da natureza são estranhas, sustentava Hegel, à esfera da mente e do espírito, que se caracterizava ao invés disso por implicar um impulso constante em direção à autotranscendência e à remoção das limitações sobre o pensamento e a ação. O homem não deveria ser concebido de acordo com os modelos mecanicistas do materialismo do século 18; ele era essencialmente livre, mas a liberdade que constituía sua natureza somente poderia ser atingida por meio de um processo de luta e de superação de obstáculos que eram eles mesmos a expressão da própria atividade humana.

Trecho retirado do verbete “Filosofia da História” da 15ª (1974) edição da Enciclopédia Britânica, sobre as ideias do filósofo idealista alemão Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831)

 

Toda a cadeia de produção, distribuição de produtos e logística, toda essa geografia de comércio será afetada. Estamos presenciando um princípio de fim da globalização como conhecemos”, afirmou a especialista em comércio internacional e professora adjunta de Direito Internacional da American University, Renata Amaral. “Como o Brasil vai continuar se dando bem com EUA, Rússia e China? A questão de escolha de lado vai ficar muito mais evidente daqui para a frente, e isso vai se refletir nas decisões de investimento futuro das empresas.

Trecho retirado do artigo “Pandemia e guerra põem a globalização em xeque” publicado no jornal O Estado de São Paulo em 20 de março

    Prezados leitores, na semana passada eu tratei do sistema de crédito social da China como uma aplicação direta da filosofia de Confúcio e o fiz com o intuito de ter uma ideia do que pode nos esperar se houver uma movimentação das placas tectônicas na geopolítica mundial de forma que a ordem mundial vigente desde o fim da Segunda Guerra Mundial e capitaneada pelos Estados Unidos seja substituída por outro sistema organizado sob princípios da cultura chinesa. Nesta semana, meu humilde objetivo é o de explorar como um novo estado de coisas pode surgir à luz dos ensinamentos de Hegel, o inventor da dialética, sobre o modo como a História se processa, além de algumas das características econômicas dele.

    Conforme o trecho que abre este artigo, a filosofia da história hegeliana colocava-se como contraponto ao materialismo, segundo o qual os fenômenos do mundo visível são resultado das interações entre partículas de matéria, as quais não têm nem inteligência e nem propósito, comportando-se como bolas que se chocam. Para Hegel, o homem é o sujeito da História, atua no processo histórico, toma decisões de acordo com o ideal que ele quer ver concretizado. Ao enfrentar obstáculos à concretização da sua ideia, o homem atua para superá-los e é por haver uma luta entre o que o homem quer e as condições materiais do momento que não se pode dizer que os acontecimentos históricos se desenrolam por meio de uma série de transições imperceptíveis. Ao contrário, eles são fruto do esforço e da ação humanos.

    Uma vez tendo surgido um novo modo de vida na sociedade a partir da atuação consciente do homem, suas potencialidades se concretizam na prática, e com o tempo o mesmo homem que por suas ações viabilizou a existência dessa sociedade específica percebe que ela é inadequada, que ela tem falhas. As instituições que antes eram aceitas de maneira inquestionável passam a ser vistas como entraves ao desenvolvimento pleno das aspirações do homem. Nesse sentido, cada fase do processo histórico contém os germes de sua própria destruição, a qual ocorrerá quando uma nova sociedade for constituída a partir da luta do homem para superar um estado de coisas que não mais atende seus interesses e anseios.

    Eis o processo dialético em ação, fruto da vontade dos sujeitos históricos atuando para dar à luz a um determinado estado de coisas, de modo que a tese proposta na mente e concretizada na prática gera em si mesma sua própria antítese e no futuro uma síntese é elaborada a partir do conflito. Sob essa perspectiva a História não é aleatória, cega, fruto do acaso, de uma confluência imprevisível de fatores que estão presentes simultaneamente em determinado momento no tempo.

