Vidas quase paralelas

O tipo de transição que ocorreu ao longo de cinquenta anos no Ocidente chegará à China de repente daqui a cerca de 15 anos, quando um em cada quatro habitantes será um trabalhador sem qualificações, sem futuro, sem filhos e com pouco ou nenhum dinheiro guardado para a aposentadoria.

Trecho retirado do artigo “One for all” escrito por Hilary Spurling, resenhando um livro que conta a história da política do filho único na China

O Brasil ainda vivia sob a ditadura militar quando o Partido dos Trabalhadores (PT) foi fundado. Em 10 de fevereiro de 1980, no Colégio Sion (SP), o PT surgiu com a necessidade de promover mudanças na vida de trabalhadores da cidade e do campo, militantes de esquerda, intelectuais e artistas.

Trecho retirado do site oficial do Partido dos Trabalhadores, fundado entre outros por Luiz Inácio Lula da Silva

    Prezados leitores, 1980 é um ano em que os destinos de Brasil e China começam a correr de maneira paralela, sob um certo aspecto. Explico-me, antes de acharem que estou a falar de milagre econômico. No Brasil era fundado o PT, que catapultou Lula ao cenário político nacional, de tal maneira que ele foi eleito Presidente do Brasil em 2002 e 2006.Na China tornou-se lei a política do filho único, elaborada por um grupo de militares que haviam sobrevivido aos expurgos de Mao Zedong realizados durante a Revolução Cultural (1966-1976). O objetivo era evitar a explosão populacional no país e para isso foram criados estímulos monetários para os funcionários do governo fiscalizarem as mães e pais recalcitrantes.

    Havia uma verdadeira caçada a mulheres grávidas do segundo filho ou grávidas com menos de 24 anos, idade estabelecida como a mínima para a procriação. A mulher quando encontrada era arrastada para lhe arrancarem o filho do ventre, independentemente do estágio da gravidez, e quando não encontrada pelos zelosos burocratas, cujo salário era atrelado ao cumprimento de quotas de aborto, estes prendiam os pais da infeliz para fazer extorsões, chantagens e ameaças. Além disso, dada a preferência por um filho homem que carregue o nome da família e cuide dos pais idosos, a política inflexível do filho único levou ao assassinato de milhares de bebês do sexo feminino, seja por estrangulamento, ou ainda antes de nascerem.

    O plano estatal funcionou razoavelmente bem, e o resultado é que por volta de 2020 a China terá entre 30 e 40 milhões de homens supérfluos, o equivalente à população total do Canadá. Essa montanha de homens solteiros, sem possibilidade de fazer sexo por meios legítimos e razoáveis, está levando ao rapto e tráfico de mulheres de países asiáticos vizinhos. Estima-se que 100.000 mulheres da Coreia do Norte já tenham sido vendidas a chineses carentes, por 1.500 dólares per capita. Uma alternativa é a compra de bonecas de tamanho natural com cabelo verdadeiro, cílios e bicos de seio indestrutíveis. Além dessa geração de homens desajustados e solitários que não terão chance de ter relacionamento com mulheres de verdade, a política demográfica chinesa provavelmente minará as chances de o país entrar para o clube do Primeiro Mundo: estima-se que dez milhões de pessoas irão aposentar-se a cada ano, ao passo que o número de trabalhadores diminuirá sete milhões. Isso significará que dois adultos terão que cuidar de um filho único e quatro idosos, o que convenhamos, é um fardo pesado demais para ser carregado.

    Será praticamente impossível à China, que envelhecerá da noite para o dia, manter o ritmo alucinante de expansão econômica que conseguiu desde a abertura econômica de Deng Xiaoping em 1979. Esse frenesi foi possibilitado em parte por uma força de trabalho predominantemente masculina, o que mostra que no curto e médio prazo o déficit de mulheres foi um bônus para o país, antes de transformar-se na sua perdição no longo prazo. É nesse ponto que quero lhes mostrar como a trajetória do Império do Meio e do filho único corre paralela à ascensão fulgurante do PT e seu líder. Os milhares de trabalhadores de fábricas chinesas, que se transformaram no centro manufatureiro mundial, criaram a demanda pelas commodities produzidas entre outros países pelo nosso Brasil lindo e trigueiro. O ciclo das commodities que foi mais ou menos de 2000 a 2014 coincide com o ápice da trajetória de Luiz Inácio Lula da Silva e sua decadência, simbolizada pelo suspense em torno de sua prisão.

    Não percamos o foco: se a China tivesse conseguido manter seu crescimento de dois dígitos e sua voracidade por minério de ferro e soja, o Brasil ainda estaria em uma situação econômica relativamente confortável e o PT poderia continuar aplicando a receita infalível para ganhar eleições, afagando os muito pobres com o Bolsa Família, distribuindo bolsas de estudo à classe C e concedendo empréstimos subsidiados do BNDES aos grandes grupos nacionais, financiadores de campanhas. Mas o caldo entornou na China, e o seu perfil demográfico futuro não lhe permitirá continuar sendo the “powerhouse of the world”. Agradar gregos e troianos, como Lula fez em seus áureos dias de Presidente, será impossível. O cobertor do Estado brasileiro ficou de repente curto para cobrir todo mundo e precisamos de um bode expiatório para execrar: a corrupção do PT no poder é o bandido da vez e o Sérgio Moro o mocinho. Se nos livrarmos da corrupção sobrará dinheiro para investir em saúde e educação, não é mesmo?

    No entanto, para pegar os ladrões do dinheiro público precisaremos dar poderes extraordinários ao Judiciário e ao Ministério Público, poderes que juízes e procuradores utilizarão ora de maneira benéfica, ora de maneira maléfica, e sempre para proveito deles mesmos, como é próprio do ser humano. E quem garante que se prendermos todos os grandes sócios do Estado brasileiro depois de muita pressão à base de delações premiadas e prisões preventivas moralizaremos a política brasileira? Como o juiz Antonio Di Pietro, principal magistrado da Operação Mãos Limpas na Itália dos anos 1990 admitiu em entrevista ao jornal Estado de São Paulo em 13 de março, o país não mudou depois da grande investida judiciária, afinal os italianos elegeram depois Silvio Berlusconi.

    Prezados leitores, indignação é sempre bem-vinda, pois a apatia é a antessala da morte. Mas para além do mal da corrupção temos uma ordem social, econômica e jurídica no Brasil que faz com que nem todos possam ter direito a banho de sol, pois além de não produzirmos o suficiente, não priorizamos de maneira sensata. Qual a saída? Os chineses terão que lidar com o problema do envelhecimento repentino, nós com o problema da chamada à realidade repentina: fomos dormir achando que éramos potência emergente, acordamos no Terceiro Mundo, com o vírus zika, estagflação e com um sistema político totalmente disfuncional. Mais ou cedo ou mais tarde, por bem ou por mal, teremos que tomar uma decisão sobre como sair desse beco. Só espero que os mesmos maganos de sempre não decidam por nós.

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Não custa perguntar

Uma coisa que o Brasil não está fazendo bem é gerenciar suas finanças com cuidado. Cinco institutos econômicos alertaram que há o risco de a dívida pública sair do controle. Ítalo Lombardi do Standard Chartered, disse que a porcentagem da dívida pública em relação ao PIB está aumentando 10% a cada ano, à medida que a recessão mina a base tributária, e está caminhando para atingir a marca de 80% em 2017. Esse é um nível perigoso para um país da América Latina cujos mercados de títulos ainda são pouco desenvolvidos. “É uma bomba relógio,” ele disse. […] Ao mesmo tempo o Brasil é um dos poucos países em que o coeficiente GINI de desigualdade caiu nos últimos quinze anos, em que pese ainda ser alto, 52,9. A mortalidade infantil caiu para 15 por 1,000 crianças nascidas vivas, sendo que em 1990 esse número era de 51.