    À luz dessa concepção de Hegel da História  como vontade presentificada, o que vemos ocorrer hoje é o parto de uma nova sociedade, diferente da sociedade globalizada baseada no princípio de que o comércio internacional, guiado pela atuação irrestrita das forças competitivas do mercado, resultará no melhor resultado possível para todos. Nesta antiga ordem que vigeu mais ou menos desde 1945 e à qual os países do Leste Europeu aderiram após a queda do Muro de Berlim, em 1989, alguns países se especializaram na produção de bens manufaturados, outros na prestação de serviços, outros na produção de commodities agrícolas, outros de commodities energéticas, e ainda outros de commodities minerais. Tudo funcionou muito bem quando as necessidades complementares dos países podiam ser facilmente atendidas pelas cadeias de suprimento organizadas em escala mundial e pela comunicação instantânea viabilizada pela internet.

    E de repente surge uma pandemia em novembro de 2019 que mostra aos atores da globalização as falhas no processo: em um momento de emergência médica, descobriu-se que itens fundamentais, como máscaras, equipamentos de proteção individual e respiradouros eram em grande parte fabricados na China, a qual naturalmente priorizou o atendimento de suas próprias necessidades internas, deixando seus parceiros comerciais desamparados quando tais produtos faziam a diferença entre a vida e a morte. Ainda hoje, mais de dois anos depois do início do surto de covid-19, se o pior já passou em termos de menos necessidade de internações em UTIs por causa do vírus, o fato é que o fornecimento de chips pela China, que em 2018 era o maior exportador mundial, com receitas de mais 300 bilhões de dólares ao ano, ainda não foi regularizado, o que afeta a produção de veículos, de eletrodomésticos e de equipamentos eletrônicos.

    Tais falhas ficaram ainda mais escancaradas em 24 de fevereiro de 2022, data do início da operação militar da Rússia na Ucrânia. O bloco liderados pelos EUA impôs sanções econômicas, que incluíram o confisco das reservas internacionais em moedas e em ouro que estavam depositadas fora da Rússia nos países ocidentais e o encerramento das operações no país de pelo menos 400 empresas desde o início da guerra. Como retaliação, a Rússia criou uma lista negra de países com os quais ela deixará de manter relações comerciais normais, incluindo a venda de fertilizantes, de trigo, de minerais estratégicos como o níquel, utilizado em baterias elétricas e as terras-raras utilizadas para a fabricação de semicondutores e baterias solares, para não falar do gás e do petróleo. Em suma, as cadeias globais de suprimento que fizeram a riqueza da economia mundial por meio da especialização que gerava eficiências de um lado e causava dependências perigosas em momentos de crise do outro, estão pouco a pouco se desfazendo.

    Face a essa dupla disrupção do comércio internacional pela pandemia e pela guerra, como os países responderão? Investirão recursos para tornar-se autarquias econômicas, produzindo tudo de que necessitam? Será que isso é viável para todos os países? Ou será que o caminho será escolher um lado e estabelecer relações comerciais unicamente naquele grupo para adquirir os produtos nos quais o país não goza de vantagem competitiva e por isso faz mais sentido econômico que sejam importados? De acordo com a opinião da especialista citada na abertura deste artigo, será inevitável que o Brasil faça sua própria escolha, seja pelos países do bloco ocidental, tendo à frente os Estados Unidos, seja pelos países do novo bloco da Ásia, a ser formado em torno da China e da Rússia.

    Se quisermos seguir as lições de Hegel, nós brasileiros teremos que tomar uma decisão sobre aquilo que queremos para nós e agirmos no mundo real para concretizar esse ideal. De que lado da dialética ficaremos? Será que atuaremos como senhores da nossa própria vontade e artífices da nossa própria História ou seremos simplesmente bolas que movem daqui para lá no xadrez da geopolítica internacional impulsionadas pelos reis, bispos e rainhas que nos empurram ao sabor das suas próprias decisões? Aguardemos.

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