Trechos retirados do artigo “Downfall of Brazil’s Lula marks the end of the BRICS fantasy”, de autoria do jornalista econômico Ambrose Evans-Pritchard e publicado na versão eletrônica do jornal Daily Telegraph de 7 de março

    Prezados leitores, tantas emoções nestes últimos dias, tantos desdobramentos dessa lavagem de Brasílias amarelas, peruas Elbas e fuscões pretos que está sendo feita pela tal da força-tarefa do Ministério Público Federal. Quem não se regozijaria com tantos resultados até o momento, a revelação da rede de propinas montada às expensas da Petrobrás, a colocação de magnatas atrás das grades, e para cúmulo da nossa ânsia de justiça, a convocação de Lula para prestar esclarecimentos à polícia judiciária federal? E no entanto, permito-me aqui neste meu obscuro espaço virtual enumerar uma série de perguntas que me veem à cabeça. Eu como adepta da maiêutica de Sócrates não tentarei respondê-las, minha tarefa é apenas lançá-las na rede mundial:

    Por que há tantos vazamentos a respeito da Operação Lava Jato? Por que há indivíduos na Polícia Federal e no Ministério Público que sempre dão com a língua nos dentes? Serão esses vazamentos fruto do heróico labor dos nossos jornalistas investigativos, ansiosos por revelar a podridão de parte da nossa classe política? Ou será que há um esforço voluntário de certos grupos de destruir a reputação dos seus desafetos para proveito próprio?
Terá sido mera coincidência que a revista Istoé revelou na quinta-feira dia 3 de março parte do conteúdo da delação premiada do senador Delcídio Amaral e que no outro dia Lula foi conduzido coercitivamente para prestar esclarecimentos? Será que já havia um script pronto a ser seguido para criar um fato consumado, o de que a hora de Lula havia chegado?

    Aliás, a respeito da delação premiada por que a imprensa tem tratado tudo o que é dito como revelações, quando na verdade são alegações, ou para sermos mais técnicos, um dos elementos de prova reunidos pelo Ministério Público para convencer o juiz a condenar o réu denunciado? Afinal, de acordo com as regras do processo criminal brasileiro, o juiz tem direito a formar sua convicção livremente e pode inclusive desconsiderar determinadas provas. Além disso, uma das partes pode conseguir a anulação de uma prova obtida por meios considerados ilícitos. Por que num dia o vazamento ocorre e no outro somos levados a acreditar que tudo aquilo é a pura expressão de toda a verdade e suficiente para embasar uma condenação? Em suma, por que somos levados a crer que a delação premiada é a Excalibur que vai permitir ao Judiciário vencer os dragões da maldade, os inimigos do povo brasileiro que roubam o dinheiro público? Por que os formadores de opinião não expressam uma visão mais desassombrada da delação: um instrumento processual introduzido em 1990 no nosso ordenamento pela Lei 8.072 sobre crimes hediondos que era previsto em determinadas leis e que agora é usado a torto e a direito com a sofreguidão dos recém-convertidos?

    Será que a luta contra a corrupção justifica todas as inovações jurídicas do juiz Sérgio Moro? Para o bem e para o mal, ele é o trendsetter do momento no Judiciário e o STF está apenas seguindo o caminho das pedras por ele jogadas. Prisão preventiva, que antes era exceção por questões de política criminal e pela presunção da inocência, agora é a regra para os acusados no âmbito da Lava-Jato. A prisão preventiva faz os brasileiros felizes e ainda coage o preso a negociar uma delação premiada para ele livrar-se da cadeia. É pressão total tanto de Moro, que homologa as delações, como dos membros do MPF que a negociam. Se antes a delação premiada protegia testemunhas, no cenário atual de vassouradas contra a corrupção ela é instrumento de intimidação. Nesse sentido, os promotores públicos brasileiros tornar-se-ão cada vez mais parecidos com os public prosecutors americanos, que são eleitos e cujo objetivo é sempre o de aumentar suas taxas de condenação.

    Supondo que o objetivo maior de desbaratar as organizações criminosas que tomaram de assalto o Estado brasileiro seja de tal maneira importante que justifique o enxerto de vários americanismos no processo criminal brasileiro. Qual será o efeito a longo prazo dessas novidades? Elas acabarão sendo incorporadas definitivamente por aqui, ou serão esquecidas tão logo os bandidos do enredo atual sejam pegos e condenados? A delação premiada e a prisão preventiva, para que não haja agravamento do quadro criminoso, como diz Sérgio Moro, serão no futuro sonhos de uma noite de verão? Caso contrário, qual será o efeito sobre os cidadãos brasileiros comuns? Haverá um aumento nos índices de encarceramento? Haverá uma maior desconfiança sobre todo e qualquer investigado/acusado/indiciado/réu, como se todos fôssemos possíveis receptores de propina?

    E se colocarmos muitos magnatas na prisão ao fim da Lava-Jato, isso transformará o Judiciário brasileiro no árbitro supremo da Nação? Se não sobrar nenhum político digno de nossa estima, transformar-nos-emos em uma República governada pelos juízes? Será esse o fruto mais doce da nossa democracia, termos a vida regulada por indivíduos não eleitos? Será melhor sermos governados por uma oligarquia de juízes do que sermos governados por uma oligarquia de políticos que precisam arranjar dinheiro para financiar suas campanhas?

    Finalmente, considerando o estado calamitoso das contas públicas, é preciso admitir que o ciclo da Constituição Cidadã de 1988 parece estar chegando ao fim, devido a nossa impossibilidade material de financiar tantos direitos. O bilhete da loteria premiado, representado pelo boom das commodities e que permitiu tirar 30 milhões de brasileiros da pobreza, está gasto e puído. Nesse sentido, será essa luta contra a corrupção uma mera fachada de uma luta feroz entre os grupos organizados para ver quem vai pagar a conta da ressaca pós-boom que o Brasil está apenas começando a enfrentar? O governo do PT tomou diversas iniciativas para cumprir as diretrizes constitucionais, entre elas a Lei 12.382 de reajuste nominal do salário mínimo, com impactos sobre os benefícios previdenciários e claro, sobre o sucesso do PT nas quatro últimas eleições presidenciais. Quem vai estabelecer as prioridades? Aqueles que foram beneficiados pela Constituição de 1988 serão obrigados a voltar ao seu status anterior? Ou os que eram beneficiados antes farão sacrifícios? Como será resolvida a distribuição dos ônus e dos bônus? Pelas urnas, nas ruas na base da luta livre ou no Judiciário?

    Prezados leitores, não pensem, ante minha perplexidade, que estou aqui a defender que o PT passou 13 anos no poder de maneira impoluta ou que a mudança de paradigmas realizada pelo MPF pela PF e por Sérgio Moro não fará nossos trapaceiros irem com menos sede ao pote da próxima vez. O que me assusta é que essa politização do Judiciário e a judicialização da política podem fazer com que fiquemos enredados em disputas sem fim e que fiquemos sem saber que rumo tomar. Oxalá todas as minhas perguntas possam ser facilmente respondidas e prontamente descartadas.

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Dona Xepa

Vocês realmente creem que os países da zona do euro lutaram até o fim para que a Grécia permanecesse na zona do euro para um ano depois, no final das contas, deixar o país mergulhar no caos?

Trecho de discurso pronunciado na rede pública de televisão da Alemanha pela primeira-ministra, Angela Merkel em 28 de fevereiro, conclamando seus compatriotas a não abandonar a Grécia à própria sorte

O Lula paz e amor vai ser outra coisa daqui para frente. […] Eu queria dizer para eles: vocês não vão me destruir, vamos sair mais fortes desta luta.

Trecho de discurso feito por Luiz Inácio Lula da Silva a uma plateia de 1.500 pessoas na festa de 34 anos do PT no Rio de Janeiro

    Prezados leitores, imaginem a cena: indivíduos pobres, mal-vestidos e encapuzados jogando pedras na polícia que está lá para desalojá-los, se for necessário na marra. Reintegração de posse em alguma favela em São Paulo? Não, de maneira nenhuma, isso aconteceu hoje em Calais, no norte da França, no local conhecido como selva que abriga os imigrantes da Ásia e da África que têm invadido a Europa em busca de uma vida melhor. A razão do confronto é que depois de uma disputa na Justiça o governo francês finalmente obteve autorização para começar a desmantelar le jungle, como os franceses a ela se referem e transferir os habitantes para contêineres que foram montados em local de segurança máxima. E por que os imigrantes concentraram-se em Calais? Ora, o desejo deles é partir rumo à Grã-Bretanha, que é infinitamente preferível à França por duas razões: a mais importante é que no momento em que o sírio, líbio, paquistanês ou chadiano pisa nas Ilhas Britânicas ele já tem direito a assistência médica no Serviço Nacional de Saúde, o NHS e a outros benefícios sociais, ao passo que na França é preciso ter contribuído alguns anos para fazer jus. Mas há também uma questão cultural: em tempo de ascendência de Marine Le Pen, a França é vista como um país que não quer muçulmanos, ao passo que os britânicos são mais tolerantes, pois o multiculturalismo é política de Estado.

    As boas vindas do país governado por David Cameron têm limites, no entanto, manifestados no fato de que está sendo praticamente impossível aos imigrantes cruzarem o Canal da Mancha pelo Eurotúnel, dada a vigilância cerrada sobre eles, daí terem favelizado-se em Calais. E não é só França e Grã-Bretanha que estão com má vontade. Eslovênia, Croácia, Sérbia e macedônia limitaram a 500 pessoas que aceitarão que entrem nos respectivos territórios. A Áustria

    estçaoé sempre um conforto para mim relativizar meus dissabores quer seja como indivíduo, quer seja como cidadã brasileira

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Manuel Bandeira, velai por nós!

Outrora um bastião de indústrias de fundição, de aço e de produtos mais sofisticados produzidos em várias etapas (produtos utilizados em centros de boliche, por exemplo), tubos de perfuração, produtos de latão, bicicletas, montagem de caminhões, design, produção e montagem das máquinas de lavar e secar da White Westinghouse, e muito, muito mais, tudo foi embora. […] Nenhuma dessas fábricas existe agora e todos os formados no ensino médio têm que deixar o lugar para ganhar a vida. Engenheiros e enfermeiras formados não conseguem arranjar emprego.

Depoimento por e-mail de um americano sobre a situação no norte do Estado de Ohio, nos Estados Unidos

Todos nós sabemos que as eleições são uma piada inútil, que nossos governantes não dão a mínima para nós, que a dissidência política é vista com maus olhos quando ela é real, que as rebeliões são esmagadas de maneira violenta, que o pluralismo é reprimido de maneira viciosa pela ideologia predominante, que as escolas fazem lavagem cerebral e tornam as crianças estúpidas e as fazem virar-se contra nós, que os dispositivos domésticos de lavagem cerebral como o Tubo Idiota, o rádio ou os jornais existem somente para fazer três coisas:, divertir-nos, tomar nosso dinheiro e fazer de nós zumbis.

Trecho retirado do livro “The Essential Saker: From the Trenches of the Global Information War”

    Prezados leitores, o trecho citado acima é de um blogueiro americano de ascendência russa que escreve anonimamente por medo de represálias do governo do seu país para o qual já trabalhou. Uma das coisas sobre as quais ele reclama, é o politicamente correto, que está entranhado na cultura estadunidense de uma maneira inimaginável no Brasil. O motivo aparente de Donald Trump, o pré-candidato às eleições presidenciais ao norte do rio Grande, ser condenado de maneira unânime por toda a mídia e por todos os bens pensantes, inclusive o papa – que na semana passada questionou a cristandade do bilionário –, é que ele ousou falar da necessidade de controlar o fluxo de imigrantes ilegais para os Estados Unidos. Por isso, ele foi tachado de racista, acusação esta que é a pior possível na unanimidade multicultural do século XXI.

    O motivo real de Trump ser considerado persona non grata é que ele se coloca contra a ideologia globalista predominante que levou as grandes corporações americanas a terceirizar a produção para países com mão de obra mais barata. O resultado, denunciado pelo homem da cabeleira vermelha (?), foi privar o país de sua base industrial e fazer o desemprego real chegar a 23%, de acordo com o estatístico John Williams, a despeito dos números oficiais edulcorados, que não levam em conta os trabalhadores que já desistiram há mais de ano de procurar por trabalho. A principal medida defendida pelo candidato que já ganhou duas das três primárias republicanas é a imposição de uma tarifa de importação de 35% sobre produtos vendidos por empresas como Apple, Ford, Nabisco, dentre outras que desejam vender nos Estados Unidos produtos fabricados alhures, que criaram empregos, geraram renda e consumo em outros países.

    Em suma, Trump é um nacionalista econômico, na linha de Patrick Buchanan que foi pré-candidato às eleições presidenciais pelo Partido Republicano em 1992 e 1996. E é por isso que ele faz sucesso, porque ele fala dos problemas reais que afligem a classe média americana. Mas de maneira interesseira, aqueles que querem manter tudo como está em termos econômicos, globalistas que tem domicílio fiscal na Irlanda para pagar menos impostos, produzem na China e fazem design de produtos nos Estados Unidos utilizando engenheiros indianos para dar um exemplo, fazem questão de enfatizar o lado mais polêmico de Donald Trump, sua proposta de muro, de controle da imigração, pintando-o como monstro racista.

    Nesse sentido minha citação do livro do blogueiro Saker é um tanto irrelevante para nós brasileiros que somos vítimas da globalização de outras maneiras, pois nunca estivemos no pedestal, como os Estados Unidos estiveram especialmente depois da Segunda Guerra Mundial, ao consolidarem sua posição de fábrica do mundo. Aos cidadãos americanos é repetido o mantra que o livre comércio é bom para todo mundo, pois de um lado os trabalhadores do outrora Terceiro Mundo conseguem empregos industriais e melhoram seu padrão de vida que era baixíssimo, e de outro lado os trabalhadores do Primeiro Mundo conseguem empregos na Nova Economia, que agrega mais valor por ser ligada à tecnologia. Quem duvida do mantra é considerado anacrônico e racista, independentemente dos efeitos da desindustrialização que saltam aos olhos em várias partes dos Estados Unidos.

    Apesar de nós no lado de baixo do Equador, não estarmos submetidos à ideologia globalista, não posso deixar de constatar que a falta de comprometimento dos governantes com o interesse público denunciada por Saker aplica-se aqui com a mesma intensidade. Darei aqui um único exemplo de como os que estão no poder no Brasil zelam pela sua própria preservação e nada mais. No dia 18 de fevereiro de 2016 o STF julgou a ADI 2859 impetrada em março de 2003 pelo PTB que pretendia impugnar alguns trechos da Lei Complementar 105 de 2001, que dispõe sobre o sigilo das operações de instituições financeiras. De acordo com essa lei, cabe exclusivamente ao Poder Executivo, de acordo com seus próprios critérios, estabelecer como e quando as instituições financeiras prestarão informações sobre a movimentação bancária de seus clientes (artigo 5º). Tais informações poderão ser utilizadas pela administração tributária para identificar ilícitos fiscais, em miúdos sonegação de tributos, e tomar as devidas providências em termos de autuação e imposição de multa. Isso significa que o leão da receita poderá, a partir de movimentações mensais no valor de 5.000 reais para pessoas físicas e sempre que sentir cheiro de carniça, dar o bote, independentemente de autorização do Poder Judiciário para ter acesso às informações bancárias do cidadão. O PTB alegou infração às garantias constitucionais da propriedade e do devido processo legal, afinal o contribuinte pode ser surpreendido com uma notificação de autuação sem nem saber que estava sendo investigado.

    Pois bem, o STF, chegou a um meio termo, que mais beneficia a Fazenda do que nós que temos 5.000 reais para movimentar na conta. Não será preciso que o fisco obtenha autorização judicial para vasculhar sua conta bancária, mas ao menos ele deverá fazê-lo no âmbito de um processo administrativo e deverá notificar a vítima do pente fino. De qualquer forma, o fato é que o sigilo bancário e fiscal neste país foi ferido de morte pela Lei Complementar 105, especialmente se consideramos que o artigo 198 do Código Tributário Nacional permite que o fisco das diferentes unidades da federação troque informações entre si. Alguns dirão que isso é bom para que o Estado pegue de maneira mais fácil os corruptos. Pode até ser, mas para pegar alguns peixes graúdos sonegando impostos, a administração tributária brasileira terá muito mais facilidades para fazer cobranças confiscatórias de cidadãos de boa fé, sendo que os incautos só poderão ter chance de defesa no Judiciário quando o mal já estiver feito e ele já tiver um lançamento de débito nas suas costas e até inscrição na dívida ativa. A mim parece que o que importa aos três poderes da república é dar mais oportunidades de o Estado tirar dinheiro de nós para cobrir os descalabros da má administração.

    Pequenas grandes maldades, feitas por quem precisa faturar a qualquer custo para que nós brasileiros não vejamos que o rei está nu. Enquanto isso, assistimos embasbacados à disputa acirradíssima entre FHC, o príncipe dos sociólogos, e Lula, o príncipe dos trabalhadores, para ver quem tem mais esqueletos no armário. Quem será o último a dar um tiro neste pastiche de filme de Ennio Morricone? Ou todos os nossos políticos-atores ou atores-políticos estarão mortos ao final, crivados de balas? Talvez seja melhor que não sobre ninguém e que comecemos a rodar uma nova película, não mais no Far West, mas na Pasárgada mítica onde as aves gorjeiam e a vida tem mais amores. Manuel Bandeira, velai por nós, otários brasileiros!

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Sob o sol da…

“As águas são esmeraldas, o pôr do sol, alaranjado; as terras, azuis.”

Comentário do pintor holandês Vincent Van Gogh (1853-1890) sobre a região da Provença, no sul da França

“Tínhamos sol, água e terra. Hoje temos sol demais, água de menos, terra poluída.”

Resposta do economista Edmar Bacha à pergunta “O Brasil tem jeito?” posta pelo jornalista Ancelmo Gois na edição de domingo, 14 de fevereiro do jornal O Globo.

“Estamos em 1776. Os hábitos de higiene no Rio de Janeiro são precários. Precaríssimos. A cidade é uma fedentina só. As pessoas estão acostumadas a fazer necessidades num balde, depois esvaziado na janela. As residências não possuem banheiros nem equipamentos sanitários.”

Trecho extraído do livro “A História do Brasil são outros 500” de Cláudio Vieira

    Prezados leitores, há duas semanas, os que me acompanham neste humilde espaço hão de lembrar que pedi aos ratos e urubus que largassem minha fantasia, o que foi uma maneira metafórica de torcer para que o vírus da zika não me pegasse em minhas férias carnavalescas. Com a ajuda da eficientíssima icaridina, passei incólume, posso dar-me por satisfeita: entrei em Maceió, nas Alagoas como turista e saí como turista e aqui falarei sob a perspectiva de uma turista que sai à cata de beleza em algum lugar do mundo.

    Com isso quero dizer que a experiência do turista deve seguir um roteiro esperado: o deleite com as coisas boas e o não contato com as coisas ruins. Quem vai para o Nordeste vai em busca do sol esplêndido que dá os vários tons de azul e verde da água do mar, o contraste do amarelo da areia e do vermelho das falésias com o Oceano Atlântico a perder de vista. Ficar ali, observando as ilhas cheias de árvores, as ondas ao longe batendo fez-me ter inveja dos índios que antes do trágico encontro com os europeus tinham tudo aquilo para si. Claro que seria ingênuo acreditar que o Brasil era o paraíso terrestre descrito por Pero Vaz de Caminha ao chegar à ilha de Vera Cruz. Afinal, os habitantes destas plagas precisavam conseguir o que comer e do que viver e para isso precisavam plantar, caçar, pescar e guerrear entre si.

    De qualquer forma, fazer tudo isso sob um sol resplandecente que dá beleza a tudo o que toca alegra a alma. Não é à toa que Van Gogh pintou alguns dos seus melhores quadros, como A Casa Amarela, O Café à Noite na Praça Lamartine e Quarto em Arles, quando esteve na região da França onde produziu mais de 300 obras, inspirado que foi pelas mais de 2.500 horas de sol anuais. Não estou aqui a comparar-me com o gênio holandês, pois o máximo que conseguirei produzir sobre o sol de Maceió será este opúsculo. Meu objetivo é simplesmente apontar que mesmo para um homem que sofria de depressão como ele o sol teve claros efeitos benéficos.

    Sim, minha alma lagarteou lânguida sob a luz do Nordeste. E no entanto, meu deslumbramento à la Pero Vaz de Caminha e Van Gogh conviveu nos cinco dias em que estive na capital do Estado de Alagoas com meu espanto ao constatar como tudo é sujo! No primeiro dia de minha jornada caminhei pela orla da Praia da Pajuçara, onde estava hospedada, até Cruz das Almas, e não deixei de ver o esgoto fluindo para o mar em nenhum dos locais por que passei. Pior, uma medida básica de colocar cestos de lixo se não na areia ao menos na fronteira entre ela e a calçada não é tomada nem pelo prefeito nem pelo governador, o que faz com que nos deparemos com latas de cerveja, copos de plástico e outras cositas más tanto em terra firme quanto no mar. E isso não foi só na cidade, mas também nas praias distantes alguns quilômetros de Maceió. Onde quer que se olhe há entulho, esgoto, sujeira. Reclamei desse estado de coisas com o recepcionista do hotel e ele repetiu o velho bordão de que é preciso educar o povo. Aos nativos com quem almocei na capital alagoana fui mais cautelosa na crítica, para não ferir susceptibilidades, mas, por serem pessoas esclarecidas, concordaram que há emporcalhamento demais em um local turístico que deveria estar brilhando de limpo.

    Não sei qual a solução para voltarmos às priscas eras em que a natureza era imaculada e nem estou aqui a dizer que São Paulo, onde moro, é um exemplo de limpeza comparado a Alagoas. Mas ficar esbarrando em objetos ao nadar e sentir cheiros nauseabundos quando estamos a flanar é mais chocante em um local que quer vender-se como belo e atraente. E realmente Alagoas precisa dos turistas. As crianças maltrapilhas vêm aos bandos nos pedir comida, os taxistas nos dizem que lá só há fazendas de coco e turismo como atividade econômica. De fato, o setor de serviços respondeu por 72% do PIB do Estado em 2013 e a agricultura por 10% do PIB de acordo com a publicação “Alagoas em Números” divulgada pela Secretaria de Estado do Planejamento, Gestão e Patrimônio. Para terem uma ideia do que estou falando a respeito da sujeira predominante, vou dar-lhes mais um número da terra de Graciliano Ramos: a rede de esgoto atendia em 2013 581.619 pessoas de um total no Estado de 3.340.932 em 2015, ou seja, mais ou menos (o cálculo não é exato porque o ano de referência é diferente) 20% dos alagoanos têm acesso ao saneamento básico. Governador José Renan Calheiros Filho, cuide das latrinas do seu povo que os turistas do Sul Maravilha com certeza acharão Alagoas uma beleza!

    Prezados leitores, não há como deixar de concordar com a opinião de Edmar Bacha sobre o que nós brasileiros fizemos com a terra onde se plantando tudo dá e onde os índios banhavam-se até dez vezes ao dia, na profusão de rios límpidos que aqui corriam. Não mais jogamos as águas servidas pela janela, mas num momento em que o mosquito da dengue, da zika e da chikungunya está manchando nossa reputação aos olhos do mundo, o tema da Campanha da Fraternidade Ecumênica 2016, intitulada “Casa Comum, Nossa Responsabilidade” vem bem a calhar. Caso não sigamos os conselhos da CNBB, o turista das regiões mais prósperas do Brasil trocará definitivamente o sol do Nordeste pelo sol da Provença e de outros lugares mais salubres.

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